Data
Título
Take
24.9.15
24.9.15

Life.jpg

Vida para além da fotografia!

 

Life traz um certo paralelismo com a primeira obra de Anton Corbijn, ambos abordam dois ícones da rebeldia social, enquanto que em Control [ler crítica] a figura de destaque é o vocalista da banda Joy Divison, Ian Curtis, nesta obra é James Dean, muito antes de se tornar no rebelde sem causa de Nicholas Ray. Porém, não é pelas similaridades das suas personalidades apresentadas que a ligação entre as duas obras persiste, mas sim a fotografia como o vector de ambas as narrativas.

 

1133715.jpg

 

Corbijn, o fotógrafo holandês agora convertido num dos mais promissores cineastas do nosso tempo, espelhou o toque fotográfico e o apelo estético em Control (2007), onde recria a capa de uma das mais celebres fotografias de Ian Curtis para o resto da fita, revelando o seu afecto não só pelo estilo, mas pelas milhares de palavras detidas e invocadas pela imagem. Em Life, onde aborda a relação entre o fotógrafo freelancer, Dennis Stock, e do actor em ascensão, James Dean, a fotografia não é reproduzida como um enraizamento, aliás aqui o foco encontra-se do outro lado oposto da lente, não no fotografado, mas sim do fotógrafo. Neste aspecto, Corbijn revela-se mais íntimo e confiante, mesmo que para tal e visto tratar-se de uma perspectiva fora de lente, Life é isente de qualquer toque estético na sua fotografia.

 

file_612345_life-movie-trailer.jpg

 

Aliás, a sua capa de "enésima biografia cinematográfica" poderá soar como uma "faca de dois gumes", se por um lado o cineasta pretende requisitar tal género para qualquer nesta a sua experiência enquanto fotógrafo e a suas relações com os modelos expostos, através da celebre história desta cumplicidade, por outro, limita-se a centrar um filme na sua narrativa e não na sua apelação estética e visual. É, apesar do paralelismo, o afastamento há muito adivinhado de Control, a emancipação enquanto cineasta e a isenção da plasticidade que o seu cinema poderia se tornar, mesmo que isso sacrifique a sua prestada alma. Talvez sem esse factor, seja possível ser levado a sério nesta sua demanda crítica ao registo hollywoodesco, até mesmo o sistema de estúdio não está a salvo da caracterização oportunista aqui "pronta a disparar", e igualmente ácida.

 

LifeBTS.jpg

 

Contudo, Life, apesar das suas virtudes enquanto pedaço da carreira cada vez mais ascensível de Corbijn, é um filme com demasiadas correntes ao cinema que se propõe a criticar, ou simplesmente homenagear. A sua linear exposição quanto biografia, ou narrativa de factos históricos, o coloco numa posição um pouco constrangedora, enquanto cinema de criação, nada de novo, nem mesmo como biopic é nos aqui apresentado. A juntar a isto, temos um Robert Pattinson não convincente enquanto Dennis Stock, nem mesmo como alusão própria do realizador/ fotógrafo.

 

premiere-life---anton-corbijn.jpg

Por outro lado Dane DeHaan mimetiza um Dean natural, mas demasiado fragmentado por uma narrativa convencional que centra numa relação com mais sugestões que certezas, infelizmente nunca desafiadas nesta transposição para o grande ecrã. Ficou longe de ser um grande filme, Life é uma obra com alguma personalidade em teoria, mas que na prática é demasiado fragilizado. Eis a obra menor de Anton Corbijn.

 

Real.: Anton Corbijn / Int.: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Ben Kingsley, Peter Lucas, Lauren Gallagher, Joel Edgerton

 

transferir (1).jpg

 

Ler críticas de outros filmes de Anton Corbijn

A Most Wanted Man (2014)

The American (2010)

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 02:42
link do post | comentar | partilhar

13.8.14

Philip Seymour Hoffman já não mora aqui!

 

Dizem as más línguas mais esotéricas que durante a rodagem de A Most Wanted Man, Philip Seymour Hoffman sentia estar cada vez mais próximo da morte, oferecendo assim uma certa aura sombria e amargurada à sua personagem. Enfim, longe desse efeito sobrenatural que a obra parece ter adquirido com a morte prematura do galardoado actor de Capote, é bem verdade que o seu desempenho, como um espião alemão que vê num imigrante checheno a oportunidade de capturar um cobiçado terrorista, é notável e provavelmente um dos melhores que o actor nos deu durante a sua invejável e diversificada carreira.

 

 

Esta afirmação poderá soar como um exagero e até mesmo influência do triste fim do protagonista, mas Hoffman interpreta-a com a sua habitual capa camaleônica, um frio e desapontado espião de John le Carré (o mesmo autor do elegante e elogiado livro Tinker Tailor Soldier Spy, também ele convertido a produção cinematográfica). Este é um homem vicioso em fracassos que tenta provar, por uma última vez, a si e a não só, que é capaz de triunfos e muito mais - em confiar em alguém. Tal como qualquer conto de Le Carré, a confiança é a base de toda a intriga, mas também o seu ponto mais frágil, sendo constantemente questionada. Com uma astúcia invulgar mesmo para o imaginário da espionagem, A Most Wanted Man é servido por uma ambiguidade sem igual, onde um universo povoado por personagens sinistras é constantemente desafiado.

 


Todo este jogo calculista poderia soar como qualquer episódio de James Bond e seus congéneres, mas o filme de Anton Corbijn possui uma paciência cuidada e fortalecedora à teia de suspense que a fita admiravelmente consegue tecer. A Most Wanted Man é o tipo de obra que não se destaca pela sua exposição narrativa, demasiado subtil, mas pelos seus diálogos, pela forma como dispõe os dilemas sugeridos e pela orquestração do seu clima restringido que "explode" espontaneamente sem nos darmos conta. E é então que surge Philip Seymour Hoffman, com o seu constante olhar irónico para com a estrutura hierárquica e burocracia. Ele lidera, e muito bem, um elenco competente que vai desde uma morena Robin Wright, a uma Rachel McAdams em grande forma, Homayoun Ershadi (Ta'm e Guilass: O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami) e a estreia de Nina Hoss, a musa de Christian Petzold, numa produção norte americana.

 

 

Assim, vale a pena assistir A Most Wanted Man, o trabalho póstumo de Philip Seymour Hoffman, talvez um dos maiores atores da sua geração. Contudo, pede-se que não se encare o novo trabalho de Anton Corbijn numa retrospectiva da carreira do actor, pois isso seria desvalorizar uma obra com os seus próprios tributos. Em suma, este é um thriller que merece brilhar por conta própria. E o mesmo se pode dizer do próprio Anton Corbijn!

 

Real.: Anton Corbijn / Int.: Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Grigoriy Dobrygin, Nina Hoss, Robin Wright, Willem Dafoe, Homayoun Ershadi

 

 

Ver Também

Control (2007)

The American (2010)

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:07
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

12.8.14
12.8.14

" She's Lost Control"

 

O fotografo holandês, Anton Corbijn, abordou Control, a sua primeira experiência cinematográfica, numa homenagem ao ensaio fotográfico de Kevin Cummins, cujas suas fotografias imortalizaram a figura de Ian Curtis, o carismático vocalista dos Joy Divison, como um exemplo de estilo genuinamente pop e de rebeldia para futuras gerações. De um fotografo para outro, Corbijn apenas esboçou uma sequência a esse mesmo trabalho fotográfico, dando-lhes vida, personalidade e sobretudo, arrancando as suas memórias parasitadas.

 

 

Tal como uma crença dos índios amazónicos, a fotografia, um engenho diabólico que furta almas, sendo esse o processo que aconteceu com Curtis por Cummins, assim o agora virado cineasta teve a árdua tarefa de libertar essa alma aprisionada e joga-la livremente para o abismo da sua própria condenação como ser existencial. Porém este trabalho artístico não poderia estar completo sem uma tela para ser exposta. Essa mesma tela funciona como a requisição de outras memórias, as recordações de quem viveu perto com o influente músico e que por vias da sua existência frágil tornou-se também numa condenada. Falo obviamente da ex-mulher de Ian Curtis, Deborah Curtis, e o seu livro "Touching from a Distance", o qual Control se baseia. As vivências de uma mulher que força em ser amada por um ídolo caído. Uma queda que esta avizinhara muito antes da sua ascensão.

 

 

Por fim, coube a “ingrata” tarefa de preencher essas mesmos almas "vagabundas", Anton Corbijn corteja os seus respectivos actores em encarnar as suas figuras sem que se percam em esquematizações que poderia guiar Control aos lugares comuns da biopic musical. Os desempenhos são valiosos, mas nada que transcenda a narrativa ou que se destaca do trabalho gráfico e estilístico do autor, ao invés disso sente-se uma perfeita harmonia destes com a profunda pintura que a obra ostenta. Sim, Sam Riley encontra-se espantoso na pele do vocalista e Samatha Morton indiscutivelmente quebradiça em ser o mártir deste dilemático percurso até a uma tragédia comum. Contudo e tirando Toby Kebbell, o resto do elenco secundário vagueia como “fantasmas” em busca de uma luz alojada ao fundo do túnel, a salvação, mas privadas da mesma bênção, sendo que em Control não se trata de um retrato de uma banda, mas sim do homem que a ergueu.

 

 

A beleza, o estilo, a melancolia, tudo são elementos que formam um quadro que caminha longinquamente do perfeito mas não da iconoclastia do seu ser. Um filme biográfico único e verdadeiramente apaixonante. Para finalizar fica a questão no ar – como é que um conjunto de fotos consegue delinear uma retrospectiva de um homem em busca da sua tardia redenção? Uma cativante estreia cinematográfica! 

 

"Existence. Well, what does it matter? I exist on the best terms I can. The past is now part of my future. The present is well out of hand."

 

Real.: Anton Corbijn / Samantha Morton, Sam Riley, Alexandra Maria Lara, Joe Anderson, Toby Kebbell, Craig Parkinson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Andrew Sheridan, Robert Shelly, Matthew McNulty, Ben Naylor

 

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 18:45
link do post | comentar | partilhar

26.12.10

Mr. Butterfly!

 

Têm-se declarando ultimamente que George Clooney sabe realmente escolher os seus papéis, mostra conhecimento aos realizadores que deve trabalhar, que géneros se deve submeter e quais as personagens se deve comportar. O actor que brilhou em Ocean’s Eleven de Steven Soderbergh Three Kings de David O’Russell (num tempo em que jogava pelo seguro do êxito), muitas vezes comparado com o mítico actor Cary Grant, lançou-se pelas teias do artístico, sendo para além dos filmes de teor independente ou de autor que tem participado, exibiu ainda a sua veia de realizador com Confessions of a Dangerous Mind e Good Night and Good Luck. Neste ultimo chegou a ser indicado ao Óscar, um retrato reflector de uma América sob paranóia, um denso e bem orquestrado filme que contraria tudo aquilo que poderiam apelidar ou prever nos contagiosos casos de “actores com mania de autores”.

 

 

Sendo na verdade um dos homens mais influentes de Hollywood, George Clooney é a estrela da nova fita de Anton Corbijn, o realizador do aclamado Control que pairava como um biopic alternativo do vocalista dos Joy Division, Ian Curtis. A fita chama-se The American, como referencia à alcunha que a personagem de Clooney adquiriu, um hitman profissional que encontra refúgio numa pequena cidade italiana.

 

 

The American é quase um impostor, não no mau sentido, mas a verdade é que se faz passar por aquilo que não é e que nem se esforça ser, ou seja, tirando as teimas, a fita de Corbijn não se digna a ser nenhum primo afastado de Jason Bourne  ou até mesmo da adaptação cinematográfica do videojogo Hitman, já que referimos assassinos sob contratos. O que The American representa é um bolero do cinema de acção. Um thriller que invoca o drama humano do seu protagonista (Clooney encontra-se imaculado no seu papel) e realça uma reflexão às moralidades de um hitman, como um retrato da sua vida solitária e ausente de elos. Porém se o protagonista é humano o suficiente para elevar esta fita alternativa de acção para outro nível, infelizmente parece ser o único personagem num mosaico mal construído de secundários que mimetizam somente a figuração.

 

 

Sendo a sua narrativa lenta, detalhada e falsamente enganadora quanto ao clímax, The American poderá inequivocamente desiludir espectadores, que tal como havia referido, procuram um acompanhamento para as suas pipocas, mas surpreenderá quem julga estar perante em tal facto. Anton Corbijn consegue articular um modelo clássico mas longe da influência hollywoodesca, tornando neste supostamente exemplar de acção num dos mais estimulantes filmes independente norte americanos. Um outsider do seu próprio sistema.

 

"All the sheep in my flock are dear to me. But some are dear the most. Especially those that have lost their way."

 

O melhor – a lentidão pormenorizada da narrativa

O pior – não se destacar quanto às personagens secundárias

 

Real.: Anton Corbijn / Int.: George Clooney, Irina Björklund, Lars Hjelm

 

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 14:41
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Life (2015)

A Most Wanted Man (2014)

Control (2007)

The American (2010)

últ. comentários
Este gênero nunca foi um dos meus preferidos, póre...
Concordo, "Índice Médio de Felicidade" e "Malapata...
O "São Jorge" é até agora o meu preferido, mantend...
Vi hoje, Robert Pattinson no seu melhor! Que venha...
Uma das maiores surpresas do ano, mesmo sendo do W...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO