Data
Título
Take
17.8.17

 

Entre ontem e hoje, já não me recordo ao certo a data, saiu um artigo em que apontava os "millennials" como seres cada vez menos interessados no património cinematográfico, ou seja, nos clássicos, tudo o que é abaixo dos anos 80 (e com restrições). Hoje, no visionamento de imprensa, dei por mim a pensar na perda dessa herança, na cada vez mais homogénea forma de ver cinema ... ou a falta dele. Pior, sinto que de certa forma, existe alguma culpa no cartório em muita imprensa que perpetua essa mesma falta. Hoje chegam duas cópias restauradas de dois clássicos de Jacques Demy, um dos homens esquecidos por esta cinefilia que deve sobretudo ser falada pelas gerações mais novas ... gerações essas que correm aos milhares para ver a mais recente adição da Marvel ou da comédia romântica do costume. Sim, o artigo deixou-me triste, inconsolado, o Cinema não morreu como dizem os pessimista, mas a sua herança parece cada vez mais decadente.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:36
link do post | comentar | partilhar

11.8.17

The_Dark_Tower.0.jpg

Obrigado The Dark Tower por nos mostrar o quanto silly season é o mês de Agosto.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:13
link do post | comentar | partilhar

5.8.17

t-marilyn-monroe-seven-year-itch-subway-grate.jpg

Há 55 anos atrás neste mesmo dia, deixou-nos uma das estrelas mais cintilantes de Hollywood ... hoje, um ícone inimaginável da Sétima Arte. A única Marilyn Monroe

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 12:24
link do post | comentar | partilhar

2.8.17

20596995_10209570012064027_1092161232561318531_n.j

Em 20 anos o Mundo tornou-se mais psicótico que Norman Bates. Em plena década de 80, os anos que se definiriam como a expansão do "slasher movie", uma impensável sequela de Psycho iria tornar-se numa espécie de contra-natura. Acompanhamos um reabilitado psicopata ainda sob a mercê dos seus devaneios de violência, mas ao contrário de outros congéneres, o espectador não deseja ser cúmplice dos seus actos, "reza" sobretudo que o nosso antagonista afaste-se dessa sua mais tormenta tentação. (Psycho II, 1983)

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 

 


publicado por Hugo Gomes às 22:03
link do post | comentar | partilhar

dunkirk-movie-preview-01_feature-1.jpg

O mais recente filme de Christopher Nolan [ler crítica], pode ser tudo, desde a magnificência com que tem sido descrito pela imprensa mais imparcial até à maior “nojeira” das história do cinema bélico pela outra quota, e quem escreve estas palavras é um assumido opositor a Dunkirk, mas desta vez saio… e contrariando as hipóteses… em defesa da obra. Sim, leram bem, não de forma a reconhecer a sua “majestosidade” (até ao final do texto continuo a prevalecer na ideia de um filme desorganizado e manipulador), mas devido às acusações que Dunkirk tem disso submetido nos últimos dias. Até porque os tempos evocam uma resposta da diversidade cultural e de género, e sucessivamente a sua representação em meios que outrora os ignoravam. Porém, há que separar o “trigo do joio”. Existe sim, uma distinta vertente política correcta que cada vez mais se distingue com esse “senso de justiça”.

 

O que vos trago é a panóplia de notícias que tendem em provar uma negligência por parte de Nolan à importância do outro lado do Império Britânico neste seu retrato à maior das evacuações militares. Segundo o colunista indiano, Mihir Sharma (Bloomberg View), tendo como base um artigo da The Times of India, a India, na altura colónia inglesa, obteve um papel relevantíssimo na Segunda Guerra Mundial, nessa defesa da Coroa Britânica contra a ameaça nazi. O mesmo colunista em conformidade com outras provas históricas e afirmações de historiadores, clama que o episódio de Dunquerque foi igualmente representado pelas tropas coloniais indianas e paquistanesas. As mesmas informações levam a acusações de que Nolan ignorou os factos por diversos motivos, quase todos ligados ao chamado “privilégio branco” ou até mesmo a um cego patriotismo, e não, na maior das hipóteses, à educação escolar que se vive nas escolas britânicas, fruto dessa imagem de “bom Império”. Um pouco à imagem da nossa que continua a vender-nos a ideia que os “portugueses sempre foram bom colonizadores”. Assim sendo, será Christopher Nolan uma vítima do ensino britânico, ou o privilegiado que se vende?

 

_97083394_gettyimages-3400188_28129.jpg

 Soldado indiano na evacuação de Dunquerque / Foto.: FRED RAMAGE/GETTY IMAGES

 

Se é ou não, a questão não serve de todo como um martelo-pneumático para demolir aquilo que o realizador construiu, uma reconstituição longe do romantismo a uma das grandes manchas do historial das Forças Armadas Britânica, e… também, o injectar de uma certa glória na derrota, quase como statment nacionalista. Esta última, servido de acha para outra fogueira, a da metaforização do Brexit, muito em consideração às declarações do conservador politico Nigel Farage (um dos “cabecilhas” da saída do Reino Unido da União Europeia), que veio a público expor a sua admiração pelo filme. Neste caso, é como se o gosto de um indivíduo direccionasse todo um filme para um vertente política e ideológica à sua imagem. Como se, nesse sentido, o fascínio de Adolf HitlerMetropolis, de Fritz Lang, o conduzisse a uma ideologia nazista nos seus frames (se existir ou não, como tem sido constantemente teorizado o papel do Expressionismo Alemão na concepção dos ideais do nazismo, nenhum dos casos motiva a queda de um filme como uma peça rica da História cinematográfica).

 

Porém, tirando estas criminações, do outro lado do Oceano, num país que elegeu Trump como presidente, continua-se a derramar tinta em discursos político-sociais da escassez de representações culturais no retrato de Nolan, até mesmo incriminações de misoginia, pela igual ausência da Mulher em todo este enredo. Perpetua-se a valorização do activismo, por vezes forçado, frente aos propósitos de um filme. E voltando ao início, Dunkirk poderá ser um trabalho impaciente, desleixado e demasiado egocêntrico para se posicionar entre os melhores do seu género, mas posicioná-lo no contexto actual sabendo que a “História está morta” era a proposta encarada pelo realizador… uma afronta a um Mundo cada vez mais sedento por um exemplaridades colectivas no Cinema e numa propagação de um conceito de um “mundo ideal”. Para ser sincero, tudo soa mais histerismo que qualquer outra coisa. 

 

20-dunkirk-2-1024x683.jpg

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 21:56
link do post | comentar | partilhar

31.7.17

 

 

Ao som de Miles Davis, vos trago Jeanne Moreau em plena busca em «Ascenseur pour l'échafaud» (Louis Malle, 1958). Até porque no Cinema não há obituários, há sim, imortalizações. Obrigado por tudo Jeanne Moreau.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:33
link do post | comentar | partilhar

25.7.17

3.png

10 Anos!!! Cada vez mais difícil escrever um texto sobre esta data, sobre aquele desejo de despachar textos numa plataforma de internet para depois seguir disto, não só como um hobby, mas como um modo de vida.

 

Sim, já cheguei aquele ponto em que olho para os textos de outrora e já não me revejo neles, sobretudo penso naquilo que evoluí, desde a minha escrita que ganhou uma outra forma e o meu olhar cinéfilo que adquiriu conhecimento e maturidade ao longo desta década. Foi uma jornada e tanto … sim, não foi fácil preservar um blog destes num período tão extenso, equilibrá-lo com a nossa vida pessoal, assim como profissional.

 

Agora, sem mais demoras, porque as palavras estão a escassear, um muito obrigado a quem me seguiu e que continua a seguir-me, a ler os meus textos, a concordar sobre eles, a discordar sobre eles também, a deixar a sua própria perspetiva cinematográfica, entre mais. A esses leitores … aos meus leitores … um muito obrigado! Esperamos continuar a falar de cinema em mais uns valentes anos.

 

CONFORME SEJA AS VOSSAS ESCOLHAS, BONS FILMES!

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 14:32
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

21.7.17

NEbFdpy50kksdj_1_b.jpg

Aquele momento em que Valerian é mais filme que Dunkirk! 

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 18:44
link do post | comentar | partilhar

13.7.17
13.7.17

pjimage (5).jpg

Os melhores filmes do ano até agora (estreados em Portugal)

 

1) Aquarius (Kleber Mendonça Filho)
2) The Tribe (Myroslav Slaboshpytskyi)
3) La Mort de Louis XIV (Albert Serra)
4) Paterson (Jim Jarmusch)
5) Ma Vie de Courgette (Claude Barras)
6) Little Men (Ira Sachs)
7) Logan (James Mangold)
8) São Jorge (Marco Martins)
9) Get Out (Jordan Peele)
10) Ama-san (Cláudia Varejão)

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:27
link do post | comentar | partilhar

19989693_10209394968688052_4625179430423331073_n.j

Passado, Presente e Futuro ... tudo não passa de assombrações em The Fog, de John Carpenter.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 12:47
link do post | comentar | partilhar

6.7.17

green.png

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 21:17
link do post | comentar | partilhar

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 16:58
link do post | comentar | partilhar

3.7.17

pjimage (1).jpg

O que aprendi ou a reaprendi nas minhas maratonas de insónias, preenchidas com revisões:

 

- De Jack Burton a Fantasmas de Marte, o grande ponto autoral de John Carpenter é a sua música minimalista e os seus heróis másculos de t-shirt à cavas. Ah … depois do segundo visionamento, reafirmo que o século XXI não foi simpático para o realizador, mas ao menos Fantasmas de Marte não é The Ward (O Hospício).

 

-Third Man é um portento técnico que desafia o próprio conceito do studio system, o trabalho das luzes que desvendam Orson Welles nos becos, os esgotos embebidos numa misteriosa aura, a câmara que passa do interior para o exterior através de uma janela (com paralelismo ao final de Profissão: Repórter, de Antonioni) e o final ambíguo onde nem sempre o herói consegue a sua rapariga (mais um paralelismo, Chinatown de Polanski).

 

-Há mais por onde pegar em Straw Dogs, de Peckinpah, para além do lado primitivo de um homem à beira do colapso, existe todo um reflexo do espírito americano. Aquela postura correcta frente a um mundo sujo que o odeia.

 

- Há que resgatar Mel Brooks. Há que falar dele, não devemos esperar que o homem morra para finalmente apontá-los como um dos mais esquecidos génios da comédia satírica.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 15:07
link do post | comentar | partilhar

20.6.17

pjimage (2).jpg

Eis o meu resumo do programa de festas para este Verão nos cinemas portugueses.

 

- Michael Bay pode ser um autor, mas *porra*, é dos difíceis de aturar muito mais um novo Transformers

- Sam Raimi fez História, mas para os lados de Hollywood toda a gente parece ter esquecido. Resposta: vem aí um novo Spider-Man para alimentar uma nova geração de "geeks".

- Jim Jarmusch e Brilliant Mendoza vão nos alegrar as últimas semanas de Junho, ao menos isso.

- Mais febre de Minions e Carros para a malta ... as inevitáveis sequelas de Despicable Me e Cars (ideias para animações precisa-se).

- Afinal o "péssimo" filme de Gus Van Sant vai mesmo estrear.

- Um terceiro Planeta dos Macacos, a explorar ainda mais o filão e a fazer-nos esquecer a "borrada" de Tim Burton

- Recomendaram-me bastante o filme de François Ozon (Frantz), esperemos que não seja mais um L'Amant Double.

- Christopher Nolan, ou faz um filme bélico de dimensões industriais ou a mesma faixa fascista que se tem tocado em Hollywood nos últimos anos.

- Valerian e a Cidade dos Mil Planetas vai ser um flop colossal, mark my words.

- Baby Driver e Atomic Blonde têm hype, veremos.

- Leonel Vieira vai regressar aos cinemas e em Agosto, mês que a Cinemateca está encerrada.

- Uma nova Annabelle, superar o primeiro é tarefa fácil, mas tem tudo para falhar.

- Uma Torre Negra, Stephen King já veio a público dizer que adorou o filme, mas sejamos claros, o homem não gostou de Carrie nem de Shining (por isso não dá para confiar).

-The Summer of Sangaile e I Am Michael têm tudo para serem os filmes do Verão.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 15:44
link do post | comentar | partilhar

28.5.17

the-square1.jpg

Em 2015, o vídeo da "birra" de Ruben Östlund tornou-se viral. O desapontamento pela ausência do seu Força Maior entre os nomeados ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi alvo de chacota, mas o realizador já pode olhar para atrás e rir da situação, a Palma de Ouro "caiu" nas suas mãos. E agora?

 

The Square declarou-se como o grande triunfante da noite glamorosa do Croissette, o conquistador de uma Competição que, no geral, decepcionou tudo e todos. Segundo as más línguas, a qualidade desta Selecção derivou do interesse de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, em promover o seu diário "Sélection Oficielle" que fora lançado nas bancas francesas, deixando assim, pouca dedicação ao alinhamento da Competição Oficial. Nela notou-se uma aposta cada vez mais nos mesmos nomes do famoso "tapete vermelho", a fascinação pelo artista e não pela sua obra, e uma escassez significativa do cinema norte-americano, aquela que fora sempre vista como a grande conquista da dinastia Frémaux.

Centoventi-Campillo.jpg

Entretanto, um dos filmes maiores da montra, 120 Battemente par Minutte, de Robin Campillo, não saiu de "mãos vazias" deste certame. O Grande Prémio de Júri condiz tão bem, e segundo consta, Pedro Almodóvar emocionou-se como este activismo da comunidade LGBT e dos seropositivos pelos seus direitos de vida. Às vezes o cinema é isso … emoções, e acima de tudo, estes prémios demonstraram mais sentimento que, propriamente, imparcialidade. Notou-se assim, uma grande diferença entre os seleccionados e as escolhas dos jornalistas e críticos.

 

Mas este júri fez História no festival ao atribuir o prémio de realização a Sofia Coppola, a segunda mulher a vencer tal distinção, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years. A filha do cineasta de The Godfather e Apocalypse Now, resultou no melhor que esta readaptação de The Beguiled tinha para oferecer, um filme vazio que cobardemente tenta fazer oposição feminina com a versão de '71. Nesta perspectiva, os valores técnicos sobrepõem-se ao anoréctico do enredo e da falta de ambição das personagens. Enquanto que no original era perceptível uma tensão entre as figuras de Clint Eastwood e Geraldine Page, no trabalho de Coppola as encarnações de Colin Farrel e Nicole Kidman a operarem como figuras inaptas de tragédia e de suas representações politicas.

MV5BMzE2Mjc3ODI5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwODY5ODYwMjI@._

A vitória da realização remeteu-nos a outro "fantasma", a atribuição do prémio máximo do festival a uma mulher, cuja primeira e última vez aconteceu em 1993, com The Piano da australiana Jane Campion. Mesmo sob o desejo de Jessica Chastain, parte do júri, em ver mais mulheres em competir para a Palma, a verdade é que nem uma das candidatas apresentou-nos qualidades devidas para a distinção. Sofia Coppola poderá ter sido a melhor da "turma", visto que Noami Kawase, uma das "favoritas" do festival, embarcou com uma obra de ideias demasiado presas ao meloso e à falta de objectividade, para além Lynn Ramsay, que nos apresentou um ensaio vazio de violência e, sobretudo, um filme incompleto.

 

Falando nesta última, o pior de todo o Festival, e inacreditavelmente distinguida com dois prémios, o de argumento, o qual partilhou com The Killing of a Sacred Deer, do grego Yorgos Lanthimos, um exemplo mais consciente da sua violência visual e psicológica, e o de Melhor Actor, Joaquin Phoenix a roubar as hipóteses de triunfo a Robert Pattinson na obra dos irmãos Safdie, visto como o favorito à categoria.

 

Contudo, o trabalho do russo Andrey ZvyagintsevLoveless, exibido no primeiro dia do Festival, não foi esquecido pelo Júri [Prémio Especial de Júri]. O retrato de uma humanidade cada vez mais longe de afectos e a dominância da tecnologia no nosso quotidiano fundida com uma realização impar e milimetricamente pensada pelo realizador do anterior, o muito bem-sucedido Leviathan, faz "refém" o paladar da trupe liderada por Almodóvar. Mas aí, também a instalação de Ruben Östlund, não esquecer o seu grande feito. O homem que destroçou a "maldição" Haneke, que infelizmente, o seu "best-of" não contou com nenhuma premiação na mais invejável mostra cinematográfica do ano.

 

Loveless-3-e1494728867724-620x350.jpg

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 23:09
link do post | comentar | partilhar

23.5.17

Redoubtable-2-620x336.jpg

Bomba?!! Ainda nem havíamos começado a ver Le Redoutable, o tão esperado biopic do sempre avant-garde Jean-Luc Godard, quando o Theatre DeBussy foi evacuado. A segurança, de forma a acalmar os ânimos e a atenuar o pânico que se poderia instalar, referiu que se tratava de um exercício, mas outras fontes sugeriam uma ameaça de bomba o que, tendo em conta que estamos viver num Festival com uma segurança mais apertada, acaba por se reflectir nos atrasos das projecções, nas demoras, nas filas intermináveis e nos processo de segurança que se alteram, dia após dia.

 

Mas tudo não passou disso mesmo, uma ameaça, e assim com algum receio seguimos para a apresentação de Le Redoutable, a visão de Michel Hazanavicius ao cineasta incontornável. Como é anunciado durante esta história, Godard praticamente inventou o cinema. Por palavras mais honestas, reinventou aquilo que víamos no cinema, experimentou o som, a imagem, as ideias, e por fim, emanou a política de forma a abraçar esta arte, tal como fizera, anos antes, Serguei Eisenstein. Le Redoutable remete-nos a uma fase crucial do realizador, o término das rodagens de La Chinoise, a sua relação perturbada com a actriz Anne Wiazemsky, e a sua inclinação para um activismo político que alterou para sempre a sua visão de fazer Cinema. Hazanavicius é um homem de máscaras e, tal como demonstrara com O Artista, um realizador ligado ao passado, convicto em mimetizá-lo. Em certa parte, Le Redoutable é um La La Land sobre a filmografia de Godard. É fácil gostar da obra, as referências, as piadas visuais, sonoras e os maneirismos dos actores facilitam essa nossa ida à memória cinéfila.

 

Redoubtable-Stacy-Martin.jpg

Mas Le Redoutable é ainda um filme de uma falsa confiança, que por vezes dá um braço ao público de forma a auto-humilhar-se e cair no registo de sinceridade. Infelizmente, não existe tal feito, o Godard de Louis Garrel é um clown digno de slapstick, e o humor passa de godardiano até ao estilo inimitável dos Monty Python. Por um lado há que admitir, que mesmo não indo longe, Hazanavicius consegue um filme pelo qual pode despertar um interesse súbito em conhecer o homem que homenageia, fazendo melhor papel que O Artista.

 

Entretanto, já que falámos de memória cinéfila, porque não falar de Jeannette: L’Enfance de Jeanne D’Arc, um musical de Bruno Dumont, que é tudo menos um exemplar do género? O público foi saindo (e não foram poucos) quando se apercebeu da blasfémia da produção num musical deselegante, com uma melodia arrojada e atípica, assim como os não-actores que, de certa forma, tentam cantar ou dançar sem qualquer formalidade onírica. O musical recebeu o seu atentado terrorista, mas felizmente era o tipo de ataque que esperávamos, uma desconstrução do género, uma heresia religiosa e histórica de fazer corar os enganados. Reconheço que este poderá ser o melhor das obras de Dumont, um mais absurdista e igualmente arrojado. A sessão fez-se com imensas casualidades, foi aplaudida de tamanha euforia. As palmas eram, obviamente, direccionadas a Bruno Dumont que se encontrava na sala. Temos um Godard dos tempos antigos, um homem que conhece o cinema, mas que está pronto a desafiá-lo. Viva a delinquência cinematográfica!

 

1492677419125.jpeg

Recebido de forma diferente foi The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos. Uma aspiração ao género de horror, onde o tom mecanizado e frio foi-se perdendo gradualmente na narrativa, para dar origem à mais dolorosa das decisões chaves. As vaias ouviram-se, provavelmente das aproximações desse género, visto que Cannes não suporta abordagens diferentes do chamado world cinema. Ou, por outro lado, o final pesaroso e indigesto tenha de certa forma abalado as morais e éticas da imprensa mais politicamente correcta. É a violência sem um ponto de partida, e a vingança sob uma perspectiva mirabolante, e o correctíssimo técnico a ser atacado por um espírito em plena convulsão. Com Colin Farrell e uma trágica Nicole Kidman (grande aposta aos prémios de interpretação feminina), The Killing of the Sacred Deer será um dos grandes filmes das próximas temporadas.

 

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 21:35
link do post | comentar | partilhar

20.5.17

cannes-2017-philippe-garrel-fidele-a-ses-passions-

Em 2017, a Quinzena é quem mais ordena. A mostra fundada por Phillipe Garrel e outros apresenta este ano um leque forte de nomes que de certo rivalizaram com a grande Competição no Palais. Dumont, o português Pinho, Ferrara e até o próprio Garrel fazem as delícias dos cinéfilos mais aventurosos e mais incentivados a nichos.

 

Garrel foi uma das grandes apostas para esta edição. Difícil não o ser, visto que o francófono mantém uma actividade plena e invejável com os seus 69 anos. Porém, falta-lhe revitalidade, o cineasta procura-o há anos, ou simplesmente, como transparece, nem sequer entusiasma em encontrar novas formas de instalar o seu cinema. Garrel continua ofuscado pelo seu cinema de outrora e pelos fantasmas que o perseguem e teima em não evadir. Em L'amante d'un Jour, eis mais um enredo de relações perturbadas pela sombra do adultério e filosofias conjugais que nos fazem questionar se o realizador ou não, vive num casulo este tempo todo.

 

350427.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

Aliás a sessão de apresentação do seu filme contou a sua presença, assim como a do elenco, mas Garrel preferiu isolar-se, seguindo para o fundo da plateia, mesmo encostado a porta de saída. Talvez seja apenas timidez ou receio dos aplausos cínicos que estas sessões de público parecem manifestar no final. Entre obrigados e elogios, a verdade é que foram muitos, durante o filme, que cediam à força da luz verde com palavras EXIT. Melhor recepção obteve Ôtez-moi d'un doute, de Carine Tardieu, a habitual comédia francesa de mal-entendidos sobre a paternidade que se fica pela competência esquecível. A plateia divertiu-se.

 

No Un Certain Regard chega-nos directamente da Tunísia a realizadora Kaouther Ben Hania e o seu Beauty and the Dogs, um conto contado em 9 partes, todas elas compostas por um único plano-sequência, que remete uma noite atribulada de uma jovem violada, que tenta, num sociedade dominante machista, lutar pelos seus direitos. Estranho que pareça, ela luta pelo seu direito de vítima. Apesar dos ocasionais momentos de discursos preguiçosos dignos de panfleto, Beauty and the Dogs é um alerta para um realidade que constantemente fechamos os olhos ou negamos a sua existência.

 

maxresdefault.jpg

 

Mas foi com outra luta que Cannes foi ao rubro, 120 Battement per Minut, de Robin Campillo (Eastern Boys), o activismo dos seropositivos e da comunidade LGBT pela integridade numa sociedade preconceituosa, discriminatória, e talvez pior que isso, negligente. Não é o mero filme de mensagens debitadas nem de propagandas oportunistas, a obra é um verdadeiro embate do slogan “eu quero viver”, o prolongamento da vida cuja morte parece um destino vizinho. Os 5 minutos de Paraíso com direito a orgias visuais, onde moléculas e humanos bailam aos som das vitórias e das derrotas das suas respectivas vidas. Sim, é um poema. Um poema cinematográfico. O Grand Theatre Lumiere soube no final receber, de forma merecidas, estes 120 batimentos por minuto. Será que temos Palma de Ouro?

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 14:38
link do post | comentar | partilhar

19.5.17

okja-main1.jpg

Uma gaffe, um momento insólito, o “horror” instalou-se na organização, Okja foi exibido em formato incorrecto para a grande tela durante a apresentação de imprensa. Não podia ter corrido pior a este filme já marcado pela polémica Netflix (aliás o logo foi automaticamente apupado pela plateia) para depois virar chacota nos seus primeiros 5 minutos. O rosto cortado de Tilda Swinton arrancou risos, aplausos, assobios, "boos", um caos aquilo que se assistiu no Grand Lumiêre Theatre. A sessão foi interrompida e após alguns minutos de espera, lá retomou sob o formato correcto. Piadas como “eles estavam a contar passar aquilo numa televisão” foi o que se ouviu no final do filme, esse respondido com alguns aplausos.

 

Quanto à obra de Boong Joon Ho, apesar de conseguir transmitir melhor mensagem que centenas de vídeos da PETA, Okja fracassa pela incompreensão de partes. Enquanto registamos um certo cinismo neste tratamento ao consumismo esfriado e os sistemas de criação em massa de animais para proveito humano (Joon Ho sempre foi um valete da ambiguidade), o filme tende em ceder no perfeito crowd pleaser, primeiro, sufocando-se como um enésimo filme de família disnesco, para depois constituir numa tardia crítica, para por fim dar-nos o final contra-corrente dos objectivos assim expostos. É o happy ending a disfarçar a negritude de todo o relato e a propaganda “green” a servir bandeja para maniqueísmos fáceis. Depois da luta entre classes em Snowpiercer, Boong Joon Ho desilude numa suposta plataforma de liberdade criativa. Não foi isso que vimos. Entretanto, podemos afirmar a quanto pitoresca (no bom sentido) Tilda Swinton fora e que continua a ser. Confirma-se.

 

394184.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Depois do mediatismo da Competição, seguimos agora para o exterior desta com Agnès Varda, que une esforços com o artista fotográfico JR, em Visage, Vilages. Um episódio feliz de como a imagem é um infinito de possibilidades. A imaginação como Varda refere a certa altura, o “sangue” de toda esta jornada criativa que é a de “vestir” edifícios abandonados ou simplesmente no desuso estético. Visage, Vilages é emocionalmente honesto, apesar do toque experimental de Varda, nota-se uma perfeita veracidade nesses mesmo sentimentos e na nostalgia, com o qual tende em recordar os seus elos com Jean-Luc Godard.

 

Antes de continuar pelas mostras cinematográficas de Cannes, gostaria de relembrar que os pedestais mudaram. Orson Welles perdeu, a partir de hoje, o mais alto estatuto cinematográfico por parte do logo de Cannes, e no seu lugar chega-nos Federico Fellini. Há um certo contentamento na multidão ao presenciar o seu nome lá no alto, assim como o de assistir a anteriores lacunas, agora representadas nos degraus deste “wanna be” tapete vermelho, tais como Micheangelo Antonioni (em segunda posição), Robert Bresson, Jacques Tati e Chris Marker.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:27
link do post | comentar | partilhar

18.5.17

b9af7726699b194f0c3a1507c1eeec22.jpg

Depois da indiferença de Les Fantômes d'Ismael, chegam as primeiras vaias nesta edição de Cannes, desta feita vindas de uma das grandes apostas da competição, o novo filme de Kornél Mundruczó, Jupiter's Moon. É certo que obras costuradas com elementos fantásticos têm o que se lhes diga no tão mediático festival. Junta-se a isso, uma temática sobre a crise de refugiados na Europa e uma produção de alto teor visual. Está tudo dito, temos filme para a vaia.

 

Contudo, Jupiter's Moon é algo bizarro, um filme de mixed feelings onde de um lado temos uma narrativa visual impressionante e do outro um argumento que por vezes falha na coerência com um moralismo de difícil caracter. Sim, é um filme que tem tudo para se adorar, da mesma maneira que para odiar. Ao menos, a metáfora alicerçada na ficção cientifica disfarça aquela postura de olhar para baixo, o "moral high ground" que um Sean Penn, e mais recentemente Vanessa Redgrave, têm nas suas variações de vaidades privilegiadas. Mas isso não evitou que no final não se ouvisse fortes apupos.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:51
link do post | comentar | partilhar

17.5.17

loveless-1-620x414.jpg

Depois de um comité de boas-vindas fria, Desplechin a fazer das suas, o festival seguiu-se com uns fantasmas que nos persegue desde a sua concepção … não, não são os de Ismael, são sim a Netflix. Aliás, o confronto entre as plataformas e os novos métodos de exibição como de visualização parece ainda ter chegado ao seu auge.

 

A apresentação do júri oficial prenuncia esse prolongo, se de um lado Pedro Almodóvar, presidente do Júri da Competição, declarou que não iria atribuir uma Palma de Ouro a um filme que não iria passar no grande ecrã, por sua vez, Will Smith referiu o facto dos seus filhos conciliarem a ida ao Cinema com o visionamento de filmes num pequeno ecrã, nomeadamente um PC. Esta utopia para cinéfilos ferrenhos é pura heresia, para as novas gerações de moviegoers é o futuro e para cinematograficamente românticos, é uma incógnita. Ninguém fala de outra coisa, até porque o primeiro dos dois filmes de produção Netflix em Competição, está de visionamento marcado para breve. Que venham daí esses apupos (premonição).

 

Will-Smith-Pedro-Almodovar-Cannes.jpg

 

Mas voltando ao primeiro ponto para chegar ao fim do dia, que foi a indiferença com que Les Fantômes d’Ismael foi recebido pela imprensa, Andrey Zvyagintsev e o seu Loveless arrancaram eufóricos aplausos na plateia. O russo de Leviathan conseguiu a primeira grande obra de Cannes, um filme que utiliza o desaparecimento de uma criança para validar uma declaração à ausência comunicativa e afectiva das sociedades modernas, com farpas à russa em particular. É um filme de uma técnica irrepreensível, alarmante e corajosamente frio à primeira vista, porque os rasgos emotivos estão lá, com a ajuda de actores capazes de repreender um previsível overacting.

 

A verdade é que Zvyaguntsev pode não ser o realizador mais adorado da Rússia, existe um ativismo nele que os conterrâneos parecem torcer o nariz. Mas o seu filme fez ganhar o dia. Um dia que começou da pior forma para fluir num filme complexo, mesmo soando simples e enganosamente contemplativo.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 23:07
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

O Cinema não morreu ... m...

"Cinepescadas" #6

"Cinepescadas" #5

"Cinepescadas" #4

O "mau" Dunkirk contra o ...

"Cinepescadas" #3

10 anos de Cinematografic...

"Cinepescadas" #2

Até agora ...

"Cinepescadas" #1

últ. comentários
Muito bom o teu blog, Hugo! Continua com o excelen...
Boas biopics são os verdadeiros e honestos retrato...
Boa Tarde; enviei-lhe um email para o seu email. O...
Uma Jóia do Cinema. O Kubrick sempre foi muito sub...
Já tinha visto este trailer e antes de ver fiquei ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO