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20.1.15

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A imitação de formulas ao serviço de um Homem invulgar!

                                                                                                                                     

Talvez sejam muito poucos que devem saber, mas Alan Turing foi uma das figuras mais importantes do século XX, tirando o facto de ter sido um dos pais da ciência da “computação”, a sua participação na Segunda Guerra Mundial foi deveras relevante, acreditando-se que sem a sua intervenção a guerra se prolongaria por mais de dois anos. Mas afinal quem foi Turing?

 

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Deve estar a esta hora a questionar o espectador, enquanto The Imitation Game evidencia como uma matriz à sua figura ao mesmo que esboça todos os elementos do cinema biográfico. Aqui desempenhado por Benedict Cumberbatch, naquela que é até à data a sua interpretação mais rigoroso e emocional, Alan Turing é um matemático e criptologista, que integrado numa equipa ao serviço da Inteligência Britânica, tentam descodificar o Enigma, a indecifrável máquina de mensagens codificadas utilizadas pelos alemães para transmitir os seus ataques e tacticas durante a Segunda Guerra Mundial.

 

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Morten Tyldum (Headhunters) dirige assim um filme convencional e erguido por excelentes valores de produção, como também uma trabalhada reconstituição de época. Contudo, é bem verdade que esta é uma obra pensada e projectada para se vingar nos Óscares, visto vestir contornos classicistas em termos narrativos e a esquematização usual do seu género, como também evidenciar um pretensiosismo nas diferentes frentes. Tyldum é apto em equilibrar o rigor técnico e estilístico com a dita presunção e o academicamente aceite, dando por vezes um vislumbre de profundidade na sua personagem principal (novamente referindo) servida com classe e credibilidade por Cumberbatch (apoiado também por uma forte prestação de Keira Knightley). O argumento, baseado no homónimo livro de Andrew Hodges, amplia a intriga acima de duas vertentes previsivelmente trazidas à luz, o passado como o resto do historial de Turing anterior à Segunda Guerra assim como os seus feitos durante esta.

 

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The Imitation Game remete-nos ainda ao trágico destino desta mesma figura, que por sua vez tece um panorama critico e ácido à sociedade e às políticas que coexistiram nesse mesmo tempo. Falo obviamente na “caça das bruxas” de que Alan Turing foi alvo, a condenação por indecência, visto que a homossexualidade era considerado um crime no Reino Unido. A condenação, essa, levou ao suicídio um dos mais brilhantes homens do século XX, mas pelos vistos a sua mente ecoou até aos dias de hoje e dificilmente conseguiríamos retirar Turing do nosso quotidiano. Uma figura incontornável do nosso servido, porém, servido cinematograficamente por um filme, que apesar de bem concretizado, não será incontornável num futuro próximo.    

 

"Are you paying attention?"

 

Real.: Morten Tyldum / Int.: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:47
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18.1.15

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O anormal do quotidiano!

 

Em Matterhorn, somos apresentados a Fred (Ton Kas), um viúvo que vive regido ao seu quotidiano limitado e criado, entre os quais as idas religiosas à igreja local durante o Domingo. Porém este ciclo vicioso no qual o protagonista está inserido, é dilacerado com a vinda de Theo (René van 't Hof), um sujeito bastante peculiar. Obviamente, é com a singularidade deste que Fred voltará a reconciliar com a vida desperdiçada ou lamentada pela tragédia, contudo esta estranha amizade não é vista com bons olhos pelos habitantes do vilarejo.

 

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Uma comédia dramática sobre a libertação pessoal que faz uso de uma linguagem visual perceptível, como é evidente nas primeiras sequências do filme, para facultar as informações necessárias envolto do personagem principal. Ao invés de recorrer à preguiça do dialogo forçado, da narração voz-off ou até mesmo do flashback, é a imagem, os gestos e o ambiente que providenciam o manual de composição da mesma. Matterhorn é assim uma obra de contornos enraizados do cinema europeu profundo, ostentando um subtil humor que não nos "rasga" superficialmente mas nos deixa emaranhando por toda a narrativa e a emoção que surpreendentemente é libertado com toda a pujança no ultimo acto, ao som de "This is my Life", como fosse um puzzle narrativo por fim concluído.

 

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Mas o mais curioso no filme de Diederik Ebbinge é o facto de apresentar a referida libertação e a intima redenção com o passado e as "emoções esquecidas" na emancipação dos vícios religiosos. Por outras palavras, é a brisa desafiante e oposta à velha formula do descrente que se torna feliz em "redescobrir Deus", neste caso é o devoto quase beato que encontra ele próprio na renegação de algo divino e superior. Talvez derivado à cultura holandesa, que já há séculos vem se libertando das dependências religiosas e construindo a sua sociedade laica e progressiva. Um pequeno pormenor que poderá distinguir Matterhorn dos imensos produtos que nos são apresentados todos os anos, nomeadamente o abrotar do cinema cristão que remete ao espectador a sua palavra de convicção religiosa como o único meio viável de superação.

 

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Enfim, a verdade é que toda esta jornada de redescoberta nos levará mais próximo de Deus do que nos pensávamos, pelo menos é aquilo que a personagem de Ton Kas a certa altura refere a montanha suíça Matterhorn de "o local mais próximo de Deus". A montanha essa, que nos levará ao pico da nossa inerente isenção.

 

Filme de abertura da 3ª edição do Cinema Bioscoop - Festival de Cinema em Língua Neerlandesa

 

Real.: Diederik Ebbinge / Int.: Ton Kas, René van 't Hof, Porgy Franssen

 

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publicado por Hugo Gomes às 05:55
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28.12.14

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Na transição de um Novo Mundo!

 

Com Ossos (1997), a actriz Vanda Duarte sentiu-se desiludida com o resultado e propôs a Pedro Costa a um regresso ao bairro das Fontainhas, no arredores da Amadora, nesse momento em plena fase de demolição. Assim inicia o segundo capitulo da sua trilogia etnográfica, onde Costa filma todo uma comunidade na transição do seu próprio fim. Porém a decadência está à vista de todos, e a auto-destruição acelera em contagem decrescente.

 

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O Quarto referido no titulo não é só o cenário onde metade deste registo filmado ocorre mas um "não-lugar" acentuado em todo o bairro, um micro-biótopo étnico compactado na câmara do cineasta. Vanda Duarte é assim a anfitriã desta dissipação, desta incógnita cénica e do seu estado inerente. No Quarto da Vanda, eis a primeira etnoficção de Pedro Costa, um estado avançado da docuficcção que renega o seu lado ficcional e a transforma na sua realidade, a encenação capturada pela dita câmara é o seu mundo descrito por um realismo longe do formalismo, e muito menos do pastiche cinematográfico.

 

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Esta seja talvez das obras mais duras e isentes de beleza do nosso panorama cinematográfico, No Quarta da Vanda funciona como um registo para a posteridade, as imagens dificilmente repetidas e o lugar, as Fontainhas, extinto da sociedade. Talvez nesses termos, o estudo e analise social, a obra de Pedro Costa funciona como um perfeito exemplo de novo realismo, um documentário isente de profunda veia documental e presente sob uma linguagem distintamente cinematográfica (nota-se nas planificações e no tratamento da fotografia que aufere um clima sombrio à comunidade).

 

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Porém No Quarto da Vanda, a experiencia é penosa, porque todo este longo plano conjuntivo reafirma a decadência humana, sublinhando-a em figuras isentes de qualquer caloroso conforto. O pessimismo, esse sentimento, uma das influencias contínuas na filmografia de Pedro Costa e muito mais "afiada" nesta sua trilogia. Agora marchemos com a juventude!

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Vanda Duarte, Lena Duarte, Zita Duarte, Manuel Gomes Miranda

 

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Ver Também

O Sangue (1989)

Casa de Lava (1994)

Ossos (1997)

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:56
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27.12.14
27.12.14

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Condição fracturante!

 

Concluída a rodagem de Casa de Lava, cujas filmagens decorreram na Ilha do Fogo (Cabo Verde), vários habitantes pediram ao realizador Pedro Costa para entregar cartas aos respectivos familiares de Lisboa, grande parte deles, residentes no desolador bairro das Fontainhas, nos arredores da Amadora. Com esta experiência, o realizador integrou uma comunidade aprisionada por uma barreira invisível social, confinada à sua própria degradação num "paraíso prometido" não citado em Casa de Lava.

 

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É certo que segundo o próprio Pedro Costa, existe mais "portugalidade" aí que no país inteiro e Ossos, a sua obra seguinte (estabelecendo um catalisador dessa perdição identitária, um cultura contagiada e híbrida que "promete" estampar nas velhas tradições já constituídas) é o seu claro objecto desse mesmo estudo teorizado. Pedro Costa emana um drama sob fortes toques documentais, aliás é evidente encontrarmos um manifesto etnográfico em todo o seu sentido e uma exploração digna do estilo neo-realista italiano. Sendo que o lado ficcional, preservado por um realismo quase formalista mas em pleno espírito de rebeldia para com a câmara, é afectado com uma constante demonstração de actos metafóricos e alusivos.

 

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A história que centra em redor de uma criança não querida pelos seus progenitores, abandonada à sua sorte e à deriva do respectivo destino é o ponto que une todo um conjunto de personagens desesperadas, e de igual situação identitária. Trata-se do espelho de uma sociedade empestada por um futuro negro e desesperante, Costa profetizou a destruição de um captado modo vivente (a demolição do bairro das Fontainhas em 1999) e a dispersão dos habitantes que havia convivido durante anos, os seus anti-heróis cinematográficos, mas heróicas figuras da realidade.

 

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Com Ossos, o realizador afasta-se claramente da ficção cinematográfica imposta pelo Cinema Novo, por sua vez influenciada pelo Nova Vaga francesa, que fora vista nos seus anteriores O Sangue (1989) e Casa de Lava (1994), para se lançar a um intimo docuficção. Costa perde a olhos vistos a academia formação e mais que nunca, revela a sua rebeldia fílmica para o grande ecrã, mas sem perder o seu gosto pelo estético, pelo planos renascentistas e pela fotografia sombria e melancólica em toda essa transição. Depois do catalisador que fora Casa de Lava, Pedro Costa abre a sua trilogia das Fontainhas com esta romantização.

 

Real.: Pedro Costa / Int.: Vanda Duarte, Nuno Vaz, Mariya Lipkina, Inês de Medeiros

 

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Ver Também

O Sangue (1989)

Casa de Lava (1994)

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:00
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27.11.14

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Vida depois do Amor!

 

Eleanor (Jessica Chastain) e Connor (James McAvoy) são um casal excepcional e apaixonado, pelo menos é isso que julgam e invejam as pessoas em seu redor. Mas quando a tragédia surge, o par rompe a sua ligação, apercebendo-se que o amor proclamado por ambos não é tão forte como suponham. Ele, abatido com a separação, tenta recuperar o seu amor perdido, com a esperança de que a distância é somente uma mera ilusão passageira. Ela tenta acima de tudo esquecer a sua vida anterior, por outras palavras, desaparecer.

 

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Um projecto dinâmico de Ned Benson, a sua primeira longa-metragem, que tenta consolidar as diferentes perspectivas de cariz sexual e ideológica do fim de uma relação. Tal como Rashomon, de Akira Kurosawa, aqui a verdade possui demasiadas versões e a fidelidade de Benson a esse veredicto resultou em dois filmes envolvidos em ângulos opostos, Ele e Ela, a visão de Connor e a de Eleanor, respectivamente. Ambas versões salientam a natureza e a divergência da guerra entre sexos proposta, supondo a superação como uma característica própria de cada ser e o amor, não como algo inabalável como se crê nos romances em geral, mas uma reacção natural, por vezes ardente e corrosiva, mas não intransponível. Porém, existe ainda outra versão, um terceiro filme, que tem como proclamação a de ser a definitiva visão, de ser a verdade absoluta – Eles (Them) – a obra que fora apresentado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes e no último Lisbon & Estoril Film Festival.

 

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Esta interligação baseia-se simplesmente no mesmo conceito utilizado em Blue Valentine – Só Tu e Eu, de Derek Cianfrance, o fim da relação, o fim de tudo, mas ao contrário da menção anterior, The Disappearance of Eleanor Rigby é levado por um tom mais agridoce, e até ao final, esperançoso numa eventual reconciliação. Já que falamos em referências, a obra de Ned Benson ajusta-se como uma distorcida versão de Un Homme at une Femme (Um Homem e uma Mulher, 1966), de Claude Lelouch, o que não por acaso, pois frequentemente vemos o respectivo poster no quarto de Eleonor Rigby, como a definição de espelho numa pintura flamenga, a alma do "pintor" em questão.

 

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Este também é um filme que não se envolve amorosamente com a dor dos seus protagonistas, mas que acrescenta um mundo em redor destes – algumas personagens secundárias, mesmo sem grande espaço de antena, são uma delícia necessária para desanuviar o melancólico que a fita poderia reger. Uma delas é a indispensável Viola Davis. Talvez o mundo dela seja mais interessante e propício do que dele neste "universo partilhado", mas é ele que nos leva a iludir enquanto aos propósitos do filme, ao mesmo tempo que é imperativo perdoa-lo por essa sua fantasia que certamente não terá um final feliz.

 

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Se James McAvoy encontra aqui um dos seus melhores desempenhos, é verdade que é Jessica Chastain a "engoli-lo" com uma deslumbrante performance. A actriz prova mais uma vez que está a caminhar afincadamente para o título de uma das melhores da sua geração, principalmente a actuar na indústria norte-americana. Ela é emotiva o suficiente, sem com isso recorrer ao bacoco nem ao overacting. A dor da sua personagem consegue transcender e chega a ser partilhada pelo público. Quanto à química de ambos, a culpa de não vê-los definitivamente juntos começa a sentir-se gradualmente.

 

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Mesmo que possa a não vir a ser a proposta aliciante das versões de Ele e Ela, o capitulo Eles funciona como um cativante e delicado drama que tenta contrastar com a definição do cinematograficamente romântico. Aliás, o que temos aqui é um filme isento dos moldes "hollywoodianos", mais envolvente e apaixonante, devo dizer, que um cinema mais marginal e autoral sobre a intimidade amorosa. Uma proposta para fazer-nos apaixonar pela triste beleza da separação!

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Ned Benson/ Int.: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Bill Hader, Viola Davis, Isabelle Hupert, Ciarán Hinds

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 19:35
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15.11.14
15.11.14

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Em terras longínquas!

 

Em Jauja, Lisandro Alonso emoldura Viggo Mortensen numa distopia silenciosa (em 35 mm para ser preciso) que interliga mitos e teorias de conspiração que muitos gostariam de penetrar, mas que não terão essa sorte perante esta obra envolvida em tão misteriosa aura. A homónima localidade que serve de titulo ao filme foi em tempos um território a ser explorado pelos colonos espanhóis (dizimando por completo a população autóctone, sem qualquer interesse em conhecer suas respectivas culturas, apenas designando-os somente de "cabeças de coco" como sinal de desprezo da "civilização" propriamente dita), em busca de uma alusão a El Dorado, a cidade perdida e "infestada" por ouro. Um paraíso que é muitas vezes referido na obra de Alonso, mas sem a forma necessária para o definir.

 

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Em Jauja, o destino é mais incerto que o próprio percurso do protagonista, o capitão Gunnar Dinesen (Viggo Mortensen), um engenheiro dinamarquês que chegou ao território argentino acompanhado pela sua adolescente filha. O objectivo deste nunca é totalmente revelado, mas Dinesen é o condutor de uma narrativa que transpira falsamente a aventura e ao western norte-americano de um John Ford por exemplo (para dizer a verdade Jauja adquire um certo estatuto de "primo discreto" de The Searchers - A Desaparecida), no preciso momento em que a filha deste é levada por um soldado apaixonado em direcção aos cantos mais obscuros da longínqua pampa patagónia.

 

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Daí segue-se uma aventura solitária, detalhada frame-to-frame e planificada de forma a que espectador demonstre receio pelas eventualidade que se abaterão na jornada de resgate da personagem de Mortensen. Lisandro Alonso evita close-ups e enquadra imensos planos cenários que servem não só para glorificar as paisagens remotas descritas mas para nunca em momento algum criar um empatia do público com os personagens. Tudo resulta num filme visualmente esplendoroso mas isente de qualquer emotividade e interesse nos seus personagens, aliás o realizador argentino lança ele próprio numa aventura especifica, a da distopia (mencionada no inicio do texto).

 

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Assim são unidos o metafísico e até mesmo a ficção cientifica para transformar a obra num exercício mental, onde será o espectador a fazer o seu próprio filme. Não existe nada de concreto aqui, mas sim de desafiante. Jauja não nos levará a uma civilização perdida de ouro derramado da forma mais literal, não senhor, mas concentrará um "what if" quase onírico, como se David Lynch tirasse férias e se lançasse em terras desconhecidas.    

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Lisandro Alonso / Int.: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:34
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10.11.14

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A Balada de Bolchevique!

 

Em Angels of Revolution, o espectador é envolvido a uma antologia da condição da arte sob contexto politico, neste caso às diferentes vertentes artísticas na condução e proliferação do idealismo bolchevique. Já Lenine acreditava que a expansão de reflexões, temáticas e mensagens de cariz social estaria a cargo da Arte, nomeadamente do Cinema, visto que foi durante esta revolução ideológica que surgiu um dos movimentos mais importantes da história da Sétima Arte, desde a linguagem tecida pela montagem até à manipulação desta, tudo em prol do socialismo de um império soviético em ascensão.

 

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O realizador russo Aleksej Fedorchenko brinca constantemente a esse jogo de referências em relação ao historial cinematográfico do seu país, com as "caras-chapadas" de Sergei Eisenstein ou de Vsevolod Pudovkin a serem invocadas sem pudor, funcionando no seu todo em personagens caricaturais que referem um processo de proliferação política, por vezes comparada com um colonialismo ideológico. Assim, somos remetidos a seis artistas vanguardistas que operam pela preservação da União Soviética e que, sob as ordens do seu regime, viajam para a Sibéria virgem para "espalhar" a "boa palavra revolucionária" aos povos ainda "presos" das suas culturas tradicionais e pagãs.

 

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Esta jornada de pregação é incutida sob um impasse satírico, onde Fedorchenko constantemente elabora sketches (aparentemente sem ligação narrativa alguma) em que fomenta a sua noção de crítica. São sequências disparatadas sob gestos de astúcia discreta, que tanto evocam o cinema de Elia Suleiman, como não encobrem os tiques cinematográficos e tecnicistas de um Wes Anderson. Depois desta apresentação em puro modo de divagação das melancólicas e imprevisíveis personagens, é então que somos levados à sua cruzada ideológica por terras gélidas e obscuras da civilização. O jogo caricatural faz-se então sentir e a linguagem fílmica e mordaz condensa num tom ambíguo, ora descontraído, ora forçado, em dispersar da sua seriedade.

 

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Depois do retrato satírico estar por fim fechado, a verdadeira natureza de Fedorchenko é revelada; a caricatura torna-se numa dura análise e as imagens por ser auto-interpretadas. O cinismo é então revelado em prol desse mesmo quadro. Quadro esse, onde o alvo é declarado - a coercibilidade social e ideológica, uma das causas que condenou o regime soviético. Pensando melhor, talvez não seja por acaso que a Crimeia é mencionada logo de início desta obra, levando-nos a crer que Angels of Revolution foi executado para ser algo mais que puro cartoon de jornal, mas uma provocação.

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Aleksej Fedorchenko / Int.: Konstantin Balakirev, Pavel Basov, Darya Ekamasova

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:30
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9.11.14

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O último dos românticos!

 

Não é nenhum erro afirmar que The Casanova Variations (As Variações de Casanova) é um híbrido entre duas artes (uma delas pura, outra, citando João Botelho, "vampírica") e não o banalíssimo título recorrente de "teatro filmado", ao mesmo tempo que se concentra como uma filosofia da eternidade de uma figura romanesca, talvez o último da sua espécie, o libertino e sedutor Giacomo Casanova (1725 - 1798).

 

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Filmado totalmente em Portugal, esta produção de Paulo Branco remete-nos a um mundo metafísico, um "faz de conta" quanto às realidades expostas. Derivado a isso, é constante o desafio ao espectador de integra-las, ou seja, por momentos encaramos a peça (a Ópera de W. A. Mozart, adaptada do livro A História da Minha Vida - do próprio Casanova), noutros vivemos a história da peça e depois há ainda a realidade que engloba essas mesmas duas realidades. Esta "trilogia" é disposta a uma matriz narrativa que tanto invoca a essência dramaturga como o misticismo da ópera. Mas o austríaco Michael Sturminger opera como o elo mais fraco, não conseguindo totalmente cativar a audiência com a sua câmara e perspectiva. Por outras palavras, o artificialismo de As Variações de Casanova é diversas vezes abalroado com uma constantemente tremida e irrequieta câmara que assenta ocasionalmente numa crueza técnica.

 

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No centro desta utopia, encontramos a estrela - John Malkovich – que se deixa à mercê da maré destas realidades expostas. Se por um lado ele é o próprio e ninguém recusa a proposta (vem-nos à mente Being John Malkovich?, de Spike Jonze), simultaneamente o actor figura-se perfeitamente na pele de Giacomo Casanova, mas dotado somente pela sua automatização egocêntrica, que funciona, aliás, não como um desempenho transcendente e trabalhado, mas por fazer-nos acreditar numa eventual encarnação (ou reencarnação). Como o seu alicerce está Veronica Ferres, a frígida capa da tragédia pessoal, que exerce as tarefas de o Fantasma do Passado de Charles Dickens, em relação ao nosso multi-identitário protagonista.

 

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As Variações de Casanova é uma proposta desafiante de cinema, um recuo a uma das suas origens lado a lado com a inovação narrativa e de metamorfose fílmica. John Malkovich é o rei deste mundo, ou diríamos antes, a viva alusão de Casanova, a dissecação de uma personagem imortalizada ao mesmo tempo que se enquadra na condição de actor.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Michael Sturminger / Int.: John Malkovich, Veronica Ferres, Fanny Ardant, Tracy Ann Oberman, Maria João Bastos, Miguel Monteiro

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:47
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24.10.14
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Sob uma "pele de cobra"!

 

Segundo Daniel Hui, a história da Singapura é somente um conjunto de mitos e a versão verdadeira apenas reside na voz muda dos fantasmas, espectros amaldiçoados condenados a testemunhar um país em plena metamorfose, mas sob uma constante crise de identidade. Talvez a única solução, sugerida pelo próprio realizador, é a de queimar o manual de história nas mesmas chamas que um dia "abraçaram" o berço da humanidade e que, mais tarde, cumprirão a profecia de a destruir.

 

Snakeskin é um documentário experimentalista de teor provocativo que funde um conceito digno dos contos de ficção científica, a capacidade viajar do tempo, para tecer uma linguagem irónica sobre as constantes críticas que tende em culminar. Tudo acaba por ser um jogo que une a imaginação com soluções linguísticas do próprio autor, que se demarca nesta busca pela verdadeira essência do país.

 

Porém Hui, que venceu um prémio de Revelação na anterior edição do Doclisboa com o seu Eclipses, não demonstra ser capaz, nem possuidor de interesse, em dirigir uma voz revolucionária. Em vez disto, prefere antes apresentar uma discreta causa, secretamente perdida na "voz" de acorrentados espectros como também nas suas formas (a de um gato, o mero errante entre o mundo dos vivos e dos mortos). Os desvanecidos nas memórias esquecidas da nação. Memórias, essas, como havia mencionado, longe dos ditos manuais que, segundo Snakeskin, merecem ser queimados nas referidas chamas. O contra-veneno de Singapura.

 

Daniel Hui incute aqui certas influências narrativas dos cinemas documentais de Werner Herzog e de Rithy Panh. E, tal como este último e sob o signo da sua última grande obra, o nomeado ao Óscar, The Missing Picture, utiliza o cinema como forma de exorcismo aos fantasmas invocados. Snakeskin é um exercício assombroso de narrativa, a promessa de um documentarista em busca da sua razão de ser, tal como o seu retrato de Singapura, em busca da sua etnia, tradição e verdade.

 

Filme visualizado no Doclisboa'14

 

Real.: Daniel Hiu

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:52
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21.10.14

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Azul é a cor mais quente!

 

É certo que a mais acessível escapatória de uma rotina é criar outra rotina, um conjunto de rituais sistemáticos que se tornaram parte do dia a dia de Julien (Mathieu Almaric). Contudo, as amarras com a rotina anterior são demasiado fortes, ou Julien demasiado fraco para finalmente desprender se e aceitar as suas escolhas. Baseado num livro policial de Georges Simenom, La Chambre Bleue (O Quarto Azul como titulo traduzido) marca a quarta longa-metragem realizada pelo actor Mathieu Almaric (para além disso, tem aqui um dos seus melhores desempenhos), uma prolongação de um pesadelo passional que adquire através de uma narrativa desfragmentada e misteriosa, contornos burlescos e de uma certa e negra ironia.

 

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A história que surge inicialmente, e de importante cadência, é um quarto azul de hotel, que aqui é mais que um cenário. É um elo de cumplicidade entre as duas personagens; Julien e Esther (Stephanie Cleau), ambos sujeitos respectivamente casados mas obsessivos em saciar uma atracção de adolescente. O resultado é um adultério metódico, conduzido por sinais e de uma discrição exemplar. Porém, algo acaba por correr mal. Os primeiros minutos de fita não escondem o conflito que se avizinha - Julien é acusado de matar a sua própria mulher, a fim de ficar com a sua amante, mas o nosso protagonista proclama a sua inocência, mesmo que os indícios apontem noutra direcção.

 

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O Quarto Azul não se expõe como um thriller passional ao jeito de Fatal Atraction, de Adrian Lyne. Ao invés disso, temos um filme não convencional que "brinca" com a própria disposição narrativa e com a consciência das suas personagens e com isso com o constante julgamento do seu espectador. O quarto azul do filme torna-se assim num local de crime, numa metáfora envolvida em vórtice que aprisiona todos em seu redor. Se o livro em si é misterioso e atmosférico, o filme de Almaric respeita essa aura incógnita, mas infelizmente a atmosfera parece ter ficado à porta dos propósitos do actor agora convertido em autor, sendo que a sua maioritária preocupação é sob material vencido em Cinema: vergar uma visão masculinamente perturbadora.

 

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Aliás, O Quarto Azul é um filme que se preza pelo respeito tremendo que tem pelas mulheres, salientando o seu intelecto, perseverança, percepção e no poder que possuem sobre os homens, estes cada vez mais vistos na sociedade ocidental como o "verdadeiro" sexo fraco.

 

Real.: Mathieu Almaric / Int.: Mathieu Amalric, Léa Drucker, Stéphanie Cléau

 

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17.10.14

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"Encaixotados"!

 

Há um certo entusiasmo em visualizar animações em stop-motion e confirmar a sua simbiótica artificialidade e esforço de uma equipa em construir algo dinâmico sob meios artesanais e trabalhosos. Trata-se de um processo criativo, felizmente devidamente reconhecido, desde os tempos da Aardman (Wallace & Gromit como duas figuras de referência incontornáveis) até às experiências de Tim Burton e Henry Selick, este último um dos impulsores para a criação da Laika, a produtora exclusiva nestes assuntos que ambiciona competir com um mercado mais exigente através desse mesmo modus operandis.

 

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The Boxtrolls talvez seja uma das maiores das produções do ramo, uma alegoria animada dotada por um cenário pitoresco e caricatural, Ponte de Queijais, onde monstros "encaixados" vivem nos seus esgotos, "aterrorizando" os habitantes dessa mesma cidade hierarquizada. Contudo, tais temores são apenas mitos. Os monstros das caixas são na verdade seres simpáticos, inofensivos e indefesos perante o esquadrão de exterminação liderada por Archibald Snatcher (na versão original com a voz de Ben Kingsley). Cabe agora a Eggs, um rapaz criado por essas mesmas criaturas, levar ao bom senso dos habitantes de Queijais e salvar os seus companheiros, a única família que conheceu.

 

The-Boxtrolls-International-Trailer-2-7.jpg

 

The Boxtrolls é um enérgico conto que obviamente agradará aos mais novos graças à sua composição imaginativa, divertida (gags engenhosas e perceptíveis) e personagens secundárias caricaturais. Porém, serão os adultos que apreciarão ainda mais a obra em questão. Em causa está, não só a estética dos "Os Monstros das Caixas" (baseado no homónimo livro de Alan Snow), mas as sublimares mensagens que esconde entre os seus sub-enredos; como a corrupção e a luta entre classes sociais recorridos como referências, que decerto serão reconhecidas pelas audiências mais velhas. Para além disso, não esperem uma resolução moralista para o meio daquilo tudo, pelo menos uma que realmente satisfaça a ingénuos amantes de "happy endings". E nisto poderá soar cruel, cliché ou até deprimente, mas a ausência de focagem nesses pontos alude ao mundo real, onde o desinteresse em mudar o que todos reconhecem ser o incorrecto é sempre "atropelado" pelo mediatismo e pela "distracção do momento".

 

laikas-the-boxtrolls.jpg

 

Mais sofisticado em termos visuais que os seus "primosCoraline e Paranorman, e dotado por uma fértil imaginação, The Boxtrolls apenas fraqueja em não deixar transparecer a sua irreverência tal como havia sido feito nos exemplos já mencionados. Mas não haja dúvidas. Esta é uma proposta fabulista a ter em conta para toda a família.

 

"I have been reasonable, and I can be unreasonable."

 

Real.: Graham Annable, Anthony Stacchi / Int.: Isaac Hempstead Wright, Ben Kingsley, Jared Harris, Elle Fanning, Simon Pegg, Nick Frost, Toni Collette

 

Eggs-and-Winnie-09-25-14.jpg

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:28
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21.9.14

Este filme não é para velhos!

 

Na sua primeira longa-metragem, Hermes Paralluelo filma os seus próprios pais como personagens decadentes acorrentadas a um sistemático ciclo de rituais e gestos. Poderíamos aclamar que este No Todo es Vigilia é algo que bebe da mesma água que um Hiroshima, Mon Amourde Alain Resnais, por exemplo. Isto pelo simples facto desta ser uma ficção enraizada na veia documental ou, simplesmente, por um conceito simplista, um documentário que durante o seu processo resultou numa mostra híbrida, ficcional e, em simultâneo, renunciando tal categoria.

 

 

Paralluelo aborda uma história de amor, não no momento ardente da sua paixão, mas no conforto acostumado com o seu par. Existe afecto aqui e o espectador sente isso quando visualiza imagens de insuportabilidade psicológica seguida por um perdão silencioso de quem ama. O realizador consegue uma obra alicerçada por planos magistrais e uma fotografia fantasmagórica, que acentuam o vazio e a solidão iminente. A rotina é aqui o centro do espectáculo, da mesma forma que os paradoxais diálogos governam uma narrativa decadente, cujo desenvolvimento comporta como uma mera entidade invisível e acossadora. No fundo as ideias deste primeiro filme são estas: a fobia da "velhice", o medo da solidão e o ciclo rotineiro que se dá como "cartão de visita" para o fim dos elementos.

 

 

Neste aspecto No Todo es Vigilia resulta na perfeição mas, como primeira obra, a presunção precoce do realizador acentua um desfecho tardio e sequências non sense que reafirmam o que já havia sido dito. Um dia chegaremos assim, decadentes no tempo, mas loucos viventes das "folgas" impostas pela morte. Folgas essas lentas, quase e desesperadamente imperecíveis. Hermes Paralluelo constrói a homenagem digna ao amor dos seus pais, o olhar no passado com dedicação e afecto que só um filho poderia dar. Nisso, No Todo es Vigilia é admirável.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Hermes Paralluelo / Int.: Antonio Paralluelo, Felisa Lou

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:41
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17.9.14

O incomodo convidado!

 

Segundo o próprio realizador, Adam Wingard, The Guest foi baseado na banda sonora típica e minimalista dos anos 80, com especial referência ao cineasta John Carpenter. Talvez seja por esse motivo que esta obra datada de 2014 tenha muitas influências do estilo despreocupado e por vezes trash do cinema desse realizador e é nessa composição que encontramos a fórmula do seu sucesso. Depois de You're Next, Wingard volta a debater-se com convidados indesejados nesta intriga a que sujeita uma família, os Peterson, destroçada e em luto pelo óbito prematuro do seu filho mais velho, morto em serviço no Iraque. Certo dia, os Peterson recebem uma visita inesperada, um dos camaradas do seu filho, David (Dan Stevens), que surge com o intuito de prestar auxílio e apoio à família devastada. Um amigo bem-vindo que subitamente se torna numa misteriosa ameaça.

 

 

The Guest, estreado no último Festival de Sundance, é um filme conduzido por um ritmo frenético, imparável e eficaz, um divertimento lúdico, porém de paladar nostálgico e muito eighties. O jovem actor Dan Stevens é implacável na sua sinistra personagem, que desde cedo transfere para o grande ecrã um clima de suspeita gradual. A sua jornada repleta de diversos twists, que nada impedem The Guest de seguir os seus propósitos iniciais, é minada por inúmeros gags hilariantes e enredo no mínimo astuto, cheio de personagens caricaturais. Porém, as ditas influências de Carpenter revelam-se no preciso momento que se dá o major twist, a veia trash acentua-se na trama e são continuamente disparados referências que deliciarão os espectadores mais conhecedores dos tais toques "carpenterianos". Um pouco de Halloween ali, Escape from New York acolá, ou até mesmo Assault on Precinct 13 noutro momento. Carpenter com fartura e o melhor é que Adam Wingard o reconhece.

 

 

The Guest é uma proposta aliciante que reúne os géneros de thriller e acção sob um registo próximo do terror, apto para agradar a um público muito diverso. Infelizmente, e apesar dos bons momentos, a nova fita de Adam Wingard está longe de ficar na memória, limitando-se a um amontoado de referências e pouco mais. Mas volto a sublinhar, é divertido que se farta!

 

Filme visualizado no MOTELx 2014: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Adam Wingard / Int.: Dan Stevens, Sheila Kelley, Maika Monroe

 

 

Ver também

You're Next (2011)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:52
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13.9.14

Realidades expostas!

 

O maior trunfo de Coherence é encontrar coerência no absurdo, pelo menos é o que à partida grande parte dos espectadores irá julgar. A primeira obra de James Ward Byrkit foi concebida inicialmente como ideia a de concretizar um filme sem equipa técnica e argumento, tendo como set a sala de estar do próprio realizador. Contudo, o dito argumento surgiu de pára-quedas a Byrkit (que também escreveu o filme), que fascinado pela raciocínio cientifico, decide então executar o guião para o grande ecrã, dando origem a uma complexa obra que desafia as próprias leis da industria cinematográfica do género.

 

 

Em Coherence não encontramos nenhuma distopia evidente, nem mesmo uma revisita aos lugares-comuns. Tudo se resume a um filme de baixo orçamento muito limitado em recursos e com atores sob o efeito do improviso, mas munidos por um trunfo: um argumento eficaz em conceber uma credível explicação ao sucedido - mesmo quando se trata de mexer em temas como física quântica, metafísica e outras teorias difíceis de engolir. Muitas dessas disciplinas soam como "chinês" para a maioria dos espectadores, mas tais são adaptadas de uma forma concebível e perceptível. É o conceito de Schrödinger (as diferentes realidades e possibilidades em convivência lado-a-lado) levado ao grande ecrã, em comunidade com a fantasia descrita por Byrkit.

 

 

Coherence é uma pequena surpresa no seu campo. Envolvente, astuto, quase sem falhas na sua concepção, com um elenco que consegue aperfeiçoar as suas respectivas personagens, com principal destaque para Emily Baldoni (uma actriz quase condenada a pequenos papéis televisivos), e atmosférico o suficiente para nos transportar para a sua realidade (um ponto a favor na música composta por Kristin Øhrn Dyrud). Ou seja, eis um exercício cientifico posto e transitável à prova. Uma recomendação: para quem é aficionado por ficção cientifica inteligente, mas saturado do histerismo cinematográfico do costume, não pode perder este Coherence.

 

Filme visualizado no MOTELx 2014: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: James Ward Byrkit / Int.: Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:05
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10.9.14

A história do “homem de areia”!

 

Uma bateria de Billy Conway, um saxofone barítono de Dana Colley e um baixo de duas cordas tocado pelo também vocalista Mark Sandman, uma estranha composição de instrumentos que ninguém acreditaria que fosse capaz de gerar tão distinta e única música de low rock nos anos 90. Tinha o nome de Morphine, uma banda norte-americana que ficou celebre pela alienação dos seus sons, pelo estranho conjunto de instrumentos e pelo carisma do reservado Mark Sandman, o qual este documentário dirigido pela dupla Robert Bralver e de David Ferino e produzido por Jeff Broadway dedica por completo.

 

 

Cure for Pain: The Mark Sandman Story (alusão aquele que foi para muitos o melhor e inovador dos álbuns da banda) nos apresenta de forma poética, envolvente e explicita a vida deste artista completo e talentoso, o seu passado marcado pela tragédia familiar, o sucesso mundial da banda e a influência da sua música na sociedade dos anos 90 até chegar a sua literal queda em palco derivado a um ataque cardíaco que o vitimou durante um concerto em Palestrina, Itália em 1999.

 

 

Conservado a aura mítica envolto da figura retratada, Cure for Pain consegue ser emocionante nos seus testemunhos e na transposição da união do seio musical quando um dos seus membros os deixou sob circunstâncias abruptamente trágicas e dramáticas. Um tributo algo obrigatório para todos os fãs da banda e não só, amantes de música em geral, onde a imagem de Sandman é restaurada e abordada tal como ela é, sem embelezamentos e bajulações exageradas. Uma personalidade misteriosa a descobrir a todo o custo. Por fim, Cure for Pain: The Mark Sandman Story ainda nos presenteia com as entrevistas de Ben Harper, Josh Homme (vocalista e guitarrista de Queen of the Stone Age), Mike Watt (baixista dos The Stooges) e Les Claypool (Primus).

 

Filme visualizado no MUVI Lisboa’14: Festival Internacional de Música no Cinema

 

Real.: Robert Bralver, David Ferino / Int.: Mark Sandman, Chris Ballew, Dicky Barrett, Les Claypool, Ben Harper, Hosh Homme, Mike Watt

 

 

Ver Também

Anyone Can Play Guitar (2009)

Leave the World Behind (2013)

Our Vinyl Weighs a Ton: This Is Stones Throw Records (2013)

Marina (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:11
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26.8.14
26.8.14

 

Ela vai chegar aos 100%, isso é uma certeza!

 

Nos tempos que decorrem, de Luc Besson não se espera “grande” coisa, muito menos algo alusivamente astuto como se tornou este Lucy. Mas para entender este “out of box” dos blockbusters de Verão deveremos recuar uns valentes anos e afastarmos do cinema. Em 1973, uma equipa de arqueólogos que buscavam artefactos sobre a origem humana na Etiópia, depararam-se com um fóssil de um hominídeo, na altura desconhecido para o Mundo, bastante mais antigo que os fosseis descobertos até então. Semelhante a um chimpanzé, mas com o crânio muito mais desenvolvido, teorizando que este mesmo animal possuiria uma intelecto superior que o do referido primata, os ossos ainda evidenciavam o surpreendente, este animal conseguiria caminhar “erecto”, uma posição que ditou para sempre a evolução do Homem, fazendo com que largássemos as florestas arborizadas e caminhássemos pelas vastas savanas. O leitor de momento estará a perguntar o que de relacionado tem este facto paleontólogo e antropólogo com o filme protagonizado por Scarlett Johanson, bem esse mesmo hominídeo, tendo em conta os ossos da pélvis, era uma fêmea e curiosamente foi baptizada de Lucy. Reza a “lenda”, que na altura da sua descoberta passava na rádio o single Lucy in a Sky with Diamonds” dos Beetles.

 

 

Pois bem, Lucy foi a Eva da Ciência, a primeira Mulher descoberta e a sua relevância para o conhecimento de onde viemos e como chegamos até aqui é crucial. Agora no mundo cinematográfico, Lucy será a primeira mulher, se não personagem, a atingir os 100 % de uso cerebral, regendo por especulações cientificas e pelo bom nome da sci-fy, um ridículo “what if” que surpreendentemente torna-se num produto munido duma inteligência experimental e ao mesmo tempo lúdica. Assim iniciamos com a sequência de um primata a “matar” a sua sede num lago, nesta altura o cinéfilo apanhado de surpresa identifica tal cena com uma similar na incontestável obra-prima de ficção científica de Stanley Kubrick, 2001: A Space Odyssey.

 

 

Porém o leitor já deve aperceber e tendo em conta a longa divagação desta critica que tal animal é Lucy, o dito hominídeo fêmea, o filme encarrega-se mais tarde de identificar a criatura, mas entretanto somo apresentados à nossa Lucy, uma vistosa Scarlett Johanson que nos primeiros minutos tem a difícil missão de entregar uma maleta de conteúdo desconhecido a um sujeito de iguais características numa redacção de hotel em Taiwan (a “piscar” os olhos ao mercado asiático). Neste momento o espectador sente que algo não está bem e que depressa acontecerá o inevitável, um dispositivo que nos guie automaticamente ao enredo da fita. Luc Besson aufere assim a expressão a esta inicial sequência, usufruindo de uma montagem intercalar - enquanto que Lucy se aproxima do seu “alvo”, as imagens duma gazela a ser encurralado por uma chita intervêm sem aviso – invocando a memória das experiências executadas pelos cineastas russos de Bolchevique (à memória surge-nos Sergei Eisenstein e o seu Stachka - A Greve, a constante mudança entre conflitos de trabalhadores / autoridades com imagens de matança de um bovino).

 

 

Depois do enredo principal ser então arrancado, Morgan Freeman entra em acção em modo interveniente, situando o espectador à promessa do filme, os ditos controlos cerebrais e suas consequências (ou dádivas). Como é óbvio a narração de Freeman é carismática, confortante e acima de tudo sábia, ele é o gamekeeper deste ensaio futurístico e é com ele que se inicia a contagem crescente ao propósito do filme. Escusam de negar, a verdadeira intenção de Lucy foi apresentada muito antes de ser visualizado, quer no poster ou trailer, as condições de contrato deste novo produto de Besson é visualizar um exercício de possibilidades e nada mais, a chegada dos 100% e a criação quase “shelleana” que se gerará. Scarlett Johanson vagueia por essa mesma jornada, a demanda pelo conhecimento tal como a “primitivaLucy deu aos estudiosos em 1973. A capacidade de assistir ao próximo passo da evolução humana. Obviamente que tudo não passa de uma sugestão cinematográfica ou da teoria do mais fértil e imaginativo geek, mas o filme sabe “controlar” essa vertente e com isso um espectáculo visual e por vezes narrativo.

 

 

E em segundo plano são convocados todos os elementos dignos do já estabelecido cinema de Luc Besson. Os tiroteios, lutas corpo-a-corpo, perseguições e como não poderia faltar, uma França vista pelos olhos dos americanos, ingredientes que tão bem sabem à “reinvenção bessiana”, mas em doses menores e facilmente doseáveis que as obras anteriores. Mas Lucy prevalece como uma “ovelha negra” dentro desse mesmo rebanho, um previsto videoclipp que acaba por se tornar numa vistosa e desafiante fantasia científica. Por fim vale a pena salientar Min-sik Choi, visto no excelente Oldboy de Chan-wook Park, um arrepiante e magnético “vilão de serviço”, um complemento frenético com uma sedutora e fria Johanson.

 

"Life was given to us a billion years ago. Now you know what you can do with it."

 

Real.: Luc Besson / Int.: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi, Amr Waked

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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12.8.14

Os Vingadores do Espaço sem fronteiras!

 

O estatuto da Marvel como produtora cinematográfica é tal que chegaram a contratar o quase desconhecido, mas competente, James Gunn (quem se lembra de Slither?) para dirigir uma das suas apostas mais arriscadas. Trata-se de Guardians of the Galaxy, uma das séries mais alternativas da Marvel enquanto editora, constituído por um elenco pouco apelativo para as grandes massas, mas que mesmo assim conseguiu um hype estrondoso durante os seus primeiros dias em cartaz, um frenesim que nenhum outro filme da Marvel havia "gozado" desde então. Mas será esse dito hype, algo merecido ou um puro exagero? Perguntam vocês e muito bem.

 

 

Na verdade, Guardians of the Galaxy resume-se a um filme fresco dentro dos parâmetros formatados do estúdio e com um claro bom gosto ao vintage. Esse último ponto torna-se evidente a banda sonora, uma alegoria de êxitos dos anos 70 e 80 (de David Bowie a Marvin Gaye, passando pelo vibrante Hooked on a Feeling, dos Blue Swede) e o tom satírico da obra que o distingue do humor quase "slapstick" dos anteriores capítulos da Marvel Cinematic Universe.

 

 

Quanto ao enredo, este centra-se na aventuras de cinco "desajustados" fora-da-lei inter-galáticos que decidem intervir para o bem de todo o Universo, ou seja, impedir que os maléficos planos de um vilão de serviço se concretizem. Esse dito "quinteto de cordas" é constituído pelo terráqueo John Quill e o seu forçado "alter-ego" Star-Lord (a ascensão de Chris Pratt para futura estrela), a assassina Gamora (Zoe Saldana e mais uma variação alienígena, desta verde), o brutamontes com problemas de expressão Drax the Destroyer (o wrestler Dave Bautista), a simpática árvore mutante Groot (Vin Diesel naquele que poderá ser o melhor papel da sua carreira e apenas munido com um frase, repetindo vezes sem conta) e por fim o guaxini rezingão e malicioso Rocket (Bradley Cooper). A química entre eles é impagável e invejável, sendo os cinco o "motor" de todo o filme, e talvez o motivo que baste para tornar a obra de James Gunn na melhor variação cinematográfica da Marvel Studios. Se não for o caso, talvez contagiado pelo hype envolto, Guardians of the Galaxy é por enquanto o mais divertido filme deste universo desde que Robert Downey Jr. vestiu pela primeira vez o fato metalizado de Iron Man.

 

 

Um deleite cómico aspirado nas aventuras cinematográficas mais antigas do que o habitual standard da linguagem de videojogo que muitos dos blockbusters parecem ter adquirido. É visível que James Gunn inspirou-se em Firefly/Serenity (atenção o criador desta série, Joss Whedon, é já um dos braços fortes da empresa) e em Star Wars, este último talvez a matriz de todo os filmes para as massas da actualidade, e tais comparações são ainda mais evidentes com a chegada do climax (o ato menos conseguido de todo o filme), onde o qual esboça um "déjà vu" arrastado (será que estou a ver a invasão dos rebeldes à Estrela da Morte!) e prejudicado por um vilão sem um pingo de carisma nem interacção com o quinteto heróico (tirando Loki de Tom Hiddlestone, a Marvel Studios não consegue criar mais nenhum memorável vilão).

 

 

Dito isto, há que salientar que a entrada de Gunn no mundo do blockbuster é ditado por uma das mais deliciosas conversões da BD, mas nem tudo são "rosas" aqui. Existe obviamente e dentro do cinema de entretenimento muitas arestas a ser limadas, e como jubilo cinéfilo é triste ver o desaproveitamento de atores como Glenn Close e Djimon Hounsou. Porém, a maior infelicidade do filme é talvez o seu destino frente à fervorosa maquina de "fazer dinheiro" que é a Marvel. O que preocupa aqui são os universos partilhados, que transforma talvez segmentos da banda desenhada que poderiam ser interessantemente explorados no grande ecrã em produtos modelizados por uma maquina industrial. Sabendo que será difícil digerir um elo que interliga o mundo de Guardians of the Galaxy com os anteriores Iron Man, Hulk e Thor, qualquer coisa que equivale a criar um crossover de Star Wars com The Lord of the Rings, demasiadas incoerências do que similaridades. Mas este ponto já é algo que deveríamos ter em conta muito antes de termos visualizado a obra, a Marvel não brinca em serviço no que requer em agradar as suas exigentes legiões de fãs. Ainda assim, Guardians of the Galaxy funciona como um filme a solo e por enquanto podemos por momentos fingir que se trata disso. Por enquanto, a sequela já se encontra a caminho ... e com mais "awesome mixtapes".

 

"I am Groot"

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper, Zoe Saldana, Dave Bautista, Glenn Close, Djimon Hounsou, Lee Pace, Josh Brolin, Karen Gillan, John C. Reilly, Benicio Del Toro, Seth Green

 

 

Ver Também

Iron Man (2008)

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Iron Man 3 (2013)

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The Incredible Hulk (2008)

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Captain America: The First Avenger (2011)

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The Avengers (2012)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:41
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27.7.14

Sobrevivência a alta velocidade!

 

Para contornar o Aquecimento Global, vários países acordaram em lançar um gás que pudesse refrigerar o planeta, porém os resultados foram demasiado drásticos, conduzindo o Mundo a uma nova Era Glaciar. Toda a vida na Terra morreu, excepto aquelas que se encontram na imparável locomotiva de Wilford, o último reduto da Humanidade, um comboio com mais de 1000 carruagens estruturadas num processo hierarquizado. Após vários anos em condições desumanas, os chamados "restos" da Humanidade, deixados à sua mercê na última carruagem, revoltam-se e lançam-se num motim com principal objectivo tomar a posse da locomotiva e "quebrar" a distância entre as diferentes classes que compõem esta Arca de Noé sobre carris.

 

 

Adaptação da graphic novel francesa, Le Transperceneige (Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette), que fora publicado em 1984 e que apesar da sua antiguidade, reserva elementos modernos e actuais como um presságio alarmante, a ameaça do Aquecimento Global e a sua tardia luta, até chegar a uma contextualização caricatural dos ideais marxistas. Enfim, o realizador sul-coreano Joon-Ho Bong, que em 2006 havia "ressuscitado" o género de monstros com The Host (uma delicia cómico-trágica), transforma este visionário conto de distopias num dinâmico blockbuster internacional que tem como característica ser mais astuto que a maioria dos seus congéneres norte-americanos. E sob esse pretexto de grande produção, Snowpiercer se converte numa antologia às diferentes distopias da ficção cientifica cinematográfica e com óbvios contágios da própria literatura de género (evidente hereditariedade do livro de Aldous Huxley, O Admirável Mundo Novo), tudo para seguir com um ritmo acelerado mas sempre ciente dos seus propósitos e objectivos.

 

 

Há aqui praticamente de tudo, desde elementos do cinema mais trash e despreocupado com próprias filosofias tecidas de uma obra mais existencialista e panfletária, remetendo sobre o equilíbrio social e os riscos em mantê-lo como também a anarquia como luta dos mais desfavorecidos. Ou seja, Joon-Ho Bong invoca uma imparável panóplia de pertinentes questões ou sugestões a foro social, atenuados por uma acção conflituosa hiperactiva e quase regida a uma linguagem de videojogo (as diferentes carruagens vistas como uma sucessão de níveis), porém sedutora no seu próprio jogo. O realizador retira ainda a força da individualidade dos personagens, existindo aqui quase uma invocação ao cinema de Eisenstein, onde o colectivo é encarado como uma única personagem, e por isso a perda de uma desta em termos individuais é isente de qualquer emotividade.

 

 

Com um visual deslumbrante e uma banda sonora pomposa que serve de companheiro na demanda liderada por um carismático Chris Evans, Snowpiercer funciona como entretenimento cerebral que finca nas diferentes feridas da sociedade sem com isto permanecer uma posição reflectora e condenável. Joon-Ho Bong orquestrou uma partitura intensa, energética, contudo desigual. Infelizmente o final deixa mais perguntas e respostas e mesmo tendo em conta as pertinências do argumento, é fácil admitir o quão longe poderia simplesmente seguir. Mas é um blockbuster corajoso … isso sim … e tem Tilda Swinton no seu lado mais excêntrico, o que é sempre justificação para o preço do bilhete.   

 

"Have you ever been alone on this train? When was the last time you were alone? You can't remember, can you? So please do. Take your time."

 

Real.: Joon-Ho Bong / Int.: Chris Evans, Jamie Bell, Tilda Swinton, John Hurt, Octavia Spencer, Kang-Ho Song, Ed Harris, Alison Pill, Ah-Sung Ko

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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9.7.14

Depois do liceu é a vez da universidade!

 

No preciso momento em que Capitão Dickson, a personagem interpretada por Ice Cube, entrega a nova missão aos seus agentes "predilectos", Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum), adverte que falhas são inadmissíveis, visto que o novo caso tem muito de idêntico com o anterior. Contudo, é sob esse signo de repetição que 22 Jump Street percorre os lugares-comuns deixados pela prequela (sendo novamente a trip como um dos momentos altos e hilariantes da narrativa), vagueando pelo visto e revisto até por fim dar de caras com uma leve frescura que reencaminha a comédia para fronteiras mais astutas do que a maioria das produções do género.

 

 

Phil Lord e Christopher Miller (a dupla por detrás do êxito de The Lego Movie) regressam assim numa sequela mais musculada e confiante, que restaura o espírito do sucesso de 2011, que por sua vez foi a adaptação de um popular série televisiva do final dos anos 80 com Johnny Depp no principal papel. Tal como a prequela, 22 Jump Street dita um humor alternado entre a sátira inteligente e corrosiva (tendo os estereótipos e artifícios liceais como principal alvo) com gags dinâmicos e por vezes desmiolados, tudo isto servido por uma química prestável pelos dois protagonistas. Channing Tatum confirma mais uma vez que tem "queda" para a comédia e Ice Cube funciona sob um jeito caricatura. Aliás, não é só o elenco que funciona como caricatura, toda a estrutura narrativa jornadeia habilmente para isso.

 

 

Para comprovar tal facto basta assistir aos créditos finais com aguçada crítica à situação actual da indústria cinematográfica (com Seth Rogen como um dos alvos a abater) e uma sequência, que segundo a nossa impressão cinéfila, assenta numa especial atenção a Spring Breakers, o infame filme de Harmony Korine que se tem revelado um culto pecaminoso. A dupla Phil Lord e Christopher Miller esmeraram-se nos mínimos e eis assim uma comédia ocasionalmente inteligente, divertida e dinâmica, talvez o melhor exemplar norte-americano do género deste ano.

 

"The Koreans bought the church back, so we had to move across the street... to 22 Jump Street."

 

Real.: Phil Lord, Christopher Miller / Int.: Jonah Hill, Channing Tatum, Ice Cube, Queen Latifah, Dave Franco, Peter Stormare, Wyatt Russell

 

 

Ver Também

21 Jump Street (2012) 

Spring Breakers (2013)

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:45
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1.7.14
1.7.14

Ao volante das emoções!

 

A vida de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem de família dedicado e um trabalhador exemplar, desaba gradualmente como "peças de dominó" após ter recebido uma chamada que o colocará numa posição decisiva. Conduzido à noite em direcção a Londres, Locke prepara-se para enfrentar as consequências dos seus próprios actos.

 

 

O novo filme de Steven Knight (Hummingbirds) poderá ser encarado como um exercício narrativo, e certamente o é, contudo este possui uma dimensão psicológica e emocional aguçada que conjuga com o efeito de sugestão. Esta é uma obra regida pelos códigos do thriller (sente-se uma certa vertente do cinema de Hitchcock), onde Knight utiliza usuais artefactos - o carro e o kit de mãos livres - como catalisadores da fluidez narrativa e do empenho de Hardy, confrontado e a mercê dos obstáculos conflituais impostos.

 

 

Obviamente nada disto funcionaria se Tom Hardy não fosse o actor que realmente é, imenso de classe e ao mesmo tempo de uma simplicidade expressiva. Poderemos afirmar que é ele que carrega o filme às costas, ultrapassando o mero exercício e as limitações cénicas. Para além dos seus longos diálogos com os constantes telefonemas que acentuam o drama humano e a colisão das relações de Locke, é nos seus momentos com a solidão, os monólogos entusiasmantes, que Tom Hardy se evidencia como o motor do filme.

 

 

Enquanto isso, as decisões directivas por parte de Steven Knight não são das mais felizes, minando grande parte da sua narrativa com sobreposições e mais sobreposições. Talvez com o medo de limitar ainda mais a narrativa ou de mimetizar o estilo próprio de Abbas Kiarostami. Todavia e apesar disso, este é um ensaio dramático invulgar e competente no seu conceito, com Tom Hardy a converter uma longa viagem numa tremenda jornada às emoções. Nesta silly season, vale bem pena espreitar Locke.

 

Real.: Steven Knight / Int.: Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson, Andrew Scott, Ben Daniels, Tom Holland, Bill Milner, Danny Webb

 

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:28
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