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16.3.17

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O realizador de Som ao Redor e Aquarius, Kleber Mendoça Filho, vai presidir o júri da próxima Semana da Crítica de Cannes. Contando agora com a sua 56ª edição, a Semana da Crítica contará ainda com a produtora e directora artística do Festival de Cartagena, Diana Bustamante Escobar, o chefe de reportagem do site Indiewire, Eric Kohn, directora do Cinema Metropolis, o primeiro cinema arthouse do Líbano, Hania Mroué e o actor Niels Schneider como jurados.

 

Recordamos que a Semana da Crítica, secção paralela do Festival de Cannes, é dedicado à promoção de novos talentos do cinema, exibido uma mostra composta por primeiras e segundas obras.

 

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Alain+Guiraudie+Staying+Vertical+Rester+Vertical+w

Chamam-lhe provocador, e não é por menos. Os filmes de Alain Guiraudie apostam na naturalidade das coisas, inclusive no natural estado em que a sexualidade é traduzida no ecrã. Apresentando agora, Staying Vertical (Rester Vertical), o seu mais recente trabalho que chegou aos cinemas portugueses, conserva tudo o que esperávamos da sua arte. Aquela, que se pode considerar a arte de provocar. Através do seu novo filme, o Cinematograficamente Falando … tenta desmistificar o homem por detrás da obra.

 

Novamente se verifica em Staying Vertical, existe um certo "eu" cómico nestas tramas?

 

Penso que o humor é muito importante. O porquê de importante? Porque por vezes gosto de rir, e uma boa gargalhada traz uma certa ligeireza ao tom dramático e até mesmo trágico. O humor fundido com o drama, é um equilíbrio que procuro com o intuito de interligar as pessoas aos enredos.

 

A sua filmografia é dotada por inúmeros elementos naturais que por si residem como uma imagem de marca. Estamos a referir os exemplos da água, o rio e outros sistemas fluviais.

 

A Natureza faz-me sonhar. Aprecio ter um certo cinema sensorial, e para tal uso elementos para o transmitirem, tais como a água, o céu, arvores e o vento. Sobretudo o vento, até porque sigo uma das indicações de Orson Welles: "o cinema é o vento e as arvores". Sou um fascinado pelo Mundo e pela Natureza em particular, cresci rodeado desta, aliás em vim do campo, por isso o meu "cinematográfico" possui um certo magnetismo com este meio ambiente. Não sei se conseguiria filmar um filme numa metrópole.

 

Como consegue consolidar esses elementos naturais com a vertente cinematográfica, sobretudo no contexto visual?

 

Para mim é difícil definir o conceito visual apropriado, porque é igualmente complicado traduzir a grandiloquência da natureza neste filme. Para isso gosto de trabalhar com a luz natural e o Sol é a melhor electricidade do Cinema. Neste filme aprendi que também a Lua consegue funcionar da mesma maneira que o Sol. Foi a minha primeira vez que utilizei o luar para iluminar os meus planos e a meu veredicto é que o brilho desta possui um certo encanto. Um encanto dignamente místico.

 

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Luz natural?

 

Sim, em todas as sequências exteriores, utilizei somente luz natural. Com a tecnologia é possível reproduzir tal efeito, mas esta é demasiado recente, por isso optei por restringir-me ao luar.

 

Outras das suas marcas autorais. À semelhança de O Desconhecido no Lago (L’ Inconnu du Lac), este Staying Vertical respeita um certo signo, onde reside algures uma criatura de que as nossas personagens temem. No caso do filme anterior, fora o siluro, neste são, evidentemente, os lobos. Estes "papões" funcionam como metáforas para algo?

 

Não é necessariamente uma metáfora, não é a representação do "papão" nos lobos em Staying Vertical nem a misteriosa criatura do L’ Inconnu du Lac, mas isso pode muito bem ser induzido consoante a nossa própria interpretação. É possível olharmos para os lobos, assim como o "peixe-gato", como um medo colectivo, eles existem e as suas auras encontram-se ligadas a fábulas e outras histórias do arco-da-velha, ou até mesmo bíblicas. Sinceramente, olho para estas criaturas e revejo-as num confronto entre a entidade real e as lendas que se encontram ligadas.

 

Neste Staying Vertical, o Alain derrubar as "paredes" que separavam a fantasia e a realidade.

 

Exacto, gosto de pensar que o cinema nasceu de algo muito concreto, realista e que aos poucos consegue entregar-nos um efeito mais próprio da fábula, da mitologia e até da fantasia. Tal como os lobos, voltando ao assunto anterior, que possuem esse poder lendário por detrás, então porque não combinar esses dois terrenos numa simbiótica combinação. Sinceramente, o cinema que detesto é aquele que se foca e que por fim se prende na realidade, e o que exibe é nada mais que isso.

 

E o conteúdo sexual? O seu cinema é característico por uma naturalidade nesse ramo.

 

Primeiramente, era algo que tentava fugir. Só que nos últimos anos reflecti a importância de exibir ou não exibir esse conteúdo sexual. Porque haveria de não mostrar a naturalidade dessa temática? Perguntava a mim próprio. Se é algo importante para as nossas vidas, porque não mostrá-la no ecrã.

 

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O que pretende com essa procura?

 

Uma nova linguagem sexual. Por exemplo, quando filmamos, procuramos novas áreas para explorar e no Cinema estamos bem atrás da literatura, na questão de como devemos mostrar a sexualidade.

 

Para si, existe alguma diferença entre o filmar essa nova linguagem sexual e a pornografia? Qual a linha que separa esses dois universos?

 

De momento é me difícil definir uma fronteira para mim mesmo. O grande obstáculo para mim é realmente encontrar actores que possam levar do início ao fim as referidas cenas, sem ser ao uso da simulação. Mas penso que se pode filmar tudo, a questão deverá ser como a filmar. A abordagem no centro de tudo. Mas respondendo directamente à pergunta, a grande diferença entre a pornografia e o aceitável está nos "point-of-views". Na má pornografia, principalmente, a câmara encontra-se em ângulos impossíveis e na distância. No cinema tentamos ter um boa distância, algo que na pornografia, habitualmente, não existe.

 

Então tenta evitar a pornografia?

 

Tento evitar [risos].

 

E quanto às acusações de ser um provocador?

 

Também não tento provocar, mas constantemente questiono o porquê de não poder filmar certas coisas.

 

Como por exemplo, a sequência em que filma um parto real?

 

Tento exprimir o ciclo da vida através da edição. E através dessa tento sobretudo expor algum humor, um senso de divertimento que unicamente se consegue na edição. Nesta cena em particular o que faço é demonstrar directamente, no sentido mais literal, frontalmente o nascimento para o público.

 

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Em matéria de edição, pensa que foi eficaz e perceptível?

 

Sinto que neste filme não fui totalmente bem-sucedido, queria dar uma sensação que estava gradualmente a abandonar a imperatividade da montagem, mas julgo que os espectadores não estão cientes perante isso. Como tal, julgo que Staying Vertical não consegui atingir o objectivo.

 

Falando em cenas, existe a sequência final em que surge por fim os nossos "papões". Como foi filmar essa particular cena? Eles são reais?

 

Foi uma cena complicada. Os lobos, sim, são reais, e devido à dificuldade desta particular sequência, tivemos que utilizar efeitos visuais em pós-produção, até porque a tarefa era perigosíssima, tínhamos lobos de um lado e cordeiros do outro. Então filmamos os animais em separado e os juntamos através da edição.

 

O significado desta particular cena?

 

É um sacrifício aludido aos contornos bíblicos, uma visão utópica de uma coabitação pacifica. A harmonia entre o lobo e o cordeiro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:34
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14.3.17

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Há dois anos atrás, na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, um filme croata emocionou o público com uma abordagem criativa e romântica do conflito dos Balcãs. É um enredo que prolonga-se por mais de trinta anos, jogando-se com encarnações e momentos dignamente shakespearianos. Esse filme foi Zvizdan, por cá sob o título de Sol de Chumbo, que acabaria por vencer o prémio de Júri de tal secção.

 

O Cinematograficamente Falando … falou na altura com Dalibor Matanic, o realizador assumidamente optimista que parece figurar-se numa nova e ascendente geração que promete fazer um cinema activista, mas sobretudo de carácter urgente e moralista.

 

Ao ver o seu filme temos a sensação que o Dalibor é um homem romântico.

 

Sim, mas penso que se deveria antes dizer que sou um optimista. Neste assunto é o meu ponto de vista, a minha posição e o filme sou eu, é tudo aquilo que vejo à minha volta. A minha família sempre me disse: "que as pessoas metem em primeiro lugar as suas energias mais negativas, como o ódio, ao invés de outros sentimentos como o amor e o afecto".

 

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Como nasceu a ideia para este filme?

 

Curiosamente, a ideia veio da minha avó. Cresci com ela e ela foi para mim um poço de amor incondicional, mas à medida que ia ficando mais velha começou a repetir o mesmo conselho "por favor arranja uma rapariga que não seja sérvia". Isto é absurdo, alguém que te dá todo o amor na tua vida e ao mesmo tempo é capaz de interditá-lo. Isso fez-me pensar no porquê que estas boas pessoas estão infectadas com este elemento de ódio, ou por vezes, presas. Por isso, este filme funciona como um "gatilho" de resposta a esses sentimentos, e demonstrar como é possível apostar no oposto.

 

Digamos que este é um filme activista?

 

Sim, mas no filme tentei ser gentil na temática, mesmo assim poderá suscitar algumas reacções negativas para algumas pessoas com ideias fundamentadas. Para além da gentileza, tentei transparecer uma certa disposição, como um espelho, que reflecte-as e que as confronta com o seu próprio reflexo.

 

Mas porquê este formato: 3 histórias, 3 décadas diferentes e 2 actores?

 

Queria transmitir às audiências uma precaução de que o destino é sempre o mesmo, uma sensação de ciclo repetitivo e foi com esse intuito que utilizei os mesmos actores para personagens diferentes. Porém, com esse processo tentei esclarecer um ciclo onde as cargas negativas vão-se esmorecendo conforme o destino.

 

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Como preparou os seus actores para um ciclo repetitivo, e ao mesmo tempo divergente, de papeis?

 

Eu não sou do tipo que gosta de explicar tudo, a maneira como se deve agir, o sorriso, o olhar. Nada disso. O que pretendia aqui era pequenos ou até pormenores invisíveis entre personagens. Trabalhamos muito e por muito tempo para poder encontra estes pequenos itens que nos levam a diferenciar personagens, não pretendia diferenças discrepantes entre elas, queria transmitir a sensação que apesar de diferentes e de viverem em décadas distantes, estas eram unidas, como algo hereditário, a um só ser, aquela energia continua. As minhas personagens possuem uma ideia que habita dentro delas, não exibindo-as como parte da sua estética. Algo comparado ao subconsciente.

 

Estes eram os atores com quem inicialmente pensou em trabalhar? Como os escolheu?

 

Tenho orgulho de ter no meu elenco Tihana, o qual considero ser uma das melhores actrizes croata da sua geração. Já nos conhecíamos há anos e por isso a adaptação foi tranquila. Claro que tive que executar um casting para as personagens mais velhas e sobretudo para o protagonista masculino. Foi então que encontrei Goran Markovic, que foi perfeito para o papel.

 

Muita da imprensa afirma que o seu filme poderá se tornar no mais influente e conhecido filme croata. O que sente acerca destas afirmações?

 

Sou pacifico em relação a isso [risos], quando estava a filmar o filme, depositei nele alguns dos meus sentimentos e em Cannes apercebi-me que essa energia está de certa forma estampada nele. Mas não é só as referências croatas, julgo que todo o leste precisa de filmes como estes. Um cinema que aborda estes mesmos medos, fantasmas e temas. Actualmente, surge entre nós uma geração de jovens com um tamanho ódio instalado no coração, eles odeiam tudo, por isso, é importante que exista este tipo de filmes e que esta mesma geração os veja e, acima de tudo, sejam confrontados por estes.

 

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Em relação ao título. Porquê High Sun (título internacional)?

 

"High Sun" (Sol ascendente) é quando o Sol está no pico, e ele ilumina-nos deixando a nossa sombra saliente no chão, como tal existe uma espécie de reflexão, ou por outras palavras, um confronto entre o iluminado e o fruto dessa iluminação. É como olharmos para nós próprios, mas sob a influência de algo acima da nossa compreensão.

 

Novos projectos?

 

Este Zvizdan será o início de uma trilogia, o qual apelido de a trilogia do Sol. Com esta saga tentarei esclarecer os aspectos sentimentalmente positivos como negativos, um embate entre a Humanidade e as energias negativas que habitam entre nós à séculos. O meu próximo capítulo terá como título "Down Sun", como uma Aurora, o qual tentarei estabelecer sentimentos próximos do luto.   

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:55
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5.3.17
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A antologia do biopic!

 

Em Neruda, a promessa de uma biopic convencional do poeta e activista politico é em vão. Pablo Larraín esmiúça-se sobre outro Pablo, e através desta união invoca uma liberdade que não parece encontrar lugar no subgénero. É como se Neruda fosse idealizado pelo próprio Neruda, uma evasão ficcionada que facilmente se encontraria no imaginário do homenageado, mais do que a visão do espectador.

 

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Existe nesta metragem uma desfragmentação de todos os códigos assim aprendidos e instantaneamente abandonados pelo realizador desde o muito consensual Não, ou até do toque mais intimista e reservado de El Clube. Em Neruda o que está em jogo é a narração, mais do que a própria narrativa, quanto à fidelidade histórica, non troppo, o ficcionar de vidas estabelecidas, inserindo neste jogo personagens inexistentes e explicitar a biografia da existência memorial, acima da existência física. Sim, Larraín joga-se aos retalhos com a ferocidade de um esquartejador. O golpear de diálogos em prol de um raccord soluçante, os planos reféns de uma profundidade quase "velazquiana", a falsa narração de personagens ausentes e até mesmo um twist que desafia a própria natureza do registo. Tudo com a graça e encanto de um elenco capaz de disfarçar esta tão deliciosa farsa (a estrutura policial) sob condimentos políticos, e deveras de salientar, acidamente politizados.

 

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Luis Gnecco apresenta essa figura de um ego do tamanho do Mundo [Neruda], o burguês que secretamente integra o partido comunista, como uma força inesperada no combate a um regime, onde a sua palavra funciona como a mais poderosa das suas armas. Seguindo de perto, um Gael Garcia Bernal que o persegue sem perceber que como perseguidor converte-se no mais indefeso perseguido. Egocentrismo e ciclos experimentais de não-lugares e não-personagens, tópicos que afrontam em Neruda, e aos dois Pablos, a anti-sintetização da memória, não como uma formatização, mas como uma página em branco a merecer da escritura.

 

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Enquanto isso, indicamos um dos grandes equívocos das distribuidoras, lançar Neruda depois de Jackie (visto que o filme foi produzido antes da biografia com Natalie Portman), o esboço da sua oficializada entrada no mercado de Hollywood. Mesmo assim, Neruda é digno do seu próprio feito. 

 

Real.: Pablo Larraín / Int.: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:56
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7.2.17

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Werner Herzog, conhecido por filmes como Fitzcarraldo, Aguirre, Grizzly Man e Queen of Desert, será distinguido em Cannes com a Carroça de Ouro (Carrosse d'Or), um prémio atribuído pela Sociedade de Cineastas Franceses (SRF) na Quinzena dos Realizadores, uma secção paralela do Festival Internacional de Cinema de Cannes.


Herzog, sempre associado ao movimento do Novo Cinema Alemão, junta-se assim a uma vasta mas eclética lista de nomes premiados: Aki Kaurismäki (2016), Jia Zhangke, (2015), Alain Resnais (2014), Jane Campion (2013), Nuri Bilge Ceylan (2012), Jafar Panahi (2011), Agnès Varda (2010), Naomi Kawase (2009), Jim Jarmusch (2008), Alain Cavalier (2007), David Cronenberg (2006), Ousmane Sembene (2005), Nanni Moretti (2004), Jacques Rozier e Clint Eastwood (2003).


A 49.ª edição da Quinzena dos Realizadores decorrerá entre 17 a 28 de Maio.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:52
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31.1.17

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O cineasta espanhol Pedro Almodóvar irá presidir o júri da próxima edição do Festival de Cannes. O realizador de Julieta e Todo Sobre Mi Madre, expressou face ao convite que se encontrava "muito feliz por poder celebrar o 70º aniversário do Festival de Cinema de Cannes numa posição tão privilegiada"

 

Pierre Lescure, director do festival e o seu delegado-geral, Thierry Frémaux, afirmaram que "para a sua 70ª edição, o Festival de Cannes tem o prazer de acolher um artista único e extremamente popular. As suas obras já esculpiram um nicho eterno na história do cinema"

 

Recordamos que existe uma ligação forte entre o festival da Riviera Francesa com o cineasta, uma das suas obras, La Mala Educación, abriu a selecção oficial de 2004 e o próprio Almodóvar figurou no cartaz da 60ª edição.  Todo Sobre Mi Madre venceu o Prémio de Realização, enquanto que Volver foi laureado com Prémio do Júri Ecuménico.

 

O Festival de Cinema de Cannes irá decorrer de 17 a 28 de Maio.

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:36
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19.9.16

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Cannes tem sido uma segunda casa para as "criações" do jovem realizador Xavier Dolan, e as reacções perante os seus filmes tem sido unanimemente entusiasmantes, porém, a sua última obra,  Juste La Fin Du Monde (Only The End Of The World), contrariou a tendência.

 

Mesmo tendo sido premiado com o Grande Prémio de Júri e o Prémio de Júri Ecuménico em Riviera, o mais recente trabalho do realizador franco-canadiano  foi apupado durante a sua apresentação à imprensa e tem recebido as piores críticas da sua carreira.

 

Todo este cenário vem à tona perante a drástica decisão de Xavier Dolan em não submeter o seu muito antecipado novo filme, The Death and Life of John F. Donovan, no tão badalado festival francês. O realização anunciou tal ausência na sua conta de Instagram, começando por argumentar que o filme não estaria pronto até à altura do festival e que as filmagens prolongariam até Junho de 2017. Contudo, Dolan não poupou críticas ao que apelida de "bullyng" numa cultura de "trolling".

 

 

 

Uma foto publicada por xavierdolan (@xavierdolan) a

 

Recordamos que  John F. Donovan será o seu primeiro filme em língua inglesa da sua carreira, o qual remete-nos à troca de correspondência entre um famoso ator, John F. Donovan (Kit Harington), e um menino de 11 anos, e a exposição dessas mesmas cartas pelos media, principalmente por uma revista cor-de-rosa gerida por uma Jessica Chastain de má índole.

 

Kathy Bates, Susan Sarandon, Natalie Portman, Thandie Newton, Nicholas Hoult e a cantora Adele completam o elenco.

 

Quanto a Juste La Fin Du Monde, uma adaptação da homónima peça de Jean-Luc Lagarce, a estreia nacional está encarregue da distribuidora Alambique, por cá apostamos numa clara presença no próximo Lisbon & Estoril Film Festival.

 

O enredo remete-nos a um escritor (Gaspard Ulliel) que regressa a casa após uma longa ausência, afim de anunciar a sua iminente morte ao seio familiar. Uma tarefa nada fácil visto que a sua família possui assuntos não resolvidos. Marion Cotillard, Léa Seydoux e Vincent Cassel estão igualmente no elenco.

 

 

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28.5.16

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O correcto acto da vingança!

 

Asghar Farhadi é um moralista, mas é o nosso tipo de moralista. Ao contrário do conto moral propagandista que muita da Hollywood faz e refaz, o cinema de Farhadi é de uma delicadeza articulada a espaços limitados, a mistérios "antonianos" não resolvidos e a dramas humanos impulsionados através de um olhar crítico e abrangente, e essa dita moralidade ocorre, não como uma lição a ser aprendida, mas sim num reflexo de múltiplas contemplações.

 

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Contudo, em O Vendedor, premiado com a distinção de Melhor Argumento no Festival de Cannes, possuímos um episódio competente na linha dos seus anteriores manifestos, mas perde-se numa loop de repetição autoral. Para o espectador ainda não inserido no universo deste badalado e consagrado cineasta iraniano (A Separation, Le Passé), este paralelismo entre a ficção e as encenações teatrais de Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, revela-se numa fascinante experiência de juízo de valores, até estabelecer num climax narrativo que desagua facilmente em território de elipse.

 

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É um tipo de cinema que nos faz debater sobre a nossa própria moralidade, é aquele "mundo" longe ao nosso alcance, aqueles seres de uma civilização distante que não se afastam, rigorosamente nada, dos nossos quotidianos. Aliás, essa persistente comparação entre o drama de vingança e o teatro que vem adquirido contornos algo caóticos, remetem-nos a um elo cultural que interliga essa constante separação anunciada entre Ocidente / Oriente.

 

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É um exercício meticuloso, devidamente empregue à mercê dos seus actores que tudo fazem para adereçar a ênfase dramática nos conformes deste conceito de realismo. O Vendedor aproxima-se em passos personalizados ao território de Alain Resnais, a esse erudito estado de alma, sem como tal abandonar as suas heranças, quer culturais, cinematográficas e pessoais. No fim, a moralidade nos joga como uma força que nos embate consequencialmente, mas sem nunca constituir uma só verdade. A moral nasce, cresce, vive e morre em cada um de nós, o cinema Farhadi apenas providencia essas ferramentas.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:59
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22.5.16

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Dez anos depois da surpreendente vitória de The Wind that Shakes the Barley, o cineasta irlandês Ken Loach volta a receber a Palma de Ouro com o I, Daniel Blake, o grito de protesto de um desemprego contra um sistema burocrático e humanamente frio que é a Segurança Social.

 

Entre os premiados da 69ª edição do Festival de Cannes, conta-se outras surpreendentes triunfos, entre os quais Juste la Fin du Monde, de Xavier Dolan, com o Grande Prémio de Júri, e o apupado Olivier Assayas como Melhor Realizador por Personal Shopper, prémio que partilhou com Cristian Mungiu (Bacalaureat).

 

Destaque ainda para Jaclyn Jose como Actriz em Ma'rosa, de Brillante Mendoza, que superou as muito cotadas Isabelle Huppert (Elle) e Sónia Braga (Aquarius).

 

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Palma de Ouro

I, Daniel Blake, de Ken Loach

 

Grande Prémio do Júri

Juste la fin du monde, de Xavier Dolan

 

Prémio de Melhor Realizador

Cristian Mungiu (Bacalaureat) e Olivier Assayas (Personal Shopper)

 

Prémio do Júri

American Honey, de Andrea Arnold

 

Prémio para Melhor Argumento

Asghar Farhadi, por The Salesman

 

Prémio de Melhor Actor

Shahab Hosseini (The Salesman)

 

Prémio de Melhor Actriz

Jaclyn Jose, por Ma'Rosa, de Brillante Mendoza

 

Câmara de Ouro para Melhor 1ª obra

Divines, de Houda Benyamina

 

Palma de ouro para Melhor Curta-Metragem

Timecode, de Juanjo Giménez

 

Palma de Ouro de Honra

Jean-Pierre Léaud

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:35
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21.5.16

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A história de um pugilista com chances para vencer o campeonato de pesos-leves mas que preferiu o amor de uma mulher, venceu o Grande Prémio da secção Un Certain Regard. O finlandês The Happiest Day in the Life of Olli Maki (Hymyileva Mies) foi anunciado assim como o grande vencedor do certame, segundo o júri presidido pela actriz suiça, Martha Keller, “onde cada filme se tornou numa rica experiência cinematográfica”. Destaque para La Tortue Rouge (The Red Turtle), uma animação sem diálogos dos estúdios Ghibli que tem conquistado o público e a crítica, vencedor do Prémio Especial, e Matt Ross como Melhor Realizador pelo seu trabalho em Captain Fantastic.

 

 

Prémio Un Certain Regard

The Happiest Day in the Life of Olli Mäki

 

Prémio de Júri

Harmonium

 

Prémio para Melhor Realização

Matt Ross, Captain Fantastic

 

Prémio para Melhor Argumento

Delphine Coulin e Muriel Coulin, The Stopover

 

Prémio Especial

The Red Turtle

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:48
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O "Cage" enraivecido!

 

Será esta a redenção de Paul Schrader com o cinema? Contudo, outra pergunta deveria ser feita – será que Schrader realmente vingou como realizador de cinema? “Tricky question”, mas a verdade que o autor é mais tido como um lendário argumentista, o responsável pelos guiões de Taxi Driver e Raging Bull, do que propriamente como um realizador a solo, sendo que as suas tentativas nessa área diversas vezes deram para o torto (nesse sentido Adam Ressurected poderá ter sido o seu melhor trabalho).

 

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Mas em Dog Eat Dog vemos um, não um regresso, mas  uma entrada bastante peculiar ao universo da direcção cinematográfica. É um filme violentado, sim, induzido numa indústria politicamente correcta e cheia de moralismos e sensibilidades que se insurge contra essa mesma condição. Dog Eat Dog é um thriller de acção da veia altamente criminosa, cuja premissa simplista se pode referir em três “malfeitores” que sequestram o bebé de um mafioso e o golpe desmorona desde o momento em que é concebido. No centro dessa intriga, que no papel não traduz a sua vitalidade, encontramos Nicolas Cage no seu inesperado regresso, o retorno à sua forma impulsiva dos anos 90 (quem não se lembra dos seus “irreais” papeis em Face Off e Leaving Las Vegas). Ao seu redor está um ambiente tipicamente 80’s sob as costelas deixadas pelo cinema de Scorsese (fruto das melhores colaborações de Schrader com o realizador nova-iorquino).

 

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Uma atmosfera que não deixa dúvidas, Schrader está a borrifar-se para os censores da boa conduta cinematográfica e muito mais para a classificação estabelecida pelos órgãos de avaliação. Isso nota-se na primeira sequência, onde um impagável Willem DaFoe destrói qualquer indicio de benevolência. Se Dog Eat Dog é um exercício de indisciplina cinematográfica, infelizmente é só isso que o filme tem a oferecer-nos. Com um final alucinado a “copiar” um David Lynch na sua melhor forma, Paul Schrader encerra o seu novo trabalho de forma inconclusiva. Assim, sentimos que havia mais a ser entregue aqui, mas tal não é cumprido.

 

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De resto, surge Nicolas Cage a demonstrar que não esqueceu de como actuar, sim, acabando por ser o grande presente de uma sessão pouco satisfatória. Dog Eat Dog é simplesmente “mais olhos que barriga”, mas precisamos mais olhos destes na actual indústria cinematográfica norte-americana.

 

Filme de encerramento da 48ª Quinzena de Realizadores

 

Real.: Paul Schrader / Int.: Nicolas Cage, Willem Dafoe, Magi Avila, Paul Schrader

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 17:59
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O desejo é algo indescritível!

 

Durante a sua carreira, ao holandês Paul Verhoeven foram atribuídos diversos "gloriosos" nomes: sexista, homofóbico, voyeurista, sádico, mau gosto, etc. Mas de uma coisa é certa, não lhe podemos negar o adjectivo de ousado e neste Elle, visto como o seu grande regresso ao cinema, a irreverência é o ingrediente que não falta.

 

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Com mais de cinquenta anos de experiência no cinema, o anterior e "maldito" realizador de Showgirls vira o jogo num mundo descrito pelo politicamente correcto e sobretudo pela hipocrisia. Essa partida joga a três: Verhoeven, a actriz Isabelle Huppert e o espectador, este último constantemente desafiado através dos outros dois "parceiros" pelos parâmetros maleáveis da demência (socialmente inaceitável) da sua protagonista. Trata-se de uma mulher forte, longe do heroísmo romantizado de Hollywood, ambígua (com o seu "quê" de psicótica) e sexualmente activa. Sim, é essa principal característica que coloca a personagem de Isabelle Huppert à frente de enésimos retratos feministas. Ela é sim uma perversa sexual, ou simplesmente (para não cairmos em julgamentos morais), uma mulher com  necessidades simples (se a personagem de Huppert fosse um homem não suscitaria tanto choque), dependente e independente do "cromossoma Y".

 

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Elle arranca com uma violação, um acto medonho de invasão sexual que automaticamente começa a perseguir Michelle (Huppert) e a tomar as suas próprias fantasias. Ao contrário de uma enésima variação de I Spit on Your Grave, este definitivamente não é um ensaio de vingança nem uma ode justiceira dos direitos das Mulheres oprimidas, trata-se sim de uma longa fantasia, mórbida para os mais sensíveis, que adquire os eventuais toques do síndroma de Estocolmo. Isabelle Huppert veste a pele desta personagem como ninguém, desta forte mulher do cinema, que sob algumas réstias da anterior Catherine Tramell (personagem de Sharon Stone em o Basic Instinct) domina num mundo supostamente dominado por homens. Ela é um hino da verdadeira emancipação feminina, e simultaneamente é a mais frágil vítima desse mesmo estatuto. O trabalho de Paul Verhoeven é definitivo, a criação da personagem assim como a tensão psicológica que a culmina, uma sólida ponte entre o ecrã e o espectador, tornam este thriller sagaz, ritmado e degustável sob variados paladares.

 

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Ora são os momentos dignamente screwball, ora é a veia mais arquitectónica do thriller hitchockiano, ou os devaneios voyeuristas merecedoras do realizador. Porém, em Elle não somos induzidos ao intimismo fácil. A personagem apenas deixa-nos conhecer gradualmente, discreta sob o seu perfil, como uma sedução. Somos "fracos" porque cedemos aos encantos desta mesma personagem e da dedicação de Isabelle Huppert em a trazer à "vida". Verhoeven novamente recorre ao seu método quase pornográfico na exploração intrínseca dos seus peões, o resultado é que depois da sedução cumprida somos intrusos na intimidade desta mulher.

 

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Enquanto segue por aí uma fenómeno cinematográfico-literário de Fifty Shades of Grey, onde a mulher é dominada por um homem sob perversões sexuais (apelidando essa vulnerabilidade emocional de "amor", o truque mais barato que pode haver), em Elle, Isabelle Huppert é uma refém dessa perversões, enquanto que, sempre de alguma maneira, tenta resistir a essas ditas fantasias sexuais. Despreocupada, livre, firme e activa, o novo filme de Paul Verhoeven consegue ser o mais recente grito ao papel da Mulher do cinema. Um regresso e "pêras"!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Paul Verhoeven / Int.: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Christian Berkel, Anne Consigny

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 14:11
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20.5.16

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A pintura borrada de Refn!

 

Promovido como um herdeiro do cinema provocatório de Lars Von Trier, o também dinamarquês Nicolas Winding Refn aposta num prolongado concurso de beleza, um universo enxugado de luzes e sons psicadélicos, porém, anoréctico em tudo o resto. É o seu conceito de filme de terror, segundo a ambição do realizador que confronta o espectador com mais outro retrato fascinado pela violência gráfica, visto que a psicologia é somente uma atmosfera dissipante e frágil nestas “ruelas”. Em certos aspectos, The Neon Demon resulta na extensão do moralismo fabulista. Neste caso o já rudimentar debate da beleza (a estética contra tudo o resto), apoiada na visão incandescente e por vezes alucinogénico que Refn alastra neste enésimo “conto” de procura e concretização de sonhos em terras dos “Anjos”.

 

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Neste episódio, seguimos Jesse (uma hipnotizante Elle Fanning), uma adolescente determinada a tornar-se numa modelo, nem que para isso tenha que vender a sua alma a uma entidade faustiana. Até porque no preciso momento em que assina o tão precioso contrato das mãos de Christina Hendrick algo de sobrenatural acontece, um íman inquebrável rodeia a nossa protagonista, um magnetismo que capta novas oportunidades como também novos e mortais inimigos.

 

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Uma bênção, um dom, ou uma inerente maldição? O destino de Jesse converte-se numa luxuosa descida aos infernos, com Nicolas Winding Refn a providenciar ferramentas visuais e sonoras ao serviço de tal tarefa danteana. Cada flash de fotografia ocorrida em Neon Demon é como a palpitação de uma monstruosa criatura se tratasse, uma anormalidade que se revela pouco a pouco mas nunca se desvenda na sua totalidade, como tal o filme parece não cumprir a sua simples premissa.

 

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O que soava como um estilizado produto de terror urbano, colorido sob um holofote néon, cede-se infelizmente à mera masturbação. Uma direcção em redor do seu umbigo, um punhado aleatório de referências que vão desde a Historia Antiga (alusão à trágica condessa Báthory), o cinema tingido de um Mario Bava ou do sucessor, Dario Argento, e até o neo-noir voyeurista de Brian DePalma.

 

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Contudo, é no interior deste festim de espontânea coloração que se esconde a verdadeira "espinha dorsal" deste projecto - o expressionismo alemão. The Neon Demon é um filme absolutamente influenciado por esse movimento; pelos enredos de pactos infernais, pela figura da femme fatal (que floresceu durante o expressionismo, ao contrário do senso comum da expansão do film noir norte-americano) e dos constantes jogos de sombras, aqui cambiados pelos berrantes néones que deixam transparecer as emoções das suas respectivas personagens.

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Uma euforia que resultaria num bem costurado tecido, mas como havia referido, Nicolas Winding Refn cede ao seu pesado ego e deixa cair por terra qualquer indicio de análise estética e psicológica. Provas disso, temos um final à deriva de um grotesco desnecessário, um evidente toque masculino em temática tão feminina e sob o cinismo de uma "improvável" homenagem à mulher do realizador e por fim, uma barafunda de elementos que nos leva aos mais desconcertantes "becos sem saída" narrativos. Depois do subvalorizado Only God Forgives, eis a obra mais desastrosa da sua carreira, um pretensioso exercício a ser distinguido com o título "mas que raio" (!?) do ano.  

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Nicolas Winding Refn / Int.: Elle Fanning, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Jena Malone, Bella Heathcote, Karl Glusman, Abbey Lee, Desmond Harrington

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:46
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Being Xavier Dolan!

 

A difícil arte de ser Xavier Dolan, as complicações geradas por ser aclamado em tenros anos e consecutivamente ao longo da sua, até então, imaculada carreira. Se por um lado, ouvimos constantemente citações de historiadores e outros especialistas cinematográficos de que um "autor, até a obra mais fraca é melhor que tantas de outros realizadores", por outro, através de reflexões sobre o sentimento vivido por este Juste La Fin du Monde, um outro conselho surge ao meu alcance: "quando se gosta de um autor, somos os primeiros a admitir que ele errou".

 

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Porém, antes de começarem com as "pedradas", questiono o seguinte, será correcto considerar o ainda jovem franco-canadiano Xavier Dolan, num autor cinematográfico? Porque não!? Contudo, não é esta a derradeira questão aqui envolvida, aliás, muitos esperam que o nosso "cineastazito" prove de uma vez por todos que é digno desse título (sendo que em Mommy já havia provado que as aclamações precoces não foram um erro). Mas em Juste la Fin du Monde, a recente obra que ganhou mediatismo com os "surpreendentes" apupos na sessão de imprensa de Cannes, existe um claro tom de "auto-estima elevada". Talvez tenha sido esta sensação de "triunfo antes do sabor" que causou o maior choque entre o então adorado Xavier Dolan e os críticos que apelidavam o seu novo trabalho como "desastre artístico".

 

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Adaptação de uma peça teatral de Jean-Luc Lagarde, Juste La Fin du Monde beneficia de um ambiente caótico de procrastinação, enquanto a intriga começa a ganhar forma, desenvolvendo para lado nenhum, dando a sensação de impotência e clara frustração ao espectador. Esta é a história de um escritor homossexual que vai encontro da sua família para anunciar a sua breve morte, visto que é um seropositivo de HIV. A respectiva família, que desconhecia o seu paradeiro e o estilo de vida levado a cabo pelo seu ente querido, tenta o receber da melhor forma possível, mas os assuntos inacabados, que o nosso protagonista deixou para trás, o confrontam.

 

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Sim, Xavier Dolan acerta na "mouche" quanto ao teor a ser invocado neste drama de complexidades familiares, mas o que não anteviu é que por vezes o cinema tem que desligar do palco teatral para assumir a sua vida emancipada. Resultado isso, evidentemente, é um esforço descomunal na caracterização dos seguintes personagens, inseridos num rótulo de morte anunciada, a outra é os desempenhos, prometedores mas "fogo de vista" face a uma claustrofobia descontrolada deste enredo de manutenção de relações afectivas.

 

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Existem demasiadas pontas soltas aqui, obviamente que Dolan não irá resolver tendo em conta o respeito pela obra original, mas falta de extensão, do alinhamento, e da renegação com a artificialidade constrangedora com que tenta transformar drama de 2ª Arte para Sétima Arte, o leva para "becos sem saída" de criatividade intrínseca. Ao menos assumisse tudo como "teatro filmado" como Manoel de Oliveira sempre o fizera. Assim sendo, as personagens parecem "morrer" demasiado cedo, as actuações não se vingam perante tal voluntária barafunda (mesmo que Vincent Cassel, Gaspard Ulliel e Marion Cottilard mereçam destaque) e a técnica (fotografia, por exemplo) entra em conflito com o trabalho de escrita e de coordenação.

 

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E assim chegamos a outra questão, será a obra merecida de a sua devida reavaliação, a revisão por novas audiências? Não nego, cheira-me a filme a ser valorizado daqui a uns valentes anos, mas também não é com esta "fruta podre" do cesto que nos vai fazer desligar do potencial de Dolan. Por isso, que venha esse The Death and Life of John F. Donovan, porque está provado que o fim do mundo não é matéria para o nosso realizador.

 

Filme visualizado no 69ª Festival de Cannes

 

Real.: Xavier Dolan / Int.: Gaspard Ulliel, Lea Seydoux, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard

 

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Mommy (2014)

Tom à la Ferme (2013)

Les Amours Imaginaires (2010)

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 17:30
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A inesperada face de Sean Penn!

 

Por onde devemos começar? Pelo facto de Sean Penn, mesmo sob o pretexto de amor ONG, não conseguir esconder um espírito colonialista de uma África auxiliada pelo Ocidente? Pelo seu activismo politico e social com discursos de bolso sobre a ajuda humanitária aos Refugiados e à pobreza mundial? As boas intenções que não conseguem disfarçar o baratismo sentimental como dispositivo de comoção direccionado ao público das mesmas notícias de telejornais? Pelo enésimo branqueamento, literalmente falando, de uma África cinematográfica e problemática? Ou pelos diálogos incrivelmente bacocos e deslavados perante tanta "pirosidade"?

 

Sim, The Last Face é algo indescritível, o cinema volta a mostrar que pouco sabe de África para além dos estabelecidos lugares-comuns da eterna consciência branca. Sean Penn, defraudado com o seu "high moral ground", convencido que as boas intenções pagam a passagem ao barqueiro, incute um romance desproporcional tal como acontecera anos antes em Beyond Borders (Martin Campbell, 2003), onde Angelina Jolie e Clive Owen apaixonam-se para além das barreiras. Este não é o Penn que conhecemos, o realizador de Into the Wild, é antes um orador de um discurso activista com mais chance de irritar do que propriamente "mudar o mundo".

 

Uma colecção de "porverty porn" e de desgraças com mais noção hollywoodesca do que propriamente a criação de uma crítica / denúncia social. Nesse sentido, Beasts of No Nation é mais directo, sem a necessidade de condimentos românticos nem personagens ocidentais como atractivos de marketing. Até porque a África actual está longe do romantismo colonial de outrora, daquela "fantasia exótica" que os portugueses tanto adoram invocar nos seus filmes de época (Cartas da Guerra, Tabu, Costa dos Murmúrios). Isto é um assunto sério, a nível global, como também é desprezado por essa mesma escala. Tal como a canção colectiva "we are the world, we are the children", o mundo não muda com cantigas. O paternalismo hippie -  make love, not war -  aludido à primeira legenda deste filme, prevê o fracasso de todo o tamanho que este The Last Face iria se tornar.

 

Nem mesmo Javier Bardem e Charlize Theron safam-se a este grave atentado, a este Sean Penn "bêbado" que se julga Terrence Malick em causas humanitárias. Falando em atentados, ver a "promissora" actriz Adéle Exarchopoulos, presente no elenco só como garantia de co-produção, é o equivalente a esfaquear o meu coração com uma faca de manteiga. Matem-me, por favor!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Sean Penn / Int.: Charlize Theron, Javier Bardem, Adèle Exarchopoulos, Jean Reno, Jared Harris

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 13:45
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19.5.16

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Cristian Mungiu coloca a sua graduação fílmica em prática!

 

Bacalaureat (O Exame) é indiscutivelmente um filme de Cristian Mungiu, nota-se a "léguas", desde o seu vincando realismo inserido em longos takes até ao gradual desafio em que as suas personagens são submetidas nas mais drásticas situações, passando por uma atmosfera rodeada por fantasmas oriundos dos tempos de Ceauseascu.

 

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O realizador romeno, um dos braços fortes da sua Vaga Cinematográfica que tido cada vez mais presença nos festivais mundiais, é um homem sob um constante olhar para a condição humana, o encarando como um entusiasmante retrato da vida mundana. Os seus "heróis" não são mais que meros mortais, prevalecidos por seus actos involuntários e pela natureza que os rodeia e que os obriga a camuflar. Neste mesmo Cinema, não existe maniqueísmo, somente personagens sem passado definido e muito mais, sem futuro à vista do espectador.

 

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Em O Exame, o retrato segue ao encontro dos limites da paternidade, da educação que damos aos nossos "rebentos", o mundo idealizado que queremos os inserir. Porém, a realidade é mais violenta e "suja" que essa mesma idealização, e a inadaptação é o que espera a esta geração iludida. A jornada de um pai para preservar o futuro pretendido para a sua filha, o leva para os cantos mais obscuros e psicanalistas da consciência moral. Aliás, não existe o certo nem o errado, somente escolhas, aquelas decisões que agimos sem pensar em um momento que seja. Será a corrupção uma característica mais que natural do ser humano do que a imagem que o moralismo social nos quer fazer acreditar?

 

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Cristian Mungiu consegue um forte drama ambíguo, envolvido numa melancolia cautelosa, até porque esta Roménia ainda é conduzida por espectros, as vivências de tempos negros, aquela "prometida" Idade do Ouro. Como veiculo emocional (ou não) deste O Exame, está Adrian Titieni, uma das caras mais reconhecidas do cinema romeno recente, o qual tem vindo a provar estofo para exercer o papel de anti-herói em sociedades replicadas à nossa. Não sendo a melhor obra da Cristian Mungiu, este é um filme certamente para ver e reflectir, sem a imperatividade do sentimento manipulado.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Cristian Mungiu / Int.: Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus, Rares Andrici

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 20:00
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18.5.16

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O fantástico não mora aqui!

 

Automaticamente encontramos em Captain Fantastic, a segunda longa-metragem de Matt Ross, um ensaio comparativo com a pouca ortodoxa obra de Yorgos Lanthimos, Canino, o qual se depara com uma distopia induzida, o como distorcer e controlar o nosso quotidiano, o mundo que olhamos e idealizamos regendo a essas ideias implementadas por órgãos superiores. Enquanto que o grego levava essa vertente para uma alegoria de caverna de Platão, em Captain Fantastic a situação declara-se inicialmente como um "grito de guerra" aos costumes ocidentalizados.

 

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Viggo Mortensen é esse "fantástico líder", um homem eremita que se refugia nos densos bosques americanos, dependendo do seu instinto e intelecto para sobreviver (pronto e uma "ajudinha" a nível de segurança social, pormenores, enfim). Em acréscimo, ele é um pai de 6 crias, o qual educa segundo as suas revolucionárias ideologias, promessas feitas para a sua falecida mulher, juras de uma impotente tendência de "mudar o Mundo" da sua própria formatação. Pois bem, até certo caminho, esta "estranheza" nada nova de Captain Fantastic conquista-nos com a sua crítica social, ingénua é certo, mas constantemente desafiadora da "perfeita comunidade" que se dá pelo nome de EUA.

 

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Neste percurso, previsivelmente anexado a mais uma road trip (como o cinema norte-americano independente adora viagens pela estrada fora), os alvos são muitos, desde a educação escolar (ou a insuficiência desta) até ao entranhar religioso nos nossos dias (a magnífica ideia de Ben substituir o Natal pelo dia de Noam Chomsky), passando pela falta de senso crítico individualista. Até determinado ponto, Captain Fantastic sabe "puxar" os fios de forma correcta, porém, estamos a falar de um obra de vertente indie, daquela classe que adequadamente figuraria num Festival de Sundance (na verdade o filme chegou mesmo a estrear no dito festival norte-americano), ou seja, tudo acaba por recorrer ao território moralista, mais do que o suposto intimismo.

 

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Quando o macguffin do filme revela-se numa família atípica a lutar para dar à falecida mãe e mulher um funeral digno às suas "crenças", entra em cena uns supostos antagonistas, os sogros de Ben (interpretados por Frank Langella e Ann Dowd), fervorosos religiosos e de frutíferas posses. A partir deste momento, Matt Ross tenta encontrar um "meio termo" entre o modo de vida pouco ortodoxa levado a cabo pelo protagonista e dos costumes "normais" de uma cultura ocidentalizada deste par de personagens. Falha a crítica, a perspectiva, a ousadia de transgredir o pensamento comum e por fim, a queda para o registo coming-to-maturity.

 

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Captain Fantastic, alusão ao energético álbum de Elton John (Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy), sobrevive graças a uma ideia, a uma sugestão que não é levada avante em derivação do politicamente correcto que afronta os nossos dias, sem percebemos que essa atitude de não ferir susceptibilidades converte-se na sua maior ofensa. No final é isto, um filme cobarde apenas erguido com a força do seu protagonista. Pois bem, Viggo Mortensen é verdadeiramente o "fantástico" do título. Graças a Noam Chomsky!  

 

Filme visualizado na secção Un Certain Regard do 69º Festival de Cannes

 

Real.: Matt Ross / Int.: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Frank Langella, Ann Dowd, Steve Zahn, Missi Pyle

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 00:56
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17.5.16
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O cinema brasileiro sob signo aquário!

 

Aquarius responde-nos com exatidão às nossas mesmas expectativas. Derivada à situação actual da politica brasileira, o "impeachment", o golpe de estado, é possível fazer leituras desse género neste grande regresso de Sónia Braga ao cinema. Mas vamos por partes.

 

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Clara (Braga) é uma jornalista e escritora conceituada que vive no apartamento que a viu nascer e crescer, situado no outrora grandioso Edifício Aquarius. Porém, ela é a última habitante dessa estrutura visto que todos os outros foram aliciados e persuadidos por uma construtora com planos para o mesmo edifício. Mas Clara é "sangue-quente", temendo deixar para trás todo um conjunto de memórias vividas naquele mesmo local, mesmo sendo pressionada pela construtora, ela resiste e insurge-se contra os mesmos naquele "edifício-fantasma".

 

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Em Aquarius existe um forte sentimento de que algo antagónico, uma catástrofe, está iminente. Kleber Mendoça Filho desfruta das mais variadas nuances de diferentes géneros para germinar o seu "aquário", uma metáfora evidente sobre a corrupção e o envolvimento furtivo dos lobbies na sociedade que não restringe à mera canção do "coitadinho", nem ao agora vendido registo do "favela movie". O filme cénicamente é interligado com o anterior Som ao Redor, onde o pano de fundo ganha imersão nas suas personagens; aqui, o edifício abandonado - e por vezes "abalroado" por forças amorais e corrompidas (existem sim ataques à indústria pornográfica, o jogo de "favores" e até mesmo à "infestação" do evangelismo como golpe dominador politico) - adquire a relevância de uma personagem. Sónia Braga complementa esse ambiente "vivo", tornando-se na alma de um ser inanimado, que alma é esta?

 

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Mas por detrás desta Clara, a já maior heroína do cinema brasileiro, existe um "grande homem", Kleber Mendonça Filho, que injecta nesta viagem repartida em três capítulos uma subversiva carga política. A acidez da crítica poderá ser comparada com a mera metáfora. Aliás, são estas alusões que nos sentimos seguros face a eventuais propagandas, até porque Mendonça Filho sabe difundir uma mensagem, sem a utilização do óbvio, nem sequer de cair nos devaneios do onírico. Essa frontalidade, nada inquisidora, encontra-se no próprio espaço de Clara, como é evidente na sua sala em determinada cena, onde o filme acumula tamanhas "provocações" ao Brasil "politicamente correcto" que muitas entidades desejam construir. Entre a invocação, sem raiz aparente, surge a menção da homossexualidade, a amamentação (um acto completamente natural que tem sido atacado como um atentado ao pudor) e ainda a limpeza de bebés (uma rara imagem de cinema realista), que fundidos tornam num quadro de sacrilégio para esta cultural tão moralista, este "aquário" social estabelecido.

 

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Aquarius é tudo num só, menos um "filme" no seu sentido mais simplista. É uma força de expressão filmada em estado de fúria, mas cuja cólera é registada com sapiência. Ao mesmo tempo é uma "mensagem numa garrafa", uma obra para perdurar para futuras gerações, assim como a cómoda que acompanhou todo uma árvore geracional de Clara. Um retrato subliminar do estado brasileiro que por sua vez conserva a riqueza da cultura de Recife e imortaliza Sónia Braga como a maior das divas do Brasil. Será muito cedo para falar em obra-prima? Muito bem, arrisco em declará-lo como tal. Que venha então a primeira pedra.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Kléber Mendonça Filho / Int.: Sonia Braga, Humberto Carrão, Julia Bernat, Paula De Renor

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 21:43
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17.5.16

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Este não é o Pedro que eu conheço!

 

Tudo indica que Pedro Almodóvar encontra-se incapaz de recuperar o seu estatuto após o malfadado Los Amantes Passajeros, aquele que seria o seu regresso à tragicomédia resultou numa espécie de caricatura de si mesmo. Com Julieta, anteriormente apelidado de Silêncio, e cuja alteração se deveu à futura produção de Martin Scorsese, tinha tudo para recolocar o cineasta espanhol no mapa, ainda mais com a presença do filme na tão desejada Competição de Cannes. A pressão era realmente insuportável, o escândalo dos Papéis do Panamá que trouxeram às manchetes jornalísticas o nome de Almodóvar, e ainda mais a acumulação de repudia que os cinéfilos do seu país têm ultimamente suscistado.

 

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Infelizmente, Julieta funcionou como uma promessa. O resultado, esse, está muito longe das juras de "Pedrito", até porque o seu toque Midas que tão bem se sentiu em obras como Todo sobre Mi Madre e Hable con Ella, está há muito desaparecido. Temos sim o Almodóvar assumidamente clássico, mas temos simultaneamente um homem cansado, pouco inventivo e "encalhado" num universo que prometia ter deixado durante a estreia de La Piel que Habito. Aqui, Julieta é uma personagem dividida entre duas fases temporais narradas através de flashbacks e de diários "bressianos". Deparamos então com a sua juventude (Adriana Ugarte), o período que vive um romance com um pescador e cuja relação gera uma filha, e 25 anos mais tarde, quando se transforma numa mulher envelhecida (Emma Suárez, Tierra), determinada a esquecer os seus mais atormentados fantasmas.

 

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É a revisão narrativa de La Mala Educación consolidando a subtileza de Los Abrazos Rotos, porém, algo realmente falhou em todo este desenvolvimento. De salientar a sua estética presa aos parâmetros televisivos e a fraca aptidão na construção de personagens sólidas e fora dos esboços "almodoverianos" o qual parecem tomar. A sua coloração dá ainda a Julieta uma tendência de masturbação burguesa, até porque esta é a Espanha dos pseudo-cultos, dos sonhos retomados e encarados com imersivo optimismo e da austeridade como fruto fantástico de outros tempos. Tudo indica que esta longitude para uma Espanha real faça que os seus conterrâneos troçem de um dos mais mundialmente famosos realizadores do seu país.

 

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Mas é bem verdade que não existe a necessidade de acorrentar-se ao realismo e esquivar qualquer hipótese de romantismo cinematográfico, nada disso. O pior é quando Pedro Almodóvar prefere fazer telenovelas estampadas em grandes telas, do que propriamente Cinema. O dramalhão trágico sem rigor e com um malabarismo escavacado. Um fracasso!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Pedro Almodóvar / Int.: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Darío Grandinetti

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 21:27
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Como é (des)encantado este bosque!

 

Paulo Branco convida-nos a entrar neste La Forêt de Quinconces (Bosque dos Quincóncios), apostando em Grégoire Leprince Ringuet como um imerso talento do cinema mais autoral. Protagonizado pelo jovem realizador, este é, um romance pouco convencional que se vai gradualmente afastando do realismo que o mesmo inicialmente arranca.

 

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A separação violenta de um namoro prolongado anos a fio, o desespero que aproxima o nosso protagonista aos efeitos do conto de fadas e das maldições folclóricas. Envolvendo-se em pedantismo reflexivos quanto à natureza dos seus gestos e as consequências que seguem à deriva das suas decisões. É o cinema que folga os lugares-comuns do realismo formal e segue avante para um território povoado por outros autores, porém, maduros, como é o caso de Christopher Honoré (uma evidente referência neste musical tragicómico). Mas comparar o inexperiente Ringuet a Honoré é quase visto como um sacrilégio. É preciso muita "fruta" para os colocar lado a lado, principalmente na segurança em conduzir este universo nada palpável.

 

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Bosque dos Quincóncios peca por isso, pela insegurança, pelo sufoco de uma réstia de talento que poderia germinar neste mesmo mato. A genialidade não são meras faíscas provocadas pela fricção do enredo e dos conhecimentos cinematográficos que Ringuet parece por em prática (entre as quais uma vibrante sequência a musical a marcar espaços entre as melhores selecções do cinema recente).

 

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As interpretações são, também elas, meras variáveis. O nosso jovem é nervoso quer na direcção, quer em ser dirigido … pelo próprio, obviamente. Por fim, existe um certo snobismo algo presunçoso que nos faz estremecer, querendo encontrar a saída deste mesmo bosque, olhando para trás, na busca de possível vislumbre que remeta-nos à luz autoral. Se Grégoire Leprince Ringuet será, ou não, um nome a ter conta neste mesmo universo cinematográfico, só o tempo dirá. Mas a previsão após este filme-maçarico são de variabilidades baixas.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Grégoire Leprince Ringuet / Int.: Grégoire Leprince-Ringuet, Pauline Caupenne, Amandine Truffy

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:24
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2013:

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Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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