Data
Título
Take
21.5.17

B9711984764Z.1_20170511131107_000+GNI91T7F6.1-0.pn

Um musical que canta sem intenções de encantar!

 

Bruno Dumont não acredita em musicais e reflete isso nesta sua nova criação – Jeannette, l'enfance de Jeanne d'Arc – a musicada juventude da mais amada das heroínas de França, onde o absurdismo do género torna-se num veículo de provocação. Já vimos tais tons a serem experimentados nas suas duas últimas obras (Ma Loute, P'tit Quinquin), mas até agora nunca tínhamos sentimos tamanha heresia em ridicularizar um género.

 

1023870-cannesjpg.jpg

 

Diríamos antes que Jeannette é um anti-género, uma blasfémia aos musicais. Aqui, os não-actores fazem o melhor que podem nas suas cantorias. Dumont afirmou que nada fora filmado em playback, tudo é verídico, as vozes desafinadas, ou simplesmente ausentes de dotes musicais, as coreografias atípicas, algo entre o estilo metaleiro e do frenético trance, as questões religiosas discursadas com uma extrema opacidade e uma deselegância de toda esta natureza musical ilustrada num cenário apenas, citando constantemente o seu anterior filme (Ma Loute).

 

197221.jpg


Jeannette é o Je vous salue, Marie, uma afronta ao sagrado, a desmistificação do estabelecido, a prece de Joana D'Arc (Jeanne Voisin) cuja divindade que apela encontra-se do outro lado da tela, quebrando a "virginal" quarta barreira para nos trazer o mais mortal dos deuses – o espectador. Por outro lado, a comédia involuntária aqui exposta tem o seu quê de voluntarismo. É a História relatada como um experimento e não uma rigorosa reconstituição. É a coragem de ser ridicularizado, por ele próprio.

 

196283-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

Talvez seja esta a obra mais desafiante da carreira do realizador, e a mais inacessível. A resposta que precisávamos da ilusão onírica tão presente no género, aos "La La Land" que perpetuam uma memória cinematográfica, Jeannette responde destruindo todo esse legado, rabiscando e delineando a partir do zero. Vai ser difícil recuperar o fôlego para futuras incursões musicais depois disto, e muito mais a forma que olharemos para Joan D'Arc no cinema, heroína tão celebrada em importantes trabalhos como os de Dryer, Breeson e até (porque não) Besson.

Filme visualizado na 49o Quinzena dos Realizadores de Cannes


Real.: Bruno Dumont / Int.: Lise Leplat Prudhomme , Jeanne Voisin

 

198315-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-e1495384926

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:42
link do post | comentar | partilhar

21.5.16
21.5.16

Ma Loute.jpg

Quando a tragédia tem o seu humor!

 

Bruno Dumont é o senhor do burlesco, a pitoresca caricatura que adquire a absoluta forma cinematográfica, e conseguiu transmitir tal aura em Petit Quinquin, uma mini-série que tentou a sua sorte como longa-metragem (uma longa, mas relevante metragem da sua carreira). Ma Loute, por outro lado, segue a passos essa marca estabelecida, remetendo-nos a um enredo de Belle Epoque, onde o início do século parecia revelar-se num magnifico quadro de aristocracias mecanizadas, porém, iludidas a uma miragem. E essa mesmo, resultando sob ecos de Revolução Francesa, o poço cada vez mais fundo que separa classes. Tema que persegue o espírito "gaulês", os franceses teimam em focar nas suas fitas a divergência recorrida no Cinema e Ma Loute não é excepção. Só que, vejamos, a linguagem é simplesmente outra.

 

ma-loute.jpg

Em 1928, Louise Brookes, actriz norte-americana, chegaria à Europa para se concentrar num novo rumo da sua carreira. Entre os filmes que desempenhou no Velho Continente, destaca-se Pandora's Box, onde interpretava uma sedutora, uma verdadeira "man-eater" nos primórdios crescentes da imagem da femme fatale. A sua arma de sedução era uma, o seu método de desempenho, algo vincado no realismo dos actos que entra em contraste com o drama teatral dos actores europeus da altura. E foi nesse contraste que soube-se criar uma nova linguagem narrativa, a linguagem derivada da interpretação. Anos mais tarde, Federico Fellini concentrou em atribuir um tom quase alienígena para a burguesa pseudo-cultural representada em La Dolce Vita, seres estranhos que se destacavam do resto do Mundo em constante decadência pelos seus respectivos e gravitacionais egos que os isolavam às suas fantasias anteriores.

slack-bay-image-1.jpg

Em Ma Loute, a tal linguagem narrativa encontra-se perfeitamente estabelecida nesta diferença de classes, nota-se o "underacting" dos camponeses deste vilarejo costeiro, e o "overacting" da aristocracia que eventualmente surge em cena, com Fabrice Luchinie e Juliette Binoche à cabeça. O ridículo das sequências protagonizadas servem, não como um veiculo de comédia, mas como uma reflexão de um grupo em vias de extinguir, portanto perdoa-se os veios oníricos e a paradoxismo que se escuta como brisa marítima neste filme em se resiste à sua memória. A memória de um cinema sem medo da reprovação do espectador, um cinema que ergue a visão do seu autor em prol de uma mensagem, do que providenciar um género, neste caso, como fora caído em erro, a comédia como um circulo fechado. Não, Ma Loute espelha uma diversidade de tons que desaguam para um exercício de alienação interpretativa, aliás o foco dessa crítica é tão evidente, a burguesia iluminista é somente uma espécie extinta, só que ainda não haviam percebido tal desaparecido.

MALOUTE_STILL_3.jpg

Porém, nem tudo é perfeito, Dumont tende em cansar com o seu registo, os tons perdem fôlego e a partir daí é o óbvio que dialoga cada vez mais alto. É então, que sem conseguir segurar a tragicomédia de gostos no seu carris, Ma Loute verga-se pela caricatura fácil, principalmente no seu grande comic relief, que à imagem do anterior Petit Quinquin, é uma homenagem aos clowns que perpetuam na nossa memória cinéfila. Se em Quinquin era a alusão a Marxs Brothers a resultar na autoridade, em Ma Loute são os clássicos Laurel e Hardy sob iguais causas. São momentos deliciosos, envolvido num humor de camadas que vai desde o godardiano acaso de um Pierrot Le Fou, até ao inglês non sense e absolutamente metafórico de um Month Python. Sim, é um doloroso sorriso que nos faz esquecer por momentos que a tragédia vive em nós, ou será antes, a tragédia num novo tipo de comédia?

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Bruno Dumont / Int.: Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Brandon Lavieville, Raph

 

Ma-Loute-recensione-centro.jpg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 00:26
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Jeannette, l'enfance de J...

Ma Loute (2016)

últ. comentários
Este gênero nunca foi um dos meus preferidos, póre...
Concordo, "Índice Médio de Felicidade" e "Malapata...
O "São Jorge" é até agora o meu preferido, mantend...
Vi hoje, Robert Pattinson no seu melhor! Que venha...
Uma das maiores surpresas do ano, mesmo sendo do W...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO