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24.4.17

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O regresso dos desajeitados!

 

O Mundo poderia viver sem uma sequela de Guardiões da Galáxia? Claro que podia, mas digamos que a sua existência não nos levará ao Armagedão. Porém, o que era descontraído no primeiro filme, torna-se forçado e demasiado confiante no segundo. É a vida! São as leis de mercado e sobretudo as regras das “sequelites”. A proposta tem que ser maior, mais ambiciosa, e quantitativamente aliciante, o resto é jogar no seguro e fazer “rolar” a “magia” dos encantadores números do box-office.

 

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Sim, Guardiões da Galáxia é a “grandiosa” aposta para as audiências pré-estivais, aquele sci-fi humorado e colorido, recheado de easter eggs que vão do kitsch ao vintage e vice-versa, tendo como ingrediente extra, um recanto perfeito para famílias. Trata-se do regresso dos cinco “misfits”, agora consolidados a uma espécie de comunidade “familiar”, uma equipa de mercenários que protege a Galáxia por um bom preço. As personagens do anterior estão lá, conservadas em âmbar para que os espectadores não notem divergências e, pelo facto, são eles que nos trazem as boas novas desta continuação. A começar pelo wrestler David Bautista no papel do atípico Drax, a personagem que lhe mais condiz, e o verdadeiro comic relief de um universo cheio de comic reliefs. Nesse aspecto, temos aqui o perfeito clown intergaláctico. Pelo meio encontraremos guaxinins falantes, um par de “pombinhos” em constante vaivém e árvores “fofas”, esta última, uma aposta mais forte ao mercado do merchadising do que propriamente em trazer algo de útil a um filme com milhentas cenas inúteis.

 

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Será que vemos em Guardiões da Galáxia os ensinamentos de George Lucas, o cinema como uma tela branca, o facilitismo do CGI e, pior, a prolongação das sequências descartáveis como provas de manuseamento de tal tecnologia? Pois, se por eventualidade editássemos o nosso Volume 2, descartando toda essa frente de momentos slapstick e dignamente paródias, as runnings gags que persistem e perduram, as correrias que dão uso à palete de cores e à infinidade do CGI, e como não poderia deixar de ser, os easter eggs anexados a cameos, nomes, referências e ganchos para futuros capítulos. Se tirássemos isso tudo, Guardiões da Galáxia estaria despido a pouco mais de uma hora e meia de duração (ao invés das duas horas), integrado a um enredo corriqueiro de vilões com desejo de dominar o Mundo e as moralidades de sempre na Casa do Rato Mickey (a Disney tem um verdadeiro “daddy issue”).

 

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É um blockbuster de bons momentos, disso não há dúvida, sobretudo no jogo versátil de imagem com a musicalidade, mas é de um desequilíbrio total, um confronto entre a libertinagem de James Gunn frente a um megalómano estúdio que tem tudo para sufocar liberdades criativas. Pode ser cliché afirmar isto, mas cá vai. Não há frescura como o primeiro!

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Michael Rooker, Sylvester Stallone, Kurt Russell

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:20
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20.4.17

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Os Demónios que nos livre!


Inicialmente tido como uma terceira parte de Demons, a saga demoníaca levado a cabo por Dario Argento e Lamberto Bava (filho do cineasta Mario Bava), Michele Soavi declarou independência e o transformou em algo autónomo, mas ... não devidamente emancipado do estilo dos seus "padrinhos".

 

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La Chiesa (The Church) leva-nos ao tormento das Idades das Trevas, por entre templários e inquisições de desfechos sangrentos. São as cruzadas, trazendo consigo o derrame de muitos "hereges", cúmplices das forças demoníacas que sempre ameaçaram o espírito humano. No seio do massacre submetido ao nome divino, é erguido um monumento, um edifício que pudesse consagrar o amor terreno por Deus e que aprisionasse qualquer forma inglória. Como tal é construído uma Catedral, um símbolo vitorioso. Anos passaram, até chegarmos aos tempos actuais, onde a chegada de um bibliotecário faz adivinhar tamanha tragédia, um desconhecido que se deixará vencer pelos espiritos torturados e pelas entidades que se escondem nas sombras, no mais remoto lugar daquela "prisão" de pedra sobre pedra.

 

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Em La Chiesa, devido ao seu pretensiosismo aguçado e quase arquitectónico, o fracasso é um iminente destino, agravado pela incapacidade de construção de personagens ou na condução de um argumento escrito e transcrito e assim crucificado na falta de coerência. Se tudo está destinado ao mais martirológio dos falhanços, deve-se salientar a forma com que Michele Soavi manobra-se pelo estilo vincadamente série B, pela redução aos lugares-comuns e pelo humor involuntário refeito a partir da não exactidão do enredo. A verdade é que Soavi aproveita a cenografia gótica, a atmosfera por vezes sacrificada e a via sacra como inspiração para este modelo de pesadelo cinematográfico.

 

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No terceiro acto, La Chiesa transforma-se num atento filme de cerco (a invocação da saga não assumida), onde "bonecos" (ao invés de personagens) são subjugados a uma orgia de tentações infernais, heresias que se enquadram como formas demoníacas. É assim que recomeça o sangue, a "nova" cruzada, agora invertida e altamente comunicativa com o veio sexual e por vezes, profano. Sim, tal como uma descida danteana, este é um filme recheado de luxuria, de trevas que embicam para os sonhos molhados dos nossos negados temores e medos. É o Inferno sedutor e indesejado descrito nas escrituras e na memória humana quando esta proclama os feitos cometidos por Deus e a tentação empestada pela Besta.

 

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"Não há Deus sem Diabo", diz o bispo (Feodor Chaliapin Jr.), espalhando o medo pelo desconhecido que os envolve. Michele Soavi conseguiu no meio do caos um pesadelo, e por pouco dava-nos a sua obra-prima (dentro dos parametros mimetizados do legado Bava / Argento). Mas grandes monumentos tendem em cair e La Chiesa cede abruptamente.


Real.: Michele Soavi / Int.: Hugh Quarshie, Tomas Arana, Feodor Chaliapin Jr., Barbara Cupisti, Asia Argento

 

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publicado por Hugo Gomes às 02:21
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19.4.17

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Esta terra é nossa!

 

Se tem ou não recursos para o fazer, isso são questões que divergem da capacidade de fazer. A Ilha dos Cães, o filme que tem sido equivocamente publicitado como o último do actor Nicolau Breyner, é uma tentativa infeliz no campo do cinema de género português, mas que não deve ser ignorado de todo.

 

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Contado a três tempos e com base criativa na obra literária do escritor angolano Henrique AbranchesOs Senhores do Areal - o realizador Jorge António (O Miradouro da Lua, a 1ª co-produção luso-angolana) constrói uma fita que se complementa a preencher o espaço da série B, do subestimado cinema fantástico pelos demais, e tendo como foco uma memória colonial que entra em colisão com diferentes etapas temporais. É o esclavagismo a perpetuar o pior do colonialismo, a resistência a servir de avante para ideias opositoras e, por fim, o cenário actual onde os fantasmas de um passado negligenciado parecem coabitar.

 

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Tudo resulta num filme de boas intenções, mas incompleto no seus objectivos, tal como um cão raivoso que responde ao instinto e não com a exactidão das ordens do seu dono. Para Jorge António, falta sobretudo um aprumo nos diálogos (forçados deve-se salientar), uma liberdade em fugir dos lugares-comuns que assumem impasses (como um romance incutido a três pancadas) e, sobretudo, uma coragem em arriscar, acima do simplesmente agradar ao público-alvo.

 

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Quanto aos efeitos visuais, nomeadamente as tentativas de CGI, perdoamos, até por que sabemos que o tecnicismo advém do financiamento e sem recursos não existem frutos para mais. Contudo, há que referir A Ilha dos Cães está à frente de muitas produções assumidamente mainstream da nossa cinematografia, que com maiores recursos tendem em tratar o espectador como um alarve. Um exercício produtivo!

 

Real.: Jorge António / Int.: Ângelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, Ciomara Morais, João Cabral

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 15:43
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13.4.17

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Destino sobre rodas!

 

A alta velocidade ou suscita um acidente ou uma autuação e, neste caso especifico, ficaremos com a segunda hipótese, porque o desastre é iminente caso continuem com estas velocidades frívolas. Mas antes de mais, deve-se aplaudir a nossa "Furiosa", Charlize Theron, que fez tudo para que esta carruagem não se despenhasse de forma catastrófica, e tem a capacidade de salvar um filme condenado à auto-ejaculação dos fãs (Charlize só não foi avisada a tempo para um desastre à lá Sean Penn).

 

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Aliás, são as mulheres por detrás do volante que direccionam este Velocidade Furiosa 8 para caminhos menos corriqueiros. Resumidamente, é a nossa Theron em conjunto com uma breve, mas mesmo assim profissional Helen Mirren, a lembrarem como se faz no plano dos desempenhos. Isto porque os nossos homens são demasiado vigorosos em relação à sua imagem "máscula"  e procrastinam em atribuir algo mais pessoal a um franchise cada vez mais despersonalizado desde a saída do realizador Justin Lin (na altura, o verdadeiro herói de Fast and Furious).

 

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O resto é tudo aquilo que esperamos da saga, só que em doses meramente cansativas, desde o foco central à personagem de Vin Diesel (andamos 8 filmes com o protagonismo e já estava na altura de mudar), um incoerência na continuidade e ainda a industrialização que se entranha, até mesmo no melhor ponto que estes filmes possuíam: os stunts, agora cada vez menos impressionantes.

 

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De resto, recorre-se aos estereótipos (Tyrese Gibson), às experiências iniciadas mas não levadas a avante (a dupla Dwayne Johnson e Jason Statham poderiam ser um Terence Hill e Bud Spencer em modo testosterona) e a perpetuação do conservadorismo a defraudar a irreverência, até porque falamos de família e bons valores morais de forma a não ofender as massas que tanto contribuíram para o êxito estrondoso disto tudo. Após este capítulo, só falta mesmo este grupo ir para o espaço, até porque já não existem mais caminhos a seguir para além do beco sem saída. Isto já cansa … e muito!

 

Real.: F. Gary Gray / Int.: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Helen Mirren, Michelle Rodriguez, Scott Eastwood, Tyrese Gibson, Ludacris, Kurt Russell, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Nathalie Emmanuel

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:35
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12.4.17

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A absolvição chega tarde!

 

Desde cedo os italianos souberam extrair da crítica social, como política, o seu modelo cinematográfico. O neo-realismo, oficialmente nascido em 1943, é tido como uma dessas importantes visões de ousadia mordaz, enquanto que se servia de afronta para a ideia, então estabelecida, de cinema, contrariando as tendências estilísticas, filmando de forma estilizada, um realismo não estilizado (Erwin Panofsky).

 

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Com o passar dos anos, as críticas italianas obtiveram as suas diferentes facetas, desde a comédia à lá Itália que olhava para o humor como um portento escudo no seu ataque, e o "fellinismo", esse surrealismo barroco disfarçado que se abatia anos seguintes como um novo signo de vocabulário cinéfilo. Por fim, aparece-nos a poesia de Pasolini a servir de contraste e a fervorosa veia politica de Nanni Moretti a prevalecer numa despida sinceridade ideológica. Ou seja, em sangue italiano, a política como tema crítico para uma visão analista corre com tamanha agressividade nestas veias.

 

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Actualmente, o cinema não encontra nenhum movimento artístico predefinido, e a globalização tem tido papel fundamental na diversidade de vozes, cuja única similaridade é esse tom crítico. Le Confessioni é o enésimo avante de discurso politico, principalmente vindo da dupla Andò / Servillo, que após o sucesso de Viva La Libertá (Viva a Liberdade), onde apresentava o humor doppelganger para construir uma politica de sinceridades (mas nunca objectiva na sua crítica), reúne-se para invocar um misto de referências, que vão desde uma reunião G8 e a clássica forma de thriller de Agatha Christie, passando pelas óbvias menções de I Confess, de Hitchcock (as personagens estão encarregues de elucidar-nos) e a estética que fora mundialmente reconhecida pela cinema de Sorrentino.

 

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Toni Servillo é um monge de raízes misteriosas, convidado a participar em tal reunião politica, a pedido do líder da FMI, Daniel Roché (Daniel Auteuil). Os motivos deste misterioso convite são revelados após o suicídio deste último. Um ataque às politicas de austeridade e às empresas que ganharam com a crise, que tanto têm a dizer para os países do Sul da Europa, como Itália. Contudo, esse mesmo ataque é feito por impasses do grotesco burguês à lá Sorrentino, mas ao contrário do realizador de La Grande Bellezza, Roberto Andó funciona como um impostor, copista, e essa preocupação pela estética revela-se na sua maior fraqueza, até porque o filme nada tem para dizer, para além de um extremo senso de moralismo.

 

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Entre punch lines aqui e ali, frases que nos levam à nossa consciência moral, Le Confessioni é demasiado preso às suas influências. Toni Servillo é imperativamente regido ao seu ego e o resto, totalmente inofensivo, interligando as devoções religiosas, o maniqueísmo das boas acções, como uma solução pela frieza politica. Tal como diz Connie Nielsen a meio do filme, "já todos andamos fartos de contos de fadas".

 

Filme visualmente na 10ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andó / Int.: Toni Servillo, Daniel Auteuil, Pierfrancesco Favino, Connie Nielsen

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:27
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11.4.17
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Todos aguardam pelo seu Paraíso!

 

Não é negação, mas sim saturação. O Holocausto parece ter atingido o seu ponto de ebulição no Cinema, ou há ideias e novas abordagens para apostar, ou se verga, como se turismo de tratasse, numa reconstituição crowd pleaser. Conta-se pelos dedos as "inovações" nestes lugares, não comuns, mas tão presentes no nosso "eu" moral. Em tempos de populismos e "revisionismos históricos" (termo técnico trocado pelos historiadores para amenizar a evolução do negacionismo), existe uma importância humanitária, como cultural, para recordar estas "horas negras" onde a sobreposição ideológica acima das condições humanas obtiveram resultados catastróficos que ainda hoje ecoam. Mas até que ponto deveremos recordar essas atrocidades? Andrei Konchalovsky parece ter encontrado uma nova perspectiva ao tema através do ponto consequente da desgraça da ideologia politica. Paraíso, o título, resume, não ao Reino dos Céus, mas à emancipação de uma ideia, de uma comunidade "moral high ground" onde a politica adquire a sua consistência massiva.

 

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"Um Paraíso para o nosso povo. Um Paraíso alemão", declara de peito erguido o oficial Khelmut (Christian Clauss) nos interrogatórios que intercalam a narrativa desta obra envolvida em tons cinzentos. Ele é um homem decente, segundo as doutrinas globalmente conhecidas de Henrich Himmler, de um coração abrangente, mas completamente embebido pelo sonho Nazi partilhado por Hitler e os seus seguidores de partido. Khelmut é a prova de que a intolerância juntamente com a ignorância condiciona-nos como humanos e que o passado nos confronta, igualmente unindo-nos a essa mesma jornada moral. Para o nosso oficial, a ligação directa para essa consciência deveu-se a uma "princesa russa", caída em desgraça num campo de concentração. Olga (Julia Vysotskaya) é essa aristocrata agora reduzida a um número, um número a ser subtraído pelas contas dos alemães, e a sua vivência longínqua com o oficial que se vai tecendo numa réstia de esperança numa fuga iminente - "achas que há um paraíso para todos?".

 

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Andrei Konchalovsky recria aqui um embate entre ideologias e golpear perspectivas, porém, e infelizmente, tudo é feito através da invocação dos lugares-comuns, do requisitar da violência gratuita que nos explicita o óbvio - a desumanidade das SS. Assim, o realizador parece tropeçar num evidente maniqueísmo, principalmente tendo em conta um certo teor nacionalista, onde guarda rancor de gerações aos germânicos e compaixão pelos seus conterrâneos (basta ler a dedicatória deixada pelo mesmo no final da fita).

 

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Mas apesar dessa motivação obscura, Paraíso desfragmenta em cacos um filme nascido nas ruínas que se expande como uma panóplia de conhecimentos ideológicos isolados e algumas catch phrases que ficam para futuras reflexões, mais do que todo o filme ("O mundo sem corrupção, seria completamente desumano"). Como se não bastasse, as decisões narrativas culminam num plot twist com mais 500 anos, e bem português por ventura. A invocação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, aqui a soar como um puro registo de manipulação, da desgraça sofredora do cristianismo e o julgamento dos três cabecilhas dos respectivos grupos. No final das contas, o que sobra é O Arrependido, O Orgulhoso e a A Absolvida.

 

Real.: Andrei Konchalovsky / Int.: Julia Vysotskaya, Peter Kurth, Philippe Duquesne, Christian Clauss

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:53
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6.4.17

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Ladrões em modo vintage!

 

Zach Braff cumpriu o seu primeiro requisito como realizador em 2004 com um pequeno grande filme de superação existencial, Garden State, o qual também protagonizou ao lado de uma Natalie Portman sob uma inocência virginal. Outrora conhecido como "o actor" da série Scrubs, Braff regressa à cadeira de realizador, passados 10 anos, e o resultado foi um registo independente (Wish I was Here) em que espectador sente que visita o mesmo lugar de antes,  mas o efeito não é nostálgico. Foi então que, após uns produtos para a televisão, o actor convertido em realizador avança numa nova tentativa no cinema, desta feita em estreita cooperação com um grande estúdio (Warner Bros.) e como matéria-prima um homónimo filme de Martin Brest (que por cá teve o título de Quadrilha do Reumático) e, voilá, chegamos ao mero anonimato de Braff como cineasta.

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Este Ocean's Eleven de terceira idade, com mais ligações ao original protagonizado pelo Rat Pack (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop) do que na versão de Steven Soderbergh, é um entretenimento emocional sob a máscara de cinema politico para massas. A razão está num discurso algo nacionalista e anti-capitalista (a guerra contra a classe de Wall Street e a transferência de empresas na busca de mão-de-obra mais barata no resto do Globo) que hoje encontrou voz na eleição de Trump, da mesma forma que traz três veteranos actores de uma Hollywood que nega as suas "royalties" para induzir a temática da terceira idade e o desprezo social para com estes.

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Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin são bons motivos para comprar o bilhete para esta mesma sessão, mesmo que o tom cómico e o modelo heist movie já tenha visto melhores dias. E é então que após um cínico desfecho em que a criminalidade compensa, como se tal movimentasse o destino financeiro, politico e social de um país (a invocar o complexo Robin dos Bosques mais uma vez), somos levados para os créditos finais. Afinal, Zach Braff filmou isto! Sim, foi ele mas poderia ter sido outro "tarefeiro" qualquer. Aliás, Hollywood está cheio deles.

 

Real.: Zack Braff / Int.: Michael Cane, Morgan Freeman, Alan Arkin, Christopher Lloyd, Matt Dillon

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:48
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30.3.17

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Fantasmas de Shirow!

 

Bem-vindos à queda do cinema americano, e não, nada tem a haver com as controvérsias de whitewashing, a escolha de Scarlett Johansson para interpretar uma cyborg. Não, simplesmente o que vemos nesta adaptação de uma adaptação de uma manga da autoria de Masamune Shirow, é o requisito de lugares-comuns e dos truques primários que tanto minam o cinema para as massas oriundos dos grandes estúdios americanos.

 

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Já a primeira conversão do material original para cinema, uma animação estilizada de Mamoru Oshii, funcionou como um quebra-formulas daquilo que poderia no entanto suscitar. É ficção cientifica da futurista, com pinceladas fortes de Phillip K. Dick e, sob linguagem cinematográfica, influenciada por clássicos como Metropolis e Blade Runner, que orquestrava uma narrativa anti-climax, sugestiva e sobretudo cerebral. Aonde irão as nossas particularidades enquanto seres humanos num mundo completamente a mercê do robótico? E as questões da inteligência artificial? E do "uncanny valley"? Estas tendências são debatidas em quase tudo o que se designa  ser ficção cientifica "astuta". Sim, o filme tinha esses propósitos de servir mais como uma reflexão ao serviço da animação, do que se apresentar como o enésimo arquétipo de acção animada, e a esquecida sequela (Innocence, 2004) prolongou essa fantasia filosófica de um futuro à vista.

 

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Porém, eis que surge a lavagem de Hollywood, um produto com claras pretensões de agradar os fãs do original e adeptos dos chamados "blockbusters inteligentes", mas que se perde perante as suas ambições. O porquê? Por que todos os ingredientes que transformaram Ghost in the Shell em mais do que um mero fruto da industrialização, são esquecidos e trocados por equações homogéneas daquilo que tanto abunda no entretenimento mainstream. Diria que este Agente do Futuro (lembraram-se de traduzir para português) é um embrião do cada vez mais formulaico cinema de super-heróis, trocando a dita filosofia por enredos de vingança, o sugestivo pelo explicito, e o cerebral pelo códigos primitivos do bem entreter (salienta-se ainda o maniqueísmo básico). 

 

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Scarlett Johansson é a nossa heroína, meio Lucy, meio "Viuva Negra" da Marvel, que se movimenta pela narrativa como uma "boneca de prontidão exacta para a acção". A sua Major é demasiado emocional, frente às crises existenciais da versão animada. Tudo o resto, excepto o ocasional "Kitano Show" [Takeshi Kitano a assumir o controlo a meio da fita], é uma réplica prolongada, e segundo eles actualizada, que apenas jura fidelidade ao visual da obra de 1995. São estes raros pontos de contacto que fazem salivar os ditos fãs, mas por aqui grito em pleno pulmões: "It's a trap".

 

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Talvez uma premonição de como este Ghost in the Shell iria falhar (se bem que se espera, mesmo assim, que faça sucesso nas bilheteiras, até porque Scarlett Johansson já faz parte do star system) é a época em que os dois filmes surgem. A versão de Mamoru Oshii surgiu em 1995 e foi uma das influências para The Matrix dos Wachowsky, e esta versão de Rupert Sanders (com Snow White and the Huntsman no currículo) surge numa altura em que quase todo o entretenimento cinematográfico encontra-se contagiado pelo referido frenesim cyberpunk. Resultado, apenas chuva em terra molhada. 

 

"Well, maybe next time you can design me better."

 

Real.: Rupert Sanders / Int.: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Juliette Binoche, Anamaria Marinca

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:58
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O efeito negação!

 

Por vezes também acontece o inesperado, um filme medíocre onde as possibilidades de cinema são limitadas pela linguagem televisiva e no virtuosismo académico, que mesmo assim tem a capacidade de gerar um debate para além do visto na grande tela. Denial (Negação), de Mick Jackson, resume-se a um drama de tribunal que tem como anexo uma história verídica (o que não falta por aí são "histórias verídicas", ou seja, a "oeste" nada de novo, o julgamento de Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), escritora do livro Denying The Holocaust, da editora Penguin Books, acusada de difamação para com o historiador David Irving (Timothy Spall), um negacionista do Holocausto e um dos maiores estudiosos da vida de Adolf Hitler.

 

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Ao decorrer desta obra, que remexe sem espinhas por entre a sua compostura competente e o elenco de igual adjectivo que faz antever uma boa entrega nesta reconstituição, Denial vai-nos apresentando temas que implodirão como objectivos para uma eventual discussão e reflexão acerca do mundo que assistimos em constante transformação. A ascensão do populismo, com clara ligação aos extremismos, essa propagação, e até que ponto a liberdade de expressão poderá ser abalada, e o quanto abalados poderemos ser em relação à mesma, e por fim, o negocismo como um problema, suavizado por historiadores, como um revisionismo histórico, e por vezes utilizado sob contextos políticos e ideológicos.

 

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Temáticas, essas, que ficam para fora da sala, visto que a obra de Mick Jackson "sensivelmente" toca nos pontos, mas a sua agenda possui uma certa tendência ao moralismo panfletário. Em particular, há que realçar uma sequência dispensável à narrativa, decorrida fora dos réus, que comete a pedagógica alusão do Holocausto como um assunto inesquecível e cuja a abordagem é necessária para evitar réplicas imorais. Uma cena com os propósitos de abalar consciências e criar um signo de "males que vem por bem" no nosso século. Será o Holocausto cada vez mais restrito a um símbolo de erro humano, e custe o que custar teremos que relembrar na consciência como uma porta interdita a reentradas?

 

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Sim, um filme como este, condenado ao esquecimento e sem o brilho da literal categoria cinematográfica, consiga ser um fósforo por entre uma inflamável "fogueira". Talvez seja os tempos "loucos" que nos fazem requerer modéstias como implantes reflexivos e pensativos do nosso século XXI. Esquece-se o filme, fica-se pelo debate.

 

Filme de abertura do 5º Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Mick Jackson / Int.: Rachel Weisz, Timonthy Spall, Tom Wilkinson, Andrew Scott

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:58
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23.3.17

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O meu nome não é Ninguém … é Courgette!

 

Icare, mais conhecido como Courgette, é um rapaz de nove anos cujo infortúnio bateu-lhe à porta, a sua mãe morre. A criança é assim transportada para um orfanato onde tentará conviver com outros na mesma situação, ou não, que ele. Sob o olhar atencioso de Raymond, um policial que encarregou-se do seu caso, Courgette tentará aprender por entre a sua vida caótica encontrar a felicidade nas pequenas coisas.

 

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A primeira longa-metragem do suíço Claude Barras é uma aventura espirituosa que se assume como uma afronta ao legado mercantil da Disney, através de uma duração com mais de uma hora (não mais que isso), consegue construir uma trama igualmente emocional sem o utensílio de conflitos demarcados nem da requisição de moralidades maniqueístas. Trata-se de um filme sobre crianças, ao contrário da tendência de filmes para criança, uma obra honesta nas ambições dos seus "heróis" e verdadeiramente presente nestas.

 

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Courgette, a figura, capta a nossa atenção pelo seu jeito doce, inocente e Claude Barras, sob a colaboração de Céline Sciamma (autora do argumento adaptado de uma obra de Gille Paris), invocam devidamente essa ingenuidade digna de enfant. No meio desse olhar deliciado e subjugado aos efeitos de um tom intrinsecamente agridoce, Ma Vie de Courgette é aquilo que poderemos identificar como dois em um. Uma animação stop-motion que encara o infortúnio como um ciclo vivente e despejado (sem vozes panfletárias) na superação, e ao mesmo tempo, uma subversiva visão para com o sistema de tutor educacional e de adopção.

 

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Em tempos de Bambi, onde a morte é vista como um trauma incontornável mas parte integra da vida (tal como ela é sem floreados) Ma Vie de Courgette poderia ter-se triunfado por entre a audiência mais jovem, mesmo com as claras sugestões que encontramos em determinadas personagens, mas numa época como aquela que se vive hoje, onde os nossos filhos estão sob uma constante, e por vezes alarmante, vigilância e protecção (e nisso reflecte a qualidade dos desenhos animados que assistem), o filme de Claude Barras apenas será restringido a um público adulto.

 

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Porém, espera-se que haja um passa-a-palavra, Ma Vie de Courgette, que teve a ventura de estrear em Cannes com algum entusiasmo e a nomeação ao Óscar ao lado de outros concorrentes de peso como Kubo and the Two Strings e Le Tortue Rouge (o prémio, que infelizmente, caiu nas mãos do mais previsível e formatado candidato), é um mimo para a nossa sensibilidade. Um mimo acima do que aquilo que realmente merecemos!

 

Filme visualizado na 16ª Monstra: Festival Internacional de Animação de Lisboa

 

Real.: Claude Barras / Int.: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 21:42
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21.3.17

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O espaço na moldura!

 

Ao ver Ornamento e Crime, a sensação é praticamente idêntica de ter visto The Good German, de Steven Soderbergh, há alguns anos atrás, que tentava a passos citar Casablanca no seu modo produtivo. Temos um cinema tributo que não sai desse mesmo acto, o de forçar um ligação com a memória cinematográfica do espectador.

 

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O resultado é iminente neste episódio film noir de Rodrigo Areias (que já se tinha aventurado em outro género póstumo, o western em A Estrada de Palha), onde a música colaborativa entre Rita Redshoes e The Legendary Tigerman batem certo numa incursão reservado em termos de personalidade. Ou seja, o que assistimos não é mais do que um mero exercício de reflexão de género, mas o vazio abate perante as referências e lugares-comuns propositados.

 

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Porque o film noir morreu há anos, o que resta são os seus embriões, e mesmo apetecível este saudosismo por um subgénero tão característico, sentimo-nos preso a uma peça de museu, com a arte pedagógica de informar e relembrar-nos que em tempos existiu filmes assim. Sem desfazer a contribuição artística por detrás de Ornamento e Crime, desde a fotografia, o som e a capacidade de mimetizar dos seus atores, este é um filme que fascina-nos pela sua invocação, e não pela sua presença. Entre detectives privados, casos infiéis, gangsters, prostitutas e femme fatales, somos corridos a uma pele de cobra, brilhante, esplendorosa à luz natural, mas oco por dentro.

 

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Ornamento e Crime é tudo aquilo que esperávamos numa proposta destas, e tal como soa a sua melancólica banda sonora e citando essa letra de cabaret, é caso para dizer que estamos perante num filme "Vodoo", um objecto que respira somente através dos outros. Não era isto que tínhamos em mente quando referimos dinamizar o cinema português.

 

Real.: Rodrigo Areias / Int.: Vítor Correia, Tânia Dinis, Djin Sganzerla, Ângela Marques

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 18:05
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20.3.17

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 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

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Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

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Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

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Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

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Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

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But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

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Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:50
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14.3.17

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Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

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Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

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Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

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Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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13.3.17
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Cinema português … o eterno dilema da dinamização!

 

Diogo Morgado anunciou que esta sua experiência na realização teria como intuito trazer algum dinamismo ao panorama cinematográfico … por outras palavras, lá vamos nós à velha cantiga do cinema comercial português versus o autoral do costume.

 

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Mas será que esta proposta de comédia, um registo tão malfadado na nossa "indústria" actual, consegue vencer e transpor as barreiras da limitação televisiva? Claro que não, este filme que tem como signo a "má sorte" (ou Malapata) persiste numa ideia, e essa é dissipada pelas tendências de mercado que nós próprios abraçamos. Um bilhete premiado, dois amigos improváveis e dois dias cheios mergulhados numa maré de azar poderiam ser motivo para invocar as peças de uma série de infortúnios que funcionaram tão bem em comédias como After Hours, de Scorsese, e nas aventuras surreais de Harold & Kumar.

 

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Mas a ideia, essa, é o de somente uma sugestão, o que interessa é polvilhar a narrativa com camadas televisivas que teimam em não deixar ou preencher as elipses e transições com longuíssimas imagens de drones por um Faro em modo turístico. Depois, os cameos, desde o mágico Luís de Matos até à cantora Ana Malhoa, são os de uma cadência de "estrelas" que tende em servir mais como atractivos para o cartaz do que contribuir para a credibilidade do enredo. No caso do primeiro, a sua honestidade leva-nos à real percepção deste projecto: tudo não passa de um verdadeiro espectáculo de ilusionismo.

 

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Assim chegamos ao humor básico tão característico dos alter-egos dos seus protagonistas (Marco Horácio e Rui Unas), à narrativa que falha sem a concepção de um alvo requerido ou de uma linguagem cinematográfica e, como não poderia deixar de ser, a direcção sem brilho e quase anónima de Diogo Morgado, mas ao menos a sua estreia demonstra mais talento que um Leonel Vieira.

 

Real.: Diogo Morgado / Int.: Marco Horácio, Diogo Morgado, Rui Unas, Luciana Abreu, Pedro Marques, Luís de Matos, Ana Malhoa

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:12
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11.3.17

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Philippe Garrel, o feminista?

 

Será esta a maldição de Philippe Garrel reviver nestes últimos tempos as mesmas intrigas adulteradas? L’Ombre de Femmes tem sido visto como a tendência feminista no seu discurso das traições, da natureza frágil das relações amorosas e da condição imposta pela sociedade ocidentalizada em matéria da monogamia "forçada".

 

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Sim, para quem assistiu à trilogia dos "Amantes", é melhor apertar o "cinto", porque a mesma jornada é induzida em mais uma tonalidade de tons cinzentos. Em comparação com La Jelouise, esta À Sombra das Mulheres é um upgrade dessas mesmas "sombras", fora Louis Garrel carnal, e entra dois desconhecidos neste mundo "garreliano" para servir de vitimas em mais um fraudulento "faz-de-conta" amoroso. Garrel [pai] aposta numa visão que coloca a mulher acima da fragilidade luxuriosa do homem, entendendo que com essa inclinação sentimental, esteja a conduzir-se num proclamado retrato feminista.

 

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Mas não. Existe sim, um lisonjear ao sexo oposto, abdicando do seu "eu" intimamente masculino para forçosamente inserir-se numa "troca-de-papeis", de forma a quebrar o circulo que o próprio havia criado em loop. Mas a Mulher, valorizada ao estatuto de "Vénus" amorosa, é uma somente doce vingança para a carência impelida pelo seu marido. Voltamos ao palco das milésimas Sabrinas, Rebeccas e de outros romances de cordel - a mulher é ultra-sensível, colocando primeiramente o seu sentimento mais inocente frente ao desejo sexualizado, ao contrário do homem, novamente posicionado como o "sacana" de serviço rendido aos instintos primitivos (será a poligamia um acto meramente primitivo?).

 

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Aqui, o que está em causa não são hierarquias, mas sim igualdades, e neste momento queremos mulher a persistir no seu desejo, na fantasia, não no platónico amoroso que parece aqui instalar-se. Sem com isso negar a possibilidade "civilizada" de uma relação afectuosa ao mais alto nível. Até porque temos dois seres que se completam, que se amam, mesmo expostos a "pecados carnais" de diferentes objectividades. O final, essa quebra de uma maldição "teimosa", é inteiramente enxertada como uma vinha de cultivo, não se sente, apenas "engole".

 

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Todavia, há que valorizar o esforço de Garrel em fugir dos grandes pecados de La Jelouise, começando por diálogos cuidados e trabalhados, "migalhas de pão" em direcção ao adultério, os actores e o seu orgulho de "vestir" tais personagens e a realização menos apressada por parte do nosso Philipe. Por outras palavras, talvez seja a melhor obra do realizador nos últimos tempos, mas longe do feminismo pelo qual é vendido.

 

Real.: Philip Garrel / Int.: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Vimala Pons, Louis Garrel

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:31
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9.3.17

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O nascimento de um Império!

 

Existirá filme mais glorificador do capitalismo que uma obra sobre as raízes da cadeia de restaurantes McDonalds, e a sua difusão neste mundo fora? Esta ode a um dos temas mais polarizados de qualquer cardápio oral, funciona, como já era de esperar, na mesma e tangível formatização do conceito cinebiográfico. Não no sentido individual. O que está em causa não é a história vivente feito RVCC de um sujeito, mas o paralelismo entre Ray Krok e o seu achado "gastronómico".

 

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Michael Keaton volta às suas vestes de pretensioso egocêntrico (já tínhamos saudades de The Birdman), um vendedor que encontra num restaurante local a sua hipótese de brilhar numa carreira falhada, e lançar-se assim à tão esperada definição de "Franchiseee". Esse restaurante era McDonalds, sob a gerência dos irmãos McDonalds que inovaram o conceito de "comida-rápida", como a certa altura sublinham a grande prioridade deste invento - hambúrgueres em 30 segundos, ao invés de 30 minutos. Porém, é aqui que o capitalismo demonstra a sua vil faceta, respirando num eterno jogo de "monopólio".

 

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The Founder nunca cai no erro de glorificar a manifestação pelo qual McDonalds serve actualmente de símbolo, mesmo que a amoralidade da obra de John Lee Hancock tenha mais percalços do que propósitos, e o receio de denegrir a fundação mais conhecida dos EUA ("a nova igreja da América", como prometia Ray Krok), fale mais alto, estampando a suposta veia crítica na eterna formatização do biopic. E claro, a enésima variação do devoto percurso do herói que o cinema americano tanto adora abordar.

 

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Mas enfim, Keaton (que merecia a nomeação ao Óscar) é o rei deste filme que servirá como imenso estudo a um movimento sociopolítico do que propriamente Cinema, visto que nessa área tudo é cedido à fórmula industrial, como manda a lei McDonalds.

 

"You know what - contracts are like hearts, they are made to be broken."

 

Real.: John Lee Hancock / Int.: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, Patrick Wilson, Linda Cardellini

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:36
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6.3.17

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O cavaleiro que desafiou o dragão!

 

Mais do que a construção de um martírio e a procura de um mártir, São Jorge nos invoca episódios silenciados, a austeridade que surgiu de arrasto pela passagem da Troika, e a revelação de uma selva de asfalto, onde a primitiva regra de sobrevivência se faz ouvir.

 

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Nuno Lopes, que de anjo nada tem, é um desses seres que planeia cada dia como o último. Ligado a uma carreira falhada no pugilismo, consegue um trabalho obscuro como colector de dívidas. Um cargo que embate de forma consciente com as morais que imperam nesta sua jornada pelos confins da inserção social e da mordaz crítica política (sem ser obviamente evidente). Traços que levam o nosso protagonista novamente a assumir-se como vítima de mais uma busca desesperada, sendo acompanhado pela mesma "câmara incomoda" de há 11 anos , em Alice.

 

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Marco Martins é esse maestro "repetente", e a orquestra, essa, lentamente liberta o seu furtivo crescendo, para ser depois seduzido a um perturbador fade out. Este é o cinema que o romeno Cristian Mungiu sempre procurou, a cumplicidade do realismo formal com o juízo de valores, maleável à nossa consciência politica e idealista, ou até a sugestiva perturbação que se ressalta como stalker, tão próprio da mão de Haneke. Pois, mas o estilo de Marco Martins apenas deduz-nos a essas referências, porque existe nele uma veia profundamente portuguesa que vai desde aquele pessimismo orgulhoso, àquela infelicidade longe do fim e sobretudo da espera, a eterna  frase do "dia melhor que nunca vem". Contudo, existe uma declaração que afasta São Jorge do formalismo do cinema nacional.

 

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Uma voz política que parece mais consciente que o percurso do protagonista (... e que protagonista!) confrontando-nos com as mais demarcadas morais. Mas não pensem que daqui encontraremos um filme moralista, antes sim, um filme sobre morais. Perturbador, desencantado e ... um poderoso retrato de violência social.

 

Real.: Marcos Martins / Int.: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Gonçalo Waddington, Adriano Luz, Beatriz Batarda

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:49
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5.3.17
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A antologia do biopic!

 

Em Neruda, a promessa de uma biopic convencional do poeta e activista politico é em vão. Pablo Larraín esmiúça-se sobre outro Pablo, e através desta união invoca uma liberdade que não parece encontrar lugar no subgénero. É como se Neruda fosse idealizado pelo próprio Neruda, uma evasão ficcionada que facilmente se encontraria no imaginário do homenageado, mais do que a visão do espectador.

 

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Existe nesta metragem uma desfragmentação de todos os códigos assim aprendidos e instantaneamente abandonados pelo realizador desde o muito consensual Não, ou até do toque mais intimista e reservado de El Clube. Em Neruda o que está em jogo é a narração, mais do que a própria narrativa, quanto à fidelidade histórica, non troppo, o ficcionar de vidas estabelecidas, inserindo neste jogo personagens inexistentes e explicitar a biografia da existência memorial, acima da existência física. Sim, Larraín joga-se aos retalhos com a ferocidade de um esquartejador. O golpear de diálogos em prol de um raccord soluçante, os planos reféns de uma profundidade quase "velazquiana", a falsa narração de personagens ausentes e até mesmo um twist que desafia a própria natureza do registo. Tudo com a graça e encanto de um elenco capaz de disfarçar esta tão deliciosa farsa (a estrutura policial) sob condimentos políticos, e deveras de salientar, acidamente politizados.

 

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Luis Gnecco apresenta essa figura de um ego do tamanho do Mundo [Neruda], o burguês que secretamente integra o partido comunista, como uma força inesperada no combate a um regime, onde a sua palavra funciona como a mais poderosa das suas armas. Seguindo de perto, um Gael Garcia Bernal que o persegue sem perceber que como perseguidor converte-se no mais indefeso perseguido. Egocentrismo e ciclos experimentais de não-lugares e não-personagens, tópicos que afrontam em Neruda, e aos dois Pablos, a anti-sintetização da memória, não como uma formatização, mas como uma página em branco a merecer da escritura.

 

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Enquanto isso, indicamos um dos grandes equívocos das distribuidoras, lançar Neruda depois de Jackie (visto que o filme foi produzido antes da biografia com Natalie Portman), o esboço da sua oficializada entrada no mercado de Hollywood. Mesmo assim, Neruda é digno do seu próprio feito. 

 

Real.: Pablo Larraín / Int.: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:56
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3.3.17

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Em terra de monstros, Kong é o rei.

 

Um gorila colossal no topo do Empire State Building, afastando violentamente os caças que desesperadamente o tentam  abater, defendendo-se igualmente e protegendo a sua não correspondida amada. Será que existe imagem tão universalmente identificável no Cinema como o climax de King Kong? Obviamente que não, e não estamos aqui para enganar ninguém. Kong: Skull Island não está aqui para tirar o lugar ao filme de 1933,  mas surge como uma variação comercialmente fiável para um futuro universo partilhado. Pois, não é spoiler. Já se sabe que este símio do tamanho de um arranha-céus vai enfrentar Godzilla numa futura produção.

 

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Mas já que temos que "gramar" com um revisitar à tão icónica figura da sétima arte, porque não aceitar o que de bom tem esta aventura tecnológica? São vários pontos, aliás, a começar pelos momentos em que o realizador Jordan Vogt-Roberts (do filme indie King of Summer) tenta contrariar a linguagem visual básica das grandes produções. Cenas como a da libelinha a mimetizar uns helicópteros saídos da ataque-naplam de Apocalypse Now, fazem-nos de certa forma salivar por mais desses mimos. E o que dizer da troca de olhares entre Samuel L. Jackson e a nossa besta? Mas estes "5 minutos de paraíso" que Vogt-Roberts parece usufruir de vez em quando têm um senão. Tal como uma troca de cromos, há que apostar no já batido ... e até invocar um certo estilo à lá Zack Snyder para corresponder aos requisitos estéticos das novas audiências.

 

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Segundo ponto, a conservação do clássico filme de aventuras. Kong: Skull Island, dentro da sua agenda da Hollywood tecnológica, emana um espírito "aventureiro" algo perdido no nosso cinema. Será que tal sensação parece apenas reavivada nas incursões de King Kong (já a subvalorizada versão de 2005 respeitava o subgénero)? Terceiro ponto, e talvez o mais desafiante desta produção: a febre da Guerra explicitada na rivalidade acidentalmente criada por Samuel L. Jackson, em modo "Hurt Locker", e o nosso Kong. A fúria dos olhares, quer reais (do actor), quer artificiais (a do símio digital), e a procura de um inimigo como fermento para uma sociedade à beira da ebulição conflitual - "Nós encontramos os inimigos quando os procuramos". Tudo servido, com certa leveza (ou seja, contado para miúdos), como catarse para a memória bélica do nosso século XX.

 

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O resto é o costume do actual panorama industrial: personagens básicas e construídas consoante as necessidades do guião (mesmo com um John C. Reilly em boa forma) e não o oposto; o climax a dever demasiado aos efeitos visuais e ao espalhafato dos mesmos; e a impressão de assistir a uma reciclagem do guião de Godzilla (2015). Factores estes que constroem a rotina do espectáculo cinematográfico à lá IMAX. Ainda assim, é certo que existe muito mais em Kong do que a mera artificialidade pagã. Sim, muito melhor que o esperado, mas não a Oitava Maravilha do Mundo.

 

"This planet doesn't belong to us. Ancient species owned this earth long before mankind. I spent 30 years trying to prove the truth: monsters exist."

 

Real.: Jordan Vogt-Roberts / Int.: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, Toby Kebbell, Richard Jenkins

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:01
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25.2.17

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Ofuscado pelas sombras das produções maiores!

 

Desde o primeiro momento de The Age of Shadows (A Idade das Sombras), sentimos a grandiloquência da produção, da câmara que anseia libertar-se e "mapear" todo o cenário até ao último canto e recanto, a atmosfera que se adensa e deixa-nos encurralados, até ao tom de conflito que parece evidentemente "explodir". Tudo isto, é evidente só nos primeiros dez minutos, antes da entrada do título que funciona como um pontapé de saída para este thriller de espionagem pretensioso e dotado de rigor histórico.

 

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O que está em causa é mesmo isso, o rigor que não deixa o filme respirar com a sua requerida e devida liberdade. É imperativamente controlado como qualquer criação de laboratório, cronometrado e registado desde o primeiro até ao último momento. A Idade das Sombras fica mais fraco com isso, com um storytelling de estufa e personagens que correm sem o mínimo pingo de motivação. Mas a grande desilusão encontra-se nos créditos. Kim Jee-won assina a obra, um dos nomes mais importantes do cinema sul-coreano actual (responsável por obras impares como The Tale of Two Sisters e do ambíguo moralmente I Saw the Devil), mais aqui encontramos o seu cinema profundamente irreconhecível. O autor saiu-se vencido perante uma produção maior que ele próprio, e uma pretensão de exercer o mais ocidental dos seus filmes, quer em termos narrativos quer até mesmo estilísticos. O episódio cede assim a esta "mornice" autoral, demasiado esquemático, atrapalhado, vazio, embora igualmente belo e profissional.

 

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Pontos altos? O actor Kang-ho Song a converter-se na força motora emocional da intriga e a ambiguidade política que nunca encontra conforto na dita propaganda ideológica. A história de resistência ao Império do Sol Nascente, e a imensas bifurcações de traição e infiltração, convocou A Idade das Sombras para o lugar de candidato sul-coreano aos Óscares de 2016, e, nota-se, diga-se de passagem, o esforço em agradar às audiências "gringas".

 

Filme visualizado no âmbito da 37ª edição do Fantasporto: Festival Internacional de Cinema do Porto

 

Real.: Kim Jee-won / Int.: Byung-hun Lee, Yoo Gong, Kang-ho Song

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:30
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Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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