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23.3.17

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O meu nome não é Ninguém … é Courgette!

 

Icare, mais conhecido como Courgette, é um rapaz de nove anos cujo infortúnio bateu-lhe à porta, a sua mãe morre. A criança é assim transportada para um orfanato onde tentará conviver com outros na mesma situação, ou não, que ele. Sob o olhar atencioso de Raymond, um policial que encarregou-se do seu caso, Courgette tentará aprender por entre a sua vida caótica encontrar a felicidade nas pequenas coisas.

 

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A primeira longa-metragem do suíço Claude Barras é uma aventura espirituosa que se assume como uma afronta ao legado mercantil da Disney, através de uma duração com mais de uma hora (não mais que isso), consegue construir uma trama igualmente emocional sem o utensílio de conflitos demarcados nem da requisição de moralidades maniqueístas. Trata-se de um filme sobre crianças, ao contrário da tendência de filmes para criança, uma obra honesta nas ambições dos seus "heróis" e verdadeiramente presente nestas.

 

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Courgette, a figura, capta a nossa atenção pelo seu jeito doce, inocente e Claude Barras, sob a colaboração de Céline Sciamma (autora do argumento adaptado de uma obra de Gille Paris), invocam devidamente essa ingenuidade digna de enfant. No meio desse olhar deliciado e subjugado aos efeitos de um tom intrinsecamente agridoce, Ma Vie de Courgette é aquilo que poderemos identificar como dois em um. Uma animação stop-motion que encara o infortúnio como um ciclo vivente e despejado (sem vozes panfletárias) na superação, e ao mesmo tempo, uma subversiva visão para com o sistema de tutor educacional e de adopção.

 

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Em tempos de Bambi, onde a morte é vista como um trauma incontornável mas parte integra da vida (tal como ela é sem floreados) Ma Vie de Courgette poderia ter-se triunfado por entre a audiência mais jovem, mesmo com as claras sugestões que encontramos em determinadas personagens, mas numa época como aquela que se vive hoje, onde os nossos filhos estão sob uma constante, e por vezes alarmante, vigilância e protecção (e nisso reflecte a qualidade dos desenhos animados que assistem), o filme de Claude Barras apenas será restringido a um público adulto.

 

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Porém, espera-se que haja um passa-a-palavra, Ma Vie de Courgette, que teve a ventura de estrear em Cannes com algum entusiasmo e a nomeação ao Óscar ao lado de outros concorrentes de peso como Kubo and the Two Strings e Le Tortue Rouge (o prémio, que infelizmente, caiu nas mãos do mais previsível e formatado candidato), é um mimo para a nossa sensibilidade. Um mimo acima do que aquilo que realmente merecemos!

 

Filme visualizado na 16ª Monstra: Festival Internacional de Animação de Lisboa

 

Real.: Claude Barras / Int.: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 21:42
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6.3.17

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O cavaleiro que desafiou o dragão!

 

Mais do que a construção de um martírio e a procura de um mártir, São Jorge nos invoca episódios silenciados, a austeridade que surgiu de arrasto pela passagem da Troika, e a revelação de uma selva de asfalto, onde a primitiva regra de sobrevivência se faz ouvir.

 

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Nuno Lopes, que de anjo nada tem, é um desses seres que planeia cada dia como o último. Ligado a uma carreira falhada no pugilismo, consegue um trabalho obscuro como colector de dívidas. Um cargo que embate de forma consciente com as morais que imperam nesta sua jornada pelos confins da inserção social e da mordaz crítica política (sem ser obviamente evidente). Traços que levam o nosso protagonista novamente a assumir-se como vítima de mais uma busca desesperada, sendo acompanhado pela mesma "câmara incomoda" de há 11 anos , em Alice.

 

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Marco Martins é esse maestro "repetente", e a orquestra, essa, lentamente liberta o seu furtivo crescendo, para ser depois seduzido a um perturbador fade out. Este é o cinema que o romeno Cristian Mungiu sempre procurou, a cumplicidade do realismo formal com o juízo de valores, maleável à nossa consciência politica e idealista, ou até a sugestiva perturbação que se ressalta como stalker, tão próprio da mão de Haneke. Pois, mas o estilo de Marco Martins apenas deduz-nos a essas referências, porque existe nele uma veia profundamente portuguesa que vai desde aquele pessimismo orgulhoso, àquela infelicidade longe do fim e sobretudo da espera, a eterna  frase do "dia melhor que nunca vem". Contudo, existe uma declaração que afasta São Jorge do formalismo do cinema nacional.

 

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Uma voz política que parece mais consciente que o percurso do protagonista (... e que protagonista!) confrontando-nos com as mais demarcadas morais. Mas não pensem que daqui encontraremos um filme moralista, antes sim, um filme sobre morais. Perturbador, desencantado e ... um poderoso retrato de violência social.

 

Real.: Marcos Martins / Int.: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Gonçalo Waddington, Adriano Luz, Beatriz Batarda

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:49
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5.3.17
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A antologia do biopic!

 

Em Neruda, a promessa de uma biopic convencional do poeta e activista politico é em vão. Pablo Larraín esmiúça-se sobre outro Pablo, e através desta união invoca uma liberdade que não parece encontrar lugar no subgénero. É como se Neruda fosse idealizado pelo próprio Neruda, uma evasão ficcionada que facilmente se encontraria no imaginário do homenageado, mais do que a visão do espectador.

 

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Existe nesta metragem uma desfragmentação de todos os códigos assim aprendidos e instantaneamente abandonados pelo realizador desde o muito consensual Não, ou até do toque mais intimista e reservado de El Clube. Em Neruda o que está em jogo é a narração, mais do que a própria narrativa, quanto à fidelidade histórica, non troppo, o ficcionar de vidas estabelecidas, inserindo neste jogo personagens inexistentes e explicitar a biografia da existência memorial, acima da existência física. Sim, Larraín joga-se aos retalhos com a ferocidade de um esquartejador. O golpear de diálogos em prol de um raccord soluçante, os planos reféns de uma profundidade quase "velazquiana", a falsa narração de personagens ausentes e até mesmo um twist que desafia a própria natureza do registo. Tudo com a graça e encanto de um elenco capaz de disfarçar esta tão deliciosa farsa (a estrutura policial) sob condimentos políticos, e deveras de salientar, acidamente politizados.

 

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Luis Gnecco apresenta essa figura de um ego do tamanho do Mundo [Neruda], o burguês que secretamente integra o partido comunista, como uma força inesperada no combate a um regime, onde a sua palavra funciona como a mais poderosa das suas armas. Seguindo de perto, um Gael Garcia Bernal que o persegue sem perceber que como perseguidor converte-se no mais indefeso perseguido. Egocentrismo e ciclos experimentais de não-lugares e não-personagens, tópicos que afrontam em Neruda, e aos dois Pablos, a anti-sintetização da memória, não como uma formatização, mas como uma página em branco a merecer da escritura.

 

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Enquanto isso, indicamos um dos grandes equívocos das distribuidoras, lançar Neruda depois de Jackie (visto que o filme foi produzido antes da biografia com Natalie Portman), o esboço da sua oficializada entrada no mercado de Hollywood. Mesmo assim, Neruda é digno do seu próprio feito. 

 

Real.: Pablo Larraín / Int.: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:56
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22.1.17
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No vale das "sereias"!

 

Cláudia Varejão prometeu-nos sereias, e à sua maneira, ofereceu-nos um grupo delas neste Ama-San (vencedor da Competição Portuguesa do Doclisboa 2016). Uma comunidade tradicional de mulheres que aventuram-se no mar para sustentar famílias, uma visão que tem seguido séculos e séculos de História nipónica.

 

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O fio tecido que protege os avanços tecnológicos dos seus mergulhos, são as réstias dessa tradição abraçada com a sempre avante modernidade, mas nem por isso que o estatuto destas deixa-se desvanecer pela mudança dos tempos. Varejão compara-as com as "mulheres de Caxinas", o exemplo português mais próximo desta sociedade falada no feminino, para depois aventurar num ensaio antropológico que interliga os dois estados destas figuras; o Mar, esse berço de vida que as envolve em tamanha doutrina, e o mundo civil, a família que têm à sua espera para afeiçoar.

 

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Tal como o Japão, um país moderno que caminha lado a lado com a sua herança tradicional, Ama-San cria um paralelismo com a nação para depois seguir em "puro mergulho" num retrato de gestos e de costuras familiares. Mas a realizadora consegue, invejavelmente, com toda esta jornada a um Oriente pouco conhecido (a última vez que vimos esta comunidade no ecrã foi em 2009 numa curta-metragem de Amie Williams), uma estrutura narrativa quase ficcional no seio desta vertente de registo documental. Com a complementação das sequências submarinas que captam no espectador a sua faceta mais "zen".

 

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No geral, Varejão cumpre um belíssimo filme, contemplativo e nada apressado em "inundar" as audiências, faze-las sentir parte desta longa família, tão japonesa, com certeza. Sim, prometeram-nos sereias e aquilo que acabaram por nos dar foi o que de mais próximo temos destas mitológicas sirenias. Todavia, isto não se resume a alternativas, Ama-San é realmente um filme pelo vale a pena cedermos à sua delicada sedução.

 

Real.: Cláudia Varejão / Int.: Mayumi Mitsuhashi, Masumi Shibahara, Matsumi Koiso

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
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17.1.17
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Faz-se o Silêncio de Deus … e de Scorsese!

 

Será Silence (Silêncio) a esperada epopeia da carreira de Martin Scorsese? O projecto constantemente adiado, por diversas vezes caracterizado como o “filme de uma vida” para o nosso movie brat, resultou numa obra que falha os objectivos do cinema mais ocidental.

 

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Scorsese, actualmente detentor de uma liberdade vivida nos grandes estúdios (e The Wolf of Wall Street foi o exemplo dessa “delinquência criativa”), afasta-se completamente do círculo fechado do chamado “Filme de Óscares” e aposta num storytelling sobretudo oriental. Aliás existem referências, planos “copiados” e uma fotografia que nos situa no foco do cinema nipónico, passando por Mizoguchi, Ozu e claro, visto o realizador ser um assumido admirador, Kurosawa. Talvez essa panóplia cinéfila nos satisfaça como o prazer de uma memória arrastada numa sétima arte fora dos habitués de Hollywood.

 

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Mas Silêncio reserva-nos mais que uma loja de souvenirs. É um filme sobre a fé, concebendo (da mesma maneira que The Last Temptation of Christ o fizera em 1988) um autêntico lobo sob vestes de cordeiro.  Curiosamente, o primeiro visionamento de Silêncio ocorreu no Vaticano sob o olhar de cardeais, bispos, jesuítas, e por último e não menos importante, o Papa Francisco, que declarou o seu agrado com o resultado final. Mesmo sendo um filme de fé (Martin Scorsese é um homem crente), Silêncio apodera-se de uma história de época (baseado no livro de Shûsaku Endô, anteriormente adaptado por Masahiro Shinoda em 1971) para entranhar-se como um statement crítico às bases das instituições religiosas, um enredo que se inicia com a viagem de dois padres jesuítas portugueses a um Japão feudal que teima em não ser “baptizado”.

 

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A perspectiva cristã evidencia-se como uma “pala”, cozendo-se em tendências colonialistas e obtendo como resposta a selvajaria de uma civilização do Oriente. Andrew Garfield (que aprende japonês, mas nunca uma palavra portuguesa com excepção de “Paraíso”) assume o protagonismo em mais uma “cruzada” após o fracasso de Hacksaw Ridge, o filme antiético do extremista Mel Gibson. A sua personagem em Silêncio serve como uma catarse às entidades heróicas que hoje tendem em posicionar-se na base do cinema norte-americano. Porém, a câmara não filma tal heroísmo.  Scorsese recusa a promover o seu catolicismo materializado. Passando por um efeito “desastreà lá Herzog, sentimos neste primeiro terço, os toques de uma animalidade produtiva, algo que possa ser equiparado a um Fitzcarraldo.

 

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No segundo tomo, somos envolvidos em personagens nipónicas budistas que, gradualmente, rasgam os seus disfarces de antagonistas sádicos. A partir deste momento o confronto entre as duas crenças levam o espectador a uma tremenda “faca de dois gumes”: De um lado, os métodos primitivos de induzir a fé instantânea e, do outro, a arrogância do nosso herói em "espalhar a sua verdade".

 

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A caminho recto do desfecho é que contactamos com a dimensão crente de Scorsese que se esconde num filme multi-disfarçado, nada contra a essas declarações de fé. Aliás, a Humanidade de hoje é incapaz de viver longe de tamanhas convenções afectuosas, idealistas e até politicas ("a religião é o ópio do povo" como dizia Karl Marx). O que de impressionante Silêncio possui na sua jornada é a sua fidelidade com um templant meramente oriental, a evasão ao evangelismo e a concretização de uma fé unificada.

 

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"Step on me, my Child", sussurra Jesus num verdadeiro acto de aparição, ligando este filme fora do seu tempo, seco e empestado pelas inúmeras referências (hoje incontornáveis), ao seu A The Last Temptation of Christ, umbilicalmente unindo a mistificação do primeiro com a desmistificação do martírio do segundo. O sofrimento em via-sacra de Garfield, as suas arrogantes aspirações em tornar-se num Messias de uma Igreja megalómana, pode muito bem tecer o paralelismo com a sedução de Satanás perante o Nazareno no seu retiro no Deserto, na dita obra de 1988.

 

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Um Admirável Velho Mundo sob a sonoridade minimalista da dupla Kluge, num dos maiores injustiçados da award season. Já agora, fica a recomendação da semi-versão portuguesa, Os Olhos da Ásia, de João Mário Grilo, datado de 1997.

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciarán Hinds, Issei Ogata, Tadanobu Asano

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 17:40
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12.1.17

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Chamar-lhe "coming to age" é pouco!

 

"O Cinema é a arte do sensível, e não só do visível" já dizia Jacques Rancière num dos seus ensaios sobre a obra de Béla Tarr. Talvez seja essa a ligação emocional que traz algum sabor nostálgico e agridoce a esta nova obra de Ira Sachs, um realizador que tem merecido a atenção da crítica e cinefilia desde Love is Strange.

 

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Enquanto o enredo dessa obra seguia um casal homossexual pronto a oficializar a sua relação de quarenta e poucos anos, em The Little Men (Homenzinhos), o intuindo da fraternidade não consanguínea volta a ser destacada, os afetos sob o signo inocente de uma amizade entre duas crianças, cujos progenitores iniciam um confronto de interesses.

 

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É um registo ameno, simplista na sua concepção e na forma como os actores induzem nos espaços. Aqui, os apogeus emocionais e os overactings que o espectador mais mainstream gosta de recordar, é posto de fora. O que conta é um sentimentalismo contido por um elenco que se funde nestas personagens, que tão bem poderiam partilhar a nossa realidade. Ira Sachs prima por esse “keep it simple”, usufrui de uma tendência quase proustiana em relação à juventude, galgando pela tenra carne do elenco jovem, servindo-os de condutor para uma perspectiva de "dois gumes" por entre mundos não combinados. O lado adulto, imperceptível para os nossos protagonistas, e os anos verdes, negligenciados por adultos inseridos em vórtices existenciais e ideológicos.

 

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Por um lado, Sachs vem beber da mesma água dos grandes exemplos do cinema de Linklater, mas ao contrário do registo sensorial de um Dazed and Confused (Juventude Inconsciente), por exemplo, vem culminado dum verdadeiro conto moral com início no incógnito e com desfecho incerto num futuro ainda por prescrever. Sem mais demoras, saliento que poderemos estar presentes num dos melhores exemplos cinematográficos do ano. Um pequeno grande filme!

 

Real.: Ira Sachs / Int.: Greg Kinnear, Jennifer Ehle, Paulina García, Theo Taplitz, Michael Barbieri, Alfred Molina

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:31
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20.11.16

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"De pequenino torce o pepino!"

 

O actor de 26 anos, Brady Corbet, joga de "cabeça" para a cadeira de realização e a sua proeza de transmitir os elos comuns entre as diferentes infâncias de ditadores é por si, um acto de tirar o chapéu. Esta sua primeira longa-metragem é um perfeito exemplo de como o terror é um género mestiço, sem idiossincrasias que o podem identificar num "só estalo". Com claras influências de The Omen: O Génio de Mal (Richard Donner, 1976) e de Rosemary's Baby: A Semente do Diabo (Roman Polansky, 1968), The Childhood of a Leader (A Infância de um Líder) é um corte dramático que transmite uma atmosfera em total sufoco, onde a tragédia é já uma premonição real e profetizada, e nela as personagens lutam ao sabor dos ventos de mau agoiro para contornar tal marcante destino.

 

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Uma criança de perigosos ideais, sob um evidente rancor e golpes vingativos em pleno crescimento no seu intimo, Brady Corbet dirige Tom Sweet (o nome revela-se numa paródia jocosa à sua personagem), que maneja todo este ódio na criação de um "pequeno monstrito" em ascensão para uma ameaça global. No centro deste ódio proeminente, encontra-se Bérénice Bejo num papel que partilha a mesma repudia que a personagem de Sweet, esclarecendo que em cada "psicopata" existe uma ligação umbilical com a sua matriarca. O confronto entre as duas forças faz-se sentir numa narrativa dilacerada em capítulos recorrentes a "birras". O ringue está montado, o espectador é o testemunho desta "origem" maldita com livre inspiração num conto de Sartre, que nos transporta para um ambiente de negligência afectuosa e disfuncional, o berço de um perverso "pensador", que analisa cuidadosamente a sua insaciável vedetta.  

 

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Se por vezes a câmara de Corbet revela genialidade com tendências suicidas (existe um dilema à lá Antonioni na sua sequência final, onde esta parece ser autónoma do seu manejador), é na banda sonora composta por Scott Walker que se contrai todo essa suspeita crescente. Apesar da "burguesia" envolto desta infância, tendo em conta que os grandes ditadores e infames lideres não obtiveram tais condições nos seus "verdes anos", A Infância de um Líder é,  apesar disso, uma das mais entusiasmantes e corajosas conversões de realização vista nos últimos anos. Corbet foge a "sete pés" do destino marcado dos actores convertidos a directores e sustenta um filme verdadeiramente assombroso, e o refere da forma mais sugestiva e misteriosa possível.

 

Real.: Brady Corbet / Int.: Tom Sweet, Bérénice Bejo, Robert Pattinson, Liam Cunnigham, Stacy Martin

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:10
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12.11.16
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"Suícidio on Live"

 

Antonio Campos repesca um dos episódios mais trágicos da televisão norte-americana - o suicídio em directo da pivô e jornalista Christine Chubbuck - para apurar as causas que levaram esta mulher a cometer acto tão grotesco.

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A composição desta personagem misteriosa deve-se muito a Rebecca Hall que subjuga-se a este tormento psicológico num filme que aposta desde cedo na iminência da catástrofe. Obviamente, que o espectador sabe como terminará esta aventura pessoal, assim como um certo filme de James Cameron que "flutuou" nos box-office em 1997, mas o aqui em causa não é um filme válido pelo seu desfecho, e sim, um episódio recorrido em decadência humana, uma tragédia grega que joga o meta-palco da sua criação.  

 

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Campos sempre teve um "fraquinho" por personagens torturadas, absorvidas por um ambiente em total decomposição, assim como o destino destas. Rebeca Hall cria em Christine um derradeiro duelo intrínseco entre uma réstia de esperança, uma salvação que o espectador aguarda desesperadamente, porém, sabendo à partida que tudo é em vão. Sim, este é o tipo de obra que qualquer guia televisivo expõe o aviso do "anti-feel good movie", o cinema que reflecte o quão frágeis nós somos, o quão vitimas somos dos nosso próprios objectivos profissionais, ao mesmo tempo, Antonio Campos dá-nos certas luzes sobre a condição e evolução da comunicação social, em certa parte, a forma como o jornalismo adaptou-se às audiências e não o oposto.

 

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Existe aqui, evidente inspiração aos dotes dramáticos de Network, de Sidney Lumet, à hipocrisia implementada pela "caixinha mágica" e a sua interacção com o exterior. Contudo, como biopic, se é que Christine anseia afirmar-se como tal, o filme tende em afastar-se desses lugares comuns de agenda award season, apostando da ênfase dramática e na criatividade desse sentido nas suas personagens. A depressão é um efeito secundário e o complexo desempenho de Rebecca Hall a principal medida.   

 

"Yes, but …"

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Antonio Campos / Int.: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:55
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27.10.16

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Preservando memórias!

 

Deixem o entretenimento de lado, a faceta artística e experimental decidida a quebrar barreiras da transcendência visual e sonora, e encarem o seguinte - o Cinema é também um registo de memórias. Uma "cápsula do tempo" que congela esse mesmo Tempo, para ser alvo de descobertas para futuras gerações. O que somos? O que vivemos? Qual a nossa real natureza? Em A German Life nenhuma dessas perguntas será por fim respondida, mas o ensaio de preservação de pedaço de História é aqui invocada em todo o seu esplendor. Existe neste documentário uma aura passiva, de não alterar o rumo dessa mesma memória, mas sim citá-la com as mesmas palavras proferidas por quem as realmente viveu, como vivente desses mesmos episódios temos Brunhilde Pomsel.

 

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Quem é esta mulher? Perguntam vocês. O que de interessante tem a sua vida para merecer tal registo? O interesse não vem aqui ao caso, Pomsel não é um "animal enclausurado" exibido numa colecção zoológica, é sim uma mulher disposta a narrar as suas maiores "humilhações". Humilhações, essas, que a própria descarta de culpas e inocências - "vivíamos numa época diferente", "… para condenarem a mim, primeiro condenariam todo o povo alemão". Brunhilde Pomsel foi a estenográfica do Departamento de Propaganda Nazi, a mulher que fora constantemente próxima de um dos mais odiados homens de toda a "pegada" deixada pela Humanidade, Joseph Goebbels. O homem em questão foi um dos maiores responsáveis pela propagação dos ideais do Partido Nazista, e um dos braços direitos do próprio Adolf Hitler. O discurso de Pomsel, por outro lado, não tende em denunciar directamente todo o trabalho exposto por estes "homens fardados", mas sim descrever os sentimentos experienciados num país fechado, sob forte influência politica de quem culminou uma Guerra sem precedentes.

 

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São quatro, os realizadores deste A German Life, um quarteto de mentes que serviram como investigadores do background de Brunhilde Pomsel, aqui exposta a uma confissão sem fim. Visualmente, a fotografia de tons cinzento salienta o rosto envelhecido da protagonista (aplausos para Frank Van Vught). Este é um rosto de 103 anos, as rugas são como "cicatrizes" marcadas pelo maior dos inimigos, o Tempo. E antes que o Tempo faça das suas, deixando as memórias residente de Brunhilde Pomsel no puro esquecimento, os realizadores Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer tentaram aqui uma "corrida" contra esse mesmo némesis. Explorar e extrair de Pomsel, as relevantes palavras para um futuro próximo.

 

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A German Life ostenta uma brilhante fotografia, como já havia referido, que atribui-lhe uma sensação de platina a um prolongado "talking head", uma entrevista ditada com emoção e comoção de quem é subjugado, intercalado com propaganda anti-nazi e até mesmo simpatizante nazi (faltava mais a fundo na própria propaganda do Departamento de Pomsel). Não tendo uma estrutura brilhante na sua concepção como documentário, A German Life vive como um documento sem culpas, nem denúncias do foro moral a uma, acima de tudo, cidadã de um período negro da nossa História. Aqui, a importância das palavras anexadas a memórias à beira da extinção, valem mais que ressentimentos ou decepções que aqui poderiam extrair.

 

"A Verdade é o maior inimigo do Estado." Joseph Goebbels

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer, Florian Weigensamer / Int.: Brunhilde Pomsel

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 22:31
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17.10.16

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O Santo Rodrigues pregando às Aves!

 

Por mais que se goste ou que se odeie, João Pedro Rodrigues é já uma referência no panorama actual da cinematografia portuguesa. Em O Ornitólogo, o maior destaque será o Prémio de Realização que lhe fora atribuído na mais recente edição do Festival de Locarno, mas apesar do brilho reluzente do prémio (e visto que os portugueses adoram condecorações), esta quinta longa-metragem merece sobretudo o apreço pela sua estética esotérica, um fascínio comum dos mortais que o realizador sempre havia assumido perante as pinturas sacras. A carnalidade, a espiritualidade e a sexualidade, segundo este, imprimidos nestas devotas ilustrações religiosas.

 

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Para muitos a profanidade, mas que para Rodrigues o "pontapé de entrada" para este seu mundo de autodescoberta, e novamente Santo António, como o santo padroeiro do nosso realizador (recordamos a sua curta A Manhã de Santo António) e o signo de chagas da sua mortal existência. A história arranca com um ornitólogo, Fernando, um observador de pássaros interpretado por Paul Hamy (Maryland), que a meio da sua acidental jornada descobre uma estranha entidade que reside no seu intimo, um "outro eu" apenas visualizado pelas aves que o agora o observam-no. Uma descida a um rio em busca das raras cegonhas negras levam-no a uma remota região onde espíritos enlouquecidos e um povo regido por folclores e tradições ancestrais convivem hostilmente.

 

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João Pedro Rodrigues afasta-se, claramente, do modo tradicional da narrativa, ou pelo menos o do perceptível mainstream, dirigindo este seu O Ornitólogo aos textos religiosos e aos passos deixados por Santo António, desde a sua pregação a peixes até ao seus dons de ressurreição. É de um existencialismo narcisista, este tom prescrito nesta "peregrinação" florestal, mas este seu egocentrismo vale como bênção perante a exposição submetida do seu ser enquanto realizador e ainda mais como homem. É um filme de aventuras pouco convencional, como fora referido, um caminho que não nos leva a nenhum ponto geográfico especifico, ao invés disso é o centro da alma e a fantasia sexualizada do nosso João Pedro Rodrigues o qual se concentra o destino. Este é o cinema de transformação pessoal, a metamorfose concretizada com uma sobriedade cinematográfica e ocupado por uma fotografia recorrente a um exotismo esotérico.

 

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Sim, a esta altura, o leitor já percebeu que este O Ornitólogo é um filme pessoal, uma daquelas vinculadas "raças" que muito apologista do dito "cinema comercial português" (ou lá se isso existir) despreza. O "filme para amigos", segundo estas vozes, porém, a verdade é que este produto de círculos fechados prevalece-nos como uma viagem e tanta a um fértil mundo de espiritualidades heréticas, onde a religião mais conservadora é apropriada pela libertinagem do ego, assim como a animalidade destas entidade marginais. Eis, novamente, o reencontro com a ligação umbilical entre Homem e Natureza que João Pedro Rodrigues parece cada vez mais tecer no seu cinema. Será cedo dizer que estamos perante no seu melhor trabalho?

 

Real.: João Pedro Rodrigues / Int.: João Pedro Rodrigues, Paul Hamy, Chan Suan

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:09
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8.9.16

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O pequeno herói!

 

É fácil ficarmos deslumbrados com a animação stop-motion oriunda dos estúdios Laika, aliás é porventura um cliché esses elogios escritos para este tipo de produção, e muito mais a recordação da “trabalheira” que estes gráficos implícitos no grande ecrã deram. Porém, Kubo and the Two Strings, para muitos a apropriação oriental do estúdio a um conto coming-to-age, é até à data o mais impressionante no registo estético (“If you must blink, do it now”), até porque a acção é um desafio à altura dos “bonecos de plasticina”, sem com isso existir qualquer sacrificio na arte narrativa.

 

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Facilmente estampado como o Filme de Animação do Ano, Kubo remete-nos à história de uma homónima criança de pai desconhecido que vive os seus dias de existência de maneira rotineira e martirologica. Passando pelo “pedinchar” aos habitantes da aldeia através das histórias mirabolantes que narra, tudo sob os enérgeticos acordes da sua viola de duas cordas, para no final, cuidar da sua demente mãe que constantemente o adverte para nunca permanecer fora do abrigo durante a noite. Mas como qualquer fábula, a promessa é quebrada e algo maquiavélico se revela nas sombras para capturar o nosso pequeno herói.

 

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Sim, é uma história sobretudo alicerçada à violência, artes marciais e sugestões do género, mas é no veio desse “arquétipo de desenhos animados matinais” que Kubo and the Two Strings disponibiliza uma mensagem pacifista, melancolicamente “ganchada” ao trágico destino do nosso herói. Por vezes não é a violência que conta mas para onde esta nos leva e nesse sentido, Kubo desvenda-se como um “pequeno tesouro”, dotado de coração e bravura em equilibrar um espectáculo destinado aos mais jovens mas igualmente gratificante para adultos e graúdos puderem maravilhar.

 

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A banda-sonora de Dario Marianelli também fortalece os propósitos emocionais desta rica e atmosférica história que tem tanto do nipónico folclore de Ronin, os samurais sem dono, ao estilo dos animes e do fulcral trabalho de Miyazaki, como do conto chinês, A Jornada para o Oeste. Concluindo, Laika Films aposta na maturidade e com isso sai triunfante.

 

“If you must blink, do it now.”

 

Real.: Travis Knight / Int.: Charlize Theron, Art Parkinson, Matthew McConaughey, George Takei, Ralph Fiennes, Rooney Mara, Cary-Hiroyuki Tagawa

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 02:32
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7.9.16
7.9.16

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Por entre um demoníaco caos!

 

Desde o primeiro momento que o espectador pressente um iminente caos. Todo o redor é estranho, indiferente e demasiado abrupto, até que por fim dá-se a verdadeira assombração. A juntar a isso, um casamento organizado no tempo de um viagem entre Inglaterra e Polónia, a união de facto que gradualmente torna-se num festival caótico, onde os espíritos, já muito moribundos, não querem ficar de fora do matrimónio, porque essa é a sua única oportunidade de pedir auxilio.

 

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A sensação de assistir Demon, o filme de Marcin Wrona, é idêntica a uma espreitadela a The Shinning, de Stanley Kubrick, a loucura vai tomando posição ao longo da intriga e o bizarro acontece em segundo plano, um filme por detrás do nosso filme. Mas não é somente  um paralelismo encontrado com a famosa obra com Jack Nicholson que nos deparamos, na realidade, não há que negar, Demon vai beber a água da mesma fonte, ora se o twist final tem muito de “replicado”, é na banda sonora que encontramos o elo mais tingivel, Krzysztof Penderecki, o compositor que havia trabalhado com Kubrick em 1980 em tal partitura, faz aqui a sua colaboração.

 

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Coincidências? Não creio. Contudo, as referências não terminam aqui, na carreira de Penderecki existe outro filme que merece a menção neste olhar a Demon, The Exorcist. Em relação ao celebrizado filme de William Friedkin a questão não está no exorcismo, nem em possessões (no caso de Demon a variação é judaica), mas sim na manifestação demoníaca que a entidade possuída parece comportar na presença de multidões até chegarmos a um embate ideológico entre ciência medicinal e teologia.

 

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Wrona pactua essa enésima incorporação espiritual com um humor negro corrosivo e um surrealismo que vai ganhando dimensão, maneirismos quase dignos do cinema imparável e inventivo da Nova Vaga e dos seus predecessores. Depois temos Itay Tiran a conseguir uma duplicidade invejável para com o ritmo do filme.

 

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Hilariantemente diabólico este Demon, um filme que se constrói com o “esqueleto” de fantasmas passados, mas nunca esquecidos, invocados sob a forma gasosa neste requintado exercício de extremos. 

 

Filme visualizado no 10º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Marcin Wrona / Int.: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Andrzej Grabowski

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
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16.5.16

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Um Sexto Sentido!

 

Kristen Stewart é uma "personal shopper", Maureen, uma mulher que se dedica às compras de quem possui um "profile" discreto. Porém, ela é mais que uma mera servente, é uma médium. Os seus "talentos", consideramos assim, sempre a levaram para os mais inesperados encontros com o outro mundo, um lado espiritual que todos duvidam a existência, mesmo ela própria, mas que providenciam fascínio. Quando o seu irmão gémeo - que também partilhava o dom - morre, Maureen adquire uma nova rotina com base numa promessa feita entre os dois. O primeiro a morrer teria que enviar uma mensagem a declarar se existe ou não vida para além da morte, mas para a receber terá que passar as noites na antiga e abandonada casa.

 

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Depois do fabuloso estudo da natureza da interpretação em Clouds of Sils Maria, a dupla Olivier Assayas / Kristen Stewart aposta num thriller sobrenatural que navega impreensionatemente no território autoral. Com um pé sobre esse mesmo registo já estabelecido pelo cinema de Assayas e outro nos lugares-comuns do cinema de terror mainstream, Personal Shopper explicita um cinema diversificado, sem géneros, sem categorias nem audiências definidas.

 

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É uma ode à transgressão e nesse sentido o desempenho de Stewart eleva tal definição. Será este o melhor filme de terror dos últimos anos? Para responder a isso teria que seguir tudo aquilo que a obra desaprova (a categorização), não é nem nunca será um terror de estúdio, nisso estamos certos, e os elementos desse mesmo território são reproduzidos por uma técnica repercussiva. Os clichés tem consequências e é sob essas mesmas que Personal Shopper faz todo o sentido, para além de Assayas ser um conhecedor do medo interior do espectador.

 

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Existem sequências assustadoras, aparentemente vulgares, todavia glorificadas por um impressionante conhecimento no uso e na simbiose do som, da escuridão e por fim, com a sua actriz. Por outro lado, a atração quase adolescente pela espiritualidade, onde um iPhone serve de tábua de ouija em contato com os mais aterrorizantes espíritos ou os "não-vivos", conforme quiserem apelidar.

 

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Essa referência da tecnologia e da comunicação sempre estiveram ligados ao Cinema de Terror nos mais recentes anos, desde as maldições invocadas em Ringu, de Hideo Nakata (recuso a falar da vendida versão norte-americana com Naomi Watts) ou no veia umbilical entre vitima e agressor de um Scream: Gritos, de Wes Craven. Essa remodelação dos códigos, que com o prazo de validade expirado passaram a se denominar de clichés, desafiam Stewart no seu método interpretativo, à constante improvisação da sua perfomance e ao naturalismo do seu ego. Será este o empenho mais ousado da atriz? Só o tempo dirá!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Olivier Assayas / Int.: Kristen Stewart, Anders Danielsen Lie, Lars Eidinger

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 23:35
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Na rota do Novo Mundo!

 

Andrea Arnold estreia em terras norte-americanas com esta "road-trip" sob toques coming-to-age centrado numa América profunda, os EUA "white trash" onde residem os potenciais apoiantes das campanhas eleitorais de Donald Trump. Mas este American Honey, título inspirado numa música de Lady Antebellum, está acima de qualquer ideologia politica. Aliás, de ativismo nada tem, apenas rebeldes sem causa, quase enxertados dos filmes de Nicholas Ray ou do tremendo Badlands, de Terrence Malick (uma provável inspiração), onde o percurso vale mais que o seu próprio destino, se no caso de existir algum...

 

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Arnold tem uma "queda", uma fascinação por criaturas raras, personagens que dificilmente captam a simpatia do público. Quando o conseguem, este é um efeito dignamente carnal. São estes jovens que acompanhamos impulsivamente numa direção algo intrusiva e "empestada" por uma colectânea musical que atribui o espírito indomável e hedonista ao grupo. No centro desta jornada a "nenhures", Star (Sasha Lane), uma rapariga de 18 anos, decide certo dia, após o contacto com um grupo de jovens viajantes, largar a sua vida "aprisionada" numa família disfuncional e desfragmentada para embarcar no desconhecido. O desconhecido leva-a a várias cidades do interior dos EUA, tendo como objetivo desta mesma viagem em "família", a venda de inscrições para revistas, uma tarefa inicialmente difícil para Star devido à sua perturbada natureza.

 

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Depressa o grupo revela-se numa espécie de tribo, conduzido por regras e "tradições", sendo que entre elas contam-se a imperativa reação a uma música da Rihanna, ou o combate, algo agressivo, dos dois membros mais fracos desse mesmo grupo, tudo em concordância com uma ordem, ou um desordem marginal como quiserem apelidar. O espectador fica a mercê desta "mini-sociedade", "irmãos de sangue e de sémen" sem qualquer perspectiva sócio-politica, até porque a grande veneração aqui é "gozar" os curtos anos de jovialidade, a "frescura" de um mundo ainda por descobrir e de sentimentos ainda por sentir. Serão estes os "meninos perdidos" de Peter Pan?

 

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Se o grupo é isento de qualquer resistência, seja ela qual seja, já Andrea Arnold tenta a espaços colmatar as suas ideias, reduzido-as a aspetos cénicos, técnico e sensoriais. Os imensos point-of-view de insectos estabelecem um ponto de contacto com uma sociedade indulgente e futílmente insignificante, e a relação destes com a protagonista provam a sua gradual procura intrínseca, no final a "coisa" evolui, entre as suas mãos já não existe invertebrados, mas sim uma tartaruga como símbolo de uma nova etapa na ainda "verde" vida.

 

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No meio desta jornada, ainda deparamos com uma curiosa sequência que liga a Star com o seu lado mais afetivo e emocional, tudo ao som de Bruce Springsteen e o seu "Dream, Baby, Dream", o provável único momento em que o espectador tem a certeza absoluta que a nossa protagonista é mais que uma somente adolescente vazia quase dilacerada de Spring Breakers, de Harmony Korine. Talvez seja algo mais, porém, a sociedade não auxilia qualquer desenvolvimento nas questões da sua identidade. Para finalizar, Shia LaBeouf está em grande, provando que Hollywood não é o único caminho para a eventual imortalização.

 

Filme visualizado na 69ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Andrea Arnold / Int.: Sasha Lane, Shia LaBeouf, McCaul Lombardi, Arielle Holmes, Riley Keough

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 00:51
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11.5.16

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A Sonata de Woody Allen!

 

Woody Allen não penetra em outros universos, apenas recria o que já está estabelecido. Em Café Society todos os elementos desse mesmo refúgio encontram-se presentes, preservados sob matéria de âmbar e emoldurados por um magnífico trabalho fotográfico do lendário Vittorio Storaro.

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Nesta recontagem de Bullets Over Broadway, Allen deposita o seu fascínio numa Hollywood extinta, glamorosa dos seus anos dourados, enquanto cita a jornada algo "coming-to-age" de Bobby (Jesse Eisenberg que previsivelmente mimetiza os tiques do próprio autor), um jovem determinado a embarcar na sua emancipação, perseguindo um sonho hollywoodesco sem saber que nessa mesma caminhada o coração acabará por falar mais alto. O dialeto que tal coração proclama chama-se Veronica, uma Kristen Stewart vivaça e deslumbrante que conquista, não só o nosso protagonista, mas também o tio / patrão de Bobby (Steve Carell), provavelmente o homem mais influente da indústria cinematográfica.

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Este triângulo amoroso evidente está longe de despoletar qualquer conflito emaranhado com cinematografias românticas. Aliás, Café Society é um filme sobre a maturação e, sobretudo, sobre as escolhas que nos levam a esse mesmo estado. Nesse sentido, Eisenberg corresponde ao processo. O desenvolvimento da sua personagem é visível e gradual, enquanto que a química pretendida com Kristen Stewart resulta numa aposta ganha. Porém, dentro desse mesmo amadurecimento, Allen, deixando sugestivas marcas de transgressão ao seu estilo já definido, afinando as garantias da sua autoralidade. Digamos que é o seu cinema imutável, e Café Society é a casa do seu evidente ego.

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No segundo acto, a obra adquire um tom mais melancólico, com as personagens "desfeitas" a reviverem uma versão "woodylesca" de Casablanca. Kristen Stewart comporta-se como uma Ingrid Bergman, com as promessas de tempos e mudanças da mesma maneira que Dooley Wilson tocou "Times Goes By" no seu piano no tão celebrado filme de 1941. Mas tudo isso não passa de uma metáfora cinematográfica. A vida não é um filme e Allen, tecendo uma doce mentira, acaba por nos dizer isso mesmo, somente com um plano. Um plano que "encerra" uma velha jornada do realizador, visto que prepara uma série, ou seja, uma nova etapa na sua carreira.

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Uma nota final para a fotografia, que atribui a personalidade a este filme. Os interiores sob um laranja confortante, aquela atmosfera romântica que chega aquecer-nos o coração, a Nova Iorque de sonho mergulhada no Central Park; por outras palavras, é o visual a principal transmissão desta "sociedade de café" e o verdadeiro cúmplice desta farsa orquestrada por Woody Allen.

 

Filme de abertura do 69º Festival de Cannes

 

Real.: Woody Allen / Int.: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Blake Lively, Park Posey, Steve Carrel, Cory Stoll

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 15:00
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1.5.16

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A superioridade humana das "Coisas Selvagens"!

 

Até podia ser a adaptação de um conto qualquer de H.P. Lovecraft. Podia, mas não o é. E permitam-me que o diga, esta não-adaptação é mais lovecrafteana que as próprios conversões do legado do escritor norte-americano, ponto. A francesa Lucile Hadzihalilovic, colaboradora de Gaspar Noé, regressa ao seu cinema de sugestão, o terror é mero elemento do desconhecido, esse, abraçado pelas profundezas oceânicas e deslumbrado por um simbolismo utópicos, indo directamente dos mitos gregos das Amazonas até às lendas "atlântidas".

 

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Nesta fábula negra, somos levados a uma ilha remota habitada somente por mulheres e as suas respectivas crianças, todos eles rapazes. No seio dessa comunidade encontramos Nicolas (o estreante e revelação Max Brebant), que tal como todos os habitantes desta ilha, possui uma forte ligação ao mar. Um dia descobre um corpo de um menino nas profundezas e é a partir desse incidente, que Nicolas apercebe-se que algo estranho e inumano acontece diariamente no seu lar, longe dos seus olhos, mas muito perto do seu corpo.

 

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Hadzihalilovic transforma o silêncio em algo ensurdecedor, incomodo como um "tentáculo" que nos leva para um mundo de possibilidades, porém, mortiferamente convidativo. Evolution (Evolução) funciona num retrato das fragilidades humanas, aqui consentidas nos seus próprios sentimentos, que na ausência destes somos sujeitos a metamorfoses animalescas (literalmente representado), vitimas de algo mais antigo que o tempo, mas fora do primitivismo arcaico.

 

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Este "body horror" intimista, povoado por criaturas inexpressivas, é o lugar onde a humanidade torna-se no derradeiro macguffin. Parece cliché insinuar que são as emoções que nos distinguem do resto destas monstruosidades "lovecraftianas", o descrito nosso auge da cadeia evolutiva. Contudo, é na abordagem que Evolução consiste no portento da "história da carochinha", o qual os sentimentos, matéria esotérica aqui exposta, servem como vinganças pessoais na confrontação de um negro desconhecido, e simultaneamente, é com eles, como é demonstrado metaforicamente na imagem da estrela-do-mar, a nossa regeneração. 

 

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Por vezes sonhamos em ser melhores, influenciarmos por um sonho de Ícarus, as pretensões de ser uma espécie de superioridade acima de qualquer factor natural. Todavia, esquecemo-nos que essa nossa fraqueza sentida, converte-se na ancora que nos impede de atingir tamanho degrau. Trata-se daquilo (novamente pisando na mesma lengalenga),  que nos diferencia do resto das "bestas".

 

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Lucile Hadzihalilovic fez um filme sobre a Humanidade, sobre o estado dela e o caminho a percorrer, tudo instalado em território fantástico, dilacerando na incógnita desses mares desconhecidos. Evolução é isso, um conto que nos causa arrepios pela sua frieza narrativa, envolvida numa composição sonora e um visual deslumbrante. Este é dos filmes mais intrigantes do ano, nisso tenho a certeza, como também o mais prodigioso da mente de Lovecraft, sem assumir-se como peça adaptada.

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Lucile Hadzihalilovic / Int.: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
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23.4.16
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Néon é o novo preto!

 

Boi Neon tem diversas vezes a noção de que a beleza pode ser fabricada mesmo sobre chapa zinco. Tal como é possível assistir a certo momento nesta obra de Gabriel Mascaro, um boi pintado sobre cores neons, conseguindo-se tornar-se no ponto alto de um rodeo decadente. Ou seja, o belo pode ser procurado e interpolado nos mais inóspitos cenários, mesmo quando o conto em si, beleza real nada traz. Tal como Domésticas, o anterior trabalho de Mascaro, o foco é novamente a "mão-de-obra", indivíduos sujeitos ao bem-estar dos outros, completando serviços que ninguém sonha ter como um derradeiro destino.

 

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As donas de casa são substituídas pelos "Reis do Gado", e por detrás dessa luxuosa visão de paisagens verdejantes e bovinos ruminando calmamente, existe um mundo algures entre a "podridão" e a escravatura do novo século. Porém, Boi Neon é mais que um alerta político-social, longe do filme-denúncia de teor propagandista, é um ensaio da natureza intrínseca da masculinidade, e como esta pode ser invertida num mundo onde os homens preocupam com as futilidades do seu aspecto e com os sonhos mantidos de estilismos e outros acessórios associados ao feminino. Nesse mesmo universo, mantido com algum humor screewball e mordaz, as mulheres são seres dominantes, activas que fazem dos homens meros objectos de prazer sexual, ou serventes de manda, como gado que estará aí por nascer.

 

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É um exotismo não visto num Brasil fora do mercado das novelas e de muitas favela movies que contamina indústrias cinematográficas com um realismo modelizado para com o que convém. Este é o Brasil desconhecido, inóspito de elegância, cuja beleza está presente a quem procura e Boi Neon é o filme certo para "entrar" nessa honestidade estética, a "belezura" de papelão, tingida e infringida de maneira crua e suja. Um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, sem medo para transgredir o politicamente correcto, ou por outras palavras, o conservacionismo.  

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Gabriel Mascaro / Int.: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Josinaldo Alves

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 13:16
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10.2.16
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Conhecendo as nossas "quatro paredes"!

 

Em 2008, o Mundo ficou a conhecer a possibilidade do sequestro, do cativeiro e do incesto poderem partilhar o mesmo “quarto”. O caso Fritzl emergiu, e difícil foi encontrar quem não se sentisse imensamente perturbado (e repugnado) com tais actos “monstruosos”, os medias encarregariam de “esvaziar” essa descoberta mina de ouro e o “espectador” de penetrar numa autêntico circo de aberrações, onde a curiosidade e o desejo de impressionar seguiam lado-a-lado. Mas enquanto esse Mundoespantado” ansiava conhecer mais de perto (mas não tanto) este “monstro austríaco” [Josef Fritzl], agora objecto de variados case studies e outras análises psicológicas, tudo parecia esquecer as suas vítimas, e o terror vivido por elas.

 

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Foi assim que se questionou, a escritora Emma Donoghue. O que afinal aconteceu e que acontecerá a esses seres para sempre desfragmentados pelos horrores cometidos por outrem? Metendo “mãos à obra” o resultado desse pensamento gerou, dois anos depois, um livro – Room – que se instalava como uma lente gradual numa mãe e na sua criança, concebida num cativeiro idêntico ao do referido caso Fritz. A sua sobrevivência é, porém, deixada como segundo plano, até porque o livro não intende ser um hino de martirologia, mas sim uma reflexão aos limites do nosso pensamento, do nosso conhecimento e o desabamento de um mundo que outrora parecíamos estar familiarizados.

 

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Esse Mundo é para Jack o seu “Quarto”, um cubículo que reserva todo a sua experiência e conhecimento de uma vida correspondente a metade de uma década. A sua vida foi gerada a partir de uma relação violenta entre a sua mãe, ou como ele apelida ‘Ma’, e do raptor, o estranho homem que frequentemente visita-os durante a noite, trazendo consigo mantimentos e desejos carnais a serem consumados. Mas tal como o livro, Room não se direcciona no campo da psicopatia, mas sim na vivência da criança que automaticamente se torna num naufrago, que à deriva do seu oceano, enfrenta uma tremenda tempestade.

 

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Esse temporal, assim dito, é o seu acesso ao mundo exterior, o escape do seu antigo “lar”. Mas antes, Jack convida o espectador a deslumbrar esse seu ecossistema limitado, as suas ideias sobre o funcionamento do mundo expressado por ‘Ma’, particularmente criado como uma segurança psicológica para o seu filho. A maneira como o protagonista relaciona com cada objecto, cada artefacto ou até mesmo com os elementos naturais que raramente presencia neste seu cubículo, adquirem um tom fabulesco a este conto, que é tudo menos feliz, apesar da satisfação obtida pelas virtudes da ignorância. Mas quando a “idade dos porquês” resolve tomar forma, Jack inicia uma nova aventura, a negação desse biótopo que o acomodou durante 5 anos perante as novas revelações da sua progenitora. Room, de Lenny Abrahamson (do subvalorizado Frank), aprova um complexo da caverna de Platão para confrontar a sua personagem à inquietante verdade – há um mundo lá fora à espera dele.

 

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Assim entramos no segundo acto, o exterior, a descoberta de novas experiências e o alargamento desse “quarto”. Jack comporta-se como um “alien” perante esta nova janela, mas neste novo tomo o holofote está apontado noutra direcção, em ‘Ma’, mais concretamente em Brie Larson que se revela numa personagem tão complexamente emocional como o próprio filme. As suas convenções sentimentais são um território desconhecido, até mesmo para o espectador que neste determinado momento se vê “grego” em entrar no seu íntimo. Se a actriz assenta como um verdadeiro incógnito desta relação ausente ortodoxia entre mãe e filho, é Jacob Trembley, o nosso Jack, que nos defrontamos com a verdadeira "faca" emocional. Há muito tempo que não se via um actor tão novo a conduzir de forma plena o protagonismo e os ponteiros sentimentais da narrativa.

 

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Ao contrário do facilmente identificável, Room é um objecto longe da simplicidade e da limitação do seu espaço. É sim um ensaio dramático claro e preciso para os seus actores que desafiam o espectador a olhar para além do mediatismo, e sim das relações humanas. O afecto que não está à flor da pele, mas que cresce como líquenes, suaves mas salientes.  

 

"When I was small, I only knew small things. But now I'm five, I know everything!"

 

Real.: Lenny Abrahamson / Int.: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, William H. Macy, Joan Allen

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:36
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21.1.16

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A Paixão de DiCaprio!

 

São muitas as proezas produtivas deste The Revenant: O Renascido, o proclamado western gélido de Alejandro G. Iñarritu, que é baseado numa história real mas assumidamente solto das suas amarras factuais. Depois de The Birdman, onde por fim demarcou da sua jornada pelo realismo formatado exercido desde Amores Perros, o realizador partiu com a sua equipa para as paisagens quase indomáveis do Canadá, EUA e Argentina, filmando com o mínimo auxilio de tecnologia e luz artificial um ensaio martirizado de um actor em constante mudança. Esse mesmo, Leonardo DiCaprio. Longe do ambiente vivido pelos grandes estúdios e das respectivas produções, o actor envolve-se sob uma aura de naturalismo e de sofrimento contido para envergar a pele de Hugh Glass, a personagem que viveu em pleno século XIX uma derradeira batalha campal pela sobrevivência, esforço conseguido para levar a cabo a sua tremenda vingança.

 

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Deixado à mercê da sua sorte por dois homens que o juraram proteger, após este sofrer um ataque de um urso Grizzly (na história do filme ainda existe o assassínio a sangue frio do filho), Glass aventura-se por um ambiente selvagem ainda vinculadas ao seu misticismo e aos medos primitivos. O actor atreve-se a requisitar um sacrifício físico em prol da sua personagem, sujeitando aos mais cruéis cenários, e a incorporação evidente de um corpo vazio de alma, mas erguido com a subsistência da vida enquanto dado adquirido e exigido. Se o empenho do actor é sofrível e  doloroso até mesmo de assistir, a câmara de livre árbitro de Iñarritu, que se instala em longo planos e condiciona o olhar do espectador, atribuiu o seu "quê" de grotesco neste espectáculo cinematográfico.

 

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É verdade que este neo-western é bem-sucedido no seu vislumbre técnico (a fotografia de Emmanuel Lubezki é um must que ousa em desafiar muito dos trabalhos recorridos em Hollywood, graças à exigência da luz natural) e audacioso na sua composição performativa, o realizador prova mais uma vez que é o um nome a ser decorado nos cantos e recantos do cinema moderno. Porém, há que confessar o cansaço que esta fita evidencia ao fim de duas e meia de duração, como se tudo soasse num exercício cinematográfico demasiado ganancioso para cortes editoriais.

 

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Mas esta demanda rara no panorama actual demonstra ainda o quão grande é a ambição de Iñarritu para declarar o seu lugar cativo na mesa dos grandes do seu ramo, a verdade é que essa grandiloquência leva o realizador a esgotar-se e com isso a recitar outros "colegas". Nota-se, por exemplo, os tiques ocasionais "à lá Terrence Malick", como se não bastasse o verdadeiro e as correntes autorais que o tornam celebrizado, como também a exposição abusiva que um Kechiche tentaria requisitar nos seus próprios trabalhos. Enfim, pode-se chamar referências ou cópias, caso estivermos do outro lado da consideração, mas nada disso retira o mérito desta odisseia de vingança, uma das mais pungentes que o cinema filmou nos últimos anos. E quanto a DiCaprio, temos sim, actor para "qualquer obra"!

 

"As long as you can still grab a breath, you fight. You breathe... keep breathing"

 

Real.: Alejandro González Iñárritu / Int.: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Forrest Goodluck, Lukas Haas

 

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Ver Também

21 Grams (2003)

Babel (2006)

Biutiful (2010)

The Birdman (The Unexpected Virtue of Ignorance) (2014)

 

8/10
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publicado por Hugo Gomes às 08:55
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24.11.15

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Spielberg de mãos dadas com os Coens no seio do conflito global!

 

Não é o reencontro com a faceta mais politica e igualmente negra de um Spielberg do subestimado, e por vezes esquecido, Munich, mas há que admirar essa maduração evidenciada de um autor que ousa em não largar o seu árduo trabalho no campo emocional. Bridge of Spies, sob um argumento da autoria dos irmãos Coen (mais Matt Charman), é o regresso da aventura cinematográfica alicerçada em teores distintamente identificáveis do melodrama clássico de Hollywood.

 

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Um filme que reforça a ideia de que este estilo narrativo não está ultrapassado, ao mesmo tempo confirmando as suas costuras de cinema "fora-de-moda", inspirado sobretudo nos thrillers políticos dos anos 60 e 70, com o The Manchurian Candidate como principal plano. Mas, ao contrário do que esta afirmação poderia soar, Bridge of Spies remete a um Spielberg preparado para os novos tempos, mesmo sob iguais matrizes. É esperado a demonstração de fé do realizador às crenças da cidadania americana, minando Tom Hanks (com quem não trabalhava desde Terminal, em 2004) com diálogos de motivação nacionalista e de teor profundamente patrióticos ("o que nos faz sermos americanos é seguir o livro de regras, a Constituição Americana", por exemplo).

 

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O actor que fora em tempos celebrado como um dos mais amados nos EUA, funciona como um autêntico "homem de pé", como a certa altura é descrito, um ser que opera segundo a sua vulgaridade mas que no momento de agir prova ser mais extraordinário do que se julgava. Tais características aproximam Hanks e o seu James Donovan a muitos outros atores clássicos, entre os quais James Stewart sob o comando de Frank Capra, provavelmente a maior influência da carreira de Spielberg. O protagonista desempenha um advogado norte-americano, vivente num EUA exposto aos delírios e às paranóias de um iminente conflito nuclear, estamos aqui atravessar a chamada Guerra Fria e as relações com a União Soviética são cada vez mais intensas, resultante de uma nação orgulhosa mas intrinsecamente aterrorizada pelas previsões apocalípticas.

 

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Contudo, Donovan não será nenhum herói de causas evidentemente americanas, mas sim um "profeta" que carrega consigo uma crítica interna, porém, construtiva e longe da acidez que um Oliver Stone poderia aliciar se tomasse conta de tais rédeas. O tom satírico proveniente da escrita dos Coen é por si receptor de tal crónica sobre um homem que opera contra a vontade e interesses do seu país para mais tarde conduzir aquele que seria um dos actos mais vincado de adoração pela sua nação. A troca de reféns, fruto de um malabarismo conseguido pela experiência no ramo da advocacia, e a ponte, não somente um ponto físico, mas a transição de novos tempos que a partir deste momento o mundo atravessaria.

 

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Não é por menos, que Bridge of Spies esboça alguns dos actos históricos mais acessos desta complicada década, referências e imagens de teor impressionável como a incontornável construção do Muro de Berlim, faz com que o espectador aperceba os estudos levados a cabo pelo par de argumentistas e sucessivamente o realizador em tornar a obra visualmente e descritivamente mais fiel aos tempos que adapta, tudo isso guiado por uma jornada de coração e de moralidades inegáveis. Neste mesmo percurso que opera como um hino de um cinema cada vez mais decadente, aguentado por homens que redefiniram uma refrescante vaga norte-americana em tempos, os atributos técnicos são puras relações simbióticas com a experiência que poderá ser vivida em Bridge of Spies, entre os quais a fotografia (da autoria de Janusz Kaminski) enraizada na época e sensível à escuridão da noite, simultaneamente auferindo um tom de espectacularidade, e a banda sonora de Thomas Newman, que substitui o veterano John Williams (habitual colaborador de Spielberg), que requisita esse classicismo constantemente falado.

 

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O realizador consegue ainda arrancar prestações credíveis no seu elenco, fora Tom Hanks que é confiante no seu desempenho, Amy Ryan como a esposa martirológica, Mark Rylance como o carismático espião russo (o macguffin desta intriga) e até a travessia de Sebastian Koch em águas hollywoodescas (para esquecermos um pouco a experiência traumática no quinto Die Hard [ler crítica]), concentram como anfitriões neste muito satisfatório thriller dramático. Curiosamente, foram precisos "heróis americanos" para transmitir através de histórias passadas, situações modernas, ao contrário de Clint Eastwood que recentemente transcreveu um história moderna sustentada por dilemas e morais deveras ultrapassados [ler crítica]. Longa vida para Spielberg!

 

Aren´t you worried? / Would it help?

 

Real.: Steven Spielberg / Int.: Tom Hanks, Amy Ryan, Mark Rylance, Alan Alda, John Rue, Sebastian Koch

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 15:46
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