Data
Título
Take
10.11.16
10.11.16

Primeiro Encontro.jpg

O Contacto de Villeneuve!

 

Arrancando sob acordes de Max Ritcher e o seu On the Nature of Daylight, Arrival exibe a pior faceta de Denis Villeneuve, a ausência de personalidade. Depois de um grupo de obras que tem-se destacado pelas diferentes virtudes, tons e estilos, tendo como ponto alto o ainda fresco "Sicário", Villeneuve começa por fazer "maliquices", ou seja "caiu" na ideia, na possibilidade alguma de ser Terrence Malick. Se Malick já existe um, e mesmo assim, essa unidade chega-nos a irritar perante um estilo tão caoticamente ambicioso, quanto mais as imitações. Enfim, com filmagens de natureza, crianças e um coming-to-age em modo flash forward, tudo pontuado com a narração "filosófica" de Amy Adams, este é o nosso "primeiro encontro". Queremos sair, até porque este não foi o filme que nos prometeram, aquele dos trailers e das boas críticas vindas directamente de Veneza que nos falavam duma continuação intra-espécies de Sicário. Não, ao invés disso temos uma insuportavelmente e pretensiosa esquizofrenia.

 

arrival-movie-2016-amy-adams.jpg

 

Mas esperem, existe uma esperança ao fundo do túnel, é que depois de terminada as "maliquices", segue assim, a premissa, as invasões alienígenas e um Mundo em pleno estado de alerta perante estes "visitantes from outter space". A nossa Amy Adams é um linguista prestigiada (considera o português numa língua romântica e artística), que é abordada pelo Exército Norte-Americano para servir de ponte diplomática com estes "visitantes", que cujo grande obstáculo é a discrepante divergências entre as duas línguas e dicções. A nossa protagonista avança então com um elaborado plano para conhecer radicalmente o alfabeto destes, e vice-versa.

 

Amy-Adams-Arrival-Trailer.jpg

 

Em Arrival (não confundir com o filme protagonizado por Charlie Sheen), existe ecos desse Sicário - a força da protagonista, a mulher que quebra a fronteira e relaciona com um mundo inimaginável. A fórmula está aqui representada, só fica a faltar as particularidades desta nova aventura de Villeneuve. Enquanto uns, pasmaceiam perante o ritmo calmo e astutamente manipulado por Arrival, outros questionarão o próprio argumento que se assume "inteligente". Há dois anos consecutivos que levamos com filmes que tentam contrair esse mesmo estatuto, o de "muito inteligente para as audiências, e ao mesmo tempo entretenimentos de qualidade". Refiro a Interstellar e The Martian, duas obras que beneficiaram das ligações publicitárias da NASA, porém, este Arrival não possui o mesmo tratamento, mas a sensação é exactamente replicada.

 

Screen_20Shot_202016-08-16_20at_204.07.15_20PM.0.p

 

Serão poucos que vão constatar as inverosimilhanças do argumento, principalmente no "motivo criado" para colocar a heroína na dita acção e assim avançar-se na intriga, da mesma forma que nos tremendos Deus Ex Machina. Soluções de última hora, que não são mais que meros "tapa-buracos" com graves aspirações a um determinado filme de Robert Zemeckis, sim, esse mesmo, O Contacto (1997). Se já Interstellar, de Christopher Nolan, ia buscar essa fonte, em Arrival a inspiração é mais que evidente, e o filme não consegue contornar isso, mesmo pretendendo seguir direcções menos identificáveis. Ah … já me ia esquecendo, sabem que mais? Eis mais um bajulador produto para os mercados chineses.

 

maxresdefault (1).jpg

 

O que nos resta? Bem, este "lost in translation" tem a maior ambição de transformar-se numa "pescadinha com rabo na boca", até porque pensávamos que as "maliquices" tinham terminado no prelúdio. Pensávamos que sim … mas não é que Villeneuve recorda-se desse mesmo cosplay! E assim ficamos com um filme tecnicamente irrepreensível (nota-se a repescagem do compositor de Sicário, Jóhann Jóhannsson) , com desempenhos agradáveis dos seus actores e uma tendência de se perder gradualmente do seu carris. Esta é a provável grande desilusão do ano, a prova de que Denis Villeneuve está no "caminho certo" para virar tarefeiro em terras de Hollywood.

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Tzi Ma, Michael Stuhlbarg

 

Screenshot-2016-08-14-19.42.15.png

4/10

publicado por Hugo Gomes às 13:55
link do post | comentar | partilhar

16.10.15
16.10.15

Sicario - Infiltrado.jpg

 

Guerra de fronteiras! Os monstros de Villeneuve!

 

Enquanto um dos mais notórios dos “enfants terribles” de Hollywood, Oliver Stone, espatifou o seu retrato narcotráfico mexicano com um onírico romance hedonista em Savages, Denis Villeneuve demonstra como se faz uma vertiginosa viagem aos horrores dessa realidade presente e muitas vezes negada. Sicário é isso, um filme forte em emoções mas sem nunca oferecer o que se pretendia neste tipo de produções. Nisso, o realizador já havia sido claro no seu registo enquanto ascendente cineasta, até mesmo o mais mainstream dos seus trabalhos – Prisoners [ler crítica] – evidenciou uma capacidade de transcender o tema proposto e apostar num furacão de complexidades humanas bem salientada pela sua sensibilidade dramática.

 

b80ca3bc-15d9-11e5-9b43-005056b70bb8.jpg

 

Porém, em Sicário registamos o seu filme mais frio, calculista mas nem por isso isento de emotividade, essa, transmitida pela personagem de Emily Blunt, que compõe a ponte directa com o espectador, funcionando como os olhos destajornada interminável. México é aqui convertido num palco de guerra, um Médio Oriente à porta da apelidada “terra de oportunidades”, e cuja sua entranha opera como uma crítica ácida a ambos lados, sem nunca vergar pela costura politicamente correcta ou pelo optimismo sonhador. Iniciando com o de bom se faz no cinema de acção dos últimos anos, uma sequência dotada pela vibração energética e com um realismo “à lá Michael Mann”, Sicário começa aqui a transcrever a mista porção de fascínio / repudia para com a violência, quer física, quer espiritual.

 

S_D040_10409.jpg

 

Os eventos aqui demonstrados levarão Kate Macer (a personagem de Emily Blunt) a voluntariar numa missão de alto risco a uma das cidades mexicanas mais fastigiadas pelo narcotráfico e com a pobreza geral, um cenário que espelha um panorama social, porém, visto sob uma protecção física. Nesse ponto de vista, Villeneuve demonstra o que aprendeu com o cinema iraniano, mais concretamente com o de Abbas Kiarostamis e o seu “mundo no interior automobilístico”. Todavia, durante este combate a uma “hidra de inúmeras cabeças”, Kate começa a evidenciar ilegalidades e amoralidades nesta mesma guerra, factores que a fazem questionar sobre a sua posição, os seus ideais enquanto autoridade e a natureza de toda esta operação deveras orquestrada nas sombras.

 

josh_brolin,_intr-un_rol_remarcabil.jpg

 

A personagem de Blunt evolui para uma figura frágil, uma mulher num mundo de homens que por sua vez não ostenta a “girl power” e a igualdade que uma Hollywood guiada por marketing feminista parece constantemente requisitar. Não, Kate não é simplesmente uma mulher no filme, mas sim uma humana, a moralidade que falta neste negro conto injectado com uma ambiguidade sem igual. Humana! Até porque os outros “parceiros” no combate ao narcotráfico, Josh Brolin e Benicio Del Toro, parecem carecer tais nobres e quebradiças emoções, se o primeiro comporta como um negligente e sexista chefe de operações, um contraste invocado para com a personagem de Blunt, o segundo é o autêntico anti-herói desta complexa ambivalência social.

 

maxresdefault (1).jpg

 

É o trio de desempenhos que coincidem em si num equilíbrio dependente, registando não apenas sentimentos humanos vividos, entre os quais primários como o medo e o rancor, mas a transposição realista dos actos das suas respectivas personagens. Outro factor que nos demonstra a preocupação de Villeneuve na criação de protótipos humanos é a sua tentativa de preencher até mesmo as figuras menos relevantes desta trama, escolha que o levará a atribuir uma dimensão atenciosa a uma personagem paralela que até às últimas questionará o espectador sob a sua verdadeira importância. Tal cenário fabricado a essa mesma figura, trará uma pesarosa consciência ao filme, que ao invés de relatar "bonecos" alude histórias de vida.

 

sicario-looks-like-the-best-crime-drama-since-traf

 

Para sermos exactos, este Sicário é tudo um pouco, um obra fabulista, um ensaio de realidade fincada, com toques variáveis de descrição dessa mesma realidade cinematográfica, um panfleto sem ser evidentemente um, ou um olhar sem julgamentos a um panorama conhecedor, contudo, mirado sob um receio pessimista (tal como é verificado no seu sublime e subliminar final, transcrevendo uma catarse aos sonhos de paz mundial que teimamos a prometer e a acreditar). Eis um monstro criado na berma da porta, e tal besta dominante presenciada numa omnipresente banda sonora de Jóhann Jóhannsson. Sicário é sim uma das mais poderosas incursões deste tema no grande ecrã, um filme falado num linguagem mista e atormentada pelo seu próprio dialecto. Assustador, agressivo sem fugir das regras da subtileza e verdadeiramente humano, colectivamente falando.

 

"You're asking me how the watch is made. For now just keep your eye on the time."

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.:  Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro, Daniel Kaluuya, Victor Garber

 

sicario_04.jpg

9/10

publicado por Hugo Gomes às 16:39
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

27.6.14
27.6.14

Inimigos para a vida!

 

Segundo Pilar Del Rio, José Saramago recusava qualquer proposta de adaptação cinematográfica aos seus livros, acusando maioritariamente de serem obras copistas, oportunistas e escassas de ideias. O “Prémio Nobel” por outro lado sempre foi agradado pela liberdade artística, e a prova chegou com a apresentação de Ensaio Sobre A Cegueira, o seu bestseller mundialmente aclamado pelas mãos de Fernando Meirelles. O momento desse embate do criador com a sua criação foi registada num vídeo comovente, o qual Saramago agradecia a Meirelles pelo belíssimo filme que havia concretizado, talvez das glórias incontornáveis da carreira de tal cineasta - a gratidão de um autor de tamanha natureza e relevância. O Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) de Meirelles era um filme livre, longe da transcrição directa de página para tela e que a certa altura assumia uma forma precisa e própria, algo que Enemy: O Homem Duplicado parece também usufruir, e voltando a citar a companheira do escritor, Pilar Del Rio, no contacto com o novo filme do canadiano Denis Villeneuve, este seria certamente uma adaptação que Saramago adoraria assistir.

 

 

Inspirado no homónimo bestseller do autor português, um dos seus ensaios no campo do thriller literário, em Enemy seguimos Adam Bell (Jake Gyllenhaal), um professor universitário solitário e preso a uma constante rotina. Anseia pela mudança mas nunca possuiu a coragem nem motivação para tal, contudo a vida de Adam tende em alterar drasticamente no preciso momento em que assiste um filme, recomendado por um colega seu, o qual se depara com um actor idêntico a si próprio. O professor inicia assim uma frenética busca ao encontro desse mesmo “sósia”, chegando mesmo a combinar um encontro com o dito actor, porém o embate destes levará a consequências irreversíveis na vida de ambos.

 

 

Existindo cerca de seis mil milhões de pessoas em todo o Mundo, é muito provável que exista alguém semelhante a nós, e é sob essa temática que Enemy joga para tecer as teias de um thriller existencialista, intimista e deveras intriguista nos seus propósitos. É um exemplo glorioso de um cineasta que aponta o seu estilo como veio condutor da narrativa  e não o contrario, lançando-se ainda numa demanda de provocação para com o espectador. É que Denis Villeneuve desafia-o, aufere as pistas e convida-o a interpretar o seu próprio filme, uma metáfora moldada que diverge conforme quem o vê. Os territórios do thriller convencional são assim abalados pela psicologia do seu tema e profundamente, das suas imagens. Villeneuve é como Freud num panorama cinematográfico, requisitando o génio de Saramago em prol de uma catarse sobre duplicidade, compromisso e acções ditatoriais. E à conta disso a "aranha" proclama o seu espaço e o realizador demonstra mais uma vez o seu dom do inesperado.

 

 

Tal como acontecera com o recente The Double de Richard Ayoade, Enemy usufrui do conceito de duplicidade para transparecer as divergências entre os diferentes elementos, assim requisitando um faustoso trabalho de dualidade do actor, nesse aspecto Jake Gyllenhaal (parece continuar o seu papel de Donnie Darko) está à altura do desafio erigindo dois personagens hipnotizantes simplesmente baseados somente pelo carácter. Ou seja ambos iguais e ao mesmo tempo, diferentes. Já que falamos em elenco não poderíamos deixar de salientar a ênfase dramática trazida pela formidável actriz Sarah Gadon, uma figura crucial deste aludido episódio de Twilight Zone e a sensualidade fria da sempre ascendente Mélanie Laurent.

 

 

Em Enemy, Denis Villeneuve aposta e vence, um thriller de atributos invejáveis ditado por um estilo único e labiríntico. E voltando à questão inicial, sim, Saramago era bem capaz de adorar esta visão libertina e simultaneamente inerente da sua criação literária, uma tese de autor sobre outro autor. O regresso do cinema provocador num filme para quem acredita que o cinema pode ser profundo e ao mesmo tempo, esteticamente cativante. 

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini

 

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 23:31
link do post | comentar | partilhar

20.10.13
20.10.13

A inocência dos culpados!

  

Depois de ter caído nas graças com Incendies - A Mulher que Canta (2010), o canadiano Denis Villeneuve mergulha num thriller que muito bem encaixaria no próprio estilo de David Fincher, enquadrando não só uma trama pesada erguida por desempenhos fortes por parte dos seus actores principais, mas também um curioso estudo da linha frágil e tênue que divide a noção de bem e mal. É nessa ambiguidade, nessa transposição de maniqueísmos, onde heróis são abordados como vilões se tratassem que Prisoners desenvolve algo para além do simples "filme de estúdio".

 

 

Um desaparecimento de duas crianças e um pai desesperado capaz de tudo para reavê-los, são as trilhas que encaminham o espectador por entre este labirinto com tais dilemas de questão social e psicológica. Espectadores, esses, que vibraram com o radicalismo de Liam Neeson nos dois Takens irão certamente condenar os actos do personagem de Hugh Jackman, e é nessa hipocrisia ética de que Prisoners se alimenta, enquanto a olhos vistos e sob uma atmosfera intensa digna dos melhores thrillers negros dos últimos anos, tece uma trama arquitectada e solidificada desde raiz, graças à pertinência em pessoa de que é o argumento de Aaron Guzikowski (Contraband).

 

 

Depois temos os desempenhos quase imaculados do seu elenco principal; um forte Hugh Jackman a demonstrar que existe vida para além de Wolverine, um Paul Dano atormentado, uma Viola Davis reservada mas igualmente emocionante e um Jake Gyllenhaal no seu melhor. Tudo isto funciona como peças de puzzle que atormentam ainda mais o espectador nesta profunda descida pela suspeita, o ambiente bélico dos prisioneiros de guerra invocando no quotidiano como todo os outros, a obra que se completa exibindo um chocante resultado que ao mesmo tempo julga como se deixa ser julgado.

 

 

No final temos Denis Villeneuve que se patenteia eficazmente na entrega da premissa e nos sentimentos expostos, sempre munido de coerência e de uma aura ambígua preservada até ao ultimo minuto (acabando por nos presentear um final merecido e envolvente). Provavelmente, Prisoners seja um dos melhores thriller norte-americanos dos recentes anos, algo não visto desde Zodiac ou a readaptação de The Girl with the Dragon Tatoo, ambas obras de David Fincher, o qual Villeneuve aparenta seguir os seus passos.

 

"Pray for the best, but prepare for the worst."

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano, Viola Davis, Maria Bello

 


 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 21:40
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Arrival (2016)

Sicario (2015)

Enemy (2013)

Prisoners (2013)

últ. comentários
Este gênero nunca foi um dos meus preferidos, póre...
Concordo, "Índice Médio de Felicidade" e "Malapata...
O "São Jorge" é até agora o meu preferido, mantend...
Vi hoje, Robert Pattinson no seu melhor! Que venha...
Uma das maiores surpresas do ano, mesmo sendo do W...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
1 comentário
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO