Data
Título
Take
28.5.17

the-square1.jpg

Em 2015, o vídeo da "birra" de Ruben Östlund tornou-se viral. O desapontamento pela ausência do seu Força Maior entre os nomeados ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi alvo de chacota, mas o realizador já pode olhar para atrás e rir da situação, a Palma de Ouro "caiu" nas suas mãos. E agora?

 

The Square declarou-se como o grande triunfante da noite glamorosa do Croissette, o conquistador de uma Competição que, no geral, decepcionou tudo e todos. Segundo as más línguas, a qualidade desta Selecção derivou do interesse de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, em promover o seu diário "Sélection Oficielle" que fora lançado nas bancas francesas, deixando assim, pouca dedicação ao alinhamento da Competição Oficial. Nela notou-se uma aposta cada vez mais nos mesmos nomes do famoso "tapete vermelho", a fascinação pelo artista e não pela sua obra, e uma escassez significativa do cinema norte-americano, aquela que fora sempre vista como a grande conquista da dinastia Frémaux.

Centoventi-Campillo.jpg

Entretanto, um dos filmes maiores da montra, 120 Battemente par Minutte, de Robin Campillo, não saiu de "mãos vazias" deste certame. O Grande Prémio de Júri condiz tão bem, e segundo consta, Pedro Almodóvar emocionou-se como este activismo da comunidade LGBT e dos seropositivos pelos seus direitos de vida. Às vezes o cinema é isso … emoções, e acima de tudo, estes prémios demonstraram mais sentimento que, propriamente, imparcialidade. Notou-se assim, uma grande diferença entre os seleccionados e as escolhas dos jornalistas e críticos.

 

Mas este júri fez História no festival ao atribuir o prémio de realização a Sofia Coppola, a segunda mulher a vencer tal distinção, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years. A filha do cineasta de The Godfather e Apocalypse Now, resultou no melhor que esta readaptação de The Beguiled tinha para oferecer, um filme vazio que cobardemente tenta fazer oposição feminina com a versão de '71. Nesta perspectiva, os valores técnicos sobrepõem-se ao anoréctico do enredo e da falta de ambição das personagens. Enquanto que no original era perceptível uma tensão entre as figuras de Clint Eastwood e Geraldine Page, no trabalho de Coppola as encarnações de Colin Farrel e Nicole Kidman a operarem como figuras inaptas de tragédia e de suas representações politicas.

MV5BMzE2Mjc3ODI5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwODY5ODYwMjI@._

A vitória da realização remeteu-nos a outro "fantasma", a atribuição do prémio máximo do festival a uma mulher, cuja primeira e última vez aconteceu em 1993, com The Piano da australiana Jane Campion. Mesmo sob o desejo de Jessica Chastain, parte do júri, em ver mais mulheres em competir para a Palma, a verdade é que nem uma das candidatas apresentou-nos qualidades devidas para a distinção. Sofia Coppola poderá ter sido a melhor da "turma", visto que Noami Kawase, uma das "favoritas" do festival, embarcou com uma obra de ideias demasiado presas ao meloso e à falta de objectividade, para além Lynn Ramsay, que nos apresentou um ensaio vazio de violência e, sobretudo, um filme incompleto.

 

Falando nesta última, o pior de todo o Festival, e inacreditavelmente distinguida com dois prémios, o de argumento, o qual partilhou com The Killing of a Sacred Deer, do grego Yorgos Lanthimos, um exemplo mais consciente da sua violência visual e psicológica, e o de Melhor Actor, Joaquin Phoenix a roubar as hipóteses de triunfo a Robert Pattinson na obra dos irmãos Safdie, visto como o favorito à categoria.

 

Contudo, o trabalho do russo Andrey ZvyagintsevLoveless, exibido no primeiro dia do Festival, não foi esquecido pelo Júri [Prémio Especial de Júri]. O retrato de uma humanidade cada vez mais longe de afectos e a dominância da tecnologia no nosso quotidiano fundida com uma realização impar e milimetricamente pensada pelo realizador do anterior, o muito bem-sucedido Leviathan, faz "refém" o paladar da trupe liderada por Almodóvar. Mas aí, também a instalação de Ruben Östlund, não esquecer o seu grande feito. O homem que destroçou a "maldição" Haneke, que infelizmente, o seu "best-of" não contou com nenhuma premiação na mais invejável mostra cinematográfica do ano.

 

Loveless-3-e1494728867724-620x350.jpg

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 23:09
link do post | comentar | partilhar

19.5.17

okja-main1.jpg

Uma gaffe, um momento insólito, o “horror” instalou-se na organização, Okja foi exibido em formato incorrecto para a grande tela durante a apresentação de imprensa. Não podia ter corrido pior a este filme já marcado pela polémica Netflix (aliás o logo foi automaticamente apupado pela plateia) para depois virar chacota nos seus primeiros 5 minutos. O rosto cortado de Tilda Swinton arrancou risos, aplausos, assobios, "boos", um caos aquilo que se assistiu no Grand Lumiêre Theatre. A sessão foi interrompida e após alguns minutos de espera, lá retomou sob o formato correcto. Piadas como “eles estavam a contar passar aquilo numa televisão” foi o que se ouviu no final do filme, esse respondido com alguns aplausos.

 

Quanto à obra de Boong Joon Ho, apesar de conseguir transmitir melhor mensagem que centenas de vídeos da PETA, Okja fracassa pela incompreensão de partes. Enquanto registamos um certo cinismo neste tratamento ao consumismo esfriado e os sistemas de criação em massa de animais para proveito humano (Joon Ho sempre foi um valete da ambiguidade), o filme tende em ceder no perfeito crowd pleaser, primeiro, sufocando-se como um enésimo filme de família disnesco, para depois constituir numa tardia crítica, para por fim dar-nos o final contra-corrente dos objectivos assim expostos. É o happy ending a disfarçar a negritude de todo o relato e a propaganda “green” a servir bandeja para maniqueísmos fáceis. Depois da luta entre classes em Snowpiercer, Boong Joon Ho desilude numa suposta plataforma de liberdade criativa. Não foi isso que vimos. Entretanto, podemos afirmar a quanto pitoresca (no bom sentido) Tilda Swinton fora e que continua a ser. Confirma-se.

 

394184.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Depois do mediatismo da Competição, seguimos agora para o exterior desta com Agnès Varda, que une esforços com o artista fotográfico JR, em Visage, Vilages. Um episódio feliz de como a imagem é um infinito de possibilidades. A imaginação como Varda refere a certa altura, o “sangue” de toda esta jornada criativa que é a de “vestir” edifícios abandonados ou simplesmente no desuso estético. Visage, Vilages é emocionalmente honesto, apesar do toque experimental de Varda, nota-se uma perfeita veracidade nesses mesmo sentimentos e na nostalgia, com o qual tende em recordar os seus elos com Jean-Luc Godard.

 

Antes de continuar pelas mostras cinematográficas de Cannes, gostaria de relembrar que os pedestais mudaram. Orson Welles perdeu, a partir de hoje, o mais alto estatuto cinematográfico por parte do logo de Cannes, e no seu lugar chega-nos Federico Fellini. Há um certo contentamento na multidão ao presenciar o seu nome lá no alto, assim como o de assistir a anteriores lacunas, agora representadas nos degraus deste “wanna be” tapete vermelho, tais como Micheangelo Antonioni (em segunda posição), Robert Bresson, Jacques Tati e Chris Marker.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:27
link do post | comentar | partilhar

18.5.17

b9af7726699b194f0c3a1507c1eeec22.jpg

Depois da indiferença de Les Fantômes d'Ismael, chegam as primeiras vaias nesta edição de Cannes, desta feita vindas de uma das grandes apostas da competição, o novo filme de Kornél Mundruczó, Jupiter's Moon. É certo que obras costuradas com elementos fantásticos têm o que se lhes diga no tão mediático festival. Junta-se a isso, uma temática sobre a crise de refugiados na Europa e uma produção de alto teor visual. Está tudo dito, temos filme para a vaia.

 

Contudo, Jupiter's Moon é algo bizarro, um filme de mixed feelings onde de um lado temos uma narrativa visual impressionante e do outro um argumento que por vezes falha na coerência com um moralismo de difícil caracter. Sim, é um filme que tem tudo para se adorar, da mesma maneira que para odiar. Ao menos, a metáfora alicerçada na ficção cientifica disfarça aquela postura de olhar para baixo, o "moral high ground" que um Sean Penn, e mais recentemente Vanessa Redgrave, têm nas suas variações de vaidades privilegiadas. Mas isso não evitou que no final não se ouvisse fortes apupos.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:51
link do post | comentar | partilhar

17.5.17

loveless-1-620x414.jpg

Depois de um comité de boas-vindas fria, Desplechin a fazer das suas, o festival seguiu-se com uns fantasmas que nos persegue desde a sua concepção … não, não são os de Ismael, são sim a Netflix. Aliás, o confronto entre as plataformas e os novos métodos de exibição como de visualização parece ainda ter chegado ao seu auge.

 

A apresentação do júri oficial prenuncia esse prolongo, se de um lado Pedro Almodóvar, presidente do Júri da Competição, declarou que não iria atribuir uma Palma de Ouro a um filme que não iria passar no grande ecrã, por sua vez, Will Smith referiu o facto dos seus filhos conciliarem a ida ao Cinema com o visionamento de filmes num pequeno ecrã, nomeadamente um PC. Esta utopia para cinéfilos ferrenhos é pura heresia, para as novas gerações de moviegoers é o futuro e para cinematograficamente românticos, é uma incógnita. Ninguém fala de outra coisa, até porque o primeiro dos dois filmes de produção Netflix em Competição, está de visionamento marcado para breve. Que venham daí esses apupos (premonição).

 

Will-Smith-Pedro-Almodovar-Cannes.jpg

 

Mas voltando ao primeiro ponto para chegar ao fim do dia, que foi a indiferença com que Les Fantômes d’Ismael foi recebido pela imprensa, Andrey Zvyagintsev e o seu Loveless arrancaram eufóricos aplausos na plateia. O russo de Leviathan conseguiu a primeira grande obra de Cannes, um filme que utiliza o desaparecimento de uma criança para validar uma declaração à ausência comunicativa e afectiva das sociedades modernas, com farpas à russa em particular. É um filme de uma técnica irrepreensível, alarmante e corajosamente frio à primeira vista, porque os rasgos emotivos estão lá, com a ajuda de actores capazes de repreender um previsível overacting.

 

A verdade é que Zvyaguntsev pode não ser o realizador mais adorado da Rússia, existe um ativismo nele que os conterrâneos parecem torcer o nariz. Mas o seu filme fez ganhar o dia. Um dia que começou da pior forma para fluir num filme complexo, mesmo soando simples e enganosamente contemplativo.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 23:07
link do post | comentar | partilhar

Ismaels-Ghosts-e1494728937679.jpg

Muitos especulam uma impressionante qualidade na Selecção Oficial, mas por enquanto ficamos com uma abertura fria, onde no final da sessão para a imprensa um aplauso ou até um apupo foram inexistentes. Arnaud Desplechin é um dos favoritos da Riviera, não fosse o facto de Cannes não ser apenas um Festival do Mundo, mas um festival de grandes apostas francesas, e à imagem do que aconteceu em 2015, seguiu-se assim a opção de abrir o Certame com um compatriota.

 

O filme escolhido para tal feito foi Les Fantômes d' Ismael, porém, de assombroso nada tem. Contando com um elenco reconhecido das produções francesas – Mathieu Almaric, Marion Cottilard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel e Alba Rohrwacher, esta é a história de um realizador decadente, Ismael (Almaric), no lado afectivo, assumidamente viúvo, que começa uma inesperada relação com Sylvia (Gainsbourg). Esta cumplicidade começa a gerar frutos e Ismael torna-se mais produtivo e criativo no seu trabalho. Certo dia, a sua "falecida" mulher surge passados 21 anos, com as promessas de um regresso, uma visita que levará o nosso protagonista a um turbilhão de emoções.

 

ismaels-ghosts.jpg

 

Desplechin cria um filme sob vários tons; temos a nosso dispor rastos policiais, comédia, romance, drama e um ocasional artificialismo que faz antever um realizador pronto a proclamar-se como autor. Mas nada destas alterações "de espírito" parecem desaguar, e a obra resulta num distorcido ensaio de géneros, sem a devida convicção do seu feito. Ou talvez uma imensa e supérflua convicção. Desplechin cita Pollock e é sua intenção o fazer um filme sob os efeitos desses esquemas de cores, dessas experiências, dessas divergências que cooperam em prol de um único objectivo, a criação de uma obra. Mas o registo falha, nada cola  por aqui.

 

Voltando ao primeiro ponto, foi a indiferença que marcou esta sessão, onde nenhuma reacção, nenhum descontentamento, indignação, aprovação, ou sorriso são de destacar. E no Croisette isso não é claramente um bom sinal!

 

739eb87ce06b20cb8d7948d9dc253143157ec55f.jpeg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:32
link do post | comentar | partilhar

15.5.17

18527887_10208899037210075_1910374932379137146_n.j

Caros leitores, é só para avisar que os próximos dias o signo deste blog será Cannes.

 

Conforme seja as vossas escolhas, bons filmes.

 


publicado por Hugo Gomes às 20:20
link do post | comentar | partilhar

6.5.17

Lost City of Z crop.jpg

Com a chegada de um novo filme de James Gray, eis o reinício da batalha campal. De um lado, os aficionados do seu “cinema” (se assim poderemos dizer), da anunciação de um Messias dentro de uma indústria cada vez mais decadente (sim, podem apelidar-me de "drama queen", se quiserem); do outro, aqueles que simplesmente desprezam ou que não entendem este fenómeno. Confesso que me integro no segundo grupo, e por mais chances que dou ao realizador nova-iorquino, acabo sempre por deparar em mais um ensaio de decorativismo, um homem que anseia sentar na mesma mesa de Coppola, Cimino ou de Scorsese, esses recriadores da Nova Hollywood, ao invés de seguir num percurso próprio. Enfim, do outro lado do campo bélico, são demasiados os adjectivos e elogios quase lisonjeadores à sua existência... mas aqui a questão não é a sua “sobrevalorização” ou “subvalorização”, conforme seja o partido que o leitor integra, mas sim, o debate em relação ao seu feminismo.

Os “grayanos” (chamaremos assim esta legião de adeptos) “meteram o pé na poça” quando atribuíram o título de “único realizador feminista da actualidade” a James Gray. Caros amigos, Gray pode ser muitas coisas, mas feminista não. Aliás, nesse mesmo tópico, sempre se revelara o contrário - um homem de fortes vínculos da sua masculinidade e nesse campo, por exemplo, serviu como uma âncora para a sua anterior obra: The Immigrant. No vaiado filme de Cannes que fez “chover rosas” em Portugal, o enredo focava um dos grandes fluxos migratórios nos EUA, com emigrantes vindos dos mais diversos locais, entre os quais, como no caso da protagonista interpretada por Marion Cotillard, da Europa do LesteThe Immigrant remexe então num lugar-comum, o Paraíso transformado num Inferno, onde a alma de uma “alien” (outro termo para estrangeira) é deturpada por uma entidade quase faustiana - neste caso, Joaquin Phoenix a servir de proxeneta.

 

ImmigrantJamesGray.jpg

Neste percurso quase ético e regido pelo factor de sobrevivência, ficamos a mercê de duas figuras ambíguas (sim, a nossa estrangeira não é flor que cheire), mas é na personagem de Phoenix que apercebemos essa compaixão masculina. Por mais “atrocidades” que esta personagem faça à protagonista, um poço de antagonismo adereçado num arquétipo comum, é diversas vezes desculpado por uma iminente cumplicidade entre realizador e personagem. Afinal o nosso Phoenix tece sentimentos para com a nossa Cotillard, mas o seu sentido de sobrevivência fala mais alto e ao de cima surge um oportunismo quase vilipêndio. Mas é aí que Gray trai-nos. Os seus sentimentos supostamente amorosos são realçados no ultimo terço, sobrepostos nas intenções animalescas de Cotillard. São provas de amor, segundo Gray - o platonismo como desculpa para não odiarmos a personagem e para sentirmos uma compaixão, e por sua vez, o julgamento ético a Cotillard, simplesmente porque tudo é apresentado como uma questão de carisma. Phoenix ganha, a sua personagem vive, e a Mulher é salva pelo derradeiro acto de caridade.

 

A nossa intenção não era demonizar Phoenix e criar em Cotillard a mais angelical forma. O feminismo nada tem a ver com diferença, mas com igualdade, e sob essas mesmas linhas, porque não os mesmos traços de ambiguidade e antagonismo. Mas Gray torna-se paternalista em relação a Phoenix e no final, sentimos o pior dos sentimentos em relação à sua figura: pena.

 

primary_theimmigrant05_lg.jpg


No caso de The Lost City of Z, esse seu novo filme, o caso de masculinidade é mais agravado, até porque James Gray decide assumir-se como um feminista e o resultado é puro panfletarismo. A personagem de Sienna Miller é um espectro que dita constantemente um discurso de igualdade, uma preocupação quase "sufragette" militarista. Não verdadeiramente sentido como um ato próprio desta personalidade; ao invés disso, uma preocupação com uma agenda politica e um receio enorme pela onda politicamente correcta e do activismo persistente que hoje dita os nossos dias. Por outras palavras, James Gray é um cobarde, um homem regido por uma passividade moral e pior, caído nas modas diárias. Até porque isso faz parte da sua natureza, a de se inserir num grupo e não o de formar um novo. Em relação a Sienna Miller, temos a continuação da actriz como uma bengala de suporte feminino aos incontáveis heróis do seu tempo, tal como executara em American Sniper de Clint Eastwood.

Resumindo e concluindo, James Gray poderá ser tudo … menos um feminista.

 

The-Lost-City-of-Z-Sienna-Miller.jpg

 

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 14:05
link do post | comentar | partilhar

4.4.17

ghost-in-the-shell-2017-trailer-ed.jpg

A polémica instalou-se com as declarações do vice-presidente das vendas da Marvel, David Gabriel, em que, passo a citar, "os nossos leitores não querem diversidade". Esta afirmação advém das estatísticas que apontam baixas vendas nas suas reinvenções "étnicas". Falamos de um Spider-Man negro de ascendência hispânica, uma Iron Man que também é muçulmana, entre outros. Tudo, segundo Gabriel, destinados ao fracasso, visto que a Marvel parece estar hoje condenada ao prolongamento do trabalho efectuado por Stan Lee.

rs-247500-marvel-comic-invincible-iron-man-female-

Se a diversidade é a culpa do flop, dizem as más línguas, do outro lado, Ghost in the Shell parece fracassar nas bilheteiras por motivos completamente adversos. Segundo a imprensa, e os analistas de box-office, esta readaptação da manga de Masamune Shirow encontra-se sob sentença de "fiasco" devido à controvérsia whitewashing ("branqueamento" das personagens), em particular, na escolha de Scarlett Johansson para interpretar uma personagem japonesa (sinceramente, nem sei quem referiu a nacionalidade de uma cyborg, mas já lá vamos).

ghost-in-the-shell-geisha.jpg

Antes de mais, devo salientar que este texto não vem defender qualquer ideologia de supremacia branca, no qual a diversidade é má ... blá, blá, blá ... e o que está em jogo é manter-se tudo em "branco". Deixemos os populismos de hoje para outras alturas. Por outro lado, esta base politicamente correcta que tem o seu lobby, afecta verdadeiramente o activismo que fora confrontado durante este anos todos desde que o Cinema "aprendeu a andar" e que Griffith apresentou-nos a sua faca de dois gumes, The Birth of the Nation. Existe sim, uma boa intenção de derrotar um Golias, o associar um fracasso de um filme de milhões a um movimento de modernidade cultural, mas devemos antes perceber que na realidade falta muito para que estes tópicos consigam abalar uma megalómana indústria. Podemos estabelecer personagens que conhecemos com outras identidades, sendo que nada mudará.

ghost-in-the-shell-010.jpg

O fracasso de Ghost in the Shell é uma simples prova de que o público não se dirige ao cinema para assistir aquilo que desconhece. Primeiro de tudo, Ghost in the Shell, a manga e o anime, são objectos de culto, ou seja, estão restringidos a um certo tipo de audiência e essa mesma que nos deparamos como o potencial comprador dos bilhetes. Agora, quem conhece o universo do anime, perceberá que esta mesma audiência é preconceituosa em relação a conversões, principalmente a produções hollywoodescas dos trabalhos que tanto admiram. Por exemplo, basta invocar os ruinosos resultados de Dragon Ball Evolution para perceber do que se fala. 

ghost-shell-movie-filming-scarlett-johansson.jpg

Nos dias de hoje, os campeões de bilheteira desta década são concretamente aqueles filmes, cuja matéria-prima possui uma base, por si, sustentável (adaptações de comics da Marvel ou DC, Fifty Shades of Grey e populares bestsellers), ou matéria conhecida para as audiências que sofrem de extrema amnésia. Veja-se o caso de Fast and Furious, o qual milhões já compraram bilhetes para a estreia, ou de Beauty and the Beast (Bela e o Monstro), um frame-to-frame da propriedade Disney e um dos exemplos mais metódicos da formatação industrial, cujo público parece não se importar. 

beauty-and-the-beast-2017.jpg

Em relação aos fracassos, enumero dois casos distintos: o de John Carter, inspirado numa série de livros de aventuras do inicio do século XX, e cujo o filme parecia estar limitado um público mais velho do que a faixa etária que habitualmente "compra os ditos bilhetes"; e Pacific Rim, a homenagem de Guillermo Del Toro a um subgénero completamente nipónico que nada de relacionado possui com o público ocidental. Sim, ambos falharam nas bilheteiras norte-americanas de forma quase humilhante.

bg_0.jpg

Por isso, proclamar festivamente que Ghost in the Shell fracassa em consequências de um movimento de activismo cultural, é, para além de tudo, desconhecer os padrões que movem verdadeiramente a indústria de Hollywood. Porque para criar filmes protagonizados por uma diversidade étnica, cultural, género e religiosa, não basta mudar o pensamento dos estúdios, mas sim, começar a revolucionar as suas audiências. E já agora, originalidade e a criatividade, deveríamos começar por inserir isto no nosso quotidiano cinematográfico. 

scarlett-johansson-become-invisible-in-ghost-in-th

 

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 14:07
link do post | comentar | partilhar

14.3.17

beauty-and-the-beast-trailer.jpg

No ano passado, num divulgado trailer de Finding Dory, era possível ver duas mulheres com uma criança, imagem essa, que instantaneamente foi deduzida como um casal de lésbicas. A homossexualidade iria por fim entrar no universo Pixar, um prenuncio que suscitou euforia para a comunidade LGBTQ e profecias de destruição moral por parte do leque mais conservador. Até à sua estreia, Finding Dory usufrui deste tipo de publicidade, positiva ou negativa, consoante a perspectiva e ideologia de cada um. O resultado foi, simplesmente, fogo de artificio, as duas personagens nada de relacionado davam a entender. Para algumas publicações e órgãos de comunicação, a oportunidade foi vista como um total desperdício.

 

Um ano depois, não propriamente no seio Pixar, mas nos estúdios Disney, o anúncio de por fim, uma personagem gay neste Universo, levantou, igualmente, muitos festejos como também reacções espontaneamente negativas em relação à nova versão de The Beauty and the Beast (A Bela e o Monstro). Desde a boicotes, censuras em cinemas de Alabama (sim, territórios norte-americanos!), alterações da classificação etária em território russo, adiamentos na estreia em alguns países como a Malásia, de forma a conseguir cortar a respectiva sequência, ou seja, o Mundo ficou de pantanas ao ter conhecimento numa persistência homossexual nas produções dirigidas a famílias.

 

lefou9f-1-web.jpg

 

Será isto uma ameaça real aos velhos valores morais, ou tudo se deve ao facto de vivermos num Mundo cada vez mais governado pelo populismo e por mentalidades arcaicas? Que perigo encontraremos numa personagem destas num filme orquestrado para uma vasta gama de audiências? Caros leitores, antes de mais, não existe qualquer perigo nisto. Mais uma vez, a oportunidade foi desaproveitada, a dita cena "homossexual" é vista por breves segundos e utilizado como um veículo cómico (quantas comédias é que utilizam a homossexualidade como gag e são devidamente aceites em sociedade conservadoras?), provavelmente de forma a não prejudicar o frame-to-frame que o filme ousa em assumir-se. O veredicto é que até nesta vertente de ser avant-garde do cinema familiar, A Bela e o Monstro converte-se igualmente conservador e reservado nesta matéria.

 

Sendo assim, a Disney provou ser capaz para tocar no tema, e sem precisar de grandes anúncios, veja-se por exemplo na chuva de beijos num segmento da série infanto-juvenil Star Vs the Forces of Evil (ver abaixo), que sim, passou na televisão e não usufrui de igual mediatismo.  

 

Disney_gay_kiss_810_500_55_s_c1.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 22:08
link do post | comentar | partilhar

27.2.17

oscars-best-picture-moonlight.jpg

City of Stars ecoa como um hino de derrota, uma triste melodia que protagonizou um dos (se não o) momento mais caricato da cerimónia e da História dos Óscares. Segundo consta, o erro esteve num envelope equivocado, um erro descoberto tarde demais, no preciso momento em que a equipa do musical discursava os seus agradecimentos. O prémio máximo acabaria por ser entregue a Moonlight, a resposta mais marginal às luzes e sons de La La Land. Durante alguns segundos, o musical mais amado/odiado da actualidade converteu se num filme de compaixão, até porque se livrou da maldição do Óscar, e essa mesmo abateu-se na obra de Barry Jenkins. Só o tempo dirá o que esta "valorização" vai significar.

 

BN-SC643_0215la_TOP_20170215020310.jpg

 

Como sabem, a estatuetas douradas não são  mais que meras representações de consenso oriundo de votantes, que, sabe-se lá de onde, adoram sentir-se humilhados com as declarações anónimas para a The Hollywood Reporter. Ao ver essas publicações, percebemos que de consciência crítica, esse grupo raramente o possui. É tudo uma questão de gosto, e até que ponto os separa do mais mundano espectador? Aliás, filmes como Hacksaw Ridge nunca teriam lugar numa lista composta pelos suposto "melhores do ano" … Reformulando, nenhum daqueles nomeados merecia tais títulos, mas isso é outra conversa.

 

BN-SG485_Oscars_M_20170227002830.jpg

 

Se o final foi inesperado, até mesmo para quem contava com a vitória de Moonlight nesta noite de "cartadas políticas" e de pouco cinema, o resto da cerimónia foi de puro tédio. Para além da previsibilidade, ainda tivemos que contar com a perpetuação de uma certo conformismo, e destaco, obviamente,  dois Óscares em particular. O primeiro, o de Melhor Animação, onde numa lista composta por três formidáveis exemplares, longe dos grandes estúdios, a Academia se vergou perante a trivialidade de Zootopia. Parece que a Disney continua a possuir o seu peso nas decisões dos votantes. Já o segundo, foi o desperdiçar de uma oportunidade de fazer certo, o de entregar o prémio a Isabelle Huppert pelo seu desempenho em Elle, aquele "murro no estômago" de Paul Verhoeven. Nesta decisão foi o "sangue novo" que persistiu, como sempre, e Emma Stone conseguiu erguer o troféu com graça. Porém, a tristeza sentiu-se do outro lado.

 

emma-stone-0.jpg

 

Resumindo a noite, Moonlight ganhou … ganhou, mas a sua vitória saiu ridicularizada, e triste. Será que alguém se lembrará do filme sem o associar a este "estranho" episódio? E até que ponto a sua vitória, não foi a vitória do politicamente correcto? De momento, iremos deixar o ódio, muitas vezes, irracional que La La Land parece ter tecido antes dos Óscares, e esperar qual destes filmes terá o "privilégio" de ser relembrado como "aquele que definitivamente merecia a estatueta". 

 

MV5BMjA3OTg2MTI5Nl5BMl5BanBnXkFtZTgwODQ5NDc5OTE@._

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:29
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

26.2.17

2017-oscars-89th-academy-awards_3hjg.jpg

Filme: Julgo que o prémio mais cobiçado da cerimónia sairá para Moonlight, somente por questões politicas, visto que a obra de Barry Jenkins aborda uma minoria que tende em ser desprezada neste tipo de prémios. Outro factor, tem sido a fustigação que La La Land, outrora favorito ao prémio máximo, recebe diariamente da imprensa que em tempos o fez tornar num dos favoritos da noite. A má publicidade não dá tréguas.

 

21MOONLIGHT-master768-v4.jpg

 

Não encontro nenhum dos nomeados que mereça o título de Melhor Filme, este ano, sobretudo, os escolhidos estão muito aquém do melhor que Hollywood já produziu e dois deles, bem poderiam figurar na lista de piores do ano. Esses são Hacksaw Ridge, o embuste bélico de Mel Gibson. É estranho para uma cerimónia preocupada em statment políticos decide nomear um filme que propaga uma mensagem de ódio, e Arrival, que evidencia um argumento "frankenstein" e pouco coeso. Merecedor? O meu favorito da lista é aquele que tem menos probabilidades de vencer, Hell or High Water, um anti-western que exorciza uma América à deriva.

 

LaLaLand-1.jpg

 

Realizador: Barry Jenkins e o seu Moonlight vão levar o prémio desejado desta noite. Mas Damien Chazelle também tem as suas hipóteses, e diga-se por passagem, o seu trabalho em La La Land é merecedor de tal estatueta. Enquanto isso, Mel Gibson entre os nomeados é um dos grandes mistérios do cinema recente.

 

transferir (2).jpg

 

Ator: Denzel Washington levará o prémio esta noite, tudo porque o caso de assédio sexual mal abafado poderá prejudicar a "glória" de Casey Affleck, visto como o grande favorito. Este último não era uma má escolha, até porque o underacting é diversas vezes subvalorizado para a Academia. Também não ficaria desolado em ver o prémio a seguir para as mãos de Viggo Mortensen, o melhor num filme completamente ingénuo.

 

manchester-by-the-sea-4-casey-affleck-53aed48d-aa6

 

Atriz: Emma Stone brilha em Hollywood, e este adora premiar "sangue novo", porém, Isabelle Huppert tem a sua fatia de hipóteses. Quanto a méritos, Huppert é o único Óscar de interpretar que desejo ver a ser atribuído. A atriz francesa tem sido implacável no seu empenho num filme tão ousado para o panorama politicamente correto que se vive.

 

49315841.cached.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 19:42
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

9.1.17

moonlight-golden-globe-win.jpg

La La Land está destinado a ser o grande triunfante desta award season, fala-se de Óscar por estes lados, sendo que a grande concorrência seja Moonlight. Contudo, existe um pequeno grupo que aposta num eventual despertar de Fences, de Denzel Washington, por enquanto é o grande “front runner” de actriz secundária.

 

Manchester By the Sea tem todos os motivos para sorrir, mais concretamente Casey Affleck e o seu motivador underacting. Os Globos de Ouro acabam por demonstrar o quanto os Óscares perderam em retirar Elle dos pré-nomeados do Prémio de Melhor Filme de Língua Estrangeira, felizmente a premiação de Isabelle Huppert é uma luz ao fundo do túnel. Esperemos que os Óscares tenham tamanha coragem para laurear a actriz.

 

Zootopia a exibir o favoritismo da Disney, tendo em conta que Kubo and the Two Strings e Ma Vie de Courgette são melhores propostas no ramo animado e Meryl Streep a proferir um valente discurso sobre a Humanidade na politica, tendo como principal alvo a Trump e este a responder, por via Twitter, que foi atacado por uma das sobrevalorizadas actrizes de Hollywood. Infelizmente, nesse ponto, concordo com Trump.

 

864x486.jpg

 

Melhor Filme (Drama): "Moonlight"

Melhor Filme (Comédia/Musical): "La La Land"

Melhor Realizador: Damien Chazelle, "La La Land"

Melhor Actor (Drama): Casey Affleck, "Manchester by the Sea"

Melhor Actriz (Drama): Isabelle Huppert, "Elle"

Melhor Actor (Comédia/Musical): Ryan Gosling, "La La Land"

Melhor Actriz (Comédia/Musical): Emma Stone, "La La Land"

Melhor Actor Secundário: Aaron Taylor-Johnson, "Nocturnal Animals"

Melhor Actriz Secundária: Viola Davis, "Fences"

Melhor Argumento: "La La Land"

Melhor Filme em Língua Não-Inglesa: "Elle" (França) 

Melhor Filme de Animação: "Zootopia"

Melhor Banda Sonora Original: "La La Land"

Melhor Canção Original: "City of Stars", "La La Land"

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 18:07
link do post | comentar | partilhar

31.12.16

Como já é habitual, eis a resolução de 2016 com os 10 melhores filmes do ano, segundo o Cinematograficamente Falando … Chineses a aprenderem a serem chineses, juventude inconstante, animações de tira o fôlego, oitos desprezíveis e uma casa e o mais belo filme de guerra (sem guerra) dos últimos anos.

 

#10) Mountains May Depart

 

12MOUNTAIN-master768.jpg

 

O agridoce drama de Jia Zhang-Ke prevê um fim da cultura chinesa e o expansão completa do Ocidente globalizado e heterogéneo. Mas para além da sua crítica evidente, principalmente no terceiro acto onde adquire tons de distopia, Mountains May Depart é o reencontro com as raízes que muitos tendem em abandonar. Para além disso, eis a grande ressurreição de Go West, de Pet Shop Boys. [ler crítica]

 

#09) Kubo and the Two Strings

 

methode%2Ftimes%2Fprod%2Fweb%2Fbin%2F3fe90068-75c0

 

Como já havia escrito, é puro cliché salientar a árdua tarefa de stop-motion e o esforçado trabalho que os estúdios Laika tem vindo a demonstrar nestes últimos anos. Kubo and the Two Strings é mais que um portento técnico-visual, é uma fábula encantada de "triste beleza" que nos dialoga sobre a perda e como superá-la por vias de outras curas. No campo das animações direccionadas para toda a família, tal mensagem é valiosa e por vezes evitada por motivos comerciais. [ler crítica]

 

#08) American Honey

 

american1.jpg

 

Os jovens de Dazed and Confused tiveram filhos, e esses "rebentos" povoam agora o universo de American Honey, um país onde a doçura não mora aqui, o que não evita as suas personagens procurá-la. Na América de Trump, estes rebeldes sem causa seguem por estradas milésima vezes caminhadas ao som das suas regras como um tribo de "meninos perdidos" de Peter Pan. Entre os peregrinos encontramos a revelação Sasha Lane, que sob as ordens de Andrea Arnold, desbota uma emoção algo perdido numa demanda ausente de tais vencidos sentimentos. A viagem não será para todos, principalmente para quem ingenuamente acredita que a juventude é sagradas e imaculada na sua inocência. [ler crítica]

 

#07) L'Attesa

 

lattesa01_0.jpg

 

Piere Messina constrói um filme de gestos e de olhares, onde a perda tenta ser lidada por entre os silêncios. Os diálogos são raros, mas a espera é intensa, por entre uma atmosfera magnética e duas actrizes que se complementem numa só causa, L'Attesa (A Espera) é o mais recente filho de Persona, de Bergman, é o cinema de mulheres fragilizadas na descoberta da sua posição anteriormente questionada. [ler crítica]

 

#06) O Filho de Saul

 

SAUL_FIA_SON_OF_SAUL_Still.jpg

 

O horror acontece na porta ao lado, o medo atinge a sala oposta e o pânico é evidente pelo qual o nosso olhar desvia, ignorando o pesadelo que vivemos. Saul Fia (O Filho de Saul) atinge com uma abordagem improvável no cenário do Holocausto, revisitando os Campos de Concentração para uma perspectiva nada pensada anteriormente. Adeus dramalhões de puxar as lágrimas, até breve cinema estampado no preto-e-branco, bem-vindo Filho de Saul, a citar Primo Levi, a busca da Humanidade onde esta parece ter sido abandonada. [ler crítica]

 

#05) Elle

elle_movie.jpg

 

 

Isabelle Huppert constrói em cumplicidade com o agora valorizado Paul Verhoeven uma das mais consistentes e complexas personagens femininas do cinema de 2016. Uma mulher refém do seu desejo, mas forte o suficiente para superar qualquer obstáculo inserido, é a carne e a fantasia unidas ao encontro de um só corpo, um thriller que parece emancipara-se das suas próprias raízes e por fim, dignificar a "vitima" e não o predador. Será Elle a obra-prima há muito pedida de Verhoeven? Só um o tempo dirá, novamente. [ler crítica]

 

#04) Anomalisa

 

Brody-Anomalisa-1200x630-1451402777.jpg

 

Tendo como inspiração uma peça teatral, Charles Kaufman e Duke Johnson insuflam vida nestas marionetas para a concepção de um enredo de colectividade, onde o individualismo, essa particularidade vivente em cada um de nós, é uma jóia a ser "desenterrada". O Mundo parece igual a si mesmo, todos parecem exibir a mesma face, as mesmas doutrinas, as ideias empacotadas como ovelhas em rebanho. Depois de A Grande Beleza, de Sorrentino, Anomalisa é esse ensaio existencialista que secretamente ansiávamos. [ler crítica]

 

#03) El Abrazo de la Serpiente

 

serpiente2.jpg

 

Ciro Guerra explora um desconhecido universo. A indomabilidade da Amazónia alastra em todo um filme, conduzindo esta história contada em duas vozes e em dois tempos para territórios místicos, quase pagãos que renegam as culturas e crenças de fora. É o desconhecido que nos espera em cada margem do rio Amazonas, é o caos, a loucura, a peste, a febre e por fim, a harmonia encontrada no segredos dos segredos, residido no mais alto cume. A selva também sabe contar histórias. Histórias essas, que reflectem a actualidade do nosso Mundo e para onde caminhamos como seres humanos. Esquecimento, essa terrível maldição, não será imposta aqui neste brilhante filme.  

 

#02) The Hateful Eight

 

hateful_eight_twc_1.0.0.jpg

 

Podem considerá-lo violento, regido ao universo que ele próprio criou através de "migalhas", nada original, reciclável e até vendido. Podem apelidá-lo do que quiser. Quentin Tarantino merece a atenção. O realizador de Pulp Fiction persiste nos temas focados no seu anterior Django para exercer um western gélido que tem como palco o passado, o presente e o futuro de uma Nação. É como "Um Conto de Natal", neste caso, Um Conto de Tarantino, rodeado de personagens taraninescas que despertam o mais profundo jubilo cinéfilo. Longa Vida a Tarantino! [ler crítica]

 

#01) Cartas da Guerra

cartasdeamor154536.jpg

 

Sei que existe o senso colonialista dentro de nós, mas este não é um filme colonial, nem sequer de guerra. É um romance à distância, a da condição do soldado confinado à sua própria solidão, aquela prisão invisível induzido por politicas de outros. É a extrema luta de manter sóbrio perante um mundo bêbado que nos assiste. Ivo M. Ferreira invoca o verdadeiro soldado, não a máquina implacável de guerra implementada pelos prolongamentos do Call of Duty, mas de um homem "barricado" nos seus pensamentos, na saudade de uma outra vida que não seja aquela, mesmo sabendo que pouco sabemos como vivê-la - A Vida Civil.

 

 

Menções honrosas: O Ornitólogo, O Boi Néon, Evolution, The Childhood of a Leader, The Lobster, O Olmo e a Gaivota

 

Melhor Actor: Leonardo DiCaprio (The Revenant)

Melhor Actriz: Isabelle Huppert (Elle)

Melhor Realizador: Ivo M. Ferreira (Cartas da Guerra)

Melhor Argumento: The Hateful Eight

Melhor Efeitos Visuais: The Jungle Book

 

Melhores filmes vistos em festivais: The Witch (Indielisboa), A German Life (Doclisboa), Aquarius (Cannes), Paterson (Cannes), A História da Eternidade (FESTin)

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 14:36
link do post | comentar | partilhar

30.12.16

Antes de conhecermos os melhores do ano para o Cinematograficamente Falando …, ficamos com as 10 "tentativas" estreadas entre nós. Em 2016, fomos expostos a uma selecção de heróis fascistas, porém reféns de uma industrialização formulaica, franchises falhados, horizontes não alcançados  no cinema português e até, uma animação de violência castrada. Eis os 10 piores filmes do ano para este estaminé.

 

#10) Captain America: Civil War

 

captain-america-civil-war-movie-reviews.jpg

 

O leitor estará neste momento a questionar, porquê que num ano com tantos super-heróis,  Capitão América: Guerra Civil integra esta lista? Simples, para além da homogeneidade do projecto, a Marvel novamente sem personalidade nos seus eventuais capítulos, temos um filme incoerente disfarçado através de uma narrativa linear (ao contrário da "barafunda" cronológica de Batman V Superman que foi o seu grande pecado). Nessa incoerência encontramos uma aspiração de episódio político que de político nada tem, desde um Capitão América que desafia a ONU para prevalecer as suas ideologias de invasão autodidacta, até a um Homem de Ferro preocupado com danos colaterais e de assumir responsabilidades que mesmo assim recruta um jovem de 15 anos para combater na sua causa, chegando por fim a um plot device tão idiota como a "Martha" do filme de Snyder. Depois desta "guerrinha", tornam-se todos amigos, sem baixas, até porque as personagens são demasiado importantes para a Disney em futuros rendimentos. Fascismo industrialista contado para "criancinhas". [ler crítica]

 

 

#09) Underworld: Blood Wars

 

underworldBWheader.jpg

 

Todos nós sabíamos que daqui não vinha coisa boa! Uma saga moribunda que bem poderia ter ficado pelo terceiro filme e mesmo assim é o exemplo perfeito de uma Hollywood capitalista que "suga" a fórmula até mais não existir. O original de 2003 não era perfeito, porém, possuía efeitos práticos que soavam como homenagens ao classicismo destes monstros e até mesmo ao referência ao ainda imbatível American Werewolf in London, de John Landis. Enfim, o facilitismo do CGI torna-se assim, neste caso, na destruição da única réstia de personalidade que esta jornada de Kate Beckinsale de cabedal continha. [ler crítica]

 

 

#08) Refrigerantes e Canções de Amor

 

1c276845782490807dc1e8d8f5459f629e75bdec.jpg

 

De boas intenções o Inferno está sobrelotado, e no caso desta comédia romântica de Luís Galvão Teles, tal não lhe safa. Escrito por Nuno Markl, que provavelmente são as suas ideias que funcionam como vigas de suporte neste tremendo desastre, eis cinema sem ritmo, de mau timing, desempenhos oblívios e uma tendência caricatural extremista que sufoca o potencial que esta obra havia depositado desde a sua produção. Ah … já me ia esquecendo! Victoria Guerra vestido de dinossauro cor-de-rosa bate aos pontos qualquer interpretação aqui inserida. [ler crítica]

 

 

#07) La Corrispondenza

 

libro-la-corrispondenza-giuseppe-tornatore-film.jp

 

Os tempos de Cinema Paradiso já lá vão e o sabor algo requintado em La Megliore Offerta foi "sol de pouca dura". Giuseppe Tornatore, motivado em conquistar as audiências de todo o Mundo, explora um dramalhão romântico protagonizado por Jeremy Irons e Olga Kurylenko. Os actores não se esforçam, aliás devem ter sido os primeiros com a noção do mau argumento pelo qual guiam. [ler crítica]

 

 

#06) Gods Of Egypt

 

gods-of-egypt.jpg

 

O problema não é a falta de diversidade do elenco, o "whitewashing" pelo qual este filme foi "abatido", muito antes da sua estreia. Mas sim, pela enésima invocação da fraudulenta fórmula industrializada. Com a desculpa de ter como inspiração a mitologia do Antigo Egipto, Gods of Egypt é uma sonsice irreconhecível, das mãos de quem em tempos nos deu um dos mais inteligentes blockbuters da sua temporada - I, Robot.  No final quem sai do visionamento irá saber o mesmo sobre esta vasta mitologia da mesma forma como entrou. Hollywood no seu "melhor"! [ler crítica]

 

 

#05) The 5th Wave

 

here-s-why-you-need-to-see-the-5th-wave-where-do-w

 

Chloe Grace Moretz é a última esperança da Humanidade no combate contra temíveis alienígenas. Uma adaptação de uma série infanto-juvenil literária que, pelo "andar da carruagem", ficará somente por este episódio-piloto. O filme foi um flop, o público não teve a "pachorra" para mais variações de Twilight ou Jogos da Fome (aliás, os ecos fizeram sentir no terceiro capítulo de Divergente). Contudo, The 5th Wave não deixa qualquer indicio de frescura nesse mesmo subgénero, é "cinema-pipoca" da mais preguiçosa espécie. [ler crítica]

 

 

#04) Now You See Me 2

 

zrAO2OOa6s6dQMQ7zsUbDyIBrAP.jpg

 

O primeiro filme poderia ser competente, se não fosse um twist final imaturo e armado em "sabichão". A sequela vai pelo mesmo caminho, e pior, mantêm a estupidificação do argumento do início até ao fim. Sabendo que nenhum mágico revela os seus truques, em Now You See Me 2, o que está em jogo já não é mais ilusão, é a pura da incredibilidade. Depois, de forma a manter a tradição, o twist final é também ele … pavoroso. [ler crítica]

 

 

#03) The Secret Life of Pets

 

rs-247207-RS-The-Secret-Life-of-Pets.jpg

 

O que vamos oferecer às nossas crianças? Que tal uma animação que foge dos parâmetros da premissa, esquiva da originalidade e preza-se na previsibilidade? Que tal uma animação que alicerça o seu enredo numa amontoada dose de violência sem sentido, mas de forma tão subversiva que os defensores do controlo parental vão sorrir como se nada fosse? Porquê considerar Tom & Jerry e Looney Tunes obscenos que temos aqui o slapstick exagerado e sem moralidade em forma de animação precoce. Para mal dos nossos pecados, a sequela vem a caminho. [ler crítica]

 

 

#02) The Hunstman: Winter's War

 

huntsman.jpg

 

Nós não precisávamos desta sequela! Então porquê "gramar" com um embrião de grande produção, com actores forçados por clausulas contratuais e um argumento, que para além da previsibilidade, atenta-nos como um spoof involuntário dos épicos fantásticos. Mas por graças divina foi um flop, ao menos isso, sem a necessidade de mais uma sequela. [ler crítica]

 

 

#01) Dheepan

 

dheepan_edit-xlarge.jpg

 

O vencedor da Palma de Ouro da edição de 2015 do Festival de Cannes tem um lugar especial neste pódio. Porquê? Porque Dheepan, de Jacques Audiard, é um comboio que descarrila acidentalmente no seu percurso. O que iria ser uma espécie de cinema verité sobre refugiados, acaba por espelhar um medo irracional por estes. Audiard, por sua vez, queria demonstrar como a França é o país mais xenófobo do Mundo, com o auxílio de um cenário pastiche e profundamente desencantado para adereçar a um arquétipo de filme de acção lá pelo meio. No final temos a "comparaçãozita". A triste comparação que apenas evidencia que Audiard não sabe do que está a falar, nem muito menos abordar um tema tão actualmente mediático que é a crise dos refugiados, onde todos parecem ter uma particular opinião. [ler crítica]

 

Menções desonrosas: Hacksaw Ridge, X-Men: Apocalypse, Ben-Hur, Point Break, The Girl on a Train, Inferno

 

Pior actor - Theo James (Underworld: Blood Wars)

Pior actriz - Emilia Clarke (Me Before You) ex-aequo Leana Martau (A Canção de Lisboa)

Pior realização - Cedric Nicolas-Troyan (The Huntsman: Winter's War)

Pior argumento - The Secret Life of Pets

 

Piores filmes vistos em festivais: Vangelo (Doclisboa), As Cartas de Amor são Ridículas (FESTin), Sadako Vs Kayako (MOTELx), The Last Face (Cannes), Il Nome del Figlio (8 1/2 Festa do Cinema Italiano)

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 

 


publicado por Hugo Gomes às 18:22
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

7.9.16

unnamed.jpg

Como já era previsto, muitos foram aqueles que seguiram em massa para a abertura do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Aliás não são todos os dias que um festival lisboeta consegue chegar às 10 edições, sendo que, segundo os organizadores que discursaram na sessão de arranque, 2016 será um ano em festa, não apenas como data comemorativa (os por fim dois dígitos), mas pela apresentação de grandes novidades dentro da programação.

 

Dentro desse ramo, a Competição de Longas-Metragens é um feito, um sonho desejado pelo MOTELx durante os 10 anos de percurso que teve por fim concretizado. Esperemos, partilhando o mesmo desejo que os programadores, a hipótese de vermos longas-metragens de terror nacionais em competição num futuro próximo. Nas Curtas-Metragens existe também superações, o prémio da Competição é o maior de sempre no que refere a festivais nacionais, 5.000 euros serão dados à curta elegida pelo júri. Os resultados, por enquanto, só dia 11 de setembro, a data que marca um encerramento de mais uma “invasão” terrorífica na capital portuguesa.

 

Depois de apresentados os “brindes” deste MOTELx 2016 é então que é exibido o descrito filme-sensação Don’t Breathe (Nem Respires), que tem vindo a conquistar o box-office dos EUA durante duas semanas consecutivas, destronando o Suicide Squad. O público parece ter admirado com força a esta proposta de Fede Alvarez, o homem que cometeu a “loucura” de refazer o tão amado Evil Dead em 2013. Contudo, mesmo com óptima recepção por parte da audiência, uma sessão divertida e interactiva que contou com imensos aplausos, risos e até mesmo inquietações. Mas para o lado do Cinematigraficamente Falando … o fascínio parece ter ficado à porta.

 

dont-breathe-1.jpg

 

Nem Respires possui mestria técnica, nisso Fede Alvarez tem a minha saudação, os movimentos de câmara servem como “bengala de Hoover” para condensar o espaço sugerido do cenário e a sonoplastia é um acessório perfeito para acolher o ambiente claustrofóbico. Mas então o que falhou?

 

De Fede Alvarez, de todo o frenesim impulsionado pela crítica norte-americana, muito mais com as intermináveis aclamações da palavra “original”, esperava-se isso mesmo, uma proposta sobretudo criativa. Ao invés disso temos a confirmação dos problemas que tem vindo a abalar os filmes de estúdio, os receios de apresentar-nos personagens sem motivos (o medo dos EUA pelo ateísmo já é deplorável), implantam-nos maniqueísmo que nos leva aos acérrimos lugares-comuns. Aqueles momentos chaves desengonçados que apenas alimentam uma narrativa que ficaria dotada no minimalismo.

 

Nem Respires revelou-se numa proposta perdida no enxugado subgénero do home invasion, o enésimo caso do terror é sodomizado pelos estúdios e pela fórmula crowd pleasure. Deixou-se de lado as lições aprendidas em See No Evil (1971) e Wait Until Dark (1967), e até mesmo de You’re Next, de Adam Wingard, que encerrou uma edição do MOTELx com grande estilo.

 

You-re-Next-Stills2.jpg

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui


publicado por Hugo Gomes às 18:44
link do post | comentar | partilhar

7.8.16

032616_jared-leto-joker.jpg

Atenção: o artigo que segue não deve ser visto como uma defesa ou ataque ao filme Suicide Squad.

 

Mais uma vez, a imprensa norte-americana não ficou impressionada com outro arranque da DC Comics no seu expansivo universo cinematográfico. Um pouco por todo lado fala-se e reflecte-se sobre uma eventual "campanha negra" que parece condenar Suicide Squad e os seus congéneres.

 

Nessas provas confirmamos desde os incontáveis artigos que prevêem um fim de um franchise (dias antes da estreia do filme em salas) até às críticas de teor difamatório que dão a entender que o filme de David Ayer é um dos piores (se não o pior) do seu género. Por outro lado, a histeria em massa deu resultado a uma petição para acabar com a Rotten Tomatoes, o site agregador de críticas, tendo em conta a negatividade que o Esquadrão e o anterior Batman V Superman obtiveram no meio crítico. Dentro dessa mesma "paranóia", assim por dizer, deparamos com uma teoria da conspiração de que a Marvel Studios em coligação com a Disney tem pago e manipulado a própria crítica de forma a causar um apelativo hype pós-estreia.

 

Antes de avançarmos com teorias, histerias e julgamentos quanto ao filme, devo salientar um verdadeiro problema em todo este cenário, chama-se críticos, ou neste caso a falta deles.

 

suicide-squad-reshoots-harley-quinn-margot-robbie.

 

Primeiro, o que é um crítico de cinema? Um crítico é uma pessoa especializada para analisar, idealizar, debater e teorizar sobre cinema. Uma definição justa que o leitor deve aperceber, mas o que significa realmente tudo isso? A arte da crítica, antes de mais, não serve simplesmente para dizer se o filme em causa é bom, ou não é bom, o crítico deve se estabelecer como um guia, não no sentido de aconselhar o espectador o filme que deve ou não ver, mas o de apresentar as ferramentas necessárias para um eventual debate com o filme. Trata-se da ligação do espectador com o filme, o lançamento de questões, provocações e o incentivo da cinefilia envolta. Não é apenas um jogo de estrelas, sabendo que as estrelas, por sua vez, são atractivos, adereços quase inseparáveis do senso comum da crítica.

 

Aliás, o crítico não deve somente focar no cinema, mas também explorar as outras vertentes que o filme possa indiciar, entre os quais ciências politicas, sociais, psicológicas e emocionais. Existe também uma exploração das outras artes: literatura; pintura; artes plásticas; televisão e até música, sendo possível criar ou recriar ligações entre as mesmas, paralelismos ou simplesmente implementar uma visão "avant-garde" desses meios artísticos.

 

O crítico não deve ter medo de ousar, de exprimir uma ideia tendo em conta que o mundo aponta para outra. Deve-se sobretudo ser imparcial, directo, intelectual e sempre disposto para entender perspectivas para trabalhar a sua própria ideologia. Reavaliar trabalhos e sempre conduzir um olhar por entre os tempos, assim como possuir um paladar diversificado do gosto cinematográfico.

 

enhanced-buzz-wide-22551-1414077018-26.jpg

 

Isto é a definição clara e simplista de um crítico profissional, alguém que respira cinema e que faz desse ar uma linguagem audível e perceptível.

 

Agora o que um crítico nunca pode fazer é acorrentar-se a um sistema de avaliação consoante o seu mero júbilo, o seu prazer sem razão crítica. Infelizmente, é isso que temos evidenciado nessa "mão cheia de profissionais", muitos daqueles que criticaram Suicide Squad usaram o argumento de "not fun" sem qualquer fundamento para ir mais além… Como se isso resumisse a uma crítica e como se o entretenimento fosse a razão crucial para existir o cinema.

 

Os EUA tem essa tendência, uma escola que fora valorizada com a fama crescente de Roger Ebert, um crítico que se seguia sobretudo pelos seus padrões morais e pelo polegar, e cujo seu modo de operação conquistou verdadeiramente as massas. Há sim, com isto, um medo de serem complexos, o de pensarem sobre as imagens, um receio sobretudo de analisar, e nessa fobia, a de afastar da perceção e emotividade com o público.

 

1365117903916.cached.jpg

 

Como funciona este formato de crítica norte-americana? Uma preocupação extrema com os gostos do próprio público. Ebert, por exemplo, tinha sempre notas de quais os filmes que as crianças ou mais novos DEVEM ou não ver. Ou seja, um filme apto para um grande número de audiências era por si, à partida, um grande filme para inúmeros críticos norte-americanos que enchiam manchetes de colunas de jornais com expressões como "a fun ride" ou "two thumbs up".

 

Raramente saem da camada, dificilmente aprofundam a questão e, claro, evitam os case studies. É apenas a opinião do momento, que não terá grandes efeitos para o posteriori, que não edificam os filmes, nem os descrevem sobre filosofia cinematográfica. Existe uma maior preocupação em criar chamariz do que propriamente trabalhar em teses, o de enfrentar principalmente a "chuva de opiniões" que a internet suscitou. 

 

Claro que poderei estar a generalizar! Dentro desse seio "surpreendentemente" valorizado, há exemplos que se destacam, mas quando se referem a blockbusters e neste caso, super-heróis, existe um evidente clubismo e oportunismo de marketing, visto que em terra de Hollywood, são as majors que comandam. Depois existe a noção de que a crítica move mercados, e gera sucessos de bilheteira (uma ideia errada que tem condicionado a própria opinião crítica).

 

maxresdefault_1.jpg

 

Quanto à conspiração, a Marvel tem sido "vergonhosamente" beneficiada pela crítica, mas não por "pagamentos ilícitos" nem nada disso e sim pela incompetência, pela falta do olhar crítico e sobretudo pela natureza destes "profissionais" o qual são enviados aos visionamentos de imprensa. A verdade, é que os critérios utilizados nos filmes da DC não tem sido os mesmos para os da sua concorrente, a prova disso é o de ignorar o formulaico sistema de industrialização (fórmulas podem fazer um filme, mas nunca Cinema), o argumento fraco e ilógico de Civil War (por exemplo), assim como as suas perversas ideologias politicas. Infelizmente, isso foi deixado de parte por essa suposta "comunidade pensante".

 

No fundo, muitos deles [críticos] não passam de wannabes que estão num cargo equivocadamente, limitados a uma visão cada vez mais refém da própria industrialização e da massificação da internet. 

 

Agora, a importância dada pelo mesmo público a este tipo de críticas tem sido, também ele, um absoluto exagero. A crítica não deve ser vista como um voz imperativa, mas sim como um incentivo a um debate. Se um crítico mencionar Suicide Squad como o pior filme de sempre, há que aprofundar os seus argumentos, entendê-los e seguir a sua perspectiva para perceber a nossa. Por vezes ao entramos na "pele" de um outro advogado podemos aperfeiçoar o nosso ponto-de-vista. Se um crítico aclama que Suicide Squad é o melhor filme do Mundo, os mesmos processos acima referidos devem ser feitos. 

 

O Cinema é moldável, e como tal a nossa perspectiva, o nosso argumento, e a nossa visão cinematográfica. Aliás até mesmo os Cahiers du Cinéma tiveram que se desculpar por não terem apercebido a tempo do génio de John Ford. Por outras palavras, nem os críticos são perfeitos.  

 

6a00d83451c3b369e200e55508aacb8834-800wi.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 19:12
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

25.7.16

19461483_R28hz.jpeg

Vejam como o tempo corre! São nove, os anos que comemoro de longevidade deste espaço que parece cada vez mais fazer parte do meu “eu”. E como cheguei aqui? Um pouco … bem … não quero mentir … muita da teimosia minha em manter vivo este estaminé, mesmo sob as críticas que recebia, nunca baixei os braços e tudo fiz para mantê-lo o mais profissional possível. A minha paixão cinematográfica, que condiz com o meu lado crítico, aquela minha faceta que gosta de criticar tudo e todos, a minha curiosidade de descobrir e explorar os cantos e recantos. O meu compromisso, a rotina criada, a interacção que quero manter. E por fim, um agradecimento a quem acreditou em mim e aos meus assíduos leitores que me acompanham a quase uma década.

 

Agora o porquê da natureza deste discurso, bem, os dias não têm se tornado mais fáceis, e os anos indiciaram menos empatia a este espaço. Pois, o mundo está a evoluir, a blogosfera está a adaptar-se, é um autêntico campo de vida ou morte. As redes sociais apoderam-se destes espaços e mesmo sob o meu esforço em readaptar o Cinematograficamente Falando … a novas gerações, é difícil em confrontação com o meu “eu primitivo”. Aquele que acredita na cinefilia, cada vez mais abalada e desprezada, aquele que acredita que o lugar dos filmes são nas salas de projecção, na “magia” dos festivais de cinema, na continuação do formato físico de home video e nas tertúlias cinematográficas como grandes poços de sabedoria ou confirmação da nossa.

 

Estes nove anos foram um tremendo alcance, uma luta para manter este espaço vivo. Porém, terão que acontecer algumas mudanças, mudanças que possam tornar este Cinematograficamente Falando … mais expressivo. A ver vamos.

 

Contudo, um muito obrigado a todos vós, que me acompanham e que nunca deixaram de o fazer.

 

 

CONFORME SEJA AS VOSSAS ESCOLHAS, BONS FILMES!

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 

 


publicado por Hugo Gomes às 13:29
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

30.5.16

Sem Título.jpg

"Rico, qual é a principal diferença moral entre um cidadão e um civil / Um cidadão assume total responsabilidade quanto à defesa politica, o civil não."

 

É fácil sentirmo-nos repugnados com Starship Troopers, o filme de Paul Verhoeven que não ostentou fascínio durante a sua data de estreia, até porque o realizador holandês a operar em Hollywood era visto nada mais como um voyeurista maldito, a juntar a isto o flop colossal de Showgirls. Mas não são o único factor que fecundou um injustiçado massacre a esta pseudo-ficção cientifica, não senhor, as acusações de fascismo era coisa que não faltava entre os insultos. Mas com o passar de quase 20 anos, olhamos para Starship Troopers não como um filme que lisonjeia o fascismo, mas sim como uma obra sobre o fascismo, e a sua aceitação, deveras normal, que causa no espectador uma tremenda sensação de incomodo. Porquê que estes soldados atacam insectos alienígenas? Qual o objectivo? O que é que fazemos no seu habitat natural?

 

ettkc32bi8wz9e39qerc.jpg

 

Verhoeven criou uma falsa propaganda, prolongada por um cínico magnetismo pela militarização. São as forças armadas, ditadas por autênticas lavagens cerebrais sociais, e fortalecidas por uma intolerância antropocêntrica. Com duas décadas em cima, este seja talvez um dos filmes mais actuais do realizador que nos dias de hoje tem sido alvo de uma reavaliação. Afinal, Verhoeven não é assim tão maldito como pintavam e a prova esteve no último Festival de Cannes com a sua nova obra integrada na Competição Oficial. Elle [ler crítica], título desta nova produção, apresentou um cenário bem diferente do habitual na carreira do realizador, foi unanimemente elogiado.

 

Durante a conferência de imprensa, Verhoeven foi confrontado com a questão de um eventual regresso a Hollywood, território que deixou em 2000 com o ainda malfadado The Hollow Man (O Homem Transparente). A resposta foi dada da seguinte maneira: com desejo de retornar ao país dos seus êxitos (quem não se lembra de Basic Instinct, Robocop e Total Recall), o realizador apenas expressou que de momento não recebera nenhuma proposta decente (indecente), enumerando o facto dos filmes de super-heróis dominarem o mercado hollywoodesco.

 

verhoeven-hubbert-set.jpg

 

A ponte aqui estabelecida entre dois filmes completamente distintos, é o fascismo representado em Starship Troopers, exposto para eventuais alvos críticos e o fascismo não assumido que um produto como Captain America: Civil War [ler crítica] ostenta, mas que passa despercebido pela crítica, porque simplesmente muitos dos órgãos preferem lançar conhecedores de BD e não de Cinema em geral. Para além disso, muito dos críticos norte-americanos fogem da militância politica assim como o Diabo foge da cruz.

 

Mas afinal o que há de errado com Civil War da Marvel? Primeiro, quando tentamos avaliar um filme destes deparamos sempre com uma legião de "marias-ofendidas" que nos apresentam a ideia que para avaliar é preciso ler uma BD, partindo do principio que no caso do material adaptado, a matéria-prima é sempre boa. Errado. Mas a questão não está em bater num filme de super-heróis como um hater qualquer, mas especificar o porquê de Civil War ser um dos piores filmes do subgénero dos últimos anos, e falamos obviamente no sentido ideológico, social e político, esses inúmeros factores que uma Empire Magazine gosta tanto de esquivar.

 

Spider-Man-Civil-War-Team-Cap.jpg

 

Ao contrário da série de BDs originais, esta adaptação não refere a nenhuma Lei de Registos de Super-Humanos com tamanha supervisão do Governo dos EUA, não, somos apresentados a uma ameaça real, a ameaça de uma elite de "soldados", chamaremos assim, que podem combater em qualquer lugar do Mundo sem o mínimo de responsabilidade, quer governamental, quer humanitária. Um dos exemplos do filme dos irmãos Russo encontra-se nas primeiras sequências, onde uma missão em Lagos dá para o "torto", resultando numa centena de vitimas civis, fruto de uma negligência de um dos seus "protectores". Danos colaterais como alguns apelidarão.

 

Se os Russos fossem frontais como Verhoeven (e se a Disney deixasse), poderiam utilizar esse tópico como um balançado dilema ao longo da narrativa, porém, não é isso que acontece. Capitão América, o grande herói da malta, é incutido como uma voz dominante da razão, proclamando diálogos de liberdade sob a bandeira estaduniense estampada no seu peito. Afinal o Capitão não gosta de receber ordens, nem sequer ser coordenado pela ONU, o seu ideal é combater onde bem apetecer e sob os seus reflexos políticos, até porque o maniqueísmo existe aqui com fartura.

 

CaptainAmericaCivilWar_Trailer2.jpg

 

Apesar de ser um filme esteticamente limpo (pudera, a Disney está interessada em vender brinquedos aos mais novos), tal serve como uma bandeja esterilizada para tais ideais. Traduzindo por miúdos, de como a ONU é má para o totalitarismo destes vigilantes e como os super-heróis podem matar pessoas sem qualquer tipo de responsabilidade nem monitorização. É algo perigoso, porque aqui não existe nenhum senso crítico ou alvo incomodo como o que Verhoeven fez com o seu Starship Troopers. Em tempos de Donald Trump e depois das lições aprendidas com a "invasão" das tropas norte-americanas no Iraque sob o argumento, ainda não provado, de armas de destruição maciça, coisas como este Civil War conseguem tornar-se filmes perigosos. Estarei a ser demasiado alarmante ou realmente existem filmes fascistas disfarçados como produtos para inúmeras idades.

 

Agora já sabemos o porquê de Verhoeven recusar fazer um filme de super-herói actual, visto que está impedido de desconstrui-los ideologicamente.

 

movie22.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

tags:

publicado por Hugo Gomes às 19:00
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

16.5.16

02_244.jpg

Marion Cottilard prova em Mal de Pierres o porquê de ser uma das atrizes franceses mais cobiçadas do momento, o seu desempenho, mesmo não sendo o melhor da sua carreira, faz dela uma potencial candidata ao Prémio de Melhor Atriz, e tendo em conta a edição do ano passado, sabemos o quanto Cannes gosta de premiar atores “nativos”.

 

Dirigido pela realizadora Nicole Garcia, Mal de Pierres é um romance obsessivo que reúne variados ingredientes como adultério, loucura (fou) e compaixão. Para além da actriz, Louis Garrel e Alex Brendemühl preenchem o ecrã. O primeiro, provando que é um dos grandes galãs do actual cinema francês.   

 

Marion-Cotillard-dans-Mal-de-pierres-1300x832.jpg

 

Na secção Un Certain Regard, a ética é questionada com Apprentice, do singapurense Boo Junfeng, uma drama negro sobre um jovem que candidata-se ao cargo de Guarda Prisional, acabando por ser um ajudante do carrasco da Ala dos Condenados à Morte. É um filme ditado pelo dilema, mas conduzido com garra e rigor por parte Junfeng, os desempenhos são uma mais valia e aquele final, sim senhor, arrebatador, o qual persegue-nos até mesmo depois da sessão. O debate está lançado e Apprentice conseguiu esse feito.  

 

Enquanto isso, Jim Jarmusch conseguiu conquistar tudo e todos com uma das potenciais obras-primas. Paterson é um retrato emocional do trabalho literário de William Castle Williams. Um filme enraizado na sua poesia que “desenha um circulo” de rotinas para depois quebrá-lo com uma pausada postura. Existe nesta obra protagonizada por Adam Driver e a futura estrela Golshifteh Farahani (apostamos nisso), uma espécie de best-of do cinema de Jarmusch, desde as conversas triviais de Coffee and Cigarette, até ao experimentalismo de Limites do Controlo e a singeleza de Broken Flowers. Até à data é dos melhores na secção competitiva.    

 

thumb_1892_media_image_1144x724.jpg

Menos feliz foi Personal Shopper, a nova colaboração de Olivier Assayas com Kristen Stewart, dois anos depois de Clouds Sils Maria (obra que garantia à actriz norte-americana o César de Melhor Secundária Feminina), foi vaiado no seu primeiro visionamento para a imprensa. Trata-se de uma proposta bem diferente daquelas que os “visitantes” da competição de Cannes estão habituados a assistir. Assayas explora o terror e outros elementos sobrenaturais como o espiritismo e quando os invoca, atinge exactamente o ponto preciso. Personal Shopper consegue ser mais aterrorizante que 90% dos “verdadeiros” filmes de terror que chegam aos nosso cinemas. Acrescento ainda que Stewart está em muito boa forma.   

 

Jeff Nichols, Brillante Mendoza, Pedro Almodóvar e Kleber Mendoça Filho são os próximos concorrentes a entrar em palco. 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 22:25
link do post | comentar | partilhar

11.5.16

cafe-society-woody-allen-kristen-stewart-jesse-eis

O tempo pode não ter ajudado o festival mais mediático do Mundo a recuperar o seu glamour no primeiro dia, mas o filme de abertura, Café Society, sim. A escolha de Woody Allen como o comité de boas-vindas, a terceira vez para ser mais exacto, não foi fruto do acaso, nem sequer pelo prestigio de tão veterano cineasta abrir a edição. A selecção surgiu simplesmente pela sua fé no Cinema, da mesma maneira que Berlim arrancou com Avé César, dos irmãos Coen. O restauro da idade de ouro, o cinema como potência, quer industrial, artística, expressiva, por outras palavras – cinema é a vida com todos aqueles aborrecidos cortes (citando Hitchcock).

 

E os festivais precisam urgentemente acreditar (ou fazer acreditar) que ainda existem vestígios de magia no cinema, o brilho ainda se transmite no tão lendário tapete vermelho, o fascínio maior que as estrelas, a para com os filmes. Em dias que se discute o fim ou o salvamento do cinema como o conhecemos - os variados debates sobre a ou não activação da plataforma Screening Room, uma ideia de visualização caseira de Sean Parker (co-fundador do Facebook) que tem causado ira a distribuidores e exibidores – é importante sobretudo não "desligar a máquina" e tentar esperançosamente que filmes "embebidos" ou que invocam a grandiloquência que o cinema de sala obtera, poderão servir, quem sabe, como relembrança de que o Cinema sem sala é o mesmo que Praia sem sol.

 

Tal como a escolha do filme, esta comparação não foi pura casualidade. O tempo cinzento e chuvoso parece ter impedido esta nova edição arrancar sob uma demonstração da sua total fotogenia, porém, a nova obra de Woody Allen foi capaz disso, mostrar como o Cinema consegue ser uma ... fantasia ... uma bela fantasia.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 16:39
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Palmas para The Square, R...

Cannes: o "gaffe" que tor...

Cannes: Fomos a Júpiter e...

Cannes: Aplausos regressa...

Abertura de Cannes assomb...

Cannes! Here I go.

James Gray: o messias ou ...

David contra Golias: terá...

Homossexualidade na Disne...

Oscars 2017: O "lá lá" do...

últ. comentários
...e nem sequer incluem uma música dos Linkin Park...
Ben Kingsley é o Rei dos Sotaques, juntamente com ...
A resposta é Michael Keaton e Christian Bale. Desc...
Eu percebo que o Pátio das Cantigas foi uma coisa ...
Não se vêem muitos destes. Em anos que não se viu ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO