Data
Título
Take
23.4.15

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"Chamou Sr. Presidente!"

 

Para os mais conservadores, todo este desenrole soa uma pura e simples palhaçada, um troçar de tempos difíceis que uma geração passou e ultrapassou, cada uma há sua maneira. Porém, é possível assinalar Capitão Falcão, esse "anti-herói" fascista levado ao grande ecrã pelas mãos de João Leitão, como um filme necessário para o nosso próprio panorama social, o de despir de todos os simbolismos dessa "fonte" denominada por salazarismo, a ditadura pelo qual Portugal mergulhou por mais de 40 anos, em que Salazar foi o seu elevado "ditador". Toda essa arma de "enterrar" memórias passadas (cada vez mais invocadas nos tempos austeros que vivemos actualmente) é por vias da maior das armas - a comédia - mais precisamente da sátira, tão pouco aproveitada nos nossos meios de entretenimento.

 

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Aqui, a sátira é a combustão para este Portugal influenciado pelo estilo "camp", (as comparações com o Batman, de Adam West, serão inevitáveis), onde reside um "super-herói", isente de qualquer super-poder para além da sua "portugalidade", o tão singular "desenrascar", essa palavra única do vocabulário lusitano que tanto dita o nosso meio vivente. Munido de ideologias facciosas aos "bons valores portugueses", sempre confundidas com concepções fascistas e salazaristas, e acompanhado pelo seu "calado" sidekick, o Puto Perdiz (David Chan), Capitão Falcão é perito em livrar o seu país das eventuais "escumalhas da sociedade"; comunistas, feministas, idealistas e … claro, os Capitães de Abril. Tudo o que soa como uma ameaça ao regime é desde logo abatido pelo nosso Capitão Falcão (Gonçalo Waddington numa prestação altamente maneirista).

 

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Verdade seja dita, toda esta aventura é divertida de se ver, João Leitão ostenta uma preocupação visual, um especial cuidado com as cores o qual aufere uma atmosfera característica ao estilo incutido, e depois são todos aqueles "disparos" satíricos, desde os gags físicos aos diálogos, tudo pensado em servir um propósito, o de converter o fascismo numa possível caricatura e assim tecer astúcia suficiente para manter a obra longe do território spoof extremista. Mas se a sátira é a grande inovação em Capitão Falcão, esta também funciona sua fraqueza, a kriptonite, já que estamos numa de heróis de BD. Provavelmente os idealismos incumbidos no nosso protagonista podem ser equivocadamente confundidos com os dos envolvidos, e assim fazer com que o filme de João Leitão seja incompreendida a uma ofensa social e de valores adquiridos por um "povo lutador".

 

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Mesmo que a obra tende em frisar constantemente esse ponto nas proximidades do desfecho, é o intelecto do espectador que sairá como o derradeiro desafio, a missão mais arriscada, deste Capitão Falcão. Contudo, nada que impeça de perdermos a "next big thing" do cinema português, e dentro desse termo de "cinema comercial", temos entre mãos, um dos melhores. Cameos de heróis esquecidos, referências, e muitas, à nossa "portugalidade", humor inteligente e personagens dignas para durar no imaginário lusitano, Capitão Falcão é um must, e tanto, que nos faz esquecer das suas limitações enquanto produto fora do presunçoso conceito de world cinema.

 

"Vamos a isto, Camaradas!"

 

Real.: João Leitão / Int.: Gonçalo Waddington, David Chan Cordeiro, Dinarte de Freitas, José Pinto, Miguel Guilherme, Rui Mendes, Tiago Rodrigues, Carla Maciel, Nuno Lopes, Bruno Nogueira, Ricardo Carriço, Manuel João Vieira, António Durães, Luís Vicente e Pepê Rapazote

 

Vamos a Isto, Camaradas

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:03
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12.4.15
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Isolado!

 

Lura é a história de náufragos voluntários, reféns dos fantasmas do passado, eremitas que se tornam cúmplices da solidão. Manuel (Filipe Vargas) é o dito náufrago, não numa ilha, mas de uma casa abandonada que comporta como um pedaço relevante do seu passado, o qual o persegue incessantemente, sendo a sua única forma de luta e reconstrução dos laços corrompidos. Luís Brás compõe aqui a sua primeira longa-metragem, um objecto pessoal que assenta no expressionismo das imagens e na linguagem corporal das suas sequências. Além disso, é um risco cinematográfico onde é possível ver o desenvolvimento do realizador, que a olhos vistos passa de um mero académico a um poeta visual com infinita abordagem.

 

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Trata-se de um filme que recorre várias vezes às influências do fantástico. Tal como no clássico de Robert Wise, The Haunting (1963), a casa de Lura expõe um magnetismo assombroso, uma personalidade transversal e fortemente pesada que se sente na personagem. Mas essa força espiritual não se encontra no respectivo imóvel. Luís Brás herda a força expressiva das mãos e gestos de um M, de Fritz Lang, e, graças a tal, cria uma das sequências mais fantasmagóricas do cinema português recente. Para além do cenário, da atmosfera conseguida e toques metafísicos aludidos às diversas realidades, Lura é um portento técnico. Nesses termos, vale a pena salientar a fotografia de Leandro Ferrão (com acentuados toques de loucura) e a sonoplastia envolvente por João P. Nunes.

 

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Lura funciona como uma revelação do cinema português e uma determinação de crescimento pessoal acompanhado por um afecto fraterno à arte de fazer cinema. Mas não deveríamos tecer tantos elogios a Luís Brás, até porque muito trabalho deve ser feito, nomeadamente em encontrar um elo entre a expressão fílmica e a credibilidade dos actos (diria que a loucura assenta demasiado cedo no seu protagonista). Por enquanto, uma coisa é certa. Lura é hipnótico e como primeira obra, tenebrosamente bela.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Brás / Int.: Filipe Vargas, Ana Padrão, Rita Martins

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:07
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28.3.15

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A semente de Polanski!

 

Provavelmente quem desconhecerá qualquer pormenor sobre a obra em si, poderá equivocadamente julgar, tendo em conta a primeira sequência, estar perante de uma comédia sob toques reconhecíveis da escola de Sundance. Mas algo transforma-se e num ápice vemo-nos envolvidos numa rampa decrescente à trépida relação do casal protagonista. Inspirado no livro de Marco Franzoso, Hungry Hearts, de Saverio Costanzo (La Solitudine Dei Numeri Primi), é a história de um jovem casal que assume a responsabilidade paternal no preciso momento em que a "cegonha bate à porta". E é então, nesse determinado instante que a vida dos inicialmente felizes, Mina (Alba Rohrwacher) e Jude (Adam Driver), drasticamente altera para contornos bizarramente dementes. Ela, encarando o seu filho como um divino ser de outra dimensão, tenta purificar a sua estadia neste Mundo e ele protegendo o seu rebento da sua própria progenitora.

 

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É certo que Hungry Hearts, uma produção italiana maioritariamente falada em inglês, tem muito a dever ao suspense de Roman Polanski, nomeadamente o psicológico de Rosemary's Baby com Rohrwacher a comportar-se como uma nova Mia Farrow. O peso desse incutido terror psicológica começa a sentir gradualmente na narrativa, nomeadamente a câmara de Costanzo é embebida por essa dimensionalidade, e nós, espectadores, testemunhamos esse fruto e os efeitos da mesma. Quanto ao elenco, se Adam Driver consegue o apelo, é em Alba Rohrwacher que concentra como o catalisador de toda a teia de suspense ditada por Costanzo. Mais de que uma musa "polanskiana", a actriz vencedora de um respectivo Prémio no último Festival de Veneza, demonstra-nos uma frieza arrepiante na pele de uma psicótica mãe à deriva de um tremendo vórtice.

 

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Hungry Hearts induz-se nesses desempenhos, fortes e de certa maneira bastardos , e de uma atmosférica claustrofobia que apenas adensa no último terço, onde o ritmo parece render-se a uma eventual elipse com claras premonições para com o twist. Apesar deste último ser demasiado repentino e insípido, opera sob uma razoável satisfação. Entenda-se que o filme de Costanzo tinha iminente horizontes a atingir, contudo, o resultado fica-se por um ensaio de suspense construído de forma sombria, mas ritmada a pouco vapor. Sobra então o efeito conseguido desde então e os desempenhos de "cortar a faca", nomeadamente, Alba Rohrwacher a alcançar um dos seus personagens mais singulares, provavelmente mencionada em futuras galerias de mulheres psicopatas do Cinema.  

 

Filme visualizado na 8ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Saverio Costanzo / Int.: Adam Driver, Alba Rohrwacher, Roberta Maxwell

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 02:42
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8.3.15

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 Romance à judaica!

 

A comunidade hassídica e a actriz Hadas Yaron parecem permanecer num compromisso matrimonial no cinema. Depois de ter sido consagrada com o prémio de Melhor Actriz no Festival de Veneza com Fill the Void (A Noiva Prometida), um retrato nada acusador dessa sociedade ultra-conservadora judaica, Yaron torna-se a musa de Maxime Giroux e Françoise Delisle nesta obra que incute o romance como um escape quotidiano. Ela é Meira, uma judia hassidica que vive "aprisionada" aos costumes e às rígidas tradições da sua religião, em particular com o seu marido. Do outro lado encontramos Félix (Martin Dubreuil), um homem que tenta superar a morte do pai e que tece um magnético fascínio por Meira. Ambos, dois seres envolvidos na solidão dos seus dias, criam laços e uma cumplicidade entre eles que dificilmente os seus mundos anteriores poderão resgatar.

 

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De certa forma despreocupado com a maneira como lida como o romance, Félix & Meira, centra-se mais como uma mera fórmula de "boy meets girl" e avança com uma fuga labiríntica, onde não falta uma atmosfera doce e melancólica. Este é um filme simples que nos conquista por isso mesmo, pela sua simplicidade sincera e terna (não verificamos nada mais explícito que o simples abraço caloroso), sem demasiadas convenções com a ficção cinematográfica, um pouco como Sofia Coppola conseguiu com o seu Lost in Translation: a "colisão" de dois mundos distintos entregues à aritmética dos sentimentos.

 

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Para além de tudo, Félix & Meira é bem interpretado. Hadas Yaron prevalece num estado melancólico contagiante e sob um constante olhar de redenção para o cerco que a rodeia. Luzer Twersky, que desempenha o marido de Meira, consegue também conquistar-nos como uma personagem nobre, apesar disso não transparecer inicialmente. A dupla Giroux e Delisle concretiza aqui um filme com fortes relações musicais: ambos os realizadores cresceram com a presença dos videoclipes e isso (sob uma boa vertente) encontra-se bem presente na narrativa e nas emoções das respectivas personagens, basta apenas verificar o efeito que After Laughter (Comes Tears), de Wendy Rene, tem em Meira, ou no desgostoso climax imposto por Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen.

 

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Outras influências que poderão ser encontradas em Félix & Meira é a previsibilidade das influências shakespereanas, não apenas inseridas no romance impossível digno de Romeu e Julieta, mas na atracção de Veneza como um ponto de refúgio (acentuado por uma atmosférica fotografia de Sara Mishara). Porque todo os seres merecerem o seu biótopo, sem amarras que os prendam. Muito mais que um mero romance de pacotilha!

 

Filme visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Maxime Giroux, Françoise Delisle / Int.: Hadas Yaron, Martin Dubreuil, Luzer Twersky

 

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Ver Também

Fill the Void (2012)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:17
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6.3.15

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Consolidação com os fantasmas da Guerra!

 

A primeira longa-metragem do actor italiano radicado na Alemanha, Giulio Ricciarelli, Im Labyrinth des Schweigens (O Labirinto das Mentiras), é um thriller jurídico que nos remete a um dos momentos históricos mais marcantes da Alemanha pós-guerra e até mesmo do Mundo. Esta história fictícia, que tem como base o julgamento de Auschwitz, decorrido em Frankfurt em 1963, onde 22 ex-guardas do campo de concentração foram constituídos arguidos e mais de 211 sobreviventes prestaram os seus depoimentos, é acima de tudo um produto cinematográfico que tem o intuito de incentivar o público a não esquecer os actos cometidos naquela época negra e do valor (des)humano que aquele lugar parece transmitir.

 

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Hoje tido como um reduto do mal ou um cemitério símbolo, Auschwitz, localizado na Polónia, foi em tempos uma "pedra esquecida" por uma Alemanha que tentava renascer das cinzas e que sarava com custo das velhas feridas. Os atentados à integridade humana foram assuntos vencidos, prova disso, foi a ignorância das gerações seguintes, desinformadas sobre os actos e o local em questão. Entre elas estava Johann Radman (Alexander Fehling), um jovem procurador. Após questionar a natureza dos crimes cometidos naquele "conjunto de vedações, barracas e postos de vigia", decide encabeçar uma das maiores investigações que a Alemanha testemunhou nos últimos anos.

 

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Assumindo como um produto a roçar o policial, O Labirinto das Mentiras mostra-se como uma colectânea de horrores e personalidades que protagonizaram a "Solução Final" e outras barbáries ao serviço de um regime. À medida que remexe neste passado sangrento, o qual envergonha toda uma geração ( "Nós, alemães devemos vestir o preto para sempre", como é citado a certa altura), Radman abre uma autêntica caixa de Pandora e reivindica um movimento de colisão com os valores recém-estabelecidos da sociedade alemã à visão distorcida por injustificáveis pecados ideológicos, nomeadamente o Holocausto. São os filhos do nazismo, fruto geracional de um legado ocultado, que até mesmo as Nações Unidas encobrem ("os novos inimigos são os russos" refere um dos americanos do consulado dos EUA, quando confrontado com uma solicitação de acesso aos arquivos de Auschwitz).

 

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Visto isto, O Labirinto das Mentiras evita por vezes a fórmula de investigação para explorar uma vertente mais intimista e existencial dessa herança maldita. Questiona o nacionalismo e debate-se sobre a integridade alemã. O desempenho sempre crescente de Alexander Fehling acentua essas fragilidades, assim como os dilemas propostos, apresentando-nos de forma figurativa as gerações enganadas que terão que conviver com os actos monstruosos cometidos pelos pais. Existe aqui uma certa influência das Banalidades do Mal de Hannah Arendt, a questão do dever militar sobre a consciência humana é diversa vezes citada e dissecada durante o embate com estes "monstros com cara de gente".

 

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Contudo, o filme acaba por se perder entre alguns subenredos que se guiem por becos sem saída. Por exemplo, a obsessão do nosso "herói" em deter Josef Mengele, o infame médico alemão (o "Anjo da Morte", como é apelidado), autor de algumas das aberrações médicas cometidas a prisioneiros dos campos de concentração, "empapa" em demasia o fio condutor narrativo da mesma. Porém, não sendo nenhuma obra-prima ou algo transcendental, O Labirinto das Mentiras é um retrato de boas intenções que traz alguma emotividade ao tema, mas acima de tudo ilustra a superação de um povo contra os seus próprios demónios.

 

Filme de abertura da edição 2015 do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Giulio Ricciarelli / Int.: Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:11
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28.2.15

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A “moca” intrínseca de Paul Thomas Anderson!

 

Ao retratar uma "Outra América", Paul Thomas Anderson estaria em plena aprendizagem para o seu próximo desafio. Tendo em conta que as suas últimas obras foram quase como uma brincadeira ao "próximo grande filme de Hollywood", uma matéria tão psicadélica e atípica como o homónimo livro de Thomas Pynch seria um obstáculo improvável para uma livre translação de matéria fílmica. Comparado como um Raymond Chandler sob influências do Woodstock, este pseudo-noir nos intermédios dos anos 60 e 70, guia-nos a uma América pós-traumática, não tão diferente daquela anteriormente mencionada em The Master ou em There Will Be Blood.

 

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É o ciclo vicioso da sua nação que Thomas Anderson encoraja em sintetizar uma livre narrativa sob efeitos alucinogénios. Aliás é falando em vícios intrínsecos, que apercebermos a razão para o seu interesse nesta adaptação, o círculo fechou-se há muito, mas só aqui testemunhados o seu desfecho. O sexo (Boogie Nights), a possessão (There Will Be Blood) e a influência (The Master), os "pecados capitais" que operam como vícios entranhados na sociedade dos EUA (e não só), abordados individualmente durante a sua filmografia. Inherent Vice apenas implemente todas essas características em constante tom "carroleano" e dignamente pulp.

 

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Mas o desafio não se encontra somente na decisão do cineasta e o seu vínculo em concretizar tal produto cinematográfico, mas sim no espectador que estará perante numa autêntica faca de dois gumes: seguir à deriva dos devaneios e esquecer o óbvio, ou procurar uma credibilidade nos seus actos. É a escolha que ditará a cumplicidade destes com o ciclo vicioso cometido por Thomas Anderson, aquele que é a sua obra inclassificável, alusivo a um "charro", uma mistura fumegantes de tons, paladares e cheiros que nos remete à memória uma veia "trash" digna dos anos 70, obviamente seguido por repercutidos efeitos secundários. Essa dita "trip" poderá desencadear uma onírica fantasia endiabrada, que tal como jazz parece sustentar por vias do improviso. Os efeitos desta construção de uma alternativa cinematográfica são válidas, e metafisicamente incisivas, mas não totalmente efectivas.

 

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A história de Doc (Joaquim Phoenix) em descobrir o paradeiro de um milionário envolvido em comunidades arianas, a pedido da sua ex-namorada, tem muito de enigmático como caricatural. Uma caricatura esboçada sobre uma América de uma identidade perdida, cujos espectros residem dependentes desses tais vícios interiores. Porém, não existe dependência com os seus personagens, que vêm e vão como entretenimentos passageiros, felizmente cada um deixando a sua marca na progressão da narrativa.

 

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Por fim, há que salientar o esforço do realizador em entranhar-se em território pouco confortável, sob uma psicadélica e moldável narrativa que se mantém longe das aparências e dos lugares-comuns que intrigas como estas poderiam gerar. Mas para além disso, é a confirmação de que o cineasta não se desleixou em esforços como o ambicioso director de actores que é tido, o exemplo disso é um camaleónico Joaquim Phoenix a funcionar como uma perdida "Alice" num "País de não Maravilhas" ou um Josh Brolin magnético, protagonista em algum dos momentos mais divertidos e surreais de toda a fita.

 

“Chotto, Kenichiro, Dozo! Motto panukeiku... motto panukeiku! MOTTO PANUKEIKU!”

 

Real.: Paul Thomas Anderson / Int.: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Owen Wilson, Katherine Waterston, Michael Kenneth Williams, Jena Malone, Martin Short, Eric Roberts, Reese Witherspoon, Maya Rudolph, Benicio Del Toro

 

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Ler Críticas Relacionadas

There Will Be Blood (2007)

The Master (2012)

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:50
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13.2.15

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Processando … vidas!

 

"O Fim está próximo". Pelo menos é o que é aclamado no início de Videofilia (y otros síndromes virales), um filme experimental que incute uma mensagem que a esta altura do campeonato todos têm conhecimento, mas que infelizmente grande parte ignora. Refiro-me à ausência de contacto físico como resultado dos avanços tecnológicos, nomeadamente a internet, essa "maldita invenção" que tem servido de alternativa a muitos dos nossos gestos quotidianos, até mesmo em questões sexuais. Contudo, nesta obra de Juan Daniel F. Molero, a mensagem não é oferecida ao espectador como algo adquirido ou uma moralidade que antecede o "The End". O objectivo aqui não é o de recriar um panfleto pedagógico mas colocar quem assiste numa experiência sensorial e subliminar, mesmo que os "alvos" sejam mais que evidentes.

 

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Mas então o porquê a citação do "Fim"? Qual a razão do Apocalipse que é mencionado na cena inicial? Os eventos proferidos por um jovem, gravando para a posteridade essa inesperada ocorrência, que, segundo este, marcará a sociedade como nós as conhecemos? Os Maias profetizaram esse derradeiro desfecho, mais tarde lido como uma transição para uma Nova Era. Por mais que tentamos descredibilizar esse dom de adivinhos e profetas, estes realmente desvendaram essa mudança, um futuro negro, mais individualista, constrangido e isolado no seu sedentarismo tecnológico. Mas o "Fim" não é esse, mas sim a alusão presente num dos "castigos divinos" que o filme incute lá bem para o seu final.

 

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Enquanto isso, somos presenteados com uma narrativa inventiva e psicadélica, que brinca com "glitchs", pop-ups e pixéis para tornar menos perceptível a actual diferença entre Cinema e o mundo da informática. Talvez essa fusão seja o futuro da Sétima ArteVideofilia um dos incompreendidos pioneiros dessa linguagem visual. Violento nessa abordagem, Juan Daniel F. Molero conseguiu um assombroso ensaio cinematográfico cuja mestria não está no seu conteúdo, mas sim na forma como o expõe. Uma experiência!

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Roterdão 2015

 

Real.: Juan Daniel F. Molero / Int.: Liliana Albornoz, Caterina Gueli Rojo, Rafael Gutiérrez

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:04
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20.1.15

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A imitação de formulas ao serviço de um Homem invulgar!

                                                                                                                                     

Talvez sejam muito poucos que devem saber, mas Alan Turing foi uma das figuras mais importantes do século XX, tirando o facto de ter sido um dos pais da ciência da “computação”, a sua participação na Segunda Guerra Mundial foi deveras relevante, acreditando-se que sem a sua intervenção a guerra se prolongaria por mais de dois anos. Mas afinal quem foi Turing?

 

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Deve estar a esta hora a questionar o espectador, enquanto The Imitation Game evidencia como uma matriz à sua figura ao mesmo que esboça todos os elementos do cinema biográfico. Aqui desempenhado por Benedict Cumberbatch, naquela que é até à data a sua interpretação mais rigoroso e emocional, Alan Turing é um matemático e criptologista, que integrado numa equipa ao serviço da Inteligência Britânica, tentam descodificar o Enigma, a indecifrável máquina de mensagens codificadas utilizadas pelos alemães para transmitir os seus ataques e tacticas durante a Segunda Guerra Mundial.

 

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Morten Tyldum (Headhunters) dirige assim um filme convencional e erguido por excelentes valores de produção, como também uma trabalhada reconstituição de época. Contudo, é bem verdade que esta é uma obra pensada e projectada para se vingar nos Óscares, visto vestir contornos classicistas em termos narrativos e a esquematização usual do seu género, como também evidenciar um pretensiosismo nas diferentes frentes. Tyldum é apto em equilibrar o rigor técnico e estilístico com a dita presunção e o academicamente aceite, dando por vezes um vislumbre de profundidade na sua personagem principal (novamente referindo) servida com classe e credibilidade por Cumberbatch (apoiado também por uma forte prestação de Keira Knightley). O argumento, baseado no homónimo livro de Andrew Hodges, amplia a intriga acima de duas vertentes previsivelmente trazidas à luz, o passado como o resto do historial de Turing anterior à Segunda Guerra assim como os seus feitos durante esta.

 

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The Imitation Game remete-nos ainda ao trágico destino desta mesma figura, que por sua vez tece um panorama critico e ácido à sociedade e às políticas que coexistiram nesse mesmo tempo. Falo obviamente na “caça das bruxas” de que Alan Turing foi alvo, a condenação por indecência, visto que a homossexualidade era considerado um crime no Reino Unido. A condenação, essa, levou ao suicídio um dos mais brilhantes homens do século XX, mas pelos vistos a sua mente ecoou até aos dias de hoje e dificilmente conseguiríamos retirar Turing do nosso quotidiano. Uma figura incontornável do nosso servido, porém, servido cinematograficamente por um filme, que apesar de bem concretizado, não será incontornável num futuro próximo.    

 

"Are you paying attention?"

 

Real.: Morten Tyldum / Int.: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:47
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18.1.15

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O anormal do quotidiano!

 

Em Matterhorn, somos apresentados a Fred (Ton Kas), um viúvo que vive regido ao seu quotidiano limitado e criado, entre os quais as idas religiosas à igreja local durante o Domingo. Porém este ciclo vicioso no qual o protagonista está inserido, é dilacerado com a vinda de Theo (René van 't Hof), um sujeito bastante peculiar. Obviamente, é com a singularidade deste que Fred voltará a reconciliar com a vida desperdiçada ou lamentada pela tragédia, contudo esta estranha amizade não é vista com bons olhos pelos habitantes do vilarejo.

 

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Uma comédia dramática sobre a libertação pessoal que faz uso de uma linguagem visual perceptível, como é evidente nas primeiras sequências do filme, para facultar as informações necessárias envolto do personagem principal. Ao invés de recorrer à preguiça do dialogo forçado, da narração voz-off ou até mesmo do flashback, é a imagem, os gestos e o ambiente que providenciam o manual de composição da mesma. Matterhorn é assim uma obra de contornos enraizados do cinema europeu profundo, ostentando um subtil humor que não nos "rasga" superficialmente mas nos deixa emaranhando por toda a narrativa e a emoção que surpreendentemente é libertado com toda a pujança no ultimo acto, ao som de "This is my Life", como fosse um puzzle narrativo por fim concluído.

 

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Mas o mais curioso no filme de Diederik Ebbinge é o facto de apresentar a referida libertação e a intima redenção com o passado e as "emoções esquecidas" na emancipação dos vícios religiosos. Por outras palavras, é a brisa desafiante e oposta à velha formula do descrente que se torna feliz em "redescobrir Deus", neste caso é o devoto quase beato que encontra ele próprio na renegação de algo divino e superior. Talvez derivado à cultura holandesa, que já há séculos vem se libertando das dependências religiosas e construindo a sua sociedade laica e progressiva. Um pequeno pormenor que poderá distinguir Matterhorn dos imensos produtos que nos são apresentados todos os anos, nomeadamente o abrotar do cinema cristão que remete ao espectador a sua palavra de convicção religiosa como o único meio viável de superação.

 

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Enfim, a verdade é que toda esta jornada de redescoberta nos levará mais próximo de Deus do que nos pensávamos, pelo menos é aquilo que a personagem de Ton Kas a certa altura refere a montanha suíça Matterhorn de "o local mais próximo de Deus". A montanha essa, que nos levará ao pico da nossa inerente isenção.

 

Filme de abertura da 3ª edição do Cinema Bioscoop - Festival de Cinema em Língua Neerlandesa

 

Real.: Diederik Ebbinge / Int.: Ton Kas, René van 't Hof, Porgy Franssen

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 05:55
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28.12.14

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Na transição de um Novo Mundo!

 

Com Ossos (1997), a actriz Vanda Duarte sentiu-se desiludida com o resultado e propôs a Pedro Costa a um regresso ao bairro das Fontainhas, no arredores da Amadora, nesse momento em plena fase de demolição. Assim inicia o segundo capitulo da sua trilogia etnográfica, onde Costa filma todo uma comunidade na transição do seu próprio fim. Porém a decadência está à vista de todos, e a auto-destruição acelera em contagem decrescente.

 

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O Quarto referido no titulo não é só o cenário onde metade deste registo filmado ocorre mas um "não-lugar" acentuado em todo o bairro, um micro-biótopo étnico compactado na câmara do cineasta. Vanda Duarte é assim a anfitriã desta dissipação, desta incógnita cénica e do seu estado inerente. No Quarto da Vanda, eis a primeira etnoficção de Pedro Costa, um estado avançado da docuficcção que renega o seu lado ficcional e a transforma na sua realidade, a encenação capturada pela dita câmara é o seu mundo descrito por um realismo longe do formalismo, e muito menos do pastiche cinematográfico.

 

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Esta seja talvez das obras mais duras e isentes de beleza do nosso panorama cinematográfico, No Quarta da Vanda funciona como um registo para a posteridade, as imagens dificilmente repetidas e o lugar, as Fontainhas, extinto da sociedade. Talvez nesses termos, o estudo e analise social, a obra de Pedro Costa funciona como um perfeito exemplo de novo realismo, um documentário isente de profunda veia documental e presente sob uma linguagem distintamente cinematográfica (nota-se nas planificações e no tratamento da fotografia que aufere um clima sombrio à comunidade).

 

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Porém No Quarto da Vanda, a experiencia é penosa, porque todo este longo plano conjuntivo reafirma a decadência humana, sublinhando-a em figuras isentes de qualquer caloroso conforto. O pessimismo, esse sentimento, uma das influencias contínuas na filmografia de Pedro Costa e muito mais "afiada" nesta sua trilogia. Agora marchemos com a juventude!

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Vanda Duarte, Lena Duarte, Zita Duarte, Manuel Gomes Miranda

 

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Ver Também

O Sangue (1989)

Casa de Lava (1994)

Ossos (1997)

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:56
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27.12.14
27.12.14

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Condição fracturante!

 

Concluída a rodagem de Casa de Lava, cujas filmagens decorreram na Ilha do Fogo (Cabo Verde), vários habitantes pediram ao realizador Pedro Costa para entregar cartas aos respectivos familiares de Lisboa, grande parte deles, residentes no desolador bairro das Fontainhas, nos arredores da Amadora. Com esta experiência, o realizador integrou uma comunidade aprisionada por uma barreira invisível social, confinada à sua própria degradação num "paraíso prometido" não citado em Casa de Lava.

 

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É certo que segundo o próprio Pedro Costa, existe mais "portugalidade" aí que no país inteiro e Ossos, a sua obra seguinte (estabelecendo um catalisador dessa perdição identitária, um cultura contagiada e híbrida que "promete" estampar nas velhas tradições já constituídas) é o seu claro objecto desse mesmo estudo teorizado. Pedro Costa emana um drama sob fortes toques documentais, aliás é evidente encontrarmos um manifesto etnográfico em todo o seu sentido e uma exploração digna do estilo neo-realista italiano. Sendo que o lado ficcional, preservado por um realismo quase formalista mas em pleno espírito de rebeldia para com a câmara, é afectado com uma constante demonstração de actos metafóricos e alusivos.

 

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A história que centra em redor de uma criança não querida pelos seus progenitores, abandonada à sua sorte e à deriva do respectivo destino é o ponto que une todo um conjunto de personagens desesperadas, e de igual situação identitária. Trata-se do espelho de uma sociedade empestada por um futuro negro e desesperante, Costa profetizou a destruição de um captado modo vivente (a demolição do bairro das Fontainhas em 1999) e a dispersão dos habitantes que havia convivido durante anos, os seus anti-heróis cinematográficos, mas heróicas figuras da realidade.

 

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Com Ossos, o realizador afasta-se claramente da ficção cinematográfica imposta pelo Cinema Novo, por sua vez influenciada pelo Nova Vaga francesa, que fora vista nos seus anteriores O Sangue (1989) e Casa de Lava (1994), para se lançar a um intimo docuficção. Costa perde a olhos vistos a academia formação e mais que nunca, revela a sua rebeldia fílmica para o grande ecrã, mas sem perder o seu gosto pelo estético, pelo planos renascentistas e pela fotografia sombria e melancólica em toda essa transição. Depois do catalisador que fora Casa de Lava, Pedro Costa abre a sua trilogia das Fontainhas com esta romantização.

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Vanda Duarte, Nuno Vaz, Mariya Lipkina, Inês de Medeiros

 

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Ver Também

O Sangue (1989)

Casa de Lava (1994)

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:00
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27.11.14

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Vida depois do Amor!

 

Eleanor (Jessica Chastain) e Connor (James McAvoy) são um casal excepcional e apaixonado, pelo menos é isso que julgam e invejam as pessoas em seu redor. Mas quando a tragédia surge, o par rompe a sua ligação, apercebendo-se que o amor proclamado por ambos não é tão forte como suponham. Ele, abatido com a separação, tenta recuperar o seu amor perdido, com a esperança de que a distância é somente uma mera ilusão passageira. Ela tenta acima de tudo esquecer a sua vida anterior, por outras palavras, desaparecer.

 

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Um projecto dinâmico de Ned Benson, a sua primeira longa-metragem, que tenta consolidar as diferentes perspectivas de cariz sexual e ideológica do fim de uma relação. Tal como Rashomon, de Akira Kurosawa, aqui a verdade possui demasiadas versões e a fidelidade de Benson a esse veredicto resultou em dois filmes envolvidos em ângulos opostos, Ele e Ela, a visão de Connor e a de Eleanor, respectivamente. Ambas versões salientam a natureza e a divergência da guerra entre sexos proposta, supondo a superação como uma característica própria de cada ser e o amor, não como algo inabalável como se crê nos romances em geral, mas uma reacção natural, por vezes ardente e corrosiva, mas não intransponível. Porém, existe ainda outra versão, um terceiro filme, que tem como proclamação a de ser a definitiva visão, de ser a verdade absoluta – Eles (Them) – a obra que fora apresentado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes e no último Lisbon & Estoril Film Festival.

 

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Esta interligação baseia-se simplesmente no mesmo conceito utilizado em Blue Valentine – Só Tu e Eu, de Derek Cianfrance, o fim da relação, o fim de tudo, mas ao contrário da menção anterior, The Disappearance of Eleanor Rigby é levado por um tom mais agridoce, e até ao final, esperançoso numa eventual reconciliação. Já que falamos em referências, a obra de Ned Benson ajusta-se como uma distorcida versão de Un Homme at une Femme (Um Homem e uma Mulher, 1966), de Claude Lelouch, o que não por acaso, pois frequentemente vemos o respectivo poster no quarto de Eleonor Rigby, como a definição de espelho numa pintura flamenga, a alma do "pintor" em questão.

 

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Este também é um filme que não se envolve amorosamente com a dor dos seus protagonistas, mas que acrescenta um mundo em redor destes – algumas personagens secundárias, mesmo sem grande espaço de antena, são uma delícia necessária para desanuviar o melancólico que a fita poderia reger. Uma delas é a indispensável Viola Davis. Talvez o mundo dela seja mais interessante e propício do que dele neste "universo partilhado", mas é ele que nos leva a iludir enquanto aos propósitos do filme, ao mesmo tempo que é imperativo perdoa-lo por essa sua fantasia que certamente não terá um final feliz.

 

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Se James McAvoy encontra aqui um dos seus melhores desempenhos, é verdade que é Jessica Chastain a "engoli-lo" com uma deslumbrante performance. A actriz prova mais uma vez que está a caminhar afincadamente para o título de uma das melhores da sua geração, principalmente a actuar na indústria norte-americana. Ela é emotiva o suficiente, sem com isso recorrer ao bacoco nem ao overacting. A dor da sua personagem consegue transcender e chega a ser partilhada pelo público. Quanto à química de ambos, a culpa de não vê-los definitivamente juntos começa a sentir-se gradualmente.

 

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Mesmo que possa a não vir a ser a proposta aliciante das versões de Ele e Ela, o capitulo Eles funciona como um cativante e delicado drama que tenta contrastar com a definição do cinematograficamente romântico. Aliás, o que temos aqui é um filme isento dos moldes "hollywoodianos", mais envolvente e apaixonante, devo dizer, que um cinema mais marginal e autoral sobre a intimidade amorosa. Uma proposta para fazer-nos apaixonar pela triste beleza da separação!

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Ned Benson/ Int.: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Bill Hader, Viola Davis, Isabelle Hupert, Ciarán Hinds

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:35
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15.11.14
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Em terras longínquas!

 

Em Jauja, Lisandro Alonso emoldura Viggo Mortensen numa distopia silenciosa (em 35 mm para ser preciso) que interliga mitos e teorias de conspiração que muitos gostariam de penetrar, mas que não terão essa sorte perante esta obra envolvida em tão misteriosa aura. A homónima localidade que serve de titulo ao filme foi em tempos um território a ser explorado pelos colonos espanhóis (dizimando por completo a população autóctone, sem qualquer interesse em conhecer suas respectivas culturas, apenas designando-os somente de "cabeças de coco" como sinal de desprezo da "civilização" propriamente dita), em busca de uma alusão a El Dorado, a cidade perdida e "infestada" por ouro. Um paraíso que é muitas vezes referido na obra de Alonso, mas sem a forma necessária para o definir.

 

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Em Jauja, o destino é mais incerto que o próprio percurso do protagonista, o capitão Gunnar Dinesen (Viggo Mortensen), um engenheiro dinamarquês que chegou ao território argentino acompanhado pela sua adolescente filha. O objectivo deste nunca é totalmente revelado, mas Dinesen é o condutor de uma narrativa que transpira falsamente a aventura e ao western norte-americano de um John Ford por exemplo (para dizer a verdade Jauja adquire um certo estatuto de "primo discreto" de The Searchers - A Desaparecida), no preciso momento em que a filha deste é levada por um soldado apaixonado em direcção aos cantos mais obscuros da longínqua pampa patagónia.

 

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Daí segue-se uma aventura solitária, detalhada frame-to-frame e planificada de forma a que espectador demonstre receio pelas eventualidade que se abaterão na jornada de resgate da personagem de Mortensen. Lisandro Alonso evita close-ups e enquadra imensos planos cenários que servem não só para glorificar as paisagens remotas descritas mas para nunca em momento algum criar um empatia do público com os personagens. Tudo resulta num filme visualmente esplendoroso mas isente de qualquer emotividade e interesse nos seus personagens, aliás o realizador argentino lança ele próprio numa aventura especifica, a da distopia (mencionada no inicio do texto).

 

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Assim são unidos o metafísico e até mesmo a ficção cientifica para transformar a obra num exercício mental, onde será o espectador a fazer o seu próprio filme. Não existe nada de concreto aqui, mas sim de desafiante. Jauja não nos levará a uma civilização perdida de ouro derramado da forma mais literal, não senhor, mas concentrará um "what if" quase onírico, como se David Lynch tirasse férias e se lançasse em terras desconhecidas.    

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Lisandro Alonso / Int.: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:34
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10.11.14

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A Balada de Bolchevique!

 

Em Angels of Revolution, o espectador é envolvido a uma antologia da condição da arte sob contexto politico, neste caso às diferentes vertentes artísticas na condução e proliferação do idealismo bolchevique. Já Lenine acreditava que a expansão de reflexões, temáticas e mensagens de cariz social estaria a cargo da Arte, nomeadamente do Cinema, visto que foi durante esta revolução ideológica que surgiu um dos movimentos mais importantes da história da Sétima Arte, desde a linguagem tecida pela montagem até à manipulação desta, tudo em prol do socialismo de um império soviético em ascensão.

 

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O realizador russo Aleksej Fedorchenko brinca constantemente a esse jogo de referências em relação ao historial cinematográfico do seu país, com as "caras-chapadas" de Sergei Eisenstein ou de Vsevolod Pudovkin a serem invocadas sem pudor, funcionando no seu todo em personagens caricaturais que referem um processo de proliferação política, por vezes comparada com um colonialismo ideológico. Assim, somos remetidos a seis artistas vanguardistas que operam pela preservação da União Soviética e que, sob as ordens do seu regime, viajam para a Sibéria virgem para "espalhar" a "boa palavra revolucionária" aos povos ainda "presos" das suas culturas tradicionais e pagãs.

 

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Esta jornada de pregação é incutida sob um impasse satírico, onde Fedorchenko constantemente elabora sketches (aparentemente sem ligação narrativa alguma) em que fomenta a sua noção de crítica. São sequências disparatadas sob gestos de astúcia discreta, que tanto evocam o cinema de Elia Suleiman, como não encobrem os tiques cinematográficos e tecnicistas de um Wes Anderson. Depois desta apresentação em puro modo de divagação das melancólicas e imprevisíveis personagens, é então que somos levados à sua cruzada ideológica por terras gélidas e obscuras da civilização. O jogo caricatural faz-se então sentir e a linguagem fílmica e mordaz condensa num tom ambíguo, ora descontraído, ora forçado, em dispersar da sua seriedade.

 

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Depois do retrato satírico estar por fim fechado, a verdadeira natureza de Fedorchenko é revelada; a caricatura torna-se numa dura análise e as imagens por ser auto-interpretadas. O cinismo é então revelado em prol desse mesmo quadro. Quadro esse, onde o alvo é declarado - a coercibilidade social e ideológica, uma das causas que condenou o regime soviético. Pensando melhor, talvez não seja por acaso que a Crimeia é mencionada logo de início desta obra, levando-nos a crer que Angels of Revolution foi executado para ser algo mais que puro cartoon de jornal, mas uma provocação.

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Aleksej Fedorchenko / Int.: Konstantin Balakirev, Pavel Basov, Darya Ekamasova

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:30
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9.11.14

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O último dos românticos!

 

Não é nenhum erro afirmar que The Casanova Variations (As Variações de Casanova) é um híbrido entre duas artes (uma delas pura, outra, citando João Botelho, "vampírica") e não o banalíssimo título recorrente de "teatro filmado", ao mesmo tempo que se concentra como uma filosofia da eternidade de uma figura romanesca, talvez o último da sua espécie, o libertino e sedutor Giacomo Casanova (1725 - 1798).

 

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Filmado totalmente em Portugal, esta produção de Paulo Branco remete-nos a um mundo metafísico, um "faz de conta" quanto às realidades expostas. Derivado a isso, é constante o desafio ao espectador de integra-las, ou seja, por momentos encaramos a peça (a Ópera de W. A. Mozart, adaptada do livro A História da Minha Vida - do próprio Casanova), noutros vivemos a história da peça e depois há ainda a realidade que engloba essas mesmas duas realidades. Esta "trilogia" é disposta a uma matriz narrativa que tanto invoca a essência dramaturga como o misticismo da ópera. Mas o austríaco Michael Sturminger opera como o elo mais fraco, não conseguindo totalmente cativar a audiência com a sua câmara e perspectiva. Por outras palavras, o artificialismo de As Variações de Casanova é diversas vezes abalroado com uma constantemente tremida e irrequieta câmara que assenta ocasionalmente numa crueza técnica.

 

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No centro desta utopia, encontramos a estrela - John Malkovich – que se deixa à mercê da maré destas realidades expostas. Se por um lado ele é o próprio e ninguém recusa a proposta (vem-nos à mente Being John Malkovich?, de Spike Jonze), simultaneamente o actor figura-se perfeitamente na pele de Giacomo Casanova, mas dotado somente pela sua automatização egocêntrica, que funciona, aliás, não como um desempenho transcendente e trabalhado, mas por fazer-nos acreditar numa eventual encarnação (ou reencarnação). Como o seu alicerce está Veronica Ferres, a frígida capa da tragédia pessoal, que exerce as tarefas de o Fantasma do Passado de Charles Dickens, em relação ao nosso multi-identitário protagonista.

 

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As Variações de Casanova é uma proposta desafiante de cinema, um recuo a uma das suas origens lado a lado com a inovação narrativa e de metamorfose fílmica. John Malkovich é o rei deste mundo, ou diríamos antes, a viva alusão de Casanova, a dissecação de uma personagem imortalizada ao mesmo tempo que se enquadra na condição de actor.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Michael Sturminger / Int.: John Malkovich, Veronica Ferres, Fanny Ardant, Tracy Ann Oberman, Maria João Bastos, Miguel Monteiro

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:47
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24.10.14
24.10.14

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Sob uma "pele de cobra"!

 

Segundo Daniel Hui, a história da Singapura é somente um conjunto de mitos e a versão verdadeira apenas reside na voz muda dos fantasmas, espectros amaldiçoados condenados a testemunhar um país em plena metamorfose, mas sob uma constante crise de identidade. Talvez a única solução, sugerida pelo próprio realizador, é a de queimar o manual de história nas mesmas chamas que um dia "abraçaram" o berço da humanidade e que, mais tarde, cumprirão a profecia de a destruir.

 

Snakeskin é um documentário experimentalista de teor provocativo que funde um conceito digno dos contos de ficção científica, a capacidade viajar do tempo, para tecer uma linguagem irónica sobre as constantes críticas que tende em culminar. Tudo acaba por ser um jogo que une a imaginação com soluções linguísticas do próprio autor, que se demarca nesta busca pela verdadeira essência do país.

 

Porém Hui, que venceu um prémio de Revelação na anterior edição do Doclisboa com o seu Eclipses, não demonstra ser capaz, nem possuidor de interesse, em dirigir uma voz revolucionária. Em vez disto, prefere antes apresentar uma discreta causa, secretamente perdida na "voz" de acorrentados espectros como também nas suas formas (a de um gato, o mero errante entre o mundo dos vivos e dos mortos). Os desvanecidos nas memórias esquecidas da nação. Memórias, essas, como havia mencionado, longe dos ditos manuais que, segundo Snakeskin, merecem ser queimados nas referidas chamas. O contra-veneno de Singapura.

 

Daniel Hui incute aqui certas influências narrativas dos cinemas documentais de Werner Herzog e de Rithy Panh. E, tal como este último e sob o signo da sua última grande obra, o nomeado ao Óscar, The Missing Picture, utiliza o cinema como forma de exorcismo aos fantasmas invocados. Snakeskin é um exercício assombroso de narrativa, a promessa de um documentarista em busca da sua razão de ser, tal como o seu retrato de Singapura, em busca da sua etnia, tradição e verdade.

 

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Real.: Daniel Hiu

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:52
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21.10.14

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Azul é a cor mais quente!

 

É certo que a mais acessível escapatória de uma rotina é criar outra rotina, um conjunto de rituais sistemáticos que se tornaram parte do dia a dia de Julien (Mathieu Almaric). Contudo, as amarras com a rotina anterior são demasiado fortes, ou Julien demasiado fraco para finalmente desprender se e aceitar as suas escolhas. Baseado num livro policial de Georges Simenom, La Chambre Bleue (O Quarto Azul como titulo traduzido) marca a quarta longa-metragem realizada pelo actor Mathieu Almaric (para além disso, tem aqui um dos seus melhores desempenhos), uma prolongação de um pesadelo passional que adquire através de uma narrativa desfragmentada e misteriosa, contornos burlescos e de uma certa e negra ironia.

 

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A história que surge inicialmente, e de importante cadência, é um quarto azul de hotel, que aqui é mais que um cenário. É um elo de cumplicidade entre as duas personagens; Julien e Esther (Stephanie Cleau), ambos sujeitos respectivamente casados mas obsessivos em saciar uma atracção de adolescente. O resultado é um adultério metódico, conduzido por sinais e de uma discrição exemplar. Porém, algo acaba por correr mal. Os primeiros minutos de fita não escondem o conflito que se avizinha - Julien é acusado de matar a sua própria mulher, a fim de ficar com a sua amante, mas o nosso protagonista proclama a sua inocência, mesmo que os indícios apontem noutra direcção.

 

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O Quarto Azul não se expõe como um thriller passional ao jeito de Fatal Atraction, de Adrian Lyne. Ao invés disso, temos um filme não convencional que "brinca" com a própria disposição narrativa e com a consciência das suas personagens e com isso com o constante julgamento do seu espectador. O quarto azul do filme torna-se assim num local de crime, numa metáfora envolvida em vórtice que aprisiona todos em seu redor. Se o livro em si é misterioso e atmosférico, o filme de Almaric respeita essa aura incógnita, mas infelizmente a atmosfera parece ter ficado à porta dos propósitos do actor agora convertido em autor, sendo que a sua maioritária preocupação é sob material vencido em Cinema: vergar uma visão masculinamente perturbadora.

 

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Aliás, O Quarto Azul é um filme que se preza pelo respeito tremendo que tem pelas mulheres, salientando o seu intelecto, perseverança, percepção e no poder que possuem sobre os homens, estes cada vez mais vistos na sociedade ocidental como o "verdadeiro" sexo fraco.

 

Real.: Mathieu Almaric / Int.: Mathieu Amalric, Léa Drucker, Stéphanie Cléau

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:43
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17.10.14

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"Encaixotados"!

 

Há um certo entusiasmo em visualizar animações em stop-motion e confirmar a sua simbiótica artificialidade e esforço de uma equipa em construir algo dinâmico sob meios artesanais e trabalhosos. Trata-se de um processo criativo, felizmente devidamente reconhecido, desde os tempos da Aardman (Wallace & Gromit como duas figuras de referência incontornáveis) até às experiências de Tim Burton e Henry Selick, este último um dos impulsores para a criação da Laika, a produtora exclusiva nestes assuntos que ambiciona competir com um mercado mais exigente através desse mesmo modus operandis.

 

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The Boxtrolls talvez seja uma das maiores das produções do ramo, uma alegoria animada dotada por um cenário pitoresco e caricatural, Ponte de Queijais, onde monstros "encaixados" vivem nos seus esgotos, "aterrorizando" os habitantes dessa mesma cidade hierarquizada. Contudo, tais temores são apenas mitos. Os monstros das caixas são na verdade seres simpáticos, inofensivos e indefesos perante o esquadrão de exterminação liderada por Archibald Snatcher (na versão original com a voz de Ben Kingsley). Cabe agora a Eggs, um rapaz criado por essas mesmas criaturas, levar ao bom senso dos habitantes de Queijais e salvar os seus companheiros, a única família que conheceu.

 

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The Boxtrolls é um enérgico conto que obviamente agradará aos mais novos graças à sua composição imaginativa, divertida (gags engenhosas e perceptíveis) e personagens secundárias caricaturais. Porém, serão os adultos que apreciarão ainda mais a obra em questão. Em causa está, não só a estética dos "Os Monstros das Caixas" (baseado no homónimo livro de Alan Snow), mas as sublimares mensagens que esconde entre os seus sub-enredos; como a corrupção e a luta entre classes sociais recorridos como referências, que decerto serão reconhecidas pelas audiências mais velhas. Para além disso, não esperem uma resolução moralista para o meio daquilo tudo, pelo menos uma que realmente satisfaça a ingénuos amantes de "happy endings". E nisto poderá soar cruel, cliché ou até deprimente, mas a ausência de focagem nesses pontos alude ao mundo real, onde o desinteresse em mudar o que todos reconhecem ser o incorrecto é sempre "atropelado" pelo mediatismo e pela "distracção do momento".

 

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Mais sofisticado em termos visuais que os seus "primosCoraline e Paranorman, e dotado por uma fértil imaginação, The Boxtrolls apenas fraqueja em não deixar transparecer a sua irreverência tal como havia sido feito nos exemplos já mencionados. Mas não haja dúvidas. Esta é uma proposta fabulista a ter em conta para toda a família.

 

"I have been reasonable, and I can be unreasonable."

 

Real.: Graham Annable, Anthony Stacchi / Int.: Isaac Hempstead Wright, Ben Kingsley, Jared Harris, Elle Fanning, Simon Pegg, Nick Frost, Toni Collette

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:28
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21.9.14

Este filme não é para velhos!

 

Na sua primeira longa-metragem, Hermes Paralluelo filma os seus próprios pais como personagens decadentes acorrentadas a um sistemático ciclo de rituais e gestos. Poderíamos aclamar que este No Todo es Vigilia é algo que bebe da mesma água que um Hiroshima, Mon Amourde Alain Resnais, por exemplo. Isto pelo simples facto desta ser uma ficção enraizada na veia documental ou, simplesmente, por um conceito simplista, um documentário que durante o seu processo resultou numa mostra híbrida, ficcional e, em simultâneo, renunciando tal categoria.

 

 

Paralluelo aborda uma história de amor, não no momento ardente da sua paixão, mas no conforto acostumado com o seu par. Existe afecto aqui e o espectador sente isso quando visualiza imagens de insuportabilidade psicológica seguida por um perdão silencioso de quem ama. O realizador consegue uma obra alicerçada por planos magistrais e uma fotografia fantasmagórica, que acentuam o vazio e a solidão iminente. A rotina é aqui o centro do espectáculo, da mesma forma que os paradoxais diálogos governam uma narrativa decadente, cujo desenvolvimento comporta como uma mera entidade invisível e acossadora. No fundo as ideias deste primeiro filme são estas: a fobia da "velhice", o medo da solidão e o ciclo rotineiro que se dá como "cartão de visita" para o fim dos elementos.

 

 

Neste aspecto No Todo es Vigilia resulta na perfeição mas, como primeira obra, a presunção precoce do realizador acentua um desfecho tardio e sequências non sense que reafirmam o que já havia sido dito. Um dia chegaremos assim, decadentes no tempo, mas loucos viventes das "folgas" impostas pela morte. Folgas essas lentas, quase e desesperadamente imperecíveis. Hermes Paralluelo constrói a homenagem digna ao amor dos seus pais, o olhar no passado com dedicação e afecto que só um filho poderia dar. Nisso, No Todo es Vigilia é admirável.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Hermes Paralluelo / Int.: Antonio Paralluelo, Felisa Lou

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:41
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17.9.14

O incomodo convidado!

 

Segundo o próprio realizador, Adam Wingard, The Guest foi baseado na banda sonora típica e minimalista dos anos 80, com especial referência ao cineasta John Carpenter. Talvez seja por esse motivo que esta obra datada de 2014 tenha muitas influências do estilo despreocupado e por vezes trash do cinema desse realizador e é nessa composição que encontramos a fórmula do seu sucesso. Depois de You're Next, Wingard volta a debater-se com convidados indesejados nesta intriga a que sujeita uma família, os Peterson, destroçada e em luto pelo óbito prematuro do seu filho mais velho, morto em serviço no Iraque. Certo dia, os Peterson recebem uma visita inesperada, um dos camaradas do seu filho, David (Dan Stevens), que surge com o intuito de prestar auxílio e apoio à família devastada. Um amigo bem-vindo que subitamente se torna numa misteriosa ameaça.

 

 

The Guest, estreado no último Festival de Sundance, é um filme conduzido por um ritmo frenético, imparável e eficaz, um divertimento lúdico, porém de paladar nostálgico e muito eighties. O jovem actor Dan Stevens é implacável na sua sinistra personagem, que desde cedo transfere para o grande ecrã um clima de suspeita gradual. A sua jornada repleta de diversos twists, que nada impedem The Guest de seguir os seus propósitos iniciais, é minada por inúmeros gags hilariantes e enredo no mínimo astuto, cheio de personagens caricaturais. Porém, as ditas influências de Carpenter revelam-se no preciso momento que se dá o major twist, a veia trash acentua-se na trama e são continuamente disparados referências que deliciarão os espectadores mais conhecedores dos tais toques "carpenterianos". Um pouco de Halloween ali, Escape from New York acolá, ou até mesmo Assault on Precinct 13 noutro momento. Carpenter com fartura e o melhor é que Adam Wingard o reconhece.

 

 

The Guest é uma proposta aliciante que reúne os géneros de thriller e acção sob um registo próximo do terror, apto para agradar a um público muito diverso. Infelizmente, e apesar dos bons momentos, a nova fita de Adam Wingard está longe de ficar na memória, limitando-se a um amontoado de referências e pouco mais. Mas volto a sublinhar, é divertido que se farta!

 

Filme visualizado no MOTELx 2014: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Adam Wingard / Int.: Dan Stevens, Sheila Kelley, Maika Monroe

 

 

Ver também

You're Next (2011)

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:52
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Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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