Data
Título
Take
18.10.17

transferir.jpg

Thrillers nórdicos de pacote!

 

O conceito whodunit (Quem matou? Quem fez?) não é um exclusivo fílmico ou um atalho de pré-concepção narrativa. Todo esse “mistério”, resolução criminal, nascera da literatura, desde as manchetes “gordas” da imprensa que notificavam periodicamente os mais horrendos crimes da época, preenchendo a mente dos seus leitores com uma mórbida curiosidade, ou na expansão do policial literário com principal foco nas criações de Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Agatha Christie (Hercules Poirot).

 

MV5BM2MwZmM5ZDUtYzQzYi00MzQzLTk4MWItZWVkM2I0NTMzNG

 

O Cinema, como sempre, pediu emprestado esse conceito e transformou-o num dos mais atrativos e clássicos chamarizes. Se Hitchcock foi uma incontornável referência, David Fincher ampliou a temática e simultaneamente reduzi-a a segundo plano. Como exemplo, olhando com mais atenção nas entrelinhas do seu Se7en, apercebemos a analogia da condição do policia num mundo cada mais desarmado pela violência nos mais diferentes graus.

 

MV5BMWMyMWE4NDYtY2EwNy00MzU3LWFhMWUtNzA0MGVhZmI1MT

 

Depois de Fincher,thriller desta espécie pouco evoluiu, e com a chegada deste The Snowman, inspirado no best-seller de Jo Nesbo, percebemos o quão escasso e até retrocesso é essa linha evolutiva. Sob as pisadas do chamado subgrupo do thriller nórdico, Tomas Alfredson, responsável pelas façanhas de Let the Right One In (Deixa-me Entrar) e de Tinker, Tailor, Soldier, Spy (A Toupeira), abandona o seu cinema calculista e completamente imposto ao presente, para se inserir numa tentativa de franchise “amerikansk”. Nesse sentido deciframos uma Oslo de lugares-comuns e com graves crises identitárias e linguísticas que servem de cenário para hediondos crimes cometidos por um assassino alcunhado de Boneco de Neve.

 

MV5BYmVkZWI4M2ItOGE3Mi00ZDRmLTg4ZjgtMzExNTg1YmIzNG

 

O presente de Alfredson é cedido à preguiça dos flashbacks e da dependência do whodunit (em modo plot twist) acima de qualquer leitura intrínseca. Mesmo com as breves eclipses de uma reflexão tecnológica dentro da ciência criminal, nada detém Boneco de Neve de seguir as suas mesmas pisadas em encontro à resolução do crime, por entre enredos e subenredos mais próximos do “encher chouriços” do que enriquecer este universo, principalmente o do nosso protagonista, Harry Hole (Michael Fassbender), uma espécie em extinção dentro do seu departamento policial. O actor faz o que pode, e a mais não é obrigado, revelando-se incapaz de retirar esta produção do contexto de mero produto corriqueiro, engendrado numa agenda descontaminada de ensaios autorais.

 

MV5BMjFhMDc4YWQtODY4NC00N2Y0LTgyNDMtNzQzNTMzMDU4Y2

 

Não existe aqui sobretudo preocupação em criar uma ligação invisível deste detetive com o seu pecaminoso perseguido, assim como, e mais uma vez referindo Fincher (com particular olhar no seu Zodiac). Este Boneco de Neve não é alvo algum, é a desculpa esfarrapada para nos esfregar na cara o conceito de “cinema adulto”, sem a maturidade cinematográfica para tal. O tempo passa, os mortos acumulam-se, o serial killer torna-se mais habilidoso. Enquanto isso, o espectador mostra-se em todas as ocasiões sempre indiferente.   

 

Real.: Tomas Alfredson / Int.: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J.K. Simmons, Toby Jones, Jonas Karlsson

 

MV5BZTYzOGFlZTAtN2E0Ni00MjZjLTg5MzUtMThjNjNkMTM5YT

 

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 19:13
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

12.10.17

Estrangeiro, O.jpg

Busca Implacável actualizada!

 

Deparamos novamente com o efeito Taken, ou, por outras palavras, quando o infortúnio “bate à porta” de indivíduos com habilidades e técnicas especiais. Desta feita não é Liam Neeson o protagonista deste “comeback”, mas outro cinquentão do cinema de acção: Jackie Chan, que interpreta um humilde gerente de um restaurante chinês em Londres que, por azar, encontra-se à hora errada no lugar errado. Um atentado terrorista levou assim a sua única filha, motivando-o a uma cega vingança pelos responsáveis, que se vem a saber mais tarde serem membros da reactivada cédula da IRA (Exército Republicano Irlandês). O destino desta personagem completamente amargurada e sob um luto silencioso entrelaça com o de um politico com ligações passadas à organização (Pierce Brosnan).

 

MV5BMTBjNjA1ODMtMDBlOS00MTM1LWE1ZDktMjVjMmU1NWYzZj

 

Martin Campbell retorna ao território de conspiração e do thriller policial cuidadosamente alinhado com a acção que nunca se assume como o “prato principal”. É certo que no historial do realizador abatemo-nos com uma incapacidade, ou, por outras palavras, infantilidade de retratar cenários geopolíticos e situações limites consequentes de duplos gumes da mesma faca. Resultado, não tão agravado como sucedera com The November Man - A Última Missão (mencionando um dos mais recentes filmes protagonizados por Pierce Brosnan), um exercício maniqueísta evidente que baila com a coerência que poderia ser suscitada no enredo.

 

MV5BNmY4Y2I4MjQtNWRkMy00M2U4LWI0YjUtYTI4MTc4ZmMxND

 

Fora isso, é bem verdade que Jackie Chan, fora do território imposto por Hollywood (a comédia de acção que nunca lhe encontra sincronização), dá cartas como um mártir dramatizado completamente vencido pelo violento pesar. Entretanto, o filme foi feito de forma rotineira e inconsequente no tratamento de um História antiga, meramente replicada sob o rascunho dos nossos medos actuais. Contudo, em The Foreigner encontramos similaridades com um dos galardoados filmes de Cannes deste ano, In the Fade, de Fatih Akin. Mas fica a grande heresia da nossa parte: esta reunião de Jackie Chan com Pierce Brosnan é um exemplar muitíssimo mais sóbrio e coerente sob o seu género “refém”.   

 

Real.: Martin Campbell / Int.: Jackie Chan, Pierce Brosnan, Rufus Jones, Katie Lung

 

MV5BMTc2NDExOTE0M15BMl5BanBnXkFtZTgwMzEyMjM3MjI@._

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:05
link do post | comentar | partilhar

8.10.17

MV5BY2Y3Njc4MzItZmJhOS00MTRhLTlkN2YtYTQwNmM3YTUxY2

Os filhos desconhecidos!

 

Philippe Lioret abandona por momentos a sua veia mais intimista e social para folhear as páginas do romance de Jean-Paul DuboisSi ce livre pouvait me rapprocher de toi, de forma a conceber este Le Fils de Jean, uma decepcionante busca pelos nossos antepassados. Tendo como protagonista Pierre Deladonchamps (que os mais atentos cinéfilos o recordarão do L'Inconnu du Lac [O Desconhecido do Lago], de Alan Guiraudie), a intriga leva-nos ao parisiense Mathieu, que recebe, certo dia, uma chamada do Canadá com a informação de que o seu pai morreu. Até aqui, o nosso protagonista desconhecia por completo do paradeiro paternal, sendo que, sem grandes hesitações, viaja para o outro continente de forma a conhecer as suas próprias raízes. O que encontra lá é um ambiente puramente hostil no qual não pretende participar.

 

1476689926195_0570x0400_1476689973107.jpg

De histórias fúnebres com revelações “bombásticas” o Cinema parece andar farto, porém, Le Fils de Jean tende em evitar esse amontoado de clichés de primeira vista, apostando na passividade e subtileza do seu enredo identitário que por vezes confunde-se com a natureza do protagonista. Diremos mesmo que para contornar esses lugares-comuns, o filme ruma para outra dependência, a dos atores, mais concretamente na química apresentada entre Deladonchamps e o veterano Gabriel Arcand. Lioret apercebe-se da força motivada pelos desempenhos simbióticos para com o cenário em plena transgressão e nele concentra todos os holofotes, sem perceber que com isso descarta a “graciosidade” do seu cinema, a urgência da actualidade com a emotividade despertada nos olhares que culminara sucesso em Welcome.

 

MV5BYTEzOTBkNDMtMmNjZC00M2QyLTlhNDItMmYwMTQ4Yzk3YT

 

Simplesmente discreto, Le Fils de Jean pode não ser a rotineira telenovela, mas não possui a capacidade nem versatilidade para se revelar num "must see" da temporada. Nesta, assim como num futuro próximo. Sim, estamos desapontados.

 

Filme visualizado na 18ª Festa do Cinema Francês

 

Real.: Philippe Lioret / Int.: Pierre Deladonchamps, Gabriel Arcand, Catherine de Léan

 

MV5BMDU3MTQ0OWEtMmViYi00ODY4LWIxZjktMDBlOGRkMjM5ZT

5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:29
link do post | comentar | partilhar

7.10.17

Borg vs McEnroe.jpg

A new rush!

 

Estamos em 1980, estádio Wimbledon, na grande final do campeonato de ténis. O público espera impacientemente pela chegada dos dois tenistas, a competição está ao rubro. Do túnel de acesso ao estádio, duas silhuetas sombrias fazem se presenciar. A cada passo aproximam-se a luz que por fim os banhará com o holofote, revelando as suas verdadeiras identidades. Eles são Björn Borg e John McEnroe, os finalistas deste esperado torneio, o maior do desporto do ténis. De um canto, Borg, conhecido como o iceberg, vindo dos recantos mais remotos da Suécia. Eis o verdadeiro campeão, um atleta nato que concretizou 4 campeonatos mundiais de forma triunfal, estando agora na proximidade do seu quinto titulo. Mas a tarefa não será fácil para este Golias. Um "David" tenta-lhe retirar o tapete, McEnroe, um jovem prodígio, talentoso, mas com um carácter oposto ao do seu adversário, um rebelde sem causa de má conduta desportiva, odiado pelo público e muito mais pelo corpo de árbitros que assiste às suas partidas (o enfant terrible Shia LaBeouf é a mais apropriada escolha de casting).

 

borg-vs-mcenroe-03.jpg

 

Neste momento do campeonato, estas figuras, agora convertidas em personagens, cada uma regida ao leitmotiv, à jornada do herói e do anti-herói, do objetivo que os torna consequentes dos seus respectivos destinos O macguffin – o título – lança-os nesta aventura desportiva agora conformada como uma demanda cinematográfica do storytelling. Durante o tempo demorado a chegar aos seus cantos de jogo, o filme recorre ao slow motion, às câmaras-gruas que nos deixam antever a audiência que servirá de massa malfeitora, e do "ringue" plenamente situado neste vórtice. McEnroe arranca com a sua jogada, atira a bola ao ar e movimenta-se de forma a concretizar a primeira "raquetada" da partida. O espectador [nós] esperava por este momento sob cadências de um thriller, o suspense que nos faz recatar nas nossas ocultas emoções.

 

borg-vs-mcenroe-07.jpg

A raquete bate na bola e, consequentemente, o jogo, ou filme, entra no plano picado generalizado, daquelas imagens que nos acostumamos a assistir na televisão, nas transmissões directas dos nossos desportos de requinte. A banda-sonora é interrompida com o "tlack" emitido pelo esférico, as personagens são agora meros peões a correr atrás desse minúsculo ponto que velozmente atravessa cada lado do perímetro. Neste preciso momento em que o rotineiro cinema emocional dá lugar à rotina do desporto, percebemos da manipulação que o cinema "contador de histórias" parece induzir nestes retalhos viventes; a rivalidade de dois campeões num desporto que está para a grande tela como a engenharia está para o lírico. Falando nessa metamorfose romantizada que o desporto possui na Sétima Arte, é fácil identificar o boxe como a aperfeiçoada adaptação, onde os rounds se comparam a arcos narrativos e a luta prolongada, realçada pela câmara dos nossos directores, num autêntico clímax de almas em bruta confrontação, intrínseca e extrínseca.

imgID126757393.jpg.gallery.jpg

O ténis não possuía até à data nenhum estandarte cinematográfico, e como tal Borg vs McEnroe funciona como o melhor exemplo deste desporto na grande tela. Um história de rivalidade novamente encarada como o ingrediente apimentado, imaculado perante a exactidão competente do realizador Janus Metz, uma competência que não vai além do formalismo estético e da manipulação emocional. Nesse sentido, Rush, do sempre tarefeiro Ron Howard, correspondeu com maior expectativa o desafio.

Borg-vs-McEnroe.jpg

No final, seguimos para a comparação, o cinema contra os reais factos isolados traduzidos pelas imagens captadas por outras lentes; as fotografias que registam a glória e a derrota num dos maiores duelos desportivos de sempre. Se uma imagem vale mil palavras, é bem verdade que nessa comparação o cinema deste Borg vs McEnroe perde em preencher as emoções ao seu visual, despindo os simbolismos desta dicotomia de triunfo/desilusão.

 

Real.: Janus Metz / Int.: Sverrir Gudnason, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgård, Tuva Novotny

 

MV5BNWY3ZTU4NmUtNTQwYS00MGRlLWE4OGYtZmEzM2JhOWNhNm

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:07
link do post | comentar | partilhar

4.10.17
4.10.17

Al Berto.jpg

O "Amar-te ei Perdidamente" por Vicente Alves de Ó

 

Tens os olhos tristes, e todos os homens com olhos tristes são poetas”. Assim é nos dito inicialmente, no meio do encontro de duas personagens, que o espectador, até então, desconhece as suas identidades e paradeiros, mas apercebe-se instantaneamente da teatralidade dos seus diálogos proclamados com tamanha serenidade e espera. Com a frase feita, pronunciada e ouvida, o espectador é informado automaticamente da natureza de uma das suas personagens. O Poeta, o eremita da sua verdade, refém das palavras que nascem do seu interior com fins de expressar a alma da maneira como lhe convém. Porém, Al Berto, de Vicente Alves de Ó está longe dessa recolha de talentos pelo qual se tornaram as cinebiografias.

 

20683206_8LkVu.jpeg

 

A personalidade-protagonista nunca recita uma estrofe, a sua criação é sugestiva na mente do público, visto que não é esse o objectivo inicial do realizador de Florbela, a adaptação da poetisa de “Amar Perdidamente” que soa como um rascunho em comparação a este relato de foro mais emocional, pelo ponto de vista do seu narrador (Alves de Ó). É sabido que Vicente (o chamaremos assim) conviveu com este amante da liberdade, dos ideias do 25 de Abril que não se viveram na sua totalidade na população de Sines. Até certo ponto, a existência de Al Berto cruza com a existência do nosso Vicente, directa e indirectamente, nesta ultima estância e como parte umbilical deste filme, o romance com o irmão de Alves de Ó, um “amor entre homens” acima da sexualidade “profana” aos olhos dos “pacóvios conservadores”.

 

alberto.jpg

Mas do Al para Berto nota-se um espaçamento, uma distância e nela, se materializa com toda esta época induzida como um espectro da sua sugestão. O afastamento para com o espectador dá-se por vários motivos, pela rigidez planificada que nunca encontra lugar no onirismo libertino nem da sujidade do intimismo dito queer (referenciando os lugares-comuns detidos nesse subgénero), ou, pelos conflitos internos do telefilme com a própria matéria cinematográfica, uma linguagem empestada por um crescente academismo. Outro ponto que remete Al Berto para o “feliz” fracasso, é a quantidade de secundários nunca desenvolvidos, subjugados pela sombra da personagem-título e do seu romance protagonista, o carisma requisitado de Ricardo Teixeira que ofusca qualquer justificação para que o produto saia do seu umbiguismo. A juntar a ausência de lirismo que não disfarça a teatralidade destes atores e situações, Al Berto funciona como um gesto, narcisista para uns, honesto para outros, dando forma a um exercício falhado.

 

Real.: Vicente Alves de Ó / Int.: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Raquel Rocha Vieira, Rita Loureiro

 

1478085811743_0570x0400_1478085829557.jpg

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 16:17
link do post | comentar | partilhar

28.9.17

Linha Mortal.jpg

Nova definição em Hollywood - "flat" remake!

 

Em 1990, cinco estudantes de medicina desafiavam a morte através de uma experiência radical e de alto risco. O objectivo era decifrar o maior enigma da Humanidade: o que existe para além da morte? Joel Schumacher, antes de se tornar num dos odiados realizadores devido a uma certa aventura de heróis de collants, aventurou-se ele próprio neste thriller de ficção cientifica como prolongamento das maiores fobias de Hollywood, a ciência e o ateísmo. É sabido que o cinema mainstream sempre adorou cientistas que se insurgem contra o criacionismo e a ordem natural, atribuída a uma entidade divina. Por outras palavras, este complexo de Deus, o de desestabilizar os trilhos do "só Deus sabe", remetia à mais perfeita fábula moralista (e como Hollywood ama moralismo!).

 

MV5BZGQ4NWYzMDktNmE3Yy00Yjc4LTkxNjMtNDJjYWJjMTQwZG

Com Flatliners, os jovens estudantes, envergados em nome da Ciência, são punidos pelos seus próprios pecados, uma espécie de Torre de Babel, onde cada personagem enfrenta os seus medos interiores como repreendimento às tentativas de penetrar em territórios desconhecidos, longe da percepção humana. A última sequência desse filme, que resultou num êxito moderado, é a prova da constante "caça às bruxas" cinematográfica. A experiência que desaba, o céptico converte-se num crente, e a ciência revela-se incapaz de tomar uma posição contra a religiosidade do seu cinema. A elipse é "decapitada" com um plano de uma imagem iconoclasta. Os caminhos traçados por Deus são incertos, e quem o desafiar estará a mercê do seu julgamento, assim se lê entrelinhas.

 

MV5BMTgwMzE4MTY0NV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzIyMzE2MjI@._

 

Falando em brincar com a Morte, eis que surge, passados 27 anos, um desesperado remake, que afinal, segundo a mais recente manobra publicitária, trata-se de uma sequela. O porquê? Provavelmente porque alguém olhou para sondagens e estatísticas e percebeu que o público anda saturado de refilmagens. Como solução, a promoção de uma continuação é mais tentadora para o mercado actual. Balelas! Esta Linha Mortal é um embuste, uma cópia descarada que impregna do óbvio e da narratividade do seu antecessor (sem tirar, nem por), sem linha directa alguma (sim, Kiefer Sutherland faz um cameo, mas isso não vem a provar nada).

 

MV5BMjEwOTk5OTM1NF5BMl5BanBnXkFtZTgwODIyMzE2MjI@._

 

A obra de 1990 não era nenhuma obra-prima, ou um sofisticado exercício de género. Porém, Schumacher soube aplicar uma linguagem visual que divergia da acção real com o onírico. Havia sobretudo uma apreciação da estética. Em pleno século XXI, perde-se a plasticidade sugestiva e ganha-se com isso uma obra despida, fria, acinzentada, sem asas para acréscimos técnicos, com excepção dos mais vulgarizados CGI. Dominado pelas tendências do terror actuais, os tais habituais jump scares com a música denunciadora que ofuscam qualquer intervenção criativa neste quadro.

Flatliners-2017-Movie-Scene-1024x576.jpg

A realização anónima de Niels Arden Oplev (do primeiro capítulo sueco de Millennium), as falhas grotescas da edição, a linguagem primitiva quase kulechoviana que falha o sentido e os constantes erros de produção que desvendam o real "mistério", o de ninguém querer importar-se com esta "sofisticação". Como diria Sutherland na década de 90 - "Today is a good day to die."(Hoje é um bom dia para morrer). E até pode ser dia para tal, contudo, nenhum dia é bom para testemunhar a enésima preguiça de Hollywood.   

 

Real.: Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland

 

MV5BMWU3N2RlMTItYWUxNy00ZWM2LTliMmUtZmViYTE5YzU2OG

2/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 13:04
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

12.9.17
12.9.17

It.jpg

E tudo começou com um … palhaço!

 

Para entendermos a natureza desta nova versão do êxito literário de Stephen King, devemos inteirarmos numa das sequência-chaves de ambas as conversões, a infame mini-série que foi transmitida em 1990, e o filme que tem culminado num grandiloquente hype.

MV5BMjEyMzM3NjM0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDQ1NzMzMzI@._

No projecto televisivo, Tim Curry veste a pele desta entidade que assume a forma do palhaço como catalisador de um medo comum e, não só, criar um engodo, uma empatia fraudulenta para com as suas vitimas. Na cena em questão, que intitularemos simplesmente como sarjeta, seguimos Georgie, uma criança que desfruta um dia chuvoso na "companhia" de um barco de papel, fabricado pelo seu irmão mais velho. Enquanto segue as correntes induzidas pela forte precipitação e das eventuais sarjetas que se encontram à berma dos passeios, Georgie perde a sua embarcação numa delas e, desesperadamente, ao tentar reavê-lo, é surpreendido por um palhaço. Existe nele um sorriso amigável, um discurso de promessas, iguarias, dotado de um humor matreiro, mas que para qualquer criança é um comité de confiança. O rapazinho cai na armadilha, assim como muitas crianças cairiam na "conversa de estranhos", esses terrores comuns dos progenitores.

MV5BMTg1NTU5NTgwOV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTQ1NzMzMzI@._

Claramente, com possibilidades de censura televisiva, nunca vemos verdadeiramente a criatura consumir a sua presa, tudo cai num cliffhanger de cena, dando lugar ao créditos iniciais. Na versão de 2017, por sua vez, o "palhaço", agora interpretado por Bill Skarsgård (filho do actor Stellan Skarsgård), é uma ameaça evidente, sorriso malicioso, aspecto pomposo, com diálogos arrastados e uma voz asquerosa. Um verdadeiro pesadelo para a "criançada". A sua abordagem é tudo menos engodo, a farsa como um isco, mas sim a persistência, aquela de consumir a sua presa o mais depressa possível. No caso da alimentação, contrariando o repentino corte da mini-série, este IT é explicitamente gráfico. A exposição dos novos tempos do horror acaba por contornar um dos grandes tabus do cinema de horror, isto porque poucos são os que demonstram expressamente a morte de uma criança de forma visualmente macabra.

68-IT-remake-fb.jpg

Apontado por muitos como uma nova faceta do terror contemporâneo, e ainda mais a operar nos grandes estúdios, Andy Muschietti concebeu Mamã há quatro anos atrás (apadrinhado por Guillermo Del Toro). Vencedor do Fantasporto, o filme apresentava um conjunto de nuances na vertente do fantástico e da estética terrorífica de outros tempos. Muschietti é fascinado pelo terror hoje "infabricável", pelo desconhecido como signo e neste IT pelo regresso do carismático vilão do género (algo que não víamos desde a morte de Jigsaw na "longuíssima" saga iniciada por James Wan).

MV5BNDVjMjIxMzEtMGZmNi00ZmM5LWEzN2ItODJkNTRkZjdiYz

Como importante influência na concepção desta ameaça antagónica, Nightmare on Elm Street parece ganhar dimensão nos aspectos visuais e na tentativa de conceder uma atmosfera penetrável. Tal como as criação de Wes Craven, existe um imenso "carinho" pelo vilão, pela entidade maligna que se assume como o derradeiro protagonista de um conto sob contornos comuns do imaginário de King (sim, todo aquele cenário Stand By Me não é meramente déjá vu).

dims.jpg

Nesse sentido, a "palhaçada" tem tendências a estorvar o potencial narrativo do filme. IT desenvolve-se desequilibradamente entre uma preocupação com as personagens (os jovens capazes que se fundem na reconstituição de época) e os jump scares - como manda a agenda (até  Annabelle 2 conseguia ser mais inventivo nessa abordagem)- gratuitos que nada contribuem para um cenário de medo. Aliás, o medo é coisa inexistente por estas bandas.

maxresdefault (4).jpg

Obviamente que somos induzidos a uma produção competente, quer a nível técnico (apesar do excesso do CGI que não se separa do protagonista), quer na narração (saber condizer duas nuances opostas é, em termos industriais, uma bravura). Porém, a competência nunca salvou projectos do esquecimento e em IT existe uma ausência de agressividade na sua abordagem … E não. Não me refiro ao grafismo, mas sim ao inconsciente, o elemento mais tenebroso de todos.  

 

"You'll float, too, you'll float, too, you'll float, too... YOU'LL FLOAT, TOO!"

 

Real.: Andy Muschietti / Int.: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard

 

Movie-Cast-2017.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 16:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

8.9.17

MV5BMTkwOTQ4OTg0OV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzQyOTM0OTE@._

O Comboio dos Mortos!

 

Numa das suas últimas entrevista, George A. Romero acusou Brad Pitt e os Walking Deads de estarem a matar o subgénero dos zombies, a permitir que os grandes estúdios e canais de televisão penetrassem nesse mesmo universo, investindo milhões e “sufocando” assim qualquer liberdade criativa ou margem para críticas sociais, numa temática que o mestre conhece e intimamente bem.

MV5BMjAwMTkzMTAyNF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTU0MTEyOTE@._

 

Train to Busan, uma grande produção sul-coreana de Sang-ho Yeon (com prática na animação adulta), seria de facto um desses exemplos de megalomania mercantil. Um comboio para o Fim da Humanidade, uma peste sabe-se lá donde e os mortos que teimam em não cair no repouso eterno, pistas que já funcionam como lugares-comuns neste universo cinematográfico, em acréscimo com a vibrante e frenética acção, que tal como o World War Z (esse infame incursão com Brad Pitt), apresentam os cadáveres como baratas famintas, tudo movimentado por uma orgânica e infernal hiperactividade. Com um leque escolhido de personagem em mais um modo de sobrevivência, bocejantes deva-se dizer, são arrasados em tempo limite, é uma corrida contra ao tempo, ultra-física e sem espaço para conceber um comentário social. Porque não vale a pena fingir, não existe qualquer elemento crítico, o terror não é mais um metáfora, é um circo ambulante a condizer com os códigos mais reconhecíveis do cinema sul-coreano recente.

MV5BOTUxZjc2MGItYTRmZC00ZDNkLWJiYzktOTdmODYxZjBmYT

 

O meloso extremo que se atropela nas proximidades do final (muita dela em forma de flashbacks pára-quedistas), de forma a garantir uma emocionante (ou manipuladora) ênfase ao sacrifício heróico, os estereótipos que se resumem a personagens, roçando o vagante industrial (mais uma produção coreana, mais um hobo [vagabundo]), tudo feito num “oito” para a concepção de um blockbuster sem consciência. Romero criou nos seus zombies uma lente para ver os “podres” da nossa sociedade, do capitalismo à febre do Vietname, às castas de classes aos privilégios sociais, porém, a indústria os roubou e os converteu ao “vazio”, aos moribundos arrastados em busca dos seus "miolos". Train to Busan viveu do hype, apenas isso! 

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Terror

 

Real.: Sang-ho Yeon / Int.: Yoo Gong, Yu-mi Jung, Dong-seok Ma

 

train_to_busan_h_2016-0.jpg

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 18:29
link do post | comentar | partilhar

Sorte à Logan.jpg

Que a sorte esteja com o cinema!

 

Podem existir movimentos realistas, sensoriais e outros cujas temáticas apegam cada vez mais o espectador, porém o cinema é, afinal de contas, a prolongação de uma mentira. Quer a mentira projectada no grande ecrã que nos faz acreditar nessa “verdade fabricada”, quer a mentira do meta-cinema, dos atores ao realizadores, e nesse último ponto, a reforma antecipada que poucos cumprem. Steven Soderbergh é um desses mentirosos compulsivos.

 

logan-lucky-1.jpg

 

Quantas vezes deparamo-nos com as suas promessas de afastamento da sétima arte, e quantas vezes o vemos a desistir desse próprio refúgio – se não for claro, o cinema como o refúgio afectivo de muitos. Pois bem, o “sobredotado” do cinema regressa e, desta feita, com uma pequena piscadela à sua carreira diversificada, onde o autoral encontra-se na sua anonimidade. É tarefa árdua reconhecer e identificar um filme de Soderbergh, o “salta-pocinhas” de géneros e estilos que avança agora num “mundo” tão bem à sua medida, aquela faceta que parece ter perdido na exploração do star system na sua trilogia Ocean’s. Aliás Logan Lucky é um anti-Ocean’s, o oposto do brilho de estúdio dos referidos e a sua camuflagem em doses cuidadas num cinema americanamente proletário.

 

MV5BYjZjYTUzMGUtNzY0My00ZGJhLWFiMTItNmE2NWUwYjNiZT

 

Sem querer entrar em discussões clichés, quanto aos seguidores trumpistas, a sua natureza e as implicações no Estado actual da União, Soderbergh conserva o filme de golpe (heist movie) e as tendências criminalmente românticas de um Out of Sigh (Romance Perigoso, 1998), para dar-nos a conhecer um conto de misfits (marginais da sociedade). Em tal contexto misfit, assim por dizer, Logan Lucky recorre à comédia de costumes, a panóplia de personagens de incapacidade social, uma irmandade criminosa que segue na operação de um roubo, um milionário roubo. Já que falávamos em refúgios, o universo de Soderbergh é o único para Channing Tatum, dando espaço à sua criação, fora dos conceitos de sex symbol que Hollywood tem adoptado agressivamente.

 

logan-lucky.png

 

Ele é um corpo na defesa e preservação dos valores redneck, a camada conservadora de uma América tolerante, da música country ao gosto pela militarização, dos rodeos até aos regimentos religiosos. E é com Tatum que encontramos a humanidade num cenário que soaria trocista nas mãos de um dos “suspeitos do costume”, e com essa mesma humanização, a simpatia no espectador, deparamos com o outro leque de personagens. Os mártires de inocência longínqua, os ignorantes de plena confiança e os lesados da forte e desequilibrada capitalização (o que leva para além das alterações urbana e quotidianas de algumas áreas, a criação de “cidades fantasmas”, “afogadas” pela escassa empregabilidade, de outras).

636383142774155205-LL-02020-R.jpg

Obviamente, este contexto social e geográfico, levemente etnográfico, é condensado pela pretensão de Soderbergh em reflectir-se no convencional, ou seja, é um filme de golpe e é nele que se concentram todas as forças. Recorre-se aos tiques deste subgénero, o processo de planeamento como desenvolvimento narrativo e o assalto como o grande climax, para depois esbarrarmos, previsivelmente, na anatomia deste mesmo golpe, o tremendo plot twist. Tudo em concordância com a moralidade disfarçada de vingança social e das personagens descartáveis, alicerces da própria agenda (o que faz Hilary Swank aqui torna-se no grande mistério).

thumb_C14726A2-92EB-43C6-8B60-EB054C0239B5.jpg

No final, brinda-se, literalmente e metaforicamente a Soderbergh num mais um regresso ao cinema, porém, um retorno agora aclamado com a maior das normalidades, o falado anonimato que se entende por rotina cinematográfica. Mesmo simpatizarmos com um Daniel Craig a implorar por ovos cozidos, Lucky Logan não é de todo um filme sortudo.

 

Real.: Steven Soderbergh / Int.: Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig, Riley Keough, Hilary Swank, Seth MacFarlane, Katie Holmes

 

01SODERBERGHJP-master768.jpg

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 10:49
link do post | comentar | partilhar

6.9.17

MV5BNzU0MzgxMjAtYjU0NC00ZWYyLTljZWUtNTRkNzBhZTYwYz

O sentido do terror!

 

A dupla Jeremy Gillespie e Steve Kostanski, que tem vingado no departamento de caracterização (com orgulho poderão exibir o Óscar ganho por Suicide Squad), têm apostado a meio pés de lã na realização e ambos com resultados satisfatórios. Agora, reunidos novamente, avançam num autêntico bolo de camadas, um filme de cerco que depressa evolui para algo mais … demente.

 

MV5BNjM2NDZiZTItZTAzNy00NmNlLThjNWItOTQyYzdmYTQ2Nj

 

Se Gillespie e Kostanski juntam esforços para nos trazer um arranque envolto em cultos satanistas e à limitação dos cercados num hospital no “meio do nada”, depressa recorre-se aos lugares-comuns do seu subgénero, às tendências da fórmula, e à honestidade das referências (assume-se os tributos e escapam, por vias de uma cínica absolvição, à acusações de cópia) -  mas onde os trilhos levavam em becos sem saída, The Void torna-se num marginal, um nostálgico desajeitado.

 

MV5BNmQ0MWNkMmQtOTYyMC00ZGY5LTgwNDgtZWViOTNlNmVhMm

 

Os anos 80 (ou a memória destes) ditam os fluxos sanguíneos deste exemplar em prol de influências óbvias, de Clive Barker e o imaginário infernal do sofrimento via sacra, até Lovecraft e às seitas para além das dimensões reconhecíveis. Esta “descida ao submundo” torna-se num recreio para os devaneios da dupla, a criação das bestas por vias dos efeitos práticos, a obscuridade dos pesadelos trazidos à luz do dia através do “artesanato”. É cinema visual, a estética do horror, o grafismo e o onirismo que faltava numa panóplia rendida ao género -  os psicopatas estéreis aos fantasmas explicados “às criancinhas”.

 

MV5BMmM0MGJkOTktYjViYi00ZmFkLTgwNmItNTE4YjBmMTM1Nm

 

The Void é de certa forma um “fóssil vivo”, uma peça antiquada, mas não obsoleta. É por essas e por outras que perdoarmos mais facilmente o fraco desenvolvimento das personagens, as interpretações fraudulentas e o enredo refém da linguagem puramente visual do que a credibilidade do argumento, até porque o terror não encontra sentido físico. Aliás, o terror é sobretudo abstracto.

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski / Int.: Aaron Poole, Kenneth Welsh, Daniel Fathers

 

MV5BNzFiZTBhMGYtNGVjMC00OGM1LTlhYWMtZTdhMDYzNzRiNT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:36
link do post | comentar | partilhar

MV5BMjA4NzU2ODA5OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTk1ODkwMzI@._

Juventude incontrolável!

 

Facilmente o identificamos como um Stand By Me - Conta Comigo disfarçado, mas fora isso, este Super Dark Times é a típica exibição do melhor e do pior do estatuto de "primeira longa-metragem". É um coming-to-age sob as promessas do macabro, ou é por esse indicio que a atmosfera se adensa, por entre jogos visuais e pequenas provocações lançadas de rompante ao espectador. Jogos visuais? Sim, não esperávamos outra coisa de Kevin Phillips, que após a experimentação em curtas, avança de confiantemente para esta sua nova etapa.  Tendo trabalhado diversas vezes no departamento de fotografia de inúmeras curtas-metragens, é evidente a sua linguagem estética, enquanto tenta emparelhá-la numa narrativa com mais "olhos que barriga".

superdarktimes-h_2017.jpg

Um "pequeno" crime entre amigos, jovens que enfrentam as adversidades da puberdade, leva-os a um turbilhão de violência, um fascínio por si levado como brisa através dos easters eggs de época (visto o filme ser centrado nos anos 90 somos confrontados com o boom dos videojogos ultra-violentos "que jogo é este?"), das paranóias colmatadas por estas personagens, em certo ponto, marginais desta sociedade de rótulos, e da inconsequência destes pensamentos reféns da imperatividade sexual. Mas todo este episódio que tão bem aludiria o Massacre de Columbine, é fragmentado pela inexperiência de Phillips em acertar no tom narrativo, em alargar os horizontes das suas personagens (sem falar da inexactidão do jovem elenco) e atribuir confiantemente coerência ao argumento, dispersado aqui por um prólogo e epílogo demasiado emancipados em simbolismos.

screen-shot-2017-04-19-at-12-36-27-am (1).png

Super Dark Times é então isto: uma promessa que desvanece pela "inexperiência" do seu realizador. Como tal, o desafio foi incumprido, Kevin Phillips não é uma revelação no qual cruzávamos os dedos, nem nada que pareça. É um pretensioso sem o devido rigor.   

 

Filme visualizado na abertura do 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Kevin Phillips / Int.: Owen Campbell, Charlie Tahan, Elizabeth Cappuccino

 

super-dark-times-photo-jpeg.jpg

 

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 04:53
link do post | comentar | partilhar

3.9.17

transferir.jpg

O sentido da vida? Claro que não … apenas Talking Heads!

 

E se disséssemos que Stop Making Sense é muito mais do que um filme-concerto? Uma desconstrução ao próprio conceito. Talking Heads, o grupo new wave rock nova-iorquino encontrou o seu auge em meados dos anos 80, tradução literal neste documento filmado por Jonathan Demme, anos antes dos seus consagrados Silence of the Lambs e Philadelphia. Stop Making Sense captou uma banda em estado de graça, vivendo os seus tempos de loucura criativa, mas foi também o concerto filmado que envergonha os outros concertos filmados. Demme procurou uma linguagem cinematográfica por estas pautas e não se conformou com um recorrente objecto deslavado à imagem dos seus artistas narcisistas, nem à enésima experiência de música ao vivo.

 

Stop-Making-Sense-critica-1.jpg

 

Filmado no Pantages Theatre, Los Angeles, durante a digressão do álbum Speaking in Tongues (1983), Demme acompanha sob um jeito intrigado a entrada do artista em palco. A porta abre-se, um vulto caminha em direção ao público. Neste momento a câmara é seduzida pelo vocalista David Byrne que marca presença num cenário em pré-construção. De pose rígida, Byrne apresenta-se ao público com um rádio Hi-Fi, enquanto cantarola uma versão acústica ao som de um ritmo gravado de “Psycho Killer”, o provável grande êxito da banda. Como é possível, que se desperdice o grande single do grupo nos primeiros minutos e a transfigura numa melodia inconsolada?

1209794.jpg

O público reunido cantarola, acompanhando hesitantemente perante esta “insensível” comité de boas-vindas, e é então, que o sentido, esse logo deixado de fora, é convertido num retrocesso à real natureza da indústria musical. O palco vai-se construído à vista de todos os presentes, os restantes membros da banda apresentam-se um a um, a trupe reúne-se e o cenário é por fim… completado. O público perde a magia da ilusão. Mas fora o ilusionismo, a magia contagiada pela energia do nosso vocalista, em constantes espasmos no qual apelida de dança.

4EsqIpBezSSgSx3nfPzQCKURHH6.jpg

A melodia instala-se e serve-se de pílula amnésica para as audiências, agora reféns do “faz-de-conta” do estúdio montado à última da hora e da banda reunida quase por chamamento. Não interessa, são os Talking Heads em ação, a sua música delirante em conformidade com letras que nos remontam às loucuras das nossas rebeldias, ao mundo sem sentido que por vezes lutamos como insurreição de uma prisão ritualista. Mais que “cabeças falantes” (termo encontrado no seio documental, onde a ação dá lugar a entrevistas passageiras), eles são deuses por um dia, neste caso, conservados em película, os astros idealizados por Demme, no qual desafia a estabelecida formatação do filme-concerto.

landscape-1493320011-stop-making-sense-2.jpg

Stop Making Sense é um dois em um. Primeiro, uma nova forma de entretenimento musical em palco, por sua vez rompendo com a básica ideia de música ao vivo, com a banda a assumir a sua disfuncionalidade e cerebralidade para com as audiências. E segundo, a aula-mestra de Jonathan Demme do seu circuito musical, mais que um técnico nas boas graças do contrato, um artista perante outros artistas, transgredindo a barreira da simples filmagem. Incutindo cinema num atmosférico e orquestrado filme… sim, cinema, em toda a sua glória. Desde a simetria de David Byrne por detrás do seu alto microfone, até o “psicadelismo graffiti” que insurge em palco. Toda a banda o sabia, este concerto iria ser único, e não apenas nas memórias dos espectadores, mas na história do seu género.

Stop-Making-Sense.jpg

Pois bem, para muitos, Stop Making Sense é o maior de todo os filmes-concertos, mas para nós, sem querendo contrariar o consenso, opinamos a criminalidade que é assisti-lo, sentado numa plena sala de cinema. Não há sentido para nisso. Na verdade, nada faz sentido. Qu'est-ce que c'est, fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa…

 

Real.: Jonathan Demme / Int.: David Byrne, Bernie Worrell, Alex Weir

 

screen-shot-2017-04-26-at-10-19-25-am.png

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:25
link do post | comentar | partilhar

1.9.17

Indice Médio de Felicidade.jpg

Numa escala de 1 a 10, qual é o teu índice médio de felicidade?

 

Caro Joaquim, fora qualquer tendência de superioridade, gostaria de perguntar o que realmente lhe aconteceu? O que é que o levou a tornar-se num mero técnico à mercê das vontades questionáveis de um alarve cinema comercial? O senhor foi uma promessa em plenos anos 90, conseguiu, com algum requinte, êxitos memoráveis no cinema português, sem precisar de se rebaixar.

 

indice_medio_de_felicidade17916de9.jpg

 

Julgava eu que Sei Lá tinha sido um equivoco, essa sua passividade para com tão questionável matéria-prima. Perdoei-lhe essa falta de insurreição de conteúdo, perante uma insurreição de forma. A técnica prevaleceu nessa cópia descarada de Sexo e a Cidade, por isso isto não é uma insinuação de incompetências por detrás duma câmara de filmar. Nada disso, eu reconheço o seu potencial, sei que é capaz de mais do que isto. Sim, isto. Este Índice Médio de Felicidade, esta adaptação de outro livro que também não foi capaz de se ver insurgido. Nesta história feel-good decorrida nos tempos de austeridade, que poderia de certa forma acompanhar esta vaga de cinema emergente que tem surgido por aí, cujas más-línguas apelidam de "filmes de esquerda".

 

indice_medio_de_felicidade21957c4fb.jpg

 

Exacto, os Migueis Gomes da vida, essas Mil e uma Noites que tão bem traduziram o estado inerente de um país derrotado e os Sãos Jorges que revelaram força no seu realismo vincado. Poderia ter aprendido com estas abordagens para conceber o seu Índice Médio da Felicidade, porque a vida, por mais optimista que a possamos encarar, precisa de ser tratada com veracidade e tom crítico. Ou se não, aí está, passamos por acríticos com promessas de emocionar com aquilo que os portugueses vêem artificialmente nas telenovelas. O filme é pesaroso, os diálogos não têm orgânica, tal como a narrativa e a direcção de atores.

 

leitao-0.jpg

 

Pior, esconde as boas intenções de um futuro risonho na crenças de cada um, com uma descredibilização da "desgraça" das suas personagens. Recordo o popular filme de Danny Boyle, Slumdog Millionaire - Quem Quer Ser Bilionário, onde o protagonista (Dev Patel) em pleno concurso de Quem Quer Ser Milionário solicita ajuda numa das mais básicas perguntas. Chocado e de tom trocista, o apresentador (Anil Kapoor) refere que tais temas são ensinados na escola e que todas as crianças da primária sabem responder correctamente à questão. O protagonista confronta, afirmando que qualquer criança da "sua rua", perante a miserabilidade das suas vidas sabe perfeitamente a diferença de rupias entre uma banca de comida e de outra.

 

98a36e3cefd26cba83470da44eccdc37624259e5 (1).jpg

 

Sim, Joaquim, se vai fazer um filme sobre os lesados da crise, do sufoco financeiro que muitos portugueses enfrentaram, nunca coloque uma cena onde o seu protagonista vasculha a carteira em busca de trocos para conseguir comprar um jornal para a sua filha, para que, na cena seguinte, o ponha a levar os filhos ao Jardim Zoológico. Não é filmar num canto só porque parece bem, há que entender que, se vai dirigir este filme para um público, cuja grande parte sofreu com as políticas de austeridade, deve sobretudo falar na respectiva língua. Joaquim, lamento, mas tem aqui o seu pior filme, com uma técnica e linguagem puramente televisiva. Com isto espero as melhoras, atenciosamente…  

 

Real.: Joaquim Leitão / Int.: Marco D'Almeida, Dinarte de Freitas, Ana Marta Contente, Lia Gama, António Cordeiro

 

indice_medio_de_felicidade432717da4.jpg

2/10

publicado por Hugo Gomes às 10:51
link do post | comentar | partilhar

25.8.17

Guarda-Costas e o Assassino.jpg

Parceiros do crime!

 

As comédias norte-americanas continuam as mesmas, persistindo o characters type de alguns actores, muitos deles reduzidos a caricaturas, ou a resistências do datados estereótipos, quer geográficos, raciais ou de género. The Hitman’s Bodyguard, possivelmente uma das bem sucedidas deste verão, é a rotina deste catálogo que acompanha gerações, gerações e gerações de espectadores. A esta altura o leitor questiona se o filme em si é merecedor desta revolta, ou se apresenta uma qualidade vergonhosamente descarada. Podemos afirmar que não se trata do pior do ano, nem a “coisa” mais ofensiva dos últimos anos, mas não há motivos para descanso, trata-se de um retrocedo considerar isto entretenimento.

 

MV5BMjE1MTg0MDQ0M15BMl5BanBnXkFtZTgwNTMyMzM0MjI@._

 

Se a nova direcção de Patrick Hughes (The Expendables 3) funciona quando Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds são deixados à sua mercê ao velho estilo buddy movie, o resto … bem, o resto, é uma colectânea de lugares comuns e de miopia por parte dos envolvidos. Vamos por partes: Gary Oldman é o vilão (who else?), fingindo ser um russo… peço desculpa … bielorrusso, porque antagonismo tem origem no leste, segundo a crença yankee; O português Joaquim De Almeida vem sabe-se lá donde e o espectador conhece automaticamente a sua vilania, devido a esse character type e Salma Hayek é a louca mexicana.

 

MV5BMjEzNTE0MzI1Nl5BMl5BanBnXkFtZTgwNDMyMzM0MjI@._

 

Umas piadas previsíveis ali com júbilos geográficos e fart jokes à mistura, a violência R que parece ter virado moda com Deadpool (tudo se resume a tendências), umas questionáveis lições de justiça e maniqueísmo (até Tarantino consegue ser mais ambíguo) e Samuel L. Jackson a demonstrar que continua o melhor a vestir a pele de Samuel L. Jackson. Isto é comédia para alguns, entretenimento para outros, mas no fundo é a mesma jogada de sempre. Hollywood parece não ter aprendido nada ao fim destes anos todos, nem com as mudanças que testemunha. 

 

Real.: Patrick Hughes / Int.: Ryan Reynolds, Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Salma Hayek, Joaquim De Almeida, Elodie Yung

 

MV5BMTc1NzY0NDMzOF5BMl5BanBnXkFtZTgwMzMyMzM0MjI@._

 

3/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:53
link do post | comentar | partilhar

21.8.17

Wind River.jpg

Uma gelada experiência na direcção!

 

Depois da escrita, Taylor Sheridan (argumentista de Sicário) apresenta-nos a sua primeira experiência … perdão … segunda na realização (visto que após as primeiras apresentações deste Wind River houve uma tentativa de ofuscar o seu primeiro trabalho na direcção, o terror Ville, em 2011). Eis um cold western que se assume como um policial à paisana, um prolongamento de um mero episódio CSI sob a desculpa de um diálogo "intrínseco" entre uma América em plena recusa com o seu passado. Temáticas, essas, já abordadas no seu anterior guião, Hell or High Water, de David Mackenzie, graciosamente refinada na química entre Jeff Bridges e Gil Birmingham: "Não é suposto os índios sentirem pena por um cowboy". A decadência identitária desta América em que os índios se vêem forçados a integrar uma sociedade feita por semi-tolerâncias é agora um ponto de partida para a expansão deste extenso whoddunit.

 

wind-river-still-4_30559155864_o-e1485206451630.jp

 

O resto é colocar os "vingadores" à patrulha (Jeremy Renner e Elizabeth Olsen novamente como dupla) e deixar-nos pelo rotineiro da narrativa que recorre às mais extremas preguiças do ramo (flashbacks sem utilidade alguma, sem ser para induzir um profundo maniqueísmo nesta busca) ou da cumplicidade com a violência primária ao invés de repugná-la. Foram situações que o anterior Hell or High Water soube conduzir sem erros de principiante, enquanto que em Taylor Sheridan, encontramos uma persona demasiada presa às suas palavras e vírgulas, sem a fluidez técnica (por vezes parece que não há tripé para planos fixos) para dinamizar essa própria história. Aí nota-se a importância de um realizador visual, aquilo que Mackenzie era tão bem.

 

MV5BNjllNTYzNjAtMDJiYS00NjZlLWFlYjUtZGEwNmZlNTc4MW

Quanto a reflexões da decadência nativa, assim pega, assim esquece. Wind River está condenado ao hype de award season (talvez seja a falta de propostas adultas em sala), mas infelizmente ficamos com a promessa. Sim, Taylor, só as promessas de um messias deste subgénero.    

 

Real.: Taylor Sheridan / Int.: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Gil Birmingham

 

MV5BMjI5MzUxOTUzNV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTExMzcwMzI@._

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 20:56
link do post | comentar | partilhar

19.8.17

Chapeus de Chuva de Cherbourg.jpg

A nossa serenata à chuva!

 

Para muitos "o musical dos musicais". A história de um romance que depressa evolui para um drama de desencontros consolidados com um final "feliz" à sua maneira. Aqui, Jacques Demy conforma-se com o género tão apreciado do outro lado do Oceano para encantar e desencantar a sua natureza musical. Ao contrário do que acontece na maioria dos seus congéneres, onde a música é servida como um rompante ocasional ao "realismo disfarçado" utilizada pelas suas personagens, n'Os Chapéus de Chuva de Cherburgo o filme inteiro está completamente imerso nesse veículo expressivo. Os diálogos são integralmente incorporados nesse modelo, ou seja, o filme é completamente cantado, musicado, sem noção de rima ou em perfeita sintonia com a melodia, simplesmente porque a vida é assim, um pesaroso musical (aqui orquestrado por Michel Lagrand).

 

maxresdefault (2).jpg

 

O enredo, esse, apontaremos como dos mais rotineiros e triviais que o cinema embelezado tem para nos oferecer. É ele, sobretudo, o  propósito para esta manifestação, o romance de dois jovens sonhadores cujo destino acaba por fazer das suas, levando ambos imperativamente às suas respectivas noções de "felicidade criada". Mas começando pelo início, pela nota de arranque desta melodia suave e de vizinhanças tristes, o plano picado de guarda-chuvas que cobrem a calçada encharcada num "estalar de dedos" servindo de postal de abertura para esta dita terra encantada - Cherburgo.

 

demy_ecran23c.jpg

 

Encantada? Sim, um verdadeiro conto de fadas em linguagem estetizada, a arquitectura rústica e quase erguida de cartão que sobressai nesta paisagem em manto de um belo cinzento para por fim, guiar-nos ao cantos e recantos, devidamente ao ritmo das câmara de Demy que se faz entre travellings arquitectónicos de compartimento a compartimento. Nesta viagem, extraem-se cores e mais cores, um jogo de paletas que endurecem ainda mais o conceito de fantasia. O sonho de juventude, a beleza dos verdes anos, agora vivida por jovens em pleno romance, cuja plasticidade referente ao brilho dos olhos apontados no futuro se perde na chegada do segundo ato. Cherburgo abraça assim esse realismo formal, pelo menos estético, para nos conduzir ao desencanto da maturidade.

 

parapluies4.jpg

 

Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo são estes os novos Romeu e Julieta, cujo infortúnio da sua separação deve-se aos caminhos incertos da vida. Uma juventude planeada e abalada pela herança e pelo dever. Os Chapéus de Chuva de Cherburgo é cinema sem registo fantasioso, não há Deus ex Machina que empale o conflito, é tudo resumido a uma longa serenata à chuva, como vemos no seu inicio, para chegarmos ao final, também ele exausto pela precipitação. A chuva do encontro com a chuva do reencontro, o de "não voltar onde já alguma vez foste feliz", o de desistir na persistência e abraçar a resistência para com a infelicidade.

 

umbrellas.jpg

Se bem que Jacques Demy nos reservou um filme sobre a decadência da paixão, mas nunca a queda do amor. Ou seja, nesta sua descrença no Cinema como ato de sonhar, ele encontra a crença no ato de viver. E o Cinema vive no seu filme, deixando o espectador longe do estatuto de divindade omnipresente tantas vezes gratuitamente adquirido, não interrompendo esta alternativa de "felicidade" (que acaba por sê-lo). As personagens têm aqui, direito às suas vidas autónomas.  

 

Real.: Jacques Demy / Int.: Catherine Deneuve, Nino Castelnuovo, Anne Vernon

 

umbrellas-pic-3_3.jpg

9/10

publicado por Hugo Gomes às 15:18
link do post | comentar | partilhar

14.8.17

Torre Negra, A.jpg

A negra percepção de Stephen King!

 

Tenham medo. Tenham muito medo quando o escritor Stephen King expressa publicamente que gosta de uma adaptação cinematográfica de uma obra sua. Recordam-se de Sleepwalkers? Pois, ele apoiou o resultado. Recordam-se de Shining Carrie? Pois, ele não apoiou. Goste-se ou não de Stephen King, a verdade é que um escritor que, por vezes, não possui a perícia de avaliar linguagem cinematográfica frente aos seus próprios escritos dá em resultados destes, o de confundir fidelidade ao trabalho original com transparência cinematográfica.

 

The_Dark_Tower.0.jpg

 

The Dark Tower não é só a pior adaptação de um trabalho seu, porque para esse título já há muitos candidatos, mas é, no seu "grandioso" potencial, um produto falhado, dilacerado pelas promessas de mercantilização. Sim, existem ideias de um franchise, que neste momento parece encontrar lugar no pequeno ecrã, o que nos leva à maior ambição desta Torre, ser um episódio piloto. Com a sua hora e meia de duração (graças divinas por não se prolongar mais), Nikolaj Arcel (A Royal Affair) transforma o épico fantástico com standards de western de King num wannabe de saga juvenil e inconsequente, narrativamente enfadonho e com uma edição conduzida para fugir de elipses, até porque a "palavra de ordem" é despachar o enredo.

 

MV5BMGI1ZTg5N2EtOThlMy00Y2Y2LTkxNWMtZjQzMTdhNzZlYW

 

Não há profundidade aqui, nem personagens devidamente construídas para suportarem esta viagem entre dimensões, nem nada que valha um curioso olhar nesta produção. Talvez seja Idris Elba e Matthew McConaughey a transmitirem algum esforço em relação à atribuição de profissionalismo neste seio. Um teor fantasiado, castrado, demasiado preso aos lugares-comuns, quer da imaginação de King, quer dos próprios códigos do entretenimento cinematográfico. É um episódio falhado não pelo seu conceito, mas sobretudo, pela sua execução. Um acidente por inteiro, aquela oportunidade há muito esperada de trabalhar na chamada "obra infilmável", agora reduzida a meras cinzas. Obrigado The Dark Tower por nos mostrar o quanto silly season pode ser o mês de Agosto.

 

Real.: Nikolaj Arcel / Int.: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Abbey Lee, Jackie Earle Haley, Katheryn Winnick

 

matthew-mcconaughey-talks-about-man-in-black-the-d

 

 

3/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 11:12
link do post | comentar | partilhar

9.8.17

Vida de uma Mulher, A.jpg

A lei da vida!

 

Tal como acontecera com o anterior La Loi du Marché (A Lei do Mercado) [ler crítica], Stéphane Brizé centra-se num foco inicial, uma mensagem quase pedagógica para que no fim entre num sistema de simbolismos à deriva. Em A Lei do Mercado, Vincent Lindon compunha com humanidade um desempregado em busca, não só da sua sobrevivência, mas do orgulho proletariado, por vezes esquecido num mundo cada vez mais dependente da sombra capitalista e dos avanços tecnológicos alicerçados no tão chamado mercado. Aqui temos Judith Chemla, que se apropria da personagem de Jeanne nesta adaptação de um livro de Guy de Maupassant, um dos mais incontornáveis romancistas franceses. Ela é um "pássaro enclausurado" em prol do seu impotente estatuto numa sociedade patriarcal e dito masculina do século XIX.

 

f84a647102a46b4c3fc72d05afdb94b4.jpg

 

Esta personagem de Chemla está assim muito próxima à desempenhada por Lindon: ambos são seres encurralados pelos tempos que não lhe correspondem, pelas sociedades que teimam em rebaixá-los, em torná-los menos que seres humanos, números, no caso da Lei do Mercado, um propósito no caso deste Une Vie. E nesse sentido, é no interesse de assistir um retrato de poucas palavras de uma mulher iludida, aquele espectro vitimado do seu redor. Jovem dotada de felicidade, sob as ordens e visão omnipresente do seu progenitor, em breve, convertendo-se, numa mulher de casa, refém de um amor que depressa evolui para à ordens de um marido dominante: "quem manda nesta casa sou eu". Jeanne torna-se então, em matéria fílmica, não uma personagem, mas um retrato bifurcado do anterior passado, do presente e do futuro, a condição da mulher, longe dos traços definidos das classes sociais (para não cairmos na história do "coitadinho" dos ricos e a sua "monotonia").

 

judith-chemla-dans-une-vie-de-stephane-brize-1_574

 

Assim sendo, Stéphane Brizé transforma esta vida feminina numa outra Lei do Mercado, a exposição dos seus traços comunicativos e narrativos em prol de uma mensagem que facilmente se esgota na sua representação. É com a chegada de outro obstáculos social, a "viuvez" que se instala na nossa Jeanne, que o filme atravessa uma espécie de impasse descritivo. Se anteriormente Une Vie era composto de silêncios e elipses agachadas entre flashbacks discretos, agora é tornado num retrato de martirologia, um erro que já fora cometido a meio gás no já referido A Lei do Mercado, aquele sofrimento que se torna um espectáculo redutível. Constantemente, em cenas seguintes, Jeanne observa o Oceano, recordando dos poucos momentos da sua felicidade, mantendo o saudosismo e as saudades por uma vida que lhe passou completamente ao lado.

 

slide_avida3-800x555.png

 

Se é bem verdade que o espectador não necessitava de algo concreto - basta sentir, o não-realismo, mas o bressoniano estilo de Brizé - Une Vie é um filme, acima de tudo, que se assume numa voluntaria fachada de requinte, ao invés de um requinte de produto.   

 

Real.: Stéphane Brizé / Int.: Judith Chemla, Jean-Pierre Darroussin, Yolande Moreau

 

Une-vie-de-Stephane-Brize-Como-inaugurar-un-festiv

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 19:55
link do post | comentar | partilhar

Annabelle - A Criação do Mal.jpg

A criação de um êxito de terror!

 

A popularidade desta boneca amaldiçoada em The Conjuring [ler crítica] levou-a a bordo num franchise próprio. Aí, Annabelle, anteriormente reduzido a adereço secundário converte-se no centro de uma artimanha de jump scares e provocações satânicas num malfadado filme de 2014 [ler crítica], sendo que uma sequela / prequela desse mesmo fenómeno foi visto com alguma desconfiança, principalmente com a vinda de notícias de um "Universo Partilhado". As brisas positivas chegaram com a entrada de David F. Sandberg na cadeira de realização, o sueco que havia demonstrado perícia em trabalhar a luz e a escuridão na sua curta, e mais tarde convertida a longa, Lights Out [ler crítica]. Se é bem verdade que este Creation supera aos pontos os acidentes cometidos pelo anterior Annabelle, é também verdade que se trata de mais um caso de um prolongado síndrome nas grandes produções de terror. Mas vamos por partes.

 

Screen-Shot-2017-04-02-at-145901.jpg

 

Annabelle: Creation recorre às típicas camadas do old dark house, as assombrações como ponto de criação para um dispositivo narrativo que mais tarde ou mais cedo assemelhará a um “comboio-fantasma”. Mas é logo nesta declaração a um subgénero tão antigo, que este segundo capítulo arrecada o seu primeiro ponto favorável. Quando deparamos com uma visita guiada pela casa, esse cenário que nos acompanhará ao longo do filme, somos induzidos por uma câmara que topografa espacialmente esse imóvel-décor. Assim, o espectador consegue ter uma visualização mental de onde encontra-se cada assoalhada, cada compartimento, cada quarto escuro e proibido, isto, acima da “cegueira” cometida no primeiro Annabelle, onde encarávamos uma protagonista correndo desalmadamente por “sabe-se lá onde”. As audiências são assim, visitantes em plena descoberta do espaço.

 

Annabelle-Creation-Poster-Cropped.jpeg

 

Apresentado o espaço, personagens e subenredos, seguimos então para os jump scares, pelos sustos que saltitam e pelas personagens que se comportam como verdadeiras cobaias do medo. Sandberg é dotado na sua inclusão da escuridão, o jogo de luzes e sombras que salienta a sua dose de terror atmosférico - e mais, notável conhecedor do chamado “terror invisível” que tão bem Jacques Torneur usufruiu nas suas incursões do fantástico. Aqui, a boneca é um acessório máximo dessa … sugestão.

Annabelle-2-Exclusive.jpg

 

Contudo, o carris oleado e devidamente meticuloso da sua proposta, depressa descarrila e é então que entramos no referido “síndrome” (que contagiou todas as produções de James Wan): o terceiro ato, essa apropriação do caos, literalmente falando. Annabellle: Creation esgota a sua porção de sustos e truques e cede ao desespero. É tudo ou nada, o espectador habituado à construção desta atmosfera depressa se vê encurralado numa rodopiante perseguição sobrenatural. Há que fugir aos demónios que já não se dão ao trabalho de “brincar connosco”, ao invés disso, é a dependência do CGI (esse maldito “parasita” do género), a música que denuncia os "surpreendentes" sustos e do Universo Partilhado que actualmente se insere. O resultado, um final com um cameo “especial” (a verdadeira Annabelle, essa boneca de pano, faz a sua, por fim, aparição), que nada acrescenta e com um sentido muito, mas muito duvidoso.

 

annabelle-creation-full-new-trailer.jpg

 

Annabelle: Creation, uma sequela/prequela que supera o seu antecessor, reúne o que de melhor e de pior se faz no chamado “terror de estúdio”. Quanto a isso, há que reconhecer o talento por detrás de Sandberg, nele sim, encontramos um certo vinculo perdido no género.

 

Real.: David F. Sandberg / Int.: Stephanie Sigman, Miranda Otto, Lulu Wilson, Anthony LaPaglia

 

annabelle-creation-trailer.jpg

 

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:59
link do post | comentar | partilhar

4.8.17

Verão Danado poster.jpg

Noites felizes, manhãs inexistentes!

 

«Tu estás livre e eu estou livre, e há uma noite para passar». Francisco e Maria conheceram-se naquela mesma noite. Agora, dançam ao som de cantigas de outros tempos num terraço em Lisboa. «Porque não vamos unidos. Porque não vamos ficar na aventura dos sentidos.» . Foi há poucas horas que discutiam sobre a posse de um isqueiro. Um isqueiro encontrado no meio da rua, sem dono, passando directamente das possessões de "meu", "teu" e por "nosso". «Tu estás só e eu mais só estou. Tu que tens o meu olhar». Francisco e Maria sob o ritmo daquela canção, não se tocando fisicamente, mas criando um elo através do olhar, uma cumplicidade que os levará ao fim da noite. «Tens a minha mão aberta, à espera de se fechar nessa tua mão deserta». A festa, a saída, aquele encontro entre muitos que termina a dois. Por fim, estas duas figuras são guiadas para os aposentos, sob as promessas do consumo daquela atracção que "cresceu" numa pista de dança.

img_620x347_2017_08_02_13_01_40_376563.jpg

O dia fez-se, Maria acorda primeiro que Francisco, mas não o abandona, ao invés confronta-o a sair da sua cama, da sua casa, por fim, da sua vida. Francisco passou uma noite, uma "aventura dos sentidos" como cantarolava aquela música de António Variações naquele discreto arraial. A partir dali, a nossa personagem nunca mais viu Maria. Nunca a procurou, nem nunca precisou, o que aconteceu foi uma experiência, não um romance. Romance? Que importa tal coisa neste Verão Danado?

1151017 (1).jpg

Pedro Cabeleira concentra nesta sua primeira longa-metragem, um filme instintivo que resulta numa jovialidade embelezada de teor hedonista. A festa que nunca termina, e as ressacas intermédias que transformam o espectador no vivente desta alegoria jubilante. O jovem realizador não pretendeu um retrato geracional, tal como declarou em entrevista, as suas pretensões são simples, possivelmente fúteis ao olhar, e nelas recolhe uma complexidade "danada". Um estado de espírito que há muito não perseguíamos, a mais notável sensação do início de uma experiência, qualquer que seja a sua natureza. O erotismo trazido por esses caminhos extra-sensoriais, a "gula" de conhecer as personalidades "passageiras", o de se focar nas "criaturas da noite", essa fauna que se alimenta, de forma vampírica, das sequenciais festas.

3dbbf521da9c7ed9371c2e2f7185d56d.jpg

O geracional é involuntário, Verão Danado é a marca da sua equipa, do "sangue" e dos "verdes anos" depositados por esta. Sei, as aspas não foram coincidências, dois filmes tão queridos da nossa cinematografia, de Pedro Costa a Paulo Rocha, ambos que entraram em Lisboa como estranhos pedintes, maravilhando uma prisão de concreto e um quotidiano que se afasta da suas anteriores idealizações. Aqui, Cabeleira remete o conto do rural para a cidade, mas as consequências são todas menos saudosas, há uma prisão sim, mas o nosso protagonista (Pedro Marujo) não anseia evadi-la. Pelo contrário, quer imergir no psicadélico desta jornada em estado de passividade.

transferir-11.jpg

Mas para os que não acreditam na folia, Verão Danado não é um filme refém dessas fantasias draculeanas, do desejo interminável de permanecer jovem para todo o sempre. Entre ressacas que prestam serviço a elipses narrativas, Cabeleira forma um circulo de uma geração à deriva, recém-licenciados em busca do seu primeiro trabalho ou dos sonhos que teimam em não coexistir com as suas realidades. Mas ao invés da pedagogia de um Morangos com Açúcar e da ideia de formação encetada, Verão Danado abrange a experiência-simulacro. O espectador é um mero festeiro pronto a esquecer do Mundo que o abandonou, ou que simplesmente não o compreende. Pela noite adentro, sob a estética (existem traços do cuidado visual de um Gaspar Noé) que sobrepõe a câmara em plena demanda, como alguém que procura o foco de interesse num convívio fora do controlo.  

597344.png

A verdade é que o cinema tem ido cada vez mais ao encontro dos mais jovens e, com isso rejuvenescido. E esse rejuvenescimento não é um factor que deva ser ignorado, nem sequer desprezado. Verão Danado exibe os dotes dessa tremenda juventude… até Nuno Melo, quando surge, cobiça esse tão inexistente elixir. Ó tempo, porque não voltas atrás?

 

Real.: Pedro Cabeleira / Int.: Pedro Marujo, Lia Carvalho, Ana Valentim

 

VERAO_DANADO_STILLS_1_156_1-1-960x566_c.jpg

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:18
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

The Snowman (2017)

The Foreigner (2017)

Le Fils de Jean (2016)

Borg McEnroe (2017)

Al Berto (2017)

Flatliners (2017)

IT (2017)

Train to Busan (2016)

Logan Lucky (2017)

The Void (2016)

últ. comentários
Muito bom o teu blog, Hugo! Continua com o excelen...
Boas biopics são os verdadeiros e honestos retrato...
Boa Tarde; enviei-lhe um email para o seu email. O...
Uma Jóia do Cinema. O Kubrick sempre foi muito sub...
Já tinha visto este trailer e antes de ver fiquei ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
11 comentários
9 comentários
3 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO