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4.12.17

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De Luís Ismael, criador da trilogia Balas e Bolinhos, chega-nos um novo trailer de Bad Investigate.

 

Uma comédia policial que coloca o espectador na caça de um perigosos criminoso conhecido como "El Dedo" (Enrique Arce). Luís Ismael para além de realizador, regressa como actor ao lado de Robson Nunes, Francisco Menezes, João Ricardo, Luísa Ortigoso, Ana Malhoa e Laura Galvão.

 

Bad Investigate tem data agendada para Janeiro de 2018.

  

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:08
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23.11.17

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Morreu João Ricardo, o ator e encenador acarinhado pelo grande público graças à sua presença em inúmeras telenovelas e séries televisivas. O ator não resistiu a um tumor no cérebro que fora diagnosticado em 2016, tendo na altura sido submetido a uma cirurgia de urgência. Encontrava-se numa unidade hospitalar de Lisboa desde quarta-feira.

 

Tinha 53 anos e para trás deixa uma longa carreira dividida entre televisão e teatro. No cinema a sua presença foi escasso, mas mesmo assim trabalhou com os realizadores Luís Filipe Rocha (A Passagem da Noite), Margarida Cardoso (A Costa dos Murmúrios) e João Botelho (Corrupção, A Corte do Norte e Filme do Desassossegado).

  

João Ricardo (1964 – 2017)

 


publicado por Hugo Gomes às 22:09
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16.11.17

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O ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) vai apoiar com cerca de 2,4 milhões de euros para quatro novas longas-metragens, incluindo o próximo projecto de Pedro Pinho, o realizador do multi-premiado A Fábrica do Nada.

 

Dividido em quatro parcelas - i.e. 600 mil euros por obra - os projectos que receberão apoio serão a quinta longa-metragem de Pinho, intitulada de Amanhã Será Outro Dia; a biografia do pintor de vanguarda Amadeo de Souza-Cardoso por Vicente Alves de Ó (Florbela, Al Berto), a obra terá como título simplesmente como Amadeo; e os retornos de João Mário Grilo (Os Olhos da Ásia, O Processo do Rei) com Campo de Sangue e Tiago Guedes (Coisa Ruim, Entre Mãos) com A Herdade.

 

O júri deixou de fora projectos como A Casa Flutuante, de José Nascimento; A Cura, de Luís Filipe Rocha; O Voo da Coruja, de Vítor Gonçalves; Trans Iberic Love, de Raquel Freire; e D. Afonso Henriques - o Primeiro Herói, de José Carlos de Oliveira.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:57
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4.11.17

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Os vencedores dos últimos Festivais de Berlim e Cannes se irão defrontar nos European Film Awards, cuja as nomeações acabam de ser reveladas no Festival de Cinema Europeu de Sevilha. Os galardoados On Body and Soul, o ultimo de Aki Kaurismäki (The Other Side of Hope), 120 Battements par Minute, Loveless e The Square compete a estatueta principal, e no caso do mais recente filme de Ruben Östlund, o mais nomeado aos prémios, contando com 5 indicações.

 

 

Outros destacados são Lady Macbeth, de William Oldroyd, uma primeira longa-metragem que conquista duas nomeações, a de melhor atriz (Florence Pugh) e do prémio Descoberta, e a animação artística Loving Vicente como forte concorrente na distinção de Longa-Metragem de animação. O português Gabriel Abrantes encontra-se entre os nomeados na categoria de Curta-Metragem com o seu Os Humores Artificiais.

 

Filme Europeu

On Body and Soul

The Other Side of Hope

The Square

Loveless

120 Battements Par Minute

 

Documentário

Austerlitz

Communion

Stranger in Paradise

La Chana

The Good Postman

 

Realizador

Ildikó Enyedi (On Body And Soul)

Aki Kaurismäki (The Other Side Of Hope)

Yorgos Lanthimos (The Killing Of A Sacred Deer)

Ruben Östlund (The Square)

Andrey Zvyagintsev (Loveless)

 

Atriz

Paula Beer (Frantz)

Juliette Binoche (Bright Sunshine In)

Alexandra Borbély (On Body And Soul

Isabelle Huppert (Happy End)

Florence Pugh (Lady Macbeth)

 

Ator

Claes Bang (The Square)

Colin Farrell (The Killing Of A Sacred Deer)

Josef Hader (Stefan Zweig - Farewell To Europe

Nahuel Pérez Biscayart (120 Battements Par Minute

Jean-Louis Trintignant (Happy End

 

Argumentista

Ildikó Enyedi (On Body And Soul)

Yorgos Lanthimos & Efthimis Filippou (The Killing Of A Sacred Deer)

Oleg Negin & Andrey Zvyagintsev (Loveless)

Ruben Östlund (The Square)

François Ozon (Frantz)

 

Comédia Europeia

King of the Belgians

The Square

Vincent and the End of the World

Welcome to Germany

 

Prémio Descoberta

Godless

Bloody Milk

Summer 1993

The Eremites

Lady Macbeth

 

Animação

Loving Vincent

Zombillénium

Ethel & Ernest

Louise en Hiver

 

Curta Metragem

Information Skies

Copa-Loca

Love

En La Boca

Fight on a Swedish Beach!

Os Humores Artificiais

Timecode

The Party

Ugly

The Circle

The Disinherited

Written / Unwritten

Wannabe

You Will Be Fine

Young Men and their Window

 


publicado por Hugo Gomes às 14:57
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1.11.17

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Por mares nunca antes navegados …

 

A grande epopeia literária portuguesa, capaz de sombrear o então digno do título Os Lusíadas do nosso Luís Vaz de Camões. Mas as infelicidades ditaram a obra, ou será antes Obra, e a reduziram-na ao elenco secundário, porém, a sua magnitude e valor histórico colocam-no num patamar que a imaginação do célebre poeta nunca atingira, aliás, porque não pensar que nestas páginas reside um pouco de fantasia com os relatos viventes de um explorador, e quiçá, corsário na sua negritude forma. Contudo, tal como o seu “rival” Os Lusíadas, Peregrinação é uma obra literária infilmável, devedora de uma imaginação e síntese descritivo em tempos em que o Cinema nem sequer residia nos sonhos mais longínquos. Nesse aspecto, João Botelho, tão fascinado pelo património cultural e artístico português tende a dar um “passo maior que a perna”. 

 

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Nem mesmo os ensinamentos de Manoel de Oliveira, pelo qual se rege religiosamente, o conseguem salvar. “Se não há recursos para filmar a carroça, filma a roda, mas a filma-a bem”. Sob esse signo, Botelho tenta retratar esta expedição para o Oriente para além de Marco Polo, a miopia que tende em adereçar à imaginação do espectador, o “faz-de-conta” que se apodera deste face à limitada envergadura dos cenários e do exotismo por vezes conotado como postais turísticos. A miopia planificada, algo que poderíamos desculpar de forma a desafiar o nosso intelecto, é um fruto “podre” perante as verdadeiras intenções do realizador: trazer à luz esta importante peça da nossa História, renegada nas escolas, e da cultura geral nacional.

 

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Fernão Mendes Pinto foi assim esse explorador do infinito, designação que se atribuía ao desconhecido; um navegador infortunado, em  busca das riquezas profundas, mas nunca a glória eterna. Os seus azares levaram-no ao encontro de regiões exóticas, povos enraizados em culturas distintas, um mar de possibilidades que no cinema de Botelho transforma-se em meras ocasionalidades. Felizmente, o retrato de época, o colonialismo que vem surgindo, é visto com a ambiguidade que merece - nesse aspecto eis um exemplo concreto: existe uma dicotomia envolvente na figura de Mendes Pinto, como um objecto quixotesco, oscilando entre o “bom navegador” ou o pirata sedento pela sua cruzada (excelente escolha este Cláudio da Silva). Segundo Botelho, foi tomada a liberdade de apropriar a ideia de Aquilino Ribeiro nessa transposição. Um desafio subliminar ao ensino dado na educação portuguesa, a cada vez mais rara imagem do “bom colonizador”.

 

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Contudo, longe do “bom colonizador”, existe neste filme de Botelho o “bem intencionado”, a polivalência cinematográfica, algures entre o teatral ou o fulgor épico nunca adquirido no nosso panorama audiovisual, transformam a Peregrinação numa viagem de sabores. Um “cata-vento” de diversas facetas que resultam em máscaras no tratamento do “monstro” gerado por um “rato”. No sentido artesanal, ou como se diria em “bom” português, na vaga do “desenrasque”, Peregrinação resultará num futuro próximo numa espécie de case study, o épico fora dos tempos salazaristas e o território próprio do cinema de Oliveira, sem nunca abandonar totalmente o risco que raramente se toma na nossa indústria. Por outras palavras, a Botelho é lhe merecido a vénia da irreverência, sendo que o ato valerá mais que o gesto em si.   

 

Real.: João Botelho / Int.: Cláudio da Silva, Jani Zhao, Catarina Wallenstein, Marcello Urgeghe

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 10:10
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26.10.17

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Há uma vertente que levemente tem surgido no panorama do documentário português, uma vertente de jornalística, não a de mera entrega de informação, mas de investigação. Essa no qual poderá denotar o pessoal (identitário) ou coletivo (demanda para a divulgação, preservação de memória). Este tipo de documentários, que se prolongam ou evitam o cinema como mera lente de documentação de imagens (que porventura poderá anexar-nos a memórias etnográficas e épicas), não são de todo bem vistas na comunidade-nicho da cinefilia. Há quem os acuse de aligeirar o poder e possibilidades (de momento infinitas) de Cinema, desde a sua narrativa até ao estilo intrínseco e extrínseco, porém, e tendo em conta a muita da seleção presente de um Doclisboa, poderemos considerar esta “básica” forma de fazer documentário num registo outsider e porque não, na maioria dos casos, mais experimentes e concisos na sua abordagem.

 

Como exemplo desse cinema-investigação, Catarina Mourão [ler entrevista] elevou-se numa busca ínfima de autodescoberta com A Toca do Lobo, onde seguiria o paradeiro do avô da realizadora, figura que não conhecera por completo mas que marcas deixou. A realizadora / documentarista apresenta-nos um objectivo claro na sua proposta (“descobrir quem é este homem”), convite claro que o espectador retém no seu arranque, a viagem, essa, vinculada num hibrido entre a investigação propriamente dita e a deambulação pelas memórias pessoais. Em todo o caso, porque não reconhecer A Toca do Lobo como um objeto no limiar do intimismo e da retribuição social.

 

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De estética pessoal, mas de caracter mais urgente, está Quem é Bárbara Virgínia?, de Luísa Sequeira, outra investigação (presente desta edição do Doclisboa) que regista um pedaço de História portuguesa, neste caso Bárbara Virgínia, a multifacetada artista que se tornou na primeira mulher realizadora nacional, atualmente “apagada”, é o corpus de estudo que despoleta uma tremenda jornada de conhecimento pessoal com vista maioritária para o público e memória futura na “salvação” deste personalidade. O objectivo neste caso encontra-se no título (Quem é Bárbara Virgínia?). O espectador tem com isto a certeza do que vai encontrar, a proposta é clara. Quanto à forma como a mensagem é emitida, essa, tem a sua razão de divergir dos moldes, digamos, televisivos. Luísa Sequeira consegue sobretudo uma investigação com uma apresentação intimista, até porque esta procura torna-se, para todos os efeitos, bastante pessoal (apercebemos o quanto a imagem de Bárbara Virgínia transgride da meta de estudo para a transferida pessoalidade numa determinada sequência, a anunciada morte de Virgínia e a reação da nossa documentarista perante tal).

 

Porém, talvez de caracter urgente acima da sua pessoalidade, temos Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo, de João Monteiro, uma contagem de linguagem televisiva que visa em projetar o legado de Macedo e apurar as causas do seu “desaparecimento”. Obviamente que este documentário completamente destilado por entre footages e talking heads possui um propósito de preocupação pública e patrimonial, mas se o considerarmos como um objeto cinematográfico de requinte, a sua pobreza não o exaltará como algo mais. Contudo, o objetivo de Monteiro é mais do que simplesmente integrar uma teoria estilística, social e cinematográfica, é como um apelo, um ato ativista, esse, que poderá originar consequências futuras, quem sabe, a revalidação absoluta de Macedo, não simplesmente como tentador do cinema de género em Portugal, mas como cineasta. Estes três exemplos recentes de documentário português, uma minoria perante a divulgação dos festivais, formam um cinema de causa-efeito, a investigação como uma narrativa que não deve ser sobretudo desprezada.

 

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O outro cinema, com excepção de alguns casos que conseguem através dos seus meios desbravar a sua linguagem, apresenta-se como máscara, escondendo a incapacidade e o amadorismo de muitos “documentaristas” pretensiosos, em busca do caminho fácil do estatuto autoral. Esse anti-cinema não deve ser sobretudo erguido como o Cinema, assim como o cinema na sua forma mais clássica, universalmente empática, não deve ser rebaixado a anti-cinema. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:09
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19.10.17
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"Queriam o quê? Telenovela"

 

Ramiro é aquilo que poderíamos apelidar cinematograficamente de «loser», uma personagem à deriva da sua sorte, encostada às “cordas” do passado, da glória que lhe nunca passou, nem sequer o esforço que detêm para a atingir. A certa altura, o protagonista-titulo confessa aos seus amigos que acabara de descobrir a sua passividade (“Sou uma pessoa passiva”), sequência-chave que revelará por completo a sua anti-tour de force, até porque o seu talento, diversas vezes mencionado por outros, nunca fora devidamente reconhecido, assim como conquistado. O seu proclamado bloqueio criativo é simplesmente fruto desse autodesprezo.

 

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Mas Ramiro não é de todo um desprezível, é dotado de um boa índole, o espectador crê isso através dos seus actos minuciosos, na sua teimosia controlável que nos leva aos seus próprios demónios, o medo; o medo de falhar, automaticamente, o medo de tentar. É fácil simpatizar com este Ramiro, nem que seja pela interpretação derivante do actor António Mortágua, um laço de empatia com uma audiência que se lança nas prateleiras de um alfarrabista em busca de preciosidades. O que encontramos é “livros esquecidos”, estilos não vingados, enredos antiquados com o intuito de agradar aos “velhos do Restelo” ou os reféns das “coisas que outros amaram”. Porém, e utilizando esse mesmo lugar, Ramiro enquadra-se num cinema português desadequado, não pela inutilidade estilística, mas como oposição às novas vagas que tendem em: a) manejar a experimentação narrativa e visual no qual diversas vezes disfarça a pura incapacidade; b) a sedução pelos formatos wannabe hollywoodescos, de forma a repudiar toda uma História da nossa cinematografia.

 

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Tal como a personagem, Manuel Mozos cria um filme passivo na sua positiva afirmação, até porque é em Ramiro que evidenciamos um cinema lúcido, intrinsecamente português-alfacinha e discretamente irónico, mesmo sob as influências de João Cesar Monteiro e dos seus constantes e castiços trocadilhos. Talvez tenha sido a experiência com Miguel Gomes, outro influenciado pela natureza do anterior “João de Deus”, o catalisador para esta invocação. Porém, Mozos não pretende o mero tributo. O filme concentra-se sobretudo numa saudação, a vénia a uma iminente emancipação, assim como a transformação de Ramiro após a perda do seu mentor.  Eis um pequeno achado do cinema português, um “livro” poeirento e esquecido na mais oculta das prateleiras que resulta na mais graciosa das descobertas. Sem alterar o curso do nosso cinema, temos aqui filme e não pretensões.   

 

Filme de abertura do 15º Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Manuel Mozos / Int.: António Mortágua, Madalena Almeida, Fernanda Neves

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:36
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14.10.17

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Arranca hoje (14/10) o Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental, o único festival de cinema com temática ambiental em Portugal e um dos poucos eventos desta magnitude cinematográfica fora das grandes metrópoles dos país. A decorrer, de forma ininterrupta, desde 1995, a localidade de Seia, na Serra Estrela, acolhe mais um espectáculo cinematográfico com elevada preocupação ecológica, procurando-se entre debates e reflexões sobre a actualidade do nosso Mundo ver a maneira como poderemos solucionar alguns destes estados.

 

A abertura será tremendamente especial para a localidade, com a exibição de um dos grandes clássicos do cinema português, Os Lobos, recentemente editado e restaurado em DVD pela Cinemateca Portuguesa. Registo da passagem do italiano Rino Lupo em Portugal, Os Lobos fora rodado em diferentes localidades da cidade beirã e é hoje tido como uma das "jóia da cinematografia portuguesa", citando Félix Ribeiro na altura da sua estreia em 1923.

 

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A sessão será apresentada por Tiago Baptista, director do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), e acompanhada pelo pianista britânico radicado em Portugal Nicholas McNair. Lobos é uma das propostas que José Vieira Mendes, crítico e programador do Cine'Eco, mais destaca nesta nova edição do simpaticamente apelidado de "festival ecológico". Em conversa ao Cinematograficamente Falando …, e em resposta quanto ao que destacaria da programação deste ano, Mendes diz: "Já fiz as minhas escolhas ao fazer a selecção e programação dos filmes. Portanto destacaria todos os filmes, porque todos merecem destaque inclusive uma forte selecção de curtas-metragens sobre a Água, como recurso escasso que compõe quase uma secção e que este ano vai ter um Prémio Especial para este tema.

 

Mas lá vai, para quem não possa estar em todos: Para além da antestreia nacional do filme do Al Gore [An Inconvenient Sequel: Truth to Power], temos Os Burros Mortos Não Temem Hienas, de Joakim Demmer, que olha para a especulação aos terrenos para exploração agrícola na Etiópia; Nahui Ollin ­Sol em Movimento junta oito realizadores a darem a sua visão sobre a biodiversidade do México e a forma como está a ser alterada; A Idade das Consequências, realizado por Jared P. Scott, um filme muito abrangente e polémico que olha para a intersecção entre fenómenos como a Primavera Árabe, o chamado Estado Islâmico e a radicalização de pessoas, bem como a crise dos refugiados, e as mudanças do clima; Perseguido Corais, de Jeff Orlowski, mostra o fundo dos oceanos e como os corais estão a desaparecer; Ondas Brancas, com realização de Inka Reichert, envolve os esforços de surfistas que lutam contra a contaminação do mar, quer pelo lixo quer pelos micro-plásticos; Rio Azul: Pode a Moda Salvar o Planeta?, da dupla David McIlvride e Roger Williams, atira-se à indústria da moda e ao impacto considerável que esta tem sobre o ambiente e a poluição das águas e rios. 

 

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Também serão mostrados, na competição de filmes em língua portuguesa, por exemplo, Moon Europa, de Nuno Escudeiro — que estreou no IndieLisboa 2017 —, filma o Árctico a e as poucas pessoas que lá vivem em invernos inóspitos; Belo Monte: Um Mundo Onde Tudo é Possível, de Alexandre Bouchet, que examina a construção e exploração da controversa barragem brasileira com o mesmo nome; Deriva Litoral, de Sofia Barata, que olha para os temporais do inverno de 2013 e 2014 e o seu impacto ao longo da costa portuguesa; ou Terra e Luz, um filme de ficção pós- apocalíptica do brasileiro Renné França, que é um filme ambiental e que passou no Fantasporto 2017. Entretanto, hoje já houve actividades para crianças com a belíssima longa de animação Song of the Sea, que esteve nos Óscares há dois anos e passou relativamente despercebido nas sessões comerciais. A abertura começa logo ao final da tarde, com a A Odisseia, de Jérôme Salle, o biopic que também esteve pouco tempo em cartaz, sobre o lendário explorador dos mares Jacques Cousteau."

 

Como programador, José Vieira Mendes teme efectuado um trabalho árduo em conseguir seleccionar e compor um programa de filmes e propostos para todos os públicos, porém condicionadas a uma só temática. "Os requisitos obviamente que tenham implícita uma mensagem, de preferência positiva com melhorar os nosso comportamento em relação ao ambiente, por outro lado também que coloquem questionamento e provoquem discussão sobre os grandes problemas ambientais". Obviamente nem tudo com motivações ecológicas possui a qualidade de integrar o Cine'Eco, nesse caso, segundo o programador, o que se procura é tudo aquilo que todos os festivais de cinema procuram "bons filmes, de preferência inéditos ou que não tenham tido a visibilidade que merecem tanto nos outros festivais como nas salas de cinema comerciais." 

 

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Desde 1995, que o festival existe e cresce sem interrupções, toda esta motivação vivente deriva sobretudo do "do empenho do Município de Seia, que suporta o festival quase na íntegra e faz dele um dos eventos âncoras do concelho. E por outro uma pequena equipa que vive literalmente o Cine’Eco Todo o Ano entre Seia e Lisboa — como é o caso do meu colega Mário Branquinho, Director do Cine’Eco e da Casa Municipal da Cultura de Seia, e meu caso como programador, que sou um senense adoptado, e vivo em Lisboa e outras pessoas da autarquia e colaboradores voluntários —  que procura estar atento (ou mesmo participar) ao mundo dos festivais de cinema de ambiente da GFN (e não só) procurando trazer os melhores filmes de ambiente, para apresentar no Cine’Eco".

 

Quanto ao crescimento, o Cine'Eco tem vindo "crescer um pouco à proporção das preocupações das pessoas em relação às questões ambientais, a sua mediatização e essa tal agenda político-ambiental. Assim para além das sessões competitivas e sessões especiais, o festival realiza várias actividades paralelas, onde as questões ambientais estão sempre presentes. A realização de uma grande conferência sobre questões ligadas ao ambiente e ao desenvolvimento, consta sempre da programação do festival, para a qual são convidadas figuras de referência e que envolve o público da região. O programa conta igualmente com exposições, workshop’s, concertos e outras iniciativas de e para a comunidade. As escolas são mobilizadas para as sessões do festival, mas o festival também vai aos estabelecimentos de ensino do concelho e da região."

 

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Mas existe um enorme perigo cultural e em Portugal o "afunilamento" de propostas deste género restringidas às grandes cidades como Lisboa e Porto, sobretudo exclusivamente transladadas para a capital. Em resposta a isso, o Cine'Eco possui "uma vasta rede de extensões por todo o país, como a que decorre ao longo do ano — Cine'Eco Todo o Ano! —, o que ajuda a ir ao encontro de um público mais vasto, possibilitando que os filmes e as suas mensagens circulem e cheguem a um número mais alargado de espectadores. Este ano, conseguimos uma nova parceria. O Cin'Eco será alargado aos 15 concelhos da Comunidade Intermunicipal das Beiras e da Serra da Estrela, composta por 250 mil habitantes, que constitui um novo contributo de aproximação à região." Das extensões, é ainda destacado "os Açores, outra região com um forte apelo à natureza e onde também é muito acarinhado pelo público."

 

Contudo, ao dito "afunilamento cultural" que atinge o país, José Vieira Mendes comenta: "Isso é normal que os festivais se centrem nas grandes capitais, pois é onde alcançam mais público, mais orçamento, mais mediatização e até mais patrocinadores e parceiros.  Fugimos à regra e conseguimos no Cine'Eco e em pleno interior do País, por exemplo um forte mobilização dos alunos do concelho e da região, numa perspectiva de sensibilização para as questões ambientais e na procura de criação de público para o cinema. Por outro, envolvemos várias personalidades do concelho na dinâmica do festival. Seja como elementos do júri, seja na mobilização e acompanhamento de grupos para as sessões de cinema. Este ano, foram designadas 27 pessoas da comunidade para apadrinharem as 9 longas-metragens internacionais, contribuindo para essa aproximação e um maior envolvimento da população de Seia e da região. 

 

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"O cinema de ambiente não é propriamente uma área para as grandes massas de público, mesmo que seja especializado. Por isso, o Cine'Eco tem feito o seu caminho, conquistado públicos e despertando consciências para as questões ambientais, embora se reconheça que o público seja ainda uma fragilidade do festival e onde ainda há muito trabalho a fazer mesmo a nível da componente de turístico ambiental, nacional e internacional, apesar de estar-mos integrados e ser-mos membros fundadores da Green Film Network, a rede de festivais de cinema de ambiente."

 

Provavelmente, 2017 tem sido o ano onde o aquecimento global apresentou-se mais como uma agenda politica, é nos recordado o caso de Donald Trump e a saída dos EUA do Tratado de Paris, e a sequela Uma Verdade Inconveniente [An Inconvenient Sequel: Truth to Power], que integra a programação do Cine'Eco. José Vieira Mendes esclarece até que ponto a ecologia é uma perspectiva politica e como o festival contorna / ou abraça essa mesma vertente: ao longo do seu percurso de mais de duas décadas, o Cine'Eco tem mesmo abraçado essa causa procurado ir de encontro ou acompanhar às grandes questões ambientais da actualidade ou da agenda político-ambiental mundial, dai este ano termos escolhido como inspiração o bestseller, Tudo Pode Mudar: Capitalismo vs. Clima, da Naomi Klein, bem como o documentário Uma Verdade (Mais) Inconveniente, do Al Gore, — que vai ter estreia nacional na quarta, dia 18 no Cine'Eco, em sessão especial — que chega na hora certa depois de facto o Presidente Donald Trump ter anunciado que ia se distanciar do Acordo de Paris do ano passado sobre o limite das emissões de carbono causadoras das mudanças climáticas.  Por outro lado, o CineEco vai de encontro às necessidades da comunidade local, através de vários mecanismos desencadeados, no quadro da dinâmica cultural e ambiental do município de Seia."

 

A 22ª edição do Cine'Eco vai decorrer até dia 21 de Outubro, na Casa Municipal da Cultura de Seia e no CISE – Centro de Interpretação da Serra da Estrela.

 

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publicado por Hugo Gomes às 11:41
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12.10.17

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José Pedro Lopes não concretizou nenhum feito, até porque o terror sempre fora um género ao alcance do cinema português. O que realmente consegue com A Floresta das Almas Perdidas é quebrar essa barreira que se tem a vindo a converter-se num tremendo tabu. Esta fobia pelo cinema de género no panorama nacional, as hostilidades que fazem a sua longa-metragem num marco raro, colhido com elogios em inúmeros festivais de cinema e publicações estrangeiras. O suicídio e o crime de mãos dadas com a criação de um psicopata que rivaliza com Diogo Alves nas questões das auras cinematográficas em Portugal. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador que nos convidou a penetrar nesta floresta dos suicídios.  

 

Vamos começar com a pergunta mais básica em relação ao Floresta das Almas Perdidas. Como surgiu a ideia para deste projeto? E o porquê da “apropriação cultural” da Floresta dos Suicídios?

 

Queria explorar como o mal surge em todo o lado, de forma oportunista. Sempre que há uma calamidade, existe que tira vantagem disso. Ou numa grande perda. Aqui a minha ideia era ter alguém que se alimentava dos sentimentos de um suicida e da sua família de luto. Inspirei-me em filmes como o Whristcutters (do Goran Dukić) e o Audition (do Takashi Miike).

 

No que toca a lugares conhecidos pela prática do suicídio existem por todo o mundo, mesmo aqui em Portugal. Claro que a floresta de Aokigahara é uma referência no contexto que criamos – mas estas personagens estão e lidam claramente com problemas portugueses.

 

O cinema de género é uma raridade em Portugal. Como foi, ou pensa, contornar um desafio tão grande na nossa cinematografia?

 

Em termos de contexto, ‘A Floresta’ não foi feita para provar nada cá dentro, nem para contrariar ninguém. Quanto muito, como fã do género fantástico, queria contribuir nesse género global. Queria ver histórias portugueses no meio desse grande género que descobre filmes nos quatro cantos do mundo.

 

No nosso país há uma dificuldade grande em financiar filmes de género, e talvez ainda maior em coloca-lo e distribuí-lo. Mas é um pouco inerente ao género em sim: o terror sempre foi peregrino e sempre assustou. É o tipo de filmes que vemos em adolescente para chatear os pais, e que continuamos a ver em adultos para baralhar os amigos.

 

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Acho que quem faz terror cá ou lá fora não pode muito pensar no mercado local, mas sim no internacional. Todos os anos tens filmes de terror que viajam o mundo com abordagens muito culturais. Esperar conceber um filme para ser um sucesso no mercado nacional é esperar bater o cinema de Hollywood em algo que eles tem toda a vantagem.

 

Em A Floresta das Almas Perdidas nota-se uma gradual artificialidade, principalmente no genérico estilizado. Será que aqui influências do cinema de Argento? Esse neo-expressionismo do género?

 

Apesar de ‘A Floresta’ ser um filme muito estilizado e visual, diria que é mais sobre contenção e sobre implosão. O Dario Argento vejo-o como mais explosivo. As minhas influências foram mais o cinema de realizadores como o Takashi Miike e o Kim Ki-Duk, situado entre o horror e o drama, sem grandes linearidades.

 

‘A Floresta’ é sobre a chegada à idade adulta de um assassino, sobre a maturação do mal. Por outro lado, é sobre a tristeza e a fatalidade das vítimas. O terror está mais no coração das personagens do que naquilo que vemos.

 

Ao contrário de muitas obras do género, principalmente vindo dos EUA, o antagonista não possui um devido motivo para a sua violência. Será que aqui se concentra uma reflexão do fascínio pelo mórbido e violência, normalmente anexada, à juventude de hoje?

 

Creio que em certa forma a ausência de motivo é o motivo mais comum para quem faz mal aos outros no mundo real. O cinema procura razões e desculpas para o mal para não nos assustar demasiado. Mas a verdade é outra – quem faz mal aos outros faz-lo por uma opção de vida. Tens pessoas que passam por vinte vezes pior e que mesmo assim não faria mal a ninguém.

 

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O lado da juventude é truculento. O filme faz muitos referências às idiossincrasias da juventude atual, das redes sociais e da abordagem superficial das coisas. No entanto, acho que o lado mórbido é desprovido de época. Este tipo de maldade já está connosco à décadas. Acho que também a insensibilidade provocada pelas nossas tecnologias não está só na juventude – existe um hábito de acusar os jovens de viverem muito online e se relacionarem com os seus telemóveis, mas isso é um problema que atinge todas as idades.

 

Floresta das Almas Perdidas é também um desafio para a pequena produtora Anexo 82. Fale-nos das dificuldades de financiamento e até mesmo de produção.

 

‘A Floresta’ foi maioritariamente financiado pela produtora Anexo 82, sendo que contou com um apoio da Fundação GDA e alguns patrocínios privados e apoios. O segredo para fazer o filme com pouco foi pensá-lo de forma a ir de encontro ao que conseguíamos fazer. Foi um sacrifício grande mesmo assim – um que eu não sei se voltaria a fazer.

 

Sobre o casting? Como sucedeu a escolha de Daniela Love para o papel de psicopata?

 

A Daniela já tinha participado numa curta-metragem nossa chamada Videoclube. Nela ela era também cheia de referências e irreverência. A Carolina de ‘A Floresta’ é o lado obscuro dessa personagem, e desde muito cedo que a Daniela foi a escolha para o papel.

 

Como vê o cinema português de hoje, desde os apoios até à variedade estilística?

 

Creio que não é o meu lugar fazer essa apreciação, nem sou a pessoal ideal para o fazer.

 

Quanto a novos projectos?

 

Estamos de momento a terminar uma curta-metragem do Coletivo Creatura, um filme de animação chamado “A Era das Ovelhas”. A seguir a isso vemos analisar o resultado de ‘A Floresta das Almas Perdidas’ e concluir o que fazer a seguir. Temos vários projectos – uns a procura de desenvolvimento ou outros de financiamento – mas só depois de ver o impacto deste é que saberemos o melhor a seguir.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:11
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5.10.17

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Vicente Alves de Ó regressa à poesia, aos poetas, aos inspiradores. Cinco anos depois de Florbela, a poetisa de “amar perdidamente”, o realizador decide aventurar-se num projeto mais pessoal, mais intimista e emocional – Al Berto. A vida de Alves de Ó cruzara com este desafiador por natureza, este artista que olhou de frente para a hipocrisia da época e fez estremecer o conservadorismo embebido da cidade de Sines num pós-25 de Abril. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre o projecto, a sua experiência e sobre o seu olhar à mudança eternamente esperada da sociedade portuguesa.

 

Em relação ao filme, a iniciativa e da construção de uma “trilogia de poetas”, o porquê de aventurar-se em Al Berto?

 

Esta ideia de uma “Trilogia dos Poetas” nasceu durante o produção da Florbela, e não antes. Não foi uma ideia pré-concebida, ao contrário foi crescendo com este retomar ao gosto da Poesia. Esta com enorme importância na minha vida, assim como no meu crescimento, e não só. A escolha dos três poetas foi feita, pura e simplesmente por ligação emocional, nada mais que isso. E Al Berto fazia todo o sentido integrar esta mesma trilogia, visto que foi dos poetas que mais me marcou até porque convivi, conheci e trabalhei com ele.

 

Não o poderia contorná-lo, até porque em dimensão emocional foi evidentemente mais enriquecedor para mim que Florbela. Al Berto estava intrinsecamente relacionado com a minha vida, com a do meu irmão, com Sines, etc. Foi a primeira personalidade notável a ler um texto meu, lembro de recitar um poema da minha autoria no Teatro de Sines e Al Berto, assim como o João Maria [o irmão de Vicente Alves de Ó], encontravam-se no público. Tinha 19 anos.

 

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E quanto à escolha deste período na vida do artista?

 

Agora em relação a este período, que de certa forma desafia o esquematismo da biografia, e tal como fizera com Florbela, é encontrar um período transformador, catártico, revelador, inspirador, na vida desta pessoa que irá despoletar tudo o resto que se conhece. Como Al Berto se tornou na figura que hoje o público conhece? Eu tinha esta história para contar. Primeiro, era algo que o grande público desconhecia, até mesmo que as pessoas que lidavam com ele conheciam, apercebi-me disso rapidamente. Para além de ser um período muito complexo. O 25 de Abril é fresco, a liberdade, o direito de expressar-se livremente, a democracia, encontravam-se igualmente frescos, e neste período há uma reação a essas mesmas mudanças que entra em choque com uma juventude inquieta que simplesmente quer viver. Depois quis demonstrar o amor entre dois homens, que continua sendo um tabu, até porque ainda hoje a homossexualidade é encarada como um algo perfeitamente sexual e nunca um sentimento amoroso. Esse elemento, o Amor, é bem mais complexo do que as pessoas julgam. Aliás, é mais difícil aceitar a possibilidade de amor entre dois homens do que o teor sexual da homossexualidade.

 

Em relação ao casting. Porquê a escolha de Ricardo Teixeira para interpretar essa personalidade tão querida para si?

 

Conheci-o no ginásio [risos]. Sim, pouco tempo depois de ter terminado o guião. Quando dei por encerrado o argumento de Al Berto deparei com um autêntico problema: quem iria interpretar o poeta? Isto preocupava-me profundamente porque eu conheci perfeitamente o Al Berto, sei de cor a sua aparência, a sua voz, os seus gestos e maneirismos, sabia perfeitamente os pormenores do seu ser, aliás o meu jeito livre foi adquirido graças a ele, e eu devo-lhe muito da minha personalidade. Ele morreu há 20 anos, por isso existem registos vídeo e áudio. Eu teria que encontrar alguém parecido, para não dizer idêntico, a esse homem.

 

Mas não desviando do assunto, estava a treinar no ginásio quando de repente passa por mim o Ricardo, na sua, com fones nos ouvidos e de cabelo comprido. A minha reação foi simplesmente de espanto, apesar de ter a sensação que a sua cara não me era estranha. Ricardo pertencia aos Silly Season, uma companhia de teatro. Meti conversa com ele de forma a conseguir ouvir a sua voz, o timbre do Al Berto era inconfundível, suave e grave, e quando o Ricardo falou comigo fiquei determinado a contratá-lo. Imagem e voz eram as qualidades que precisava para o meu Al Berto. Contudo, depois disto, o Ricardo seguiu para o casting e juntei-o logo com o José Pimentão, que iria interpretar o meu irmão, para ver como resultava em termos de química. Obviamente que o resultado foi positivo. Quanto ao resto dos actores foram aparecendo. 

 

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O espaço entre terminar o argumento e começar a filmar foram dois anos, e nesse tempo fui construindo o meu elenco. Procurei jovens atores em teatro. Por exemplo, Gabriela Rocha Vieira impressionou-me numa peça. “Quem é esta miúda?” pensei eu espantado. Mas concretizei este processo com o elenco jovem; quanto aos adultos, foram atores que fui gradualmente convidando.

 

A produtora não fez nenhuma exigência no casting?

 

Não, a minha produtora não fez qualquer exigência com o grupo mais jovem, pelo contrário, incentivou-me a trazer “caras novas” para o Cinema, de forma a renovar os “rostos do Cinema”, para não termos a tendência de repetir os actores. Julgo que a mais conhecida dos jovens é a Gabriela Barros, que faz televisão, porém, só também a descobri numa peça de teatro.

 

A atriz Rita Loureiro interpreta em Al Berto a sua própria mãe. A escolha para este papel derivou de algum traço afetuoso para com a atriz ou foi uma espécie de “recompensa” por ter integrado a sua primeira longa-metragem?

 

Obviamente, para além de admirá-la como actriz, e ter sido a minha primeira protagonista [Quinze Pontos na Alma], eu olho para ela e apercebo-me nela algo de muito semelhante com a minha mãe. É um sentimento quase maternal, e acrescentaria também fetichista, visto que ela já participou em três filmes meus. Tento mantê-la perto de mim [risos], daqui a uns anos alguém ira-se debruçar dos porquês e os quês dela aparecer tanto na minha filmografia.

 

Contudo, não imaginaria outra pessoa para fazer o papel de minha mãe. Se a Rita não pudesse fazê-lo, juro que tirava a personagem do filme.

 

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Nós portugueses sempre tivemos a ideia de que o 25 de Abril nos tornaram tolerantes e livres da noite para o dia. Essa desmistificação encontra-se presente no seu filme, a sociedade de época ainda “abraçada” aos valores conservadores e ao medo da mudança.

 

Era a sociedade da época, como tu dizes, eu não precisei de inventar. Queria combater a hipocrisia, a cristalização daquele momento [25 de Abril] como perfeito. O português tem dificuldade em encarar a verdade, sempre a mascará-la, uma hipocrisia impressionante.

 

O 25 de Abril não foi perfeito, mas se foi a melhor coisa que nos aconteceu? Foi, dentro daquilo que tínhamos. Mas algo que temos que ter em conta é que muitas pessoas não alteraram a sua mentalidade, aliás mantiveram aquelas mesmas ideias que tinham no exato dia 24 de abril, o conservadorismo, a intolerância, o medo da modernidade e da diferenças, estas ainda se encontravam nestas pessoas. Ainda existe a ideia de que um dia marca a diferença nas emoções de uma pessoa, a ideologia, a politica, a religião … não, nada muda. E a prova está naquilo que abateu sobre esses jovens, as pessoas não sabiam lidar com aquela diferença, com aquela liberdade, e ao invés disso responder com o instinto, primário e tradicional. Não paravam para pensar que as suas lutas pela liberdade dava direito que aquele estilo de vida existisse.

 

O paradoxo é esse, elas querem a liberdade, mas não a liberdade total. Para mim era importante falar nisto, porque isto estava tão presente naquela altura, assim como está hoje. Agora vivemos numa sociedade mais “politicamente correcta”, em que estes temas continuam a ser varridos para “debaixo do tapete”.

 

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Considera o politicamente correcto de hoje como uma espécie de máscara?

 

O politicamente correto é uma máscara, sim. Porém, hoje confunde-se o frontal em ser desrespeitoso, e há uma linha que separa ambos os lados. Penso que da mesma forma que tentamos desmontar o politicamente correcto, também devemos diferenciar cada coisa. Acima de tudo, questionar o que é a Liberdade de Expressão? Onde acaba e começa o desrespeito pelo próximo.

 

Adiante, se eu retratasse Sines neste filme como uma cidade maravilhosa, progressista, artística e tolerante com os ideais do 25 de Abril … estava a ser igualmente hipócrita. Por outro lado, é uma forma de olhar o interior do nosso país. As histórias envolventes do 25 de Abril são retratas quase exclusivamente em Lisboa. E o resto do país? Não tem histórias para contar? Aliás, não só o 25 de Abril, mas muitas das histórias cinematográficas parecem restringidas a esta bolha.

 

Há bocado falava dos “rostos habituados do Cinema Português”, é verdade que muitos dos actores alternam entre o cinema e a televisão, mas a questão é, para si, qual a diferença de fazer Cinema e Televisão?

 

O Cinema e a Televisão são duas plataformas completamente distintas, apesar de hoje existir muitos a fazer cinema na televisão e televisão no cinema. Julgo que tudo isso irá ser debatido cada vez mais, até porque as plataformas estão cada vez mais a transformar, a aproximar um do outro, e aí entra o streaming, os “netflixes” da vida. Só espero é que não acabem com as salas. Podes estar a ver a melhor série do Mundo, mas nada bate a experiência que é ver um filme em sala, uma verdadeira comunhão.

 

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Em relação à televisão, contextualizando-o no caso português, possui mais dinheiro, mais tempo e até liberdade. Mas recordo que existe um preconceito de quem faz televisão não pode fazer cinema e assim vice-versa, apesar de hoje, este cenário encontra-se melhorado. E acredito plenamente que as televisões generalistas vão-se extinguir. Quanto ao Cinema, apesar da evolução, continua como um parente pobre da televisão em Portugal.

 

É sabido que o Vicente Alves de Ó dá aulas de cinema, utiliza os seus filmes como práticas ou exemplos de ensinamento?

 

Eu não obrigo ninguém a ver os meus filmes, nem sequer a seguir-me, mas aconselho os meus alunos a espreitá-los. Acho que algo crucial no ensino é ter professores que se encontram no ativo, que se debatam constante sobre a prática e não apenas na teoria, isso é verdadeiramente importante. Muitas vezes uso a minha experiência para focar nas determinadas áreas do ensino, no que toca à escrita, à rodagem, à realização, ao estilo, na pós-produção.

 

Costuma ler críticas?

 

Leio tudo, tudo e tudo. Mas já passou o tempo em que me preocupava com as críticas, ficava desmerecido com as más e só apetecia desaparecer. Aos poucos comecei a fortalecer e hoje, leio, só que não me chateio. Para quê? Quando estou a rodar e a trabalhar no filme, ele é meu por direito, mas depois de terminá-lo, passa a ser de quem o vê, da sua interpretação, do seu gosto. Más críticas tornam-me mais forte, e se não gostam do meu trabalho, temos pena. Continuarei a realizar os meus filmes.

 

Novos projectos? Tenho conhecido que o seu próximo chama-se Golpe de Sol, quer falar-nos sobre esse projecto?

 

Só posso dizer que acabamos as quatros semanas de rodagem, muito discretas e para os próximos dias começarão a sair mais algumas informações. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:52
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Realizador e argumentista, António de Macedo, faleceu esta tarde (5/10), após ter dado entrada no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Tinha 86 anos e era tido como um dos nomes mais resistentes do cinema de género português, porém, a sua carreira é hoje alvo de reavaliação.

 

Formado no curso de Arquitectura, Macedo passou ao lado dessa sua carreira para se dedicar ao Cinema. Foi um dos fundadores do Centro Português de Cinema nos anos 70 e foi o autor de "A Evolução Estética do Cinema", um dos primeiros livros de teoria cinematográfica.

 

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Conheceu o sucesso com Domingo à Tarde, a sua primeira longa-metragem em 1966, um êxito efémero visto que a obra seguinte, Sete Balas para Selma, um ensaio de espionagem à portuguesa foi condenado pela crítica e pelo público. Como tal segue para o documentário, fase que foi interrompida pelo Nojo dos Cães, filme banido e de caracter experimental em 1970. As más críticas voltaram a surgir com A Promessa (1972), uma variação de western spaghetti com encantamentos ciganos (contou com o primeiro nu frontal do cinema português) que acabou por integrar a competição do Festival de Cannes. Mas quatro anos depois surge o seu filme mais polémico, As Horas de Maria (1976), uma obra anti-religiosa que foi marcada por inúmeros desacatos durante a sua exibição no Cinema Nimas, em Lisboa, para além do boicote geral apelado pela Igreja Católica.

 

Depois seguiu-se as ficções cientificas, Os Abismos da Meia-Noite (1984) e Os Emissários de Khalom (1988), e as fantasias lusitanas, A Maldição Marialva (1991), e o mistério de Chá Forte com Limão (1993). Mas todas estas obras foram envolvidas de más críticas e de fracassos de bilheteira (com a exceção de Os Abismos’ que contou algum hype devido às suas cenas de nudez integral). O Segredo das Pedras Vivas (2016), que inicialmente fora uma produção televisiva dos anos 90, foi reconstruído como uma longa-metragem, a primeira exibição aconteceu numa edição do MOTELx, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que havia apresentado durante a sua longevidade inúmeras homenagens ao realizador, tendo sido responsável pela vaga de reavaliação da sua obra.

 

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Ainda este ano estreará Nos Interstícios da Realidade, um documentário de João Monteiro que segue de perto a sua vida e carreira, assim como a “conspiração” que contribuiu para o seu esquecimento e da extensa censura do qual foi alvo.

 

O cinema de António de Macedo vai estar a partir de hoje em retrospectiva no SITGES – Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, Espanha, estando prevista a exibição do documentário.

 

António de Macedo (1931 – 2017)

 


publicado por Hugo Gomes às 22:35
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4.10.17
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O "Amar-te ei Perdidamente" por Vicente Alves de Ó

 

Tens os olhos tristes, e todos os homens com olhos tristes são poetas”. Assim é nos dito inicialmente, no meio do encontro de duas personagens, que o espectador, até então, desconhece as suas identidades e paradeiros, mas apercebe-se instantaneamente da teatralidade dos seus diálogos proclamados com tamanha serenidade e espera. Com a frase feita, pronunciada e ouvida, o espectador é informado automaticamente da natureza de uma das suas personagens. O Poeta, o eremita da sua verdade, refém das palavras que nascem do seu interior com fins de expressar a alma da maneira como lhe convém. Porém, Al Berto, de Vicente Alves de Ó está longe dessa recolha de talentos pelo qual se tornaram as cinebiografias.

 

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A personalidade-protagonista nunca recita uma estrofe, a sua criação é sugestiva na mente do público, visto que não é esse o objectivo inicial do realizador de Florbela, a adaptação da poetisa de “Amar Perdidamente” que soa como um rascunho em comparação a este relato de foro mais emocional, pelo ponto de vista do seu narrador (Alves de Ó). É sabido que Vicente (o chamaremos assim) conviveu com este amante da liberdade, dos ideias do 25 de Abril que não se viveram na sua totalidade na população de Sines. Até certo ponto, a existência de Al Berto cruza com a existência do nosso Vicente, directa e indirectamente, nesta ultima estância e como parte umbilical deste filme, o romance com o irmão de Alves de Ó, um “amor entre homens” acima da sexualidade “profana” aos olhos dos “pacóvios conservadores”.

 

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Mas do Al para Berto nota-se um espaçamento, uma distância e nela, se materializa com toda esta época induzida como um espectro da sua sugestão. O afastamento para com o espectador dá-se por vários motivos, pela rigidez planificada que nunca encontra lugar no onirismo libertino nem da sujidade do intimismo dito queer (referenciando os lugares-comuns detidos nesse subgénero), ou, pelos conflitos internos do telefilme com a própria matéria cinematográfica, uma linguagem empestada por um crescente academismo. Outro ponto que remete Al Berto para o “feliz” fracasso, é a quantidade de secundários nunca desenvolvidos, subjugados pela sombra da personagem-título e do seu romance protagonista, o carisma requisitado de Ricardo Teixeira que ofusca qualquer justificação para que o produto saia do seu umbiguismo. A juntar a ausência de lirismo que não disfarça a teatralidade destes atores e situações, Al Berto funciona como um gesto, narcisista para uns, honesto para outros, dando forma a um exercício falhado.

 

Real.: Vicente Alves de Ó / Int.: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Raquel Rocha Vieira, Rita Loureiro

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 16:17
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22.9.17

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Leonel Vieira (A Selva, Sombra dos Abutres, O Pátio das Cantigas) regressa à realização com Alguém como Eu, uma comédia romântica de coprodução luso-brasileira, que conta com Ricardo Pereira e Paolla Oliveira como protagonista.

 

O enredo arranca com a básica temática “girl meet a boy” (mulher conhece rapaz) para depois desenvolver como uma comédia de contornos fantasiosos. Helena (Oliveira), é uma brasileira que decide mudar de vida, e para isso muda-se para Portugal. Lá conhece Alex (Pereira) e é amor à primeira vista, porém, a relação entra numa espiral conflituosa e Helena, desesperada, pede ajuda a Deus.

 

Paulo Pires, Dânia Neto, Manuel Marques, Sara Prata, José Pedro Vasconcelos, Irene Ravache (Yvone Kane) e Júlia Rabello (Porta dos Fundos) completam o elenco. Pedro Varela encontra-se por detrás do argumento.

 

Alguém Como Eu estreia a 12 de Outubro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:55
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21.9.17

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De Luís Ismael, criador da trilogia Balas e Bolinhos, chega-nos o primeiro trailer de Bad Investigate.

 

Uma comédia policial que coloca o espectador na caça de um perigosos criminoso conhecido como "El Dedo" (Enrique Arce). Luís Ismael para além de realizador, regressa como actor ao lado de Robson Nunes, Francisco Menezes, João Ricardo, Luísa Ortigoso, Ana Malhoa e Laura Galvão.

 

Bad Investigate tem data agendada para Janeiro de 2018.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:19
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20.9.17

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A Fábrica de Nada é o mais recente projecto realizado por Pedro Pinho (A Cidade e as Trocas, Um Fim do Mundo). Passado numa fábrica de elevadores onde um grupo de operários organiza um sistema de autogestão, insatisfeitos com a sua direcção, a obra tem arrecadado grande aclamação por parte da imprensa internacional, tendo mesmo conquistado o prémio FIPRESCI na última edição do Festival de Cannes.

 

O Cinematograficamente Falando … teve o privilégio, em parceria com o jornalista e crítico de cinema Duarte Mata (C7nema) de entrevistar o realizador numa conversa que vai do aspeto político do filme ao método de trabalho com actores não-profissionais, passando por questões como a validade da política dos autores ou o desaparecimento da película em prol do digital nas produções fílmicas.

 

Qual a sua reacção à recepção do filme em Cannes?

 

A recepção da crítica em Cannes foi absolutamente surpreendente. Logo a partir do momento em que o filme estreou começou a sair uma chuva de críticas muito positivas, sobretudo da América Latina e de Espanha, mas também França, Itália e vários outros sítios. Começámos a ver as leituras sobre o filme, leituras que nem tínhamos feito anteriormente. E depois houve o ranking dos críticos onde o filme foi considerado o melhor do Festival. Filme de cinema, isto é. Foi incrível, superou de longe as nossas expectativas.

 

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Uma das reacções em Cannes, talvez pelo contexto político do filme, foi acusações de que o filme se tratava de propaganda esquerdista.

 

Por acaso não li essas reacções, felizmente. Mas o filme não é nem propaganda nem de esquerda. Há obviamente quem tenha várias leituras sobre o assunto e essa é uma delas. Há muitas outras pessoas que têm outra visão e baseio-me mais nessas optimistas do que nas outras.

 

Até porque na 2ª metade o filme entra justamente nessa vertente mais política e decide discutir o que aconteceu na 1ª, em busca das suas fragilidades.

 

Eu não vejo o mundo baseado nessa dicotomia esquerda/direita. Isso é um sistema de leitura que nos conduz a um equívoco. Mas claro que sou mais próximo de pessoas e ideias de esquerda. Agora o facto de o filme convocar uma série de ideias políticas esquerdistas, não quer dizer que a tese do filme seja essa. Procura pensar sobre uma série de assuntos e sobre um contexto político, social e histórico que estamos a viver e uma possibilidade de resposta ao mesmo. E essa possibilidade, obviamente, é de esquerda porque as outras, como o Trump ou o nazismo, nem me interessa pensar sobre elas. O que o filme procura fazer é uma reflexão sobre um conjunto de temas fundamentais nos tempos que estamos a viver. Acho até que algumas ideias apresentadas são antagónicas, negam-se e anulam-se mutuamente. Acho que quando chegamos ao fim do filme não estamos convencidos mas, ao invés, cheios de dúvidas.

 

Ou seja, apesar de não apontar para nenhum dos lados, é um filme político. Porque a neutralidade política é, em si, um acto político.

 

Claro.

 

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Um dos momentos mais memoráveis do filme é a cena musical. Sendo o musical visto como um género escapista, todo aquele foco musical é, de certa forma, um escape?

 

Isso do musical ser um género escapista é só verdade parcialmente. Desde os anos 70 que há um conjunto de musicais operários passados em fábricas.

 

Como o Tout va Bien, de Godard?

 

Ou o Dancer in the Dark. Esses filmes juntam duas realidades quase paradoxais, cantar para esquecer e um certo realismo da vida e do universo operário. Aceitámos esse desafio, fazer um musical à nossa escala e ao nosso jeito.

 

Começou por ser um projecto musical realizado pelo Jorge de Silva Melo. Como se passou esta transição de uma obra exclusivamente musical para um filme com uma parte docufictícia?

 

A mim não me interessava que as pessoas estivessem sempre a cantar, mas agradou-me a ideia de um musical porque é um desafio enorme. O que acabou por acontecer quando repensámos o filme foi esta ideia de nos introduzirmos nele, um certo olhar exterior ao âmbito estritamente narrativo da história dos operários na construção dramática. Acabámos com esta coisa um bocado estranha que é um filme feito por camadas, onde numa primeira há uma história simples de uma fábrica que fecha e depois há a entrada de um intruso [Danièle Incalcaterra] que é um olhar muito paralelo ao nosso, de um realizador que interfere na realidade operária e a perturba. Isso permitiu introduzir-nos novas camadas de reflexão que achámos necessárias, a realidade dura dos operários que ficam na miséria, sem trabalho ou que têm ataques cardíacos e se suicidam. E por ser uma realidade tão dura achámos que devíamos refletir sobre ela.

 

Foi por isso que quis concentrar a acção numa fábrica de elevadores? Esta simbologia de várias camadas/andares?

 

Foi um acaso absoluto. A fábrica que encontrámos (Otis), coincidentemente, estava em autogestão. Mas não houve a intencionalidade dessa transição.

 

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Esta questão da docuficção, vai buscar pessoas que viveram aquela situação de perto e transforma-as em personagens. Onde está a linha que separa a personagem da pessoa?

 

Não há uma fronteira muito nítida e é essa a intenção. São personagens a partir do momento em que fazem parte da matéria fílmica. Mas são construídas com os caracteres das vidas das pessoas. Não é como a água e o azeite, a ideia é que as coisas se misturem e que a personagem absorva a identidade do sujeito para que se produza um efeito de verdade e uma sensação de relação com a realidade que me interessa trabalhar.

 

A 1ª parte parece muito orgânica, as pessoas engasgam-se, corrigem-se e isso traz um lado muito realista. Isto estava no guião, foi trabalhado com eles ou foi improvisado?

 

Nós tínhamos tudo escrito. Mas é impossível dar uma lista de diálogos a 30 atores e esperar que a coisa surja com atropelos como na vida. Procuramos criar uma situação, fazemos um ensaio que seja qualquer coisa semelhante e trabalhamos dinâmicas entre os atores. Só no dia da rodagem é que eles sabem o texto. E a situação é lançada e procura-se que vá fervendo até chegar a um ponto de ebulição. E nesse momento introduzimos diálogos escritos que fazem avançar dramaticamente a cena. Alguém sussurra ao ouvido do actor o que ele deve dizer, o que faz com que o grupo reaja em surpresa e se torne tudo mais orgânico.

 

A tensão entre eles parece muito genuína. Perguntava-lhe se provocava atritos entre os seus atores para obtê-la.

 

Não havia conflitos reais entre eles porque acho que todos estavam a gostar da experiência e a divertirem-se, mas muitas vezes nas cenas de conflito a tensão tinha que aquecer até um ponto em que fosse credível. Para isso, eu e o assistente de realização iniciávamos um confronto físico com os atores. E isso demora 15 minutos de histeria e como estávamos a filmar em película só o começávamos a fazer quando estava tudo exaltado.

 

Falemos agora nessa questão da película. Cada vez mais em Portugal, por questões financeiras, opta-se pelo digital, mas o seu filme, mesmo apesar da sua duração de 3 horas, não foi por essa via.

 

Até filmámos mais do que isso porque estamos a lidar com atores não-profissionais e é um processo mais demorado. Para mim a película é muito importante, é uma materialidade totalmente diferente. Não tem a ver só com a metodologia e das diferenças que acarreta face ao digital, mas também com a materialidade própria. Não é o mesmo pintar em óleo ou em aguarela. Há uma materialidade no cinema e ela, na minha opinião, faz parte do objeto, da escolha estética.

 

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Desconsidera totalmente filmar em digital?

 

Não, cada vez se torna mais difícil filmar em película, já nem há laboratórios cá e eu acho que o digital está a evoluir, cada vez mais próximo da película, apesar de não ser totalmente igual. Em França entrei numa sala de cinema e projectaram um filme da Claire Denis em 35 mm. Aquilo é um prazer que já não estamos habituados sequer a ter, apesar de ser belíssima a projecção. O olhar das pessoas que estão a ser formadas e mesmo o meu estão a ficar habituados a uma outra materialidade.

 

Há pouco falávamos da personagem do Danièle Incalcaterra. Não me parece que tenha sido acidental a escolha de um realizador de um filme chamado Fábrica Sin Patrón para interpretá-la.

 

O Danièle tinha sido professor num atelier aqui da Gulbenkian e a Leonor Noivo, o Tiago Hespanha e a Luísa Homem [co-argumentistas do filme] foram alunos dele. E quando estávamos a escrever o filme pensámos em quem seria ideal encarnar esta personagem. Foi uma ideia que nos veio rapidamente. É um cineasta que fez um documentário sobre uma fábrica em autogestão e houve uma data de conexões que nos mostraram que fazia sentido ser ele. Claro que isso teve implicações na narrativa porque a dada altura vem uma encomenda da Argentina que corresponde a esta relação dele com essa fábrica.

 

Alguns críticos têm interpretado que se trata de um alter-ego seu…

 

Essa é uma questão um pouco abusiva. É um realizador de cinema de outra geração e que tem um papel que eu nunca faria. A personagem do Danièle é uma espécie de encarnação do nosso gesto, mas não me identifico nada com aquela figura. Como já disse, queríamos uma espécie de tridimensionalidade no filme, criar um movimento perpendicular do nosso olhar e, para isso, criámos a personagem dele.

 

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O filme está a ser promovido como um “filme colectivo” e não como “um filme de Pedro Pinho”. Este “colectivo” é uma alusão ao corporativismo do projecto?

 

O “filme colectivo” tem a ver com o facto de como a imprensa se apropriou do facto de dizermos “um filme de x, x, x e realizado por Pedro Pinho”. Nunca falámos em colectivo. Mas a forma como o projecto nasceu e abraçámos na Terratreme depois do Silva Melo ter deixado de poder realizar foi absolutamente colectiva, sim. Decidimos que eu iria realizar, isto é, ter a última voz nas opções de rodagem e de montagem, mas que todos iríamos pensar o filme desde o início. Daí esta autoria colectiva. Não acho muito certo no cinema o realizador assumir a autoria individual do filme.

 

Não é a favor da política dos autores?

 

Não. Não gosto dessa ideia. O cinema é um trabalho colectivo. Muito mais num tipo de registo em que a escrita dos diálogos é muito feita na rodagem. É abusivo reivindicares para ti algo produzido a partir de um confronto entre várias pessoas. Não tenho problemas em assumir a realização porque fui eu que decidi as ideias do enquadramento, mas isso não é tudo. O pensamento sobre o filme nasceu de um processo que envolveu várias pessoas.

 

Um dos aspectos mais interessantes no seu filme é o filmar sempre à altura dos homens e só se baixar quando as personagens se sentam. Isto é o princípio Hawksiano: filmar a acção à altura dos olhos. Foi para lhes dar um pouco mais de dignidade e salientar a camaradagem entre eles que tomou esta opção?

 

Eu nem sequer concebo muito bem outra forma de realizar. Mas isso se calhar tem a ver com a forma como aprendi a fazer cinema, com essa relação de horizontalidade para com as pessoas. Não penso muito nisso, só na montagem. No primeiro filme que fiz tive grandes discussões com a montadora porque ela achava que se devia usar uma cena em que pessoas estavam a comer no chão, filmada em picado. E eu e o co-realizador não aceitámos e tivemos uma discussão tão grande que acabou por implicar uma mudança de montador.

 

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Um dos grandes momentos do seu filme é aquele em que a personagem Zé [interpretada por José Smith Vargas] vai buscar o filho à escola e a câmara filma-os a descerem a rua para depois fazer uma panorâmica vertical e mostrar a fábrica, como se estivesse a dizer que a base de uma família, de uma companhia, de uma fábrica é o amor.

 

A fábrica que aparece nesse plano não é a do filme, mas o que eu acho fascinante naquela paisagem da região é que mistura de uma forma muito harmoniosa uma brutalidade incrível. E isso para mim é absolutamente violentador do que poderia ser a vida humana e ao mesmo tempo belíssimo. Essa paisagem industrial é bastante fotogénica porque só os edifícios religiosos e os centros comerciais têm aquele tipo de escala. E as fábricas são despojadas de cuidado arquitectónico, é como se estivesse tudo esventrado e aberto, com os órgãos completamente visíveis. E a relação entre as pessoas convive e vive apesar dessa brutalidade toda. É um gesto de resiliência e amor. O foi escrito para representar este gesto e a forma como se prolongam estas questões no círculo da intimidade.

 

O que é que representam as avestruzes?

 

Não representam nada, são avestruzes. Tenho alguma dificuldade com metáforas. Depois da discussão entre o pai e o filho (com o pai um pouco aluado, preso a um tempo que já passou, com as armas que estão enterradas há 40 anos) queríamos uma cena de um reencontro forçado por uma violência qualquer, algo que encontrassem e que envolvesse um trabalho de equipa que os aproximasse. Originalmente a cena era com um cavalo enterrado na lama e tinham que o remover dela. Mas foi complicado porque ninguém nos queria emprestar o cavalo. Foi então que, ao filmarmos a cena das armas na ilha do Tejo deparámo-nos com um ovo de avestruz. E foi a partir daí.

 

Tem novo projectos que possa discutir?

 

Estou a escrever uma longa passada na África Ocidental, sobre um engenheiro do ambiente que vai fiscalizar a construção de uma estrada e a relação com o que encontra.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:24
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11.9.17

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O thriller Cold Hell é o vencedor da 2ª Competição Europeia de Longas-Metragens do MOTELx. Com a conquista do Prémio Melhor Longa Europeia/Méliès d’Argent, o filme de Stefan Ruzowitzky (conhecido por obras como Anatomy e o vencedor ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, The Counterfeiters), fica, desde já, nomeado para o Prémio Méliès d’Or.

 

A representar também o MOTELx estará Thursday Night, a curta-metragem de Gonçalo Almeida, consagrado na sua categoria, arrecadando assim os cinco mil euros de prémio. O júri composto pela atriz Maria João Bastos, o músico Carlão e o realizador Can Evrenol decidiu atribuir o prémio, descrevendo-o como “um filme que nos marcou muito, que consideramos único e que certamente ficará na nossa memória”. A curta Depois do Silêncio, de Guilherme Daniel, recebe uma menção especial.

 

O 11º MOTELx decorreu em Lisboa do dia 5 a 10 de Setembro, apresentando como principal destaque o cinema de terror latino e as visitas de Roger Corman e Alejandro Jodorowsky. O muito esperado IT, de Andy Muschietti, teve as honras de encerrar o festival.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:39
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4.9.17

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Fica o desafio, será que existe actor tão familiar no Cinema Português que Luís Miguel Cintra? É com base nessa “familiaridade”, que a Cinemateca Portuguesa dedica um ciclo em homenagem a uma das caras, corpo e voz, mais presentes da nossa cinematografia, o predileto de muitos cineastas como Manoel de Oliveira ou Paulo Rocha, assim como do teatro, tão vincando na fundação da Cornucópia. Ciclo, esse, que arrancará já nesta segunda-feira (04/09) com as suas colaborações com João César Monteiro (Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço) e com Solveig Nordlund (Nem Pássaro Nem Peixe), que serão projetados numa única sessão, a ter inicio às 21h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

 

Um “aperitivo” para um tributo que se prolongará neste mês de Setembro, com sessões dedicadas à sua filmografia, passando pelo seu trabalho no cinema nacional, assim como internacional (The Dancer Upstairs de John Malkovich). Para além destes, a Cinemateca dará Carta Branca ao actor para escolher alguns dos filmes que mais influenciaram o seu percurso como artista, entre os quais destaca-se The Birds de Alfred Hitchcock, o Acto da Primavera de Manoel de Oliveira, e The Immortal Story de Orson Welles.

 

Mais informações, ver aqui.

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:51
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1.9.17

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Arranca hoje o 4º Ciclo Topografias Imaginárias, um programa de cinema ao ar livre e visionamentos comentados sob o tema "Lisboa, cidade do Sul".

 

Organizado pelo Arquivo Municipal de Lisboa - Videoteca e, sendo este ano, integrado no Passado e Presente - Lisboa, Capital Ibero-Americana de Cultura 2017, Topografias Imaginárias irá se realizar nos primeiros dois fins-de-semana de Setembro (dias 1, 2, 3, 8, 9 e 10), num percurso de seis paragens em locais menos óbvios da capital (Ponte Vasco da Gama, o Museu da Carris, a Quinta do Alto, em Alvalade, o Vale Fundão, em Marvila, o Miradouro de Santo Amaro e o Teatro de Carnide).

 

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Aí, serão exibidos mais de onze filmes, interligados por uma experiência sensorial por uma outra Lisboa, aquela cidade longe dos olhos dos turistas e dos postais de visita, e unificado pelo Cinema. O público será guiado por alguns dos próprios realizadores dos filmes inseridos,  de José Filipe Costa, Salomé Lamas e Dominga Sottomayor, passado também por investigadores, críticos e historiadores (como Eduardo Victorio Morettin, João Mário Grilo, Tiago Baptista, Olivier Hadouchi, Maria do Carmo Piçarra, entre outros). No programa serão vistos e revistos excertos dos filmes, que em conformidade com os comentários exercidos prepararão o público para uma viagem onde é possível imaginar e topografar o Sul, sendo mais tarde devidamente explorado nas sessões de cinema ao ar livre. A entrada é livre e o transporte gratuito.

 

Entre os filmes podemos contar com El Dorado XXI de Salomé Lamas, O Caso J. de José Filipe Costa, O Outro País de Sérgio Tréfaut, Zéfiro de José Álvaro de Morais, e ainda os clássicos La illusión viaja en tranvia de Luís Buñuel e O Descobrimento do Brasil de Humberto Mauro.

 

A programação completa e mais informações podem ser consultadas aqui e aqui.

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:15
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Numa escala de 1 a 10, qual é o teu índice médio de felicidade?

 

Caro Joaquim, fora qualquer tendência de superioridade, gostaria de perguntar o que realmente lhe aconteceu? O que é que o levou a tornar-se num mero técnico à mercê das vontades questionáveis de um alarve cinema comercial? O senhor foi uma promessa em plenos anos 90, conseguiu, com algum requinte, êxitos memoráveis no cinema português, sem precisar de se rebaixar.

 

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Julgava eu que Sei Lá tinha sido um equivoco, essa sua passividade para com tão questionável matéria-prima. Perdoei-lhe essa falta de insurreição de conteúdo, perante uma insurreição de forma. A técnica prevaleceu nessa cópia descarada de Sexo e a Cidade, por isso isto não é uma insinuação de incompetências por detrás duma câmara de filmar. Nada disso, eu reconheço o seu potencial, sei que é capaz de mais do que isto. Sim, isto. Este Índice Médio de Felicidade, esta adaptação de outro livro que também não foi capaz de se ver insurgido. Nesta história feel-good decorrida nos tempos de austeridade, que poderia de certa forma acompanhar esta vaga de cinema emergente que tem surgido por aí, cujas más-línguas apelidam de "filmes de esquerda".

 

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Exacto, os Migueis Gomes da vida, essas Mil e uma Noites que tão bem traduziram o estado inerente de um país derrotado e os Sãos Jorges que revelaram força no seu realismo vincado. Poderia ter aprendido com estas abordagens para conceber o seu Índice Médio da Felicidade, porque a vida, por mais optimista que a possamos encarar, precisa de ser tratada com veracidade e tom crítico. Ou se não, aí está, passamos por acríticos com promessas de emocionar com aquilo que os portugueses vêem artificialmente nas telenovelas. O filme é pesaroso, os diálogos não têm orgânica, tal como a narrativa e a direcção de atores.

 

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Pior, esconde as boas intenções de um futuro risonho na crenças de cada um, com uma descredibilização da "desgraça" das suas personagens. Recordo o popular filme de Danny Boyle, Slumdog Millionaire - Quem Quer Ser Bilionário, onde o protagonista (Dev Patel) em pleno concurso de Quem Quer Ser Milionário solicita ajuda numa das mais básicas perguntas. Chocado e de tom trocista, o apresentador (Anil Kapoor) refere que tais temas são ensinados na escola e que todas as crianças da primária sabem responder correctamente à questão. O protagonista confronta, afirmando que qualquer criança da "sua rua", perante a miserabilidade das suas vidas sabe perfeitamente a diferença de rupias entre uma banca de comida e de outra.

 

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Sim, Joaquim, se vai fazer um filme sobre os lesados da crise, do sufoco financeiro que muitos portugueses enfrentaram, nunca coloque uma cena onde o seu protagonista vasculha a carteira em busca de trocos para conseguir comprar um jornal para a sua filha, para que, na cena seguinte, o ponha a levar os filhos ao Jardim Zoológico. Não é filmar num canto só porque parece bem, há que entender que, se vai dirigir este filme para um público, cuja grande parte sofreu com as políticas de austeridade, deve sobretudo falar na respectiva língua. Joaquim, lamento, mas tem aqui o seu pior filme, com uma técnica e linguagem puramente televisiva. Com isto espero as melhoras, atenciosamente…  

 

Real.: Joaquim Leitão / Int.: Marco D'Almeida, Dinarte de Freitas, Ana Marta Contente, Lia Gama, António Cordeiro

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 10:51
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5.8.17

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A Fábrica do Nada [ler crítica], a premiada quarta longa-metragem de Pedro Pinho, vai chegar aos cinemas portugueses a partir do dia 21 de Setembro, em salas ainda por anunciar.

 

Descrito como uma experimentação sociopolítica, A Fábrica do Nada "vampiriza" factos verídicos, a auto-sustentação da Fabrica de elevadores Otis, em conformidade com uma ideia de Jorge Silva Melo e da homónima peça de teatro de Judith Herzberg, para nos trazer um ensaio docuficção sobre a dignidade proletária e o aproveito politico das situações de austeridade.

 

O filme de Pedro Pinho venceu no Festiva de Munique o prémio de Melhor Novo Filme, e ainda o Prémio da Crítica FIPRESCI no Festival de Cannes, o qual teve inserido na secção paralela, A Semana da Crítica.

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:06
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