Data
Título
Take
30.1.16

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Onde nascem os Intolerantes?

 

Ponto sem Retorno (Rough Road Ahead / Von Jetzt an Kein Zurück) é um retrato de vidas desfeitas por gerações intolerantes às novas mudanças. Dirigido por Christian Frosch, eis uma variação Romeu e Julieta com o muro de Berlim em pano de fundo, onde duas personagens que deslumbram o espectador pela sua vivacidade, digna de rebeldia juvenil, são desafiadas pelas entidades paternais e por uma sociedade que parece não entende-los, guiando-se por velhas convenções e doutrinas.

 

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É automaticamente após os créditos iniciais que ficamos a conhecer os "criminosos", os pais, numa sequência na qual são interrogados e revelam as suas verdadeiras naturezas: traumatizados de guerra, conservadores religiosos, puros machistas, etc. Cenas que integram a narrativa mas que interagem de forma emocional com a audiência; "estes são os verdadeiros culpados da tragédia amorosa que sucederá", "prestem atenção a estes indivíduos". Apesar de se assumirem como personagens secundarias, este conjunto resulta em ícones dominadores que são constantemente revisitados, mesmo durante a sua ausência física nos frames.

 

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O destino de Ruby (Victoria Schulz) e Martin (Anton Spieker), dois amantes consolidados em sonhos inalcançáveis, são igualmente perpetuados de forma paralela por uma narrativa que se enquadra na situação, onde cada um tenta sobreviver à sua maneira nas instituições que os acolheram a mando dos progenitores. Esta sobrevivência não só ditará um panorama social e político da Alemanha do final dos anos 60, como também autoproclama o fim trágico de um assumido romance shakespeariano.

 

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Ponto sem Retorno tem prestações fortes por parte do elenco, destacando-se principalmente Victoria Schulz. Porém, todos eles compõem personagens esquemáticas e diversas vezes limitadas aos estereótipos morais que representam, ainda que nada ofusque o exímio trabalho de câmara de Frosch e a belíssima fotografia a preto-e-branco (da autora de Frank Amann) que entra em concordância com os relatos temporais. Assim, este é um romance sólido que reflecte o estado de um país confrontado com a passagem de gerações.

 

Filme visualizado no 13º KINO: Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

Real.: Christian Frosch / Int.: Victoria Schulz, Anton Spieker, Ben Becker

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:11
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10.1.16

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No coração da dor!

 

Tal como Proust e o paralelismo em que uma madalena molhada no chá o transportou para as reminiscências da sua infância, Laurie Anderson experienciou na morte da sua cadela, Lolabelle, um pesar convidativo que a leva ao encontro de um EUA pós-11 de Setembro, rígido na sua vigilância, essa mesma que se assume como um "estorvo" à própria privacidade. Heart of a Dog é todo um registo documental que nutre do devaneio artístico da sua autora, aqui libertada para um corpo imaginário, aquele que a artista apresenta nos primeiros minutos de filme - uma entidade vivente numa dimensão aparte - parindo a sua cadela, esboçando assim a ligação umbilical entre essas duas "criaturas", e cujos afectos servem de compatibilidade genética.

 

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A verdade é que sentimos que Anderson, ex-mulher do cantor Lou Reed, assenta numa séria caricatura à camada artística nova-iorquina, meros pensadores do seu próprio umbigo e de fascínios pela excentricidade que rodeia o Mundo. Porém, é nessa liberdade, e nessa condição que encontramos uma "loucura" sincera, enquanto Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, Anderson acaba por focar em questões intrínsecas não só de um estado "emocional" de um país mas também na nossa capacidade de lidar a dor. Esse tratamento quer filosófico, quer visualmente experimentalista, causará estranheza no espectador mais recatado ou até acostumado a narrativas e ideias lineares de senso comum ou de ensaios mainstream, mas uma coisa é certa, por mais "loucas" que são estes desabafos, estas reflexões e factos discutidos, de uma maneira ou de outra acabam por nos persuadir.

 

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O amor pelo ser vivo quadrúpede faz-se também sentir com tamanha emoção no relato descontraído imposto por Anderson, a medula de toda a panóplia de temáticas que gerarão sucessivamente. Entre a descoberta de novas ameaças, todas elas hiperbolizadas em Lolabelle, ou a natureza moldável das nossas memórias através de um reencontro da autora com um passado propriamente seu e por fim as citações do Livro Tibetano dos Mortos como ênfase de uma procura de um processo de contornar a dor que é sugerida.

 

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Em termos práticos é como convidássemos a artista plástica para uma conversa de café, informal e rico no seu conteúdo e expressionismo. Em termos cinematográficos é um recorte de imagens com dimensão "godardiana", porém, ao contrário do mais recente trabalho do lendário cineasta francês - Adieu au Langage - é dotado de uma linguagem tão pessoal da sua artesã. Essas figurações impressionistas são estampadas como um misto de realismo visual com o onírico de retratos imaginários "enfiados" em histórias mirabolantes e vincadas em derradeiras metáforas.

 

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No final há sempre espaço para uma expansão de fins emocionais, o amor pelo canídeo pode transcender ao amor de um parceiro, neste caso a homenagem a Lou Reed, através dos créditos finais ao som de "Turning Time Around" (como uma catarse a um tremendo luto). Porque o afecto é poliglota, partilhado e sobretudo não conhece espécies, imaginado por Laurie Anderson.

 

Real.: Laurie Anderson / Int.: Archie, Jason Berg, Heung-Heung Chin

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:20
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17.12.15

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A força acordou!

 

Vamos tentar não começar com o óbvio, supor que o leitor encontra-se familiarizado com todo este Universo e a relevância que um filme como Star Wars obteve na indústria cinematográfica (pré e pós blockbuster). Tudo isto para seguirmos para a questão das questões - será que este novo capitulo, um herdeiro directo da antiga trilogia é digno de nota? A resposta poderá impressionar para quem via com alguma suspeita esta "ressurreição" - sim, vale a pena.

 

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J.J. Abrams, aclamado em tempos como aprendiz de Steven Spielberg (começou a sua demanda no Cinema através do restauro de fitas filmadas em Super 8 pelo seu próprio "mestre"), demonstra conhecimento e amor por esta saga que redefiniu os modelos e instalou-os no cinema de entretenimento até aos dias de hoje. A sua sabedoria, a Força adquirida desses três filmes, encontra-se espelhado em toda a acção deste Force Awakens. As referências, os easters eggs e até mesmo o regressos anunciados (as velhas personagens que espalham uma nostálgica magia intemporal) estão lá com todo o rigor, mas acima disso é o próprio registo de Star Wars: New Hope que deparamos de "caras".

 

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Um paralelismo que indica dois factores, o respeito do realizador a material não seu (ao contrário de George Lucas que "gozou" de tamanha liberdade nas três prequelas), gerando com isso uma pressão a escala global (já J.J. Abrams havia revelado do "peso" que continha nos ombros por levar este projecto avante), e o sentido de homenagem e enraizamento deste mesmo Universo. Estes dois factos nos levarão a um prolongado caso de "déjà vus" em todo o visionamento. Mas uma previsibilidade que não moí, nem ofende, é sim, a reentrada ao Universo mais George Lucas desde os originais, mais que a segunda trilogia, isso sim, podemos considerar um facto.

 

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The Force Awakens remete-nos 30 anos após os eventos de Return of Jedi, depois daqueles festejos ingénuos nas florestas dos Ewoks e do ainda hoje discutidos fantasmas, o aparente final feliz que segunda consta este sétimo filme não passou de uma mera ilusão. A galáxia encontra-se novamente em conflito, a República sempre rodeada com o seu inquestionável maniqueísmo e o "amor" incondicional pela democracia, e do outro lado a Primeira Ordem, novamente com Stormtroopers e a dominação do Lado Negro. É a mesma guerra de há 30 anos, só com diferentes peões a apoiar neste tabuleiro.

 

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The Force Awakens oferece-nos personagens novas, devidamente trabalhadas e impulsionadas pelos "retornados" a servirem de futuros marcos neste Universo … eventualmente. No centro dessas novas requisições está Rey, uma misteriosa jovem deixada num planeta desértico que converte-se num elemento chave para toda a intriga interespacial. Esta protagonista constantemente acompanhada pelo seu BB-8, um novo andróide que promete fazer as delicias dos fãs, é interpretada pela desconhecida Daisy Ridley, numa prestação que tenta atribuir solidez a uma personagem ainda em construção (o mesmo se pode referir ao muito decepcionante vilão de serviço, encabeçado por Adam Driver). Trata-se de mais um comprovativo de que o cinema de acção do ano 2015 é subscrito pelo feminino e seguindo os moldes da anterior Princesa Leia, a rebelde da realeza que declarou guerra ao modelo Disney, em não vergar pela capa de "dama em apuros". Como companheiros de luta, John Boyega (Attack the Block) e Oscar Isaac (Ex Machina) fazem a festa, ambos tentando contrariar os arquétipos o qual estão primariamente envolvidos.

 

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Mas The Force Awakens começa a fazer sentido com o primeiro aparecimento da "velha guarda", Harrison Ford e o seu contrabandista Han "shoot first" Solo ao lado do mítico Chewbacca a proferir as seguintes palavras "Chewie, we're home.". É nisso que o episódio VII trata, um regresso às origens, não no sentido cronológico como os episódios I, II e III fizeram mas na sua essência. J.J. Abrams recupera a sua demanda pela aventura, e descarta qualquer embaraço que qualquer narrativa à lá videojogo poderia proporcionar (Lucas o tentou fazer nas suas infames prequelas).

 

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Os efeitos visuais computorizadas passam para segundo plano, em fusão com o artesanato das maquetas, fantoches e cenários a substituir o já excessivo verde para chroma keys, o realizador havia deixado claro que tentaria ao máximo contornar os intensos facilitismos dos CGI e da habitual pirotecnia, tal decisão como é óbvio, fortalece a veia sentimental que liga o espectador, que relembra as memórias passadas nas aventuras de Luke e sua trupe, com um novo filme, que respira ares dito vintages.

 

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Como foi bom voltar a este universo, mas sobretudo como foi recordar que em 1977 surgia um dos filmes mais relevantes da História do Cinema, hoje, vincado na cultura de forma sem precedentes. Sim, o fenómeno Star Wars é grande e J.J. Abrams sabe disso na perfeição.

 

"Nothing will stand in our way... I will finish what you started."

 

Real.: J.J. Abrams / Int.: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Carrie Fisher, Adam Driver, Mark Hamill, Lupita Nyong'o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Simon Pegg

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:47
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7.12.15

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Em Estado de Guerra!

 

"Nós sabemos o mal que isto faz a vocês. Mas somos pobres", justifica um membro de um cartel de droga a Matthew Heineman nos primeiros momentos deste Cartel Land (Terra de Cartéis). Esta tentativa de "branquear" os actos que praticam poderá levar nestes precisos segundos a inúmeros espectadores a torcer pelo seu lado, como se a pobreza fosse automaticamente sinónimo de sobrevivência, e esta como uma via amoral para visíveis soluções.

 

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Mas Heineman, que actua aqui como operador de câmara (cuja coragem será mais tarde evidenciada) e realizador, não se encontra interessado em esboçar lados imbatíveis, ou construir desde a raiz um documentário de propaganda maniqueísta, ao invés disso aposta numa longa "batata quente", narrando acontecimentos paralelos nas fronteiras do México, cujo único propósito é a luta aos cartéis. Sim, a desses homens que inicialmente proclamavam a sua pobreza como inibidor de culpa.

 

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Cartel Land funciona ainda como uma espécie de cinema de guerrilha, cuja verdadeira rebelião encontra-se no seu protagonista, Heineman, que tenta revelar factos que muitos apenas conhecem da romantização cinematográfica. Mas mesmo filmando o real, o nosso realizador não deixa de ser poético visualmente. Um desses exemplos é nos momentos que sucedem o primeiro encontro com os traficantes, aqui sob as imagens da fronteira intercaladas com um discurso obviamente maniqueísta, mas citado com uma emoção credível por um vigilante americano decidido a combater e patrulhar os carteis com as suas próprias armas. A linguagem determina o bem e o mal segundo este "vingador", mas Cartel Land faz destas palavras não as suas, partido logo para outra acção: a sul do México, mais precisamente na região de Michoacán, onde um grupo de populares formam uma força de autodefesa para também eles expulsarem este "cancro".

 

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Heineman consegue nas mais variadas histórias glorificá-las e ao mesmo tempo humilhá-las, perante a ambiguidade desta luta, funcionando assim também como uma crítica politica ácida, envergada somente pela citação dos seus atores. Para além disso, o realizador tem o dom de depositar nesses momentos uma carga dramática dignamente cinematográfica, essa mesma ênfase que porventura funcionará como um manipulador emocional e um embelezamento da violência por si retratada. Cartel Land é assim um documentário sem medo da aproximação, e obviamente sem receio do grafismo e do explicito; é uma realidade injectada no ecrã com o realizador presente nas situações-limite.

 

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Contudo, o único grande defeito deste documentário é que em momento algum tenta transcender as suas fronteiras, ou seja, as acusações politicas permanecem bem internas, neste caso, dentro do território mexicano, sem nunca apontar o dedo noutra direcção. Uma direcção que, por exemplo, Sicario [ler crítica], o filme de Denis Villeneuve sobre o narcotráfico, seguiu pujantemente. Em nota de curiosidade, Kathryn Bigelow, a realizadora de o oscarizado The Hurt Locker [ler crítica] e Zero Dark Thirty [ler crítica], encontra-se creditada na produção executiva, sendo facilmente identificável neste Cartel Land os atributos que a fascinaram.

 

Real.: Matthew Heineman / Int.: Jose Mireles, Tim “Nailer” Foley

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 22:06
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23.10.15

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Num mundo de loucos e imortais!

 

Para cumprir a última vontade de Tomaso, o apelidado anjo do Palácio de Carditello (o qual contribuiu para a restauração e preservação do respectivo monumento), os "imortais" enviam a sua mais indecisa "marioneta", Pulcinella (Polichinelo), para encaminhar uma cria de búfalo, criada por este, ao seu novo lar. Nesta jornada por uma Itália desfragmentada pelo enraizamento do neo-realismo e da fantasia gótica, o cineasta Pietro Marcello ecoa uma prolongada alusão político-social de um país à beira do colapso identitário, que tal como a sua personagem corcunda, encontra-se à mercê dos propósitos impostos pelos seus amos. É um surrealismo que aspira ao misticismo, e uma veia documental contagiada com os toques fabulistas e de teor poético, que funciona numa fantasia cruzada e trabalhada sob uma maqueta de experimentalidade. Porém, nada de realmente bizarro é concentrado nesta pintura a óleo vivo, mas sim a de um claro paradoxismo com o real representativo. Uma crítica subliminar que desenvolve consoante o seu espectador e que se manifesta em conformidade com os seus ideais.

 

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Se bem que a politica é o evidente combustível desta demanda pela forma que diversas vezes prevalece sob o conteúdo, eis um regressar à figuração imposta pelo poeta Luís de Camões e os seu mais pujante trabalho - Os Lusíadas - onde a personificação de figuras pagãs servem como propósito a uma crítica estabelecida. Nesse sentido, é fácil identificar o búfalo e a sua infortunada sorte numa questão de "classes", neste caso, a mais baixa, o individuo comunitário que preza o seu destino nas mãos dos seus dirigentes políticos (os "imortais") como se fossem directamente extraídos das distopias de Orwell. Sarchiapone, o nome pelo qual é baptizado o nosso bovino, mesmo que nome é coisa que não lhe é designado, exclama que neste mundo "ser búfalo é uma arte", um artificio subestimado que poucos querem deter nem sequer sentir fascinados. Mas a crença em viver na dependência das massas e da força que estas podem adquirir é de uma coragem incontestável.

 

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Bella e Perduta (Bela e Perdida), um título que tenta aludir ao monumento deixado pelo seu "anjo da guarda", também identifica-se com os sonhos vencidos pelas massas que ainda dignam em lutar pelos seus ideais, mortais frente a imortais omnipresentes, pelo meio marionetas a interpretar pontes de contacto entre os diferentes patamares. Politico e fantasioso, não é todos os dias que nos oferecem estes dois ingredientes numa "cajadada só". Um filme a ver por dois motivos, conteúdo e forma.

 

Filme de abertura do 13º Festival Internacional do Doclisboa

 

Real.: Pietro Marcello / Int.: Tommaso Cestrone, Sergio Vitolo, Gesuino Pittalis

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 08:28
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17.10.15

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O Inimigo Público!

 

O segundo trabalho de realização de Carlos Saboga, argumentista a quem devemos agradecer pelas felizes incursões de O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos, e Os Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, é um filme que nos transporta, essencialmente, a um Portugal oprimido que se digna ainda a sonhar com a sua "fantasia lusitana". Nesse período, o país atravessava um enorme cerco social, sentindo-se constantemente ameaçado pelo desconhecido residido "à sua porta", trazendo consigo entidades de uma guerra nunca imaginada pelos portugueses (o tema dos refugiados ainda hoje é motivo de discussão).

 

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Tal análise dessa nação "congelada", incutida numa politica de medo e de fortes traços nacionalistas, encontra-se imergida na própria miopia cénica que este A Uma Hora Incerta apresenta. Até poderemos argumentar essa tal limitação como uma opção orçamental, mas na verdade o sucessor de Photo (o filme de estreia de Carlos Saboga no cargo de realizador [ler crítica]) funciona como um pequeno exercício de "pseudo-espionagem". Aqui os portugueses não brincam aos espiões nem agentes morais, jubilam sim, com a sua própria ignorância sociológica ... e sexual. Até porque acima das suas veias de thrillerA Uma Hora Incerta assume-se com um erotismo constrangido, uma sexualidade de "buraco de fechadura", onde a eventual libertação nesse foro é sentida, mas nunca devidamente cumprida.

 

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Saboga criou um argumento astuto que joga com as referências culturais da época e com a referente prevalência religiosa, auferindo similaridades e alusões, entre os quais uma pressentida ligação com a história bíblica de Lot. Trata-se de um filme que não envergonha ninguém, concebido com diálogos bem construídos e uma montagem trabalhada em prol da sua profissional fotografia, da autoria de Mário Barroso, e com um toque final dado por um conjunto de atores capazes de transmitir para fora do ecrã as suas respectivas personagens com muitas dividas aos arquétipos sociais. Entre as quais, destaque para Joana Ribeiro, a "lolita" lusitana com o seu quê de perversão psicótica.

 

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Tudo isto para sublinhar que esta obra, em conjunto com a trilogia As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes, e a declaração de amor cinéfilo por Manuel Mozos, João Bénard da Costa: Outros Amarão Aquilo que eu Amei [ler crítica], representam o que de bom o cinema português tem dado este ano.

 

"Prefiro as histórias do antigo testamento, têm mais sangue."

 

Real.: Carlos Saboga / Int.: Joana Ribeiro, Paulo Pires, Judith Davis, Ana Padrão, Pedro Lima, Filipa Areosa, Grégorie Leprince-Ringuet

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:45
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19.9.15

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Onde irão confluir "criaturas" sentimentais …

 

Constituído por três actos, Praia do Futuro centra-se como um conto de libertação para dar lugar a uma reconciliação afectiva. Dirigido por Karim Aïnouz, conhecido pela comunidade cinéfila como o autor de Madame Satã, onde o transversalidade sexual serve de pano de fundo a atípico filme de favela, esta é uma obra intimista e extensa nessa intimidade com os protagonistas, mesmo que a câmara tende em reter essa cumplicidade com as respectivas personagens. Mantido de longe, e de uma configuração fria, Praia do Futuro, ao contrário do que o título poderia suscitar, é um claro retrato acinzentado, detido por uma melancolia crónica, onde nem as praias de Fortaleza conseguem diferenciar de uma Alemanha subjugada a um gélido clima. Até porque o que muda nessas transições de enumerados capítulos, não são os cenários, mas sim os sentimentos e as constantes nuances das suas personagens, com principal atenção ao de Donato (Wagner Moura, Tropa de Elite), um nadador salvador brasileiro que indicia um encontro com o seu ser mais profundo.

 

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O primeiro capitulo, intitulado de O Abraço do Afogado, envolve-se com uma aproximação de duas figuras desconcertadas, uma delas reivindicada pela tragédia, e a outra pela manifestação pessoal e a consequência dessa. Donato encontra assim a sua "alma" repartida no seio dessa sua fatalidade vivida, quer individual ou profissional. Até aqui, Praia do Futuro incendiava como um romance dignamente regido aos lugares-comuns do denominado cinema "queer", mas essa incógnita é evidenciada na transição de tons que se dá pelo avanço de um segundo acto. Um Herói Partido ao Meio, como é assim chamado, prevalece como um singelo "coming to age", uma moldagem comportamental do nosso protagonista que se transforma a olhos vistos. Contra os seus próprios sentimentos, a saudade que é diversa vezes salientada e citada de forma subliminar, Wagner Moura tem o mérito de camuflar a sua figura, utilizando os seus tons cameleónicos para comunicar com a direcção sugerida pela fita. O ritmo desvanece no seu todo na medula melancólica, fortemente "apimentada" no primeiro acto, agora entregue a este acto intermediário.

 

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Esta "ponte" dará acesso ao derradeiro acto, Um Fantasma que Fala Alemão, onde dá-se o esperado choque temporal, contudo, a obsessão pelo protagonista durante esta jornada narrativa faz dissipar qualquer climax assim sugerido, e a fraca apelação por personagens secundárias, que poderiam corresponder ao quotidiano de Donato, contribuem para essa amenização. Mas é neste capítulo, que Aïnouz também se liberta, e sob um jeito visual e estilístico. Não com isto dizer que o realizador vira um autêntico V.J., ou experimentalista nesse foro, mas sim demonstrando um gosto apurado no trabalho visual, compondo longos planos, isentes de diálogos, mas recheados de sentimentos puros e múltiplos.

 

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Por entre simbolismos, como a desejada "praia sem mar", que interage com uma elipse que vai desaguar numa comovente declaração de emancipação: "Existem dois tipos de medo e dois tipos de coragem. O meu, fingir que nada é perigoso. O teu, fingir que tudo é perigoso". Pois é, Karim Aïnouz incute um ensaio sobre o quanto minado é esse campo das emoções, as consequências que "explodem" e deixam seres repartidos, longe do seu mar. Intrinsecamente poético.

 

Filme de abertura da Queer Lisboa 19 – Festival Internacional de Cinema Queer

 

Real.: Karim Aïnouz / Int.: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 07:05
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10.9.15

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Sem tempo para chorar os mortos!

 

Se No Tears for the Dead fosse uma partitura musical, ela encaixaria tão bem na pauta da 9ª Sinfonia de Beethoven. Um sinfonia que se inicia sob um alvoroço emocional para de seguida ceder a um longo percurso melancólico, quase intimista e gradualmente detalhado, rico, até por fim, culminar tudo em tons graves em concordância com uma pomposa e arrebatadora sonoridade. É outro exemplo especifico de como o cinema de acção asiático está a bater aos pontos a indústria hollywoodesca, e jogando o mesmo jogo que estes - assassinos com consciência não é "coisa" que falte no género -, mas Jeong-Beom Lee (realizador do muito elogiado The Man from Nowhere) consegue tecer aqui algo de verdadeiramente envolvente e libertador.

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Aliás, é na redenção que encaramos o combustível que parece movimentar estas personagens consistentes, contornando o efeito déjà vu da previsibilidade do seu enredo, e apostar nos contornos fabulistas que chegam acompanhar até mesmo a acção. Acção essa dotada de uma agressividade que parece intimar 90% dos policiais norte-americanos, mas de forma sóbria e constantemente fincadas no realismo e na verosimilhança (existem aqui pormenores interessantes e deveras específicos nas frenéticas sequências). Por sua vez, os desempenhos do elenco cumprem a sua fatia neste quadro explosivo e dramaticamente rico: se Dong-Gun Jang (visto no portento bélico Taek Guk Gi é credível como Gon, o assassino contratado pelas Tríades que se insurge contra a sua própria instituição quando neste é despertado sentimentos profundos de compaixão, é em Min-hee Kim, a bela actriz no galardoado Right Now, Wrong Then, de Hong Sang Soo [ler crítica], que as atenções se direccionam. Uma personagem frágil, cedida à tragédia - a perda de entes queridos - que a realça em algo mais que somente uma "dama em apuros", embora Jeong-Beom Lee constantemente ilude essa força inerente.

 

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Eis um dos mais ricos filmes de acção do ano. No Tears for the Dead (tradução literal de Não há Lágrimas para os Mortos), ao contrário do que o titulo parece indicar, é um híbrido de intenso drama corrompido por uma frenética energia que desperta nos lugares onde menos esperamos. Pode ser previsível, mas funciona como um violento thriller de emoções. Dá para sair da sala de polegar erguido.

 

Filme visualizado na 9ª edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Jeong-beom Lee / Int.: Dong-gun Jang, Min-hee Kim, Brian Tee

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:09
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29.7.15
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Os nosso malvados favoritos!

 

A mais recente "mina de ouro" da Universal Pictures teve direito ao seu espaço a solo no cinema. São os Minions (Mínimos), os ajudantes "fofos" mas igualmente descarados do grande êxito de 2010 Despicable Me (Gru, O Maldisposto [ler crítica]). Esta personagem secundária colectiva tem adquirido uma tremenda legião de fãs insaciáveis por mais e talvez seja por esse motivo que a sequela de Gru, produzida em 2013, tenha sido prejudicada, visto que os produtores tiveram mais preocupações com os desejos do público do que supostamente com a própria saúde do filme.

 

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Todavia, neste spin-off, não há Gru, nem meninas adoptadas, nem coisa que o valha. Há sim os Mínimos (e com "fartura"), que se inserem, agradavelmente, num estilo de humor universal, ou seja, mais físico. No mesmo ano que vimos Shaun The Sheep (A Ovelha Choné [ler crítica]), dos estúdios da Aardman, a ter a sua oportunidade cinematográfica e a vingar-se como descendente animado de um Buster Keaton ou de Charles Chaplin, Minions tornam-se assim a mais recente invocação desse estado de graça. Kyle Balda e Pierre Coffin criaram um filme de grande comercialidade em qualquer parte do Mundo, e tudo de uma forma simples e astuta, quer no seu jeito slapstick, onde não faltam alusões "maliciosas" e referências culturais. Sim, esta é uma obra animada foliona, inteligente e graciosa para a mais vasta das idades, principalmente para os adultos.

 

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Mas nem tudo são "rosas", até porque a Universal Pictures não é a Aardman e ambiciona um pouco mais no seu conteúdo. O problema trazido são as novas personagens secundárias, não detentoras da mesma luz dos Mínimos, obviamente, mas isentes de criatividade e de maneirismos para além daqueles impostos pelo elenco vocal. Nesse sentido, o estúdio parece aprender com a Dreamworks Animation. Fora isso, temos aqui um conjunto de gags imperdíveis e referencias a uma década bem especial: os anos 60, o final para sermos mais exactos, onde não faltam piadas sobre o Vietname (curiosamente com um "piscar de olhos" a Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola), Bonnie & Clyde, o caso Watergate, a chegada à Lua e até mesmo o feminismo, proclamado por uma vilã, Scarlett Overkill (com voz de Sandra Bullock), que afirma ser a primeira grande Mulher no mundo do crime. Sim, existe muito mais neste Minions do que os bonecos "adoráveis" que já viraram uma poderosa máquina de merchandise.

 

"And that is how the Minions found their new master! He was perfect! He was evil! He was... despicable!"

 

Real.: Kyle Balda, Pierre Coffin / Int.: Pierre Coffin, Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Steve Coogan, Allison Janney, Steve Carrell, Geoffrey Rush

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:04
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23.7.15

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A magia da narrativa sugestiva!

 

Apesar do título, não encontramos nada de verdadeiramente mágico em Magical Girl, somente uma firmeza no seu clima de constante mistério. Eis uma comédia negra que tão depressa se transforma num drama pesado sobre os limites do desespero humano. Após essa passagem emocional, obviamente, tudo perde o seu estado de graça e é acentuado ainda mais o negro da sua compostura.

 

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Com uma narrativa alternada, porém, unida num eventual desfecho que fecha um trágico círculo, Magical Girl remete-nos a um pai desempregado (Luis Bermejo) cuja filha tem os "dias contados" em consequência de uma doença terminal. Entretanto, ele descobre que esta possui um derradeiro desejo: um vestido de cosplay da sua personagem de anime favorita. Para tentar cumprir esta última vontade, e apesar das dificuldades, este homem gasta o que tem e o que não tem. O desespero, apesar das suas boas intenções, levam-no a chantagear a frágil Barbara (Bárbara Lennie), que por sua vez terá que se envolver em perigosos esquemas para "silenciar" o chantagista, mesmo que isso coloque em risco a sua própria vida.

 

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O grande trunfo de Magical Girl é o de nunca ser explícito, ocultando segredos e manter assim, sob as suas limitações, um mundo fora do ecrã (existe algo de "tarantinesco" dos tempos de Pulp Fiction). Depois é a sua teia de referências à actualidade social, um panorama que o espectador evidencia em toda esta jornada polinarrativa. A austeridade e o crescente desemprego é evidentemente um dos pontos críticos da obra, na qual Carlos Vermut bipolariza a sátira e reconstitui o drama diário de muitas famílias sob um tom sério e igualmente desesperante. É um choque que facilmente remete o espectador a uma estranheza deste mundo cínico, tornando-se então perceptível a sua linguagem agressiva e trocista.

 

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Outro ponto que beneficia o clima negro de Magical Girl é a sua adversidade para com o politicamente correcto. O filme explora esse sentido e expõe tal através de julgamentos a um conjunto de personagem sem más intenções, mas deveras repulsivas para as mesmas. Como se essa "mesquinhice" fosse algo desnecessário e sobrevalorizado para os tempos que se vive. Como evidência disso é a invocação de um dos finais mais corajosos do cinema nos últimos anos. Vencedor inesperado da Concha de Ouro do último Festival de San Sebastian e o grande vencedor dos Prémios GoyaMagical Girl é uma tragédia do nosso mundo, ou seja, isenta de qualquer pingo de magia.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Carlos Vermut / Int.: Barbara Lennie, José Sacristán, Marina Andruix, Raimundo de los Reyes, Lucía Pollán, Luis Bermejo

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 21:21
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18.7.15

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"Good Vibrations"

 

Vale a pena dar graças pela forma como Love & Mercy se esquiva das formulas automatizadas da biografia musical. Não dizendo com isto que estamos perante uma obra transversal e completamente distinta de tudo aquilo que fora anteriormente criado, mas sim uma cinebiografia que aposta em fugir da convencionalidade da já datada narrativa temporal, assim sendo, explorando o intimo e a complexidade da figura que presta vénia. Bryan Wilson, cantor, compositor e produtor musical, o tão celebre e badalado membro da banda dos The Beach Boys, é o objecto de estudo nesta tremenda psicanálise emocional, mais do que somente explorar as ascensões e quedas a nível profissional, visto que a competitividade entre a banda californiana com os mediáticos The Beatles do outro lado do Oceano está longe de ser representado nesta obra de Bill Pohlad, a sua segunda direcção desde Old Explorers (1990).

 

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Com Love & Mercy temos os álbuns como marcos de ênfase dramática para a personagem principal, servindo de "bisturi" para a análise da natureza genial e louca de Wilson, tentando complementar essa veia musical com os vínculos amorosos, afectuosos e familiares que o unem e ao mesmo tempo o desfragmentam. A verdade, é se procuravam aqui algo da mesma classe que um Ray ou um Walk the Line sairão perfeitamente desapontados, tudo porque Love & Mercy é criativo, ostentado por uma diversificada objectividade narrativa, como é o caso das sequências de 16mm, todas elas ligadas aos anos 1965 a 1968, correspondente à fase de redescoberta de Bryan Wilson, dando uma sensação quase documental e demasiado longe da ficção televisiva.

 

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Até nos desempenhos, o filme de Bill Pohlad tenta ir mais longe, ao invés de apresentar protótipos mimetizadas da figura homenageada, como é o caso das enésimas biografias musicais que abundam nas nossas salas, somos presenteados com o mesmo dispositivo utilizado por Todd Haynes em I'm Not There (a biografia de outra figura incontornável da música dos anos 60, Bob Dylan) o de preservação do espírito musical e a utilização deste como uma moldagem para os actores, e não o oposto. Assim não temos um actor que se adapta à figura, mas sim, uma figura que se adapta ao actor. Resultado: dois atores distintos que estabelecem diferentes faces da vida de Bryan Wilson, entre os quais, e a destacar, Paul Dano, talvez o mais subvalorizado dos atores norte-americanos da actualidade, que é visceral na transmissão de um confronto inerente entre corpo e espírito.

 

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Já que referimos desempenhos, vale a pena mencionar Paul Giamatti como o manipulador psicanalista e Elizabeth Banks, a demonstrar que é uma das actrizes mais desperdiçadas pela industria dos nossos dias. Juntos funcionam como notas estampadas em pauta, dando origem à mais doce das melodias, mas nada perto do lugar cativo situado ao lado da entidade divina que o protagonista parece diversas vezes procurar. Todavia, é nesse sentido que Love & Mercy parece transcender o prescrito modelo da cinebiografia musical, há todo nele uma busca por um Deus maior, uma metafísica aspirante que infelizmente parece ser representada por vias de signos cinematográficos já estabelecidos. Não é por menos que Love & Mercy tem uma das sequências copistas do 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, onde só faltou mesmo o monólito. Mesmo assim, temos um dos mais criativos e sóbrios do seu género dos últimos anos.   

 

"I want you to leave, but I don't want you to leave me."

 

Real.: Bill Pohland / Int.: John Cusack, Paul Dano, Elizabeth Banks, Paul Giamatti, Jake Abel

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 08:57
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20.5.15
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Uma Segunda Juventude!

 

É verdade que todos esperavam que Paolo Sorrentino fosse reciclar o estilo vencedor de La Grande Bellezza num filme próximo, e ei-lo: Youth, o seu olhar luxurioso à segunda juventude de cada um, onde Michael Cane e o "ressuscitado" Harvey Keitel compõem um par de amigos de longa data (a caminhos dos 80) que passam férias num requintado hotel situado nos Alpes. Entre spas e saunas, Youth converte-se gradualmente numa poesia industrializada sobre a velhice e a confrontação com o passado, num registo que por si já parece "velho" no grande ecrã.

 

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Mas Sorrentino revela-se ainda, aquilo que já fora considerado na obra anterior: um VJ, apostando num filme sob um visual estilizado e de uma riqueza acolhedora. Se o realizador filma bonito, isso já se sabia, mas em Youth revela-se mais livre, confiante e sim ... egocêntrico. Porém, nem tudo o que vemos é realmente dispensável. É fácil emocionar com Youth (até certo momento uma das personagens expressa o quão subvalorizado estão os sentimentos) com toda aquela revisão dos nossos medos íntimos desconhecidos, mas sobretudo devemos louvar o facto do nosso realizador, que é também o argumentista, acertar com as suas cartadas nos diálogos, surgindo frases deliciosas, alguns dos quais incutindo uma filosofia sincera, talvez mesmo a única sinceridade da obra.

 

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Existe ainda outra aposta vencedora neste novo filme de Sorrentino, o seu humor digno de "buddy movie", como que - de certa maneira - Caine e Keytel fossem reincarnações longínquas de Jack Lemmon e Walter Matthau. A química transmitida por ambos pode ser demasiado frígida para os parâmetros estilísticos do filme, mas mesmo assim eles respondem com exactidão aos requisitos. Salienta-se ainda as participações de Paul Dano, que demonstra novamente o seu talento de difícil reconhecimento, sendo o responsável por uma das sequências que revela o quanto "infantil" podem-se também tornar essas filosofias de Sorrentino, que aqui reflecte sobre os horrores da vida na personificação de uma óbvia personagem histórica. Por outro lado, eis que também surge Jane Fonda (no melhor papel em anos), que encoraja, ao lado de Keitel, a inserção de um dos diálogos mais deliciosos e frontais deste Youth, um debate irónico sobre um tema bem actual , a proclamada morte do cinema e a "vingança" da televisão no futuro.

 

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Sim, há muito por onde gostar nesta obra, nem que seja para matar as saudades de uma certa "beleza". Desde o desempenho de Michael Caine, ao bom regresso de Harvey Keitel, passando pelo hedonismo, até chegar ao glorioso momento final, acompanhado por uma música que assombra a narrativa: "The Simple Songs". Youth pode não ser a obra que se esperava de Sorrentino depois de La Grande Bellezza, mas para todos os efeitos é pura sedução.

 

"Intellectuals have no taste."

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Paolo Sorrentino / Int.: Michael Caine, Harvey Keitel, Paul Dano, Rachel Weisz, Jane Fonda, Roly Serrano, Madalina Diana Ghenea

 

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Ver Também

La Grande Bellezza (2013)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 14:20
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18.5.15

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Repousa soldado, a tua hora chegou!

 

Um funeral de luzes, Apichatpong Weerasethakul regressa a Cannes com uma experiência visual puramente artesanal, esboçando uma Tailândia em plena reconstrução e em eterna ligação com o seu misticismo. Cemetery of Splendor evidencia-nos um retorno do cineasta ao estilo do seu O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores (vencedor da Palma de Ouro em 2010), cuja coexistência entre a realidade e o mundo fantástico de cariz mítico é de tal forma desarmante como natural. Neste seu registo do sobrenatural, Weerasethakul aproveita tal essência para incutir todo um conjunto de "what if", usufruindo de jogos de faz de conta para emanar a magia desta imaginação acorrentada por um medo social e politico. 

 

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Nesse sentido, Cemetery of Splendor revela-se num conto anti-militarista, tecendo sonhos perdidos e decepções destes militares "zombies", aprisionados num sono inacabado e ao mesmo tempo requisitados para defrontar batalhas que são tudo menos as suas. "Não há futuro no exército", revela-nos uma das personagens que de seguida salienta a futilidade que as próprias forças-armadas adquiriram na sociedade tailandesa. Porém, a mensagem poderá passar despercebida, visto que Apichatpong Weerasethakul faz um filme à sua maneira, sob uma solitude constante e com planos apenas para perdurar o seu olhar enquanto artista visualmente criativo, alguns dos quais verdadeiramente desnecessários e que pouco ou nada acrescentam à narrativa.

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Mas o seu mundo continua a ser convidativo, imaginativo e, sobretudo, guiado por um vórtice de estranheza. São deuses sob a forma humana, luzes funerárias que transmitem os sonhos dos seus "soldados caídos", um palácio imaginário algures numa trágica floresta e videntes ao serviço da nação: uma fantasia aberta para todos mas inerententemente "exquisite", isto vindo de um autor que continua, e muito, a deslumbrar uma comunidade cinéfila com as suas imagens harmoniosas e fantasmagóricas. Por fim, termina-se com "o desejo do Paraíso guia-nos ao Inferno". Citação que se encontra numa das placas deste Cemitério de Esplendores.

 

Filme visualizado na secção Un Certain Regard da 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Apichatpong Weerasethakul / Int.: Banlop Lomnoi, Jenjira Pongpas, Jarinpattra Rueangram

 

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Ver Também

Uncle Boonmee Who Recall His Past Lives (2010)

7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:51
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14.5.15

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A suspeita é coisa de vizinho!

 

A Nova Vaga Romena é dotada pelo realismo rígido e de algumas melancolias. Radu Muntean (Tuesday, After Christmas) consegue através dessa característica do seu cinema construir um anti-thriller, uma obra alicerçada por dilemas de culpa e insuspeita. Em Un Etaj Mai Jos (One Floor Below) seguimos Patrascu (Teodor Corban), um homem comum, pai de família, acomodado com a sua vida, trabalho e amigos, cuja curiosidade o leva a territórios psicologicamente perturbados. Certo dia, Patrascu ouve uma discussão da vizinha do andar de baixo e, para poder acompanhar os pormenores dessa valente discussão entre uma jovem rapariga e o seu amante, também ele um vizinho, é apanhado a escutar por detrás da porta. No dia seguinte, a mesma vizinha aparece morta, a polícia investiga e o suicídio é a causa mais provável. Porém, para Patrascu o evento é um claro homicídio, e a suspeita do eventual culpado surge na sua mente. Apesar de decidido a continuar com a sua vida, Patrascu vê-se perseguido pelo alegado homicida.

 

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One Floor Below contrai um sentimento anti-climax em toda a sua execução, a começar por uma câmara que segue fielmente o seu protagonista, onde esse efeito (que funciona como uma rêmora num tubarão) não limita o olhar do espectador quanto ao desenrolar da intriga, mas finca sobretudo o realismo das suas sequências. O resultado é feliz nessa transmissão de credibilidade. O protagonista, Teodor Corban, demonstra firmeza no seu desempenho, o esboço de um homem comum, transparente quanto às suas emoções e dimensão psicológica, funcionando como uma personagem que não nos importamos de seguir nesta jornada ao andar de baixo. Quanto à sua aventura propriamente dita, Radu Muntean tece uma intriga em constante confronto com os seus dilemas, quase referenciando o cinema de Hitchcock sob o vínculo da culpa.

 

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Mas a questão da autodestruição derivada por um silencio criminoso revela as suas fraquezas enquanto produto independente. One Floor Below possui na sua carta alguns valores de ouro quanto à entrega do enredo, a dissipação do climax como uma opção direccionada ao debate fora do filme e a sua ambiguidade afiada. Contudo, o filme está demasiado preso ao seu clubismo estilístico, com um realismo exaustivamente reforçado pela sua própria frigidez. Ainda assim, não deixa de ser uma curiosa experiência.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Radu Muntean / Int.: Teodor Corban, Constantin Dita, Ionut Bora, Liviu Cheloiu, Calin Chirila

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 21:15
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13.5.15

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Fraternidade segundo Koreeda!

 

Mais uma prova de que Hirokazu Koreeda é o herdeiro directo de Yasujiro Ozu, mesmo que tente em cada filme afastar-se do estilo formalizado e reconhecido. Umimachi Diary (Our Little Sister), baseado na manga de Akimi Yoshida que nos remete à história de três irmãs adultas que acolhem a desconhecida pequena meia-irmã, é um poço de delicadeza e sensibilidade que aborda as complexidades das relações afectuosas de um jeito desarmante na sua simplicidade.

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Tal como Ozu, o toque emocional é poderoso, conservando a força do último ato e preservando os valores familiares que tendem em ser invocados exaustivamente. Mas estes aspectos não são as únicas comparações com o mestre de Tokyo Monogatari (A Viagem a Tóquio), cujo seu legado fez escola no cinema nipónico, proliferando igualmente no resto do Mundo. Ocasionalmente, Koreeda expõe uma planificação seguindo algumas matrizes de Ozu, com os seus dignos saltos de eixo e a essência cénica, como por exemplo a importância das refeições no decorrer da trama, ou a presença do bar, assim como da cerveja, que conduz aos mais variados diálogos. Portanto, ver um filme de Koreeda é de certa maneira revisitar as memórias do artesão Ozu, embora as saudades pelo mesmo não sejam (felizmente) totalmente consumidas.

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Koreeda reserva a sua própria marca, enunciado o que aprendeu e que demonstra saber ao mesmo tempo que constrói personagens ricas, sensibilizando-as a nunca se desvanecerem nos registos formatados e nos lugares-comuns. A ênfase dramática pode ser um desafio para quem aposta em dramas familiares tensos e fortes, mas em Our Little Sister é o toque fraternal que nos faz amar este relato de amizade, compaixão e redenção, e sobretudo construção de novos laços. Depois, temos o quarteto de actrizes, tão belas como emocionantes, tão humanas como afáveis para com o espectador (destaque para Suzu Hirose).

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Dotado de uma poesia visual e de uma narrativa acolhedora, Hirokazu Koreeda tem aqui mais um importante trabalho da sua filmografia. Mas mesmo que belo e terno, é importante que um realizador como este consiga superar as comparações que tem sido alvo e aposte num estilo próprio, visto que no talento em manusear as emoções ele é um sábio!

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Hirokazu Koreeda / Int.: Haruka Ayase, Masami Nagasawa, Kaho, Suzu Hirose

 

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Ver Outros Filmes de Hirokazu Koreeda

Like Father, Like Son (2013)

Still Walking (2008)

 

Ver Filmes de Yasujiro Ozu

Tokyo Monogatari (1953)

Higanbana (1958)

Sanma no Aji (1962)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:37
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23.4.15

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"Chamou Sr. Presidente!"

 

Para os mais conservadores, todo este desenrole soa uma pura e simples palhaçada, um troçar de tempos difíceis que uma geração passou e ultrapassou, cada uma há sua maneira. Porém, é possível assinalar Capitão Falcão, esse "anti-herói" fascista levado ao grande ecrã pelas mãos de João Leitão, como um filme necessário para o nosso próprio panorama social, o de despir de todos os simbolismos dessa "fonte" denominada por salazarismo, a ditadura pelo qual Portugal mergulhou por mais de 40 anos, em que Salazar foi o seu elevado "ditador". Toda essa arma de "enterrar" memórias passadas (cada vez mais invocadas nos tempos austeros que vivemos actualmente) é por vias da maior das armas - a comédia - mais precisamente da sátira, tão pouco aproveitada nos nossos meios de entretenimento.

 

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Aqui, a sátira é a combustão para este Portugal influenciado pelo estilo "camp", (as comparações com o Batman, de Adam West, serão inevitáveis), onde reside um "super-herói", isente de qualquer super-poder para além da sua "portugalidade", o tão singular "desenrascar", essa palavra única do vocabulário lusitano que tanto dita o nosso meio vivente. Munido de ideologias facciosas aos "bons valores portugueses", sempre confundidas com concepções fascistas e salazaristas, e acompanhado pelo seu "calado" sidekick, o Puto Perdiz (David Chan), Capitão Falcão é perito em livrar o seu país das eventuais "escumalhas da sociedade"; comunistas, feministas, idealistas e … claro, os Capitães de Abril. Tudo o que soa como uma ameaça ao regime é desde logo abatido pelo nosso Capitão Falcão (Gonçalo Waddington numa prestação altamente maneirista).

 

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Verdade seja dita, toda esta aventura é divertida de se ver, João Leitão ostenta uma preocupação visual, um especial cuidado com as cores o qual aufere uma atmosfera característica ao estilo incutido, e depois são todos aqueles "disparos" satíricos, desde os gags físicos aos diálogos, tudo pensado em servir um propósito, o de converter o fascismo numa possível caricatura e assim tecer astúcia suficiente para manter a obra longe do território spoof extremista. Mas se a sátira é a grande inovação em Capitão Falcão, esta também funciona sua fraqueza, a kriptonite, já que estamos numa de heróis de BD. Provavelmente os idealismos incumbidos no nosso protagonista podem ser equivocadamente confundidos com os dos envolvidos, e assim fazer com que o filme de João Leitão seja incompreendida a uma ofensa social e de valores adquiridos por um "povo lutador".

 

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Mesmo que a obra tende em frisar constantemente esse ponto nas proximidades do desfecho, é o intelecto do espectador que sairá como o derradeiro desafio, a missão mais arriscada, deste Capitão Falcão. Contudo, nada que impeça de perdermos a "next big thing" do cinema português, e dentro desse termo de "cinema comercial", temos entre mãos, um dos melhores. Cameos de heróis esquecidos, referências, e muitas, à nossa "portugalidade", humor inteligente e personagens dignas para durar no imaginário lusitano, Capitão Falcão é um must, e tanto, que nos faz esquecer das suas limitações enquanto produto fora do presunçoso conceito de world cinema.

 

"Vamos a isto, Camaradas!"

 

Real.: João Leitão / Int.: Gonçalo Waddington, David Chan Cordeiro, Dinarte de Freitas, José Pinto, Miguel Guilherme, Rui Mendes, Tiago Rodrigues, Carla Maciel, Nuno Lopes, Bruno Nogueira, Ricardo Carriço, Manuel João Vieira, António Durães, Luís Vicente e Pepê Rapazote

 

Vamos a Isto, Camaradas

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:03
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12.4.15
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Isolado!

 

Lura é a história de náufragos voluntários, reféns dos fantasmas do passado, eremitas que se tornam cúmplices da solidão. Manuel (Filipe Vargas) é o dito náufrago, não numa ilha, mas de uma casa abandonada que comporta como um pedaço relevante do seu passado, o qual o persegue incessantemente, sendo a sua única forma de luta e reconstrução dos laços corrompidos. Luís Brás compõe aqui a sua primeira longa-metragem, um objecto pessoal que assenta no expressionismo das imagens e na linguagem corporal das suas sequências. Além disso, é um risco cinematográfico onde é possível ver o desenvolvimento do realizador, que a olhos vistos passa de um mero académico a um poeta visual com infinita abordagem.

 

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Trata-se de um filme que recorre várias vezes às influências do fantástico. Tal como no clássico de Robert Wise, The Haunting (1963), a casa de Lura expõe um magnetismo assombroso, uma personalidade transversal e fortemente pesada que se sente na personagem. Mas essa força espiritual não se encontra no respectivo imóvel. Luís Brás herda a força expressiva das mãos e gestos de um M, de Fritz Lang, e, graças a tal, cria uma das sequências mais fantasmagóricas do cinema português recente. Para além do cenário, da atmosfera conseguida e toques metafísicos aludidos às diversas realidades, Lura é um portento técnico. Nesses termos, vale a pena salientar a fotografia de Leandro Ferrão (com acentuados toques de loucura) e a sonoplastia envolvente por João P. Nunes.

 

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Lura funciona como uma revelação do cinema português e uma determinação de crescimento pessoal acompanhado por um afecto fraterno à arte de fazer cinema. Mas não deveríamos tecer tantos elogios a Luís Brás, até porque muito trabalho deve ser feito, nomeadamente em encontrar um elo entre a expressão fílmica e a credibilidade dos actos (diria que a loucura assenta demasiado cedo no seu protagonista). Por enquanto, uma coisa é certa. Lura é hipnótico e como primeira obra, tenebrosamente bela.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Brás / Int.: Filipe Vargas, Ana Padrão, Rita Martins

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:07
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28.3.15

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A semente de Polanski!

 

Provavelmente quem desconhecerá qualquer pormenor sobre a obra em si, poderá equivocadamente julgar, tendo em conta a primeira sequência, estar perante de uma comédia sob toques reconhecíveis da escola de Sundance. Mas algo transforma-se e num ápice vemo-nos envolvidos numa rampa decrescente à trépida relação do casal protagonista. Inspirado no livro de Marco Franzoso, Hungry Hearts, de Saverio Costanzo (La Solitudine Dei Numeri Primi), é a história de um jovem casal que assume a responsabilidade paternal no preciso momento em que a "cegonha bate à porta". E é então, nesse determinado instante que a vida dos inicialmente felizes, Mina (Alba Rohrwacher) e Jude (Adam Driver), drasticamente altera para contornos bizarramente dementes. Ela, encarando o seu filho como um divino ser de outra dimensão, tenta purificar a sua estadia neste Mundo e ele protegendo o seu rebento da sua própria progenitora.

 

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É certo que Hungry Hearts, uma produção italiana maioritariamente falada em inglês, tem muito a dever ao suspense de Roman Polanski, nomeadamente o psicológico de Rosemary's Baby com Rohrwacher a comportar-se como uma nova Mia Farrow. O peso desse incutido terror psicológica começa a sentir gradualmente na narrativa, nomeadamente a câmara de Costanzo é embebida por essa dimensionalidade, e nós, espectadores, testemunhamos esse fruto e os efeitos da mesma. Quanto ao elenco, se Adam Driver consegue o apelo, é em Alba Rohrwacher que concentra como o catalisador de toda a teia de suspense ditada por Costanzo. Mais de que uma musa "polanskiana", a actriz vencedora de um respectivo Prémio no último Festival de Veneza, demonstra-nos uma frieza arrepiante na pele de uma psicótica mãe à deriva de um tremendo vórtice.

 

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Hungry Hearts induz-se nesses desempenhos, fortes e de certa maneira bastardos , e de uma atmosférica claustrofobia que apenas adensa no último terço, onde o ritmo parece render-se a uma eventual elipse com claras premonições para com o twist. Apesar deste último ser demasiado repentino e insípido, opera sob uma razoável satisfação. Entenda-se que o filme de Costanzo tinha iminente horizontes a atingir, contudo, o resultado fica-se por um ensaio de suspense construído de forma sombria, mas ritmada a pouco vapor. Sobra então o efeito conseguido desde então e os desempenhos de "cortar a faca", nomeadamente, Alba Rohrwacher a alcançar um dos seus personagens mais singulares, provavelmente mencionada em futuras galerias de mulheres psicopatas do Cinema.  

 

Filme visualizado na 8ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Saverio Costanzo / Int.: Adam Driver, Alba Rohrwacher, Roberta Maxwell

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 02:42
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8.3.15

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 Romance à judaica!

 

A comunidade hassídica e a actriz Hadas Yaron parecem permanecer num compromisso matrimonial no cinema. Depois de ter sido consagrada com o prémio de Melhor Actriz no Festival de Veneza com Fill the Void (A Noiva Prometida), um retrato nada acusador dessa sociedade ultra-conservadora judaica, Yaron torna-se a musa de Maxime Giroux e Françoise Delisle nesta obra que incute o romance como um escape quotidiano. Ela é Meira, uma judia hassidica que vive "aprisionada" aos costumes e às rígidas tradições da sua religião, em particular com o seu marido. Do outro lado encontramos Félix (Martin Dubreuil), um homem que tenta superar a morte do pai e que tece um magnético fascínio por Meira. Ambos, dois seres envolvidos na solidão dos seus dias, criam laços e uma cumplicidade entre eles que dificilmente os seus mundos anteriores poderão resgatar.

 

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De certa forma despreocupado com a maneira como lida como o romance, Félix & Meira, centra-se mais como uma mera fórmula de "boy meets girl" e avança com uma fuga labiríntica, onde não falta uma atmosfera doce e melancólica. Este é um filme simples que nos conquista por isso mesmo, pela sua simplicidade sincera e terna (não verificamos nada mais explícito que o simples abraço caloroso), sem demasiadas convenções com a ficção cinematográfica, um pouco como Sofia Coppola conseguiu com o seu Lost in Translation: a "colisão" de dois mundos distintos entregues à aritmética dos sentimentos.

 

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Para além de tudo, Félix & Meira é bem interpretado. Hadas Yaron prevalece num estado melancólico contagiante e sob um constante olhar de redenção para o cerco que a rodeia. Luzer Twersky, que desempenha o marido de Meira, consegue também conquistar-nos como uma personagem nobre, apesar disso não transparecer inicialmente. A dupla Giroux e Delisle concretiza aqui um filme com fortes relações musicais: ambos os realizadores cresceram com a presença dos videoclipes e isso (sob uma boa vertente) encontra-se bem presente na narrativa e nas emoções das respectivas personagens, basta apenas verificar o efeito que After Laughter (Comes Tears), de Wendy Rene, tem em Meira, ou no desgostoso climax imposto por Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen.

 

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Outras influências que poderão ser encontradas em Félix & Meira é a previsibilidade das influências shakespereanas, não apenas inseridas no romance impossível digno de Romeu e Julieta, mas na atracção de Veneza como um ponto de refúgio (acentuado por uma atmosférica fotografia de Sara Mishara). Porque todo os seres merecerem o seu biótopo, sem amarras que os prendam. Muito mais que um mero romance de pacotilha!

 

Filme visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Maxime Giroux, Françoise Delisle / Int.: Hadas Yaron, Martin Dubreuil, Luzer Twersky

 

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Ver Também

Fill the Void (2012)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:17
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6.3.15

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Consolidação com os fantasmas da Guerra!

 

A primeira longa-metragem do actor italiano radicado na Alemanha, Giulio Ricciarelli, Im Labyrinth des Schweigens (O Labirinto das Mentiras), é um thriller jurídico que nos remete a um dos momentos históricos mais marcantes da Alemanha pós-guerra e até mesmo do Mundo. Esta história fictícia, que tem como base o julgamento de Auschwitz, decorrido em Frankfurt em 1963, onde 22 ex-guardas do campo de concentração foram constituídos arguidos e mais de 211 sobreviventes prestaram os seus depoimentos, é acima de tudo um produto cinematográfico que tem o intuito de incentivar o público a não esquecer os actos cometidos naquela época negra e do valor (des)humano que aquele lugar parece transmitir.

 

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Hoje tido como um reduto do mal ou um cemitério símbolo, Auschwitz, localizado na Polónia, foi em tempos uma "pedra esquecida" por uma Alemanha que tentava renascer das cinzas e que sarava com custo das velhas feridas. Os atentados à integridade humana foram assuntos vencidos, prova disso, foi a ignorância das gerações seguintes, desinformadas sobre os actos e o local em questão. Entre elas estava Johann Radman (Alexander Fehling), um jovem procurador. Após questionar a natureza dos crimes cometidos naquele "conjunto de vedações, barracas e postos de vigia", decide encabeçar uma das maiores investigações que a Alemanha testemunhou nos últimos anos.

 

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Assumindo como um produto a roçar o policial, O Labirinto das Mentiras mostra-se como uma colectânea de horrores e personalidades que protagonizaram a "Solução Final" e outras barbáries ao serviço de um regime. À medida que remexe neste passado sangrento, o qual envergonha toda uma geração ( "Nós, alemães devemos vestir o preto para sempre", como é citado a certa altura), Radman abre uma autêntica caixa de Pandora e reivindica um movimento de colisão com os valores recém-estabelecidos da sociedade alemã à visão distorcida por injustificáveis pecados ideológicos, nomeadamente o Holocausto. São os filhos do nazismo, fruto geracional de um legado ocultado, que até mesmo as Nações Unidas encobrem ("os novos inimigos são os russos" refere um dos americanos do consulado dos EUA, quando confrontado com uma solicitação de acesso aos arquivos de Auschwitz).

 

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Visto isto, O Labirinto das Mentiras evita por vezes a fórmula de investigação para explorar uma vertente mais intimista e existencial dessa herança maldita. Questiona o nacionalismo e debate-se sobre a integridade alemã. O desempenho sempre crescente de Alexander Fehling acentua essas fragilidades, assim como os dilemas propostos, apresentando-nos de forma figurativa as gerações enganadas que terão que conviver com os actos monstruosos cometidos pelos pais. Existe aqui uma certa influência das Banalidades do Mal de Hannah Arendt, a questão do dever militar sobre a consciência humana é diversa vezes citada e dissecada durante o embate com estes "monstros com cara de gente".

 

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Contudo, o filme acaba por se perder entre alguns subenredos que se guiem por becos sem saída. Por exemplo, a obsessão do nosso "herói" em deter Josef Mengele, o infame médico alemão (o "Anjo da Morte", como é apelidado), autor de algumas das aberrações médicas cometidas a prisioneiros dos campos de concentração, "empapa" em demasia o fio condutor narrativo da mesma. Porém, não sendo nenhuma obra-prima ou algo transcendental, O Labirinto das Mentiras é um retrato de boas intenções que traz alguma emotividade ao tema, mas acima de tudo ilustra a superação de um povo contra os seus próprios demónios.

 

Filme de abertura da edição 2015 do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Giulio Ricciarelli / Int.: Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:11
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