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8.9.16
8.9.16

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Somos filhos da violência!

 

Será demência sinónimo de genialidade? Para Rob Zombie e a sua nova obra 31, está muito mais em jogo do que a simples homenagem ao cinema "nasty" e "torture" de um Texas Chainsaw Massacre ou de um I Spit in Your Grave. Está sim, o embate com um estilo próprio, de "mau gosto" para alguns, mas verdadeiramente requintado para a proposta que apresenta.

 

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Um cruzamento entre Texas Chainsaw Massacre e The Hunger Games, 31 centra-nos no típico "horror road trip" com demasiados "piscares de olhos" ao eterno filme de Tobe Hooper até chegar a uma delirante trip à lá Devil Rejects. Maniqueísmos estão à "borda do prato", a refeição é crua e indigesta e é nesse tipo de espectáculo que o músico e agora realizador, Rob Zombie, concentra na sua crítica social. Até porque nós todos somos "animais", as personagens que tentam sobreviver num sádico jogo orquestrado por aristocratas até nós, espectadores, que aceitamos a viagem imaculada dos seus acordes.

 

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A provocação é aqui facilitada, mas é nesse leque de "nasty things" que a exploração torna-se real para a audiência, tudo se resume a um circo munido por identificáveis peças, nada que não difere dos nossos habituais videojogos, das manchetes sedentas de mediatismo e do fascínio intimo de cada um pela violência. Sim, somos todos filhos da violência e Rob Zombie não é o demónio por nos mostrar isso ao longo da sua carreira enquanto realizador, porém, é o autor que mexe "cordelinhos" desse desejo proibido.

 

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A sua câmara que se desloca à velocidade da luz em alturas críticas revela-se numa poderosa aliada em território sensorial, não é todos os dias que vemos um filme de terror que nos desperta adrenalina, uma incomoda sensação de vermos tudo e ao mesmo tempo vermos absolutamente nada. Os maiores episódios de violência estão na mente do espectador, por esta altura Rob Zombie ri-se que nem um perdido perante tal feito.

 

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O único senão deste retrato é também aquela possível marca autoral do realizador, a sua mulher, Sheri Moon Zombie que nunca nos verdadeiramente convenceu. Mas tal é compensado com as participações de Judy Geeson (Rilington Place, de Fleischer), Meg Foster (They Live, de Carpenter) e Malcolm McDowell (Clockwork Orange, de Kubrick), entre outros, actores que instalam-se como memórias de uma terrifica cinéfila, o "lado negro" admirado pelo próprio Zombie, proclamador do género de terror. Ah, e já me ia esquecendo, Richard Brake a citar-se como um psicopata "campónio", transgredindo o estereotipo pelo qual é submetido.

 

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Pormenores que tornam 31 num filme que receamos em venerar, mas a confirmação de que Rob Zombie é um autor de terror, daqueles subvalorizado (tal como Eli Roth) por um cultura subjugada ao cinema de estúdio de um The Conjuring ou do enésimo remake de um clássico qualquer.  

 

"Now, you may think you see a grease-painted performer sitting before you. But trust me - I'm not here to brighten your dismal day; I am here to end your miserable life. You know, all in all, you've had a pretty good run, but deep down inside you must've known it all had to end somewhere - might as well be now."

 

Real.: Rob Zombie / Int.: Sheri Moon Zombie, Malcolm McDowell, Richard Brake, Jeff Daniel Phillips, Meg Foster, Judy Geeson, Pancho Moler, Tracey Walter, Lawrence Hilton-Jacobs, Kevin Jackson

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:33
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7.9.16

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O Conjuring coreano!

 

Os coreanos sempre foram assim, ambiciosos e igualmente descontraídos nas suas incursões fantásticas, e quem não se lembra de The Host, de Joon-ho Boong, esse reavivar do cinema kaiju, para dar uma ideia do que lidamos em relação a tons neste The Wailing.   

 

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Dirigido por Hong-jin Na (The Chaser), este é uma costura de variados “trapos” que consolida o terror com os lugares do suspense policial, o humor até mesmo a um fino drama familiar, sem com isso negar a sua atmosfera de “filme-de-desastre”. A enésima história de possessão teima aqui em não persistir em linha recta, vagueando fantasmagoricamente em outras nuances e complicações argumentativas, chegamos mesmo a pensar que uma simples intriga foi deliberadamente convertida numa pesadão “mastodonte”, a jornada é cansativa e as nossas forças cinéfilas tendem em desvanecer tais como a do nosso protagonista. 

 

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O herói, interpretado por Do Won Kwak, bem poderia ser uma personagem extraída de uma comédia, um policia trapalhão cujo porte físico é representado por uns quilinhos a mais, bem, uma chacota digna lá para os lados de Hollywood. Contudo, é o exemplo de heroísmo acidental, sem com isso branqueá-lo do lado negro habitual do ser humano. É na construção deste protagonista que The Wailing demarca de muitas outras produções de terror, é nos seus laivos competentes de teor que chegamos curiosamente a dar uma espreitadela a esta sombra que paira numa tradicional cidade, assombrada por espíritos florestais e receosa por superstições arcaicas.  

 

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Não negando o charme de The Wailing, há, no entretanto, uma infelicidade em encontrar nesta produção sul-coreana uma replicada ambição de ser um The Conjuring (aviso desde já que o filme de James Wan é aqui inserido não sob forma de elogio). É como já havia referido, a costura de vários “trapos” é também reciclado, e a reciclagem teima em ser homenagem a um cinema de género. De The Exorcist até aos terrores amaldiçoados do J-Horror, passando pelo policial feroz de Fincher e até certo ponto um side-by-side de I Know What you Did in Last Summer, é novamente a impotência de não saber o que fazer com tantos lugares-comuns. Ganhou-se um sólido filme de género, mas perdeu-se uma eventual obra-prima.

 

Real.: Hong-jin Na / Int.: Do Won Kwak, Jun Kunimura, Jung-min Hwang, Woo-hee Chun

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 23:09
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7.9.16

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Clint Eastwood e os seus heróis!

 

Um dos episódios mais impressionantes da História da Aviação aconteceu em 2009, quando o piloto norte-americano, Chesley "Sully" Sullenberger, concretiza com êxito uma arriscada aterragem no Rio Hudson. Estamos a falar do  US Airways 1549, um avião comercial que trazia a bordo 155 almas, porém, devido ao heróico feito de "Sully" que actuou no momento certo, nenhuma delas se perdeu. Uma "boa notícia em Nova Iorque principalmente com aviões", como é referido a certo momento nestas adaptação de Clint Eastwood, tem recebido um extremo frenesim mediático. "Sully" foi automaticamente elevado a estatuto de herói, tendo até sido nomeado pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes.

 

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Mas passando para o filme propriamente dito, Clint Eastwood remexe novamente na História norte-americana para analisar um dos seus heróis recentes. Contudo, este Sully está mais próximo de Flags of our Fathers do que o equívoco de American Sniper (continuo a acreditar que o filme não foi fruto de Eastwood), o qual procura uma definição concreta de heroísmo, posicionando a câmara para os homens comuns que os "imortalizam". Enquanto que no filme de 2006, o retrato dos soldados que içaram a bandeira dos EUA na ilha de Iwo Jima, os ditos "heróis" questionavam-se perante uma sociedade sedenta pelo estatuto, em "Sully" é a própria sociedade que questiona a natureza do nosso herói, sendo este o conflito que prossegue toda a narrativa, desaguando no limiar existencialista do protagonista.

 

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Tal como sucedera com o fracassado Flight, de Robert Zemeckis, é a busca dos factos e responsabilidade acima de qualquer factor humano, mas Sully apresenta-nos um "punhado" dessa última dose com Tom Hanks a funcionar como um actor "capriano", a erguer toda a trama em cima dos seus ombros mesmo que para isso torne descartável todo o conjunto de personagens secundárias. No fim percebe-se, que os veios analistas não chegam a ser profundos, as marcas não nos levam ao seu extremo e o classicismo moralista é a solução para uma dedicada homenagem.

 

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Talvez tenha sido American Sniper, que fora o embate com um realizador anónimo, que fez com que "Sully" converter-se numa experiência acima da média, mesmo assim interiorizada no cinema norte-americano academista. Mas é Clint Eastwood que se encontra na batuta, quer que se ama, ou odeia, é esse factor humano que conta.

 

Real.: Clint Eastwood / Int.: Tom Hanks, Aaron Eckhart, Laura Linney

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:48
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27.8.16

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A comunidade de Vinterberg!

 

"Qual é o valor da tua ferramenta?" foi com esta pergunta que uma das cenas mais memoráveis do documentário Torre Bela, de Thomas Harlan (o relato da transição ideológica de um Portugal pós-25 de Abril), se iniciou. Nesta mesma, os sonhos de uma politica de esquerda, a vontade de uma comunidade, é afrontada pela necessidade e orgulho de um só individuo, aqui um agricultor nada disposto a ceder a sua enxada a uma cooperativa agrária.

 

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Quarenta anos depois, Thomas Vinterberg, um dos fundadores do Dogma 95 ao lado de Lars Von Trier, dirige The Commune (A Comuna), um exorcizar de uma ingenuidade politica que o realizador acolhera na sua juventude, porém, como o próprio parece demonstrar nesta sua nova obra, uma quebradiça ideia face às necessidades individuais. O casal preferido do cinema dinamarquês (Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm), são novamente requisitados como volantes desta trama que arranca com uma herança imobiliária e um desejo de harmoniosa comunidade. Contudo, essa mesma fabricada colectividade, uma comuna entre amigos, é abalada com o aparecimento de um novo amor, uma terceira pessoa num relacionamento matrimonial de anos.

 

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Thomas Vinterberg estende num prolongado confronto entre a comunidade e o individuo, salientando a "humanidade" de cada um face às ideologias politicas. Parece que este "sonho esquerdista" não é à prova de bala, neste caso de sentimentos vividos. Não com isto induzir-nos numa propaganda politica e tendo em conta o calor de posições do género que afronta o nosso país (quarenta anos desde Torre Bela e essa reconstrução ideológica continuamos com dúvidas acerca da nossa governação e dos requisitos destas), A Comuna é um filme que valida-nos como seres específicos e personalizados e não como rebanho de uma só voz. É também o retrato de que uma correcta politica é uma fantasia sonhada por homens idealizados. Não existe nenhum maniqueísmo, até mesmo a democracia é aqui questionada, segundo a personagem de Ulrich Thomsen, "não é a maioria que ditará como viverei a minha vida".

 

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Longe da provocação fácil dos seus congéneres, Thomas Vinterberg segue o caminho mais subtil e difícil, porém, o faz com o auxilio de bons "tenores". Neste caso, Trine Dyrholm é uma musa expressiva, uma "bomba" emocional que testa qualquer doutrina sociopolítica.

 

Real.: Thomas Vinterberg / Int.: Fares Fares, Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Julie Agnete Vang

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:45
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7.7.16

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O amigo EXTRA-terrestre!

 

Um enredo de gigantes "caçadores de sonhos" escrito por Roald Dahl em 1982, é, teoricamente, "pano para mangas" do habitual cinema familiar de Steven Spielberg, aquele que é visto por muitos como um dos maiores contadores da história da indústria cinematográfica norte-americana. Por isso, não há que enganar, The BFG é um claro filme de Spielberg, confortavelmente composto pelo sua costura clássica e embrulhado com os últimos avanços tecnológicos que adquirem o seu quê de "credibilidade".

 

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É a pausa do cinema politico que o realizador tem vindo a tecer nos últimos anos e o retorno aos condimentos que fizeram ET um verdadeiro êxito. Obviamente que o cinema dito blockbuster actual segue em outras direcções, contraiu uma faceta de multi-plataformas e foi influenciado por essas referidas e paralelas convenções. Já soa um cliché mencionar a megalómana indústria Marvel para perceber um pouco como funciona a indústria dos nossos dias, mas é talvez essa comparação que nos leva a "conspirar" porque é que um filme como The BFG, ligado a um nome mundialmente reconhecido, falhe nas bilheteiras do seu país.

 

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Spielberg esboça um ingrediente hoje perdido nesse grande cinema de entretenimento - ingenuidade - não da forma ignorante ou "acanhada" como muito do cinema de teor politico (e não só) que parece hoje tomar, mas a inocência do simples storytelling, e se não for, a suposta atribuição desta. Ao ver The BFG vem-nos os aromas de um cinema perdido, a fantasia levada com exclusividade na grande tela, e Spielberg reconhece essa extinção que só poucos autores, muitos deles veteranos nestas andanças, continuam a invocar (com excepção do jovem J.J. Abrams, o "aprendiz" que tem vindo a reafirmar esse tão obsoleto toque com alguma eficácia). Por isso não esperem aqui um revitalizador Spielberg, como havia sido mostrado em Munich ou até mesmo em Lincoln, porém, aguardem por um cineasta que resiste ao tempo, mesmo que este não seja o seu melhor amigo.

 

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Como cedência ao mesmo, os efeitos visuais são de topo, com Mark Rylance, a caminho de se tornar num dos eventuais colaboradores do realizador, "vestindo" a pele deste simpático gigante possibilitado com o método "motion capture". Os resultados suscitaram no  espectador algumas curiosas afinidades. A companhia deste gigante pedaço de CGI é a jovem actriz Ruby Barnhill, de carne e osso, que nos retransmite essa mesma sensação de inocência de primordial.

 

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Quanto às iminentes imaturidades da história e o desfecho inacreditavelmente fácil, isso, só será possível ao reclamar com o próprio Roald Dahl, que não faz parte deste mundo há mais de 26 anos. Todavia, os seus relatos continuam a inspirar gerações, em particular um "menino" chamado Spielberg.

 

"Because I hears your lonely heart, in all the secret whisperings of the world."

 

Real.: Steven Spielberg / Int.: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Jemaine Clement, Rebecca Hall

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 00:19
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6.7.16

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A Liga dos Cavalheiros Extraordinários!

 

Eis uma obra que coloca à prova a masculinidade, a sua natureza e a razão de tremenda existência. Hoje visto como um forçado sinónimo ao machismo, sexismo ou até homofobia, a masculinidade é um acto de afirmação de um homem perante os outros. O respeito, a dignidade, o exemplo de ser um individuo à altura de tal representação, tudo fragmentos que compõem o ego do género masculino.   

 

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Chevalier incendeia essa mesma capa, esse estatuto de cobiça alcançável, ao mesmo tempo que atribui o seu quê de misticismo, pois, a masculinidade é um mito, e tais lendas são exorcizadas por Athina Rachel Tsangari. (sim, uma mulher a dirigir um filme onde não existe réstia presencial do lado feminino). A realizadora havia concretizado em 2010, o singular Attenberg [ler crítica], um filme de duas raparigas assexuadas em busca da sua própria identidade, em Chevalier, a jornada não é exclusivamente identitária, mas sim social, o regresso ao nosso lado animalesco, onde ansiamos cumprir os requisitos de macho alfa.

 

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Contudo, mesmo sendo uma “ela” a apresentar este caricato enredo de um grupo de amigos, ou “camaradas” (a camaradagem é também ela uma manifestação da tão referida masculinidade), adeptos de pesca submarina que decidem jogar um prolongado jogo de competição, Chevalier (= Cavaleiro), onde o objectivo é avaliar individualmente cada um para eleger o mais “cavaleiros dos cavaleiros”, este é sobretudo um filme que transpira a "mão masculina" em todo os esporos.  Tal como fizera o brasileiro Gabriel Mascaro, em Boi Neon, a respectiva masculinidade é desconstruída, neste caso, a comédia bromance serve de veiculo para essa análise. A sátira de Chevalier é leve, mas eficaz, o ridículo é interiorizado no realismo das situações e nunca expande para o modo spoof nem sequer das comédias tresloucadas ao dispor do burlesco.  

 

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Os desempenhos funcionam na sua perfeita harmonia, visto que os atores se voluntariam como “cobaias” na própria teorização das respectivas essências de homem. Adereços que tornam o filme numa proposta imperdoável. Por isso, fica o aviso, quem não o vir - menos 10 pontos. Não percebeu? Menos 10.

 

Real.: Athina Rachel Tsangari / Int.: Vangelis Mourikis, Nikos Orphanos, Yorgos Pirpassopoulos

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:35
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15.5.16

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Los Angeles Confidencial!

 

Depois de Deadpool ter demonstrado que os super-heróis conseguem ser indisciplinados, The Nice Guys (Bons Rapazes) é o novo "prego" numa gradual onda politicamente incorrecta que tem dado caras na indústria de Hollywood (bem haja).

 

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Nesta continuação não assumida de L.A. Confidencial, com Russell Crowe de novo como um durão justiceiro (ou algo parecido), a célebre cidade dos Anjos veste agora cores groove como memória a uns libertinos anos 70, aqui a indústria pornográfica expande a todo o gás e nisso é evidenciado no seu enredo satírico. Agora com uns "quilinhos" a mais, o conhecido actor de Gladiator e An Beautiful Mind (por cá gostamos de pensá-lo como o Jeffrey Wingand de The Insider, de Michael Mann) faz dupla com um Ryan Gosling caricatural e sem rédeas, e os resultados chegam a ser … surpreendentemente explosivos.

 

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Shane Black tem um upgrade (e um lifting) do seu anterior, não tão bem sucedido, Kiss Kiss Bang Bang (a sua estreia na direção), onde conseguiu ressuscitar Robert Downey Jr. à comunidade cinéfila e tentou, falhando descaradamente, resgatar Val Kilmer, e para além disso tem no seu currículo o muito amado Lethal Weapon (A Arma Mortífera), um dos pedestais do buddy cop movie. É o regresso das duplas ying/yang, e dos policiais mórbidos, deliciosamente ousados, com gags referenciais aos neo-noir e do cinema de acção oriundo desta "avant-garde" década. Aliás, este é um filme que tem os seus ares de hedonismo incorrecto, e nesse aspecto explora, brincando à sua maneira, com as suas condições de exploitation, assim como enraizar o termo numa intriga bem vintage.

 

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É entretenimento, como parece já ser cliché insinuar, à moda antiga, com um dupla erguida sob uma inesperada química, um argumento simples mas astuto, armadilhado com gags sem escrúpulos e uma ou outra surpresa que tornam este produto num irreverente do género. Ou será repescagem de outros tempos? Assim sendo, esta é o esticado dedo médio de Shane Black à sua constrangida experiência na Marvel Studios [Iron Man 3].

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Shane Black / Int.: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Angourie Rice, Keith David, Beau Knapp, Matt Bomer, Margaret Qualley

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:45
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14.5.16

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Ligações Perigosas!

 

Chan-Wook Park (Oldboy: Velho Amigo) apropria-se do romance literário da britânica Sarah Waters para incutir um conto de erotismo e de técnica luxuriosa onde, novamente, a "scissor sister" volta a ter a sua relevância enquanto ligação terna entre um casal (sim, algo que nos faz suspirar por La Vie d’Adélè).

 

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No centro deste jogo de enganos, traições, ciumes e artimanhas, digno de qualquer thriller hitchcockiano, The Handmaiden é uma espécie de "Origami", machucado, recortado, dobrado, aspirando uma forma que não é a sua, mas que no final o resultado é de pura beleza de criação. Uma beleza presente na direcção segura e estilística de Park, que prolonga os "fracassos" omitidos na sua produção norte-americana, Stoker, ou na sedução captada pelos corpos nus, pelas sugestões sexuais e corporais que as nossas personagens transmitem com toda a satisfação.

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O humor pautado e subliminar enche os frames desta narrativa contada em três vozes, duas perspetivas que complementam-se a um só olhar (terceiro acto), por entre twists e quebras-cabeças emocionais. É certo que podemos acusar de plasticidade Chan-Wook Park frente ao verdadeiro sentido da intriga. Como uma decorada "casa de bonecas", é essa conexão com o olhar do espectador que The Handmaiden adquire a sua atmosférica façanha; é negro e colorido quanto basta. Sedutor e traiçoeiro como ninguém, uma clara alusão à perversão e repreensão sexual na cultura japonesa que cria, ou apenas "educa" fetichistas de imaginações infinitas.

 

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Com belezas ditadas de Kim-Tae-ri e da estrela sul-coreana Min-hee Kim (Right Now, Wrong Then), Chan-Wook Park recria uma das melhores obras de teor erótico dos últimos anos; corajoso ao apresentar em plenas terras da Riviera Francesa um filme que contrai um portento fascínio pela luxúria e pelo obsessivo prazer.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Chan-Wook Park / Int.: Kim-Tae-ri, Jung-woo Ha, Min-hee Kim

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:00
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13.5.16

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Todo o proletário tem um nome!

 

Ken Loach continua a sua luta pelos direitos da classe operária, tentando denunciar um sistema falível de Segurança Social e o peão dessa sua experiência propagandista é Daniel Blake (Dave Johns, um sério candidato ao prémio de Melhor Actor em Cannes), um carpinteiro de meia-idade sob graves problemas cardíacos que luta contra a burocracia em prol dos seus direitos enquanto cidadão. Neste caso uns "trocos" para a renda semanal era mais que bem-vindo, mas uma realidade cada vez mais difícil perante uma sociedade que não integra nem deixa integrar. Não é mais uma citação de "este país não é para velhos", trata-se sim da busca pelo orgulho do proletário, e toda a propaganda que é assim afinada, não validando, portanto, a emoção dita cinematográfica, quase emprestado aos grandes crowd pleasures de Hollywood.

 

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No ano passado, assistíamos igualmente na competição de Cannes, La Loi du Marché, de Stephane Brizé, um filme muito apegado ao realismo que reduzia o actor Vincent Lindon ao desespero enquanto desempregado. Ao contrário dessa obra, Ken Loach apela à emoção como veiculo de luta e o seu apoio neste teor contrai maravilhas para o espectador. Em simultaneamente com os vínculos de realidade formal que esboça nesta desesperante jornada de um homem que acima de tudo deseja ser tratado como tal e não, como é referido a certa altura, num cão.

 

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Mais do que um ensaio precário à lá Laurent Cantent, I, Daniel Blake apresenta-nos outras importantes questão na nossa sociedade, entre os quais a apresentação da tecnologia não como um facilitismo, mas como um obstáculo para a população mais envelhecida, e o facto desses sistemas de Segurança Social apoiarem quase exclusivamente no informático. Existe particularmente uma sequência onde Daniel Blake revela uma cassete de música a uma criança, sendo que esta desconhece por completo tal formato físico. Isto tudo para dizer que os tempos constantemente mudam e não tréguas a quem continua presente no "século passado". Emotivo e igualmente furioso.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Ken Loach / Int.: Dave Johns, Natalie Ann Jamieson, Colin Coombs

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 08:49
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15.3.16

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Períodos desconhecidos recontados sob descrença!

 

É sabido que Portugal tanto invoca e de maneira gloriosa, os tempos dos Descobrimentos, nomeadamente as conquistas ao desconhecido continente africano, mas pouco se fala da "manutenção" dessas colónias assim declaradas. Enquanto que a História nacional tenta apagar desse registo de "ouro" de tão negro período, Hugo Vieira da Silva, um realizador que tem dado nas vistas desde a sua estreia além-fronteiras em 2006, com Body Rice, apela ao retorno a esses capítulos esquecidos, propositadamente, do nosso currículo enquanto país, e o faz através da inspiração do pequeno conto de Joseph Conrad - An Outpost of Progress - publicado em 1897.

 

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Esta transcrição de uma alusiva ficção para outra, indicia-nos um mundo infinito que traduz na mística vastidão da Floresta Tropical do Congo, hoje descrito como um dos locais terrestres menos explorados e, há séculos passados, um lugar povoado por fantasmas e outras fantasias apenas existentes em folclore e na imaginação. Porém, em Posto Avançado do Progresso, os fantasmas são os portugueses, os dois colonizadores que chegam a um entreposto comercial congolense munidos pelos seus fatos brancos que reluzem nas sombras, trazendo consigo ordens e ideologias que não são deste Mundo. Mesmo assim, a dupla protagonista diverge, quanto às suas doutrinas e à respectiva relação com os nativos.

 

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João de Mattos (Nuno Lopes) acredita numa superiorização de "raças" e a urgência de transportar para África o muito da civilização moderna dita europeia, enquanto que Sant'anna (Ivo Alexandre) demonstra fascínio por estes mesmos "selvagens", assim como um afecto por estas terras amaldiçoadas. Essas referidas diferenças serão confrontadas com o próprio magnetismo do Congo, assombrando as suas almas com alucinações e distúrbios para além do visível. Outro contraponto do Posto Avançado do Progresso é a imagem exposta dos colonizados, que traduzem uma organização hierárquica diferente daquilo que os portugueses julgam possuir, duas verdades desafiadas que só o espectador aperceberá das particularidades e das limitações dos homens ocidentais em entender a cultura que forçosamente tentam integrar e moldar.

 

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Nesse sentido, Hugo Vieira da Silva induz nas personagens africanas algo mais que apenas apreços etnográficos ou meramente decorativos, mas sim em figurações da civilização europeia, dando a entender e a preservar a realeza africana, vista e discutida como uma "casta" inferior, mas eventualmente comparada à hierarquização portuguesa. Esse método reduz-se na referência literária e social da época ou simplesmente da História, desde Padre António e o misticismo envolto até citações ao escritor Almeida Garret - "O meu nome é Ninguém" - Posto Avançado do Progresso funde dois mundos distintos, divididos pelo Mar Mediterrâneo, porém, intrinsecamente cúmplices do próprio rumo mundial.

 

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A desordem é somente um engodo para que os "intrusos", aqueles que proferem o direito pelas terras "achadas", se percam na vastidão daquele indomável mundo, não pertencente a nativos, nem a forasteiros. E é nesse caos que personifica numa entidade fantasmagórica, abanando dois mundos e afrontando as convenções anteriormente estabelecidas. As alucinações, a possessão selvagem, o desespero, o "progresso" nunca cumprido nem nunca encontrado, elementos que deambulam nas selvas congolenses como animais sedentos pelas suas presas.

 

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Os fatos dos portugueses, sobrenaturalmente cintilantes, perdem o seu brilho, assim como a razão destes viajantes protagonistas. Hugo Vieira da Silva transforma este relato sobre a animalidade do "homem branco" numa demanda cinematográfica cujas referências e homenagens estão presentes como fenómenos. Desde Luis Buñuel, passando pela comédia slapstick muda de um Laurel and Hardy, ou até mesmo a atmosférica sexualidade e estranheza do cinema de João Pedro Rodrigues, tudo amontoa num biótopo criado e erguido pelo mistério, o contra-campo e a sugestão.

 

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Depois de Swans, Vieira da Silva cumpre um retrato compulsivo da nossa ligação inerente com África, o continente arrancado da nossa História através do conflito bélico, mas que mesmo assim produz em nós, um amor proibido, nunca esquecido, mesmo com o decorrer de Gerações. O cinema tem contribuído para esse fascino, para essa essência magnética, Hugo Vieira da Silva apenas reafirma essa dilecção.

 

Real.: Hugo Vieira da Silva / Int.: Nuno Lopes, Ivo Alexandre, David Caracol

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 09:25
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30.1.16

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Onde nascem os Intolerantes?

 

Ponto sem Retorno (Rough Road Ahead / Von Jetzt an Kein Zurück) é um retrato de vidas desfeitas por gerações intolerantes às novas mudanças. Dirigido por Christian Frosch, eis uma variação Romeu e Julieta com o muro de Berlim em pano de fundo, onde duas personagens que deslumbram o espectador pela sua vivacidade, digna de rebeldia juvenil, são desafiadas pelas entidades paternais e por uma sociedade que parece não entende-los, guiando-se por velhas convenções e doutrinas.

 

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É automaticamente após os créditos iniciais que ficamos a conhecer os "criminosos", os pais, numa sequência na qual são interrogados e revelam as suas verdadeiras naturezas: traumatizados de guerra, conservadores religiosos, puros machistas, etc. Cenas que integram a narrativa mas que interagem de forma emocional com a audiência; "estes são os verdadeiros culpados da tragédia amorosa que sucederá", "prestem atenção a estes indivíduos". Apesar de se assumirem como personagens secundarias, este conjunto resulta em ícones dominadores que são constantemente revisitados, mesmo durante a sua ausência física nos frames.

 

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O destino de Ruby (Victoria Schulz) e Martin (Anton Spieker), dois amantes consolidados em sonhos inalcançáveis, são igualmente perpetuados de forma paralela por uma narrativa que se enquadra na situação, onde cada um tenta sobreviver à sua maneira nas instituições que os acolheram a mando dos progenitores. Esta sobrevivência não só ditará um panorama social e político da Alemanha do final dos anos 60, como também autoproclama o fim trágico de um assumido romance shakespeariano.

 

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Ponto sem Retorno tem prestações fortes por parte do elenco, destacando-se principalmente Victoria Schulz. Porém, todos eles compõem personagens esquemáticas e diversas vezes limitadas aos estereótipos morais que representam, ainda que nada ofusque o exímio trabalho de câmara de Frosch e a belíssima fotografia a preto-e-branco (da autora de Frank Amann) que entra em concordância com os relatos temporais. Assim, este é um romance sólido que reflecte o estado de um país confrontado com a passagem de gerações.

 

Filme visualizado no 13º KINO: Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

Real.: Christian Frosch / Int.: Victoria Schulz, Anton Spieker, Ben Becker

 

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7/10
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10.1.16

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No coração da dor!

 

Tal como Proust e o paralelismo em que uma madalena molhada no chá o transportou para as reminiscências da sua infância, Laurie Anderson experienciou na morte da sua cadela, Lolabelle, um pesar convidativo que a leva ao encontro de um EUA pós-11 de Setembro, rígido na sua vigilância, essa mesma que se assume como um "estorvo" à própria privacidade. Heart of a Dog é todo um registo documental que nutre do devaneio artístico da sua autora, aqui libertada para um corpo imaginário, aquele que a artista apresenta nos primeiros minutos de filme - uma entidade vivente numa dimensão aparte - parindo a sua cadela, esboçando assim a ligação umbilical entre essas duas "criaturas", e cujos afectos servem de compatibilidade genética.

 

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A verdade é que sentimos que Anderson, ex-mulher do cantor Lou Reed, assenta numa séria caricatura à camada artística nova-iorquina, meros pensadores do seu próprio umbigo e de fascínios pela excentricidade que rodeia o Mundo. Porém, é nessa liberdade, e nessa condição que encontramos uma "loucura" sincera, enquanto Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, Anderson acaba por focar em questões intrínsecas não só de um estado "emocional" de um país mas também na nossa capacidade de lidar a dor. Esse tratamento quer filosófico, quer visualmente experimentalista, causará estranheza no espectador mais recatado ou até acostumado a narrativas e ideias lineares de senso comum ou de ensaios mainstream, mas uma coisa é certa, por mais "loucas" que são estes desabafos, estas reflexões e factos discutidos, de uma maneira ou de outra acabam por nos persuadir.

 

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O amor pelo ser vivo quadrúpede faz-se também sentir com tamanha emoção no relato descontraído imposto por Anderson, a medula de toda a panóplia de temáticas que gerarão sucessivamente. Entre a descoberta de novas ameaças, todas elas hiperbolizadas em Lolabelle, ou a natureza moldável das nossas memórias através de um reencontro da autora com um passado propriamente seu e por fim as citações do Livro Tibetano dos Mortos como ênfase de uma procura de um processo de contornar a dor que é sugerida.

 

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Em termos práticos é como convidássemos a artista plástica para uma conversa de café, informal e rico no seu conteúdo e expressionismo. Em termos cinematográficos é um recorte de imagens com dimensão "godardiana", porém, ao contrário do mais recente trabalho do lendário cineasta francês - Adieu au Langage - é dotado de uma linguagem tão pessoal da sua artesã. Essas figurações impressionistas são estampadas como um misto de realismo visual com o onírico de retratos imaginários "enfiados" em histórias mirabolantes e vincadas em derradeiras metáforas.

 

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No final há sempre espaço para uma expansão de fins emocionais, o amor pelo canídeo pode transcender ao amor de um parceiro, neste caso a homenagem a Lou Reed, através dos créditos finais ao som de "Turning Time Around" (como uma catarse a um tremendo luto). Porque o afecto é poliglota, partilhado e sobretudo não conhece espécies, imaginado por Laurie Anderson.

 

Real.: Laurie Anderson / Int.: Archie, Jason Berg, Heung-Heung Chin

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:20
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17.12.15

Star Wars Episodio 7 - O Despertar da Força.jpg

A força acordou!

 

Vamos tentar não começar com o óbvio, supor que o leitor encontra-se familiarizado com todo este Universo e a relevância que um filme como Star Wars obteve na indústria cinematográfica (pré e pós blockbuster). Tudo isto para seguirmos para a questão das questões - será que este novo capitulo, um herdeiro directo da antiga trilogia é digno de nota? A resposta poderá impressionar para quem via com alguma suspeita esta "ressurreição" - sim, vale a pena.

 

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J.J. Abrams, aclamado em tempos como aprendiz de Steven Spielberg (começou a sua demanda no Cinema através do restauro de fitas filmadas em Super 8 pelo seu próprio "mestre"), demonstra conhecimento e amor por esta saga que redefiniu os modelos e instalou-os no cinema de entretenimento até aos dias de hoje. A sua sabedoria, a Força adquirida desses três filmes, encontra-se espelhado em toda a acção deste Force Awakens. As referências, os easters eggs e até mesmo o regressos anunciados (as velhas personagens que espalham uma nostálgica magia intemporal) estão lá com todo o rigor, mas acima disso é o próprio registo de Star Wars: New Hope que deparamos de "caras".

 

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Um paralelismo que indica dois factores, o respeito do realizador a material não seu (ao contrário de George Lucas que "gozou" de tamanha liberdade nas três prequelas), gerando com isso uma pressão a escala global (já J.J. Abrams havia revelado do "peso" que continha nos ombros por levar este projecto avante), e o sentido de homenagem e enraizamento deste mesmo Universo. Estes dois factos nos levarão a um prolongado caso de "déjà vus" em todo o visionamento. Mas uma previsibilidade que não moí, nem ofende, é sim, a reentrada ao Universo mais George Lucas desde os originais, mais que a segunda trilogia, isso sim, podemos considerar um facto.

 

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The Force Awakens remete-nos 30 anos após os eventos de Return of Jedi, depois daqueles festejos ingénuos nas florestas dos Ewoks e do ainda hoje discutidos fantasmas, o aparente final feliz que segunda consta este sétimo filme não passou de uma mera ilusão. A galáxia encontra-se novamente em conflito, a República sempre rodeada com o seu inquestionável maniqueísmo e o "amor" incondicional pela democracia, e do outro lado a Primeira Ordem, novamente com Stormtroopers e a dominação do Lado Negro. É a mesma guerra de há 30 anos, só com diferentes peões a apoiar neste tabuleiro.

 

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The Force Awakens oferece-nos personagens novas, devidamente trabalhadas e impulsionadas pelos "retornados" a servirem de futuros marcos neste Universo … eventualmente. No centro dessas novas requisições está Rey, uma misteriosa jovem deixada num planeta desértico que converte-se num elemento chave para toda a intriga interespacial. Esta protagonista constantemente acompanhada pelo seu BB-8, um novo andróide que promete fazer as delicias dos fãs, é interpretada pela desconhecida Daisy Ridley, numa prestação que tenta atribuir solidez a uma personagem ainda em construção (o mesmo se pode referir ao muito decepcionante vilão de serviço, encabeçado por Adam Driver). Trata-se de mais um comprovativo de que o cinema de acção do ano 2015 é subscrito pelo feminino e seguindo os moldes da anterior Princesa Leia, a rebelde da realeza que declarou guerra ao modelo Disney, em não vergar pela capa de "dama em apuros". Como companheiros de luta, John Boyega (Attack the Block) e Oscar Isaac (Ex Machina) fazem a festa, ambos tentando contrariar os arquétipos o qual estão primariamente envolvidos.

 

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Mas The Force Awakens começa a fazer sentido com o primeiro aparecimento da "velha guarda", Harrison Ford e o seu contrabandista Han "shoot first" Solo ao lado do mítico Chewbacca a proferir as seguintes palavras "Chewie, we're home.". É nisso que o episódio VII trata, um regresso às origens, não no sentido cronológico como os episódios I, II e III fizeram mas na sua essência. J.J. Abrams recupera a sua demanda pela aventura, e descarta qualquer embaraço que qualquer narrativa à lá videojogo poderia proporcionar (Lucas o tentou fazer nas suas infames prequelas).

 

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Os efeitos visuais computorizadas passam para segundo plano, em fusão com o artesanato das maquetas, fantoches e cenários a substituir o já excessivo verde para chroma keys, o realizador havia deixado claro que tentaria ao máximo contornar os intensos facilitismos dos CGI e da habitual pirotecnia, tal decisão como é óbvio, fortalece a veia sentimental que liga o espectador, que relembra as memórias passadas nas aventuras de Luke e sua trupe, com um novo filme, que respira ares dito vintages.

 

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Como foi bom voltar a este universo, mas sobretudo como foi recordar que em 1977 surgia um dos filmes mais relevantes da História do Cinema, hoje, vincado na cultura de forma sem precedentes. Sim, o fenómeno Star Wars é grande e J.J. Abrams sabe disso na perfeição.

 

"Nothing will stand in our way... I will finish what you started."

 

Real.: J.J. Abrams / Int.: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Carrie Fisher, Adam Driver, Mark Hamill, Lupita Nyong'o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Simon Pegg

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:47
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7.12.15

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Em Estado de Guerra!

 

"Nós sabemos o mal que isto faz a vocês. Mas somos pobres", justifica um membro de um cartel de droga a Matthew Heineman nos primeiros momentos deste Cartel Land (Terra de Cartéis). Esta tentativa de "branquear" os actos que praticam poderá levar nestes precisos segundos a inúmeros espectadores a torcer pelo seu lado, como se a pobreza fosse automaticamente sinónimo de sobrevivência, e esta como uma via amoral para visíveis soluções.

 

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Mas Heineman, que actua aqui como operador de câmara (cuja coragem será mais tarde evidenciada) e realizador, não se encontra interessado em esboçar lados imbatíveis, ou construir desde a raiz um documentário de propaganda maniqueísta, ao invés disso aposta numa longa "batata quente", narrando acontecimentos paralelos nas fronteiras do México, cujo único propósito é a luta aos cartéis. Sim, a desses homens que inicialmente proclamavam a sua pobreza como inibidor de culpa.

 

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Cartel Land funciona ainda como uma espécie de cinema de guerrilha, cuja verdadeira rebelião encontra-se no seu protagonista, Heineman, que tenta revelar factos que muitos apenas conhecem da romantização cinematográfica. Mas mesmo filmando o real, o nosso realizador não deixa de ser poético visualmente. Um desses exemplos é nos momentos que sucedem o primeiro encontro com os traficantes, aqui sob as imagens da fronteira intercaladas com um discurso obviamente maniqueísta, mas citado com uma emoção credível por um vigilante americano decidido a combater e patrulhar os carteis com as suas próprias armas. A linguagem determina o bem e o mal segundo este "vingador", mas Cartel Land faz destas palavras não as suas, partido logo para outra acção: a sul do México, mais precisamente na região de Michoacán, onde um grupo de populares formam uma força de autodefesa para também eles expulsarem este "cancro".

 

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Heineman consegue nas mais variadas histórias glorificá-las e ao mesmo tempo humilhá-las, perante a ambiguidade desta luta, funcionando assim também como uma crítica politica ácida, envergada somente pela citação dos seus atores. Para além disso, o realizador tem o dom de depositar nesses momentos uma carga dramática dignamente cinematográfica, essa mesma ênfase que porventura funcionará como um manipulador emocional e um embelezamento da violência por si retratada. Cartel Land é assim um documentário sem medo da aproximação, e obviamente sem receio do grafismo e do explicito; é uma realidade injectada no ecrã com o realizador presente nas situações-limite.

 

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Contudo, o único grande defeito deste documentário é que em momento algum tenta transcender as suas fronteiras, ou seja, as acusações politicas permanecem bem internas, neste caso, dentro do território mexicano, sem nunca apontar o dedo noutra direcção. Uma direcção que, por exemplo, Sicario [ler crítica], o filme de Denis Villeneuve sobre o narcotráfico, seguiu pujantemente. Em nota de curiosidade, Kathryn Bigelow, a realizadora de o oscarizado The Hurt Locker [ler crítica] e Zero Dark Thirty [ler crítica], encontra-se creditada na produção executiva, sendo facilmente identificável neste Cartel Land os atributos que a fascinaram.

 

Real.: Matthew Heineman / Int.: Jose Mireles, Tim “Nailer” Foley

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 22:06
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23.10.15

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Num mundo de loucos e imortais!

 

Para cumprir a última vontade de Tomaso, o apelidado anjo do Palácio de Carditello (o qual contribuiu para a restauração e preservação do respectivo monumento), os "imortais" enviam a sua mais indecisa "marioneta", Pulcinella (Polichinelo), para encaminhar uma cria de búfalo, criada por este, ao seu novo lar. Nesta jornada por uma Itália desfragmentada pelo enraizamento do neo-realismo e da fantasia gótica, o cineasta Pietro Marcello ecoa uma prolongada alusão político-social de um país à beira do colapso identitário, que tal como a sua personagem corcunda, encontra-se à mercê dos propósitos impostos pelos seus amos. É um surrealismo que aspira ao misticismo, e uma veia documental contagiada com os toques fabulistas e de teor poético, que funciona numa fantasia cruzada e trabalhada sob uma maqueta de experimentalidade. Porém, nada de realmente bizarro é concentrado nesta pintura a óleo vivo, mas sim a de um claro paradoxismo com o real representativo. Uma crítica subliminar que desenvolve consoante o seu espectador e que se manifesta em conformidade com os seus ideais.

 

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Se bem que a politica é o evidente combustível desta demanda pela forma que diversas vezes prevalece sob o conteúdo, eis um regressar à figuração imposta pelo poeta Luís de Camões e os seu mais pujante trabalho - Os Lusíadas - onde a personificação de figuras pagãs servem como propósito a uma crítica estabelecida. Nesse sentido, é fácil identificar o búfalo e a sua infortunada sorte numa questão de "classes", neste caso, a mais baixa, o individuo comunitário que preza o seu destino nas mãos dos seus dirigentes políticos (os "imortais") como se fossem directamente extraídos das distopias de Orwell. Sarchiapone, o nome pelo qual é baptizado o nosso bovino, mesmo que nome é coisa que não lhe é designado, exclama que neste mundo "ser búfalo é uma arte", um artificio subestimado que poucos querem deter nem sequer sentir fascinados. Mas a crença em viver na dependência das massas e da força que estas podem adquirir é de uma coragem incontestável.

 

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Bella e Perduta (Bela e Perdida), um título que tenta aludir ao monumento deixado pelo seu "anjo da guarda", também identifica-se com os sonhos vencidos pelas massas que ainda dignam em lutar pelos seus ideais, mortais frente a imortais omnipresentes, pelo meio marionetas a interpretar pontes de contacto entre os diferentes patamares. Politico e fantasioso, não é todos os dias que nos oferecem estes dois ingredientes numa "cajadada só". Um filme a ver por dois motivos, conteúdo e forma.

 

Filme de abertura do 13º Festival Internacional do Doclisboa

 

Real.: Pietro Marcello / Int.: Tommaso Cestrone, Sergio Vitolo, Gesuino Pittalis

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 08:28
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17.10.15

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O Inimigo Público!

 

O segundo trabalho de realização de Carlos Saboga, argumentista a quem devemos agradecer pelas felizes incursões de O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos, e Os Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, é um filme que nos transporta, essencialmente, a um Portugal oprimido que se digna ainda a sonhar com a sua "fantasia lusitana". Nesse período, o país atravessava um enorme cerco social, sentindo-se constantemente ameaçado pelo desconhecido residido "à sua porta", trazendo consigo entidades de uma guerra nunca imaginada pelos portugueses (o tema dos refugiados ainda hoje é motivo de discussão).

 

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Tal análise dessa nação "congelada", incutida numa politica de medo e de fortes traços nacionalistas, encontra-se imergida na própria miopia cénica que este A Uma Hora Incerta apresenta. Até poderemos argumentar essa tal limitação como uma opção orçamental, mas na verdade o sucessor de Photo (o filme de estreia de Carlos Saboga no cargo de realizador [ler crítica]) funciona como um pequeno exercício de "pseudo-espionagem". Aqui os portugueses não brincam aos espiões nem agentes morais, jubilam sim, com a sua própria ignorância sociológica ... e sexual. Até porque acima das suas veias de thrillerA Uma Hora Incerta assume-se com um erotismo constrangido, uma sexualidade de "buraco de fechadura", onde a eventual libertação nesse foro é sentida, mas nunca devidamente cumprida.

 

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Saboga criou um argumento astuto que joga com as referências culturais da época e com a referente prevalência religiosa, auferindo similaridades e alusões, entre os quais uma pressentida ligação com a história bíblica de Lot. Trata-se de um filme que não envergonha ninguém, concebido com diálogos bem construídos e uma montagem trabalhada em prol da sua profissional fotografia, da autoria de Mário Barroso, e com um toque final dado por um conjunto de atores capazes de transmitir para fora do ecrã as suas respectivas personagens com muitas dividas aos arquétipos sociais. Entre as quais, destaque para Joana Ribeiro, a "lolita" lusitana com o seu quê de perversão psicótica.

 

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Tudo isto para sublinhar que esta obra, em conjunto com a trilogia As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes, e a declaração de amor cinéfilo por Manuel Mozos, João Bénard da Costa: Outros Amarão Aquilo que eu Amei [ler crítica], representam o que de bom o cinema português tem dado este ano.

 

"Prefiro as histórias do antigo testamento, têm mais sangue."

 

Real.: Carlos Saboga / Int.: Joana Ribeiro, Paulo Pires, Judith Davis, Ana Padrão, Pedro Lima, Filipa Areosa, Grégorie Leprince-Ringuet

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:45
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14.10.15
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Nascer selvagem!

 

Em Inebolu, uma cidade turca aos arredores de Istambul, cinco raparigas adolescentes cometem um terrível crime na sua comunidade: inocentemente brincam com um bando de rapazes depois de um dia de aulas. Após terem sido apanhadas em “flagrante delito” por uma vizinha, que sob o hino da boa conduta moral e da repressão sexual, informa os tutores das respectivas - a avó e o rigoroso tio - sobre o sucedido. Este acto trará consequências graves para as jovens, agora obrigadas a casar a fim de conservar a sua dita “pureza”.

 

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Mustang, da estreante Deniz Gamze Ergüven, é uma produção franco-turca que se revela como um denunciador de um machismo agravado na conservadora comunidade muçulmana, situando este mesmo cenário debaixo das “saias” da aclamada “moderna e civilizada” Europa. É esse sexismo abundante numa localidade próxima da capital turca, que Ergüven e Alice Winocour [co-argumentista] decidem transpor todo um contexto social sob a perspectiva jovial das suas protagonistas, com tal nota-se a facilidade como identifica os “monstros” acamados num maniqueísmo tão preto-e-branco, e essas ditas bestas animalescas de uma rígida sociedade que são os homens.

 

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Contudo, é essa mesma visão demasiado inserida no conceito de conto de fadas que Mustang fraqueja, a indignidades das personagens masculinas e até das femininas de longa idade vistas como reforços em infundir as doutrinas incontestáveis, e da forma como uma cidade evoluída como Istambul é aqui encarada, um local de refúgio longe de qualquer discriminação e opressão (o que não corresponde bem à verdade). Mas a realização acentuada de Ergüven, tão afim das suas protagonistas partilham a jovialidade no seu conceito de cinema, transmitido uma tremenda energia, digna de um filme adolescente e inconsequente, porém, ele próprio limitado ao meio que se induz. E bem verdade é que a obra transpira momentos lúdicos quase surreais que trazem consigo um teor fabulista e alegoricamente relevante, como o jogo fechado para homens que a certa altura induz e confirma esse maniqueísmo sexual e a vontade de tecer uma declaração feminista pós-moderna.

 

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Quanto ao título, este Mustang, ao contrário do que podem pensar os adeptos do automobilismo, não se trata da marca de automóveis célebres no território norte-americano, mas sim da indomável raça de cavalo vivente das longínquas pradarias dos EUA. Conta-se que estes ditos animais foram outrora amestrados, mas perante uma nova oportunidade de liberdade, com o estado selvagem assim adquirido, tornaram-se emancipadores das suas próprias amarras. É sob esse estado que as nossas cinco protagonistas buscam num conto impulsor de rebeldia sem fugir aos claros danos colaterais. Para o cinéfilo, este é uma obra que detém uma simbólica ligação com o esquecido, mas delicado Wadja, de Haifaa al-Mansour.

 

Filme visualizado na 16ª Festa do Cinema Francês

 

Real.: Deniz Gamze Ergüven / Int.: Günes Sensoy, Doga Zeynep Doguslu, Tugba Sunguroglu

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 22:43
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19.9.15

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Onde irão confluir "criaturas" sentimentais …

 

Constituído por três actos, Praia do Futuro centra-se como um conto de libertação para dar lugar a uma reconciliação afectiva. Dirigido por Karim Aïnouz, conhecido pela comunidade cinéfila como o autor de Madame Satã, onde o transversalidade sexual serve de pano de fundo a atípico filme de favela, esta é uma obra intimista e extensa nessa intimidade com os protagonistas, mesmo que a câmara tende em reter essa cumplicidade com as respectivas personagens. Mantido de longe, e de uma configuração fria, Praia do Futuro, ao contrário do que o título poderia suscitar, é um claro retrato acinzentado, detido por uma melancolia crónica, onde nem as praias de Fortaleza conseguem diferenciar de uma Alemanha subjugada a um gélido clima. Até porque o que muda nessas transições de enumerados capítulos, não são os cenários, mas sim os sentimentos e as constantes nuances das suas personagens, com principal atenção ao de Donato (Wagner Moura, Tropa de Elite), um nadador salvador brasileiro que indicia um encontro com o seu ser mais profundo.

 

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O primeiro capitulo, intitulado de O Abraço do Afogado, envolve-se com uma aproximação de duas figuras desconcertadas, uma delas reivindicada pela tragédia, e a outra pela manifestação pessoal e a consequência dessa. Donato encontra assim a sua "alma" repartida no seio dessa sua fatalidade vivida, quer individual ou profissional. Até aqui, Praia do Futuro incendiava como um romance dignamente regido aos lugares-comuns do denominado cinema "queer", mas essa incógnita é evidenciada na transição de tons que se dá pelo avanço de um segundo acto. Um Herói Partido ao Meio, como é assim chamado, prevalece como um singelo "coming to age", uma moldagem comportamental do nosso protagonista que se transforma a olhos vistos. Contra os seus próprios sentimentos, a saudade que é diversa vezes salientada e citada de forma subliminar, Wagner Moura tem o mérito de camuflar a sua figura, utilizando os seus tons cameleónicos para comunicar com a direcção sugerida pela fita. O ritmo desvanece no seu todo na medula melancólica, fortemente "apimentada" no primeiro acto, agora entregue a este acto intermediário.

 

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Esta "ponte" dará acesso ao derradeiro acto, Um Fantasma que Fala Alemão, onde dá-se o esperado choque temporal, contudo, a obsessão pelo protagonista durante esta jornada narrativa faz dissipar qualquer climax assim sugerido, e a fraca apelação por personagens secundárias, que poderiam corresponder ao quotidiano de Donato, contribuem para essa amenização. Mas é neste capítulo, que Aïnouz também se liberta, e sob um jeito visual e estilístico. Não com isto dizer que o realizador vira um autêntico V.J., ou experimentalista nesse foro, mas sim demonstrando um gosto apurado no trabalho visual, compondo longos planos, isentes de diálogos, mas recheados de sentimentos puros e múltiplos.

 

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Por entre simbolismos, como a desejada "praia sem mar", que interage com uma elipse que vai desaguar numa comovente declaração de emancipação: "Existem dois tipos de medo e dois tipos de coragem. O meu, fingir que nada é perigoso. O teu, fingir que tudo é perigoso". Pois é, Karim Aïnouz incute um ensaio sobre o quanto minado é esse campo das emoções, as consequências que "explodem" e deixam seres repartidos, longe do seu mar. Intrinsecamente poético.

 

Filme de abertura da Queer Lisboa 19 – Festival Internacional de Cinema Queer

 

Real.: Karim Aïnouz / Int.: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 07:05
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10.9.15

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Sem tempo para chorar os mortos!

 

Se No Tears for the Dead fosse uma partitura musical, ela encaixaria tão bem na pauta da 9ª Sinfonia de Beethoven. Um sinfonia que se inicia sob um alvoroço emocional para de seguida ceder a um longo percurso melancólico, quase intimista e gradualmente detalhado, rico, até por fim, culminar tudo em tons graves em concordância com uma pomposa e arrebatadora sonoridade. É outro exemplo especifico de como o cinema de acção asiático está a bater aos pontos a indústria hollywoodesca, e jogando o mesmo jogo que estes - assassinos com consciência não é "coisa" que falte no género -, mas Jeong-Beom Lee (realizador do muito elogiado The Man from Nowhere) consegue tecer aqui algo de verdadeiramente envolvente e libertador.

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Aliás, é na redenção que encaramos o combustível que parece movimentar estas personagens consistentes, contornando o efeito déjà vu da previsibilidade do seu enredo, e apostar nos contornos fabulistas que chegam acompanhar até mesmo a acção. Acção essa dotada de uma agressividade que parece intimar 90% dos policiais norte-americanos, mas de forma sóbria e constantemente fincadas no realismo e na verosimilhança (existem aqui pormenores interessantes e deveras específicos nas frenéticas sequências). Por sua vez, os desempenhos do elenco cumprem a sua fatia neste quadro explosivo e dramaticamente rico: se Dong-Gun Jang (visto no portento bélico Taek Guk Gi é credível como Gon, o assassino contratado pelas Tríades que se insurge contra a sua própria instituição quando neste é despertado sentimentos profundos de compaixão, é em Min-hee Kim, a bela actriz no galardoado Right Now, Wrong Then, de Hong Sang Soo [ler crítica], que as atenções se direccionam. Uma personagem frágil, cedida à tragédia - a perda de entes queridos - que a realça em algo mais que somente uma "dama em apuros", embora Jeong-Beom Lee constantemente ilude essa força inerente.

 

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Eis um dos mais ricos filmes de acção do ano. No Tears for the Dead (tradução literal de Não há Lágrimas para os Mortos), ao contrário do que o titulo parece indicar, é um híbrido de intenso drama corrompido por uma frenética energia que desperta nos lugares onde menos esperamos. Pode ser previsível, mas funciona como um violento thriller de emoções. Dá para sair da sala de polegar erguido.

 

Filme visualizado na 9ª edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Jeong-beom Lee / Int.: Dong-gun Jang, Min-hee Kim, Brian Tee

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:09
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29.7.15
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Os nosso malvados favoritos!

 

A mais recente "mina de ouro" da Universal Pictures teve direito ao seu espaço a solo no cinema. São os Minions (Mínimos), os ajudantes "fofos" mas igualmente descarados do grande êxito de 2010 Despicable Me (Gru, O Maldisposto [ler crítica]). Esta personagem secundária colectiva tem adquirido uma tremenda legião de fãs insaciáveis por mais e talvez seja por esse motivo que a sequela de Gru, produzida em 2013, tenha sido prejudicada, visto que os produtores tiveram mais preocupações com os desejos do público do que supostamente com a própria saúde do filme.

 

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Todavia, neste spin-off, não há Gru, nem meninas adoptadas, nem coisa que o valha. Há sim os Mínimos (e com "fartura"), que se inserem, agradavelmente, num estilo de humor universal, ou seja, mais físico. No mesmo ano que vimos Shaun The Sheep (A Ovelha Choné [ler crítica]), dos estúdios da Aardman, a ter a sua oportunidade cinematográfica e a vingar-se como descendente animado de um Buster Keaton ou de Charles Chaplin, Minions tornam-se assim a mais recente invocação desse estado de graça. Kyle Balda e Pierre Coffin criaram um filme de grande comercialidade em qualquer parte do Mundo, e tudo de uma forma simples e astuta, quer no seu jeito slapstick, onde não faltam alusões "maliciosas" e referências culturais. Sim, esta é uma obra animada foliona, inteligente e graciosa para a mais vasta das idades, principalmente para os adultos.

 

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Mas nem tudo são "rosas", até porque a Universal Pictures não é a Aardman e ambiciona um pouco mais no seu conteúdo. O problema trazido são as novas personagens secundárias, não detentoras da mesma luz dos Mínimos, obviamente, mas isentes de criatividade e de maneirismos para além daqueles impostos pelo elenco vocal. Nesse sentido, o estúdio parece aprender com a Dreamworks Animation. Fora isso, temos aqui um conjunto de gags imperdíveis e referencias a uma década bem especial: os anos 60, o final para sermos mais exactos, onde não faltam piadas sobre o Vietname (curiosamente com um "piscar de olhos" a Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola), Bonnie & Clyde, o caso Watergate, a chegada à Lua e até mesmo o feminismo, proclamado por uma vilã, Scarlett Overkill (com voz de Sandra Bullock), que afirma ser a primeira grande Mulher no mundo do crime. Sim, existe muito mais neste Minions do que os bonecos "adoráveis" que já viraram uma poderosa máquina de merchandise.

 

"And that is how the Minions found their new master! He was perfect! He was evil! He was... despicable!"

 

Real.: Kyle Balda, Pierre Coffin / Int.: Pierre Coffin, Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Steve Coogan, Allison Janney, Steve Carrell, Geoffrey Rush

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:04
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