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Take
21.9.14

Este filme não é para velhos!

 

Na sua primeira longa-metragem, Hermes Paralluelo filma os seus próprios pais como personagens decadentes acorrentadas a um sistemático ciclo de rituais e gestos. Poderíamos aclamar que este No Todo es Vigilia é algo que bebe da mesma água que um Hiroshima, Mon Amourde Alain Resnais, por exemplo. Isto pelo simples facto desta ser uma ficção enraizada na veia documental ou, simplesmente, por um conceito simplista, um documentário que durante o seu processo resultou numa mostra híbrida, ficcional e, em simultâneo, renunciando tal categoria.

 

 

Paralluelo aborda uma história de amor, não no momento ardente da sua paixão, mas no conforto acostumado com o seu par. Existe afecto aqui e o espectador sente isso quando visualiza imagens de insuportabilidade psicológica seguida por um perdão silencioso de quem ama. O realizador consegue uma obra alicerçada por planos magistrais e uma fotografia fantasmagórica, que acentuam o vazio e a solidão iminente. A rotina é aqui o centro do espectáculo, da mesma forma que os paradoxais diálogos governam uma narrativa decadente, cujo desenvolvimento comporta como uma mera entidade invisível e acossadora. No fundo as ideias deste primeiro filme são estas: a fobia da "velhice", o medo da solidão e o ciclo rotineiro que se dá como "cartão de visita" para o fim dos elementos.

 

 

Neste aspecto No Todo es Vigilia resulta na perfeição mas, como primeira obra, a presunção precoce do realizador acentua um desfecho tardio e sequências non sense que reafirmam o que já havia sido dito. Um dia chegaremos assim, decadentes no tempo, mas loucos viventes das "folgas" impostas pela morte. Folgas essas lentas, quase e desesperadamente imperecíveis. Hermes Paralluelo constrói a homenagem digna ao amor dos seus pais, o olhar no passado com dedicação e afecto que só um filho poderia dar. Nisso, No Todo es Vigilia é admirável.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Hermes Paralluelo / Int.: Antonio Paralluelo, Felisa Lou

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:41
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17.9.14

O incomodo convidado!

 

Segundo o próprio realizador, Adam Wingard, The Guest foi baseado na banda sonora típica e minimalista dos anos 80, com especial referência ao cineasta John Carpenter. Talvez seja por esse motivo que esta obra datada de 2014 tenha muitas influências do estilo despreocupado e por vezes trash do cinema desse realizador e é nessa composição que encontramos a fórmula do seu sucesso. Depois de You're Next, Wingard volta a debater-se com convidados indesejados nesta intriga a que sujeita uma família, os Peterson, destroçada e em luto pelo óbito prematuro do seu filho mais velho, morto em serviço no Iraque. Certo dia, os Peterson recebem uma visita inesperada, um dos camaradas do seu filho, David (Dan Stevens), que surge com o intuito de prestar auxílio e apoio à família devastada. Um amigo bem-vindo que subitamente se torna numa misteriosa ameaça.

 

 

The Guest, estreado no último Festival de Sundance, é um filme conduzido por um ritmo frenético, imparável e eficaz, um divertimento lúdico, porém de paladar nostálgico e muito eighties. O jovem actor Dan Stevens é implacável na sua sinistra personagem, que desde cedo transfere para o grande ecrã um clima de suspeita gradual. A sua jornada repleta de diversos twists, que nada impedem The Guest de seguir os seus propósitos iniciais, é minada por inúmeros gags hilariantes e enredo no mínimo astuto, cheio de personagens caricaturais. Porém, as ditas influências de Carpenter revelam-se no preciso momento que se dá o major twist, a veia trash acentua-se na trama e são continuamente disparados referências que deliciarão os espectadores mais conhecedores dos tais toques "carpenterianos". Um pouco de Halloween ali, Escape from New York acolá, ou até mesmo Assault on Precinct 13 noutro momento. Carpenter com fartura e o melhor é que Adam Wingard o reconhece.

 

 

The Guest é uma proposta aliciante que reúne os géneros de thriller e acção sob um registo próximo do terror, apto para agradar a um público muito diverso. Infelizmente, e apesar dos bons momentos, a nova fita de Adam Wingard está longe de ficar na memória, limitando-se a um amontoado de referências e pouco mais. Mas volto a sublinhar, é divertido que se farta!

 

Filme visualizado no MOTELx 2014: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Adam Wingard / Int.: Dan Stevens, Sheila Kelley, Maika Monroe

 

 

Ver também

You're Next (2011)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:52
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13.9.14

Realidades expostas!

 

O maior trunfo de Coherence é encontrar coerência no absurdo, pelo menos é o que à partida grande parte dos espectadores irá julgar. A primeira obra de James Ward Byrkit foi concebida inicialmente como ideia a de concretizar um filme sem equipa técnica e argumento, tendo como set a sala de estar do próprio realizador. Contudo, o dito argumento surgiu de pára-quedas a Byrkit (que também escreveu o filme), que fascinado pela raciocínio cientifico, decide então executar o guião para o grande ecrã, dando origem a uma complexa obra que desafia as próprias leis da industria cinematográfica do género.

 

 

Em Coherence não encontramos nenhuma distopia evidente, nem mesmo uma revisita aos lugares-comuns. Tudo se resume a um filme de baixo orçamento muito limitado em recursos e com atores sob o efeito do improviso, mas munidos por um trunfo: um argumento eficaz em conceber uma credível explicação ao sucedido - mesmo quando se trata de mexer em temas como física quântica, metafísica e outras teorias difíceis de engolir. Muitas dessas disciplinas soam como "chinês" para a maioria dos espectadores, mas tais são adaptadas de uma forma concebível e perceptível. É o conceito de Schrödinger (as diferentes realidades e possibilidades em convivência lado-a-lado) levado ao grande ecrã, em comunidade com a fantasia descrita por Byrkit.

 

 

Coherence é uma pequena surpresa no seu campo. Envolvente, astuto, quase sem falhas na sua concepção, com um elenco que consegue aperfeiçoar as suas respectivas personagens, com principal destaque para Emily Baldoni (uma actriz quase condenada a pequenos papéis televisivos), e atmosférico o suficiente para nos transportar para a sua realidade (um ponto a favor na música composta por Kristin Øhrn Dyrud). Ou seja, eis um exercício cientifico posto e transitável à prova. Uma recomendação: para quem é aficionado por ficção cientifica inteligente, mas saturado do histerismo cinematográfico do costume, não pode perder este Coherence.

 

Filme visualizado no MOTELx 2014: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: James Ward Byrkit / Int.: Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:05
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10.9.14

A história do “homem de areia”!

 

Uma bateria de Billy Conway, um saxofone barítono de Dana Colley e um baixo de duas cordas tocado pelo também vocalista Mark Sandman, uma estranha composição de instrumentos que ninguém acreditaria que fosse capaz de gerar tão distinta e única música de low rock nos anos 90. Tinha o nome de Morphine, uma banda norte-americana que ficou celebre pela alienação dos seus sons, pelo estranho conjunto de instrumentos e pelo carisma do reservado Mark Sandman, o qual este documentário dirigido pela dupla Robert Bralver e de David Ferino e produzido por Jeff Broadway dedica por completo.

 

 

Cure for Pain: The Mark Sandman Story (alusão aquele que foi para muitos o melhor e inovador dos álbuns da banda) nos apresenta de forma poética, envolvente e explicita a vida deste artista completo e talentoso, o seu passado marcado pela tragédia familiar, o sucesso mundial da banda e a influência da sua música na sociedade dos anos 90 até chegar a sua literal queda em palco derivado a um ataque cardíaco que o vitimou durante um concerto em Palestrina, Itália em 1999.

 

 

Conservado a aura mítica envolto da figura retratada, Cure for Pain consegue ser emocionante nos seus testemunhos e na transposição da união do seio musical quando um dos seus membros os deixou sob circunstâncias abruptamente trágicas e dramáticas. Um tributo algo obrigatório para todos os fãs da banda e não só, amantes de música em geral, onde a imagem de Sandman é restaurada e abordada tal como ela é, sem embelezamentos e bajulações exageradas. Uma personalidade misteriosa a descobrir a todo o custo. Por fim, Cure for Pain: The Mark Sandman Story ainda nos presenteia com as entrevistas de Ben Harper, Josh Homme (vocalista e guitarrista de Queen of the Stone Age), Mike Watt (baixista dos The Stooges) e Les Claypool (Primus).

 

Filme visualizado no MUVI Lisboa’14: Festival Internacional de Música no Cinema

 

Real.: Robert Bralver, David Ferino / Int.: Mark Sandman, Chris Ballew, Dicky Barrett, Les Claypool, Ben Harper, Hosh Homme, Mike Watt

 

 

Ver Também

Anyone Can Play Guitar (2009)

Leave the World Behind (2013)

Our Vinyl Weighs a Ton: This Is Stones Throw Records (2013)

Marina (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:11
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26.8.14
26.8.14

 

Ela vai chegar aos 100%, isso é uma certeza!

 

Nos tempos que decorrem, de Luc Besson não se espera “grande” coisa, muito menos algo alusivamente astuto como se tornou este Lucy. Mas para entender este “out of box” dos blockbusters de Verão deveremos recuar uns valentes anos e afastarmos do cinema. Em 1973, uma equipa de arqueólogos que buscavam artefactos sobre a origem humana na Etiópia, depararam-se com um fóssil de um hominídeo, na altura desconhecido para o Mundo, bastante mais antigo que os fosseis descobertos até então. Semelhante a um chimpanzé, mas com o crânio muito mais desenvolvido, teorizando que este mesmo animal possuiria uma intelecto superior que o do referido primata, os ossos ainda evidenciavam o surpreendente, este animal conseguiria caminhar “erecto”, uma posição que ditou para sempre a evolução do Homem, fazendo com que largássemos as florestas arborizadas e caminhássemos pelas vastas savanas. O leitor de momento estará a perguntar o que de relacionado tem este facto paleontólogo e antropólogo com o filme protagonizado por Scarlett Johanson, bem esse mesmo hominídeo, tendo em conta os ossos da pélvis, era uma fêmea e curiosamente foi baptizada de Lucy. Reza a “lenda”, que na altura da sua descoberta passava na rádio o single Lucy in a Sky with Diamonds” dos Beetles.

 

 

Pois bem, Lucy foi a Eva da Ciência, a primeira Mulher descoberta e a sua relevância para o conhecimento de onde viemos e como chegamos até aqui é crucial. Agora no mundo cinematográfico, Lucy será a primeira mulher, se não personagem, a atingir os 100 % de uso cerebral, regendo por especulações cientificas e pelo bom nome da sci-fy, um ridículo “what if” que surpreendentemente torna-se num produto munido duma inteligência experimental e ao mesmo tempo lúdica. Assim iniciamos com a sequência de um primata a “matar” a sua sede num lago, nesta altura o cinéfilo apanhado de surpresa identifica tal cena com uma similar na incontestável obra-prima de ficção científica de Stanley Kubrick, 2001: A Space Odyssey.

 

 

Porém o leitor já deve aperceber e tendo em conta a longa divagação desta critica que tal animal é Lucy, o dito hominídeo fêmea, o filme encarrega-se mais tarde de identificar a criatura, mas entretanto somo apresentados à nossa Lucy, uma vistosa Scarlett Johanson que nos primeiros minutos tem a difícil missão de entregar uma maleta de conteúdo desconhecido a um sujeito de iguais características numa redacção de hotel em Taiwan (a “piscar” os olhos ao mercado asiático). Neste momento o espectador sente que algo não está bem e que depressa acontecerá o inevitável, um dispositivo que nos guie automaticamente ao enredo da fita. Luc Besson aufere assim a expressão a esta inicial sequência, usufruindo de uma montagem intercalar - enquanto que Lucy se aproxima do seu “alvo”, as imagens duma gazela a ser encurralado por uma chita intervêm sem aviso – invocando a memória das experiências executadas pelos cineastas russos de Bolchevique (à memória surge-nos Sergei Eisenstein e o seu Stachka - A Greve, a constante mudança entre conflitos de trabalhadores / autoridades com imagens de matança de um bovino).

 

 

Depois do enredo principal ser então arrancado, Morgan Freeman entra em acção em modo interveniente, situando o espectador à promessa do filme, os ditos controlos cerebrais e suas consequências (ou dádivas). Como é óbvio a narração de Freeman é carismática, confortante e acima de tudo sábia, ele é o gamekeeper deste ensaio futurístico e é com ele que se inicia a contagem crescente ao propósito do filme. Escusam de negar, a verdadeira intenção de Lucy foi apresentada muito antes de ser visualizado, quer no poster ou trailer, as condições de contrato deste novo produto de Besson é visualizar um exercício de possibilidades e nada mais, a chegada dos 100% e a criação quase “shelleana” que se gerará. Scarlett Johanson vagueia por essa mesma jornada, a demanda pelo conhecimento tal como a “primitivaLucy deu aos estudiosos em 1973. A capacidade de assistir ao próximo passo da evolução humana. Obviamente que tudo não passa de uma sugestão cinematográfica ou da teoria do mais fértil e imaginativo geek, mas o filme sabe “controlar” essa vertente e com isso um espectáculo visual e por vezes narrativo.

 

 

E em segundo plano são convocados todos os elementos dignos do já estabelecido cinema de Luc Besson. Os tiroteios, lutas corpo-a-corpo, perseguições e como não poderia faltar, uma França vista pelos olhos dos americanos, ingredientes que tão bem sabem à “reinvenção bessiana”, mas em doses menores e facilmente doseáveis que as obras anteriores. Mas Lucy prevalece como uma “ovelha negra” dentro desse mesmo rebanho, um previsto videoclipp que acaba por se tornar numa vistosa e desafiante fantasia científica. Por fim vale a pena salientar Min-sik Choi, visto no excelente Oldboy de Chan-wook Park, um arrepiante e magnético “vilão de serviço”, um complemento frenético com uma sedutora e fria Johanson.

 

"Life was given to us a billion years ago. Now you know what you can do with it."

 

Real.: Luc Besson / Int.: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi, Amr Waked

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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12.8.14

Os Vingadores do Espaço sem fronteiras!

 

O estatuto da Marvel como produtora cinematográfica é tal que chegaram a contratar o quase desconhecido, mas competente, James Gunn (quem se lembra de Slither?) para dirigir uma das suas apostas mais arriscadas. Trata-se de Guardians of the Galaxy, uma das séries mais alternativas da Marvel enquanto editora, constituído por um elenco pouco apelativo para as grandes massas, mas que mesmo assim conseguiu um hype estrondoso durante os seus primeiros dias em cartaz, um frenesim que nenhum outro filme da Marvel havia "gozado" desde então. Mas será esse dito hype, algo merecido ou um puro exagero? Perguntam vocês e muito bem.

 

 

Na verdade, Guardians of the Galaxy resume-se a um filme fresco dentro dos parâmetros formatados do estúdio e com um claro bom gosto ao vintage. Esse último ponto torna-se evidente a banda sonora, uma alegoria de êxitos dos anos 70 e 80 (de David Bowie a Marvin Gaye, passando pelo vibrante Hooked on a Feeling, dos Blue Swede) e o tom satírico da obra que o distingue do humor quase "slapstick" dos anteriores capítulos da Marvel Cinematic Universe.

 

 

Quanto ao enredo, este centra-se na aventuras de cinco "desajustados" fora-da-lei inter-galáticos que decidem intervir para o bem de todo o Universo, ou seja, impedir que os maléficos planos de um vilão de serviço se concretizem. Esse dito "quinteto de cordas" é constituído pelo terráqueo John Quill e o seu forçado "alter-ego" Star-Lord (a ascensão de Chris Pratt para futura estrela), a assassina Gamora (Zoe Saldana e mais uma variação alienígena, desta verde), o brutamontes com problemas de expressão Drax the Destroyer (o wrestler Dave Bautista), a simpática árvore mutante Groot (Vin Diesel naquele que poderá ser o melhor papel da sua carreira e apenas munido com um frase, repetindo vezes sem conta) e por fim o guaxini rezingão e malicioso Rocket (Bradley Cooper). A química entre eles é impagável e invejável, sendo os cinco o "motor" de todo o filme, e talvez o motivo que baste para tornar a obra de James Gunn na melhor variação cinematográfica da Marvel Studios. Se não for o caso, talvez contagiado pelo hype envolto, Guardians of the Galaxy é por enquanto o mais divertido filme deste universo desde que Robert Downey Jr. vestiu pela primeira vez o fato metalizado de Iron Man.

 

 

Um deleite cómico aspirado nas aventuras cinematográficas mais antigas do que o habitual standard da linguagem de videojogo que muitos dos blockbusters parecem ter adquirido. É visível que James Gunn inspirou-se em Firefly/Serenity (atenção o criador desta série, Joss Whedon, é já um dos braços fortes da empresa) e em Star Wars, este último talvez a matriz de todo os filmes para as massas da actualidade, e tais comparações são ainda mais evidentes com a chegada do climax (o ato menos conseguido de todo o filme), onde o qual esboça um "déjà vu" arrastado (será que estou a ver a invasão dos rebeldes à Estrela da Morte!) e prejudicado por um vilão sem um pingo de carisma nem interacção com o quinteto heróico (tirando Loki de Tom Hiddlestone, a Marvel Studios não consegue criar mais nenhum memorável vilão).

 

 

Dito isto, há que salientar que a entrada de Gunn no mundo do blockbuster é ditado por uma das mais deliciosas conversões da BD, mas nem tudo são "rosas" aqui. Existe obviamente e dentro do cinema de entretenimento muitas arestas a ser limadas, e como jubilo cinéfilo é triste ver o desaproveitamento de atores como Glenn Close e Djimon Hounsou. Porém, a maior infelicidade do filme é talvez o seu destino frente à fervorosa maquina de "fazer dinheiro" que é a Marvel. O que preocupa aqui são os universos partilhados, que transforma talvez segmentos da banda desenhada que poderiam ser interessantemente explorados no grande ecrã em produtos modelizados por uma maquina industrial. Sabendo que será difícil digerir um elo que interliga o mundo de Guardians of the Galaxy com os anteriores Iron Man, Hulk e Thor, qualquer coisa que equivale a criar um crossover de Star Wars com The Lord of the Rings, demasiadas incoerências do que similaridades. Mas este ponto já é algo que deveríamos ter em conta muito antes de termos visualizado a obra, a Marvel não brinca em serviço no que requer em agradar as suas exigentes legiões de fãs. Ainda assim, Guardians of the Galaxy funciona como um filme a solo e por enquanto podemos por momentos fingir que se trata disso. Por enquanto, a sequela já se encontra a caminho ... e com mais "awesome mixtapes".

 

"I am Groot"

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper, Zoe Saldana, Dave Bautista, Glenn Close, Djimon Hounsou, Lee Pace, Josh Brolin, Karen Gillan, John C. Reilly, Benicio Del Toro, Seth Green

 

 

Ver Também

Iron Man (2008)

Iron Man 2 (2010)

Iron Man 3 (2013)

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The Incredible Hulk (2008)

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Thor: The Dark World (2013)

Captain America: The First Avenger (2011)

Captain America: The Winter Soldier (2014)

The Avengers (2012)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:41
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27.7.14

Sobrevivência a alta velocidade!

 

Para contornar o Aquecimento Global, vários países acordaram em lançar um gás que pudesse refrigerar o planeta, porém os resultados foram demasiado drásticos, conduzindo o Mundo a uma nova Era Glaciar. Toda a vida na Terra morreu, excepto aquelas que se encontram na imparável locomotiva de Wilford, o último reduto da Humanidade, um comboio com mais de 1000 carruagens estruturadas num processo hierarquizado. Após vários anos em condições desumanas, os chamados "restos" da Humanidade, deixados à sua mercê na última carruagem, revoltam-se e lançam-se num motim com principal objectivo tomar a posse da locomotiva e "quebrar" a distância entre as diferentes classes que compõem esta Arca de Noé sobre carris.

 

 

Adaptação da graphic novel francesa, Le Transperceneige (Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette), que fora publicado em 1984 e que apesar da sua antiguidade, reserva elementos modernos e actuais como um presságio alarmante, a ameaça do Aquecimento Global e a sua tardia luta, até chegar a uma contextualização caricatural dos ideais marxistas. Enfim, o realizador sul-coreano Joon-Ho Bong, que em 2006 havia "ressuscitado" o género de monstros com The Host (uma delicia cómico-trágica), transforma este visionário conto de distopias num dinâmico blockbuster internacional que tem como característica ser mais astuto que a maioria dos seus congéneres norte-americanos. E sob esse pretexto de grande produção, Snowpiercer se converte numa antologia às diferentes distopias da ficção cientifica cinematográfica e com óbvios contágios da própria literatura de género (evidente hereditariedade do livro de Aldous Huxley, O Admirável Mundo Novo), tudo para seguir com um ritmo acelerado mas sempre ciente dos seus propósitos e objectivos.

 

 

Há aqui praticamente de tudo, desde elementos do cinema mais trash e despreocupado com próprias filosofias tecidas de uma obra mais existencialista e panfletária, remetendo sobre o equilíbrio social e os riscos em mantê-lo como também a anarquia como luta dos mais desfavorecidos. Ou seja, Joon-Ho Bong invoca uma imparável panóplia de pertinentes questões ou sugestões a foro social, atenuados por uma acção conflituosa hiperactiva e quase regida a uma linguagem de videojogo (as diferentes carruagens vistas como uma sucessão de níveis), porém sedutora no seu próprio jogo. O realizador retira ainda a força da individualidade dos personagens, existindo aqui quase uma invocação ao cinema de Eisenstein, onde o colectivo é encarado como uma única personagem, e por isso a perda de uma desta em termos individuais é isente de qualquer emotividade.

 

 

Com um visual deslumbrante e uma banda sonora pomposa que serve de companheiro na demanda liderada por um carismático Chris Evans, Snowpiercer funciona como entretenimento cerebral que finca nas diferentes feridas da sociedade sem com isto permanecer uma posição reflectora e condenável. Joon-Ho Bong orquestrou uma partitura intensa, energética, contudo desigual. Infelizmente o final deixa mais perguntas e respostas e mesmo tendo em conta as pertinências do argumento, é fácil admitir o quão longe poderia simplesmente seguir. Mas é um blockbuster corajoso … isso sim … e tem Tilda Swinton no seu lado mais excêntrico, o que é sempre justificação para o preço do bilhete.   

 

"Have you ever been alone on this train? When was the last time you were alone? You can't remember, can you? So please do. Take your time."

 

Real.: Joon-Ho Bong / Int.: Chris Evans, Jamie Bell, Tilda Swinton, John Hurt, Octavia Spencer, Kang-Ho Song, Ed Harris, Alison Pill, Ah-Sung Ko

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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9.7.14

Depois do liceu é a vez da universidade!

 

No preciso momento em que Capitão Dickson, a personagem interpretada por Ice Cube, entrega a nova missão aos seus agentes "predilectos", Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum), adverte que falhas são inadmissíveis, visto que o novo caso tem muito de idêntico com o anterior. Contudo, é sob esse signo de repetição que 22 Jump Street percorre os lugares-comuns deixados pela prequela (sendo novamente a trip como um dos momentos altos e hilariantes da narrativa), vagueando pelo visto e revisto até por fim dar de caras com uma leve frescura que reencaminha a comédia para fronteiras mais astutas do que a maioria das produções do género.

 

 

Phil Lord e Christopher Miller (a dupla por detrás do êxito de The Lego Movie) regressam assim numa sequela mais musculada e confiante, que restaura o espírito do sucesso de 2011, que por sua vez foi a adaptação de um popular série televisiva do final dos anos 80 com Johnny Depp no principal papel. Tal como a prequela, 22 Jump Street dita um humor alternado entre a sátira inteligente e corrosiva (tendo os estereótipos e artifícios liceais como principal alvo) com gags dinâmicos e por vezes desmiolados, tudo isto servido por uma química prestável pelos dois protagonistas. Channing Tatum confirma mais uma vez que tem "queda" para a comédia e Ice Cube funciona sob um jeito caricatura. Aliás, não é só o elenco que funciona como caricatura, toda a estrutura narrativa jornadeia habilmente para isso.

 

 

Para comprovar tal facto basta assistir aos créditos finais com aguçada crítica à situação actual da indústria cinematográfica (com Seth Rogen como um dos alvos a abater) e uma sequência, que segundo a nossa impressão cinéfila, assenta numa especial atenção a Spring Breakers, o infame filme de Harmony Korine que se tem revelado um culto pecaminoso. A dupla Phil Lord e Christopher Miller esmeraram-se nos mínimos e eis assim uma comédia ocasionalmente inteligente, divertida e dinâmica, talvez o melhor exemplar norte-americano do género deste ano.

 

"The Koreans bought the church back, so we had to move across the street... to 22 Jump Street."

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Jonah Hill, Channing Tatum, Ice Cube, Queen Latifah, Dave Franco, Peter Stormare, Wyatt Russell

 

 

Ver Também

21 Jump Street (2012) 

Spring Breakers (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:45
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1.7.14
1.7.14

Ao volante das emoções!

 

A vida de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem de família dedicado e um trabalhador exemplar, desaba gradualmente como "peças de dominó" após ter recebido uma chamada que o colocará numa posição decisiva. Conduzido à noite em direcção a Londres, Locke prepara-se para enfrentar as consequências dos seus próprios actos.

 

 

O novo filme de Steven Knight (Hummingbirds) poderá ser encarado como um exercício narrativo, e certamente o é, contudo este possui uma dimensão psicológica e emocional aguçada que conjuga com o efeito de sugestão. Esta é uma obra regida pelos códigos do thriller (sente-se uma certa vertente do cinema de Hitchcock), onde Knight utiliza usuais artefactos - o carro e o kit de mãos livres - como catalisadores da fluidez narrativa e do empenho de Hardy, confrontado e a mercê dos obstáculos conflituais impostos.

 

 

Obviamente nada disto funcionaria se Tom Hardy não fosse o actor que realmente é, imenso de classe e ao mesmo tempo de uma simplicidade expressiva. Poderemos afirmar que é ele que carrega o filme às costas, ultrapassando o mero exercício e as limitações cénicas. Para além dos seus longos diálogos com os constantes telefonemas que acentuam o drama humano e a colisão das relações de Locke, é nos seus momentos com a solidão, os monólogos entusiasmantes, que Tom Hardy se evidencia como o motor do filme.

 

 

Enquanto isso, as decisões directivas por parte de Steven Knight não são das mais felizes, minando grande parte da sua narrativa com sobreposições e mais sobreposições. Talvez com o medo de limitar ainda mais a narrativa ou de mimetizar o estilo próprio de Abbas Kiarostami. Todavia e apesar disso, este é um ensaio dramático invulgar e competente no seu conceito, com Tom Hardy a converter uma longa viagem numa tremenda jornada às emoções. Nesta silly season, vale bem pena espreitar Locke.

 

Real.: Steven Knight / Int.: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson, Andrew Scott, Ben Daniels, Tom Holland, Bill Milner, Danny Webb

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:28
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16.6.14

A ruína que leva um subgénero prevalecer! 

 

Blue Ruin de Jeremy Saulnier (da comédia de terror, Murder Party), projecto erguido graças a uma bem-sucedida campanha de Kickstarter, é um filme regido pelos elementos que já parecem figurar um eventual e emergente subgénero norte-americano. Subgénero, esse onde os personagens, viventes de uma América sulista e profunda longe da sofisticação e da cosmopolização usual do seu cinema, são articulados pela vingança e pelas raízes familiares de modo impetuoso, a violência como um constante conforto nas armas funcionam como a religião predominante.

 

 

Bastante peculiar e ao mesmo tempo influenciado por um cinema digno do revitalizador Jeff Nichols (existe demasiadas referências a Shotgun Stories: Historias de Caçadeiras), Blue Ruin poderia basear-se como um usual filme de vingança, mas no seu trajecto recorre a um tom quase referencial e por vezes analista dos mesmos, funcionando quase como spoof, se não fosse o facto de que em momento algum a fita apela ao humor. Nesta intriga simples, contudo dinâmica após dada uma introdução quotidiano do protagonista (Macon Blair), a fita de Saulnier remete-nos a eremitas e rivalidades familiares num portento jogo de gato e rato, onde os twists mesmo que pequenos não cedem a sua relevância. São lugares-comuns orquestrados sobre uma eficiência dramática, e colmatados num final cuidadoso e ousado até mesmo para o seu subgénero, uma confrontação com os demónios do passado em estado de exorcitar. Trata-se de uma obra em que o ritmo imparável acentua uma força bruta em narrar uma história simples mas que no cinema é sempre uma visão eficiente da odisseia humana, no sentido individual.

 

 

Tal como a maioria dos seus congéneres, a violência incorpora o seu estilo incutido, seco e rodeado de actos furtivo, e os desempenhos são claros, frontais e inertes ao realismo, contudo há que salientar a interpretação de Macon Blair, a sua perseverança em dar uma força extra ao seu personagem trágico e acorrentado pelas desventuras do passado. Blue Ruin é assim, uma surpresa e um belo exercício que confirma o que se encontra cada vez mais confirmado no nosso meio, os americanos são apaixonados por armas e as armas por sua vez, são condutores das suas fábulas enraizadas.  

 

The keys are in the car... the keys are in the car... the keys are in the car.

 

Real.: Jeremy Saulnier / Int.: Macon Blair, Devin Ratray, Amy Hargreaves

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:08
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28.5.14

"Bryan Singer de volta ao passado … da sua carreira!"

 

A fim de compensar os sucessivos fiascos e semi-fracassos que a sua carreira atingiu depois de ter “largado” a saga X-Men (Superman Returns, Valkyrie, Jack The Giant Slayer), Bryan Singer regressa ao universo que sempre o acolheu e pelo qual é reconhecido (possivelmente e tendo em conta a relevância do super-herói no cinema, mais que a sua obra-prima The Usual Suspects) naquele que provavelmente é o maior do franchising até à data. Contudo mesmo que este retorno seja marcado por um certo teor oportunista, nada impediu que Singer fosse recebido com um extenso comité de boas-vindas, ou seja um elenco de veteranos da saga ao dispor das suas indicações como também a reunião dos “maçaricos” que fizeram furor na competente e cativante incursão de Matthew Vaughn, First Class, que uniu a liga dos mutantes da Marvel com um cenário distinto dos anos 60.

 

 

Baseado numa BD com o mesmo título, Days of Future Past remeteu as viagens temporais anos antes de James Cameron o ter feito no seu Terminator e assim influenciar toda uma geração sci-fy. Singer acentua assim a veia de ficção cientifica da matéria-prima e acrescenta o arranque dado pelo capitulo de Vaughn de forma a concretizar neste X-Men a “ponte” que os acérrimos fãs mais antecipavam, a forma correcta de unir os já concluídos 7 filmes da saga e preencher os “plots holes” deixados por estes “salta-pocinhas” (porém adverte-se que nem todos serão resolvidos). É verdade que este novo X-Men é levado desde o inicio a um ritmo avassalador, frenético que goza do beneficio em não entrar em introduções.

 

 

Contudo mesmo estendendo ao puro filme de acção repleto de imaginativas sequencias de acção graças ao auxilio do CGI (diria antes o controlo), o olhar de Singer parece fazer alguma diferença, principalmente na forma como compõe a tragédia em muita das suas personagens nomeadamente as popularizadas por Hugh Jackman (novamente capaz de consolidar o carisma com o emocional), James McAvoy, Jennifer Lawrence e Michael Fassbender. O homem que deu X-Men ao mundo cinematográfico, e com isso contagiando toda uma geração de filmes de super-heróis até aos patamares atingidos pelas versões de Raimi e Nolan, foi "corajoso" a levar as predilectas personagens a extremos gráficos ou de existência.

 

 

Porém não foi corajoso o suficiente para arrancar Halle Berry do seu estatuto de acessório de luxo (continua a ser um dos elos fracos da saga) ou de conseguir manejar a imensidão de personagens secundárias, resultado disso há mais cameos que intrigas. Mesmo sob uma máquina bem oleada, Days of Future Past conserva os elementos que ditaram o franchising como um dos melhores no panorama do super-herói de comics, a sua alusão aos conflitos humanitários e sociais como "standards" da ênfase dramática e da intriga em si, algo que tão bem bebe da matéria-prima, aliás foi devido a isso que X-Men é reconhecido no mundo da BD como uma das relevantes e sofisticadas criações da Marvel, co-ligando questões actuais com o imaginário digno do género.

 

 

Longe da mediania que parece ter afectado os demais congéneres, Bryan Singer pompeai-nos com um regresso pela "porta grande" e nos oferece um blockbuster com cabeça, tronco e membros, que consolida o espectáculo visual com o toque autoral deste. Um dos exemplos disso é mesmo a brilhante sequência protagonizada por Evan Peters como Quicksilver, a resposta da Marvel ao Flash da DC Comics, ao som de "Time in a Bootle" de Jim Croce.

 

" Enough! ENOUGH! I don't want your suffering! I don't want your future!"

 

Real.: Bryan Singer / Int.: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Ellen Page, Nicholas Hoult, Evan Peters, Patrick Stewart, Ian McKellen, Josh Helman, Halle Berry, Omar Sy, Shawn Ashmore

 

 

Ver Também

X-Men (2000) 

X-Men: The Last Stand (2006

X-Men Origins: Wolverine (2009) 

X-Men: First Class (2011)

Wolverine (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:38
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3.5.14

O valor de uma vida!

 

Quanto é que valerá uma vida humana para as seguradoras? Um sentimento? Um gesto ou um acto? Talvez apenas meras probabilidades para o calculo matemático de um "bem maior" - a dita indemnização e o seu preço. E é sobre esse pretexto que surge Il Capitale Umano, baseado num homónimo livro de Stephen Amidon e adaptado por um realizador acostumado a comédias populares, Paolo Virzi, uma fita que emaranha o thriller num tom descontraído porém ao contrario do seu objectivo de critico, não é inerte às emoções dos seus personagens.

 

 

A história de duas famílias de classes sociais diferentes que interligam através de um misterioso acidente tem como grande atractivo a sua narrativa, exposta como um exercício de género. São três capítulos que envolvem três perspectivas diferentes, sendo que cada uma delas desvenda à sua maneira a intriga "sequestrada" por um "who done it" como prémio.

 

 

E sob o olhar dessas três cruciais personagens da trama que Il Capitale Umano torna-se inerentemente diversificado, tecendo estilos, teores e todo um conjunto de ênfase dramáticas e cómicas que conjugam equilibradamente. Mesmo tendo como principal atracção e interesse a maneira como é exposta a narrativa, as interpretações são uma bem valia, gerando personagens complexas que nos fazem amar, odiar e até julgar. Nesse aspecto vale a pena sublinhar os desempenhos de uma frágil Valeria Bruni Tedeschi (5X2 de François Ozon) e de Fabrizio Bentivoglio (Scialla!), como o sujeito que queremos a todo o custo evitar.

 

 

Il Capitale Umano é assim um drama trágico-cómico que nos remete ao valor da vida humana, interceptando o oportunismo e salientando de maneira interveniente o processo de calculo das antagónicas seguradoras, todavia antes disso tudo temos uma fita cativante, elaborada e plenamente construída. Vale a pena entrar nas encruzilhadas de Il Capitale Umano.

 

Filme de encerramento da 7ª 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Paolo Virzi / Int.: Fabrizio Bentivoglio, Valeria Golino, Valeria Bruni Tedeschi

 

 

Ver também

Tribeca 2014 - Os Vencedores

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:27
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30.4.14
30.4.14

O 3D como linguagem de autor!

 

No âmbito do programa Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura, o encontro de inúmeros artistas das diferentes áreas da Arte (Cinema, Literatura, Musica, Arquitectura, etc) originou diversos projectos que têm se aventurado pelo resto do país, integrando festivais e outros eventos nas respectivas áreas. No Cinema foram várias as obras que nasceram deste projecto multicultural, mas acima de tudo relevante para a cidade "berço" de Portugal, Guimarães. O convite de variados autores em filmar neste cenário tão antigo do nosso património tem sido uma das propostas mais empolgantes dos últimos anos no panorama cinematográfico nacional.

 

 

Um desses "filhos" foi 3X3D, um ambicioso e ao mesmo tempo espontâneo projecto que funde as impressões digitais de três realizadores diferentes, distinguidos por estilos variados. Para contrariar a ideia de que a tecnologia 3D é limitada à comercialidade dos produtos cinematográficos ou ligado às grandes produções hollywoodescas, 3X3D transforma essa "maldita plataforma", segundo vários puristas, num alicerce para as ideias de foro artístico destes mesmos autores. Assim sendo, temos Peter Greenaway, Edgar Pêra (o pioneiro deste projecto) e Jean-Luc Godard a "remexerem" nas memórias. O primeiro na memória histórica, o segundo na memória do espectador (atravessando também a do cinema) e por último a memória das imagens com a figura ímpar da Nouvelle Vague a desconstruir e construir a sua linguagem fílmica.

 

 

3X3D abre com "Just in Time" de Greenaway, uma espécie de atracção de feira onde o espectador é arrebatado por uma excentricidade visual, simultaneamente cuidada e rica no teor histórico. É o legado da cidade Guimarães imprensa nos frames deste tremendo traveling pelos corredores do Mosteiro local ao encontro das marcas dos séculos e em embate com os protagonistas dessas mesmas referências. Uma experiência visual única que funciona na perfeição sob o formato de 3D e que arrisco a aclamar como a melhor "coisa" vista neste formato numa sala de cinema. Se 3X3D terminasse no preciso momento em que este segmento encerra, cinco estrelas era algo que dava sem qualquer tipo de contestação.

 

 

Passamos para o segundo capitulo, Cinesapiens, de Edgar Pêra, cujo estilo visual do realizador de O Barão é facilmente identificável, ou seja, podemos contar com o loop de sobreposição de imagens. Neste segmento o espectador é confrontado com ele próprio, uma pequena remessa da História do Cinema narrada e protagonizada pelo sempre possante Nuno Melo e, voilá, dá-se de seguida um espectáculo circense no qual o autor dispara para todos os alvos. Uma pitada de H.P. Lovecraft aqui, o teor "trash" ali e todo um despreocupado espectáculo sem receio algum de se tornar ridículo. É diversão mental, é o torcer de uma arte até transformá-la num mundo à parte. Se o objectivo de Edgar Pêra era mesmo provocar, então foi cumprido de forma plena e fértil nas interpretações individuais. Deslocado, é o melhor elogio deste segmento.

 

 

Para finalizar, dá-se o tempo de antena a Jean-Luc Godard, em The Three Disasters. Verdade seja dita, o veterano acaba por "borrar" a pintura. Ao contrário dos seus colegas, Godard não se induz na criação de imagens mas sim na montagem delas, ao mesmo tempo que transcreve uma tese do poder da imagem e da constante metamórfica linguagem. Ainda há tempo de criticar Hollywood, renegar origens e decifrar matrizes, um pleno exercício de filosofia visual que demonstra o afastamento do autor às temáticas cinematográficas, abraçado a sua marginalização como poeta visual e eremita. Esta panóplia de excertos, clipes e formas narrativas não convencionais faz com que 3X3D termine numa incógnita. A beleza de Greenaway e a provocação visual de Pêra são deformados pela vaidade artística de Godard, que não faz uso do 3D como veículo da sua própria aura artística. Ao invés disso, funciona como insignificante acréscimo. Não é mais ou menos isso que os "artesãos" de Hollywood fazem?

 

Filme visualizado no IndieLisboa'14

 

Real.: Peter Greenaway, Edgar Pêra, Jean-Luc Godard / Int.: Nuno Melo, Carolina Amaral, Keith Davis, Leonor Keil

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:39
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13.4.14

Brincando aos políticos!

 

Até parece que Nanni Moretti envergou-se na politica, mas não, Viva La Libertà é um filme de Roberto Andò que apesar de possuir tantos elementos e referências ao cinema do referido realizador / actor de Caos Calmo ou Habemus Papam (e claro, La Stanza del Figlio: O Quarto do Filho) , não deve contudo ser-lhe retirado o mérito próprio.

 

 

Esta comédia nos leva a Enrico Oliveri (Toni Servillo), um secretario do principal partido da oposição, que é abalado por um constante estado de melancolia, por outras palavras uma iminente depressão. A sua solução foi desaparecer, não apenas da politica mas também da vida que conduzia. Perante tal repentino desaparecimento, o seu assessor, Andrea Bottini (Valerio Mastandrea), tenta solucionar a ausência em colocar o irmão gémeo de Oliveri, Giovanni Ernani, um filosofo bipolar que fora liberado do hospício, no seu lugar sem que ninguém aperceba. Porém este explosivo contacto  de loucura com a politica gera resultados surpreendentes, o partido nunca fora tão popular e tudo graças aos métodos pouco ortodoxos e à frontalidade de Giovanni.

 

 

A conhecida formula da "troca de papeis", tantas vezes imposta como matriz de diversas comédias populares, resulta aqui algo mais do que mero entretenimento passageiro, uma critica mordaz à politica em si, expondo a gradual distância entre os eleitores e os seus ditos políticos, a falta de interesse do primeiro e a negligência do segundo que origina uma relação frívola e desentendida. Contudo Viva La Libertà recria esse "se", uma afinidade crescente entre os dois, capaz de ilustrar momentos importantes e inéditos no seio politico como também o aparecimento de um Politica compreensível, directa e indizível na sua opinião.

 

 

Este retrato ilusório mas sugestivo é sustentado pelos seus "loucos", duas personagens idênticas a nível estético mas divergente quer na sua intelectualidade, afectuosidade e habilidade de se desemalharem nas respectivas situações, porém um inapto a nível sentimental o outro nem por isso, apenas constrangido pelo seu meio ambiente. Estes dois loucos que refiro são ambos interpretados por Toni Servillo, a estrela do primoroso La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino, que joga a dualidade a seu favor, não apenas auferindo personalidades divergentes ao espectador mas como também um desafio para o próprio actor. Para finalizar, Roberto Andò (que foi também responsável pelo argumento ao lado de Angelo Pasquini) nos oferece um final em aberto, conduzido sob uma aura satírica e sem rodeios.      

 

Filme de abertura da 7ª 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andò / Int.: Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi

 

 

Ver Também

La Grande Bellezza (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:38
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1.4.14

Dividido entre crenças!

 

Um telefilme de gema (produzido pela Arte France) que obteve um currículo semelhante a qualquer outra obra cinematográfica, integrando a programação de inúmeros festivais de cinema e chegando a possuir uma distribuição limitada nos EUA. Le Métis de Dieu remete-nos à singular história de Jean-Marie Lustiger (Laurent Lucas, Harry: Um Amigo ao Seu Dispor), filho de emigrante judeus polacos que se converteu ao catolicismo e com isso a vontade de servir a sua crença através de uma carreira clerical. Contudo ,nunca esquecendo as suas raízes judaicas sendo, mesmo com a nomeação a Arcebispo por parte do Papa João Paulo II (Aurélien Recoing, L'Vie D'Adèle), continuou a afirmar ser igualmente católico como judeu, algo que o próprio orgulhosamente comparava aos apóstolos de Cristo. Devido a esta dualidade, Jean-Marie Lustiger gerou vários inimigos em ambas as instituições religiosas no seu caminho a cardeal.

 

 

É uma viagem míope aos bastidores da Igreja Católica, mas não sendo essa a sua intenção, Le Métis de Dieu conserva-se como um filme de espírito audacioso sobre um homem dividido e comprometido à preservação da sua memória cultural. Como pano de fundo, servindo de arranque para esse confronto inerente, deparamo-nos com a disputa de Auchswitz e a renegação tardia da Igreja Católica em relação ao Holocausto. Ilan Duran Cohen é competente na sua direcção, mas não se consegue "desviar" de eventuais esquematizações, uma das fragilidades mais comuns dos filmes de teor biográfico.

 

 

Ainda assim, Le Métis de Dieu funciona não somente pela força do seu tema, surpreendente e inédita (quase desconhecida aliás), ou pelos pequenos e ousados ataques ao órgão hierárquico do Vaticano (provavelmente nunca mais veremos o Papa João Paulo II retratado desta forma), mas sim pelo desempenho e empenho de Laurent Lucas e, acima de tudo, recria em Jean-Marie todos os requisitos essenciais de um herói cinematográfico. Por fim, os pequenos laivos de humor que tornam a fita numa proposta cativante. A sua grande falha é um final apressado e forçadamente branqueador da imagem até então negra de João Paulo II.

 

Filme de encerramento do Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ilan Duran Cohen / Int.: Laurent Lucas, Aurélien Recoing, Audrey Dana

 

 

Ver Também

Die Lebenden (2012)

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:53
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22.3.14

Um urso chamado passado!

 

Vic (Pierrette Robitaille) é uma ex-presidiária de 61 anos a quem lhe fora devolvido a liberdade. Decidida a começar uma vida nova, ruma para as florestas de Quebec (Canadá) para iniciar um novo ciclo numa cabana isolada da "civilização propriamente dita" (a fim de evitar qualquer confrontação com o seu passado) ao lado da sua companheira e também ex-presidiária, Flo (Romane Bohringer).

 

 

Após a sétima obra, o canadiano cineasta Denis Côté estreia por fim no nosso circuito comercial com Vic+Flo Viram um Urso (titulo traduzido), aquele que é talvez o seu mais acessível produto desde então. Esta é uma história sobre conflituosidades para com o passado e as replicas destas para com os seus personagens, tudo manufacturando um conto de reintegração social onde o autor expõe e planifica uma visão quase de hipermetropia (eis um filme com uma certa obsessão pela estético dos planos gerais). A fotografia como também os cenários predominados por tons cinzentos instalam uma melancolia quer visual, quer narrativa, ambiente natural para com personagens de teor "trágico", complexas ao mesmo tempo que carrancudas, de árdua cativação e de uma natureza fria e despida de qualquer euforia vivente (intercalando por certas sequências entre "risos" e "brincadeiras" que nos acata como um cinismo alarmante para com o tom da fita).

 

 

Vic+Flo Viram um Urso é um filme difícil de agradar, aliás sente-se em toda a obra de Denis Côté uma aversão pelo espectador, a liberdade artística sem acréscimos nem justificações, a recusa pelos trilhos óbvios e usuais (nota que mesmo as personagens principais ser um casal "homossexual", em momento algum o autor demonstra ou repudia intimidade ou até mesmo sexualidade entre elas), mas mesmo assim como é o caso deste seu novo filme, sentimos a crescente afinidade para com estes a surgir.

 

 

O "urso" do titulo, um passado que vagueia e que ocasionalmente nos vem ao nosso encontro, sem aviso prévio, deixando assim a sua marca e presença. Sarcástico, isente de esperança nem apelo pelos seus personagens (Côté é psicótico nesse termo, nem ele possui compaixão pelas suas criações), Vic+Flo Viram um Urso poderá funcionar como um bilhete de incentivo a um autor e cinema reduzido e resistido graças a nichos "marginais".

 

Real.: Denis Côté / Int.: Pierrette Robitaille, Romane Bohringer, Marc-André Grondin

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:25
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21.3.14

Gordon Gecko é para meninos!

 

Primeiro de tudo, não confundam a interpretação de Leonardo DiCaprio com o filme em si, o actor é corpo e alma, figura corajosa que ilude um Calígula do século XX, glorificando-se e humilhando-se em tão intenso papel. Sim, pelo actor este The Wolf of Wall Street merece sem duvidas algumas as cinco estrelas, indiscutivelmente temos aqui um dos melhores desempenhos do ano e talvez na mais complexa personificação da sua carreira, porém existe uma camada cínica neste projecto arrojado e faustoso na forma como transgride o licito.

 

 

Martin Scorsese descodifica Jordan Belfort, um corrector da bolsa corrupto que fazia milhões anualmente graças a esquemas e branqueamentos financeiros. Era apelidado de O Lobo de Wall Street pelos seus colegas profissionais em derivação da sua insaciável sede de poder, luxúria e ganância. Mesmo sob dotes oratórios invejáveis, capaz de convencer um filho a vender a sua própria mãe, Belfort não será certamente um personagem com que seja fácil simpatizar, sabendo ainda mais que nele estão depositados todas características que levaram EUA aos seu "crash" financeiro. Mas como figura cinematográfica, deparamos aqui com uma nova variação de gangster que tão bem Scorsese consegue proporcionar no grande ecrã, invocando um tom descontraído, auto-biográfico como a sua obra referência, Goodfellas.

 

 

E sob esse signo, o realizador aproveita as suas influências na industria cinematográfica e compõe uma obra que evidencia enormes liberdades artísticas, ou seja The Wolf of Wall Street aspira a algo livre, uma produção pouco contestada durante a manufacturação. Existe algo de relacionando com as festas na mansão de The Great Gatsby e as festas de empresa deste The Wolf of Wall Street, e não só DiCaprio, é tudo uma questão de excessos. Adjectivo, esse que melhor transmitir o filme em si, excessivamente longo e integrado por excessiva liberdade autoral.

 

 

E no contexto desses excessos que Scorsese procura razões para que o espectador interage com o nosso Jordan Belfort, "pintando" um retrato malevolente até à medula para depois recorrer forçosamente ao seu actor para branquear a imagem desta má índole figura. O que vale é, e novamente "estragando-o" de elogios, Leonardo DiCaprio está a altura de tamanho desafio, que tal como a personagem que presta consegue-nos vender por momentos a imagem pretendida e de forma sorrateira. Sim, The Wolf of Wall Street é astuto na sua manipulação, e sobretudo confiante, já que Scorsese respira a euforia em cada plano que apresenta, quer na invocação da Babilónia moderna quer nas caricatas desventuras deste Jordan Belfort.

 

 

Voltando ao elenco, se DiCaprio é um deus entre os mortais, o secundário é todo ele suportado por desempenhos favoráveis e inéditos entre eles um Jonah Hill, que parece ter finalmente escapado ao seu ego de marca, a revelação Margot Robbie como uma loira que tenta sobressair do seu estereotipo, um expressivo Jean Dujardin e um cameo valioso de Matthew McConaughey como o mentor de Belfort. São elencos como estes que não deixam a bolsa quebra, uma sólida cooperação em prol de um devaneio ávido de Martin Scorsese. The Wolf of the Wall Street tinha tudo para ser uma obra-prima, mas preferiu ser o entretenimento persistente e a abordagem demasiado entusiástica de uma personalidade que será marcada pelas piores razões. Evitou de ser um pastelão, mas ficou-se pelos ditos excessos!  

 

"My name is Jordan Belfort. The year I turned 26, I made 49 million dollars, which really pissed me off because it was three shy of a million a week."

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Matthew McConaughey, Rob Reiner, P.J. Byrne, Jon Bernthal, Jean Dujardin, Joanna Lumley

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:08
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14.3.14

Família! Corre no sangue!

 

A recriação cinematográfica da peça teatral de Tracy Letts funciona como teia de gerações e conflitos familiares, onde a morte é vista como a última paragem, o descanso eterno de uma vida atormentada e arrastada. Um funeral reúne uma família distante onde a matriarca Violet Weston (Meryl Streep) confronta os restantes membros congéneres a mirarem um "espelho" de imperfeições e de monstruosidades, intriga inconclusivas e difíceis de concluir que levarão não à união dos laços familiares mas o afastamento agravado destes.  

 

 

Um tributo à herança dramaturga de Tenessee Williams, August: Osage County é um leque de desempenhos imbatíveis onde cada prestação contribui para o crescendo do enredo, até atingir níveis insuportáveis de intensidade (a sequência do jantar é um forte "prato" de emoções), mas por um lado o argumento Tracy Letts parece satirizar a própria entidade de telenovela, culminando pequenas intrigas familiares, umas rebuscadas outras constantemente atropeladas que nunca em jeito algum deixarão o espectador em paz, até mesmo as pequenas pausas harmónicas ilustram um cínica capa pacifica.

 

 

Trata-se de um filme de actores, elevados a executores dos seus próprios destinos, mas para tal funcionar era necessário um excelente director de actores e nesse papel John Wells (The Company Men) cumpre o bem, melhor que planificar estruturalmente a respectiva obra. Claro que a tarefa foi facilitada pelo próprio empenho de Meryl Streep (será cliché elogia-la?), a mulher das "mil identidades", um perfeito camaleão de Hollywood. Ela é fria, aterradora, voluntariamente desequilibrada, a verdadeira drama queen de todas cenas que surge, e que bem que ela está. Como apoio, a actriz conta com as fortes participações de Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Julliane Nicholson e uma papel insólito de Benedict Cumberbatch (para quem julgava que ficaria reduzido a "slow speakers").

 

 

August: Osage County é uma escola de interpretação, imperada pelos actores que favorecem um espectáculo emocionalmente aguçado. Porém nem tudo é "rosas" no novo filme de John Wells, que mesmo demonstrando dote a coordenar o seu elenco, perde-se na construção artística do filme, por outras palavras, falta dinâmica na realização e menos dependência do trabalho das suas estrelas.

 

"Life is very long" T.S. Eliot

 

Real.: John Wells / Int.: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Margo Martindale, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Sam Shepard

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:16
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27.2.14

Montando e desmontando um Universo!

 

As peças de construção mais famosas do Mundo (e após 60 anos de existência continuam como um dos produtos de entretenimento mais vendidos globalmente), Lego, têm a sua aparição cinematográfica. Há um ano atrás, a notícia sobre a produção deste filme fazia temer o pior: uma Hollywood oportunista e sem criatividade e termos de produto. Bem, é melhor não falar desses pensamentos (basta revisitar outras linhas de brinquedos convertidas a filmes como Transformers e Batalha Naval para ter uma noção do "terror"). Contudo, após a visualização desta obra pode-se conferir que The Lego Movie é um "craque" entre os filmes baseados em brinquedos, talvez o melhor produzido até à data, uma panóplia colorida de humor simples, por vezes astuto e outras vezes através de gags físicos tecnicamente eficazes. É um entretenimento aconselhável para todas as idades, e nesse aspeto a nova obra de Phil Lord e Christopher Miller (a mesma dupla de Despicable Me) é um trunfo.

 

 

Mas o que mais me surpreendeu não foi a versatilidade do filme para as audiências, mas sim a sua auto-crítica, a forma como satiriza o seu próprio produto. The Lego Movie é assim um epigrama sobre o estereótipo e a homogeneização social e quotidiana, focando na manipulação dos Media até à implementação de um "correcto" estilo de vida (que filmes e músicas temos que obrigatoriamente gostar para sermos aceites na sociedade). Em termos mais metafóricos, o filme toca na falta de personalidade e senso livre que se vive em diversas cidades e outras comunidades cosmopolitas. E nada melhor que representar esses "venenos" sociais através dos bonecos Lego, figuras amareladas, replicadas, e fáceis de disfarçar pelos estereótipos sociais, étnicos, religiosos e profissionais. Obviamente toda esta mensagem, que é fortemente acentuada no início com uma sociedade fiel ao seu livro de instruções, é ligeiramente encaixada no subliminar da intriga e despida de qualquer acidez. Não existe aqui qualquer sinal de Tyler Durden e das suas anárquicas iniciativas.

 

 

Em suma: um misto de animação (não recomendado a epiléticos) com a acção real (a inserção destas sequências foi como uma espécie de cereja no topo do bolo em termos narrativos) que nos encoraja para o divertimento, para as referências e nalguns casos para despertar a criança em nós. The Lego Movie é assim uma proposta sedutora do cinema familiar e definitivamente a melhor interação entre uma linha de brinquedo e a Sétima Arte.

 

We are from the planet Duplo, and we're here to destroy you.”

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Chris Pratt, Will Arnett, Elizabeth Banks, Alison Brie, Morgan Freeman, Will Ferrell, Jonah Hill

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:21
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17.2.14

Na pista da Primavera Árabe!

 

Da maneira como A Estrada da Revolução inicia - escombros, sangue, gritos e uma assombração de um atentado - fazia-se prever mais uma cadeia "choque" tão fiel às manchetes sobre o estado actual do Médio Oriente e Norte de África dos mais variados noticiários. Face a tais imagens, o espectador ocidental facilmente se sente intrigado, revoltado por momentos, mas tal dissipa-se com o conforto das suas habitações e pela distância social ou simplesmente o afastamento geográfico de tais cenários desoladores e sanguinários. Para o jornalista Tiago Carrascos e o seus parceiros, João Fontes (repórter de imagem) e João Henriques (fotógrafo), o noticiário não era o suficiente. Vendo mais que somente rotinas passageiras para o individuo comum, o que o trio presencia é um movimento de tamanha relevância, não apenas para o Médio Oriente e Norte de África, mas também para o resto do Mundo. A Primavera Árabe, a manifestação contagiante do ecoar dos ideais que os portugueses parecem esquecer - o Povo é quem mais ordena - imposta nem que seja por via do sacrifício e do sangue derramado.

 

 

Curiosos em testemunhar de perto este fenómeno, os três portugueses seguem então na derradeira rota da Turquia até à Tunísia, passando por verdadeiros "campos de batalha" como a Síria e o Líbano, através de uma demanda por vias de transportes terrestres, com o intuito de se aproximarem à verdadeira essência da Primavera Árabe: as pessoas. Depois da exibição de violência, sublinhando a atmosfera pesada e infernal que se vive nestes "indesejados" cantos terrestres, A Estrada da Revolução parte numa outra perspectiva, a visão partilhada por estes três jornalistas; as pessoas, os seus ideais e convicções, a luta através de cânticos, o uso da tecnologia como o escape da censura ditada por regimes e por fim as histórias por detrás desses novos ventos que se avizinham.

 

 

Será pura coincidência a queda sucessiva dos diferentes líderes de tais nações? A Estrada da Revolução segue tal viagem por fragmentos, e ao contrário dos documentários de formato televisivo não cede à definição, apenas às imagens que explicitam testemunhos de coragem. E é nessa coragem, e a semelhança que encontramos em todas essas histórias, o elo que liga povos diferentes mas igualmente oprimidos. Cada um sob a sua abordagem, umas mais difíceis de aceitar pela cultura ocidental que outras, como por exemplo o abdicar dos próprios filhos (mártires) em prol da queda de governos antagonistas. Porém, aceitando ou não, existe algo de sentido neste retrato para o indivíduo português, mesmo que as situações não se comparem (ou 8 ou 80), Portugal necessitava da sua própria Primavera, o retorno dos velhos ideais do 25 de Abril que nunca se concretizaram por completo. Basta só assistir a luta quase interminável de um povo em atingir o seu próprio conceito de liberdade para depois testemunhar uma aceitação conformista de uma austeridade que revela a passos num novo género de Ditadura.

 

 

Deixando por agora este intervalo crónico nacionalista de jornal e regressando ao documentário. A Estrada da Revolução separa após os primeiros minutos dos lugares-comuns e da generalização utilizada nos telejornais e avança para um retrato humanista e íntimo a um dos movimentos que tem de tudo para se tornar num dos mais importantes do século XXI. Porém, a sua fraqueza como obra cinematográfica é que o filme de Dânia Lucas (narrado pelo actor Ivo Canelas) foi um fruto extraído de cerca de 200 horas de material gravado, sendo que a profundidade desejada não é devidamente atingida, prezando-se ainda assim o facto de um filme destes estar nas nossas salas, havendo aqui algo de muito actual e revolucionário. Não é coincidência a estreia nacional de A Estrada da Revolução, o nosso país precisa acordar, nem que seja seguir os exemplos (porém não devemos seguir à letra) dos outros!

 

Real.: Dânia Lucas / Int.: Tiago Carrasco, João Fontes, João Henriques

 

 

Ver Também

Estreia da Semana: A Estrada da Revolução, Acompanhando a Mudança!

A Estrada da Revolução: Viagem pelo Médio Oriente

Primavera Árabe através de portugueses vence Prémio do Clube de Jornalistas!

 

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últ. comentários
Boa critica e boa nota irmão. Muito sinceramente a...
Gostei do filme. Bastante divertido e fluido. E só...
Espero que Denzel Washington se sacrifique no fina...
Esplendido, um dos melhores do ano
Boa sorte rapaz, cá estaremos quando voltares!
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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