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27.7.14

Sobrevivência a alta velocidade!

 

Para contornar o Aquecimento Global, vários países acordaram em lançar um gás que pudesse refrigerar o planeta, porém os resultados foram demasiado drásticos, conduzindo o Mundo a uma nova Era Glaciar. Toda a vida na Terra morreu, excepto aquelas que se encontram na imparável locomotiva de Wilford, o último reduto da Humanidade, um comboio com mais de 1000 carruagens estruturadas num processo hierarquizado. Após vários anos em condições desumanas, os chamados "restos" da Humanidade, deixados à sua mercê na última carruagem, revoltam-se e lançam-se num motim com principal objectivo tomar a posse da locomotiva e "quebrar" a distância entre as diferentes classes que compõem esta Arca de Noé sobre carris.

 

 

Adaptação da graphic novel francesa, Le Transperceneige (Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette), que fora publicado em 1984 e que apesar da sua antiguidade, reserva elementos modernos e actuais como um presságio alarmante, a ameaça do Aquecimento Global e a sua tardia luta, até chegar a uma contextualização caricatural dos ideais marxistas. Enfim, o realizador sul-coreano Joon-Ho Bong, que em 2006 havia "ressuscitado" o género de monstros com The Host (uma delicia cómico-trágica), transforma este visionário conto de distopias num dinâmico blockbuster internacional que tem como característica ser mais astuto que a maioria dos seus congéneres norte-americanos. E sob esse pretexto de grande produção, Snowpiercer se converte numa antologia às diferentes distopias da ficção cientifica cinematográfica e com óbvios contágios da própria literatura de género (evidente hereditariedade do livro de Aldous Huxley, O Admirável Mundo Novo), tudo para seguir com um ritmo acelerado mas sempre ciente dos seus propósitos e objectivos.

 

 

Há aqui praticamente de tudo, desde elementos do cinema mais trash e despreocupado com próprias filosofias tecidas de uma obra mais existencialista e panfletária, remetendo sobre o equilíbrio social e os riscos em mantê-lo como também a anarquia como luta dos mais desfavorecidos. Ou seja, Joon-Ho Bong invoca uma imparável panóplia de pertinentes questões ou sugestões a foro social, atenuados por uma acção conflituosa hiperactiva e quase regida a uma linguagem de videojogo (as diferentes carruagens vistas como uma sucessão de níveis), porém sedutora no seu próprio jogo. O realizador retira ainda a força da individualidade dos personagens, existindo aqui quase uma invocação ao cinema de Eisenstein, onde o colectivo é encarado como uma única personagem, e por isso a perda de uma desta em termos individuais é isente de qualquer emotividade.

 

 

Com um visual deslumbrante e uma banda sonora pomposa que serve de companheiro na demanda liderada por um carismático Chris Evans, Snowpiercer funciona como entretenimento cerebral que finca nas diferentes feridas da sociedade sem com isto permanecer uma posição reflectora e condenável. Joon-Ho Bong orquestrou uma partitura intensa, energética, contudo desigual. Infelizmente o final deixa mais perguntas e respostas e mesmo tendo em conta as pertinências do argumento, é fácil admitir o quão longe poderia simplesmente seguir. Mas é um blockbuster corajoso … isso sim … e tem Tilda Swinton no seu lado mais excêntrico, o que é sempre justificação para o preço do bilhete.   

 

"Have you ever been alone on this train? When was the last time you were alone? You can't remember, can you? So please do. Take your time."

 

Real.: Joon-Ho Bong / Int.: Chris Evans, Jamie Bell, Tilda Swinton, John Hurt, Octavia Spencer, Kang-Ho Song, Ed Harris, Alison Pill, Ah-Sung Ko

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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9.7.14

Depois do liceu é a vez da universidade!

 

No preciso momento em que Capitão Dickson, a personagem interpretada por Ice Cube, entrega a nova missão aos seus agentes "predilectos", Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum), adverte que falhas são inadmissíveis, visto que o novo caso tem muito de idêntico com o anterior. Contudo, é sob esse signo de repetição que 22 Jump Street percorre os lugares-comuns deixados pela prequela (sendo novamente a trip como um dos momentos altos e hilariantes da narrativa), vagueando pelo visto e revisto até por fim dar de caras com uma leve frescura que reencaminha a comédia para fronteiras mais astutas do que a maioria das produções do género.

 

 

Phil Lord e Christopher Miller (a dupla por detrás do êxito de The Lego Movie) regressam assim numa sequela mais musculada e confiante, que restaura o espírito do sucesso de 2011, que por sua vez foi a adaptação de um popular série televisiva do final dos anos 80 com Johnny Depp no principal papel. Tal como a prequela, 22 Jump Street dita um humor alternado entre a sátira inteligente e corrosiva (tendo os estereótipos e artifícios liceais como principal alvo) com gags dinâmicos e por vezes desmiolados, tudo isto servido por uma química prestável pelos dois protagonistas. Channing Tatum confirma mais uma vez que tem "queda" para a comédia e Ice Cube funciona sob um jeito caricatura. Aliás, não é só o elenco que funciona como caricatura, toda a estrutura narrativa jornadeia habilmente para isso.

 

 

Para comprovar tal facto basta assistir aos créditos finais com aguçada crítica à situação actual da indústria cinematográfica (com Seth Rogen como um dos alvos a abater) e uma sequência, que segundo a nossa impressão cinéfila, assenta numa especial atenção a Spring Breakers, o infame filme de Harmony Korine que se tem revelado um culto pecaminoso. A dupla Phil Lord e Christopher Miller esmeraram-se nos mínimos e eis assim uma comédia ocasionalmente inteligente, divertida e dinâmica, talvez o melhor exemplar norte-americano do género deste ano.

 

"The Koreans bought the church back, so we had to move across the street... to 22 Jump Street."

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Jonah Hill, Channing Tatum, Ice Cube, Queen Latifah, Dave Franco, Peter Stormare, Wyatt Russell

 

 

Ver Também

21 Jump Street (2012) 

Spring Breakers (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:45
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1.7.14
1.7.14

Ao volante das emoções!

 

A vida de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem de família dedicado e um trabalhador exemplar, desaba gradualmente como "peças de dominó" após ter recebido uma chamada que o colocará numa posição decisiva. Conduzido à noite em direcção a Londres, Locke prepara-se para enfrentar as consequências dos seus próprios actos.

 

 

O novo filme de Steven Knight (Hummingbirds) poderá ser encarado como um exercício narrativo, e certamente o é, contudo este possui uma dimensão psicológica e emocional aguçada que conjuga com o efeito de sugestão. Esta é uma obra regida pelos códigos do thriller (sente-se uma certa vertente do cinema de Hitchcock), onde Knight utiliza usuais artefactos - o carro e o kit de mãos livres - como catalisadores da fluidez narrativa e do empenho de Hardy, confrontado e a mercê dos obstáculos conflituais impostos.

 

 

Obviamente nada disto funcionaria se Tom Hardy não fosse o actor que realmente é, imenso de classe e ao mesmo tempo de uma simplicidade expressiva. Poderemos afirmar que é ele que carrega o filme às costas, ultrapassando o mero exercício e as limitações cénicas. Para além dos seus longos diálogos com os constantes telefonemas que acentuam o drama humano e a colisão das relações de Locke, é nos seus momentos com a solidão, os monólogos entusiasmantes, que Tom Hardy se evidencia como o motor do filme.

 

 

Enquanto isso, as decisões directivas por parte de Steven Knight não são das mais felizes, minando grande parte da sua narrativa com sobreposições e mais sobreposições. Talvez com o medo de limitar ainda mais a narrativa ou de mimetizar o estilo próprio de Abbas Kiarostami. Todavia e apesar disso, este é um ensaio dramático invulgar e competente no seu conceito, com Tom Hardy a converter uma longa viagem numa tremenda jornada às emoções. Nesta silly season, vale bem pena espreitar Locke.

 

Real.: Steven Knight / Int.: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson, Andrew Scott, Ben Daniels, Tom Holland, Bill Milner, Danny Webb

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:28
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16.6.14

A ruína que leva um subgénero prevalecer! 

 

Blue Ruin de Jeremy Saulnier (da comédia de terror, Murder Party), projecto erguido graças a uma bem-sucedida campanha de Kickstarter, é um filme regido pelos elementos que já parecem figurar um eventual e emergente subgénero norte-americano. Subgénero, esse onde os personagens, viventes de uma América sulista e profunda longe da sofisticação e da cosmopolização usual do seu cinema, são articulados pela vingança e pelas raízes familiares de modo impetuoso, a violência como um constante conforto nas armas funcionam como a religião predominante.

 

 

Bastante peculiar e ao mesmo tempo influenciado por um cinema digno do revitalizador Jeff Nichols (existe demasiadas referências a Shotgun Stories: Historias de Caçadeiras), Blue Ruin poderia basear-se como um usual filme de vingança, mas no seu trajecto recorre a um tom quase referencial e por vezes analista dos mesmos, funcionando quase como spoof, se não fosse o facto de que em momento algum a fita apela ao humor. Nesta intriga simples, contudo dinâmica após dada uma introdução quotidiano do protagonista (Macon Blair), a fita de Saulnier remete-nos a eremitas e rivalidades familiares num portento jogo de gato e rato, onde os twists mesmo que pequenos não cedem a sua relevância. São lugares-comuns orquestrados sobre uma eficiência dramática, e colmatados num final cuidadoso e ousado até mesmo para o seu subgénero, uma confrontação com os demónios do passado em estado de exorcitar. Trata-se de uma obra em que o ritmo imparável acentua uma força bruta em narrar uma história simples mas que no cinema é sempre uma visão eficiente da odisseia humana, no sentido individual.

 

 

Tal como a maioria dos seus congéneres, a violência incorpora o seu estilo incutido, seco e rodeado de actos furtivo, e os desempenhos são claros, frontais e inertes ao realismo, contudo há que salientar a interpretação de Macon Blair, a sua perseverança em dar uma força extra ao seu personagem trágico e acorrentado pelas desventuras do passado. Blue Ruin é assim, uma surpresa e um belo exercício que confirma o que se encontra cada vez mais confirmado no nosso meio, os americanos são apaixonados por armas e as armas por sua vez, são condutores das suas fábulas enraizadas.  

 

The keys are in the car... the keys are in the car... the keys are in the car.

 

Real.: Jeremy Saulnier / Int.: Macon Blair, Devin Ratray, Amy Hargreaves

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:08
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28.5.14

"Bryan Singer de volta ao passado … da sua carreira!"

 

A fim de compensar os sucessivos fiascos e semi-fracassos que a sua carreira atingiu depois de ter “largado” a saga X-Men (Superman Returns, Valkyrie, Jack The Giant Slayer), Bryan Singer regressa ao universo que sempre o acolheu e pelo qual é reconhecido (possivelmente e tendo em conta a relevância do super-herói no cinema, mais que a sua obra-prima The Usual Suspects) naquele que provavelmente é o maior do franchising até à data. Contudo mesmo que este retorno seja marcado por um certo teor oportunista, nada impediu que Singer fosse recebido com um extenso comité de boas-vindas, ou seja um elenco de veteranos da saga ao dispor das suas indicações como também a reunião dos “maçaricos” que fizeram furor na competente e cativante incursão de Matthew Vaughn, First Class, que uniu a liga dos mutantes da Marvel com um cenário distinto dos anos 60.

 

 

Baseado numa BD com o mesmo título, Days of Future Past remeteu as viagens temporais anos antes de James Cameron o ter feito no seu Terminator e assim influenciar toda uma geração sci-fy. Singer acentua assim a veia de ficção cientifica da matéria-prima e acrescenta o arranque dado pelo capitulo de Vaughn de forma a concretizar neste X-Men a “ponte” que os acérrimos fãs mais antecipavam, a forma correcta de unir os já concluídos 7 filmes da saga e preencher os “plots holes” deixados por estes “salta-pocinhas” (porém adverte-se que nem todos serão resolvidos). É verdade que este novo X-Men é levado desde o inicio a um ritmo avassalador, frenético que goza do beneficio em não entrar em introduções.

 

 

Contudo mesmo estendendo ao puro filme de acção repleto de imaginativas sequencias de acção graças ao auxilio do CGI (diria antes o controlo), o olhar de Singer parece fazer alguma diferença, principalmente na forma como compõe a tragédia em muita das suas personagens nomeadamente as popularizadas por Hugh Jackman (novamente capaz de consolidar o carisma com o emocional), James McAvoy, Jennifer Lawrence e Michael Fassbender. O homem que deu X-Men ao mundo cinematográfico, e com isso contagiando toda uma geração de filmes de super-heróis até aos patamares atingidos pelas versões de Raimi e Nolan, foi "corajoso" a levar as predilectas personagens a extremos gráficos ou de existência.

 

 

Porém não foi corajoso o suficiente para arrancar Halle Berry do seu estatuto de acessório de luxo (continua a ser um dos elos fracos da saga) ou de conseguir manejar a imensidão de personagens secundárias, resultado disso há mais cameos que intrigas. Mesmo sob uma máquina bem oleada, Days of Future Past conserva os elementos que ditaram o franchising como um dos melhores no panorama do super-herói de comics, a sua alusão aos conflitos humanitários e sociais como "standards" da ênfase dramática e da intriga em si, algo que tão bem bebe da matéria-prima, aliás foi devido a isso que X-Men é reconhecido no mundo da BD como uma das relevantes e sofisticadas criações da Marvel, co-ligando questões actuais com o imaginário digno do género.

 

 

Longe da mediania que parece ter afectado os demais congéneres, Bryan Singer pompeai-nos com um regresso pela "porta grande" e nos oferece um blockbuster com cabeça, tronco e membros, que consolida o espectáculo visual com o toque autoral deste. Um dos exemplos disso é mesmo a brilhante sequência protagonizada por Evan Peters como Quicksilver, a resposta da Marvel ao Flash da DC Comics, ao som de "Time in a Bootle" de Jim Croce.

 

" Enough! ENOUGH! I don't want your suffering! I don't want your future!"

 

Real.: Bryan Singer / Int.: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Ellen Page, Nicholas Hoult, Evan Peters, Patrick Stewart, Ian McKellen, Josh Helman, Halle Berry, Omar Sy, Shawn Ashmore

 

 

Ver Também

X-Men (2000) 

X-Men: The Last Stand (2006

X-Men Origins: Wolverine (2009) 

X-Men: First Class (2011)

Wolverine (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:38
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3.5.14

O valor de uma vida!

 

Quanto é que valerá uma vida humana para as seguradoras? Um sentimento? Um gesto ou um acto? Talvez apenas meras probabilidades para o calculo matemático de um "bem maior" - a dita indemnização e o seu preço. E é sobre esse pretexto que surge Il Capitale Umano, baseado num homónimo livro de Stephen Amidon e adaptado por um realizador acostumado a comédias populares, Paolo Virzi, uma fita que emaranha o thriller num tom descontraído porém ao contrario do seu objectivo de critico, não é inerte às emoções dos seus personagens.

 

 

A história de duas famílias de classes sociais diferentes que interligam através de um misterioso acidente tem como grande atractivo a sua narrativa, exposta como um exercício de género. São três capítulos que envolvem três perspectivas diferentes, sendo que cada uma delas desvenda à sua maneira a intriga "sequestrada" por um "who done it" como prémio.

 

 

E sob o olhar dessas três cruciais personagens da trama que Il Capitale Umano torna-se inerentemente diversificado, tecendo estilos, teores e todo um conjunto de ênfase dramáticas e cómicas que conjugam equilibradamente. Mesmo tendo como principal atracção e interesse a maneira como é exposta a narrativa, as interpretações são uma bem valia, gerando personagens complexas que nos fazem amar, odiar e até julgar. Nesse aspecto vale a pena sublinhar os desempenhos de uma frágil Valeria Bruni Tedeschi (5X2 de François Ozon) e de Fabrizio Bentivoglio (Scialla!), como o sujeito que queremos a todo o custo evitar.

 

 

Il Capitale Umano é assim um drama trágico-cómico que nos remete ao valor da vida humana, interceptando o oportunismo e salientando de maneira interveniente o processo de calculo das antagónicas seguradoras, todavia antes disso tudo temos uma fita cativante, elaborada e plenamente construída. Vale a pena entrar nas encruzilhadas de Il Capitale Umano.

 

Filme de encerramento da 7ª 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Paolo Virzi / Int.: Fabrizio Bentivoglio, Valeria Golino, Valeria Bruni Tedeschi

 

 

Ver também

Tribeca 2014 - Os Vencedores

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:27
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30.4.14
30.4.14

O 3D como linguagem de autor!

 

No âmbito do programa Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura, o encontro de inúmeros artistas das diferentes áreas da Arte (Cinema, Literatura, Musica, Arquitectura, etc) originou diversos projectos que têm se aventurado pelo resto do país, integrando festivais e outros eventos nas respectivas áreas. No Cinema foram várias as obras que nasceram deste projecto multicultural, mas acima de tudo relevante para a cidade "berço" de Portugal, Guimarães. O convite de variados autores em filmar neste cenário tão antigo do nosso património tem sido uma das propostas mais empolgantes dos últimos anos no panorama cinematográfico nacional.

 

 

Um desses "filhos" foi 3X3D, um ambicioso e ao mesmo tempo espontâneo projecto que funde as impressões digitais de três realizadores diferentes, distinguidos por estilos variados. Para contrariar a ideia de que a tecnologia 3D é limitada à comercialidade dos produtos cinematográficos ou ligado às grandes produções hollywoodescas, 3X3D transforma essa "maldita plataforma", segundo vários puristas, num alicerce para as ideias de foro artístico destes mesmos autores. Assim sendo, temos Peter Greenaway, Edgar Pêra (o pioneiro deste projecto) e Jean-Luc Godard a "remexerem" nas memórias. O primeiro na memória histórica, o segundo na memória do espectador (atravessando também a do cinema) e por último a memória das imagens com a figura ímpar da Nouvelle Vague a desconstruir e construir a sua linguagem fílmica.

 

 

3X3D abre com "Just in Time" de Greenaway, uma espécie de atracção de feira onde o espectador é arrebatado por uma excentricidade visual, simultaneamente cuidada e rica no teor histórico. É o legado da cidade Guimarães imprensa nos frames deste tremendo traveling pelos corredores do Mosteiro local ao encontro das marcas dos séculos e em embate com os protagonistas dessas mesmas referências. Uma experiência visual única que funciona na perfeição sob o formato de 3D e que arrisco a aclamar como a melhor "coisa" vista neste formato numa sala de cinema. Se 3X3D terminasse no preciso momento em que este segmento encerra, cinco estrelas era algo que dava sem qualquer tipo de contestação.

 

 

Passamos para o segundo capitulo, Cinesapiens, de Edgar Pêra, cujo estilo visual do realizador de O Barão é facilmente identificável, ou seja, podemos contar com o loop de sobreposição de imagens. Neste segmento o espectador é confrontado com ele próprio, uma pequena remessa da História do Cinema narrada e protagonizada pelo sempre possante Nuno Melo e, voilá, dá-se de seguida um espectáculo circense no qual o autor dispara para todos os alvos. Uma pitada de H.P. Lovecraft aqui, o teor "trash" ali e todo um despreocupado espectáculo sem receio algum de se tornar ridículo. É diversão mental, é o torcer de uma arte até transformá-la num mundo à parte. Se o objectivo de Edgar Pêra era mesmo provocar, então foi cumprido de forma plena e fértil nas interpretações individuais. Deslocado, é o melhor elogio deste segmento.

 

 

Para finalizar, dá-se o tempo de antena a Jean-Luc Godard, em The Three Disasters. Verdade seja dita, o veterano acaba por "borrar" a pintura. Ao contrário dos seus colegas, Godard não se induz na criação de imagens mas sim na montagem delas, ao mesmo tempo que transcreve uma tese do poder da imagem e da constante metamórfica linguagem. Ainda há tempo de criticar Hollywood, renegar origens e decifrar matrizes, um pleno exercício de filosofia visual que demonstra o afastamento do autor às temáticas cinematográficas, abraçado a sua marginalização como poeta visual e eremita. Esta panóplia de excertos, clipes e formas narrativas não convencionais faz com que 3X3D termine numa incógnita. A beleza de Greenaway e a provocação visual de Pêra são deformados pela vaidade artística de Godard, que não faz uso do 3D como veículo da sua própria aura artística. Ao invés disso, funciona como insignificante acréscimo. Não é mais ou menos isso que os "artesãos" de Hollywood fazem?

 

Filme visualizado no IndieLisboa'14

 

Real.: Peter Greenaway, Edgar Pêra, Jean-Luc Godard / Int.: Nuno Melo, Carolina Amaral, Keith Davis, Leonor Keil

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:39
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13.4.14

Brincando aos políticos!

 

Até parece que Nanni Moretti envergou-se na politica, mas não, Viva La Libertà é um filme de Roberto Andò que apesar de possuir tantos elementos e referências ao cinema do referido realizador / actor de Caos Calmo ou Habemus Papam (e claro, La Stanza del Figlio: O Quarto do Filho) , não deve contudo ser-lhe retirado o mérito próprio.

 

 

Esta comédia nos leva a Enrico Oliveri (Toni Servillo), um secretario do principal partido da oposição, que é abalado por um constante estado de melancolia, por outras palavras uma iminente depressão. A sua solução foi desaparecer, não apenas da politica mas também da vida que conduzia. Perante tal repentino desaparecimento, o seu assessor, Andrea Bottini (Valerio Mastandrea), tenta solucionar a ausência em colocar o irmão gémeo de Oliveri, Giovanni Ernani, um filosofo bipolar que fora liberado do hospício, no seu lugar sem que ninguém aperceba. Porém este explosivo contacto  de loucura com a politica gera resultados surpreendentes, o partido nunca fora tão popular e tudo graças aos métodos pouco ortodoxos e à frontalidade de Giovanni.

 

 

A conhecida formula da "troca de papeis", tantas vezes imposta como matriz de diversas comédias populares, resulta aqui algo mais do que mero entretenimento passageiro, uma critica mordaz à politica em si, expondo a gradual distância entre os eleitores e os seus ditos políticos, a falta de interesse do primeiro e a negligência do segundo que origina uma relação frívola e desentendida. Contudo Viva La Libertà recria esse "se", uma afinidade crescente entre os dois, capaz de ilustrar momentos importantes e inéditos no seio politico como também o aparecimento de um Politica compreensível, directa e indizível na sua opinião.

 

 

Este retrato ilusório mas sugestivo é sustentado pelos seus "loucos", duas personagens idênticas a nível estético mas divergente quer na sua intelectualidade, afectuosidade e habilidade de se desemalharem nas respectivas situações, porém um inapto a nível sentimental o outro nem por isso, apenas constrangido pelo seu meio ambiente. Estes dois loucos que refiro são ambos interpretados por Toni Servillo, a estrela do primoroso La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino, que joga a dualidade a seu favor, não apenas auferindo personalidades divergentes ao espectador mas como também um desafio para o próprio actor. Para finalizar, Roberto Andò (que foi também responsável pelo argumento ao lado de Angelo Pasquini) nos oferece um final em aberto, conduzido sob uma aura satírica e sem rodeios.      

 

Filme de abertura da 7ª 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andò / Int.: Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi

 

 

Ver Também

La Grande Bellezza (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:38
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1.4.14

Dividido entre crenças!

 

Um telefilme de gema (produzido pela Arte France) que obteve um currículo semelhante a qualquer outra obra cinematográfica, integrando a programação de inúmeros festivais de cinema e chegando a possuir uma distribuição limitada nos EUA. Le Métis de Dieu remete-nos à singular história de Jean-Marie Lustiger (Laurent Lucas, Harry: Um Amigo ao Seu Dispor), filho de emigrante judeus polacos que se converteu ao catolicismo e com isso a vontade de servir a sua crença através de uma carreira clerical. Contudo ,nunca esquecendo as suas raízes judaicas sendo, mesmo com a nomeação a Arcebispo por parte do Papa João Paulo II (Aurélien Recoing, L'Vie D'Adèle), continuou a afirmar ser igualmente católico como judeu, algo que o próprio orgulhosamente comparava aos apóstolos de Cristo. Devido a esta dualidade, Jean-Marie Lustiger gerou vários inimigos em ambas as instituições religiosas no seu caminho a cardeal.

 

 

É uma viagem míope aos bastidores da Igreja Católica, mas não sendo essa a sua intenção, Le Métis de Dieu conserva-se como um filme de espírito audacioso sobre um homem dividido e comprometido à preservação da sua memória cultural. Como pano de fundo, servindo de arranque para esse confronto inerente, deparamo-nos com a disputa de Auchswitz e a renegação tardia da Igreja Católica em relação ao Holocausto. Ilan Duran Cohen é competente na sua direcção, mas não se consegue "desviar" de eventuais esquematizações, uma das fragilidades mais comuns dos filmes de teor biográfico.

 

 

Ainda assim, Le Métis de Dieu funciona não somente pela força do seu tema, surpreendente e inédita (quase desconhecida aliás), ou pelos pequenos e ousados ataques ao órgão hierárquico do Vaticano (provavelmente nunca mais veremos o Papa João Paulo II retratado desta forma), mas sim pelo desempenho e empenho de Laurent Lucas e, acima de tudo, recria em Jean-Marie todos os requisitos essenciais de um herói cinematográfico. Por fim, os pequenos laivos de humor que tornam a fita numa proposta cativante. A sua grande falha é um final apressado e forçadamente branqueador da imagem até então negra de João Paulo II.

 

Filme de encerramento do Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ilan Duran Cohen / Int.: Laurent Lucas, Aurélien Recoing, Audrey Dana

 

 

Ver Também

Die Lebenden (2012)

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:53
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22.3.14

Um urso chamado passado!

 

Vic (Pierrette Robitaille) é uma ex-presidiária de 61 anos a quem lhe fora devolvido a liberdade. Decidida a começar uma vida nova, ruma para as florestas de Quebec (Canadá) para iniciar um novo ciclo numa cabana isolada da "civilização propriamente dita" (a fim de evitar qualquer confrontação com o seu passado) ao lado da sua companheira e também ex-presidiária, Flo (Romane Bohringer).

 

 

Após a sétima obra, o canadiano cineasta Denis Côté estreia por fim no nosso circuito comercial com Vic+Flo Viram um Urso (titulo traduzido), aquele que é talvez o seu mais acessível produto desde então. Esta é uma história sobre conflituosidades para com o passado e as replicas destas para com os seus personagens, tudo manufacturando um conto de reintegração social onde o autor expõe e planifica uma visão quase de hipermetropia (eis um filme com uma certa obsessão pela estético dos planos gerais). A fotografia como também os cenários predominados por tons cinzentos instalam uma melancolia quer visual, quer narrativa, ambiente natural para com personagens de teor "trágico", complexas ao mesmo tempo que carrancudas, de árdua cativação e de uma natureza fria e despida de qualquer euforia vivente (intercalando por certas sequências entre "risos" e "brincadeiras" que nos acata como um cinismo alarmante para com o tom da fita).

 

 

Vic+Flo Viram um Urso é um filme difícil de agradar, aliás sente-se em toda a obra de Denis Côté uma aversão pelo espectador, a liberdade artística sem acréscimos nem justificações, a recusa pelos trilhos óbvios e usuais (nota que mesmo as personagens principais ser um casal "homossexual", em momento algum o autor demonstra ou repudia intimidade ou até mesmo sexualidade entre elas), mas mesmo assim como é o caso deste seu novo filme, sentimos a crescente afinidade para com estes a surgir.

 

 

O "urso" do titulo, um passado que vagueia e que ocasionalmente nos vem ao nosso encontro, sem aviso prévio, deixando assim a sua marca e presença. Sarcástico, isente de esperança nem apelo pelos seus personagens (Côté é psicótico nesse termo, nem ele possui compaixão pelas suas criações), Vic+Flo Viram um Urso poderá funcionar como um bilhete de incentivo a um autor e cinema reduzido e resistido graças a nichos "marginais".

 

Real.: Denis Côté / Int.: Pierrette Robitaille, Romane Bohringer, Marc-André Grondin

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:25
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21.3.14

Gordon Gecko é para meninos!

 

Primeiro de tudo, não confundam a interpretação de Leonardo DiCaprio com o filme em si, o actor é corpo e alma, figura corajosa que ilude um Calígula do século XX, glorificando-se e humilhando-se em tão intenso papel. Sim, pelo actor este The Wolf of Wall Street merece sem duvidas algumas as cinco estrelas, indiscutivelmente temos aqui um dos melhores desempenhos do ano e talvez na mais complexa personificação da sua carreira, porém existe uma camada cínica neste projecto arrojado e faustoso na forma como transgride o licito.

 

 

Martin Scorsese descodifica Jordan Belfort, um corrector da bolsa corrupto que fazia milhões anualmente graças a esquemas e branqueamentos financeiros. Era apelidado de O Lobo de Wall Street pelos seus colegas profissionais em derivação da sua insaciável sede de poder, luxúria e ganância. Mesmo sob dotes oratórios invejáveis, capaz de convencer um filho a vender a sua própria mãe, Belfort não será certamente um personagem com que seja fácil simpatizar, sabendo ainda mais que nele estão depositados todas características que levaram EUA aos seu "crash" financeiro. Mas como figura cinematográfica, deparamos aqui com uma nova variação de gangster que tão bem Scorsese consegue proporcionar no grande ecrã, invocando um tom descontraído, auto-biográfico como a sua obra referência, Goodfellas.

 

 

E sob esse signo, o realizador aproveita as suas influências na industria cinematográfica e compõe uma obra que evidencia enormes liberdades artísticas, ou seja The Wolf of Wall Street aspira a algo livre, uma produção pouco contestada durante a manufacturação. Existe algo de relacionando com as festas na mansão de The Great Gatsby e as festas de empresa deste The Wolf of Wall Street, e não só DiCaprio, é tudo uma questão de excessos. Adjectivo, esse que melhor transmitir o filme em si, excessivamente longo e integrado por excessiva liberdade autoral.

 

 

E no contexto desses excessos que Scorsese procura razões para que o espectador interage com o nosso Jordan Belfort, "pintando" um retrato malevolente até à medula para depois recorrer forçosamente ao seu actor para branquear a imagem desta má índole figura. O que vale é, e novamente "estragando-o" de elogios, Leonardo DiCaprio está a altura de tamanho desafio, que tal como a personagem que presta consegue-nos vender por momentos a imagem pretendida e de forma sorrateira. Sim, The Wolf of Wall Street é astuto na sua manipulação, e sobretudo confiante, já que Scorsese respira a euforia em cada plano que apresenta, quer na invocação da Babilónia moderna quer nas caricatas desventuras deste Jordan Belfort.

 

 

Voltando ao elenco, se DiCaprio é um deus entre os mortais, o secundário é todo ele suportado por desempenhos favoráveis e inéditos entre eles um Jonah Hill, que parece ter finalmente escapado ao seu ego de marca, a revelação Margot Robbie como uma loira que tenta sobressair do seu estereotipo, um expressivo Jean Dujardin e um cameo valioso de Matthew McConaughey como o mentor de Belfort. São elencos como estes que não deixam a bolsa quebra, uma sólida cooperação em prol de um devaneio ávido de Martin Scorsese. The Wolf of the Wall Street tinha tudo para ser uma obra-prima, mas preferiu ser o entretenimento persistente e a abordagem demasiado entusiástica de uma personalidade que será marcada pelas piores razões. Evitou de ser um pastelão, mas ficou-se pelos ditos excessos!  

 

"My name is Jordan Belfort. The year I turned 26, I made 49 million dollars, which really pissed me off because it was three shy of a million a week."

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Matthew McConaughey, Rob Reiner, P.J. Byrne, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Joanna Lumley

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:08
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14.3.14

Família! Corre no sangue!

 

A recriação cinematográfica da peça teatral de Tracy Letts funciona como teia de gerações e conflitos familiares, onde a morte é vista como a última paragem, o descanso eterno de uma vida atormentada e arrastada. Um funeral reúne uma família distante onde a matriarca Violet Weston (Meryl Streep) confronta os restantes membros congéneres a mirarem um "espelho" de imperfeições e de monstruosidades, intriga inconclusivas e difíceis de concluir que levarão não à união dos laços familiares mas o afastamento agravado destes.  

 

 

Um tributo à herança dramaturga de Tenessee Williams, August: Osage County é um leque de desempenhos imbatíveis onde cada prestação contribui para o crescendo do enredo, até atingir níveis insuportáveis de intensidade (a sequência do jantar é um forte "prato" de emoções), mas por um lado o argumento Tracy Letts parece satirizar a própria entidade de telenovela, culminando pequenas intrigas familiares, umas rebuscadas outras constantemente atropeladas que nunca em jeito algum deixarão o espectador em paz, até mesmo as pequenas pausas harmónicas ilustram um cínica capa pacifica.

 

 

Trata-se de um filme de actores, elevados a executores dos seus próprios destinos, mas para tal funcionar era necessário um excelente director de actores e nesse papel John Wells (The Company Men) cumpre o bem, melhor que planificar estruturalmente a respectiva obra. Claro que a tarefa foi facilitada pelo próprio empenho de Meryl Streep (será cliché elogia-la?), a mulher das "mil identidades", um perfeito camaleão de Hollywood. Ela é fria, aterradora, voluntariamente desequilibrada, a verdadeira drama queen de todas cenas que surge, e que bem que ela está. Como apoio, a actriz conta com as fortes participações de Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Julliane Nicholson e uma papel insólito de Benedict Cumberbatch (para quem julgava que ficaria reduzido a "slow speakers").

 

 

August: Osage County é uma escola de interpretação, imperada pelos actores que favorecem um espectáculo emocionalmente aguçado. Porém nem tudo é "rosas" no novo filme de John Wells, que mesmo demonstrando dote a coordenar o seu elenco, perde-se na construção artística do filme, por outras palavras, falta dinâmica na realização e menos dependência do trabalho das suas estrelas.

 

"Life is very long" T.S. Eliot

 

Real.: John Wells / Int.: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Margo Martindale, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Sam Shepard

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:16
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27.2.14

Montando e desmontando um Universo!

 

As peças de construção mais famosas do Mundo (e após 60 anos de existência continuam como um dos produtos de entretenimento mais vendidos globalmente), Lego, têm a sua aparição cinematográfica. Há um ano atrás, a notícia sobre a produção deste filme fazia temer o pior: uma Hollywood oportunista e sem criatividade e termos de produto. Bem, é melhor não falar desses pensamentos (basta revisitar outras linhas de brinquedos convertidas a filmes como Transformers e Batalha Naval para ter uma noção do "terror"). Contudo, após a visualização desta obra pode-se conferir que The Lego Movie é um "craque" entre os filmes baseados em brinquedos, talvez o melhor produzido até à data, uma panóplia colorida de humor simples, por vezes astuto e outras vezes através de gags físicos tecnicamente eficazes. É um entretenimento aconselhável para todas as idades, e nesse aspeto a nova obra de Phil Lord e Christopher Miller (a mesma dupla de Despicable Me) é um trunfo.

 

 

Mas o que mais me surpreendeu não foi a versatilidade do filme para as audiências, mas sim a sua auto-crítica, a forma como satiriza o seu próprio produto. The Lego Movie é assim um epigrama sobre o estereótipo e a homogeneização social e quotidiana, focando na manipulação dos Media até à implementação de um "correcto" estilo de vida (que filmes e músicas temos que obrigatoriamente gostar para sermos aceites na sociedade). Em termos mais metafóricos, o filme toca na falta de personalidade e senso livre que se vive em diversas cidades e outras comunidades cosmopolitas. E nada melhor que representar esses "venenos" sociais através dos bonecos Lego, figuras amareladas, replicadas, e fáceis de disfarçar pelos estereótipos sociais, étnicos, religiosos e profissionais. Obviamente toda esta mensagem, que é fortemente acentuada no início com uma sociedade fiel ao seu livro de instruções, é ligeiramente encaixada no subliminar da intriga e despida de qualquer acidez. Não existe aqui qualquer sinal de Tyler Durden e das suas anárquicas iniciativas.

 

 

Em suma: um misto de animação (não recomendado a epiléticos) com a acção real (a inserção destas sequências foi como uma espécie de cereja no topo do bolo em termos narrativos) que nos encoraja para o divertimento, para as referências e nalguns casos para despertar a criança em nós. The Lego Movie é assim uma proposta sedutora do cinema familiar e definitivamente a melhor interação entre uma linha de brinquedo e a Sétima Arte.

 

We are from the planet Duplo, and we're here to destroy you.”

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Chris Pratt, Will Arnett, Elizabeth Banks, Alison Brie, Morgan Freeman, Will Ferrell, Jonah Hill

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:21
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17.2.14

Na pista da Primavera Árabe!

 

Da maneira como A Estrada da Revolução inicia - escombros, sangue, gritos e uma assombração de um atentado - fazia-se prever mais uma cadeia "choque" tão fiel às manchetes sobre o estado actual do Médio Oriente e Norte de África dos mais variados noticiários. Face a tais imagens, o espectador ocidental facilmente se sente intrigado, revoltado por momentos, mas tal dissipa-se com o conforto das suas habitações e pela distância social ou simplesmente o afastamento geográfico de tais cenários desoladores e sanguinários. Para o jornalista Tiago Carrascos e o seus parceiros, João Fontes (repórter de imagem) e João Henriques (fotógrafo), o noticiário não era o suficiente. Vendo mais que somente rotinas passageiras para o individuo comum, o que o trio presencia é um movimento de tamanha relevância, não apenas para o Médio Oriente e Norte de África, mas também para o resto do Mundo. A Primavera Árabe, a manifestação contagiante do ecoar dos ideais que os portugueses parecem esquecer - o Povo é quem mais ordena - imposta nem que seja por via do sacrifício e do sangue derramado.

 

 

Curiosos em testemunhar de perto este fenómeno, os três portugueses seguem então na derradeira rota da Turquia até à Tunísia, passando por verdadeiros "campos de batalha" como a Síria e o Líbano, através de uma demanda por vias de transportes terrestres, com o intuito de se aproximarem à verdadeira essência da Primavera Árabe: as pessoas. Depois da exibição de violência, sublinhando a atmosfera pesada e infernal que se vive nestes "indesejados" cantos terrestres, A Estrada da Revolução parte numa outra perspectiva, a visão partilhada por estes três jornalistas; as pessoas, os seus ideais e convicções, a luta através de cânticos, o uso da tecnologia como o escape da censura ditada por regimes e por fim as histórias por detrás desses novos ventos que se avizinham.

 

 

Será pura coincidência a queda sucessiva dos diferentes líderes de tais nações? A Estrada da Revolução segue tal viagem por fragmentos, e ao contrário dos documentários de formato televisivo não cede à definição, apenas às imagens que explicitam testemunhos de coragem. E é nessa coragem, e a semelhança que encontramos em todas essas histórias, o elo que liga povos diferentes mas igualmente oprimidos. Cada um sob a sua abordagem, umas mais difíceis de aceitar pela cultura ocidental que outras, como por exemplo o abdicar dos próprios filhos (mártires) em prol da queda de governos antagonistas. Porém, aceitando ou não, existe algo de sentido neste retrato para o indivíduo português, mesmo que as situações não se comparem (ou 8 ou 80), Portugal necessitava da sua própria Primavera, o retorno dos velhos ideais do 25 de Abril que nunca se concretizaram por completo. Basta só assistir a luta quase interminável de um povo em atingir o seu próprio conceito de liberdade para depois testemunhar uma aceitação conformista de uma austeridade que revela a passos num novo género de Ditadura.

 

 

Deixando por agora este intervalo crónico nacionalista de jornal e regressando ao documentário. A Estrada da Revolução separa após os primeiros minutos dos lugares-comuns e da generalização utilizada nos telejornais e avança para um retrato humanista e íntimo a um dos movimentos que tem de tudo para se tornar num dos mais importantes do século XXI. Porém, a sua fraqueza como obra cinematográfica é que o filme de Dânia Lucas (narrado pelo actor Ivo Canelas) foi um fruto extraído de cerca de 200 horas de material gravado, sendo que a profundidade desejada não é devidamente atingida, prezando-se ainda assim o facto de um filme destes estar nas nossas salas, havendo aqui algo de muito actual e revolucionário. Não é coincidência a estreia nacional de A Estrada da Revolução, o nosso país precisa acordar, nem que seja seguir os exemplos (porém não devemos seguir à letra) dos outros!

 

Real.: Dânia Lucas / Int.: Tiago Carrasco, João Fontes, João Henriques

 

 

Ver Também

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:14
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16.1.14

A evolução do actor!

 

Welcome to the Dallas Buyers Club” afirma um Matthew McConaughey pálido, quase esquelético e … sim, maduro. Pois bem, já lá vão os tempos das comédias românticas ao lado de Kate Hudson e de Sarah Jessica Parker ou dos projectos formatados que só Hollywood tem o “orgulho” de apresentar. Os tempos agora são outros e McConaughey cresceu, não fisicamente, mas profissionalmente, o qual se confirma na sua prestação nestes últimos 3 anos. Começando por deixar de lado as propostas de foro comercial e acima de tudo concentrar em metamorfosear para os diferentes e desafiadores papéis que entretanto foram-lhe surgindo, o actor demonstra a sua ambição artística, a sua vontade acrescida em “apagar” uma carreira de trabalhos duvidosos e de prestações decepcionantes, regressando aos tempos em que fora considerado uma “revelação”.

 

 

Agora, cada vez mais próximo de vencer o Óscar de Melhor Actor, a confirmar pelo Globo de Ouro que recebeu na última gala, Matthew McConaughey encontra-se irreconhecível, não apenas pelo seu aspecto decadente mas pela forma como conduz este novo filme de Jean-Marc Vallée para uma espiral emocional, sem com isso afastar-se do eixo de ambiguidade que Dallas Buyers Club sempre balança ao invés de apostar na moralidade de “pancada”. O actor é surpreendentemente camaleónico quer a nível artístico, a exposição e a forma como subjuga em nome da interpretação, quer no seu sacrifício corporal. É esta a dedicação que faltava na carreira do actor, o empenho e a audácia de fugir à sua imagem de vedeta e sex symbol. Por ele e por Jared Leto, igualmente irreverente e travestido (sim, literalmente), Dallas Buyers Club merece a visualização, mais do que propriamente o filme em si.

 

 

Mesmo sob a limitação desses dois alicerces, Jean-Marc Vallée constrói uma obra corajosa, denunciadora e por vezes metafórica (a ligação entre o inicio e o desfecho indicia-se como uma filosofia “texana”), contudo perde-se por uma narrativa que soa episódica e uma Jennifer Gardner iludida de que integra uma comédia romântica. Sim, não é errado afirmar que Dallas Buyers Club sobrevive maioritariamente graças ao trabalho da dupla referida de actores, das suas composições como também da química que emanam. Porém acredito que em mãos mais audazes, esta obra seria decerto uma teia ácida sobre a homofobia, o preconceito em relação aos portadores de HIV e o “fascismo” como os interesses “duvidosos” das empresas farmacêuticas e da FDA (Food and Drug Administration), a entidade reguladora de drogas e alimentos.

 

 

Mas apesar das incursões e temáticas de Vallée (encarando que foi um filme que demorou cerca de 20 anos a sair do papel), a obra discursa a luta de um homem contra a sua doença, a busca pela derradeira cura e os diferentes obstáculos que atravessa para o conseguir, muito mais do que uma panfletária denúncia cinematográfica de um problema bem real que afecta milhões de norte-americanos. Baseado em factos verídicos!

 

“I've been looking for you, lone star.”

 

Real.: Jean-Marc Vallée / Int.: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Steve Zahn, Dennis O’Hare, Griffin Dunne

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:44
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26.12.13

Uma causa adolescente, não só …

 

Tendo em conta o sucesso mundial de The Hunger Games: Catching Fire nas bilheteiras, podemos afirmar que estamos perante um dos sólidos franchisings do século XXI, aquilo que os produtores haviam procurando para preencher os espaços deixados por Harry Potter e Twilight, ou seja no apelativo universo da literatura juvenil. A verdade é que neste segundo filme, baseado no respectivo livro da autoria de Suzanne Collins, é uma distopia metafórica, uma critica mordaz aos reality shows como meras distracções para a intervenção global.

 

 

Com uma "pitadinha" de Battle Royale, a popular e provocadora manga de Koushun Takami (gerou um incursão cinematográfica em 2000), The Hunger Games novamente nos remete a um mundo pós-apocalíptico, uma América dividida em distritos e regida por um Capitólio, por sua vez ditada por um opressor (e cada vez mais vampírico) presidente (Donald Sutherland). Para conseguir implantar o medo e a subjugação dos diferentes distritos perante a capital, é decretado os Hunger Games - Jogos da Fome, uma variação de gladiadores modernos e pueris, dois jovens de cada distrito em luta pela sua sobrevivência. Neste novo capitulo os níveis de ambição são postas na ribalta, quer na produção, quer a nível de argumento, já que a intriga exposta por Suzanne Collins é propicia a tal. Aqui os jogos são outros, um massacre que a certa altura é apelidado, onde os vencedores das anteriores edições dos Jogos da Fome são convocados e colocados de novo na arena, o qual tentam acima de tudo evitar. No centro desta história encontramos a já ídolo adolescente, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), que é a rebeldia e a revolta em forma de gente. Após ter vencido a edição anterior juntamente com Peeta (Josh Hutcherson), o qual ambos falsearam um romance, é agora utilizada como propaganda da supremacia do próprio Capitólio, mas durante a sua digressão como estrela sobrevivente, esta observa no diferentes distritos as iminências de uma rebelião, fazendo dela um símbolo de causa.

 

 

Ao contrario do oco e politicamente incorrecto Twilight (diga-se por passagem que não envelhece saudavelmente), The Hunger Games é pura reflexão para os adolescentes de hoje, e nos tempos difíceis que se vive uma revolta, uma preservação de ideais, são temáticas sempre presentes no espírito jovem, mais do que qualquer outra. Por isso é fácil adivinhar o porquê a obra literária de Suzanne Collins agrada uma faixa etária, porque é a juventude o centro de uma manifestação revolucionária, um grito de revolta de uma geração desiludida com a promessa feitas, mas incumpridas pelas anteriores. Porém é verdade que tais ingredientes são explosivos em mentes e vontades convictas e imbatíveis (aliás uma das características da adolescência é destes julgarem que nada lhes acontece), mas é preferível tal luta inerente do que a implantação de um mundo "acorrentado" à luxúria e à estupidificação social, onde a mediocridade é sempre motivo para aplausos.

 

 

Enfim, como filme, esta adaptação de Francis Lawrence (Constantine, Water for Elephants) se resume a um dos mais importantes blockbusters do anos, e talvez na sua categoria a mais impressionante vista em pleno 2013. É uma variação mais pretensiosa, tecnicamente aperfeiçoada, mas preocupada com a incursão dos ideais trazidos pelos escritos de Collins, mais do que a própria distopia envolta, e com as mensagens subliminares, criticas a uma sociedade que tão bem conhecemos, intactas. Depois disto temos um elenco que "joga a seu favor", onde a aquisição de Philip Seymour Hoffman se revela num must e que Stanley Tucci continua a cativar num papel à sua medida, o desinformado entertainer. É somente pena que neste quadro, uma ou duas personagens encontram-se inteiramente … a mais, nomeadamente Lenny Kravitz (mais descartável que nunca) e um insonso Liam Hemsworth.

 

 

O final não deixa duvidas, mais capítulos virão e a fasquia encontra-se mais alta que nunca. Esperemos sim, que se volte a cumprir tais promessas já que Catching Fire conseguiu verdadeiramente contornar o seu histerismo inicial e proporcionar aquilo que aparentemente parecia rebuscado em cinema mais que adolescente. Superior ao primeiro, sem duvidas!

 

"People are looking to you, Katniss. You've given them an opportunity. They just have to be brave enough to take it."

 

Real.: Francis Lawrence / Int.: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Toby Jones, Willow Shields, Sam Claflin, Jena Malone, Amanda Plummer

 

Ver também

The Hunger Games (2012)

Battle Royale (2000)

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:55
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5.12.13
5.12.13

Congelar um legado!

 

O cinema de animação parece cada vez mais contagiado com a acção real, não no sentido gráfico mas sim na própria condução narrativa como também na planificação. No caso de Frozen, a nova aposta da Disney no formato de CGI, o plano-sequência de todo o vilarejo é um dos exemplos notáveis dessa hibridez intrínseca.

 

 

Inspirado no tradicional conto “A Rainha das Neves” de Hans Christian Anderson, Frozen é longe da sua sofisticação visual, um regresso à velha Disney, o ambiente de conto-de-fadas, o universo das princesas, a desfrutação da incansável busca pelo “amor verdadeiro” e as canções melódicas que marcam a narrativa. Eis o puro modelo costumado do estúdio que não só causa nostalgia como também remete-nos para os lugares-comuns da nossa infância cinematográfica. Todavia, se por um lado Frozen é um regresso ao velho estilo Walt Disney, ele é também uma “conformação” de um estúdio que concretizou na sua última incursão (Wreck-It Ralph) tamanha originalidade.

 

 

Trata-se de uma obra ausente de irreverência até ao último sopro, onde um twist de “para-quedas” (mas tão bem inserido) vem contrariar a tendência mais vintage do sistema. Uma rebeldia moral que é em simultâneo a preservação dos códigos familiares. Códigos, esses que nos levam ao amor fraternal que é tão pouco explorado no catálogo Disney. Tal afecto serve de cenário animação graficamente exuberante, "catita" em termos miúdos e com um sonoplastia sedutora, mesmo que os momentos musicais não sejam de todo o melhor feito naquelas bandas.

 

 

Por fim, tal como as diversas animações que atingem o nosso mercado actualmente, Frozen aposta maioritariamente nos seus personagens secundários, nomeadamente em Olaf (com voz de Josh Gad), um boneco-de-neve falante que confere alguns dos momentos mais divertidos e hilariantes de todo o enredo. Mas verdade seja dita, a sua composição como personagem algo sidekick, o triunfo cómico da fita, já fora vista e revista em muitas outras obras, mas nada impede o seu “estado de graça”.

 

 

Admitimos que Frozen – O Reino do Gelo é uma preciosidade para os mais jovens e uma nostalgia para o espectador mais graúdo, mas é um acto de segurança dos estúdios da Disney no que requer a apostas animadas, mesmo que seja belo e trabalhado em termos técnicos. E voltando ao ponto de partida, sabendo tratar-se de uma animação, Jennifer Lee e Chris Buck o compuseram com uma noção narrativa e planificada de cinema notável.

 

Some people are worth melting for.”

 

Real.: Chris Buck, Jennifer Lee / Int.: Kristen Bell, Jonathan Groff, Josh Gad, Idina Menzel



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:55
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24.11.13

Um lago de suspeitas e crimes passionais!

 

O autor Alain Guiraudie aborda uma praia fluvial de nudistas como um escape à realidade quotidiana, todo este cenário esboça um "mundo" alternativo e marginal, onde a homossexualidade parece ser o segredo de cada um, a força motora para as suas necessidades mais obscuras. Um mosaico que gradualmente vai se construindo pela sistematização dos seus personagens, deparando com um singelo "when boys meet girl" ou no caso de L'Inconnu du Lac (O Desconhecido do Lago), "when boys meet boys".

 

 

A intriga centra-se em Franck (Pierre Deladonchamps), um jovem esbelto que frequenta estas ditas praias de forma rotineira, em constante busca de prazer e da integração social. Contudo durante as suas aventuras neste local “guiraudiano”, Franck adquire um interesse romântico no misterioso Michel (Christophe Paou), que é para além de tudo um homem perigoso, capaz de tudo para atingir os seus objectivos.

 

 

Obtendo uma fixação envolvente e persistente como filme de obsessões, é inegável não reconhecer o mérito de Alain Guiraudie na concretização de algum mise-en scené ou da manipulação de luz que contagia algumas das valiosas sequências, como também a aptidão de construir um trio de relações vertiginoso que nas proximidades finais, se converte numa derradeira viagem emocional. As interpretações dão o melhor de si, mesmo que o destaque caia no secundário Patrick D'Assumção, um homem de carácter assexuado neste cenário de luxuria que é servido como uma ponte de conexão entre aquela praia (difícil de abandonar) e o mundo fora-de-campo onde os peões desta fita estão determinados a interagir invisivelmente.

 

 

L'Inconnu du Lac é um dos filmes mais explícitos, naturalistas e arrojado na maneira como retrata a sexualidade dos seus personagens, o que poderá facilmente cair no “indigno” estereótipo de “militância homossexual”. Devido a isso, com adição da crueza com que simula as sequências de sexo e a cumplicidade dos actores nos momentos mais íntimos, L'Inconnu du Lac de Alain Guiraudie será motivo de repudia para os espectadores menos tolerantes em questões de orientação sexual. Eis uma obra singular, atmosférica, provocação de um certo “sabor” noir, que tem como senão a personagem de Jérôme Chappatte, o inspector intrusivo deste mundo oculto, que tem tanto de ridículo como de inverosimilhante. 

 

Real.: Alain Guiraudie / Int.: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick D'Assumção, Jérôme Chappatte




7/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:03
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21.11.13

Todos querem conectar!

 

Disconnect de Henry Alex Rubin (o mesmo realizador do documentário de 2005 nomeado ao Óscar, Murderball), propõe uma viagem analítica aos perigos e consequências das novas tecnologias no quotidiano de cada um (os perigos da internet para ser mais especifico), mas ao invés disso concentra-se como um retrato à falta de conexão entre as pessoas.

 

 

Iniciada como a esperada obra que havia sido anunciada, Disconnect nos tece uma narrativa mosaico, quase digna a estilo Iñarritu, em que cada uma das intrigas dadas explora diversos factores e artifícios dessa mesma tecnologia, ora o entretenimento adulto visto como um escape à realidade, ao mesmo tempo visado como um negócio obscuro e de exploração, a dependência das redes sociais e as influências nas relações humanas (há espaços para abordar o cyberbullying) ou até mesmo a própria fraude cibernética. São vários os personagens apresentados e as situações decorridas em simultâneo que em momento algum deixarão o espectador aborrecido ou incrédulo perante a potencialidade dramática destas historias, servindo obviamente com excelentes desempenhos por todo os envolvidos.

 

 

Mas o verdadeiro "click" nesta incursão sobre os perigos da internet e da sua gradual dominância na rotina de cada um, surge ironicamente na incutida ligação dos seus personagens, no contacto entre elas, na reacção que estas manifestações geram, a perda dos teclados, do touch, do ecrã e a rede online, tudo em prol de uma mensagem mais subtil e obvia; afinal há interacção aqui.  E é nesse preciso momento, Disconnect se transforma em algo mais simples que o pressuposto, um drama competente de incrível sensibilidade e de ligação terna, claro que existe aqui alguns moralismos "bonitinhos" de se apresentar, e uma sequência final retrospectiva tão sincronizada e ritmada desde Magnólia de Paul Thomas Anderson. Não sendo claramente uma obra que ficará na memória e que se vingará dentro da sua formula, Disconnect é mesmo assim um retrato a ser visto. Porque os humanos sempre sentirão a necessidade de "tocar".

 

Real.: Henry Alex Rubin / Int.: Jason Bateman, Hope Davis, Frank Grillo, Michael Nyqvist, Paula Patton, Andrea Riseborough, Alexander Skarsgård, Max Thieriot



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:48
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4.11.13

Os pensadores livres são a verdadeira ameaça dos regimes!

 

Parece mentira mas é verdade, o autor Mohammad Rasoulof viu o seu passaporte a ser confiscado pelas autoridades iranianas em Setembro de 2013, enquanto este se preparava para apresentar o seu novo filme, Manuscripts don't Burn, no circuito festivo (nomeadamente o DocLisboa, o qual encontrava-se apontado como o Presidente de Júri). Por sua vez o filme em questão nos remete à história de um escritor iraniano que após escrever as suas memórias, tristes eventos que denunciam um governo opressivo e intolerante, é impedido de sair do país, chegando mesmo a temer pela sua própria vida. Este é um daqueles casos em que a ficção se funde com a realidade, contudo há que salientar a coragem de um realizador em acima de tudo divulgar a sua obra, um filme-denúncia que devidos às actuais ocorrências, usufrui um carácter urgente. Uma intervenção com os seus custos, Manuscripts don't Burn funciona como um folhetim clandestino, que nega descanso à medida que adquire uma posição de guerrilha e de contexto.

 

 

A nova obra de Rasoulof utiliza a realidade dos seus factos não somente como referência argumentativa, mas como material moldável enquanto delineia uma "caça às bruxas" em pleno século XX. Mohammad Rasoulof apresenta-se como um realizador de "punho forte" na  sua demanda pela verdade, algumas das sequências, incluindo as de torturas, possuem um peso emocional que transportam o espectador em climas inerentes de censura e opressão aos diferentes níveis. Contudo o autor ainda demonstra irreverência em humanizar as suas figuras antagónicas, incutindo-as aos dilemas e as questões de consciência que remeterão a narrativa a ironias metafóricas e de carácter quase moralista.

 

 

Mas onde o filme realmente enfraquece é na sua composição de panfleto interventivo que condiciona e muito a interpretação dos seus actores como também os diálogos que proclama, sendo estes a autêntica influência documental deste Manuscripts don't Burn. Porém a questão deste gesto ético e de tremenda coragem ecoa no final da projecção, será que a obra de Mohammad Rasoulof consegue sobreviver fora do contexto de filme-denúncia?

 

Filme de encerramento do DocLisboa'13

 

Real.: Mohammad Rasoulof / Int.: "os nomes do elenco e envolvidos foram ocultados de forma a proteger os demais"



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:51
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