Claustrofobia e sobrevivência!
Imaginem-se na seguinte situação, de repente despertam dentro de um caixão de madeira, subterrado, chantageado por um terrorista, o oxigénio é cada vez mais escasso e os únicos pertences são um isqueiro, uma lanterna e um telemóvel com menos de metade da bateria. Situação desesperante é esta em que Buried se envolve.
A fita de Rodrigo Cortés é um típico “one actor movie” em que nos apresenta um Ryan Reynolds esforçado, porém, e por infelicidade nossa, não muito profundo como se devia. Mesmo assim, é a claustrofóbica realização que toma conta de um filme provocador e com classe na entrega do suspense, daqueles que deixaria Alfred Hitchcock orgulhoso. Em Buried ainda se sente um certo toque de criticismo face às burocracias dos norte-americanos nas suas situações com reféns no Médio Oriente, mas Cortés o disfarça com uma pretensão fiel á sua limitação de espaço e esquiva dos piores do autor, um dos exemplos é o uso de flashbacks, completamente dispensado aqui, para dar lugar a um exercício impressionante de terror com doses generosas de humanidade.
O final, mesmo que previsível até certo ponto, torna-se num desespero sem fim até ao último minuto com Reynolds a demonstrar as suas capacidades de actor (sua melhor prestação), contornando o seu ego e explodindo de emoções no último "on the record", mesmo que, como já havia referido, este torna-se no pior elemento da fita, porque não entrega equilibradamente em toda a narrativa. Não sendo um grande filme, Rodrigo Cortés traz aqui um excelente motivo de celebração do thriller e do exercício cinematográfico. Estamos gratos!
Real.: Rodrigo Cortés / Int.: Ryan Reynolds, José Luis García Pérez, Robert Paterson
Casa da tolerância!
Do realizador de Tiressia (2003), Bertrand Bonello concretiza assim este relato narrativo de um bordel na transição do século XIX e XX, no seu auge até à sua última noite de “vida”, em que o ultimo acto demonstra um cinismo extravagante e fetichista. Apollonide é um objecto de fascínio que nos revela uma natureza sedutora porém algo bizarra, mas quase pedagógica no que requer a explicitar o funcionamento de tais casas de prazer. Bonello contou ao seu dispor um leque de actrizes sensuais e bem familiarizadas com a câmara, sem medo do pudor face às sequências que se seguem (nada mais explicito que puro softcore), o autor consegue invocar a sensualidade sob os seus cenários barrocos e em certa altura tal como magnifico Venus Noir de Abdellatif Kechiche, presentear com a veneração do grotesco. Uma obra interessante no requerimento visual e cénico, que suscita fascinação. Infelizmente torna-se algo anoréctico em termos de ênfase dramática e cede ao cariz artístico na proximidade do final. Um filme que aufere alguma dignidade á profissão mais velha do Mundo. L’ Apollonide encontrou-se em competição no último Festival de Cannes.
Real.: Bertrand Bonello / Int.: Hafsia Herzi, Céline Sallette, Jasmine Trinca
Step Up da hora do chá!
Eis a resposta britânica ao sucesso de Step Up, Streetdance é um festim em 3D das marginais coreografias de dança que ao contrario do seu primo norte-americano, possui ao seu dispor um nome prestigiado na produção, a Charlotte Rampling, uma professora de uma academia de ballet que encontrou nas danças de rua a solução para restauração do aureolo da escola. Streetdance é constituído por todos os lugares-comuns dos filmes de dança e ainda por clichés típicos do puro íntegro hollywoodesco, não existe nada de audaz ou ousado na produção. Porém encontra-se uns pontos acima do rival norte-americano graças a uma construção mais convincente da sua trama, mas tal como o seu congénere é bastante vazio e oco em personagens, contudo é menos espectacular no próprio campo de jogo; as danças. Tem ainda um 3D desnecessário o qual se pode salientar como atractivo para os vibrantes da arte da dança Freestyle. Típico produto adolescente!
Real.: Max Giwa, Dania Pasquini / Int.: Charlotte Rampling, Nichola Burley, Richard Winsor
As mentiras têm perna curta!
A “brincadeira” desta fita de Raymound De Felitta (Two Family House) encontra-se nas mentiras e peripécias que cede se transformam num caos cómico sob a capa de um drama familiar. City Island apresenta-nos os Rizzos, uma família intrinsecamente afastada, o qual não partilham as suas inspirações e segredos. No centro desta família está Vince (Andy Garcia) um guarda prisional que descobre o seu filho perdido no estabelecimento em que trabalha, este o acolhe e leva-o para casa, mas esconde a sua identidade á sua família e a este. Do outro campo temos Joyce (Juliana Margulies), mulher de Vince, que pensa que o seu marido tem um caso amoroso, porém este frequenta aulas de representação. Vivian (Dominik Garcia-Lorido) convence os pais que é uma estudante universitária, mas esta foi expulsa e trabalha como uma stripper num bar nocturno e para finalizar, o membro mais novo dos Rizzos, Vinnie Jr. (Ezra Miller) tem um fetiche sexual que esconde de tudo e de todos. Como podem ver, City Island reúne uma intriga algo rebuscada, de uma certa veia cómica negra, mas que resulta numa peça hilariante e igualmente cativante e emocionante. Não apenas pelas peças da teia de mentiras se juntarem de forma simbiótica e o clímax ser mortífero, mas pelos actores serem convincentes e profissionais. Andy Garcia está de parabéns, mas por um lado é triste saber que o actor de The Godfather III e de Havana parece ser limitado ao mesmo estereotipo de personagem.
Real.: Raymound De Felitta / Int.: Andy Garcia, Julianna Margulies, Steven Strait, Emily Mortimer, Alan Arkin, Dominik Garcia-Lorido, Ezra Miller
Independente com quatro “M”!
Atormentada por dolorosas memórias, Martha (Elizabeth Olsen) tenta integrar-se na sua família após ter fugido de uma seita que acreditava na vida selvagem e independente do ser humana e com obvias dominações masculinas.
Eis uma das revelações que o cinema indie norte-americano nos ofereceu este ano, Martha Marcy May Marlene nos proporciona como um thriller porém com um registo narrativo digno do drama que nos celebra com um ambiente forte e atmosfericamente inseguro que contagiará de certo o espectador, mesmo que nada de extraordinário e precioso para a história decorra no grande ecrã.
A intriga envolve o tormento que combina o culto da emancipação do ser humano da era moderna como também um clara dominação do homem sobre a mulher, tudo isto em feito de alusão às alcateias, onde podemos até assistir á influencia do macho dominante ou alfa, interpretado por um sinistro John Hawkes. Todavia a grande revelação da fita de Sean Durkin é mesmo Elizabeth Olsen, a irmã mais nova das gémeas Olsen, e talvez a talentosa da família, que aqui presta serviço ao próprio ambiente em desempenhar uma personagem tão ao mais insegura que a atmosfera que transborda.
Contudo o espectador não consegue de todo demonstrar simpatia pela protagonista, mas quanto a este produto independente, a conversa é outra mesmo que este envolve mais mistérios do que aqueles que propriamente resolve. Interessante e bem interpretado!
Real.: Sean Durkin / Int.: Elizabeth Olsen, John Hawkes, Brady Corbet, Hugh Dancy
Missão Impossível – Operação Pixar para Hollywood!
Brad Bird dá o seu salto de catapulta da animação para a acção real, porém a mudança é devera brusca, mas não é por isso que o autor agora virado realizador não aguente a pedalada e catalisa energia explosiva a este Mission: Impossible – Ghost Protocol, o qual filme de uma das sagas mais frenéticas de sempre. De volta a Bird, o realizador deu nas vistas em 1999 com a animação, The Iron Giant, porém esquecido mas tocante para os poucos que viram esta amizade entre um rapaz e um robô alienígena. Depois do evento seguiu para os estúdios da Pixar para integrar na equipa principal, colaborou com imensas obras animadas de grande prestígio no comando de John Lasseter e entregou a espectador, duas das melhores obras do estúdio, The Incredibles (2004) e Ratatouile (2007). Decidido a experimentar o outro lado do cinema, Bird aposta repentinamente na grande produção, sendo que em Ghost Protocol, antes da sua estreia mundial, o verdadeiro atractivo era mesmo a confirmação de um autor de animação em praias que não são as suas, muito mais do que o facto de ser protagonizado por uma das estrelas mais megalómanas de Hollywood, Tom Cruise (que encarrega também da produção).
Os diferentes directores da saga sempre ofereceram aos respectivos capítulos uma marca própria, sendo que Brian DePalma em 1996 carregou a Missão: Impossível com classe noir de um explosivo filme de espiões, John Woo por sua vez deu um espectáculo pirotécnico e cheio de tiques pós-Matrix em 2000 e J.J. Abrams sob a influência da saga Bourne, que redefiniu o género de acção / espionagem, realiza em 2006 um espectáculo explosivo mas igualmente moderno e em aposta com a figura antagónica. Brad Bird pode muito bem ser os dos autores que passaram pelas missões de Ethan Hunt, o menos próprio, mas mesmo assim aprendeu a lição das inúmeras maneiras e transforma este improvável titulo de 2011 num filme de acção com um pé pesado no acelerador e bem coreografado nas sequencias. Tudo isto combinando o moderno de Abrams, a classe de DePalma e a adrenalina de Woo, juntos temos um blockbuster sedutor e hiperactivo, sem espaço de paragens, cujas emoções estão presentes em cada segundo.
O argumento poderá não ser dos melhores, visto e revisto, mas a vertente cómica que Mission: Impossible – Ghost Protocol emana, compensa tais redundâncias. Tom Cruise volta a ser um peão forte no protagonismo (de regresso como figura central das sequencias de acção, novamente sem duplos, como se pode verificar na espectacular escalada a Burj Khalifa, Dubai, o edifício mais alto do mundo), mas neste capítulo, as personagens secundárias não se ficam pela mera caricatura, aliás estas constituem como grandes pontos de atenção como Simon Pegg (o grande vertigo cómico) e até mesmo Jeremy Reener, aos poucos a tomar o lugar como futura estrela de acção. Podemos ainda contar com Michael Nyqvist (o Mikael Blomqvist da trilogia sueca Millennium, baseado nos livros de Stieg Larson) que parece ter caído em graça para desempenhar vilões do outro lado do Oceano, a ultima vez que o vimos em tal papel foi no infeliz Abduction, para finalizar destaca-se a participação de Anil Kapoor, o apresentador de televisão do galardoado Slumdog Millionaire de Danny Boyle.
Resumindo e concluindo, Brad Bird fecha uma quadrilogia com grande noção de espectáculo, num cocktail de emoções e explosões em doses industriais que consolidam o espectador com modelo de entretenimento megalómano de Hollywood. Um dos filmes de acção do ano, um dos melhores da saga.
Real.: Brad Bird / Int.: Tom Cruise, Paula Patton, Jeremy Reener, Simon Pegg, Michael Nyqvist, Anil Kapoor, Tom Wilkinson, Ving Rhames
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“Ó tempo volta para trás!”
Realizadores como J.J. Abrams e até mesmo Steven Spielberg revelaram que já em tempos de infância faziam os seus próprios filmes caseiros, muito graças ao uso da imaginação, boa vontade e uma câmara Super 8. O badalado cineasta do reboot de Star Trek e das séries Lost e Fringe faz uso das suas memórias e homenageia não só o seu passado, mas muitas das obras que o influenciaram, Spielberg surge então como produtor, e não por razões aleatórias.
Super 8 relata as aventuras de um grupo de crianças de uma pequena cidade que tentam realizar um filme de zombies, mas que acidentalmente se tornam testemunhas de um descarrilamento de um comboio que transportava uma carga misteriosa. Depois do acontecimento, ocorrências estranhas e algumas mortais decorrem misteriosamente na cidade. As autoridades tentam apurar o ocorrido mas sem êxito e o exercito americano surge automaticamente em cena. Apesar de muitas teorias envolto naquele acidente ferroviário, só o grupo de jovens conhece realmente a verdade daquela fatiga noite, mesmo que custe acreditar.
Abrams invoca o cinema dos anos 80, principalmente ao referenciar fitas como ET e os Goonies, no grupo de crianças que ele próprio dirige, o autor reencontra o seu passado, as suas memórias e as suas influências. Super 8 é assim uma espécie de cápsula do tempo, numa época em que o cinema fantástico aspirava a inocência e a aventura era mais do que simples marketing industrial, mas fora as boas intenções e da solidez da história, a nova fita de Abrams é um “wanne be” que sonha alto. A homenagem está servida, as referencias expostas, mas os tempos mudaram drasticamente e apesar de tudo, J.J. Abrams é um homem actual que não consegue despertar nele algo que não existe, marca nostálgica cinematográfica, é por estas e por outras que encontramos em Super 8 um blockbuster competente servido de grandes desempenhos, principalmente do elenco jovem (Elle Fanning em grande destaque), detalhes primorosos e um ambiente alienígena há muito não visto desde Close Encounters of the Third Kind (Steven Spielberg, 1977), nesse aspecto é um dos melhores entretenimentos deste ano, mas mesmo despertando certa nostalgia, não o invoca na sua totalidade.
Nesse caso, The Hole de Joe Dante e até mesmo o visualmente sofisticado The Adventures of Tintin de Steven Spielberg o conseguem fazer com mais precisão, porque a diferença destes autores para J.J. Abrams é que os primeiros viveram intensamente os anos 80, o segundo apenas limita a seguir as suas pisadas. Sem mal entendidos, Super 8 é um divertimento á altura, mas não é a “espreitadela” do baú que pretendíamos.
Real.: J.J. Abrams / Int.: Joel Courtney, Elle Fanning, Bruce Greenwood, Greg Gunberg
Para ele não existe missões impossíveis!
Brian De Palma, um dos influentes da arte do suspense de Alfred Hitchcock, adapta uma série televisiva de culto dos anos 60, refeito nos finais de 80, e recria assim o cinema de espionagem para um ritmo mais acelerado e frenético. Mission: Impossible torna-se assim num dos célebres do cinema de acção dos anos 90, onde imagem como a de um Tom Cruise pendurado através de cabos se torna numa marca do dito cinema de espiões.
A intriga é simples; Ethan Hunt (Tom Cruise) e a sua equipa de veteranos e experientes agentes da IMF são traídos e dizimados numa missão que correu mal em Praga. Apenas contando com dois sobreviventes, obviamente um deles o nosso herói, o par de agentes tem agora uma missão independente que é descobrir o “infiltrado” que contribui para a morte dos seus colegas, um tal e enigmático Job.
De Palma contorna o seu toque de neo-noir oferece assim um energético filme de acção que conta com sequências de alto risco e evoluídas para o seu tempo, porém a pirotecnia visual é subvalorizada face a uma narrativa elegante, excitante e sim, rápida, directa para acção, esquivando muito do ambiente calmo e tipicamente “british” das anteriores obras de espionagem, nomeadamente os célebres casos de 007. Mission: Impossible ainda consegue funcionar face a um Tom Cruise hábil no seu desempenho e perfeito para as sequencias de acção, uma mistura entre o charme de um James Bond e a ferocidade de um mercenário, o actor consegue ser capaz de vestir a pele de Ethan Hunt para os anos 90, com tecnologias de ponta e credíveis e grande esforço físico, sendo que a saga é conhecida pela estrela dispensar os duplos na maior parte das cenas de alto risco. No elenco ainda contamos com um leque variado que vai desde Jon Voight (ainda nos seus melhores tempos), Jean Reno no estereótipo de mercenário francês (o actor gaulês não consegue fugir a este modelo nas produções norte-americanas), um carismático Ving Rhames, Kristin Scott Thomas e Emmanuelle Beart.
Não sendo uma das obras mais primorosas da carreira cinematográfica de Brian De Palma, Mission: Impossible constitui num dos seus maiores êxitos, uma confirmação de que Tom Cruise foi uma das grandes estrelas de Hollywood de outrora, assegurando o perfil de herói. Entretenimento, que não desvergonha a série nem os fãs do género em especial.
Real.: Brian De Palma / Int.: Tom Cruise, Jon Voight, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Beart, Vanessa Redgrav, Henry Czerny
Socorro, o meu vizinho é um vampiro!
Os jovens de hoje optam muito pelos filmes de vampiros, desde a saga Twilight que cada vez mais vê o fundo do túnel até aos primos afastados de Blade ou mesmo Underworld. As criaturas sanguinárias nunca tiveram tanto na moda, não só no cinema, mas como na literatura, televisão, música e outras referências da cultura pop. Fright Night (2011, Craig Gillespie) é o mais recente oportunista da febre, porém trata-se apenas de um remake de uma fita de grande êxito de 1985, que tal como aconteceu com o dito conto de Stephenie Meyer, fez com os vampiros voltassem ao uso nos anos 80, inspirando muitas obras de igual género e possivelmente muitas das produções que assistimos nos dias de hoje.
Fright Night, o original, é uma espécie de Rear Window de toques sobrenaturais e tiques adolescentes. A história do filme de Tom Holland (que dirigiu em 1988 o bem sucedido Child’s Play), é simples mas de certa forma criativa, contando com a intriga de um adolescente que suspeita que o seu vizinho é um vampiro sedento de sangue, e face a tais suspeitas decide combater esse mal, com auxílio de um decadente astro do cinema de terror (Roddy McDowall).
William Ragsdale (The Reaping) veste a pele do jovem aterrorizado por tal figura sinistra, aqui interpretado por Chris Sarandon, um actor fetiche de Holland, que consegue captar toda a essência estereotipada de um vampiro sedutor e milenar. Na outra margem é McDowall (do franchising Planet of the Apes) que recria o modelo variado de Peter Crushing e Vincent Price (duas figuras icónicas do cinema de terror).
Terror com laivos de comédia, Fright Night é um capaz e influenciável obra de horror com desempenhos carismáticos (talvez só Stephen Geoffreys esteja um pouco overrated), consegue criar um ambiente negro bem sucedido e prevalecer graças a efeitos práticos de mestria. Nos dias actuais, a fita de Tom Holland encontra-se de certa forma meio subvalorizada, mas é talvez dos exemplos mais divertidos do seu género e do seu tempo. Por isso antes de Lost Boys, Twilight e até mesmo Let the Right One In, Fright Night era e é o filme que se deve o qual, cravar os dentes.
Real.: Tom Holland / Int.: William Ragsdale, Chris Sarandon, Stephen Geoffreys, Roddy McDowall
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O Gato que deixou o Ogre!
Shrek está para a Dreamworks Animation como o Rato Mickey está para os estúdios da Walt Disney, e com o ogre verde que surgiu em 2001 origina-se assim um universo ainda por explorar. E então que após três sequelas de grande êxito, eis que surge o spin-off de uma das personagens que partilham o dito espaço com estrelar monstro verde, O Gato das Botas.
Tal como havia sido feito nas animações do estúdio, Puss in Boots é uma irreverência do famoso conto de Charles Perrault em combinação com outras histórias infantis como O Pé de Feijão de Benjamin Tabart, mas muito mais que isso é uma tentativa de lucrar com o personagem criado como sidekick nas aventuras de Shrek. Com isso o famoso Gato das Botas protagoniza uma aventura com toques e referências ao subgénero western e aproveita-se de todos os efeitos da voz de Antonio Banderas para concretizar um mundo referencial envolto da figura de Hollywood. Por mais estranho que pareça esta manobra financeira torna-se assim num entretenimento para tudo e todos que não vergonha ninguém, para além de mais indicia uma maturidade do estúdio em criar novas histórias e saber aplica-las no grande ecrã.
Puss in Boots tem todos os ingredientes que sempre nos fizeram gostar das produções animadas da Dreamworks, é alegre, de espírito aventureiro, ousado, amontoado de gags sendo que muitos deles são executados apenas como menções, graficamente impecável, vozes famosas mas cativantes e personagens de mesmo adjectivo. Mas neste filme nota-se a maturidade que vimos crescer ao longo dos anos, é que por vezes Puss in Boots esquece do espírito endiabrado e conduz automaticamente para uma vertente dramática quase clássica. É que quando realmente o filme de Chris Miller (um dos principais tarefeiros da Dreamworks Animations) deve puxar á emoção e a cativação, o consegue não da forma exemplarmente clássica digna de um filme da Pixar mas de uma ligeireza saudável e bastante acolhedora.
O resto é mais palha para enriquecer o universo de Shrek, aproveitando a onda das sequelas e spin-offs do estúdio. Trata-se de uma animação competente, de boas referências e de personagens bem desenhadas. Destaque para as vozes e química entre Antonio Banderas e Salma Hayek (só por este conjunto já é uma piscadela a uma certa obra de Robert Rodriguez – Desperado).
Real.: Chris Miller / Int.: Antonio Banderas, Salma Hayek, Zach Galifianakis, Billy Bob Thornton
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O saber não tem limites, segundo dizem!
Sabendo que somos os animais mentalmente mais capazes do planeta Terra e segundo algumas fontes apenas utilizamos 10% da nossa capacidade cerebral, a utilização total da nossa massa cinzenta nos elevaria a um estatuto de reflexão e sabedoria inimaginável, algo equiparado a deuses. Esta possibilidade é explorada em forma narcótica por Neil Burger (The Ilusionist) neste thriller misto ficção cientifica denominado de Limitless. A história segue um desinspirado escritor que descobre uma droga que desperta as capacidades cerebrais, porém o medicamento não encontra-se testado cientificamente. Logo cedo a personagem interpretada com rigor por Bradley Cooper (The Hangover) conhece uma fase sem limites na sua vida, mas esquecendo que por vezes os dons são seguidos por sacrifícios. Narrado de forma estilística e entusiasmante, Limitless é um fugaz exercício fantasioso que reconhece o seu valor e potencial mas que desperdiça aqui alguns horizontes que poderiam elevar a fita, e quando termina o espectador foca com sensação de nem metade do filme ter visto. Enfim, para além de Cooper, podemos contar com excelentes desempenhos de Abbie Cornish, Robert DeNiro e Andrew Howard. Interessante de ver!
Real.: Neil Burger / Int.: Bradley Cooper, Abbie Cornish, Robert DeNiro, Andrew Howard
A bela e o monstro para a geração IPhone!
A nova tendência do cinema adolescente, refazer os velhos clássicos da literatura e converte-los em “monumentos” contemporâneos e actuais (não referindo simplesmente aos espaços temporárias, mas como também aos tiques cinematográficos). A vítima foi uma história que tantos conhecem e alguns amam talvez graças ao clássico da animação da Disney de 1991, sim, refiro ao The Beauty and the Beast, ou traduzido para bom português, A Bela e o Monstro. Da história originalmente criada por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711 – 1780) este Beastly tem muito pouco, apenas referência e coincidências argumentativas, ou dos variados produtos teens com o selo da Disney e de um cero fenómeno chamado Twilight, a fita de Daniel Barnz quase se confunde. Cheio de personagens ocas e sem necessidade, uma actriz sem talento para representar (Vanessa Hudgens), uma conversação parva da história do clássico e uma noção lamecha e inconsequente de romance fazem deste Beastly – O Feitiço do Amor num dos piores do ano 2011. Felizmente nota-se um esforço em Alex Pettyfer, que em termos cinematográficos segue um muito mau caminho.
Real.: Daniel Barnz / Int.: Alex Pettyfer, Vanessa Hudgens, Mary-Kate Olsen
O Padre contra-ataca!!
Depois de ter sido um anjo caído do céu em Legion, o actor britânico, Paul Bettany volta a trabalhar com o realizador Scott Charles Stewart em mais uma adaptação de um graphic novel. Desta feita é o coreano Priest de Min-Woo Hyung, uma espécie de reinvenção da obra The Searchers de John Ford em que nos remete a um futuro alternativo de um mundo empestado por vampiros e outras raças sanguinárias em que um Padre (Paul Bettany), uma espécie de guerreiro santo, viaja por terras proibidas desertando da sua própria Ordem, com intuito de resgatar uma jovem que fora raptada pelos monstros vampíricos. O actor já visto em melhor forma em A Beautiful Mind de Ron Howard e Dogville de Lars Von Trier, encontra-se descaradamente automático, protagonizando um argumento rebuscado, minúsculo e carenciado por um universo mais credível. Tudo o resto são personagens descartáveis, sequencias de acção sem alma e algumas das quais são ridículas e um vilão sem grandes pretextos para sê-lo. Vale pelos efeitos visuais e pela fotografia, mas claro não é isso que justifique um filme. No final de contas ainda questionamos o que faz um actor como Christopher Plummer numa produção como esta. Felizmente a resposta seguiu directamente para DVD.
Real.: Scott Charles Stewart / Int.: Paul Bettanny, Maggie Q, Cam Gigandent, Karl Urban, Christopher Plummer, Lily Collins
Devoradores da Morte!
Tal como em Portugal, na Argentina, as estradas são uma constante batalha entre vida e morte. Face a tamanha sinistralidade rodoviária, Carancho explora as duas faces pós-acidente. De um lado encontramos aqueles que se dedicam a salvar vidas, representado pela pronto-socorro Luján (Martina Gusman), e da outra margem aqueles que exploraram os danos colaterais do mesmo, Ricardo Darin afigura essa oculta verdade em Sosa, um advogado de serviço privado pertencente ao grupo o qual são designados por “caranchos” (tradução para abutre), devido á forma como rodeiam as vítimas de tais tragédias e as artimanhas que utilizam para eduzir o máximo das seguradoras. Ambas as personagens interligam-se num romance como qualquer outro, mas as divergências dos seus mundos irão fazer sentir no desenrolar da história.
Carancho de Pablo Trapera leva o espectador a chocar com uma amarga realidade, retratando por diversas sequências a dita “máfia” que povoa na Argentina. Por estas e por outras, a fita tem tendência assumir-se narrativamente equiparado como qualquer filme de gangsters, mas a obra argentina se destaca por alguns dos planos longos e de câmara parada, o qual parece tudo acontecer ao mesmo tempo. Tendo invocado o realismo desejo, o ambiente pesado e os perfomances formidáveis dos seus actores (Ricardo Darin é um dos melhores actores da sua nacionalidade), Carancho parece perder algum folgo no desenrolar da sua narrativa, onde as personagens se revelam, inconsequentes face a tal desenvolvimento e a intriga dissipa-se para um contexto predeterminado.
Sente-se algum desperdício de talentos e uma falta de sensibilidade que poderia levar esta obra às portas do céu, mas merece a visualização e é capaz no seu meio de surpreender, nem que seja pela confirmação de Darin, que depois do magnifico e galardoado El Secreto de sus Ojos de Juan José Campanella, que cada vez mais se confunde como um Humphrey Bogart argentino.
Real.: Pablo Trapera / Int.: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber
O Discurso do Morto
Aaron Schneider é um director de fotografia, sendo que a virtude deste Get Low é de facto o seu tratamento visual. Tendo como trabalhos mais conhecidos em Titanic de James Cameron e Kiss the Girls de Gary Fleder, o agora convertido realizador se aventura neste western convencional de um infame ancião, Felix Bush (Robert Duvall) que decide organizar um funeral para ele próprio, acreditando que festas fúnebres deveriam ser feitas enquanto vivos e não mortos. Por isso cabe ao gerente da agência funerária (Bill Murray) da cidade em concretizar o dito velório, mas tudo isto é um pretexto para Bush revelar o segredo do seu isolamento a toda a cidade e as razões que o levaram a cometer.
Até ao fim da película, Get Low sempre consegue manter o seu grau de mistério enquanto a festa fúnebre é organizada sem nunca cair o erro de revelar os propósitos cedo de mais, a verdade é que a caminhada até aí chega a ser mais interessante que o próprio resultado, mas a fita de estreia de Schneider o faz com toque de personalidade e a escrita Chris Provenzano (da série Mad Men) e C. Gaby Mitchell (Blood Diamond) consegue desmistificar a lenda de Felix Bush no seu correcto propósito.
Get Low ainda se revela como um delicado orquestração de actores, liderados por um Robert Duvall enigmático mas deveras competente, um Bill Murray no seu melhor e o regresso de Sissy Spacek, quase desaparecida na cinematografia dos dias de hoje. Porém a pequena revelação da fita em termos interpretativos chega a ser Lucas Black (visto no terceiro Fast and Furious e Legion) que aguenta a pedalada nas sombras de actores veteranos e mais experientes. Sem querer destacar das demais obras do ano, Get Low consegue ser um interessantíssimo filme onde os actores e as qualidades técnicas são irrepreensíveis. Uma excelente estreia na cadeira de realizador.
Real.: Aaron Schneider / Int.: Robert Duvall, Bill Murray, Lucas Black, Sissy Spacek
Comédia no feminino!
È muito difícil encontrar verdadeiro cinema feminino nas nossas salas, quando digo isto falo obviamente da construção das personagens e do tratamento da mulher aos olhos da indústria cinematográfica. Ora temos o sexo feminino como um modelo do fútil e escravas da moda em The Sex and the City, ora temos o romance histérico que classifica a mulher como a eterna e ingenuamente apaixonada e por fim o puro mártir (Twilight e arredores). Mas contra tais visões eis que surge no seio da Hollywood industrial, Bridesmaids, uma comédia com o cunho de Judd Apatow que vem contrariar todas as probabilidades e com um pormenor destacar do resto dos filmes estreados este ano nas nossas salas, porque simplesmente retrata as personagens femininas com mais carácter e carnalidade que o dito cinema feminino que existe nos dias de hoje.
A Melhor Despedida de Solteiro (titulo em português) é narrativamente previsível e pouco original, cobiçando uma ideia comum dos chamados wedding movies. Mas o seu verdadeiro toque como já referido está presente nas bem desenvolvidas personagens que vagueiam nesta história de confusões e gags que de certo não irá cometer gargalhadas “até á cova”, mas que nos irão provocar um sorriso malicioso e ácido, coisas que Apatow sabe fazer tão bem. Os diálogos ousados e ordinários própria marca do produtor encontram-se adaptadas e nada rebuscadas nas personagens, Paul Feig (Knocked Up) demonstra na perfeição é um dos mais fies apóstolos.
Bridesmaids ainda consegue se beneficiar á conta de um elenco carismático, entre elas a estrela em ascensão na comédia, Kristen Wiig (também autora do argumento), que consegue criar uma protagonista um quanto mordaz, mal intencionada, mas acima de tudo humana e sólida. Ao seu lado, como também ao seu nível está a cintilante Rose Byrne, mas é em Melissa McCarthy (que partilha com Wiig e Maya Rudolph, o facto de terem integrado o Saturday Night Live) que encontramos os momentos mais divertidos. Adverso a tal adjectivo está Maya Rudolph, limitada ao papel secundário e quase ausente intrinsecamente.
Nas vastas comédias que surgiram este ano, Bridesmaids é um dos exemplos mais destacados, não por ser divertido o quanto baste, mas é um filme que valoriza a mulher como espectadora e são pouco as fitas que conseguem tal feito. Pode não ser original, mas é … profissional!
Real.: Paul Feig / Int.: Kristen Wiig, Rose Byrne, Maya Rudolph, Terry Crewes, Melissa McCarthy
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Um filme de aço!
Existe algo que realmente faz-nos gostar de Real Steel, a nova obra de Shawn Levy, o facto de nos despertar as mais clássicas emoções que o cinema é capaz de nos proporcionar. E a obra que mistura cinema familiar com ficção científica consegue faze-lo de forma tão exemplar mas ao mesmo tempo de maneira simples, sem ousadias, sem criatividades e sim, de forma previsível.
Real Steel – Puro Aço nos remete a um futuro próximo onde os desportos de luta como o boxe encontram-se em vias de extinção, já que os humanos são substituídos por robôs. No meio deste cenário encontramos Charlie Kenton (Hugh Jackman), um ex-pugilista que sobrevive agora na promoção de lutas das ditas máquinas. Contudo a vida deste está preste a mudar quando tem que lutar pela custódia do filho (Dakota Goyo), o qual nunca teve presente, e treinar e programar Atom, um robô antigo que desperta em Charlie a vontade de vencer não por fins comerciais mas como realização pessoal.
Meio Rocky e meio The Iron Giant, Real Steel de Shawn Levy conta assim como o regresso do autor em voltar a entrelaçar a relação entre pai e filho, como fez com Night At the Museum (2006), aqui o consegue de forma quimicamente capaz devido a Hugh Jackman, que já nos habituou com o seu forte carisma e por Dakota Goyo que consegue construir um personagem infantil longe da ingenuidade angelical que muitas vezes Hollywood comercial retrata sem estudo. Trata-se assim de cinema para toda a família, onde o mais novo pode vibrar com os efeitos visuais de grande esplendor e pelos “simpáticos” robôs que se auto-destroem no ringue e para os graúdos, um regresso ao espírito clássico que muitos filmes conseguiram proporcionar em termos de emoções.
Ora bolas, não é perfeito, tem certos deslizes na narrativa e no tratamento de algumas personagens e a previsibilidade não é bem factor a seu favor, mas este gigante de aço desperta emoções, carinho, simpatia e estilo e acima de tudo … diverte. O que mais poderíamos pedir num filme singelo como este!
Real.: Shawn Levy / Int.: Hugh Jackman, Dakota Goyo, Evangeline Lilly
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X-Men Begins!
X-Men ainda hoje arrecada um certo estatuto inovador no universo dos comics, conseguindo levar inúmeros problemas sociais como a discriminação para as páginas aos quadradinhos sempre recheados de muita fantasia e acção. Criado em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, a banda desenhada inicialmente não foi um sucesso, mas em termos artísticos conseguiu ser mais significativo que muitas das anteriores criações da Marvel Comics. Vivíamos numa época em que o medo comunista consumia quase como fobia os EUA, o racismo estava pouco a pouco ser combatido e a homossexualidade a ser defendida, tudo isto se encontrava de certa forma estampada metaforicamente nas páginas destas BDs, as suas temáticas enriqueciam um universo que conseguiu prevalecer até aos dias de hoje.
A série ilustrava um mundo em que o homo sapiens sapiens (o ser humano) encontrava-se de certa forma ameaçada, cuja ameaça deparava embutida no seio da sociedade – os mutantes. Clara alusão às diferenças sociais de algumas minorias, os mutantes eram humanos extraordinários, munidos por dons ou super-poderes (conforme o quiserem chamar). Alguns deles como Xavier (vulgarmente baptizado por Prof. X), defendiam a sua causa, o direito á existência e integração na sociedade, outros como Erik Magnus Lehnsherr (a.k.a Magnetto) pretendiam a soberania da espécie.
Após terem sido adaptados inúmeras vezes para a pequena tela como séries animadas, foi no cinema que X-Men rendeu milhões, graças a uma trilogia cinematográfica de Bryan Singer (Brett Ratner que dirigiu o derradeiro terceiro filme foi apenas um “tapa-buracos”) e um spin-off de uma das personagens mais carismáticas deste universo, Wolverine (realizado por Gavin Hood), que também faz uma pequena aparição neste First Class, uma prequela / reboot, conformem querem o chamar, não cronológica, que promete criar uma nova via para a expansão do franchising e das suas personagens.
O realizador é Matthew Vaughn, o homem que nos revelou Daniel Craig como o 007 da nova geração em Layer Cake (2004) e que nos ofereceu ano passado um dos filme mais divertidos da sua temporada, Kick Ass, que por coincidência é a conversão de uma graphic novel de culto de Mark Millar. Aliás foi o resultado da obra anterior, que fez com que os estúdios da 20th Century Fox apostassem nela. Ao contrário da obra Mark Millar, em X-Men o risco era maior, porém Vaughn dirigiu-o com tamanho rigor no seu contexto histórico, fazendo com que a aventura fosse fiel ao tempo em que decorre, anexando-o ao projecto os mais variados adereços dos anos 60, como por exemplo a eminência da Guerra Fria. Evidentemente sem isto, X-Men – The First Class resultaria numa banal alusão ao universo dos super-herois de BD, que se encontram actualmente como obras vulgares e rotineiras.
Para o fervoroso fã da anterior trilogia e do spin-off, fica o conselho para esquecerem por momentos que tais obras existiram, porque em X-Men – First Class somos levados para uma intriga que desvirtua a própria cronologia da saga. Mas não é por isso que a fita fica condenada, porque realmente o argumento, a narrativa entusiástica e mesmo o elenco são cativantes (principal destaque para o carismático Michael Fassbender).
A aposta está ganha, Matthew Vaughn foi o homem certo para dirigir um elenco jovem em personagens célebres e veteranas. Tudo se resume a uma fita de super-heróis com identidade própria, que se vinga no meio de tanto amontoado de adaptações de comics, porém dentro do universo X-Men, a fita enfraquece quando é incompetente em relatar a química entre as duas personagens rivais mais relevantes da banda-desenhada (Xavier e Erik / James McAvoy e Michael Fassbender), cujas ligações são inexistentes e retalhados devido ao destaque da intriga de conspiração que a narrativa adquire. Contudo mesmo não sendo esplendoroso, altamente refrescante e sólido como um The Dark Knight de Christopher Nolan, First Class continua a ser uma excelente aposta nesta vasta gama de blockbusters de Verão, é o novo fôlego para a saga da Marvel.
Real.: Matthew Vaughn / Int.: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Kevin Bacon, Oliver Platt, Rose Byrne, January Jones
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Dois Actores Vs a Crise!
È curioso assistir á reunião de duas estrelas de cinema imponentes, mas que nos dias de hoje enfrentam as suas maiores crises, combatendo o pior inimigo de qualquer actor do cinema industrial, a idade. Tom Hanks e Julia Roberts podem muito bem encontrar-se nos rankings das vedetas mais rentáveis do cinema, mas é verdade que na actualmente a concorrência é grande, os fãs como os espectadores são outros e os filmes, obviamente mudaram o seu estilo. Mas mesmo assim as estrelas furor dos box-office formam este par no feel-good Larry Crowne, que marca também o regresso do actor de Big e The Da Vinci Code á cadeira de realizador, quinze anos após That Thing You Do! (1996). O actor também esteve encarregue do argumento, ao lado de Nia Vardalos (My Big Greek Wedding), a rainha do “modernos contos de fadas”.
Larry Crowne nos apresenta o homónimo empregado (Tom Hanks) de um armazém de revendas que é despedido após uma renovação de pessoal e confrontado com o tempo livre e com as dificuldades que avizinham decide então regressar á faculdade. Lá apaixona-se pela professora de um curso de discurso, Mercedes Taylor (Julia Roberts), cuja vida social encontra-se num perfeito caos.
Comportando-se como uma comédia romântica, Larry Crowne, quer como filme e personagem se apresenta como um retrato da América desafiada pela crise financeira e comercial mas sempre finalizado pela esperança. Hanks nos apresenta maduro na realização, comprometendo-se a aquecer os corações dos espectadores afectados pelo estado actual do país, e ao mesmo tempo alertando-o pelo obvio, cujo cego é aquele que realmente não quer ver em seu redor. Feito com pequenas mensagens como dicas, Larry Crowne desafia também o publico a seguir os sonhos mesmo sob clima de prevenção, uma abordagem classicista e predilecta dos filmes feel-good de Hollywood, mas Hanks o faz com intenção e esse mesmo nota-se na sua personagem criada, algo que deve muito á sua encarnação em Forrest Gump, em que as limitações não se tornam barreiras. Mesmo não sendo brilhante, Hanks consegue compor uma figura afável e acolhedora para o espectador.
Julia Roberts encontra-se no seu mesmo formato, porém a sua química com o protagonista formam a dupla irresistível e um must para o filme. É fácil identificar que sem eles, este Larry Crowne não funcionaria realmente. Destaque para a revelação de Gugu Mbatha-Raw, que já foi vista em Straightheads (Dan Reed, 2007) ao lado de Gillian Anderson. Larry Crowne é assim, uma fita acolhedora, de esboçar um sorriso, mas que no fundo se resume a um clássico ensaio de actores. E que actores!
Real.: Tom Hanks / Int.: Tom Hanks, Julia Roberts, Gugu Mbatha-Raw, Taraji P. Henson, Cedric The Entertainer
Humanos – Raça em Extinção!
Depois de se aventurem em território romereano com Undead (2003), os irmãos australianos Spierig (Michael e Peter) se mudam para Hollywood e se vendem á febre dos vampiros com Daybreakers. Por momentos somos obrigados a gostar desta variante futurista das criaturas sanguinárias, em que a visão dos Spierig nos revela um futuro alternativo em que os vampiros são a maioria e os humanos a raça em extinção. O par de realizadores / argumentistas exploram a escassez dos recursos naturais com esta metáfora fantasiosa, mas logo a narrativa se cede para um exercício de estilo gore em que as inverosimilhanças, que são muitas, se fazem sentir. Não é desta que a febre vampírica se justifica, e cada vez mais ficamos com ideia de que se trata de uma moda adolescente passageira em prol dos contos de Stephenie Meyer. Porém ao contrário da “romantic soup” da série Twilight, Daybreakers faz jus ao sangue derramado que tanto envolveram o mito dos vampiros, e vale sobretudo pelo elenco (Ethan Hawke, Willem Dafoe, Sam Neill), mesmo sob forma automática.
Real.: Michael e Peter Spierig / Int.: Ethan Hawke, Sam Neill, Willem Dafoe
Minimeus Contra-Atacam!
Em 2006, Luc Besson adapta ao grande ecrã dois livro de fantasia Infanto-juvenil da sua autoria, Arthur et les Minimoys (2001) e a sequela de 2003, Arthur et la Cité Interdite, combinando imagem real com animação motion capture, o qual resultou numa das mais caras produções de sempre da Historia do cinema francês. Sendo a série literária composta por quatro livros, Besson segue na em direcção á recta final das suas próprias adaptações cinematográficas, desta vez convertendo o seu terceiro livro – Arthur et la vengeance de Maltazard. Em primeiro lugar, o segundo filme da saga possui todos os sintomas de “ponte” para o último capítulo (Arthur et la Guerre des Deux Mondes), em que a fita termina em modo “cliffhanger” e no preciso momento que atinge todo o seu clímax. Todavia em comparação com a fita de 2006, a história é reduzida e amontoada de “palha descartável” como por exemplo todo aquele background envolto da personalidade de Snoop Dog (que empresta a voz a uma das personagens na versão inglesa). Arthur et la Vengeance de Maltazard é fiel ao seu antecessor, sendo que a imaginação de Besson soe um pouco limitada e dependente de muitos outros contos de fadas, sem isso que consiga construir algo sólido e palpável. A animação mesmo sendo superior á prequela, continua a ser demasiado artificial e defeituosa. Mesmo assim vale pelo elenco e pelo vilão Maltazard que conta com a voz do musico Lou Reed.
Real.: Luc Besson / Int.: Freddie Highmore, Robert Stanton, Mia Farrow, Selena Gomez, Lou Reed, Snoop Dog
Comida com alma!
Do consagrado realizador alemão de origem turca, Fatih Akin, que interrompeu a sua trilogia dramática Love, Death and the Devil (actualmente composto pelos filmes Head-On e The Edge of Heaven), Soul Kitchen é a sua passagem por um território de tom mais ligeiro. A história segue um alemão de raízes gregas, Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos), que se rodeou por uma série de eventos infortúnios; o restaurante o qual é dono (de nome Soul Kitchen) está a perder clientela a um ritmo alarmante, sendo a sua venda inevitável, o seu irmão irresponsável acaba de sair da prisão e está prestes a tomar conta dos negócios da família, a namorada seguiu carreira em Xangai e Zinos acaba de sofrer com uma hérnia nas costas. Akin explora o restaurante do título do filme como o espaço para o desenvolvimento dos seus personagens, principalmente da relação sempre mutável entre os dois irmãos, tudo filmado com um certo toque cómico um quanto burlesco, mas sempre atento ao ponto vista dramático e da visão panorâmica do autor em conformidade às proveniências dos seus personagens. Com o jeito pop não se funde á inconsequência, porque Soul Kitchen consegue ser maduro como igualmente sedutor e divertido. O argumento é da autoria do próprio actor Adam Bousdoukos, que inspirou-se na sua vida.
Real.: Fatih Akin / Int.: Adam Bousdoukos, Moritz Bleibtreu, Birol Ünel
Favela Complexada!
Pedro e Mário Patrocínio, dois irmãos portugueses, pegaram nas suas câmaras que iniciaram este retrato insólito dentro do Complexo Alemão, uma favela apenas a 13 quilómetros do Cristo Redentor. Trata-se nos dias de hoje a mais perigosa favela do Rio de Janeiro e o maior paiol de armas e drogas da cidade. Porém este documentário do dia-a-dia de muitos dos habitantes deste quotidiano, não se limita a cair no sensacionalismo e na captação da “miséria humana”. Mas sim na recolha de dados e informação que desmantelam o funcionamento social desta temida comunidade.
Complexo é assim uma peça fundamental no estudo social e humano dos guetos brasileiros, em particular foca a visão do povo face ao poder político e das autoridades, cujos actos provocam revolta nos habitantes. Infelizmente a fita documental de Pedro e Mário Patrocínio não encanta na perfeição, como principais defeitos encontramos pouca cativação em muitas das histórias dos seus protagonistas, os tais que constituem o Complexo Alemão. Muitas vezes recorrendo ao simples relato de vida e não da relação simbiótica entre eles e a comunidade. Fazendo com que o documentário bate em becos sem saída na sua narrativa, que não consegue fluir na perfeição.
Porém tudo isso é recompensado com o excelente trabalho por detrás das câmaras da nossa dupla de realizadores, e a sua foça e estimação num projecto que não cede o fácil e o maniqueísmo da realidade brasileira vista por fora. Um objecto que se estima pelo seu conteúdo, mas que poderia ser levado além de algumas barreiras sociais.
Real.: Mário e Pedro Patrocínio
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