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28.5.16

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O correcto acto da vingança!

 

Asghar Farhadi é um moralista, mas é o nosso tipo de moralista. Ao contrário do conto moral propagandista que muita da Hollywood faz e refaz, o cinema de Farhadi é de uma delicadeza articulada a espaços limitados, a mistérios "antonianos" não resolvidos e a dramas humanos impulsionados através de um olhar crítico e abrangente, e essa dita moralidade ocorre, não como uma lição a ser aprendida, mas sim num reflexo de múltiplas contemplações.

 

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Contudo, em O Vendedor, premiado com a distinção de Melhor Argumento no Festival de Cannes, possuímos um episódio competente na linha dos seus anteriores manifestos, mas perde-se numa loop de repetição autoral. Para o espectador ainda não inserido no universo deste badalado e consagrado cineasta iraniano (A Separation, Le Passé), este paralelismo entre a ficção e as encenações teatrais de Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, revela-se numa fascinante experiência de juízo de valores, até estabelecer num climax narrativo que desagua facilmente em território de elipse.

 

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É um tipo de cinema que nos faz debater sobre a nossa própria moralidade, é aquele "mundo" longe ao nosso alcance, aqueles seres de uma civilização distante que não se afastam, rigorosamente nada, dos nossos quotidianos. Aliás, essa persistente comparação entre o drama de vingança e o teatro que vem adquirido contornos algo caóticos, remetem-nos a um elo cultural que interliga essa constante separação anunciada entre Ocidente / Oriente.

 

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É um exercício meticuloso, devidamente empregue à mercê dos seus actores que tudo fazem para adereçar a ênfase dramática nos conformes deste conceito de realismo. O Vendedor aproxima-se em passos personalizados ao território de Alain Resnais, a esse erudito estado de alma, sem como tal abandonar as suas heranças, quer culturais, cinematográficas e pessoais. No fim, a moralidade nos joga como uma força que nos embate consequencialmente, mas sem nunca constituir uma só verdade. A moral nasce, cresce, vive e morre em cada um de nós, o cinema Farhadi apenas providencia essas ferramentas.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:59
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26.12.13
26.12.13

O Passado persegue …

 

Depois de ter arrecadado o Urso de Ouro do Festival de Berlim e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012 com Uma Separação, o autor Asghar Farhadi volta a abordar as dificuldades do divorcio iraniano, desta vez sob uma perspectiva ocidental, sem que com isso esqueça por momentos a sua herança cultural e social. O divórcio, algo que fora retratado na obra anterior como um obstáculo interminável e um indesejado estatuto, é visto aqui como uma escapatória a vidas não consumáveis.

 

 

Marie (Bérénice Bejo), uma mulher parisiense, anseia o termino do compromisso, viajando o seu ex-marido, Ahmad (Ali Mossafa) de Teerão para Paris para regularizar a situação e assim "libertar" a sua ex-companheira para que esta case com o actual noivo, Samir (Tahar Ramid). Aquilo que aparentemente seria uma tarefa simples transforma-se num extenso conflito no preciso momento em que Marie decide hospedar Ahmad em sua casa, convivendo temporariamente com Samir.

 

 

O "triângulo amoroso" aqui exposto torna-se cada vez mais cerceado, num ambiente de "cortar à faca" que tende a piorar gradualmente, especialmente depois de serem revelados conflitos ocultos, entrando assim as personagens numa "cadeia de colisões". É o passado, tal como o titulo transmite, o suspeito do costume nesta colectânea de sentimentos expostos à flor da pele, onde inúmeros dilemas morais e familiares surgem em prol da extensão da narrativa. Por outras palavras, um filme cenicamente simples converte-se num ensaio de complexidades humanas, tal e qual uma telenovela de luxo. Parecendo heresia esta comparação, diríamos que dentro do universo "telenovelesco", Asghar Farhadi executa um exemplar flexível e mais astuto na resolução dos conflitos. Para o consegui-lo, sem que com isso ceda aos lugares-comuns, as "desavenças familiares" funcionam como twists repentinos que "esbofeteiam" o espectador, mantendo-se o realizador sempre fiel ao suspense desde o primeiro minuto (parecendo que não, Asghar Farhadi demonstra elasticidade para o thriller).

 

 

Por fim, na condução destes argumentos que nos impelem a visualização deste Le Passé, eis que encontramos um leque de atores formidáveis em constante contagem decrescente para eventuais explosões emotivas, entre as quais destaca-se uma exuberante Bérénice Bejo, a "mulher-bomba" deste episódio cinematográfico.

 

 

Em suma, estamos perante uma orquestra regida a emoções e dramas humanos onde o "maestro" Asghar Farhadi demonstra nesta sua primeira longa-metragem fora do Irão que consegue acima de tudo conservar as suas raízes. Um desses evidentes factores é o fetiche cinematográfico iraniano (que tão bem sabem fazer) de filmar o interior de automóveis e "transportá-los" para o meio da intriga.

 

"When two people see each other after 4 years and still fight together, it shows that there is something unsolved between them."

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa

 

Ver Também

Jodaeiye Nader az Simin (2011)

 

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 20:41
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17.3.12

Entre divórcios e conflitos numa cultura à parte.

 

Penso que devo começar a crítica aclamando que A Separation  (vou referir o titulo em inglês daqui a diante para ser mais fácil) foi o justíssimo vencedor ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira na última gala das estatuetas douradas. Asghar Farhadi compõe aqui uma fita orquestrada pelo mise enscène mas sempre culminada com interesse, que de certa forma mira com algum sarcasmo à maneira como desabam os valores sociais de cada um quando julgados pela justiça que é e como é feita no Irão. A obra tenta passar ao de leve pela união entre a mulher e a religião, tudo isso disfarçado num descendente e influente da obra Rashomon de Akira Kurosawa, onde a verdade parece demonstrar as suas diferentes facetas.

 

 

Em A Separation encontramos um tipo de cinema que raramente vemos no nosso panorama cinematográfico, sendo uma fita que reúne todo os traços do mainstream, do artístico e do realismo, entre os quais brinca saudavelmente com os géneros de drama intenso e com o thriller. Estranho será dizer que Farhadi compõe aqui uma obra que se esconde das aparências, que se revela mais perante o tema central e que vai tecendo uma intriga merecedora de duas horas de duração.

 

 

A Separação que o filme refere é inicialmente um divórcio entre as duas personagens principais, Nadir e Simin (personagens essas, desempenhadas magistralmente e convincentemente por Peyman Moadi e Leila Hatami), processualmente diferente das culturas ocidentais, passando previsivelmente para a batalha pela custódia da filha (aqui interpretada por Sarina Farhadi, curiosamente filha do realizador da obra). Todavia, A Separation não é uma fita que se resume a uma só premissa, o argumento temporariamente esquece gradualmente do objecto central e fermenta a trama seguinte que nos reflectirá sobre os nossos valores enquanto membros de uma sociedade, seja ela qual for. Mesmo marcados pela violência, religião, globalização, tradicionalismo, etnicismo ou qualquer outro factor. Uma grande obra que dificilmente deixará alguém indiferente. E porque no Irão se faz verdadeiro cinema!

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Peyman Moadi, Leila Hatami, Sarina Farhadi, Sareh Bayat

 

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 16:37
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8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
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