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Título
Take
13.4.14

Brincando aos políticos!

 

Até parece que Nanni Moretti envergou-se na politica, mas não, Viva La Libertà é um filme de Roberto Andò que apesar de possuir tantos elementos e referências ao cinema do referido realizador / actor de Caos Calmo ou Habemus Papam (e claro, La Stanza del Figlio: O Quarto do Filho) , não deve contudo ser-lhe retirado o mérito próprio.

 

 

Esta comédia nos leva a Enrico Oliveri (Toni Servillo), um secretario do principal partido da oposição, que é abalado por um constante estado de melancolia, por outras palavras uma iminente depressão. A sua solução foi desaparecer, não apenas da politica mas também da vida que conduzia. Perante tal repentino desaparecimento, o seu assessor, Andrea Bottini (Valerio Mastandrea), tenta solucionar a ausência em colocar o irmão gémeo de Oliveri, Giovanni Ernani, um filosofo bipolar que fora liberado do hospício, no seu lugar sem que ninguém aperceba. Porém este explosivo contacto  de loucura com a politica gera resultados surpreendentes, o partido nunca fora tão popular e tudo graças aos métodos pouco ortodoxos e à frontalidade de Giovanni.

 

 

A conhecida formula da "troca de papeis", tantas vezes imposta como matriz de diversas comédias populares, resulta aqui algo mais do que mero entretenimento passageiro, uma critica mordaz à politica em si, expondo a gradual distância entre os eleitores e os seus ditos políticos, a falta de interesse do primeiro e a negligência do segundo que origina uma relação frívola e desentendida. Contudo Viva La Libertà recria esse "se", uma afinidade crescente entre os dois, capaz de ilustrar momentos importantes e inéditos no seio politico como também o aparecimento de um Politica compreensível, directa e indizível na sua opinião.

 

 

Este retrato ilusório mas sugestivo é sustentado pelos seus "loucos", duas personagens idênticas a nível estético mas divergente quer na sua intelectualidade, afectuosidade e habilidade de se desemalharem nas respectivas situações, porém um inapto a nível sentimental o outro nem por isso, apenas constrangido pelo seu meio ambiente. Estes dois loucos que refiro são ambos interpretados por Toni Servillo, a estrela do primoroso La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino, que joga a dualidade a seu favor, não apenas auferindo personalidades divergentes ao espectador mas como também um desafio para o próprio actor. Para finalizar, Roberto Andò (que foi também responsável pelo argumento ao lado de Angelo Pasquini) nos oferece um final em aberto, conduzido sob uma aura satírica e sem rodeios.      

 

Filme de abertura da 7ª 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andò / Int.: Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi

 

 

Ver Também

La Grande Bellezza (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:38
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1.4.14

Dividido entre crenças!

 

Um telefilme de gema (produzido pela Arte France) que obteve um currículo semelhante a qualquer outra obra cinematográfica, integrando a programação de inúmeros festivais de cinema e chegando a possuir uma distribuição limitada nos EUA. Le Métis de Dieu remete-nos à singular história de Jean-Marie Lustiger (Laurent Lucas, Harry: Um Amigo ao Seu Dispor), filho de emigrante judeus polacos que se converteu ao catolicismo e com isso a vontade de servir a sua crença através de uma carreira clerical. Contudo ,nunca esquecendo as suas raízes judaicas sendo, mesmo com a nomeação a Arcebispo por parte do Papa João Paulo II (Aurélien Recoing, L'Vie D'Adèle), continuou a afirmar ser igualmente católico como judeu, algo que o próprio orgulhosamente comparava aos apóstolos de Cristo. Devido a esta dualidade, Jean-Marie Lustiger gerou vários inimigos em ambas as instituições religiosas no seu caminho a cardeal.

 

 

É uma viagem míope aos bastidores da Igreja Católica, mas não sendo essa a sua intenção, Le Métis de Dieu conserva-se como um filme de espírito audacioso sobre um homem dividido e comprometido à preservação da sua memória cultural. Como pano de fundo, servindo de arranque para esse confronto inerente, deparamo-nos com a disputa de Auchswitz e a renegação tardia da Igreja Católica em relação ao Holocausto. Ilan Duran Cohen é competente na sua direcção, mas não se consegue "desviar" de eventuais esquematizações, uma das fragilidades mais comuns dos filmes de teor biográfico.

 

 

Ainda assim, Le Métis de Dieu funciona não somente pela força do seu tema, surpreendente e inédita (quase desconhecida aliás), ou pelos pequenos e ousados ataques ao órgão hierárquico do Vaticano (provavelmente nunca mais veremos o Papa João Paulo II retratado desta forma), mas sim pelo desempenho e empenho de Laurent Lucas e, acima de tudo, recria em Jean-Marie todos os requisitos essenciais de um herói cinematográfico. Por fim, os pequenos laivos de humor que tornam a fita numa proposta cativante. A sua grande falha é um final apressado e forçadamente branqueador da imagem até então negra de João Paulo II.

 

Filme de encerramento do Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ilan Duran Cohen / Int.: Laurent Lucas, Aurélien Recoing, Audrey Dana

 

 

Ver Também

Die Lebenden (2012)

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:53
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22.3.14

Um urso chamado passado!

 

Vic (Pierrette Robitaille) é uma ex-presidiária de 61 anos a quem lhe fora devolvido a liberdade. Decidida a começar uma vida nova, ruma para as florestas de Quebec (Canadá) para iniciar um novo ciclo numa cabana isolada da "civilização propriamente dita" (a fim de evitar qualquer confrontação com o seu passado) ao lado da sua companheira e também ex-presidiária, Flo (Romane Bohringer).

 

 

Após a sétima obra, o canadiano cineasta Denis Côté estreia por fim no nosso circuito comercial com Vic+Flo Viram um Urso (titulo traduzido), aquele que é talvez o seu mais acessível produto desde então. Esta é uma história sobre conflituosidades para com o passado e as replicas destas para com os seus personagens, tudo manufacturando um conto de reintegração social onde o autor expõe e planifica uma visão quase de hipermetropia (eis um filme com uma certa obsessão pela estético dos planos gerais). A fotografia como também os cenários predominados por tons cinzentos instalam uma melancolia quer visual, quer narrativa, ambiente natural para com personagens de teor "trágico", complexas ao mesmo tempo que carrancudas, de árdua cativação e de uma natureza fria e despida de qualquer euforia vivente (intercalando por certas sequências entre "risos" e "brincadeiras" que nos acata como um cinismo alarmante para com o tom da fita).

 

 

Vic+Flo Viram um Urso é um filme difícil de agradar, aliás sente-se em toda a obra de Denis Côté uma aversão pelo espectador, a liberdade artística sem acréscimos nem justificações, a recusa pelos trilhos óbvios e usuais (nota que mesmo as personagens principais ser um casal "homossexual", em momento algum o autor demonstra ou repudia intimidade ou até mesmo sexualidade entre elas), mas mesmo assim como é o caso deste seu novo filme, sentimos a crescente afinidade para com estes a surgir.

 

 

O "urso" do titulo, um passado que vagueia e que ocasionalmente nos vem ao nosso encontro, sem aviso prévio, deixando assim a sua marca e presença. Sarcástico, isente de esperança nem apelo pelos seus personagens (Côté é psicótico nesse termo, nem ele possui compaixão pelas suas criações), Vic+Flo Viram um Urso poderá funcionar como um bilhete de incentivo a um autor e cinema reduzido e resistido graças a nichos "marginais".

 

Real.: Denis Côté / Int.: Pierrette Robitaille, Romane Bohringer, Marc-André Grondin

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:25
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21.3.14

Gordon Gecko é para meninos!

 

Primeiro de tudo, não confundam a interpretação de Leonardo DiCaprio com o filme em si, o actor é corpo e alma, figura corajosa que ilude um Calígula do século XX, glorificando-se e humilhando-se em tão intenso papel. Sim, pelo actor este The Wolf of Wall Street merece sem duvidas algumas as cinco estrelas, indiscutivelmente temos aqui um dos melhores desempenhos do ano e talvez na mais complexa personificação da sua carreira, porém existe uma camada cínica neste projecto arrojado e faustoso na forma como transgride o licito.

 

 

Martin Scorsese descodifica Jordan Belfort, um corrector da bolsa corrupto que fazia milhões anualmente graças a esquemas e branqueamentos financeiros. Era apelidado de O Lobo de Wall Street pelos seus colegas profissionais em derivação da sua insaciável sede de poder, luxúria e ganância. Mesmo sob dotes oratórios invejáveis, capaz de convencer um filho a vender a sua própria mãe, Belfort não será certamente um personagem com que seja fácil simpatizar, sabendo ainda mais que nele estão depositados todas características que levaram EUA aos seu "crash" financeiro. Mas como figura cinematográfica, deparamos aqui com uma nova variação de gangster que tão bem Scorsese consegue proporcionar no grande ecrã, invocando um tom descontraído, auto-biográfico como a sua obra referência, Goodfellas.

 

 

E sob esse signo, o realizador aproveita as suas influências na industria cinematográfica e compõe uma obra que evidencia enormes liberdades artísticas, ou seja The Wolf of Wall Street aspira a algo livre, uma produção pouco contestada durante a manufacturação. Existe algo de relacionando com as festas na mansão de The Great Gatsby e as festas de empresa deste The Wolf of Wall Street, e não só DiCaprio, é tudo uma questão de excessos. Adjectivo, esse que melhor transmitir o filme em si, excessivamente longo e integrado por excessiva liberdade autoral.

 

 

E no contexto desses excessos que Scorsese procura razões para que o espectador interage com o nosso Jordan Belfort, "pintando" um retrato malevolente até à medula para depois recorrer forçosamente ao seu actor para branquear a imagem desta má índole figura. O que vale é, e novamente "estragando-o" de elogios, Leonardo DiCaprio está a altura de tamanho desafio, que tal como a personagem que presta consegue-nos vender por momentos a imagem pretendida e de forma sorrateira. Sim, The Wolf of Wall Street é astuto na sua manipulação, e sobretudo confiante, já que Scorsese respira a euforia em cada plano que apresenta, quer na invocação da Babilónia moderna quer nas caricatas desventuras deste Jordan Belfort.

 

 

Voltando ao elenco, se DiCaprio é um deus entre os mortais, o secundário é todo ele suportado por desempenhos favoráveis e inéditos entre eles um Jonah Hill, que parece ter finalmente escapado ao seu ego de marca, a revelação Margot Robbie como uma loira que tenta sobressair do seu estereotipo, um expressivo Jean Dujardin e um cameo valioso de Matthew McConaughey como o mentor de Belfort. São elencos como estes que não deixam a bolsa quebra, uma sólida cooperação em prol de um devaneio ávido de Martin Scorsese. The Wolf of the Wall Street tinha tudo para ser uma obra-prima, mas preferiu ser o entretenimento persistente e a abordagem demasiado entusiástica de uma personalidade que será marcada pelas piores razões. Evitou de ser um pastelão, mas ficou-se pelos ditos excessos!  

 

"My name is Jordan Belfort. The year I turned 26, I made 49 million dollars, which really pissed me off because it was three shy of a million a week."

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Matthew McConaughey, Rob Reiner, P.J. Byrne, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Joanna Lumley

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:08
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14.3.14

Família! Corre no sangue!

 

A recriação cinematográfica da peça teatral de Tracy Letts funciona como teia de gerações e conflitos familiares, onde a morte é vista como a última paragem, o descanso eterno de uma vida atormentada e arrastada. Um funeral reúne uma família distante onde a matriarca Violet Weston (Meryl Streep) confronta os restantes membros congéneres a mirarem um "espelho" de imperfeições e de monstruosidades, intriga inconclusivas e difíceis de concluir que levarão não à união dos laços familiares mas o afastamento agravado destes.  

 

 

Um tributo à herança dramaturga de Tenessee Williams, August: Osage County é um leque de desempenhos imbatíveis onde cada prestação contribui para o crescendo do enredo, até atingir níveis insuportáveis de intensidade (a sequência do jantar é um forte "prato" de emoções), mas por um lado o argumento Tracy Letts parece satirizar a própria entidade de telenovela, culminando pequenas intrigas familiares, umas rebuscadas outras constantemente atropeladas que nunca em jeito algum deixarão o espectador em paz, até mesmo as pequenas pausas harmónicas ilustram um cínica capa pacifica.

 

 

Trata-se de um filme de actores, elevados a executores dos seus próprios destinos, mas para tal funcionar era necessário um excelente director de actores e nesse papel John Wells (The Company Men) cumpre o bem, melhor que planificar estruturalmente a respectiva obra. Claro que a tarefa foi facilitada pelo próprio empenho de Meryl Streep (será cliché elogia-la?), a mulher das "mil identidades", um perfeito camaleão de Hollywood. Ela é fria, aterradora, voluntariamente desequilibrada, a verdadeira drama queen de todas cenas que surge, e que bem que ela está. Como apoio, a actriz conta com as fortes participações de Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Julliane Nicholson e uma papel insólito de Benedict Cumberbatch (para quem julgava que ficaria reduzido a "slow speakers").

 

 

August: Osage County é uma escola de interpretação, imperada pelos actores que favorecem um espectáculo emocionalmente aguçado. Porém nem tudo é "rosas" no novo filme de John Wells, que mesmo demonstrando dote a coordenar o seu elenco, perde-se na construção artística do filme, por outras palavras, falta dinâmica na realização e menos dependência do trabalho das suas estrelas.

 

"Life is very long" T.S. Eliot

 

Real.: John Wells / Int.: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Margo Martindale, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Sam Shepard

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:16
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27.2.14

Montando e desmontando um Universo!

 

As peças de construção mais famosas do Mundo (e após 60 anos de existência continuam como um dos produtos de entretenimento mais vendidos globalmente), Lego, têm a sua aparição cinematográfica. Há um ano atrás, a notícia sobre a produção deste filme fazia temer o pior: uma Hollywood oportunista e sem criatividade e termos de produto. Bem, é melhor não falar desses pensamentos (basta revisitar outras linhas de brinquedos convertidas a filmes como Transformers e Batalha Naval para ter uma noção do "terror"). Contudo, após a visualização desta obra pode-se conferir que The Lego Movie é um "craque" entre os filmes baseados em brinquedos, talvez o melhor produzido até à data, uma panóplia colorida de humor simples, por vezes astuto e outras vezes através de gags físicos tecnicamente eficazes. É um entretenimento aconselhável para todas as idades, e nesse aspeto a nova obra de Phil Lord e Christopher Miller (a mesma dupla de Despicable Me) é um trunfo.

 

 

Mas o que mais me surpreendeu não foi a versatilidade do filme para as audiências, mas sim a sua auto-crítica, a forma como satiriza o seu próprio produto. The Lego Movie é assim um epigrama sobre o estereótipo e a homogeneização social e quotidiana, focando na manipulação dos Media até à implementação de um "correcto" estilo de vida (que filmes e músicas temos que obrigatoriamente gostar para sermos aceites na sociedade). Em termos mais metafóricos, o filme toca na falta de personalidade e senso livre que se vive em diversas cidades e outras comunidades cosmopolitas. E nada melhor que representar esses "venenos" sociais através dos bonecos Lego, figuras amareladas, replicadas, e fáceis de disfarçar pelos estereótipos sociais, étnicos, religiosos e profissionais. Obviamente toda esta mensagem, que é fortemente acentuada no início com uma sociedade fiel ao seu livro de instruções, é ligeiramente encaixada no subliminar da intriga e despida de qualquer acidez. Não existe aqui qualquer sinal de Tyler Durden e das suas anárquicas iniciativas.

 

 

Em suma: um misto de animação (não recomendado a epiléticos) com a acção real (a inserção destas sequências foi como uma espécie de cereja no topo do bolo em termos narrativos) que nos encoraja para o divertimento, para as referências e nalguns casos para despertar a criança em nós. The Lego Movie é assim uma proposta sedutora do cinema familiar e definitivamente a melhor interação entre uma linha de brinquedo e a Sétima Arte.

 

We are from the planet Duplo, and we're here to destroy you.”

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Chris Pratt, Will Arnett, Elizabeth Banks, Alison Brie, Morgan Freeman, Will Ferrell, Jonah Hill

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:21
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17.2.14

Na pista da Primavera Árabe!

 

Da maneira como A Estrada da Revolução inicia - escombros, sangue, gritos e uma assombração de um atentado - fazia-se prever mais uma cadeia "choque" tão fiel às manchetes sobre o estado actual do Médio Oriente e Norte de África dos mais variados noticiários. Face a tais imagens, o espectador ocidental facilmente se sente intrigado, revoltado por momentos, mas tal dissipa-se com o conforto das suas habitações e pela distância social ou simplesmente o afastamento geográfico de tais cenários desoladores e sanguinários. Para o jornalista Tiago Carrascos e o seus parceiros, João Fontes (repórter de imagem) e João Henriques (fotógrafo), o noticiário não era o suficiente. Vendo mais que somente rotinas passageiras para o individuo comum, o que o trio presencia é um movimento de tamanha relevância, não apenas para o Médio Oriente e Norte de África, mas também para o resto do Mundo. A Primavera Árabe, a manifestação contagiante do ecoar dos ideais que os portugueses parecem esquecer - o Povo é quem mais ordena - imposta nem que seja por via do sacrifício e do sangue derramado.

 

 

Curiosos em testemunhar de perto este fenómeno, os três portugueses seguem então na derradeira rota da Turquia até à Tunísia, passando por verdadeiros "campos de batalha" como a Síria e o Líbano, através de uma demanda por vias de transportes terrestres, com o intuito de se aproximarem à verdadeira essência da Primavera Árabe: as pessoas. Depois da exibição de violência, sublinhando a atmosfera pesada e infernal que se vive nestes "indesejados" cantos terrestres, A Estrada da Revolução parte numa outra perspectiva, a visão partilhada por estes três jornalistas; as pessoas, os seus ideais e convicções, a luta através de cânticos, o uso da tecnologia como o escape da censura ditada por regimes e por fim as histórias por detrás desses novos ventos que se avizinham.

 

 

Será pura coincidência a queda sucessiva dos diferentes líderes de tais nações? A Estrada da Revolução segue tal viagem por fragmentos, e ao contrário dos documentários de formato televisivo não cede à definição, apenas às imagens que explicitam testemunhos de coragem. E é nessa coragem, e a semelhança que encontramos em todas essas histórias, o elo que liga povos diferentes mas igualmente oprimidos. Cada um sob a sua abordagem, umas mais difíceis de aceitar pela cultura ocidental que outras, como por exemplo o abdicar dos próprios filhos (mártires) em prol da queda de governos antagonistas. Porém, aceitando ou não, existe algo de sentido neste retrato para o indivíduo português, mesmo que as situações não se comparem (ou 8 ou 80), Portugal necessitava da sua própria Primavera, o retorno dos velhos ideais do 25 de Abril que nunca se concretizaram por completo. Basta só assistir a luta quase interminável de um povo em atingir o seu próprio conceito de liberdade para depois testemunhar uma aceitação conformista de uma austeridade que revela a passos num novo género de Ditadura.

 

 

Deixando por agora este intervalo crónico nacionalista de jornal e regressando ao documentário. A Estrada da Revolução separa após os primeiros minutos dos lugares-comuns e da generalização utilizada nos telejornais e avança para um retrato humanista e íntimo a um dos movimentos que tem de tudo para se tornar num dos mais importantes do século XXI. Porém, a sua fraqueza como obra cinematográfica é que o filme de Dânia Lucas (narrado pelo actor Ivo Canelas) foi um fruto extraído de cerca de 200 horas de material gravado, sendo que a profundidade desejada não é devidamente atingida, prezando-se ainda assim o facto de um filme destes estar nas nossas salas, havendo aqui algo de muito actual e revolucionário. Não é coincidência a estreia nacional de A Estrada da Revolução, o nosso país precisa acordar, nem que seja seguir os exemplos (porém não devemos seguir à letra) dos outros!

 

Real.: Dânia Lucas / Int.: Tiago Carrasco, João Fontes, João Henriques

 

 

Ver Também

Estreia da Semana: A Estrada da Revolução, Acompanhando a Mudança!

A Estrada da Revolução: Viagem pelo Médio Oriente

Primavera Árabe através de portugueses vence Prémio do Clube de Jornalistas!

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:14
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16.1.14

A evolução do actor!

 

Welcome to the Dallas Buyers Club” afirma um Matthew McConaughey pálido, quase esquelético e … sim, maduro. Pois bem, já lá vão os tempos das comédias românticas ao lado de Kate Hudson e de Sarah Jessica Parker ou dos projectos formatados que só Hollywood tem o “orgulho” de apresentar. Os tempos agora são outros e McConaughey cresceu, não fisicamente, mas profissionalmente, o qual se confirma na sua prestação nestes últimos 3 anos. Começando por deixar de lado as propostas de foro comercial e acima de tudo concentrar em metamorfosear para os diferentes e desafiadores papéis que entretanto foram-lhe surgindo, o actor demonstra a sua ambição artística, a sua vontade acrescida em “apagar” uma carreira de trabalhos duvidosos e de prestações decepcionantes, regressando aos tempos em que fora considerado uma “revelação”.

 

 

Agora, cada vez mais próximo de vencer o Óscar de Melhor Actor, a confirmar pelo Globo de Ouro que recebeu na última gala, Matthew McConaughey encontra-se irreconhecível, não apenas pelo seu aspecto decadente mas pela forma como conduz este novo filme de Jean-Marc Vallée para uma espiral emocional, sem com isso afastar-se do eixo de ambiguidade que Dallas Buyers Club sempre balança ao invés de apostar na moralidade de “pancada”. O actor é surpreendentemente camaleónico quer a nível artístico, a exposição e a forma como subjuga em nome da interpretação, quer no seu sacrifício corporal. É esta a dedicação que faltava na carreira do actor, o empenho e a audácia de fugir à sua imagem de vedeta e sex symbol. Por ele e por Jared Leto, igualmente irreverente e travestido (sim, literalmente), Dallas Buyers Club merece a visualização, mais do que propriamente o filme em si.

 

 

Mesmo sob a limitação desses dois alicerces, Jean-Marc Vallée constrói uma obra corajosa, denunciadora e por vezes metafórica (a ligação entre o inicio e o desfecho indicia-se como uma filosofia “texana”), contudo perde-se por uma narrativa que soa episódica e uma Jennifer Gardner iludida de que integra uma comédia romântica. Sim, não é errado afirmar que Dallas Buyers Club sobrevive maioritariamente graças ao trabalho da dupla referida de actores, das suas composições como também da química que emanam. Porém acredito que em mãos mais audazes, esta obra seria decerto uma teia ácida sobre a homofobia, o preconceito em relação aos portadores de HIV e o “fascismo” como os interesses “duvidosos” das empresas farmacêuticas e da FDA (Food and Drug Administration), a entidade reguladora de drogas e alimentos.

 

 

Mas apesar das incursões e temáticas de Vallée (encarando que foi um filme que demorou cerca de 20 anos a sair do papel), a obra discursa a luta de um homem contra a sua doença, a busca pela derradeira cura e os diferentes obstáculos que atravessa para o conseguir, muito mais do que uma panfletária denúncia cinematográfica de um problema bem real que afecta milhões de norte-americanos. Baseado em factos verídicos!

 

“I've been looking for you, lone star.”

 

Real.: Jean-Marc Vallée / Int.: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Steve Zahn, Dennis O’Hare, Griffin Dunne

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:44
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26.12.13

Uma causa adolescente, não só …

 

Tendo em conta o sucesso mundial de The Hunger Games: Catching Fire nas bilheteiras, podemos afirmar que estamos perante um dos sólidos franchisings do século XXI, aquilo que os produtores haviam procurando para preencher os espaços deixados por Harry Potter e Twilight, ou seja no apelativo universo da literatura juvenil. A verdade é que neste segundo filme, baseado no respectivo livro da autoria de Suzanne Collins, é uma distopia metafórica, uma critica mordaz aos reality shows como meras distracções para a intervenção global.

 

 

Com uma "pitadinha" de Battle Royale, a popular e provocadora manga de Koushun Takami (gerou um incursão cinematográfica em 2000), The Hunger Games novamente nos remete a um mundo pós-apocalíptico, uma América dividida em distritos e regida por um Capitólio, por sua vez ditada por um opressor (e cada vez mais vampírico) presidente (Donald Sutherland). Para conseguir implantar o medo e a subjugação dos diferentes distritos perante a capital, é decretado os Hunger Games - Jogos da Fome, uma variação de gladiadores modernos e pueris, dois jovens de cada distrito em luta pela sua sobrevivência. Neste novo capitulo os níveis de ambição são postas na ribalta, quer na produção, quer a nível de argumento, já que a intriga exposta por Suzanne Collins é propicia a tal. Aqui os jogos são outros, um massacre que a certa altura é apelidado, onde os vencedores das anteriores edições dos Jogos da Fome são convocados e colocados de novo na arena, o qual tentam acima de tudo evitar. No centro desta história encontramos a já ídolo adolescente, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), que é a rebeldia e a revolta em forma de gente. Após ter vencido a edição anterior juntamente com Peeta (Josh Hutcherson), o qual ambos falsearam um romance, é agora utilizada como propaganda da supremacia do próprio Capitólio, mas durante a sua digressão como estrela sobrevivente, esta observa no diferentes distritos as iminências de uma rebelião, fazendo dela um símbolo de causa.

 

 

Ao contrario do oco e politicamente incorrecto Twilight (diga-se por passagem que não envelhece saudavelmente), The Hunger Games é pura reflexão para os adolescentes de hoje, e nos tempos difíceis que se vive uma revolta, uma preservação de ideais, são temáticas sempre presentes no espírito jovem, mais do que qualquer outra. Por isso é fácil adivinhar o porquê a obra literária de Suzanne Collins agrada uma faixa etária, porque é a juventude o centro de uma manifestação revolucionária, um grito de revolta de uma geração desiludida com a promessa feitas, mas incumpridas pelas anteriores. Porém é verdade que tais ingredientes são explosivos em mentes e vontades convictas e imbatíveis (aliás uma das características da adolescência é destes julgarem que nada lhes acontece), mas é preferível tal luta inerente do que a implantação de um mundo "acorrentado" à luxúria e à estupidificação social, onde a mediocridade é sempre motivo para aplausos.

 

 

Enfim, como filme, esta adaptação de Francis Lawrence (Constantine, Water for Elephants) se resume a um dos mais importantes blockbusters do anos, e talvez na sua categoria a mais impressionante vista em pleno 2013. É uma variação mais pretensiosa, tecnicamente aperfeiçoada, mas preocupada com a incursão dos ideais trazidos pelos escritos de Collins, mais do que a própria distopia envolta, e com as mensagens subliminares, criticas a uma sociedade que tão bem conhecemos, intactas. Depois disto temos um elenco que "joga a seu favor", onde a aquisição de Philip Seymour Hoffman se revela num must e que Stanley Tucci continua a cativar num papel à sua medida, o desinformado entertainer. É somente pena que neste quadro, uma ou duas personagens encontram-se inteiramente … a mais, nomeadamente Lenny Kravitz (mais descartável que nunca) e um insonso Liam Hemsworth.

 

 

O final não deixa duvidas, mais capítulos virão e a fasquia encontra-se mais alta que nunca. Esperemos sim, que se volte a cumprir tais promessas já que Catching Fire conseguiu verdadeiramente contornar o seu histerismo inicial e proporcionar aquilo que aparentemente parecia rebuscado em cinema mais que adolescente. Superior ao primeiro, sem duvidas!

 

"People are looking to you, Katniss. You've given them an opportunity. They just have to be brave enough to take it."

 

Real.: Francis Lawrence / Int.: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Toby Jones, Willow Shields, Sam Claflin, Jena Malone, Amanda Plummer

 

Ver também

The Hunger Games (2012)

Battle Royale (2000)

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:55
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5.12.13
5.12.13

Congelar um legado!

 

O cinema de animação parece cada vez mais contagiado com a acção real, não no sentido gráfico mas sim na própria condução narrativa como também na planificação. No caso de Frozen, a nova aposta da Disney no formato de CGI, o plano-sequência de todo o vilarejo é um dos exemplos notáveis dessa hibridez intrínseca.

 

 

Inspirado no tradicional conto “A Rainha das Neves” de Hans Christian Anderson, Frozen é longe da sua sofisticação visual, um regresso à velha Disney, o ambiente de conto-de-fadas, o universo das princesas, a desfrutação da incansável busca pelo “amor verdadeiro” e as canções melódicas que marcam a narrativa. Eis o puro modelo costumado do estúdio que não só causa nostalgia como também remete-nos para os lugares-comuns da nossa infância cinematográfica. Todavia, se por um lado Frozen é um regresso ao velho estilo Walt Disney, ele é também uma “conformação” de um estúdio que concretizou na sua última incursão (Wreck-It Ralph) tamanha originalidade.

 

 

Trata-se de uma obra ausente de irreverência até ao último sopro, onde um twist de “para-quedas” (mas tão bem inserido) vem contrariar a tendência mais vintage do sistema. Uma rebeldia moral que é em simultâneo a preservação dos códigos familiares. Códigos, esses que nos levam ao amor fraternal que é tão pouco explorado no catálogo Disney. Tal afecto serve de cenário animação graficamente exuberante, "catita" em termos miúdos e com um sonoplastia sedutora, mesmo que os momentos musicais não sejam de todo o melhor feito naquelas bandas.

 

 

Por fim, tal como as diversas animações que atingem o nosso mercado actualmente, Frozen aposta maioritariamente nos seus personagens secundários, nomeadamente em Olaf (com voz de Josh Gad), um boneco-de-neve falante que confere alguns dos momentos mais divertidos e hilariantes de todo o enredo. Mas verdade seja dita, a sua composição como personagem algo sidekick, o triunfo cómico da fita, já fora vista e revista em muitas outras obras, mas nada impede o seu “estado de graça”.

 

 

Admitimos que Frozen – O Reino do Gelo é uma preciosidade para os mais jovens e uma nostalgia para o espectador mais graúdo, mas é um acto de segurança dos estúdios da Disney no que requer a apostas animadas, mesmo que seja belo e trabalhado em termos técnicos. E voltando ao ponto de partida, sabendo tratar-se de uma animação, Jennifer Lee e Chris Buck o compuseram com uma noção narrativa e planificada de cinema notável.

 

Some people are worth melting for.”

 

Real.: Chris Buck, Jennifer Lee / Int.: Kristen Bell, Jonathan Groff, Josh Gad, Idina Menzel



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:55
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24.11.13

Um lago de suspeitas e crimes passionais!

 

O autor Alain Guiraudie aborda uma praia fluvial de nudistas como um escape à realidade quotidiana, todo este cenário esboça um "mundo" alternativo e marginal, onde a homossexualidade parece ser o segredo de cada um, a força motora para as suas necessidades mais obscuras. Um mosaico que gradualmente vai se construindo pela sistematização dos seus personagens, deparando com um singelo "when boys meet girl" ou no caso de L'Inconnu du Lac (O Desconhecido do Lago), "when boys meet boys".

 

 

A intriga centra-se em Franck (Pierre Deladonchamps), um jovem esbelto que frequenta estas ditas praias de forma rotineira, em constante busca de prazer e da integração social. Contudo durante as suas aventuras neste local “guiraudiano”, Franck adquire um interesse romântico no misterioso Michel (Christophe Paou), que é para além de tudo um homem perigoso, capaz de tudo para atingir os seus objectivos.

 

 

Obtendo uma fixação envolvente e persistente como filme de obsessões, é inegável não reconhecer o mérito de Alain Guiraudie na concretização de algum mise-en scené ou da manipulação de luz que contagia algumas das valiosas sequências, como também a aptidão de construir um trio de relações vertiginoso que nas proximidades finais, se converte numa derradeira viagem emocional. As interpretações dão o melhor de si, mesmo que o destaque caia no secundário Patrick D'Assumção, um homem de carácter assexuado neste cenário de luxuria que é servido como uma ponte de conexão entre aquela praia (difícil de abandonar) e o mundo fora-de-campo onde os peões desta fita estão determinados a interagir invisivelmente.

 

 

L'Inconnu du Lac é um dos filmes mais explícitos, naturalistas e arrojado na maneira como retrata a sexualidade dos seus personagens, o que poderá facilmente cair no “indigno” estereótipo de “militância homossexual”. Devido a isso, com adição da crueza com que simula as sequências de sexo e a cumplicidade dos actores nos momentos mais íntimos, L'Inconnu du Lac de Alain Guiraudie será motivo de repudia para os espectadores menos tolerantes em questões de orientação sexual. Eis uma obra singular, atmosférica, provocação de um certo “sabor” noir, que tem como senão a personagem de Jérôme Chappatte, o inspector intrusivo deste mundo oculto, que tem tanto de ridículo como de inverosimilhante. 

 

Real.: Alain Guiraudie / Int.: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick D'Assumção, Jérôme Chappatte




7/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:03
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21.11.13

Todos querem conectar!

 

Disconnect de Henry Alex Rubin (o mesmo realizador do documentário de 2005 nomeado ao Óscar, Murderball), propõe uma viagem analítica aos perigos e consequências das novas tecnologias no quotidiano de cada um (os perigos da internet para ser mais especifico), mas ao invés disso concentra-se como um retrato à falta de conexão entre as pessoas.

 

 

Iniciada como a esperada obra que havia sido anunciada, Disconnect nos tece uma narrativa mosaico, quase digna a estilo Iñarritu, em que cada uma das intrigas dadas explora diversos factores e artifícios dessa mesma tecnologia, ora o entretenimento adulto visto como um escape à realidade, ao mesmo tempo visado como um negócio obscuro e de exploração, a dependência das redes sociais e as influências nas relações humanas (há espaços para abordar o cyberbullying) ou até mesmo a própria fraude cibernética. São vários os personagens apresentados e as situações decorridas em simultâneo que em momento algum deixarão o espectador aborrecido ou incrédulo perante a potencialidade dramática destas historias, servindo obviamente com excelentes desempenhos por todo os envolvidos.

 

 

Mas o verdadeiro "click" nesta incursão sobre os perigos da internet e da sua gradual dominância na rotina de cada um, surge ironicamente na incutida ligação dos seus personagens, no contacto entre elas, na reacção que estas manifestações geram, a perda dos teclados, do touch, do ecrã e a rede online, tudo em prol de uma mensagem mais subtil e obvia; afinal há interacção aqui.  E é nesse preciso momento, Disconnect se transforma em algo mais simples que o pressuposto, um drama competente de incrível sensibilidade e de ligação terna, claro que existe aqui alguns moralismos "bonitinhos" de se apresentar, e uma sequência final retrospectiva tão sincronizada e ritmada desde Magnólia de Paul Thomas Anderson. Não sendo claramente uma obra que ficará na memória e que se vingará dentro da sua formula, Disconnect é mesmo assim um retrato a ser visto. Porque os humanos sempre sentirão a necessidade de "tocar".

 

Real.: Henry Alex Rubin / Int.: Jason Bateman, Hope Davis, Frank Grillo, Michael Nyqvist, Paula Patton, Andrea Riseborough, Alexander Skarsgård, Max Thieriot



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:48
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4.11.13

Os pensadores livres são a verdadeira ameaça dos regimes!

 

Parece mentira mas é verdade, o autor Mohammad Rasoulof viu o seu passaporte a ser confiscado pelas autoridades iranianas em Setembro de 2013, enquanto este se preparava para apresentar o seu novo filme, Manuscripts don't Burn, no circuito festivo (nomeadamente o DocLisboa, o qual encontrava-se apontado como o Presidente de Júri). Por sua vez o filme em questão nos remete à história de um escritor iraniano que após escrever as suas memórias, tristes eventos que denunciam um governo opressivo e intolerante, é impedido de sair do país, chegando mesmo a temer pela sua própria vida. Este é um daqueles casos em que a ficção se funde com a realidade, contudo há que salientar a coragem de um realizador em acima de tudo divulgar a sua obra, um filme-denúncia que devidos às actuais ocorrências, usufrui um carácter urgente. Uma intervenção com os seus custos, Manuscripts don't Burn funciona como um folhetim clandestino, que nega descanso à medida que adquire uma posição de guerrilha e de contexto.

 

 

A nova obra de Rasoulof utiliza a realidade dos seus factos não somente como referência argumentativa, mas como material moldável enquanto delineia uma "caça às bruxas" em pleno século XX. Mohammad Rasoulof apresenta-se como um realizador de "punho forte" na  sua demanda pela verdade, algumas das sequências, incluindo as de torturas, possuem um peso emocional que transportam o espectador em climas inerentes de censura e opressão aos diferentes níveis. Contudo o autor ainda demonstra irreverência em humanizar as suas figuras antagónicas, incutindo-as aos dilemas e as questões de consciência que remeterão a narrativa a ironias metafóricas e de carácter quase moralista.

 

 

Mas onde o filme realmente enfraquece é na sua composição de panfleto interventivo que condiciona e muito a interpretação dos seus actores como também os diálogos que proclama, sendo estes a autêntica influência documental deste Manuscripts don't Burn. Porém a questão deste gesto ético e de tremenda coragem ecoa no final da projecção, será que a obra de Mohammad Rasoulof consegue sobreviver fora do contexto de filme-denúncia?

 

Filme de encerramento do DocLisboa'13

 

Real.: Mohammad Rasoulof / Int.: "os nomes do elenco e envolvidos foram ocultados de forma a proteger os demais"



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:51
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15.9.13

O regresso do zombie como símbolo das fraquezas sociais!

 

A estreia nas longas-metragens de Christoph Behl é à primeira vista, mais uma enésima incursão do cinema dos mortos-vivos e todo os adereços que temos a nossa mercê. Porém mesmo caminhando em tais territórios, El Desierto incute o mais primitivo deste subgénero, cada vez mais ascendente na cultura actual. Com evidentes influências do cinema de George A. Romero, Behl incute a imagem do zombie como segundo plano enquanto reflecte sobre as variadas questões sociais e da democráticas no seu trio protagonista, isolados de um mundo infestado por mortos ambulantes através de um bunker construído por eles próprios (daí o titulo O Deserto ser alusivo). No interior deste "porto de abrigo", os supostamente três únicos residentes humanos tentam manter a estabilidade através de um conjunto de regras ou leis, como pretenderem apelidar, que garantirão a segurança destes como pertinentemente incutir a ordem e disciplina entre eles.

 

 

Esta pseudo-democracia, uma espécie "sala de pânico" arbitrária, começa a adquirir contornos anárquicos quando os seus residentes, outrora harmoniosamente viventes, constituem gradualmente um triangulo amoroso que acentua ainda mais o factor claustrofóbico e o desequilíbrio psicológico dos três jovens, rompendo amizades, companheirismos e atenuar ainda mais a luxúria entre estes. El Desierto é eficaz como ensaio semi-documental, uma direcção handycam que aufere realismo quer nas situações ou nas ligações entre as personagens, e uma narrativa insípida que torna cada vez mais crescente a tensão aqui representada. Ainda existem rasgos de reality shows, aliás todo a estrutura do filme parece conduzir como uma ironia ao formato destes mesmos programas.

 

 

Mesmo dentro de um mundo apocalíptico e a constante insegurança dos zombies e os claros acessórios envolto, Michael Behl é ainda mais eficaz no campo dramático, na requisição dos seus personagens (consegue o feito de concretizar um dos mais icónicos do cinema argentino) e na narrativa sempre subliminar e inteirada no realismo. Só é pena que o filme vai perdendo algum gás pelo caminho, principalmente quando o turbilhão emocional torna-se mais acentuado, mas enfim, temos aqui um particular e deveras interessante exercício do subgénero.

 

Filme visualizado no MoteLX 2013


Real.: Christoph Behl / Int.: Lautaro Delgado, Victoria Almeida, William Prociuk



7/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:40
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2.9.13

Uma vivida entrada ao mundo hassídico! 

 

Shira (Hada Yaron), uma jovem hassídica de 18 anos, encontra-se dividida entre o dever matrimonial e o amor da sua vida. Quando a sua irmã mais velha, Esther (Renana Raz) falece subitamente após dar a luz o seu sobrinho, Shira fica automaticamente "prometida" ao viúvo da sua ente querida, de forma a restaurar a família em vias de desmoronar.

 

 

Fill the Void é um retrato delicado da passagem da adolescência para a fase adulta ao mesmo tempo que a câmara da israelita Rama Burshtein gradualmente se integra no seio da cultura hassídica, uma comunidade judaica ortodoxa fiel aos seus rituais tradicionais e à sua herança geracional, onde a pratica dos casamentos "arranjados" é activa contudo tolerável. Sem panfletarismo, nem julgamentos, a realizadora Rama Burshtein filma todo este ciclo tradicional de maneira nada intrusiva, incutindo personagens bem constituídas, substanciadas que acorrentam vivacidade e propósitos inerentes. Após a estadia, o espectador encontra-se completamente seduzido a este mundo fechado, oposto às mais variantes da sociedade ocidental, aceitando e ser aceite de forma correspondente enquanto gradualmente se preenche de empatia para o vasto leque de personagens, todos eles segundo a realizador, baseados e adaptados de seres e casos reais.

 

 

Foram preciso cerca de 15 anos de estudo, onde Rama Burshtein entregou por completo à comunidade dos hassídicos, e devido ao deslumbre com que sentiu é de notar a dedicação com que dirige esta trama, porém falta-lhe frontalidade, uma certa agressividade em constituir um olhar algo ambíguo, o que neste caso seria um factor precioso e pronto a gerar o debate. Porém a estreia de Burshtein nas longas-metragens é executada de forma sincera, nada explicita e sob uma direcção precisa envolta de admiração.

 

 

Uma obra interessante sobre temas cada vez mais discutidos na nossa sociedade, contudo sob um olhar mais documental e sob efeito dos romances de Jane Austen. O mais admirável em Fill The Void (A Noiva Prometida), é deste trabalho ser "fruto" de uma mulher, visto retratar maioritariamente a temática dos casamentos "combinados", nada aceite na sociedade ocidental, sem os habituais sentenças do politicamente correcto. Apresentado no Festival de Veneza de 2012, Fill the Void foi consagrado com o Prémio de Melhor Actriz (Hada Yaron) no dito evento cinematográfico. Um curioso mundo "novo"!

 

Real.: Rama Burshtein / Int.: Hadas Yaron, Yiftach Klein, Irit Sheleg, Chayim Sharir, Razia Israeli, Hila Feldman



 

Outros

C7nema / Fill The Void (A Noiva Prometida) por Hugo Gomes

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:30
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27.8.13

A naturalidade do cinema!

 

Há cerca de um mês atrás estreava entre nós a ficção portuguesa O Bairro da autoria de Francisco Moita-Flores, uma série destinada à televisão de 20 episódios que foi convertido a uma "re-colagem" cinematográfica. A "fita" nos presenteava uma Maria João Bastos como líder de uma gang com diversas tarefas ilícitas na agenda, mas acima de tudo se comportavam como "anjo da guarda" de um bairro social lisboeta, produto imaginado com tamanha surrealidade do quotidiano português. Combinando de um lado o "wanna be" fantasioso para com o cinema norte-americano mainstream com a estrutura e inerência de uma telenovela habitual dos nossos canais generalistas, O Bairro foi um Infeliz exercício como também de desprezo para com a realidade portuguesa.

 

 

Distanciamento a léguas de tal factor parece ser uma "meta" cada vez mais penetrada no grande ecrã pelas grandes produtoras nacionais, contudo Basil da Cunha, com um currículo de mais de 15 curtas, mostra a tudo e todos que mesmo sem as verbas nem os patrocínios  destes "gigantes nacionais" consegue invocar a verdadeira essência do "outro lado", a faceta longe do "faz-de-conta" das telenovelas e do país fantasioso que emane, com a sua primeira longa-metragem, Até Ver a Luz. Rodado aos arredores da Amadora, num "infame" bairro da Reboleira, o luso-suiço Basil da Cunha concentra um cinema artesanal mas fiel aos seus códigos genéticos, "descortinando" num cenário perfeito para "pastiche", um leque algo invulgar de personagens singulares que roçam o estereotipo mas se esforçam em sair dessas "capas de senso comum".

 

 

O facto do realizador viver nessa mesma comunidade aufere-lhe força em implodir credibilidade a este sistema biótipo, recriando um palpável território cinematográfico incutido neste quadro de exclusão social, debruçando em situações que cada vez mais as pseudo-produções nacionais evitam ou amenizam. Esta é uma história de influências às mitologias nipónicas fundidas com os seus personagens, "samurais marginais que bailam ao luz da Lua", claras referências ao cinema de Kurosawa e de Jarmusch, evidenciando assim o conhecimento de Basil da Cunha que reflecte a sua linguagem cinematográfica neste cenário de desolação social.

 

 

Um "entranhar" por um comunidade rica munida pela violência, bem concretizada (apesar dos planos fechados limitarem a sua eventual abrangência) e articulada pelo realizador de uma forma motivadora e deveras vanguardista (as opções destes em concentrar o elenco em "não-actores" e 80% do filme seja falado em "crioulo", tornam Até Ver a Luz num exercício naturalista). Uma entusiasmante primeira longa-metragem a não perder e a merecer devida valorização em tempos futuros. O La Haine português!

 

Real.: Basil da Cunha / Int.: Pedro Ferreira, João Veiga, Nelson da Cruz Duarte Rodrigues 



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:57
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18.8.13

Está tudo louco!

 

A primeira longa-metragem de Antonin Peretjatko reflecte de certa maneira a crise político-social que se vive na Europa, em particular na França, numa transposição algo caricatural onde cada personagem parece trazer consigo a sua subliminar crítica. Trata-se de um road-trip algo alucinando que invoca por meio de gags non-sense a imprevisibilidade cómica e a sátira politica. No meio de tantas alusões da Revolução Francesa com uma iminente revolta social do século XXI, em La Fille du 14 Juillet encontramos acima de tudo uma comédia com uma preservadora tomada do seu legado cinematográfico. Ou seja é evidente depararmos com as eventuais referencias do cinema vanguardista francês dos anos 60, onde Peretjatko se baseou para tecer uma necessidade de uma nova e avançada visão, não apenas em termos cinematográficos, mas também na aquisição quotidiana e nas preocupações sociais.

 

 

Devido a esta comédia dita non sense, La Fille du 14 Juillet remete-nos à imprevisibilidade, à liberdade artística e narrativa, à urgência de inovar a partir do modo vintage cinematográfico, e para além disso comportar-se como entretenimento alucinado face à crítica que tenta a todo o custo implodir. Sim, são gags certeiros, objectivos definidos através do burlesco, o argumento do "término forçado de férias" como combate para um período de recessão económica e de crise social liberta neste leque de personagens algo excêntrico, como anorécticos em desenvolvimento em meros peões para um jogo de sátiras.

 

 

Não sendo nenhum produto construtivamente trabalhado, por vezes perde-se entre ambições mais artísticas e na citação forçada de poesia em prosa como tivesse encontrado a perfeita equação da vida amorosa, enfim, fora isso temos um dos mais refrescantes filmes deste Verão. Uma frescura derivada de um próprio modelo antigo e cada mais em desuso pela gradual perda dos autores que definiram um dos pontos de viragem do cinema francês, a manifestação do nouvelle vague. Loucura total em um filme divertido e subliminar!     

 

Real.: Antonin Peretjatko / Int.: Vimala Pons, Grégoire Tachnakian, Vincent Macaigne



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:58
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12.8.13

Juventude corrompida!

  

Baseado num artigo de Nancy Jo Sales escrito para Vanity Fair em 2010, que investigava um pequeno bando de adolescentes que furtava a casa dos famosos em Los Angeles, aproveitando o facto destes estarem constantemente ausentes. The Bling Ring é o quinto filme de Sofia Coppola, uma analise algo personalizada de um juventude materialista, fútil e exibicionista, a verdadeira era do "Facebook", onde as suas vidas não passam de meras ilusões programadas em prol dos desejos mais banalizados de qualquer jovem influenciado pelos medias e pelo "sonho americano", por outras palavras tal como criaturas travestidas na pele dos seus "ídolos".

 

 

São um leque de personagens de difícil interacção para com o público, principalmente se este tiver passado dos 30, Coppola reproduz no seu pequeno elenco as linhas sociais da adolescência diária proveniente de locais cosmopolitas e sob o holofote de Hollywood. São seres vazios, irritantes, ambíguos e quase mecanizados para todo uma lista de características de uma geração altamente informada, mas desequilibrada e precocemente imatura. Devido a isso, The Bling Ring complementa-se com Spring Breakers de Harmony Korine, estreado entre nós em Maio, sob a dissecação dos "novos" jovem do século XXI. Coppola encontra nesse grupo o motivo de seguir uma jornada, por vezes condenada a integrar o "embrulho cor-de-rosa", longe da brilhantina e do glamour, um perigo real, a inerência de uma infância corrompida e envenenada.

 

 

 

 

Fora isso, a cineasta reencontra o seu estilo seco, o tom pop e o método algo acido com que disseca tais jovens como se conhecesse perfeitamente este mundo. A narrativa é porém atropelada por "ainda" mais superfluidade, um tempero que apenas enuncia a já referida falta de ligação para com o espectador face a tamanha ignorância e cinismo de um ambiente artificial que envolve estes personagens "propositadamente" unidimensionais. The Bling Ring é em certos sentidos um espectáculo degradante sobre uma natureza humana cada vez mais usual, fundido com o estilo do "chick flick", mas nunca conduzido para tal. Todavia o mais notável a obra de Sofia Coppola não é mesmo a eficácia com que transmite o carácter destes "caçadores de fama", mas sim a construção de uma caricatura que se vai tecendo gradualmente.

 

 

Tal como a obra de Harmony Korine, The Bling Ring apenas alimenta um medo comum, "como agem os nosso filhos na ausência dos pais?". Sofia Coppola compõe um filme fútil e deveras irritante, contudo são esses os propósitos que anseia demonstrar. O fascínio pelos delinquentes que se mantêm fora da marginalização, mas dentro dos parâmetros requeridos de uma sociedade ilusória.

 

"I'm a firm believer in Karma and I think this situation is a huge learning lesson for me... I want to lead a country one day for all I know."

 

Real.: Sofia Coppola / Int.: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Claire Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:54
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1.8.13

Família é prioridade!

 

A história verídica de Richard Kuklinski, um assassino a soldos ao serviço da Máfia que foi condenado em 1986 pela morte de mais de 100 pessoas, é por fim reproduzida e com dimensão na pele de Michael Shannon. O actor que recentemente tem recebido o "spotlight" do seu papel secundário no êxito Man of Steel de Zack Snyder, como um vilão de serviço mas com conteúdo, tem a oportunidade de transmitir alguma solidez numa personalidade, que em mãos erradas geraria facilmente um maniqueísta boneco unidimensional.

 

 

Por pouco o actor carregava o "filme às costas", mas o semi-desconhecido Ariel Vromen consegue recriar em The Iceman, um falso mob movie de contornos mais classicistas (pelos vistos estudou bem a lição), revogando por vezes o realismo estrutural e concentrando numa narrativa interessada na confrontação dramática do seu anti-herói. Ao invés de se apresentar como mais um das fitas ilustradoras ao crime organizado, sob um enorme leque de personagens e subtramas entre eles, Vromen concentra-se somente na batalha de um homem residido na outra face da lei em condicionar um vida propicia e feliz para os seus entes queridos. Pai exemplar, marido extremoso, Michael Shannon concretiza com todos os efeitos um personagem cativante e mesmo sob todas as adversões, carismático, o qual o espectador decerto irá torcer pelo seu triunfo. Ao invés de aborda-lo como um mortal criminoso, Ariel Vromen decide envergar pelo caminho mais intimo e pessoal.

 

 

O ritmo deste Um Homem de Família (titulo traduzido) é eficaz, traduzindo-se pela classe que intensifica gradualmente, e por vezes torna-se frenético. Quanto ao elenco secundário, sendo que por vezes temos a sensação de apenas funcionar como "alavanca" dramática para Shannon, comporta-se no geral de forma competente (com a "desaparecida" Winona Ryder a fazer das suas e sobressaindo casualmente). Em suma: The Iceman não é uma obra impar do cinema norte-americano recente, prejudicado pela sua esquemática narrativa que dissipa o potencial que a fita poderia obter. Mas é acima de tudo uma das melhores propostas para este Verão cinematográfico. Longe dos blockbusters, eis um filme cativante e servido com requinte por um actor de prestigio. Recomenda-se! 

 

Real.: Ariel Vromen / Int.: Michael Shannon, Winona Ryder, Chris Evans, Ray Liotta, David Schwimmer, Robert Davi, James Franco



 

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C7nema / «The Iceman» (Um Homem de Família) por Hugo Gomes

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:19
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É uma casa portuguesa com certeza!

 

Anunciado como um êxito nos cinemas franceses, pudera face à extensiva comunidade portuguesa residente na França, Le Cage Dorée chega finalmente aos nossos cinemas. Uma comédia bem-disposta com uma estrutura digna dos seus congéneres francesas: as situações de teor caótico e mal-entendidos que se transmite nos gags, mas com um intimo dignamente português. Dirigido por Ruben Alves, um luso-descendente, esta é a história do legado da nossa cultura trazida para outros países, um valoroso retrato das virtudes do português, não apenas como emigrante mas sim como individuo a nível global.

 

 

Le Cage Dorée nos centra nas aventuras e desventuras da família Ribeiro (Joaquim de Almeida, Rita Blanco), que dedicaram mais de 30 anos das suas vidas num dos bairros mais luxuosos de Paris. Ele é um pedreiro exemplar de construção civil e ela, uma porteira de um conceituado condomínio, ambos são indispensáveis nos seus respectivos postos, e quando deparam-se com a possibilidade de regressar a Portugal, todos que os rodeiam tentam fazer os possíveis e os impossíveis para impedir que tal aconteça.

 

 

Para quem julga que Le Cage Dorée - A Gaiola Dourada é um somente amontoado de estereótipos que sempre perseguiram as nossas pessoas e cultura, de certa parte é uma afirmação aceite, contudo há que reconhecer que o filme de Ruben Alves invoca tais estereótipos da maneira mais carinhosa possível e nunca recorre à caricatura, ao invés disso concentra nas personagens que emanam conforto no público português. Tudo se resume a Fado, futebol e bacalhau (o bigode por outro lado está ausente, mas a referência presente) num bem orquestrado entretenimento de bom coração e de raízes estabelecidas.

 

 

As personagens conseguem encantar e as situações divertir, esta é sim uma comédia competente e tecnicamente eficaz; a fotografia de André Szankowski e a banda sonora composta por Rodrigo Leão (neste ramo há que salientar o fado de Catarina Wallenstein) são mais valias. E por fim o elenco que ao serviço de uma realização suave e calorosa por parte de Ruben Alves estabelece conexões com o espectador (Rita Blanco é imprescindível e Maria Vieira é previsivelmente divertida). A condição do emigrante português é analisada da forma mais descontraída naquela que é de certo uma das melhores comédias do ano.

 

Real.: Ruben Alves / Int.: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Maria Vieira

 

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C7nema / «La Cage Dorée» (A Gaiola Dourada) por Hugo Gomes

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:04
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