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26.11.16

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Chatear-me-ia Morrer tão Joveeeeeeem…, de Filipe Abranches, conquista o Grande Prémio do Festival Caminhos do Cinema Português, que segundo a organização, foi escolhido por unanimidade pelo júri da Selecção Oficial. Entretanto, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, foi consagrado a Melhor Longa-Metragem do certame, tendo ainda conquistado a distinção de Melhor Argumento Adaptado, Melhor Som, Melhor Montagem e Melhor Fotografia.

 

Quanto aos desempenhos, o filme Zeus, de Paulo Filipe Monteiro, arrecada duas distinções, a de Melhor Actor (Sinde Filipe) e Melhor Actor Secundário (Miguel Cunha). A de Melhor Actriz foi atribuída a Ana Padrão pelo seu desempenho no filme Campo de Víboras, e de Melhor Actriz Secundária para Elizabete Piecho por O Pecado de Quem nos Ama.

 

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Para além das interpretações, Zeus recebe os prémios de Melhor Caracterização e Melhor Guarda-Roupa. Rita Azevedo Gomes vê-se consagrada como Melhor Realizador, graças ao seu trabalho em Correspondências, ensaio visual baseado nas cartas trocadas entre Jorge Sena e Sophia Mello Breyner. O Melhor Argumento Original segue para John From, de João Nicolau, e o filme de abertura, Refrigerantes e Canções de Amor, laureado com as distinções de Melhor Banda Sonora Original e de Melhor Direcção Artística.

 

Como revelação temos A Balada dos Batráquios, de Leonor Teles, a curta-metragem distinguida no passado Festival de Berlim. José Miguel Ribeiro consegue o Prémio de Melhor Animação com o seu Estilhaços e o do Melhor Documentário seguiu para El Dorado, de Rui Eduardo Abreu, que tem como temática a emigração. Este último ainda teve como consagração Prémio Imprensa, a menção ficou-se por A um Mar de Distância, de Pedro Magano.

 

Destaque ainda para Melhor Curta-Metragem, Campo de Víboras, de Cristele Alves Meiram foi o premiado, enquanto que Menina, de Simão Cayatte, ficou-se pela menção. Por último, Pronto, era Assim, de Patrícia Rodrigues e Joana Nogueira recebe o Prémio de Ensaio Nacional SP Televisão e Emily Must Wait, de Christian Wittmoser, foi considerado Melhor Ensaio Internacional FNAC.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:07
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19.11.16

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Arranca hoje (dia 19 de Novembro) os XXII Caminhos Film Festival, mais uma edição do festival de matriz universitária com especial dedicação ao Cinema Português, porém, não será só de produções lusas estruturará na totalidade esta selecção oficial. Os principais focos serão o Cinema Catalão, uma "colheita" que contou com o apoio da Academia do Cinema Catalã (Catalan Film Academy), em comemoração dos Prémios Gaudí, e os filmes do Mundo.

 

A sessão de abertura terá lugar no Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, pelas 21h45, com a exibição de curtas-metragens como a produção Banho de Paragem, criado no âmbito do curso de cinema ‘Cinemalogia’, a animação #Lingo, de Vicente Niro e ainda a longa-metragem de Luís Galvão Teles, Refrigerantes e Canções de Amor, com Ivo Canelas e Victoria Guerra a protagonizar um enredo escrito por Nuno Markl.

 

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No total teremos mais de 78 filmes a compor esta Selecção Oficial, uma mostra das principais produções nacionais do nosso panorama cinematográfico actual, incluindo algumas revelações que se espera ascender após o festival.  

 

Teremos ainda a exposição “Retratos da Academia Portuguesa”, com o apoio da própria Academia Portuguesa de Cinema, onde o fotografo José Pinto Ribeiro captou alguns dos principais rostos do Cinema Português nas últimas décadas. E ainda a abertura da 6ª Cinemalogia, com especial atenção ao tema 'Crítica de Cinema', com o crítico João Lopes a falar aos alunos sobre a importância da visão crítica na Sétima Arte.

 

XXII Caminhos Film Festival prolongará até dia 26 de Novembro no Teatro Académico Gil Vicente, assim como reposições no NOS do Alma Shopping.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:20
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1.9.16

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Tudo começou com correspondência. As cartas escritas pelo jovem alferes António Lobo Antunes para a sua primeira mulher, tornaram-se com o passar dos anos mais do que um romance de longa-distância, num olhar intimista e desesperante duma realidade deslocada, porém, certa para muitos dos jovens portugueses de 68. As Cartas da Guerra ganharam notoriedade como livro, desvendando um escritor em busca de si mesmo no mais austero dos cenários, agora é convertido num filme com tamanha dimensão politica e sobretudo existencialista. Ivo Ferreira foi o mentor deste bélico português onde a verdadeira guerra reside no interior de cada ser. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre a sua terceira longa-metragem, um "parto" difícil que resultou num filme impar da nossa cinematografia.

 

 

Gostaria antes de mais, perguntar o porquê de António Lobo Antunes e o porquê deste livro concretamente?

 

 

O porquê deste livro? Bem, porque quando o li tive a consciência que estava perante de material fortíssimo, quer em termos históricos (é em todo o caso um documento), topográficos, estamos a falar de um melhores escritores de sempre da Língua Portuguesa … e do Mundo, e é composto por uma magnifica história de amor. Não consigo responder exactamente o porquê de António Lobo Antunes e deste mesmo livro, mas é fantástico este acumular de cartas, organizadas pelas suas filhas, tende em conta que eram cartas guardadas pelo autor enquanto alferes miliciano. Cartas que trocava com a sua mulher, que na altura estava grávida da primeira filha. Ainda mais fantástico é a forma como ele olha e descreve as pessoas em seu redor, esses homens que estão a sair do seu país, "empurrados" totalmente para aquela guerra absurda e fora de tempo. 

 

Fala-se de complicações na produção. O filme demorou bastante tempo a ser concretizado, por algum motivo?

 

Houve complicações porque o Estado faliu e o ICA não tinha dinheiro. Época, Guerra e África são três componentes que afastam qualquer produtor entusiasmado, e quando começou-se a construir a parte financeira do projecto, a parte portuguesa não estava concretizada, isso não só bloqueou o filme, como também repugnou a tentativa de co-produção. Porque Cartas da Guerra era por si um filme com interesse em ser internacionalizado. Mais tarde quando veio o dinheiro tivemos a consciência que se íamos filmar em África iríamos gastar todo o dinheiro do "bolo", logo na rodagem. Estávamos todos falidos, então lancei-me numa jogada arriscada - e se eu terminar o filme?

 

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Um facto é que iniciamos a rodagem em Abril, começamos a montar de imediato, fomos a Veneza, pelo qual fomos seleccionados pelo European Gap-Financing Market para participamos num fórum, e em dois dias conseguimos financiamento para o resto do filme. O filme demorou muito tempo, sim, mas não foi porque andamos a "empatar", não sei se é recorde mundial, mas desde o momento em que começou a rodagem até à Competição em Berlim, foi bastante rápido.

 

Em Berlim, Cartas da Guerra foi constantemente apontado como um dos potenciais candidatos ao Urso de Ouro. Como se sentiu perante tais aclamações?

 

Só facto de estar em competição num dos melhores festivais do Mundo já é fantástico, não com isto seja falta de ambição mas é por si um motivo para estar satisfeito com o filme.

 

É verdade que os actores foram submetidos a uma "recruta de preparação"?

 

 

Algo que temos que ter em conta, visto que vamos ter actores a desempenhar soldados num cenário de Guerra, é garantir que os actores tenham ou conheçam formação militar. Muitos dos actores já nem se lembravam dos seus tempos militares, outros nem sequer foram à tropa, então teria que haver rigor nesta encenação. Os actores teriam que, por exemplo, saber como pegar uma arma ou até mesmo subir um Unimog [designação de uma série de caminhões off-road produzida pela Mercedes-Benz, utilizados sobretudo em serviço militar]. Aliás, as primeiras imagens dos nossos actores fardados e munidos com a G3 a tentarem subir pela primeira vez um Unimog, era realmente um filme muito cómico. Eles também teriam que experienciar a "pressão", nesse aspecto os Comandos foram "simpáticos", não para os recrutas como é óbvio, porque era preciso que eles sentissem a violência, quer física e psicológica, como preparação para uma eventual guerra.

 

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As Forças Armadas Portuguesas tiveram um importante papel na rodagem do filme?

 

Sim, portuguesas como também angolanas. Tivemos sobretudo um apoio imenso das Forças Armadas Angolanas. Esta ajuda não foi preciosa, nem dispensável, foi completamente impossível fazer este filme sem o apoio deles. Eles proporcionaram-nos tudo, desde logística a armamento. Falamos também em helicópteros, Unimog, Kamazes que foram emprestados pelo exército para transportar mais de 40 toneladas de material para a construção do aquartelamento. Nós construímos aquilo do meio do nada, tivemos até que reconstruir a ponte que dava acesso ao aquartelamento.

 

No fundo, o Ivo Ferreira filmou um filme de guerra, cuja guerra está ausente.

 

Ausente no pensamento deles. Aquilo é uma guerra pouco convencional, é a guerra do "toque e foge", os aquartelamentos estavam perdidos no meio do nada, supostamente eram posições estratégicas, uma estratégia um pouco questionável portanto, eles estavam a tentar defender a Zâmbia. Aquilo é que era o quotidiano daqueles soldados, o afastamento, o isolamento, era essas as verdadeiras guerra daqueles homens. No filme, os inimigos são eles próprios. 

 

Em determinada cena, enquanto os soldados se limpam numa casa de banho de campanha é possível visualizar um retrato de Salazar numa pia. Tal imagem é uma provocação ou somente uma demonstração do desgaste psicológico e da consciência politica destes homens após meses no aquartelamento?

 

Os soldados estavam a viver uma altura difícil. Encontravam-se a lutar numa guerra moribunda, uma guerra falida, uma guerra "estúpida" fora de época, simplesmente porque a ditadura não permitiu uma fácil descolonização. Aliás, em 68 (o ano em que decorre o filme) não havia qualquer motivo para persistir em colónias, a Guerra da Argélia já terminou há anos.  Essa imagem só esclarece a segunda fase desta estadia, o facto dos soldados encararem o fascismo, essa ditadura, como o verdadeiro inimigo. Obviamente que mais para a frente o inimigo acaba por ser eles próprios, ou seja, o pensamento deles passa a ser "e se sobrevivermos". 

 

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Uma natureza entre os soldados, algo que está descrito no filme, é que estes sonham regressas à vida civil, porém, não sabem concretamente o que fazer com esse retorno.

 

 

O que sei, é que os suicídios ocorridos durante esse período, não aconteciam durante a Guerra propriamente dita, mas sim, no regresso a casa. Estes aconteciam antes de voltarem a Portugal, derivado ao facto deles terem mudado tanto, mas tanto, que não sabiam mais como receber a dita "vida normal". Por isso sim, esse é o grande drama da personagem principal.

 

Mas nesse drama é também acrescentado, como refere o próprio Lobo Antunes, com um aparecimento de uma consciência politica.

 

 

Sim, ele próprio diz isso nas suas cartas: "O meu instinto conservador e comodista tem evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não posso continuar a viver como o tenho feito até aqui.” Essa consciência politica também foi alimentada com o constante contacto com um Capitão, que foi o Capitão Ernesto Melo Antunes, que no filme é o seu parceiro de xadrez.

 

Quanto a novos projectos?

 

Vou começar a filmar uma nova longa ainda este ano, na China-Macau, intitulado de "Hotel Império", uma co-produção portuguesa com actores portugueses e chineses.

 

Também, estou a preparar um outro trabalho, um filme pesado com um orçamento de igual adjectivo, sobre um tema idêntico a este da Guerra Colonial. Este filme, que terá data para 2018, será sobre as FP25, as Forças Populares 25 de Abril, uma organização terrorista portuguesa.

 

Perguntam-me constantemente, "mas para quê? Se os que lá tiveram, os que viveram isso não querem falar sobre o assunto, porque raio você quer ?"

 

Como nasceu essa necessidade de falar daquilo que ninguém quer falar? Acredita que temas como este [Guerra Colonial] devem ser abordados para as novas gerações, por exemplo?

 

 

Sou fascinado por buracos negros, baús fechados e quartos privados e se sinto que há um assunto interdito, tabu, quero mais que tudo "falar" sobre ele. É muito estranho como é que na nossa História recente, os nossos livros de História passam do Estado Novo com duas ou três imagens, tocamos na Guerra Colonial com duas ou três linhas, passamos por uns indivíduos com cravos nas mãos e pronto chegamos a uma bandeira azul e umas estrelas. É estranho como uma tragédia do século XX não é falada, nem estudada. Claro, é olhando o passado que poderemos preparar o futuro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:40
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24.8.16

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Mais uma pólvora que não arde no cinema português!

 

Esta é a história de Lucas Mateus (Ivo Canelas), um músico de carreira falhada que entra em depressão após descobrir que a sua namorada o traía com o seu melhor amigo, Pedro (João Tempera), que ao contrário do protagonista é um músico com uma carreira bem sucedida. Com as desilusões que se vão acumulando na sua vida, Lucas desesperadamente entra num ciclo vicioso de “carrologia”, uma arte de engate em que consiste “estudar” o conteúdo dos carrinhos de supermercado. É durante essa “caça a mulheres” que Lucas reencontra a ao conhecer uma estranha rapariga, cuja principal particularidade é de viver dentro de um fato de dinossauro cor-de-rosa.

 

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Na teoria, Refrigerantes e Canções de Amor soa como uma variação de criatividade “Sundance style”, mas o pior é quando chegamos realmente à prática, e aí sim, é onde “a dinossaura torce o rabo”. Escrito pelo humorista Nuno Markl, esta é uma comédia de ideias, porém, mal executadas em derivação de um malabarismo de tons, de uma realização ausente de frescura, por um overacting conformado por muitas das suas estrelas e por um timing incorrectamente aplicado.

 

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Devo dizer que esta obra tem de tudo para funcionar com um case study, exibido em qualquer aula de preparação para estudantes de cinema nos termos do que se “deve ou não deve fazer”. Verdadeiramente triste que isso aconteça, até porque no leme deste projecto está o veterano Luís Galvão Teles, que ainda este ano presenteou-nos com a louvada tentativa de Gelo, um filme de ficção cientifica que não envergonha ninguém. Infelizmente é na sua direcção que encontramos a “faca de dois gumes” deste Refrigerantes e Canções de Amor, se por um lado a realização de Galvão Teles afasta-nos da usual linguagem televisiva que empesta as produções comerciais (*cof* O Pátio das Cantigas *cof*), é nele que encontramos o desleixo total, confirmado no patético climax, onde não existe qualquer noção espacial e até temporal.

 

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Sim, meus caros, Refrigerantes e Canções de Amor é um produto falhado, sem amor nem carinho, despachado e dilacerado precocemente. Algo bom nisto tudo é Victoria Guerra, que mesmo deixada à sua mercê no interior de um fato de dinossauro rosa, consegue graciosamente contagiar-nos com o seu talento. Aliás é nela que encontramos o termo de requisitada interpretação, onde os gestos e a voz valem mais que muitas expressões faciais.

 

Real.: Luís Galvão Teles / Int.: Ivo Canelas, Lúcia Moniz, Victória Guerra, João Tempera, Sérgio Godinho, Jorge Palma, Margarida Moreira, Marina Albuquerque, Ruy de Carvalho, Gregório Duvivier

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 14:55
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15.5.16

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Era uma vez no … Pico!

 

Três desconhecidos cercam uma isolada casa do Pico (Açores), aguardando pela vinda do seu habitante. O objectivo da espera deste trio - que se conheceram através de casualidades - diverge; um espera somente por dinheiro, outro por vingança e o último por compaixão. Não estava predestinado este dito climax, até porque não foi o destino que juntou estas três caricatas figuras, mas sim um complexo conjunto de acasos que apenas evidenciam que a última obra de Luís Filipe Rocha, Cinzento e Negro, foi "montado" através de ideias dispares.

 

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A segunda colaboração do realizador de A Outra Margem com o actor Filipe Duarte é um misto de western com neo-noir que divaga pela mais antiga das Histórias do Cinema: o golpe e a evasão. As claras alusões às tragédias gregas, nomeadamente ao clássico de Homero, A Odisseia, encontram-se perceptíveis na utilização deste cenário remoto, que quase chama pelos mais longínquos marinheiros e aventureiros. Porém, este Cinzento e Negro ao contrário da ambiguidade que o título parece indiciar é um exemplo afável de ingenuidade no cinema português.

 

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A moralidade, felizmente, é dissipada em qualquer ato, mas o modo como caminha para esse suposto lado negro é de uma construção narrativa débil, onde os amontoados segredos das suas personagens, as suas origens e destinos, um dos ingredientes apostados pelo realizador, estão longe de captar a curiosidade do espectador. Este é um dos exemplos que não adequa à expressão "a curiosidade matou o gato".

 

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Todavia, a fotografia de André Szankowski é uma agradável surpresa, trazendo consigo, principalmente no último tomo, um Pico indomável e intocável pela "mão humana", mesmo que a casa esteja presente no dito "quadro". Os desempenhos são outras valias, não ousando em transgredir as personagens. O indicado foi somente preenchem com rigor estes peões pitorescos, que tal como no filme de Sérgio Leone, Aconteceu no Oeste, posicionam-se para "dançar" com os seus íntimos conflitos.

 

Real.: Luís Filipe Rocha / Int.: Joana Bárcia, Filipe Duarte, Miguel Borges, Monica Calle

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:58
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Os Trópicos, aqui ao lado!

 

"Bom dia, Paulo Rodrigues". O cinema tem a tendência de se apaixonar no Verão como fosse uma consolidação com uma juventude perdida, até porque a velhinha sétima arte já caminha para fora dos 120 anos de longevidade. Contudo, contrariando o vórtice de cinema para adolescentes que a indústria parece manter ligar-se a todo o custo, em John From, a segunda longa-metragem de João Nicolau (A Espada e a Rosa), somos induzidos a uma brisa de sentimentos quase proustianos. É sim um filme de adolescentes, mas a motivação é mais adulta que a própria inconsequência atribuída a esse cinema de nichos alargados.

 

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John From é sobretudo um olhar à jovialidade como algo exótico, longínquo e distante do nosso meridiano. Para tal, João Nicolau incutiu no seu próprio bairro (Telheiras) uma metáfora prolongada e sensorial, onde o amor de verão de uma adolescente altera por completo o seu redor. Mas tal premissa é seguida palavra a palavra, a conversão de um mundo onírico que espelha num quotidiano acorrentado por um tédio, a Melanésia orientada como um estado de espírito. Sim, é um romance de "teenagers" incompreendidos, daqueles amores impossíveis que tão bem poderiam ser imaginados por um Shakespeare, mas não, é um exercício visual, modesto e simples, onde Nicolau volta a evidenciar o seu fascínio pela natureza, pelo estado selvagem indomável e sobretudo pela metamorfose quase cíclica incutida na sua própria definição de "coming-of-age".

 

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É um conjunto de rituais que preenchem um filme tão misterioso, onde a névoa desse misticismo apropriado não chega a transcender para fora do ecrã. Aliás, esse niilismo em consenso com o seu simplismo indiciam uma obra que tinha tudo para prevalecer, mas falta-lhe aquele "ingrediente" que teima em não existir em muito do cinema autoral português. No entanto, o mero exercício é alcançado. John From é acessível sem ser gratuito.

 

Real.: João Nicolau / Int.: Luísa Cruz, António Fonseca, Adriano Luz, Leonor Silveira

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 09:03
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5.12.15

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Irmãos, o documentário de Pedro Magano sobre as romarias quaresmais da ilha de São Miguel foi o vencedor do Grande Prémio do Festival Caminhos do Cinema Português, que decorre em Coimbra desde o dia 27 de Novembro. Entretanto, Yvone Kane [ler crítica], de Margarida Cardoso [ler entrevista], foi consagrado a Melhor Longa-Metragem do certame e Gipsofilia, de Margarida Leitão, que recentemente recebeu um Prémio Especial de Júri no último Festival de Turim, foi considerado o Melhor Documentário.

 

Miguel Gomes recebe o Prémio de Melhor Realizador pela sua trilogia As Mil e Uma Noites, Filipe Duarte sai consagrado como Melhor Actor no novo filme de Luís Filipe Rocha, Cinzento e Negro (também vitorioso na categoria de Melhor Banda Sonora), Beatriz Batarda é a Melhor Actriz em Yvone Kane, Luísa Cruz em As Mil e uma Noites e Carloto Cotta em Montanha, de João Salaviza, venceu nas secções Secundárias.

 

Destaque para o documentário-testemunho João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei [ler crítica], de Manuel Mozos, que foi laureado Prémio Júri de Imprensa.

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Grande Prémio do Festival

Irmãos, de Pedro Magano


Melhor Longa-Metragem

Yvone Kane

 
Melhor Documentário

Gipsofilia

 
Melhor Curta-Metragem

A Última Árvore Analógica, de Jorge Pelicano


Melhor Animação

Que Dia é Hoje, do Colectivo Fotograma 24


Melhor Realizador

Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites


Melhor Actor

Filipe Duarte, Cinzento e Negro


Melhor Actriz

Beatriz Batarda, Yvone Kane


Melhor Actor Secundário

Carloto Cotta, Montanha


Melhor Actriz Secundária

Luísa Cruz, As Mil e Uma Noites


Melhor Argumento Original

Miguel Gomes, Mariana Ricardo e Telmo Churro, As Mil e Uma Noites

 
Melhor Argumento Adaptado

Miguel Gomes, Mariana Ricardo e Telmo Churro, As Mil e Uma Noites

 
Melhor Montagem

Ricardo Teixeira, Irmãos


Melhor Fotografia

João Ribeiro, Yvone Kane


Melhor Música Original

Mário Laginha, Cinzento e Negro


Melhor Direcção Artística

Ana Vaz, Yvone Kane


Melhor Guarda Roupa

Isabel Quadros, Capitão Falcão


Melhor Caracterização

João Rapaz, Arcana


Melhor Som

Hugo Leitão, Portugal - Um Dia de Cada Vez


Ensaio Nacional

Lingo, de Vicente Niro


Ensaio Internacional

When Sanam Cried, de Majid Sheyda e Fariborz Ahanin


Prémio D. Quijote FICC

Assalto, de João Tempera


Menção Honrosa

João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei


Prémio Júri de Imprensa

João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei


Menção Honrosa

Torre, de Salomé Lamas

 

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Ler Críticas Relacionadas

As Mil e uma Noites: Volume 1, O Inquieto (2015)

As Mil e uma Noites: Volume 2, O Desolado (2015)

As Mil e uma Noites: Volume 3, O Encantado (2015)

Capitão Falcão (2015)

 

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4.10.15

João Bénard da Costa - Outros Amarão as Coisas

Não se trata de um homem, trata-se de um amor profundo!

 

"O cinema precisa de ser falado" e é com obras como esta que o diálogo entre o espectador e o grande ecrã faz-se em reflexo com o amor de outra pessoa. Manuel Mozos (4 Copas) incute essa paixão partilhada que dificilmente perde o seu inflamável calor da veneração, através de um envolvente registo poético que transfere a vida de um dos mais celebres (porém, ele próprio não assume), cinéfilos do nosso país. Se é bem verdade que a sua partida (em 2009) deixou a cinéfilia mais pobre, aqui neste documentário preenchido de memórias, a sua riqueza identitária deixou uma herança bonificada, pronto a ser explorada.

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Programador, crítico e director da Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema, a sua casa-mãe, João Bénard da Costa é uma figura incontornável para quem efectua a veneração cinematográfica no nosso país, ele foi um homem ligado ao misticismo do passado sempre em mudança e imutávelmente estampado através do retrato, as figuras que permanecem imortalizadas enquanto os nossos restos se converterem em cinzas e integram o substrato térreo. Porém, tal como se evidencia neste seu retrato, o corpo é simplesmente e dura descartabilidade, mas é a alma que vagueia por uma eternidade desconhecida mas sugestiva através do poder das imagens.

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Nesse termo, "João Bénard da Costa: Outros Amarão as coisas que eu Amei" faz todo o sentido existir, e a decisão de Manuel Mozos em não construir uma singela biografia, mas sim uma jornada pelo valor estético e as suas ligações primordiais com um esoterismo, não religioso, mas artístico. É pois, um filme sobre a arte, o argumento desse amor, e essa tentação cinematográfica sempre presente como um fantasma visitante, tal como é exaustivamente comparado com The Ghost and Mrs. Muir (Joseph L. Mankiewicz, 1947), um dos assumidos filmes predilectos de Costa. É um reflexo sobre a vida além morte, com claros vislumbres à jornada de um homem feito, um eterno declarante da 7ª Arte, até aqui exposto como a forma mais viável de tornar imortal a respectiva imagem, outrora sombra de um ser vivente.

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Essa constante auto-analise, uma narrativa intercalada entre a linguagem própria do cinema (Ordet, de Carl Theodor Dreyer, o seu "favorito" Johnny Guitar, de Nicholas Ray, e até mesmo a mentira prolongada da cinematografia de Lubitsch) e os seus escritos lidos pelo seu filho, funciona como uma das pinceladas que contribuem para este esplendoroso retrato, o retrato de Bénard da Costa, o seu intimo hino de amor ao cinema partilhado por todos. Até porque, tal como indica o título - Outros Amarão as Coisas que eu Amei - Costa não está, nem esteve sozinho. Esta relação com o Cinema permanece intacta, cada vez mais amada, mesmo que as memórias tendem em tornar-se mais distantes, mas com imagens projectadas em tela, que tudo torna-se numa razão de existência. Do Cinema com Amor!

 

Real.: Manuel Mozos

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 15:27
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20.5.15

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O encanto da desolada inquietação!

 

Duas partes são o que bastaria para confirmar o quanto gratificante é este novo projecto de Miguel Gomes, Mil e uma Noites. Livremente baseado no famoso conto persa, o qual respeita a sua estrutura narrativa, este épico revela-nos mais do que a sátira furtiva ao panorama social português como tem sido descrito, e sim num quadro de o quanto diversificado e criativo pode tornar-se o nosso cinema.

 

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O segundo tomo, O Desolado, foi um exemplo flagrante dessas referências cinematográficas, um remendo de estilos próprios e alusões a outros mestres esquecidos, tecidos em prol de um filme-denúncia, frontal, mas sempre emaranhado num tom irónico e caricatural. Com O Encantado, Miguel Gomes guia-se novamente por essas matrizes do tão nosso cinema para encerrar uma trilogia sustentada por uma militância quase guerrilheira. Comparativamente, este terceira parte é a mais fraca, em principio, sofrendo de um síndroma digno das trilogias, ou porque simplesmente Miguel Gomes tenta encerrá-la de uma forma mais emocional, do que concretamente mais incisiva.

 

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O Encantado inicia com um vislumbre do mundo envolto de Xerezade, a bela jovem que é obrigada a casar com um tirano e angustiado Rei, célebre por matar as suas esposas após a primeira noite núpcias. Para além de bela, Xerezade é também inteligente, culta e possuidora de dotes oratórios, virtudes que a auxiliam no seu prolongado plano de sobrevivência. Todas as noites, ela conta uma história sobre um país longínquos e respectivas crónicas mirabolantes envoltas, de forma entusiasmante para que o rei se encha de curiosidade e aguarde pacientemente pela noite seguinte para mais uma história, evitando assim, a mortal noite de núpcias. O primeiro plano de O Encantado é quase como um tributo ao cinema mais marginal de Fritz Lang, O Tumulo Índio, para depois fundir na intimidade das imagens invocadas. Este mundo descrito por Xerezade, tem de tanto místico como alusivo, e caricatural como surreal.

 

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Uma opção arriscada por parte de Miguel Gomes para complementar este O Encantado com uma sentimentalidade e cariz distinto, para depois avançar com um profundo registo etnográfico, enquanto mergulha no submundo dos “passarinheiros”e dos seus tentilhões em “The Inebriating Chorus of the Chaffinches” e a cruza com imagens dos protestos policiais decorridas em Novembro de 2013, em simultâneo, com o relato de uma imigrante chinesa “Hot Forest”, uma combinação sobretudo bizarra mas que de certa forma fiel ao paralelismo iniciado em O Inquieto: os encerramento dos estaleiros com a dizimação das pragas de vespas asiáticas em Viana do Castelo. Um paralelismo que o próprio Miguel Gomes revelou ser de uma “abstracção que lhe dá vertigens”, para poder encenar de seguida o papel de realizador desaparecido.

 

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Desaparecido, enquanto corpo, porque a alma de autor encontra-se nas mais tenras veias deste Mil e uma Noites, a maior epopeia cinematográfica do cinema português. O Encantado pode não ter o seu total encanto, mas curiosamente, tal como os outros capítulos, funcionam como obras soltas, percorridas pelo criativo imaginário da crítica social.

 

Filme visualizado na 47ª edição da Quinzena de Realizadores em Cannes

 

Real.: Miguel Gomes / Int.: Joana de Verona, Carloto Cotta, Gonçalo Waddington, Cristina Alfaiate, Xico Xapas

 

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Ver Também

Mil e uma Noites: O Volume 1, O Inquieto (2015)

Mil e uma Noites: O Volume 2, O Desolado (2015)

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 22:12
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18.5.15

Mil e uma Noites - Volume 2 O Desolado.jpg

 

Em busca de um país com identidade!

 

Depois de O Inquieto, chega-nos O Desolado, a segunda parte do já proclamado épico social de Miguel Gomes, As Mil e uma Noites, que tem como base o famoso conto persa, onde a bela Xerazade, a fim de preservar a sua vida, tenta entreter o diabólico rei com os seus relatos de histórias fantásticas povoadas de misticismo. Porém, esta livre adaptação não incute narrações a lendas persas nem algo que valha. Miguel Gomes substitui com outro tipo de histórias, as de um país socialmente desesperado, onde reina o insólito e o descontentamento. Esse país é Portugal.

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Na primeira parte, o realizador do muito prestigiado Tabu conseguiu captar a atenção de todos ao esboçar um mundo que funde a realidade com um surrealismo caricato e sempre abrangido com um constante tom de denúncia. Com O Desolado esse extenso surrealismo é salientado logo no primeiro ato – Chronicle of the Escape of Simão 'Without Bowels' (Crónica da Fuga do Simão 'Sem Tripas') – no qual seguimos um fugitivo à polícia em montes de aldeias vizinhas de Viseu. Uma história que na pratica soa mirabolante é na verdade inspirado num mediático caso real que fez as manchetes dos nossos jornais. Aqui, Miguel Gomes revela uma faceta mais contemplativa, mais paciente e nem por isso menos lunática, trabalhando com atores (Chico Chapas) e alguns não-actores. Mil e uma Noites invoca uma linguagem enraizada na nossa "portugalidade".

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Porém, este é o ato menos conseguido pelo autor nesta sua jornada. O ritmo fraqueja e infelizmente Gomes cai no erro dos muitos autores portugueses. Mesmo assim, a narração é digna de um ar de revolta constante, ares que se prolongam ao ato seguinte, The Tears of the Judge (As Lágrimas da Juíza), uma verdadeira queda de dominós que expõe muitos dos problemas que afectam a nação. Luísa Cruz consegue levar a sua personagem ao extremo, num misto de teatralidade com o seu ego oculto e uma vontade inerente de denúncia. Se Simão 'Without Bowels' foi a menos conseguido das histórias, aqui Miguel Gomes encontra a sua pequena "obra-prima": um vórtice de bizarrices, comédia non sense e uma crítica sem receios.

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Diríamos que estamos no auge das Mil e uma Noites, apogeu que acalma com a passagem ao ato seguinte, The Owners of Dixie (Os Donos de Dixie), que tal como acontecera com O Inquieto é o último tomo onde é transferida toda a emoção antes ignorada. A jornada de um cão e dos seus donos recebe contornos etnográficos quando tenta esboçar a comunidade de um bairro suburbano de Lisboa. Três actos sob tons opostos e divergentes que indiciam uma só verdade: Miguel Gomes é um conhecedor nato de todos os códigos do cinema português, sendo óbvio que a sua carreira como crítico favoreceu essa diversidade criativa, a qual não se via desde João César Monteiro.

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O cinema contemplativo de autor em Simão 'Without Bowels', o conto ácido e de influências teatrais de um Manoel de Oliveira em The Tears of the Judge e o cinema com toques de Pedro Costa e Marco Martins no último capítulo, fazem daqui três histórias, três estilos diferentes, três razões para proclamar As Mil e uma Noites como um grande evento do cinema português e até mesmo mundial. Fantástico.

 

Filme visualizado na 47ª edição da Quinzena de Realizadores em Cannes

 

Real.: Miguel Gomes / Int.: Joana de Verona, Teresa Madruga, Gonçalo Waddington, Cristina Alfaiate, João Pedro Bénard, Xico Xapas, Luísa Cruz

 

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Ver Também

Mil e uma Noites: O Volume 1, O Inquieto (2015)

9/10

publicado por Hugo Gomes às 20:46
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16.5.15

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A extinção do pagão num país de denuncias!

 

Logo na sua introdução, quando confrontado com a questão de que ligação teria o encerramento de um estaleiro e a exterminação de uma praga de vespas asiáticas em Viana, a resposta negativa de Miguel Gomes foi dada da seguinte forma: "eu sou estúpido e a abstracção dá-me vertigens". Depois disto, e repentinamente, o realizador foge da cena como o diabo foge da cruz. Os vinte minutos que sucedem levam-nos ao encontro de um retrato "docuficcional", esse subgénero que a cinematografia portuguesa adoptou com coração. Nesse preciso momento pensamos estar em mais um enésimo registo etnográfico, um revisitar aos códigos canónicos do género, ou até mesmo (visto Miguel Gomes protagonizar uma sequência intimista de um filme dentro de um filme) numa reciclagem à estrutura do seu Aquele Querido Mês de Agosto.

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Mas passados vinte minutos tudo pára. A promessa é dada em forma de "imaginem só isto" e voilá, eis que começa realmente O Inquieto, a primeira parte de uma epopeia portuguesa que tem como base a estrutura narrativa do clássico As Mil e uma Noites. Nesta versão, as histórias mirabolantes de um país arruinado pelo comando de "belzebus", como a certa altura são descritos os governantes de Portugal, serve de substituição aos contos narrados por Xerazade: para entreter o cruel rei Shariar, a fim de alimentar a sua curiosidade e assim adiar a derradeira noite de núpcias. É um mundo fantástico criado através de uma imaginação corrosiva e trocista na caricatura e, com isso, sublinhar a "portugalidade" da sua gente. Nisto, Miguel Gomes consegue atingir a critica social.

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Dividido em três actos, todos eles sustentados por tons distintos, O Inquieto começa por elaborar uma sátira à política, não só portuguesa, como também europeia. Em The Men with Hard-Ons o absurdo ganha vida e funde-se com a referência persa, na qual as maldições dos feiticeiros e os fundos europeus caminham lado a lado. Depois segue algo mais rústico, mas igualmente surreal: The Story of the Cockerel and the Fire, passada na aldeia de Resende, onde um galo que canta a desoras gera um movimento social e uma onda de protestos pela liberdade de expressão. No decorrer deste episódio espalhafatoso está um trio amoroso cujas consequências são catastróficas.

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Encantados até com aqui com todo estes paradoxos e caricaturas em divida com o surrealismo, surge-nos The Swim of the Magnificents, o último ato e provavelmente o mais emocional e revoltado dos três. O actor Adriano Luz desempenha um professor de natação que planeia os banhos do dia 1 de Janeiro, um ritual local, mas que para este possui um significado mais profundo. Neste episódio, o intimismo de Miguel Gomes revela-se mais humano e corajoso em abordar algo que poderia ser motivo de atenção para telejornais ou programas televisivos matinais. É aqui que As Mil e uma Noites funde por completo a ficção com o seu lado mais verité, onde os testemunhos dos desempregados, mais correctamente denominados de "desesperados", auferem um registo colectivo, tudo enquanto Gomes faz maravilhas com a câmara. As sequências tornam-se melancolicamente memoráveis, proclamando a extinção de um mundo fantástico e pagão e abrindo portas ao realismo do quotidiano e social, o nosso Portugal.

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Terminado o primeiro filme da mais promissora trilogia portuguesa do momento, O Inquieto é uma confirmação do que já havia sido afirmado: Miguel Gomes é a cabeça de uma nova vaga Portuguesa. Comparado com a nouvelle vague Francesa ou não, a verdade é que há muito não víamos cinema português tão revitalizante, complexo e, sobretudo, tão criativo.
Uma obra-prima!

 

Filme visualizado na 47ª edição da Quinzena de Realizadores em Cannes

 

Real.: Miguel Gomes / Int.: Adriano Luz, Joana de Verona, Carloto Cotta, Gonçalo Waddington, Rogério Samora, Cristina Alfaiate, Diogo Dória, Maria Rueff, Xico Xapas

 

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Tabu (2012)

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 21:31
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20.3.15

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Yvone Kane chegou aos cinemas dez anos depois da primeira longa-metragem de ficção da cineasta Margarida Cardoso. Trata-se de um revisitar a uma Moçambique traumatizada pelos horrores da guerra colonial e pelas promessas não cumpridas. O Cinematograficamente Falando … teve o privilégio de falar com a realizadora sobre o seu mais recente filme, a sua confrontação com os fantasmas do passado, o seu regresso "indefinido" a Moçambique e o seu olhar ao panorama actual do cinema português.

 

 

Como surgiu a ideia deste filme? Como foi regressar a Moçambique?


Surgiu exactamente do facto de eu não ter regressado. De ter feito imensos projectos lá. Ao longo deste tempo todo, tenho trabalhado sempre em vário projectos de lá e foi então que fui construindo esta ideia de uma grande atracção pelos espaços, não é bem paisagens, mas territórios distantes, locais mais abandonados, e tudo isso. E a partir daí decidi fazer um filme que passasse na actualidade. Todo os outros filmes que tinha feito ou eram uma reconstituição dos anos 60 ou exploravam um período pós-colonial. Então senti a necessidade de fazer algo que decorresse nos dias de hoje. Comecei a construir as peças para filmar uma coisa que fosse actual, captar um mundo com condimentos mais do real e enfim.

 

Como profissional sentiu alguma diferença entre a produção A Costa dos Murmúrios e este Yvone Kane?

 

Sim, há muitas diferenças. Em A Costa dos Murmúrios tinha uma época que era a colonial, e então os murmúrios eram os últimos sons antes do fim, ou seja, antes do silêncio. Acontece que depois da época colonial veio um silêncio para os portugueses. Nós utilizávamos muito a História para descobrir algo no tempo, agora não. Também me interessou aqui seguir para outro fim de época, não a colonial, mas neste filme, que se passa na actualidade, tentei falar do fim da nossa relação ideológica com África. Aquelas pessoas que estiveram lá e que acreditavam naquelas causas, naquelas ideologias, no Homem Novo e a igualdade entre as classes. Todas as vezes que essas pessoas tentavam construir esses países, que agora são ultra-capitalistas, são ultra-liberais, enchi-os com "sonhos e ideias comunistas". Então, com este filme tentei retratar um fim de uma época de ideologias e de sonhos. E são épocas muito diferentes, muito marcadas. Moçambique teve um Guerra Civil durante muito tempo e agora é um país que se considera em fase de construção, ou seja, muito diferente da época colonial.

 

Quem é Yvone Kane? Como se inspirou para criar a personagem?

 

Essa personagem é inspirada, digamos, nas suas acções, no que ela faz individualmente. Foi inspirado nos "milhões" de filmes que vi quando fiz o Kuxa Kanema - O Nascimento do Cinema. Tive que ver praticamente tudo que havia no arquivo, como também muitas reportagens durante a luta armada e fiquei assim com uma ideia concreta, logisticamente, do que passa numa manifestação, como funcionam estes movimentos, o destacamento feminino e estas coisas todas. A partir daí comecei a criar uma personagem que é uma mistura entre várias coisas que tenho andado a estudar. Estou a fazer um documentário sobre uma angolana que em 1977 foi assassinada. Ela era uma revolucionária, a Sita Valles, e uma mistura de outras figuras que existem do sindico feminino, como a Josina Machel, que era a ex-mulher do Samora Machel. Então juntei essas personagens e criei uma personagem mítica, uma personagem fictícia, que engloba isso tudo. Yvone Kane vai sendo também revelada durante o filme numa pessoa essencialmente verdadeira. Porém, não é uma heroína.

 

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Sentiu dificuldades na produção deste filme? Se sim, quais?

 

Senti todas as dificuldades [risos], mas não vou numerar uma lista de compras. Sim, senti muita dificuldade. A primeira dificuldade foi o financiamento do filme. Depois, finalmente conseguimos uma colaboração com o Brasil e a próxima questão foi que atravessamos um período de bastante crise na altura em que foi filmado. Começámos as preparações em 2011 e só conseguimos terminá-lo em 2014. Portanto, foram 4 quatros. Em 2012 demorei muito a fazer a pós-produção, por falta de verbas, e foi então passando o tempo. A maior dificuldade do filme foi essa, não em termos económicos, mas nesse financiamento, em desbloquear verbas. Sim, foi difícil.

 

Porquê a actriz brasileira Irene Ravache como uma das protagonistas?

 

Porque queria uma pessoa que fosse muito parecida com a Beatriz, que interpretasse a mãe dela e curiosamente a verdadeira mãe da Beatriz não se parece nada com ela [risos]. Nos filmes a gente tenta ir mais além da verdade. A propósito, em Portugal não temos um leque de actrizes tão grande naquela casa dos 70. Teria que encontrar alguém com 70 anos com a mesma simetria da Beatriz e com vitalidade. Queria uma pessoa que transmitisse que estaria a morrer e ao mesmo tempo fora traída pela própria morte. Que poderia viver por ainda mais tempo e que tivesse físico para isso.

 

Em Yvone Kane, você filme muito os reflexos, ou através de janelas e redes. Essa pratica pode ser vista como uma protecção para si ou para as personagens?

 

Tal como nos outros filmes, eu gosto do eco das coisas violentas e gosto de uma coisa que os ingleses denominam muitas vezes que é a aftermath, depois da catástrofe. Eu não me interesso pelo momento em si do conflito, mas pelo que resta disso, o que sobra disso em ecos, reflexos. De certa forma também os reflexos criam uma cinematografia que não é directa. Estás sempre por detrás de qualquer coisa. Acho que tudo isto faz parte do que quero dizer com o filme. Todo ele não é claro, nada é explicado e interessa-me realmente, como dizes, estar protegida. Quando acontece alguma coisa de importante, a minha reacção é de colocar a câmara muito longe e não perto. Não estou interessada em abordar acontecimentos muito fortes.

 

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Neste filme você recorre a poucos planos fixos. Porém, a sequência final é um longo plano fixo. Existe algum significado nessa imagem concreta - a de restaurar uma piscina como uma espécie de exorcismo?

 

Sim, a piscina é o plano mais simbólico do filme, mas antes disso devo dizer que o filme é praticamente constituído por planos fixos, eu é que não tinha muita maquinaria. Por isso utilizamos muito a câmara à mão, sendo que os planos são muito secos, muito quadrados visualmente, porque é muito distante. O plano da piscina é tão longo quanto aos outros. O filme tem é uns planos com uma duração muito grande. Mas o tal plano é simbólico porque é evidente. As pessoas enterram o passado, digamos a memória, e fica tudo enterrado. Provavelmente também os "fantasmas", a personagem descobre documentos e isso pode gerar qualquer coisa, mas a partir daí quis, ao invés de acontecer qualquer coisa que pudesse revelar quem é que matou a Yvone, que não soubéssemos nada e voltássemos à aragem e nos guiássemos pela memória final.

 

Considero Yvone Kane um filme sobre perdas. O filme teve como base alguma perda sua ou um estado de espírito seu?

 

Sim, acho que é a experiência de perder, mas não directamente. Não tive perdas directas, mas tive consequências, por isso é que gosto de falar delas. Tive as consequências de perder muitas coisas à volta. Perder sobretudo um território identitário, o que não tenho, mas que sinceramente é uma boa ajuda não o ter. A mim inspira-me um pouco não ter essa identidade, um actual território identitário, porque ficas sempre condenada a procurar coisas. Não há ninguém que te dê uma resposta clara e então tens que procurar. Nesse aspecto, a perda mostra-se mais como uma ausência de um ponto referenciado.

 

"A vida é estranha, não é?" Sente-se em Yvone Kane uma certa desmistificação do misticismo. Existe uma sequência que revela isso. Com isto quer dizer que é pessimista?


Sim. Sou e é bom ser. Creio muito que os outros são capazes de fazer melhor e o pior. Então fico sempre disposta a essa dualidade, quer dizer, fico numa tristeza, uma dificuldade muito grande em aceitar tudo o que é muito violento, duro. Tudo o que há de mau nas pessoas e ao mesmo tempo uma alegria da noção da vida. Tudo muito maravilhoso, muito fantástico, os mistérios da vida que a gente nunca consegue saber onde estão as respostas. Acho isso fantástico e quando aquele rapaz disse que uma coisa que nunca esqueces é que por mais que estejas ligado a uma pessoa, tu estás sempre sozinho [a cena]. Não é dramático, mas é verdade. Ele amava a Yvone, a Yvone amava-o. A verdade é que eram capazes de tudo, mas quando a Yvone sumiu, ele estava a fazer outra coisa, e não havia nada que os ligasse. É a natureza da vida. E quando ela diz à mãe que "fizeste o que pudeste", é isso. As pessoas fazem o que podem. Há laços que são impossíveis, simplesmente não existem.

 

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Joaquim Pinto afirmou recentemente em Berlim numa entrevista ao site C7nema que «o cinema português, pelo menos no que diz respeito aos financiamentos oficiais, não é insensível a grupo de interesse». Partilha a mesma opinião?

 

Eu não creio muito, quer dizer, acredito que existe esse tipo de lobbies e interesses, como existe em todo o lado como tudo. Agora, não tenho assim nenhum complô acerca disso. O que tenho a dizer da minha parte é que tenho mais problemas comigo do que com os outros. A minha grande luta é lutar contra os meus problemas. É trabalhar bem, é conseguir escrever coisas boas, como também fazer filmes bons. É fazer um bom trabalho. Isto aqui é a minha luta, sendo que não tenho muita queixa dos outros. Raramente digo "ai não me deram o subsídio". Por acaso tive sempre sorte. Mas isso não é um problema. O problema é lutar contra ti. Ás vezes dizemos que não fazemos o filme por isto ou por aquilo, isso resulta porque metade das coisas que não consegues é lutar contra ti mesmo. Não acredito nisso, nessa "força" enorme. Mas atenção, eu acho que há lobbies em todo o lado.

 

Como vê as mudanças implementadas na questão dos júris dos concursos do ICA que tanta celeuma criaram em alguns meios?

 

Não estou muito preocupada. Mas parece que as associações dos realizadores podiam escolher os representantes ou anunciar alguns nomes. Eu por mim não percebo nada. O que percebo é o porquê de funcionar com júris. Porque legalmente tem que funcionar. Mas no meu sistema ideal preferia que houvesse comissões, por exemplo, trianuais, que fariam uma politica trianual, que decidissem quem filma, quem é que não filma e quem é que vai filmar. Pessoas que não fossem os mesmos júris para cada concurso, mas que terminassem passados três anos e saber a politica a seguir. Quanto aos concursos em que uma pessoa apresenta os projectos, e que tanto faz se aquilo é de uma cor ou cinema comercial, são coisas que não fazem sentido nenhum, pois as pessoas vão rodando e nenhuma dessas está a dar pontos indiscriminadamente nos currículos. Num currículo, bem podes ter um ou ter dez [filmes], conforme lhes apetece. Portanto, se estás a ser julgada por um júri o teu currículo tanto vale ter cinco como dez [filmes]. É conforme os concursos. O que é que uma pessoa pode dizer a isto, não é?

 

Tem algum projecto de sonho que devido à conjuntura não conseguiu ainda concretizar? Há algum projecto no futuro?

 

Tenho muitos, mas vai disto que estava a dizer, que por vezes tem que se abdicar de algumas coisas. Por exemplo, para além de filmar também dou aulas. Às vezes o meu trabalho na escola toma muito tempo para eu fazer outras coisas. Teria que abdicar disso, ou pelo menos tirar um ano. Mas tenho com certeza outros projectos. Tenho um inserido neste último concurso, que é um documentário e acabei de escrever uma ficção, a qual vou apresentá-la no próximo concurso.

 

Como vê os festivais e que papel desempenham no cinema português?

 

Os festivais acabam por ser isso, uma rede. Como curadores de arte, os curadores de festivais escolhem os filmes a ser projectados e isso aí é politica pura e dura. As pessoas podem ter olhos para o teu filme mas há sempre milhões de filmes tão bons como o teu, ou tão maus como o teu, a concorrer. Por isso, mesmo que o teu filme seja muito bom, ele deve estar protegido para poder "vingar". E isso é o jogo mais politico que se possa imaginar. É muito complicado, é preciso ter uma rede e depois os filmes vêm com aquele rótulo de festival e aparece sempre um distribuidor que só compra o filme que teve em festival X, ou seja, os festivais acabam por condicionar o distribuidor, assim como tudo. É quase como um rótulo. Penso que o papel deles nunca é demonstrar filmes às pessoas que nunca viram tais, mas sim, simplesmente uma coisa politica, porque muitas vezes esses festivais grandes, como em Veneza, temos sessões em que não aparece lá ninguém. É apenas o esquema todo à volta.

 

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Yvone Kane (2014)

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:19
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4.3.15

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O reflexo dos fantasmas da ausência

 

Yvone Kane marca o regresso da realizadora Margarida Cardoso a Moçambique, a terra que a viu nascer, 11 anos depois da sua primeira longa-metragem de ficção, A Costa dos Murmúrios (2004). Enquanto na sua obra anterior adaptava um romance homónimo de Lídia Jorge, aqui toma total liberdade criativa no argumento e o resultado é um intimismo com a intriga. Yvone Kane é um filme sobre perdas,  aliás todas as personagens deste registo narrativo sofrem desse mesmo mal, funcionando como uma alusão às memórias coloniais e dos traumas das guerras que teimam em não ser dissipados.

 

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A história segue uma jornalista, Rita (Beatriz Batarda), que encontra num novo trabalho de investigação, a da misteriosa morte da ex-guerrilheira e activista Yvone Kane, num escape à tragédia embutida no seu quotidiano. Assim, Rita segue para Moçambique, país que tão bem conhece devido às suas raízes. Nele reencontra a sua mãe, Sara (Irene Ravache), uma mulher que luta para obter um ponto de redenção da sua vida passada, enquanto enfrenta um fim predestinado.

 

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Yvone Kane é um trabalho cuidadoso que se mantém longe da mensagem explícita, investindo numa narrativa por vias de barreiras físicas, como se o contacto directo com esta fosse uma tarefa intransponível. A câmara de Cardoso ostenta essa fobia e filma uma intriga que recorre muitas vezes ao uso de reflexos, janelas e redes, como se as personagens se envolvessem em protecções com o redor devastado por espíritos aprisionados, como é referido na passagem do hotel assombrado nas proximidades do desfecho. O pretexto para este retrato de legados e descendências de "fardos penosos", a misteriosa morte de Yvone Kane (Mina Andala), nunca é devidamente explorado, nem sequer é conclusiva para a verdadeira essência da fita, que subliminarmente parece garantir-nos que não estamos perante de um thriller político.

 

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Mas como havia sido referido, o filme de Margarida Cardoso nunca oferece nada como gratuito (os planos discretos são tais indícios dessa virtude narrativa). Ao invés, tudo nos remete a um retrato da ausência, o convívio entre mortais e fantasmas e o alcance da imortalidade arrependida através de um prometido mundo pós-morte. Mesmo sob a invocação desses vazios, Yvone Kane é acima de tudo uma colectânea de memórias.  Curiosamente, tudo começa num cemitério e termina num enterro, sem a utilização de misticismos. Tal como é citado a certa altura,  "a vida é estranha, não é"?

 

Real.: Margarida Cardoso / Int.: Beatriz Batarda, Irene Ravache, Samuel Malumbe, Adriano Luz, Gonaço Waddington, Mina Andala

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 12:12
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23.11.14

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O novo documentário de Jorge Pelicano, Pára-me de Repente o Pensamento (que esteve presente na última edição do Doclisboa), foi o vencedor do Grande Prémio do Festival Caminhos do Cinema Português, que decorreu em Coimbra do dia 14 a 22 de Novembro. O filme em questão ainda foi premiado com o prémio de Público e de Melhor Realizador. Destaque também para Adriano Mendes no Prémio Revelação com o seu O Primeiro Verão (o qual protagonizou, escreveu e dirigiu), o nosso candidato ao Óscar, E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto como Melhor Documentário e A Bicicleta, de Luís Vieira Campos como Melhor Curta-Metragem.

 

Prémio Melhor Ensaio Fnac

Fúria, de Diogo Baldaia

 

Prémio de Imprensa

Coro dos Amantes, de Tiago Guedes

 

Prémio D. Quijote

Um Fim do Mundo, de Pedro Pinho

 

Prémios Técnicos Júri Caminhos

Prémio Melhor Banda Sonora Original

7 Pecados Rurais

 

Prémio Melhor Argumento Adaptado

Miami

 

Prémio Melhor Argumento Original

Lápis Azul

 

Prémio Melhor Som

Bobô

 

Prémio Melhor Montagem

Dédalo

 

Prémio Melhor Caracterização

O Frágil Som do Meu Motor

 

Prémio Melhor Realizador Europcar

Jorge Pelicano (Pára-me de Repente o Pensamento)

 

Prémio Melhor Guarda-Roupa

O Grande Kilapy

 

Prémio Melhor Fotografia

Um Fim do Mundo

Menção Honrosa

Longe do Éden

 

Prémio Melhor Direção Artística

Dédalo

 

Prémio Melhor Actriz Secundária

Adelaide Teixeira (A Bicicleta)

 

Prémio Melhor Actor Secundário

Jaime Freitas (O Cigano)

 

Prémio Melhor Actriz

Isabel Abreu (Coro dos Amantes)

 

Prémio Melhor Actor Melom

Nuno Pardal (Éden)

 

Prémios Oficiais Júri Caminhos

Prémio Revelação Domus Legis

Adriano Mendes (O Primeiro Verão)

 

Prémio Documentário Porto Cruz

E Agora? Lembra-me, Joaquim Pinto

 

Prémio Melhor Animação

O Coveiro, André Gil da Mata

 

Prémio Melhor Curta-Metragem Turismo do Centro

A Bicicleta, Luís Vieira Campos

 

Prémio Melhor Longa-Metragem Caves Vale do Rodo

É o Amor, de João Canijo

 

Grande Prémio do Festival Portugal Sou Eu  

Pára-me de Repente o Pensamento, de Jorge Pelicano

 

Prémio do Público Chama Amarela Melhor Filme

Pára-me de Repente o Pensamento, de Jorge Pelicano

 

Ver Também

O Primeiro Verão (2014)

É O Amor (2013)

E Agora? Lembra-me (2013)

O Grande Kilapy (2012)

Um Fim do Mundo (2013)

7 Pecados Rurais (2013)

 

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Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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