Data
Título
Take
30.3.17

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Arranca a partir de hoje a iniciativa 4.Doc, um conjunto de quatro obras aclamadas e premiados no festival Doclisboa que será exibidos no Cinema Ideal. O primeiro filme é Calabria [ler crítica], de Pierre-François Sauter, o vencedor do Grande Prémio na última edição do certame. Um documentário que visa reflectir a condição do imigrante através de uma viagem entre dois homens de origens distintas que prestam o serviço de uma funerária.

 

Os realizador e os protagonistas (José ​Russo Baião ​e Jovan​ Nikolic) estarão presentes nas duas das sete sessões programadas (dia 30 de Março e 1 de Abril). Calabria será exibido entre 30 de Março a 5 de Abril, sempre no horário das 19h. Na sexta feira, dia 31, após a sessão haverá um concerto de Jovan Nikolic no Salão Ideal.

 

Os outros filmes inseridos na programação são O Terceiro Andar, de Luciana Fina (a ser exibida a partir de 8 de Junho), Oleg Y Las Raras Artes, de Andrés Duque (6 de Julho) e o quarto e último filme, a ser projectado a partir de 14 de Setembro, ainda está por anunciar. Todas as sessões serão acompanhadas por debates e outras actividades.

 

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22.1.17
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No vale das "sereias"!

 

Cláudia Varejão prometeu-nos sereias, e à sua maneira, ofereceu-nos um grupo delas neste Ama-San (vencedor da Competição Portuguesa do Doclisboa 2016). Uma comunidade tradicional de mulheres que aventuram-se no mar para sustentar famílias, uma visão que tem seguido séculos e séculos de História nipónica.

 

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O fio tecido que protege os avanços tecnológicos dos seus mergulhos, são as réstias dessa tradição abraçada com a sempre avante modernidade, mas nem por isso que o estatuto destas deixa-se desvanecer pela mudança dos tempos. Varejão compara-as com as "mulheres de Caxinas", o exemplo português mais próximo desta sociedade falada no feminino, para depois aventurar num ensaio antropológico que interliga os dois estados destas figuras; o Mar, esse berço de vida que as envolve em tamanha doutrina, e o mundo civil, a família que têm à sua espera para afeiçoar.

 

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Tal como o Japão, um país moderno que caminha lado a lado com a sua herança tradicional, Ama-San cria um paralelismo com a nação para depois seguir em "puro mergulho" num retrato de gestos e de costuras familiares. Mas a realizadora consegue, invejavelmente, com toda esta jornada a um Oriente pouco conhecido (a última vez que vimos esta comunidade no ecrã foi em 2009 numa curta-metragem de Amie Williams), uma estrutura narrativa quase ficcional no seio desta vertente de registo documental. Com a complementação das sequências submarinas que captam no espectador a sua faceta mais "zen".

 

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No geral, Varejão cumpre um belíssimo filme, contemplativo e nada apressado em "inundar" as audiências, faze-las sentir parte desta longa família, tão japonesa, com certeza. Sim, prometeram-nos sereias e aquilo que acabaram por nos dar foi o que de mais próximo temos destas mitológicas sirenias. Todavia, isto não se resume a alternativas, Ama-San é realmente um filme pelo vale a pena cedermos à sua delicada sedução.

 

Real.: Cláudia Varejão / Int.: Mayumi Mitsuhashi, Masumi Shibahara, Matsumi Koiso

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
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29.10.16

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Calabria, de Pierre-François Sauter, uma viagem de dois agentes funerários até Itália valeu o prémio principal do 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema, enquanto que Black Sun (Sol Negro), de Laura Huertas-Millán, obteve uma menção honrosa na Competição Internacional. Destaque para o mais recente filme de Rita Azevedo Gomes, Correspondências, consagrado com o Prémio José Saramago, e  Cruzeiro Seixas – As Cartas Do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira, que foi escolhido pelo Público como o Melhor Filme na Selecção Oficial, e Ama-San, de Cláudia Varejão, considerada o Melhor Filme da Competição Portuguesa.

 

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Grande Prémio Cidade de Lisboa para Melhor Filme da Competição Internacional

Calabria, Pierre-François Sauter

Menção Honrosa Grande Prémio Cidade De Lisboa para Melhor Filme da Competição Internacional
Black Sun, Laura Huertas-Millán

 

Prémio Sociedade Portuguesa de Autores Do Júri Da Competição Internacional

Azayz, Ilias El Faris

COMPETIÇÃO TRANVERSAL
Prémio José Saramago - Fundação José Saramago E Livraria Lello - Para O Melhor Filme Falado Em Português, Galego Ou Crioulo De Origem Portuguesa Transversal A Competições E Riscos.

Correspondências, Rita Azevedo Gomes

Prémio FCSH Para Melhor Primeira Obra Transversal A Competições e Riscos

300 Miles, Orwa El Mokdad

 

Prémio Jornal Público Para Melhor Curta-Metragem Transversal A Competições e Riscos.
Downhill, Miguel Faro

Prémio do Público - Prémio RTP Para Melhor Filme Português Transversal A Competições, Riscos, Heart Beat E Da Terra À Lua
Cruzeiro Seixas – As Cartas Do Rei Artur, Cláudia Rita Oliveira

COMPETIÇÃO PORTUGUESA
Prémio Íngreme / Doclisboa Para Melhor Filme Da Competição Portuguesa

Ama-San, Cláudia Varejão

 

Prémio Kino Sound Studio Do Júri Da Competição Portuguesa
A Cidade Onde Envelheço, Marília Rocha

 

Prémio Escolas ETIC — Para Melhor Filme Da Competição Portuguesa
O Espectador Espantado, Edgar Pêra

 

COMPETIÇÃO VERDES ANOS
Grande Prémio La Guarimba

Pulse, Robin Petré


Prémio Especial Do Júri Verdes Anos

O Cabo Do Mundo, Kate Saragaço-Gomes

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:56
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27.10.16

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Preservando memórias!

 

Deixem o entretenimento de lado, a faceta artística e experimental decidida a quebrar barreiras da transcendência visual e sonora, e encarem o seguinte - o Cinema é também um registo de memórias. Uma "cápsula do tempo" que congela esse mesmo Tempo, para ser alvo de descobertas para futuras gerações. O que somos? O que vivemos? Qual a nossa real natureza? Em A German Life nenhuma dessas perguntas será por fim respondida, mas o ensaio de preservação de pedaço de História é aqui invocada em todo o seu esplendor. Existe neste documentário uma aura passiva, de não alterar o rumo dessa mesma memória, mas sim citá-la com as mesmas palavras proferidas por quem as realmente viveu, como vivente desses mesmos episódios temos Brunhilde Pomsel.

 

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Quem é esta mulher? Perguntam vocês. O que de interessante tem a sua vida para merecer tal registo? O interesse não vem aqui ao caso, Pomsel não é um "animal enclausurado" exibido numa colecção zoológica, é sim uma mulher disposta a narrar as suas maiores "humilhações". Humilhações, essas, que a própria descarta de culpas e inocências - "vivíamos numa época diferente", "… para condenarem a mim, primeiro condenariam todo o povo alemão". Brunhilde Pomsel foi a estenográfica do Departamento de Propaganda Nazi, a mulher que fora constantemente próxima de um dos mais odiados homens de toda a "pegada" deixada pela Humanidade, Joseph Goebbels. O homem em questão foi um dos maiores responsáveis pela propagação dos ideais do Partido Nazista, e um dos braços direitos do próprio Adolf Hitler. O discurso de Pomsel, por outro lado, não tende em denunciar directamente todo o trabalho exposto por estes "homens fardados", mas sim descrever os sentimentos experienciados num país fechado, sob forte influência politica de quem culminou uma Guerra sem precedentes.

 

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São quatro, os realizadores deste A German Life, um quarteto de mentes que serviram como investigadores do background de Brunhilde Pomsel, aqui exposta a uma confissão sem fim. Visualmente, a fotografia de tons cinzento salienta o rosto envelhecido da protagonista (aplausos para Frank Van Vught). Este é um rosto de 103 anos, as rugas são como "cicatrizes" marcadas pelo maior dos inimigos, o Tempo. E antes que o Tempo faça das suas, deixando as memórias residente de Brunhilde Pomsel no puro esquecimento, os realizadores Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer tentaram aqui uma "corrida" contra esse mesmo némesis. Explorar e extrair de Pomsel, as relevantes palavras para um futuro próximo.

 

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A German Life ostenta uma brilhante fotografia, como já havia referido, que atribui-lhe uma sensação de platina a um prolongado "talking head", uma entrevista ditada com emoção e comoção de quem é subjugado, intercalado com propaganda anti-nazi e até mesmo simpatizante nazi (faltava mais a fundo na própria propaganda do Departamento de Pomsel). Não tendo uma estrutura brilhante na sua concepção como documentário, A German Life vive como um documento sem culpas, nem denúncias do foro moral a uma, acima de tudo, cidadã de um período negro da nossa História. Aqui, a importância das palavras anexadas a memórias à beira da extinção, valem mais que ressentimentos ou decepções que aqui poderiam extrair.

 

"A Verdade é o maior inimigo do Estado." Joseph Goebbels

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer, Florian Weigensamer / Int.: Brunhilde Pomsel

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 22:31
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Procurando o mestre …

 

Será este Cruzeiro Seixas: As Cartas do Rei Artur, o documentário falhado de Mário Cesariny? Falhado, porque o foco da câmara embica para um outro vértice, não do poeta e pintor surrealista que tanto se fala e no qual é referido como uma das mais valiosas prestações portuguesas no campo da arte contemporânea.

 

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Artur Cruzeiro Seixas, o outro artista, possui uma ligação incontornável no percurso emocional e artístico de Cesariny, a câmara de Cláudia Rita Oliveira logo cedo fica seduzida pela sua figura, aquela postura de derrotado, passando ao lado da verdadeira notoriedade, daquela luz que todos os artistas ambicionam chegar. Porém, o "mestre", como é várias vezes apelidado, é um anfitrião afável que deixa à vontade quer o espectador, quer o ensaio documental de Oliveira. A sua ironia vencida contagia o resto. Deixemos então, reféns dessas suas palavras, das memórias enriquecidas pelos escritos trocados entre dois seres, umbilicalmente interligados às suas convenções artísticas, assim como, cada um à sua maneira, na procura de um espaço afectivo que os não julga.

 

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Talvez seja por isso, que é impossível desligar Cesariny de Cruzeiro Seixas, e Cruzeiros Seixas de Cesariny. O testemunho de uma vida no limiar do limbo vivente e o fantasma que encoraja esse mesmo pesar. No seu limite, As Cartas do Rei Artur é um filme sobre a morte de Cesariny contado pelo seu mais intimo amigo … e, porque não … amante. Mas, por sua vez, Cláudia Rita Oliveira direcciona a lente, aponta o holofote na sua pessoa e assim, em paralelo com o artista-sombra, seguimos o percurso deste subestimado,"mestre" de nome, porém, não ainda de título. Neste território artístico que é um campo de batalha onde a luta é desigual, Cruzeiro Seixas é dos grandes derrotados. O filme serve-lhe de consolo, de "prémio de participação", criativo na variação do seu paladar.

 

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Todavia, Cruzeiro Seixas, este menosprezo incontável, poderá ter os dias expirados, e na deriva das profecias deste documentário biográfico e memorial, o pintor surrealista poderá por fim conhecer esse afortunado destino. Aliás, ele é a grande alma deste projecto, a sua personalidade é a narrativa condutora, a sua grandiloquência converte e atira Cláudia Rita Oliveira para segundo plano. Ela não guarda rancor, até porque o filme existe sob um signo apenas - o signo de um Rei Artur.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Cláudia Rita Oliveira / Int.: Artur Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 14:36
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26.10.16
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Um fim-de-semana com um morto!

 

Como o cinema é fascinado por road trips! Como as mesmas transformam-se em jornadas pessoais ou coming-to-age para personagens inocentes! Em Calabria, por outro lado, essa viagem, mesmo tendo um objectivo seguro, é uma linha plana sem desenvolvimentos pessoais, as suas personagens são as mesmas, inerentemente falando, do início, no meio e no seu desfecho.

 

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Tal como Louis L'Amour havia citado - "O caminho é o que importa, e não o seu fim" - Calabria adquire a sua dimensão enquanto produto documental no percurso, onde dois imigrantes suíços (um português e um sérvio), sem nada em comum tirando o facto de serem ambos empregados de uma funerária, partem longa viagem para entregar o corpo de um imigrante italiano. A narrativa faz-se pelas paragens em áreas de serviço e hotéis, que funcionam como pausas de um ininterrupta confissão. Os dois protagonistas dialogam sobre os seus medos, os ideais, o amor e até mesmo a cultura.

 

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O morto que transportam é o testemunho mudo desta troca de palavras, recorridas a um tom de companheirismo, sem afectos gratificantes, nem evoluções aparentes na relação de ambos. São meros colegas, prontos para cumprir o seu trabalho, cujas conversas correspondidas são meras distracções, entretenimentos para as horas que seguem, porém, são nelas que concentra as suas respectivas expressões étnicas. Um retrato etnográfico sem os odes do neo-realismo, sem a abrangência de uma determinada investigação? Pois bem, Calabria é um estudo sobre gente, um jogo ao acaso inserido nesta ideia onde a morte é a aproximação destas vidas, e cuja diversidade celebra-se perante festividades mórbidas.

 

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O realizador Pierre-François Sauter humaniza a imigração, atribui-lhes uma face, um passado, sonhos e relações afectivas a um fenómeno cada vez mais desprezado, criticado e sobretudo anexado a agendas politicas. Calabria é um agradável exercício de temáticas indirectas, o qual a Morte é novamente servida como palco de fundo para um estudo sobre a Vida.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pierre-François Sauter / Int.: José Russo Baião, Jovan Nikolic

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 19:52
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26.10.16

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300 milhas que separam a nossa inocência!

 

Será a inocência nos dias de hoje um aspecto perigoso? Será que essa natureza encontra-se perdida perante um Mundo cada vez mais cínico, e assumidamente hipócrita? Com a crise dos refugiados  a atingir um dos seus picos em 2015, uma fotografia automaticamente tornou-se viral, que suscitou novas discussões quanto à gravidade, ou não, do problema da migração forçada. Essa mesma foto exibia um corpo de uma criança, vitima desse mesmo fluxo migratório, um corpo sem vida que deu à costa da Turquia. Logo, os medias focaram na atenção global desta mesma imagem, explorando o passado desta precoce morte, ao mesmo tempo, sob um tom sensacionalista, desenhar um percurso futuro nos "se" da sua vivência. A comoção foi geral, mas depressa começou a surgir questões quanto às imagens, quanto à manipulação da história e dos interesses políticos por detrás (de ambos os lados) que repentinamente culminavam. Por isso, questiono, será a inocência válida nos tempo que decorrem, sem ser sobretudo, questionada?

 

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Enquanto reflectimos, temos que ter em conta que é uma mistura de inocência como também de pura ingenuidade que integram os maiores conflitos do nosso Mundo, desta forma são a base deste 300 Miles, a descoberta das razões que levarão a um dos mais badalados cenários bélicos dos tempos decorrentes. Sim, é a Síria, a temática tabu para muitos, a "mina de ouro" do mediatismo para alguns, e é aqui o arranque deste registo fílmico que reúne a pessoalidade do seu realizador (Orwa Al Mokdad) com a urgência de um jornalista "spotlight" sob tendências de guerrilha.

 

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Porém, neste último ponto, as respostas poderão ficar aquém das nossas expectativas, até porque a perspectiva de todos é requerida desses mesmos dois factores: inocência e ingenuidade. Da mesma forma que as duas crianças ao relento apontam para o Sol em busca de um ponto negro, visível com um persistente olhar (um simbolismo infantil da busca de uma outra perspectiva), temos os rebeldes, ou homens sob uma grande vontade de rebelar … contra o quê, ou quem? … nem eles mesmo sabem. Tudo se resume a isso, a inocência nos mais diferentes ramos, e é essa mesma torna-nos cego, desinformados, em simultâneo nos revela hipócritas e cínicos nas nossas buscas.

 

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Como documentário, Orwa Al Mokdad vai "beber" bastante do Silvered Water, Syria Self-Portrait (apresentado em Portugal no Lisbon & Estoril Film Festival de 2014), que também utiliza as diferentes plataformas de gravação de vídeo (com principal relance as webcams e câmaras de telemóvel) para mapear um conflito. Mas não é por isso, que este 300 Miles não possui a sua importância como documento de registo. Ou será que estamos a ser inocentes?

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Orwa Al Mokdad / Int.: Orwa Al Mokdad

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:50
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26.10.16

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Para onde vamos agora?

 

Vamos ser claros, Wang Bing é daqueles documentaristas com iniciativa, em constante busca por temas transgressivos e, alguns deles, tabus de uma China em plena crise identitária e moral. Sim, ele é incansável no seu trabalho de terreno, nas horas de filmagem, na abrangência do seu olhar que neste caso é a lente da sua câmara, tão operacional como ele.

 

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Porém, falta-lhe a objectividade, sobretudo no campo da edição. Existe nele uma possessão de material realmente forte, o que o impossibilita descartar algum do seu tempo de filmagem em prol do produto final. Em consequência, são filmes como estes, de temas fortes, mas sem a força necessária para que o espectador "abrace a causa". Talvez seja por isso que Wang Bing filma tanto, as suas criações não são centradas, nem devidamente frontais para com que realidade que o próprio encara, são objectos deambulados, etnograficamente ricos como documentos de igual matéria, longe da provocação que precisa para realmente ser ouvido.

 

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O documentarista chinês não faz "épicos de violência social", faz ensaios cansativos e completamente desarmantes de temas que deveriam ter o seu "quê" de alarme, e neste caso, Ta'ang, este registo do exilo levado a cabo por famílias inteiras burmesas, como escape da guerra civil, parece apenas servir como uma decoração para ferir os mais susceptíveis. São quadros vivos, mas dentro deles, existem pessoas que lidam com a sua desgraça, uma má sorte que para Wang Bing são matéria que compõem o seu mais recente ensaio de "poverty porn", um embrião dos reality shows dotados de uma certa tendência fetichista.

 

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A envolvência neste mundo em "cacos", onde as "personagens" tendem em lidar com as suas próprias situações, deixando para trás partes integras das suas vidas em busca de quem os acolhe, algo mediático tendo em conta a crise dos refugiados que nos bombardeia os medias, sendo que Ta'ang revela-nos um caso especifico ignorado por estes mesmos. Uma viagem desesperante sem fim, que o realizador filma com a maior das tranquilidades. Sentimo-nos cúmplices perante este mau trabalho de investigação, onde os testemunhos secam perante o "on" prolongado da câmara, sem qualquer indicio de moderação nem coordenação.

 

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Talvez, Wang Bing não queira manipular esta realidade, e nisso faz ele muito bem, porém, o que adianta mostrar por mostrar, o que adianta captar este novo-realismo que não nos electriza, ao invés disso nos entendia da forma mais emocional possível. Será Wang Bing um voyeurista da desgraça alheia? Pelos vistos sim, nada aqui aponta-nos estarmos cara-a-cara com o documentarista do novo século como fora aclamado desde sempre. 

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Wang Bing

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:26
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23.10.16

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O álbum de família!

 

A documentação e colecta de memórias é umas das principais raízes do cinema documental. O documentário longe da pedagogia interactiva que muitos parecem associar, mas sim, do registo de qualquer natureza. Tal como os índios amazónicos que acreditavam que uma fotografia roubava-lhe as almas, o cinema tem sido diversas vezes encarado como um “caçador de espíritos”, perseguindo, “agarrando” e preservado, não em âmbar, mas em fita, (neste momento o digital serve de alternativa).

 

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E dentro desse mesmo cinema-arquivo, encontramos por vezes o álbum de família, um grupo pelo qual pertence este 95 and 6 to Go, um filme dirigido pela realizadora Kimi Takesue, que remete-nos à história da sua família tendo principal foco o seu adorado avô, que com quase um século de vida expõe a sua experiência e aventuras, assim como desventuras, o qual foi submetido ao longo da sua longa existência. Mais do que uma “musa”, o patriarcal Tom Takesue torna-se, maioritariamente, no assistente de realização desta mesma obra, tal como refere em jeito jocoso nesta mesma jornada de registo.

 

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A sua vontade de viver, um dos tópicos pelo qual a câmara de Kimivasculha”, converte-se no maior combustível deste mesmo filme. Um velho que recusa morrer, e sobretudo guardar as tristezas de uma vida em desfragmentação no seu próprio ser. Tom refere várias vezes que a morte da esposa, assim como da filha, que faleceu antes do tempo, “espinhos” cravados de uma existência que dá e tira, mas que é no seu gradual esquecimento que o nosso protagonista encontra a resistência ao ceifeiro.

 

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Amante de cinema, música e dança, de um jeito curioso de ver o seu redor, Tom consiste na grande estrela destas filmagens tecidas entre si. Possivelmente sem ele, 95 and 6 to Go (nota-se que até o título foi escolhido pelo próprio Tom com alusão aos seis meses de vida que o seu médico previu perante um diagnóstico de cancro), seria uma tentativa falhada de colectar memórias mais queridas para nossa realizador do que para o público. Todavia, Kim encontrou uma “pepita de ouro”, um vórtice de interesse que resiste à monotonia do seu formato. E é essa jóia chama-se Tom, que nos contagia com a sua imensa vitalidade.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Kimi Takesue / Int.: Tom Takesue, Kimi Takesue

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 00:08
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22.10.16
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O Evangelho dos Burgueses!

 

A crise dos refugiados contraiu tal dimensão mediática que é praticamente impossível ficar indiferente ao tema. Em consequência disso, são “às centenas”, as obras que são lançadas este ano e que deambulam sobre as condições desta gente. Felizmente, há quem o faça bem, como também, a quem os explores de maneira quase pornográfica. Nesta última opção encontramos Vangelo (em Competição Internacional do Doclisboa) sobre um actor e encenador italiano - Pippo Delbono (conhecido pelo seu desempenho em I am Love, de Luca Guadagnino, ao lado de Tilda Swinton) - que após a morte da sua querida mãe e dos diagnósticos assombrosos da sua saúde, decide aventurar-se entre os refugiados para … sabe-se lá o que se passa na cabeça dele … encenar o Evangelho.

 

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Antes disso, bem, após algumas sequências longas e narcisistas, filmadas por telemóvel sobre a sua pessoa, Pippo afirma que para consolação da sua dor havia encenado um chamado “Evangelho dos Ricos”, uma peça trabalhada com muitos dos seus amigos artistas, que segundo o realizador, são burgueses que desconhecem o mundo real. Bem visto, sim senhor, se não fosse o facto de logo a seguir Pippo afirmar que pessoas infelizes devem se manter próximo de pessoas ainda mais miseráveis para se sentir na melhor das formas.

 

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Solução, o encontro com um grupo de refugiados para confortar o seu pesar. Esta comparação entra logo em conflito com a moralidade do projecto, até porque a restante duração do documentário faz-se com puro bullying. Pippo é um burguês privilegiado que encontra nos refugiados o seu ar de graça para simplesmente troçar, quase obrigando-os a citar frases italianas, o qual se entende que estes homens não percebem nem sequer uma palavra daquilo, até à natureza religiosa cristã da peça sobre vários homens, que sem sombras de dúvidas, são muçulmanos. A persistência nessa evangelização está em perguntas como “Conheces Jesus?”. Será Pippo um jesuíta?

 

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O incomodo é um sentimento vivido por estes homens com vidas destroçadas, os respectivos olhos falam por si. Homens munidos de coragem para deixar para trás as suas vidas anteriores e aventurarem-se nas mais arriscadas façanhas (exemplo, é o único relato de vida destes, Safi, que com o seu péssimo inglês torna-se no ponto alto da obra). Por entre “torturas” (um homem residido minutos sem fim no alto mar para citar textos do Nazareno), até a interrogatórios frios e voyeuristas, Pippo, sob uma sugestiva respiração ofegante, faz de “domador de feras” num circo que ele próprio montou, para além disso, todo este registo funciona numa espécie de “snuff film”.

 

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Para finalizar, este homens cujo futuro é incerto, muitos deles com vistos negados e recambiados aos seus países de origem (qual? O filme nem interessa por isso), Pippo, revela o seu pensamento mais egoísta de puro conformista burguês, “estas pessoas são felizes porque tem música e dança”, ou “como estas pessoas não tem medo da morte, sabem o que é viver”. Mas que raio de “moralismo” é este?! Pippo pega nos refugiados para o seu próprio entretenimento (existe também alusões sexualmente fantasiosas com estes mesmos homens), depois reforça a sua miserabilidade humana, como fosse o mais desgraçado de todo este Mundo, esquecendo que é um privilegiado homem branco ocidental.

 

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No final temos a sua “queridaÚltima Ceia, sob o som de uma música em looping I Feel Good”, sim, bastante apropriado, indeed!. Pelos vistos, encontrei o Je m’appelle Hmmm … deste ano [ler crítica aqui], mal executado, mal idealizado e imoral no seu sentido de oportunismo.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pippo Delbono

 

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2/10

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22.10.16

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Redesenhando as imagens que faltam!

 

No surgimento das memórias sem registo que fora o nomeado ao Óscar, A Imagem que Falta (L'Image Manquante), o cambojano Rithy Panh retoma aos fantasmas que o assombram, deambulando sobre as suas naturezas e reconhecê-las como reminiscência de um homem de hoje. Sim, esta é a história do exílio do próprio realizador, em tempos que a sua terra natal era transgredida por uma constante metamorfose político-ideológica, e as consequências que essa “revolução” ditará no seu consciente.

 

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Tal como havia sucedido com As Imagens que Falta, Rithy Panh narra e colecta vivências sob a batuta de imagens cinematográficas produzidas, assim recorrendo ao pouco uso das imagens de arquivo para centrar a sua proposta contada. Contudo, é talvez na sua força pessoal, assumindo como um conto autobiográfico, que Exile (Exílio) atinge o seu pico emocional, mas, até lá, a beleza plástica e por vezes metafórica do enclausuramento humano torna-se pomposamente artificial e de certa maneira, artisticamente pretensioso. Enquanto que os horrores de A Imagem que Falta são preservados, e aos mesmo tempo restaurados pelo simbolismo, em Exile é a performance e a grandiloquência visual que preenche esse vazio de complementos narrativos.

 

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A história descrita segue em paralelo um Cambodja em gradual transmutação (o anterior Kampuchea Democrático), anexando-o com uma riqueza quotes e frases poético-filosóficas que reflectem, não só contribuído para a emocionalidade da vivência de Rithy Panh, como também a natureza metafísica desta revolução determinada (grande parte destas são citações de Mao Tsé Tung arrancadas directamente do seu Livro Vermelho, o julgamento estará cargo do próprio espectador). Sim, Exile aposta nos ecos deixados pela A Imagem que Falta, mas infelizmente essas imagens que substituem não impotentes perante o relato deixado, assim como a jornada gastronómica que Rithy Panh parece deliciar no seu leito de sobrevivência.

 

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Vindo desse mesmo realizador, e tendo em conta que o registo é bem mais pessoal,  esta é uma obra decepcionante, de repetição autoral, mas alicerçado a um discurso sobretudo fantasmagórico.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival de Cinema Internacional

 

Real.: Rithy Panh

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 00:42
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21.10.16

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O texto imperativo!

 

Há uma mistura de teores que percorre todas estas palavras, desde o poético ao lírico passando pelo simplesmente politico, até à preocupação da nossa língua (essa nossa identidade), como a preservação dos nossos ideais culturais e sociais - "devemos ser mais como o gregos" - tal como é referido em determinado ponto. Rita Azevedo Gomes (A Vingança de uma Mulher) encontrou a sua matriz, a correspondência trocada entre dois poetas, Jorge Sena e Sophia Mello Breyner, durante o exílio do primeiro no Brasil e posteriormente dos EUA, de forma a "fugir" ao regime fascista que se vivia em Portugal. Porém, para Breyner, a sua escrita remete à recordação de cada palavra como a saudade do seu mais intimo amigo. Uma amizade separada por quilómetros de distância, mas reforçadas pelas estrofes, pelas frases que substituem horas e horas de conversa.

 

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Belos textos temos aqui! E a realizadora bem o sabe, aliás, até demais. Correspondência vem a reforçar a ideia de uma vaga que se vai brotado no nosso seio cinematográfico - um cinema cada vez mais lírico, empurrado pelos textos de uma correspondências antiga - que servem, não só de guião, assim como puro alicerce de uma eventual intriga. Será a saudade vencida por este prolongado método de comunicação, agora perdido pela distância de um clique das novas tecnologias em cumplicidade com as redes sociais que nos atingem, que nos faz invocar referido formato? Será a preocupação com o texto imprimido, a degustação de cada palavra, cada acento, cada paragrafo e até a grafia no seu mais extremo nível, que nos afronta espiritualmente?

 

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A verdade, é que temos aqui um português falado e escrito à beira da extinção, que nos dias de hoje, vê-se atropelado pela globalização e nesta redução de distância de contacto entre os mais diferentes pontos geográficos. Será que esta aproximação nos torna menos cuidados? Assim sendo, Correspondências vem ao auxilio de Cartas da Guerra, da Ivo Ferreira, a prioridade do texto-legado, da literatura salientada nas suas imagens. Mas infelizmente, para Azevedo Gomes, Ferreira soube construir uma narrativa visual que pudesse emancipar-se do próprio texto, em Correspondências tal isso não acontece, tudo é recorrido à forma de cautela. A nossa realizadora parece ter medo de superar o mencionado texto, focando-se nele e aceitando à aleatoriedade das imagens.

 

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Quase seguindo à letra a poética forma da citação, Correspondências  evidencia um "terror de penetrar na habitação secreta da beleza", o que impede que as encenações tomam conta das palavras residentes e trocadas, sem conseguir apoiar no seu todo. "As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim", uma miragem nestas Correspondências de facto. Nesse aspecto, Rita Azevedo Gomes poderia leccionar-se no seu próprio formato - "será que a vida é a luta das imagens que não morrem?" Ao invés disso, soube criar um belo produto para os nossos ouvidos, a sensualidade de palavras tecidas com a maior das dedicações, quer da sua forma e construção, quer do sentimento nelas depositadas. Poderia ser um grande filme … poderia, mas Rita Azevedo Gomes preferiu encenar um mero exercício de encenação.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Rita Azevedo Gomes / Int.: Luís Miguel Cintra, Rita Durão, Eva Truffaut, Mário Barroso, Tânia Dinis

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 02:20
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20.10.16

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O piano do Czar Nicolau II será novamente tocado, hoje (20 de Outubro) na 14ª edição do Doclisboa: Festival Internacional de Cinema, com Oleg y las Raras Artes, de Andrés Duque, a ter lugar no Grande Auditório do Culturgest.

 

O Doclisboa celebrará, assim, um ano memorável, apostando fortemente em conteúdo actual da mesma forma que visa as suas memórias através de  homenagens e constantes retrospectivas. Neste último campo contamos com um ciclo dedicado a Peter Watkins na Cinemateca, o documentarista inglês cuja sua obra teve impacto na História do cinema docuficcional, a homenagem a Peter Hutton, conhecido como o realizador de Three Landscapes, que nos deixou no passado mês de Junho em consequência de uma cancro que combatia há anos, e o tributo "de última hora" ao cineasta iraniano Abbas Kiarostami, também falecido este ano. Na secção Heart Beat, a homenagem também terá lugar com Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Herouville, de Gaëtan Chataigner, sobre o cantor e músico David Bowie e By Sidney Lumet, de Nancy Buirski, com especial atenção ao realizador Sidney Lumet.

 

A História documental de Cuba consistirá num dos ciclos surpresas deste Doclisboa, assim como o foco aos media ninja com #Fora Temer, que salienta o papel fundamental desta comunicação social marginal durante o aceso conflito político-social do Brasil. Sabendo que já lá vão 14 edições, o passado do próprio festival e do seu respectivo legado não ficará de fora, a temática Da Terra à Lua terá a sua estreia este ano. Uma "cápsula do tempo" que reúne alguns dos melhores trabalhos e realizadores que passaram pela década e tanto do Doclisboa.  Wang Bing, Rithy Panh, Sergei Loznitsa, Michael Palm, Werner Herzog e as portuguesas Teresa Villaverde e Catarina Alves Costa, serão alguns nomes presentes neste "best hits".

 

 

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26.9.16

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O Doclisboa divulgou a programação completa da sua 14ª edição, que decorrerá entre os dias 20 a 30 de Outubro no Culturgest, Cinema São Jorge e Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema. Como é habitual, o festival continua a demonstrar uma tamanha actualidade para com as suas temáticas e ciclos. A mostra deste ano abunda de abordagens emergentes e perspectivas aos conflitos sociais que enchem as manchetes dos telejornais ou, apropriando aos tempos que decorrem, das nossas redes sociais.

 

É sob esse contexto que nos surge a especial sessão #Fora Temer, inserido na "tradicional" rubrica Riscos. Neste espaço, o Doclisboa irá funcionar mais do que uma simples mostragem de documentários, e sim, num registo visual a um tema que parece suscitar debates nos mais diversos recantos do nosso quotidiano. Mais do que um mero testemunho à destituição de Dilma Rousseff e todos os eventos que por aí desencadearam, #Fora Temer apresenta-nos uma perspectiva da crescente onda de Mídia Ninja que se proliferou via internet no "calor do conflito politico e social". A sessão será seguida por um debate com Pablo Capilé, um das figuras mais relevantes do grupo.

 

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Continuando com a sessão Riscos (que neste ano não contará com a participação do sociólogo e crítico Augusto Seabra), o Doclisboa planeia homenagear o documentarista e experimentalista Peter Hutton, conhecido como o realizador de Three Landscapes, que nos deixou no passado mês de Junho em consequência de uma cancro que combatia há anos. Outra ramificação deste espaço é o conjunto "Filmes de Correspondências - Missivas, Distâncias, Deslocações", uma mostra que consolida a correspondência ou o testemunho das palavras e imagens como um "parcial mapa das formas poéticas (e políticas) em que alguns filmes renovam a tradição epistolar no cinema."

 

Doclisboa continua com as suas habituais secções competitivas, Internacional (contando com  a nova obra de Rita Azevedo Gomes, Correspondências) e Nacional (André Marques, Cláudia Vareijão e Edgar Pêra são alguns dos nomes que competem pelo Prémio), assim como o bem-sucedido Heart Beat, que continua a focar em documentários sobre música e até mesmo artes performativas.  Nesta última secção, destaque para David Lynch em The Art of Life, e os tributos a Sidney Lumet  em By Sidney Lumet, de Nancy Buirski, e ao cantor e músico David Bowie em Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Herouville, de Gaëtan Chataigner.

 

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Todavia, as surpresas não se ficam por aqui, a grande novidade é Da Terra à Lua, uma clara homenagem a Julio Verne que serve como título a uma nova secção que a directora do festival, Cíntia Gil, apelidou de "cápsula do tempo". Da Terra à Lua consistirá numa espécie de "best of" de realizadores que passaram pelo Doclisboa ou que são hoje exemplos incontornáveis do cinema documental. Nesta mostra é previsível encontrar os nomes de Wang Bing, Rithy Panh, Sergei Loznitsa, Michael Palm, Werner Herzog e as portuguesas Teresa Villaverde e Catarina Alves Costa.

 

A juntar à programação, uma retrospectiva de Peter Watkins, um dos pioneiros da docuficção (ou docudrama, como quiserem apelidar), que terá lugar na Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema. Por fim, e não menos importante, uma retrospectiva de documentários e do cinema de vanguarda de Cuba, parte da herança histórica resumida numa importante colecção de filmes, documentos e claro, documentários.

 

A 14ª edição do Doclisboa - Festival Internacional de Cinema terá como filme de abertura Oleg y las Raras Artes, de Andrés Duque, sobre o compositor russo Oleg Karavaichuk, o único pianista com permissão para tocar no piano do Czar Nicolau II, a ser exibido no Grande Auditório da Culturgest. Como encerramento, as honras será dadas a Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo, a primeira obra de João Monteiro, que curiosidade é um dos directores do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, sobre um dos poucos realizadores de fantástico de Portugal.

 

Ver programação completa, aqui

 

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1.11.15

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A co-produção italiana e argentina, Il Solengo, de Alessio Rigo de Righi e de Matteo Zoppis, vence a última edição do Doclisboa, tendo sido distinguido com o Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema. Enquanto isso, Dead Slow Ahead, de Mauro Herce, torna-se o destacado triunfante do certame, com as conquistas do Prémio FCSH para Melhor Primeira Obra transversal às Competições e Riscos e o de Prémio Íngreme do Júri Universidades. Na Competição Nacional, Rio Corgo, de Maya Kosa e Sérgio da Costa vence o Prémio de Melhor Longa-Metragem Portuguesa e Talvez Deserto Talvez Universo, de Karen Akerman e Miguel Seabra Vasconcelos, é distinguido com dois prémios. Abaixo seguem os palmarés.

 

 

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Grande Prémio Cidade de Lisboa para o Melhor Filme da Competição Internacional
Il Solengo

Prémio SPA do Júri da Competição Internacional
Babor Casanova

Menção Honrosa do Júri da Competição Internacional
Glória de Fazer Cinema em Portugal

Prémio RTP para Melhor Documentário de Investigação
And When I Die I Won't Stay Dead

Prémio FCSH para Melhor Primeira Obra transversal às Competições e Riscos
Dead Slow Ahead

Menção Honrosa para Melhor Primeira Obra
88:88

Prémio Íngreme do Júri Universidades
Dead Slow Ahead

 

 

COMPETIÇÃO PORTUGUESA

Prémio Liscont para Melhor Filme da Competição Portuguesa
Rio Corgo

Prémio Íngreme do Júri da Competição Portuguesa
Talvez Deserto Talvez Universo

Menção Honrosa do Júri da Competição Portuguesa
Setil

Prémio Escola António Arroio para melhor Filme da Competição Portuguesa
Talvez Deserto Talvez Universo

Prémio do Público – Prémio Jornal Público para melhor Filme Português transversal a Competição, Riscos e Heart Beat
Phil Mendrix

 

 

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24.10.15

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Colorir poesia!

 

Martin Verdet pactua com o poeta Franck Venaille para um exercício de criativa jubilante que em certo jeito funciona como um experimento de riqueza sensorial. O objectivo? Ilustrar os poemas do próprio Venaille, proclamados em conjunto com o realizador, ecoados num só quarto, o tubo de ensaio para o decifrar das emoções envolvidas nestas ditas palavras iluminadas.

 

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Um claro atento à genialidade dos seus “protagonistas”, Je me suis mis en Marche (I Hit the Road) é uma obra que reúne um surrealismo declarado e a metáfora envolvida nesses mesmos versos, um trabalho de execução, de improviso e de imaginação que poderá envergar de alguma forma no intelecto e no paladar literário do espectador, caso este esteja receptivo a induzir-se nessa cultura extensa, a viagem para os confins do ser imaginado e o do espaço físico. Porém, é nesse sentido que encontramos o grande defeito de I Hit The Road, não a sua limitação estética e cénica, que apenas evidencia a exposição dos seus autores em conduzir este ensaio verborreico, mas sim a sua atitude de cruzar a frio uma plataforma dotada de imagens e som [Cinema] com a complexidade emocional dos seus poemas, um híbrido que diversas vezes se estranha e que depois dessa emergente estranheza, é assaltada por uma sensação de jubilo masturbatório que nos faz questionar a essência da prolongação desse espectáculo.

 

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Tal como Alain Cavalier, Verdet demonstra as infinidade da narrativa no cinema documental e experimental, um conjunto de imagens e sons que nos transportam ao encontro da matrizes de todas as formas e plataformas. Contudo, essa dita contemplação ficaria bem mais servida como uma curta-metragem, e bem sabendo que I HIt the Road é em todo o caso uma longa de curta duração (70 min). Para ver, para sentir, mas nunca verdadeiramente para deslumbrar.

 

Filme visualizado no âmbito da 13ª edição do Doclisboa'15

 

Real.: Martin Verdet / Int.: Franck Venaille, Laurent Ziserman

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 23:07
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23.10.15

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Num mundo de loucos e imortais!

 

Para cumprir a última vontade de Tomaso, o apelidado anjo do Palácio de Carditello (o qual contribuiu para a restauração e preservação do respectivo monumento), os "imortais" enviam a sua mais indecisa "marioneta", Pulcinella (Polichinelo), para encaminhar uma cria de búfalo, criada por este, ao seu novo lar. Nesta jornada por uma Itália desfragmentada pelo enraizamento do neo-realismo e da fantasia gótica, o cineasta Pietro Marcello ecoa uma prolongada alusão político-social de um país à beira do colapso identitário, que tal como a sua personagem corcunda, encontra-se à mercê dos propósitos impostos pelos seus amos. É um surrealismo que aspira ao misticismo, e uma veia documental contagiada com os toques fabulistas e de teor poético, que funciona numa fantasia cruzada e trabalhada sob uma maqueta de experimentalidade. Porém, nada de realmente bizarro é concentrado nesta pintura a óleo vivo, mas sim a de um claro paradoxismo com o real representativo. Uma crítica subliminar que desenvolve consoante o seu espectador e que se manifesta em conformidade com os seus ideais.

 

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Se bem que a politica é o evidente combustível desta demanda pela forma que diversas vezes prevalece sob o conteúdo, eis um regressar à figuração imposta pelo poeta Luís de Camões e os seu mais pujante trabalho - Os Lusíadas - onde a personificação de figuras pagãs servem como propósito a uma crítica estabelecida. Nesse sentido, é fácil identificar o búfalo e a sua infortunada sorte numa questão de "classes", neste caso, a mais baixa, o individuo comunitário que preza o seu destino nas mãos dos seus dirigentes políticos (os "imortais") como se fossem directamente extraídos das distopias de Orwell. Sarchiapone, o nome pelo qual é baptizado o nosso bovino, mesmo que nome é coisa que não lhe é designado, exclama que neste mundo "ser búfalo é uma arte", um artificio subestimado que poucos querem deter nem sequer sentir fascinados. Mas a crença em viver na dependência das massas e da força que estas podem adquirir é de uma coragem incontestável.

 

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Bella e Perduta (Bela e Perdida), um título que tenta aludir ao monumento deixado pelo seu "anjo da guarda", também identifica-se com os sonhos vencidos pelas massas que ainda dignam em lutar pelos seus ideais, mortais frente a imortais omnipresentes, pelo meio marionetas a interpretar pontes de contacto entre os diferentes patamares. Politico e fantasioso, não é todos os dias que nos oferecem estes dois ingredientes numa "cajadada só". Um filme a ver por dois motivos, conteúdo e forma.

 

Filme de abertura do 13º Festival Internacional do Doclisboa

 

Real.: Pietro Marcello / Int.: Tommaso Cestrone, Sergio Vitolo, Gesuino Pittalis

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 08:28
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22.10.15

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Arranca hoje a 13ª edição do Doclisboa: Festival Internacional de Cinema, que irá decorrer em espaços como a Culturgest, o Cinema São Jorge e a Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema, até dia 1 de Novembro. O filme de abertura é Bella e Perduta (Bela e Perdida), de Pietro Marcello, o mesmo documentarista, de Il Passaggio della Linea e La Bocca del Lupo,que será projectado no Culturgest pelas 21:30.

 

Apresentado no último Festival de Locarno, a obra centra-nos em Polichinelo, descrito como um servo tolo, que é enviado para a região de Campânia para concretizar o último desejo de Tommaso, um pastor humilde: o de salvar um búfalo jovem, Sarchiapone, do antigo palácio real. Uma parábola de uma Itália bela e perdida, num filme que é caracterizado como um híbrido entre neo-realismo e o teor fantástico, abordando um país assolado pela austeridade e da corrupção que o corrói constantemente.

 

Para mais informação sobre a programação ver aqui

 

 

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16.10.15

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A distância no Cinema, a medida autoral e a dominância emotiva!

 

"Porquê que me estás a filmar"? "Porque quero mostrar que não existe distância no mundo". O diálogo é entre Chantal Akerman, na altura vivendo em Oklahoma (EUA), e a sua mãe, residente na Bélgica – e dá-se enquanto ela filma uma videochamada entre ambas. Trata-se de uma distância física dissipada na sua transposição para a dimensão cinematográfica, onde tudo é possível.

 

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No Home Movie é, como o título indica, um filme sem lar, longe deste, mas erguido sob a saudade do mesmo. Akerman decide por via dessa poética linguagem que o cinema atribui aos sentimentos e à corporalidade, "fabricar" uma declaração de afecto pela sua progenitora, salientando a sua história de vida, a sua personalidade e adaptando o seu grande amor afectivo que, mesmo nos limites da sua própria vida, encontra-se disposta a retribuir. A cineasta volta a tecer uma obra "pendurada" através do seu rico olhar para com a rotina, a solidão e a melancolia, que atinge e nunca deixa de persistir.

 

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É o seu retorno mais pessoal e novamente descrito sob uma ligeira frescura jovial, bastando relembrar os seus tempos áureos em que citava e redefinia o conceito "godardiano" de cinema. Porém, enquanto Godard, o seu assumido "ídolo" cinematográfico, expôs uma faceta mais liberal e simultaneamente desleixada à linguagem cinemática, Akerman reproduz esse mesmo "adeus linguístico" e, sob o seu signo, o enverga nesta sua "carta de amor" bem personalizada.

 

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Um exercício documental em que a cineasta, uma das mais importantes da sua geração e da conduta do cinema modernista dos anos 70, convida o espectador mais vivido a regressar à sua cinematografia. Porém, tal como aconteceu com Godard nos dias de hoje, esse cinema encontra-se mais que "dedilhado", sendo possível constatar a conversão dos anteriores vanguardistas em isolados conformistas, intactos como corais perante a maré. No Home Movie é isso, uma homenagem sentida à figura matriarcal, requisitada pelos previsíveis desvaires autorais. Possivelmente mais relevante para a própria cineasta (recentemente falecida) do que para História e experimentalidade do Cinema.

 

Filme visualizado no âmbito da 68ª edição do Festival de Cinema de Locarno

 

Real.: Chantal Akerman / Int.: Chantal Akerman, Natalia Akerman

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 20:44
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4.10.15

João Bénard da Costa - Outros Amarão as Coisas

Não se trata de um homem, trata-se de um amor profundo!

 

"O cinema precisa de ser falado" e é com obras como esta que o diálogo entre o espectador e o grande ecrã faz-se em reflexo com o amor de outra pessoa. Manuel Mozos (4 Copas) incute essa paixão partilhada que dificilmente perde o seu inflamável calor da veneração, através de um envolvente registo poético que transfere a vida de um dos mais celebres (porém, ele próprio não assume), cinéfilos do nosso país. Se é bem verdade que a sua partida (em 2009) deixou a cinéfilia mais pobre, aqui neste documentário preenchido de memórias, a sua riqueza identitária deixou uma herança bonificada, pronto a ser explorada.

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Programador, crítico e director da Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema, a sua casa-mãe, João Bénard da Costa é uma figura incontornável para quem efectua a veneração cinematográfica no nosso país, ele foi um homem ligado ao misticismo do passado sempre em mudança e imutávelmente estampado através do retrato, as figuras que permanecem imortalizadas enquanto os nossos restos se converterem em cinzas e integram o substrato térreo. Porém, tal como se evidencia neste seu retrato, o corpo é simplesmente e dura descartabilidade, mas é a alma que vagueia por uma eternidade desconhecida mas sugestiva através do poder das imagens.

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Nesse termo, "João Bénard da Costa: Outros Amarão as coisas que eu Amei" faz todo o sentido existir, e a decisão de Manuel Mozos em não construir uma singela biografia, mas sim uma jornada pelo valor estético e as suas ligações primordiais com um esoterismo, não religioso, mas artístico. É pois, um filme sobre a arte, o argumento desse amor, e essa tentação cinematográfica sempre presente como um fantasma visitante, tal como é exaustivamente comparado com The Ghost and Mrs. Muir (Joseph L. Mankiewicz, 1947), um dos assumidos filmes predilectos de Costa. É um reflexo sobre a vida além morte, com claros vislumbres à jornada de um homem feito, um eterno declarante da 7ª Arte, até aqui exposto como a forma mais viável de tornar imortal a respectiva imagem, outrora sombra de um ser vivente.

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Essa constante auto-analise, uma narrativa intercalada entre a linguagem própria do cinema (Ordet, de Carl Theodor Dreyer, o seu "favorito" Johnny Guitar, de Nicholas Ray, e até mesmo a mentira prolongada da cinematografia de Lubitsch) e os seus escritos lidos pelo seu filho, funciona como uma das pinceladas que contribuem para este esplendoroso retrato, o retrato de Bénard da Costa, o seu intimo hino de amor ao cinema partilhado por todos. Até porque, tal como indica o título - Outros Amarão as Coisas que eu Amei - Costa não está, nem esteve sozinho. Esta relação com o Cinema permanece intacta, cada vez mais amada, mesmo que as memórias tendem em tornar-se mais distantes, mas com imagens projectadas em tela, que tudo torna-se numa razão de existência. Do Cinema com Amor!

 

Real.: Manuel Mozos

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 15:27
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