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11.3.17

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Philippe Garrel, o feminista?

 

Será esta a maldição de Philippe Garrel reviver nestes últimos tempos as mesmas intrigas adulteradas? L’Ombre de Femmes tem sido visto como a tendência feminista no seu discurso das traições, da natureza frágil das relações amorosas e da condição imposta pela sociedade ocidentalizada em matéria da monogamia "forçada".

 

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Sim, para quem assistiu à trilogia dos "Amantes", é melhor apertar o "cinto", porque a mesma jornada é induzida em mais uma tonalidade de tons cinzentos. Em comparação com La Jelouise, esta À Sombra das Mulheres é um upgrade dessas mesmas "sombras", fora Louis Garrel carnal, e entra dois desconhecidos neste mundo "garreliano" para servir de vitimas em mais um fraudulento "faz-de-conta" amoroso. Garrel [pai] aposta numa visão que coloca a mulher acima da fragilidade luxuriosa do homem, entendendo que com essa inclinação sentimental, esteja a conduzir-se num proclamado retrato feminista.

 

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Mas não. Existe sim, um lisonjear ao sexo oposto, abdicando do seu "eu" intimamente masculino para forçosamente inserir-se numa "troca-de-papeis", de forma a quebrar o circulo que o próprio havia criado em loop. Mas a Mulher, valorizada ao estatuto de "Vénus" amorosa, é uma somente doce vingança para a carência impelida pelo seu marido. Voltamos ao palco das milésimas Sabrinas, Rebeccas e de outros romances de cordel - a mulher é ultra-sensível, colocando primeiramente o seu sentimento mais inocente frente ao desejo sexualizado, ao contrário do homem, novamente posicionado como o "sacana" de serviço rendido aos instintos primitivos (será a poligamia um acto meramente primitivo?).

 

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Aqui, o que está em causa não são hierarquias, mas sim igualdades, e neste momento queremos mulher a persistir no seu desejo, na fantasia, não no platónico amoroso que parece aqui instalar-se. Sem com isso negar a possibilidade "civilizada" de uma relação afectuosa ao mais alto nível. Até porque temos dois seres que se completam, que se amam, mesmo expostos a "pecados carnais" de diferentes objectividades. O final, essa quebra de uma maldição "teimosa", é inteiramente enxertada como uma vinha de cultivo, não se sente, apenas "engole".

 

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Todavia, há que valorizar o esforço de Garrel em fugir dos grandes pecados de La Jelouise, começando por diálogos cuidados e trabalhados, "migalhas de pão" em direcção ao adultério, os actores e o seu orgulho de "vestir" tais personagens e a realização menos apressada por parte do nosso Philipe. Por outras palavras, talvez seja a melhor obra do realizador nos últimos tempos, mas longe do feminismo pelo qual é vendido.

 

Real.: Philip Garrel / Int.: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Vimala Pons, Louis Garrel

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:31
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3.3.17

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Em terra de monstros, Kong é o rei.

 

Um gorila colossal no topo do Empire State Building, afastando violentamente os caças que desesperadamente o tentam  abater, defendendo-se igualmente e protegendo a sua não correspondida amada. Será que existe imagem tão universalmente identificável no Cinema como o climax de King Kong? Obviamente que não, e não estamos aqui para enganar ninguém. Kong: Skull Island não está aqui para tirar o lugar ao filme de 1933,  mas surge como uma variação comercialmente fiável para um futuro universo partilhado. Pois, não é spoiler. Já se sabe que este símio do tamanho de um arranha-céus vai enfrentar Godzilla numa futura produção.

 

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Mas já que temos que "gramar" com um revisitar à tão icónica figura da sétima arte, porque não aceitar o que de bom tem esta aventura tecnológica? São vários pontos, aliás, a começar pelos momentos em que o realizador Jordan Vogt-Roberts (do filme indie King of Summer) tenta contrariar a linguagem visual básica das grandes produções. Cenas como a da libelinha a mimetizar uns helicópteros saídos da ataque-naplam de Apocalypse Now, fazem-nos de certa forma salivar por mais desses mimos. E o que dizer da troca de olhares entre Samuel L. Jackson e a nossa besta? Mas estes "5 minutos de paraíso" que Vogt-Roberts parece usufruir de vez em quando têm um senão. Tal como uma troca de cromos, há que apostar no já batido ... e até invocar um certo estilo à lá Zack Snyder para corresponder aos requisitos estéticos das novas audiências.

 

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Segundo ponto, a conservação do clássico filme de aventuras. Kong: Skull Island, dentro da sua agenda da Hollywood tecnológica, emana um espírito "aventureiro" algo perdido no nosso cinema. Será que tal sensação parece apenas reavivada nas incursões de King Kong (já a subvalorizada versão de 2005 respeitava o subgénero)? Terceiro ponto, e talvez o mais desafiante desta produção: a febre da Guerra explicitada na rivalidade acidentalmente criada por Samuel L. Jackson, em modo "Hurt Locker", e o nosso Kong. A fúria dos olhares, quer reais (do actor), quer artificiais (a do símio digital), e a procura de um inimigo como fermento para uma sociedade à beira da ebulição conflitual - "Nós encontramos os inimigos quando os procuramos". Tudo servido, com certa leveza (ou seja, contado para miúdos), como catarse para a memória bélica do nosso século XX.

 

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O resto é o costume do actual panorama industrial: personagens básicas e construídas consoante as necessidades do guião (mesmo com um John C. Reilly em boa forma) e não o oposto; o climax a dever demasiado aos efeitos visuais e ao espalhafato dos mesmos; e a impressão de assistir a uma reciclagem do guião de Godzilla (2015). Factores estes que constroem a rotina do espectáculo cinematográfico à lá IMAX. Ainda assim, é certo que existe muito mais em Kong do que a mera artificialidade pagã. Sim, muito melhor que o esperado, mas não a Oitava Maravilha do Mundo.

 

"This planet doesn't belong to us. Ancient species owned this earth long before mankind. I spent 30 years trying to prove the truth: monsters exist."

 

Real.: Jordan Vogt-Roberts / Int.: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, Toby Kebbell, Richard Jenkins

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:01
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22.1.17
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Tudo isto é triste, tudo isto é Fado!

 

A primeira longa-metragem de Jonas Rothlaender revela-nos uma história de ciúme e obsessão (contado com o auxilio da imaginação do protagonista) que tem como palco de fundo uma Lisboa filmada sob um olhar meramente turístico. Mas antes de desatarmos a apelidar este "esforço" de "europudim" perdido na tradução, vale a pena salientar a sensibilidade do realizador em procurar a medula desta cidade à beira Tejo. Como diz até certa altura uma das personagem habitantes deste Fado, Lisboa é uma cidade camaleão que se confunde com o estado de espírito da pessoa, enquanto alegres se transforma no recanto mais belo do pedaço, enquanto tristes a cidade veste o seu manto de melancolia e de tristeza derrotada.

 

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Talvez seja a cidade ser tão nossa que nos faz sermos exigentes com o olhar estrangeiro de Rothlaender, mas vejamos, muitos dos realizadores portugueses filmaram Lisboa com os mesmos olhos, contando com Bruno de Almeida e o seu The Lovebirds, até João Pedro Rodrigues e o seu gesto desencantado com Odete, e Marcos Martins e a sua busca numa cidade sem identidade com Alice. O único pecado do jovem realizador é a sua ambição de filmar os lugares comuns de Lisboa e as utilizar a favor de uma história carente em psicologia, mas apta nas insinuações emocionais. Com isso junta-se uma certa miopia e não ir mais longe, e ocultado, o desejado de por fim, integrar a alma de Lisboa, invocando o seu lado camaleônico ao extremo. Chegamos ao ponto de desejar o iminente desastre.

 

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A obsessão, o ciúme, a ameaça de crime passional preenchem a intriga, que nos dá o ar de "faz-de-conta", de insuflação automática ao serviço de um co-produção. Mas nem isso, Fado, esse sentimento que só os portugueses parecem conhecer, leva o filme ao desastre. Apenas precisávamos mais de paixão no argumento, e menos fixação no cenário.

 

Filme visualizado no 14º KINO: Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

Real.: Jonas Rothlaender / Int.: Golo Euler, Luise Heyer, Albano Jerónimo, Duarte Grilo, Rui Morisson

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:50
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6.1.17

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Emoção à beira-mar!

 

Dramaturgo, argumentista e agora realizador (contando com três obras no curriculum), Kenneth Lonergan parece cada vez mais chamar a atenção no campo dramático do cinema norte-americano actual, e não é por menos. Manchester By the Sea é-nos apresentado como uma faca afiada de ênfases dramáticas e picos de emotividade através da, e somente, a adaptabilidade dos seus atores, neste caso especifico, Casey Affleck.

 

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Irmão mais novo da reascendente estrela de Hollywood, Ben Affleck, Casey é aquilo que vulgarmente poderíamos denominar de “ninja”, ninguém parece dar por ele, mas quando por fim se revela, é arrebatador. É difícil ficar indiferente ao seu underacting (vertente popularizada por Marlon Brando em que descredibiliza os rasgos de interpretação dramática). Actualmente, Tommy Lee Jones detém o título de mais sucedido dessa categoria, porém, Affleck converte-se numa autêntica carta de trunfos ao conseguir fugir das eventuais armadilhas do campo da comédia involuntária que a sua personagem e enredo parecem suscitar. Por exemplo, a sequência do hospital, após o anúncio de morte do seu companheiro confraternal, a sua visível indiferença abate-nos com um indigestível sabor de dúvida. Por momentos suspeitamos de “canastrice”, mas cedo somos engolidos pela sua figura vencida pela dor, cuja origem será desvendada mais tarde.

 

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Sim, Casey Affleck é o melhor que o novo filme de Lonergan tem para nos oferecer. O resto induz-nos para o maior engodo de “colo”. Ao contrário das aclamações que têm sido viabilizadas lá fora, Manchester By the Sea é enfraquecido pela tendência de Lonergan transformar este ensaio de interpretações num filme, sob o signo cinematograficamente mainstream. Até porque o importante é chegar às audiências mais vastas e, porque não, miná-lo de flashbacks. A cortante e afiada fórmula narrativa parece despedaçar a minimalidade do enredo (pelo menos era o que julgávamos) e o plot twist precocemente concebido trai-nos e leva-nos a uma previsibilidade sem limites quanto aos modelos de redenção emocional.

 

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A viagem torna-se então atribulada, mas Casey Affleck é um resistente, a demonstrar que é um campeão no que requer a embater em filmes que, cada um à sua maneira, fogem da conformidade do espectador. Longe da obra-prima que fora catalogado, Manchester By the Sea é a presença de um actor pouco convencional nas tendências oscarizadas.

 

"I can't beat it. I can't beat it. I'm sorry."

 

Real.: Kenneth Lonergan / Int.: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:26
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4.1.17
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Nos escritos do Presidente!

 

Se considerarmos Zeus um biopic é como se a banalizássemos perante os seus "primos" americanos (que segundo Tarantino são motivos para atores vencerem Óscares) e de alguns dos horrores nacionais que temos vindo a testemunhar nos últimos anos. A primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro é uma descoberta por um período quase negligenciado nos manuais de História e a ribalta de uma das figuras mais esquecidas no Portugal contemporâneo: um escritor de contos eróticos que ascende a Presidente de República; um homem que abandonou o seu cargo para poder viver no anonimato numa Argélia colonial. Trata-se de Manuel Teixeira Gomes, um ilustre caso de literatura nefelibata no nosso país, sendo que um filme sobre a sua personalidade requeria algo mais que somente fórmulas reutilizadas.

 

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Zeus não tenta de maneira nenhuma abandonar o seu estatuto de cinebiografia. A sua personalidade não o aflige como um caso único e inédito, quer no nosso panorama cinematográfico, quer em relação com o dito "World Cinema". Mas Paulo Filipe Monteiro tudo fez para o demarcar dos restantes produtos de linha de montagem que o subgénero tem atingido, e muito mais desligou-se da dependência televisiva que muito do cinema comercial português não consegue emancipar-se.

 

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Até aqui existem motivos para sorrir. Zeus não é uma bestialidade como as mais recentes biopics nacionais. Relembro que já tivemos um Salazar playboy, uma Amália sob toques de loucura, e sem esquecer a quimera envolta no escândalo de Carolina Salgado. Por sua vez temos uma produção singela, bem intencionada (visto que vem recriar um pedaço de História esquecida), e um trabalho dedicado e forte por parte do actor Sinde Filipe, que transforma Manuel Teixeira Gomes num patriarcal bon vivant. Em nota, temos uma notoriedade na caraterização (coisa rara no cinema português) e efeitos práticos que nunca cedem à tendência failsafe.

 

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O grande senão deste Zeus está naquilo que o realizador fortemente apostou, na narrativa dividida em três camadas, na constante oscilação, meio "salta-pocinhas", envolvida nas suas devidas particularidades (Ivo Canelas quebra a quarta barreira, a fotografia varia consoante a história centrada), porém, subentendidas numa conexão desfragmentada. Mas nada que nos impeça de usufruir dos propósitos desta recriação saudosista, com mais atenção à figura homenageada do que propriamente conceber-se numa incisão político-social de época. Se no caso do espectador é a procura do último ponto, então este não estará na sala certa.  

 

Real.: Paulo Filipe Monteiro / Int.: Sinde Filipe, Paulo Pires, Ivo Canelas, Carlotto Cota, Idir Benebouiche

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 18:11
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8.12.16
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Animals got Talent!

 

Confortavelmente sentamos na cadeira para visualizar mais um filme de animação. No nosso interior, esperemos que seja o último do ano, visto que 2016 suou ter sido um ano bem animado, no bom como no mau sentido da palavra. Assim, a sessão começa, entra o logo – Ilumination – com os Minions, esses “bonequinhos marketing a fazer das suas. Deste lado, o pior se espera, visto que foi a Ilumination que produziu The Secret Life of Pets, um ode à violência sem sentido e uma violação à premissa prometida que revelou-se num autêntico êxito de bilheteira (Why?). Do outro lado da sala, ouve-se um “shhhhiiiiiiuuuu”, o filme vai realmente começar.

 

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As portas do Grand Theatre de “nenhures” abrem, um sítio que o espectador mais atento irá aceitá-lo como um anexo de Zootopia. Sim, mais um filme de animais antropomorfos! Começa a narração, a voz-off, o qual identificamos como Matthew McConaughey a fazer de tudo para disfarçar o seu sotaque sulista. O actor é um Koala, um pequeno peludo que assiste à sua primeira obra teatral, uma espécie de espectáculo da Broadway, onde uma diva em forma de ovelha “grita” pelos seus pulmões, anunciando todo este flashback prefixo num autêntico “mar de rosas”.

 

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Depois da velha cantiga de cumprir sonhos e afins, chegamos à actualidade, o nosso Koala é agora um produtor desta Broadway, mas um falhado produtor. Antes que alguém invoque o filme de Mel Brooks, é sabido que este marsupial tem um truque na manga, a sua chance de sair da “bancarrota”, aquele buraco, pelo qual se meteu após produções desastrosas e fiascos com “F” grande. Essa iluminação é a premissa de toda esta nova jornada animada, um concurso de talentos musicais.

 

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Enquanto que a sua noção de novo projecto nos parece banal e mais que vendido, como animação, um concurso vocal parece de momento afastá-lo do território básico, mas não tão longe. A partir desta disposição são nos apresentados um diverso leque de personagens que sonham ocultamente ter os holofotes apontados em si. Pequenos backgrounds das personagens aqui e ali para nos situar e contribuir para este “world building”, para depois seguirmos a um casting, mais divertido que aqueles episódios de pré-selecção dos eventuais programas que esta animação alude. Mas obviamente, que esta animação é dirigida a um público especifico e bastante abrangente, por isso, deixemos de “concursos” e passemos então à fórmula.

 

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É previsível que após a aplicação da Lei de Murphy, um momento de humilhação algures e voilá, esquecemos as diferenças e todos os anteriores concorrentes se reúnem em prol de um objectivo comum. O final é essa façanha concretizada, com mais resoluções moralistas por metro quadrado que todas as produções de animação deste ano. Mas é uma “viagem” que compensa? Posso levar os meus filhos? Ao menos, diverte? Pergunta o leitor e muito bem.

 

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Sabendo que este tipo de animações industriais tem um propósito principal – money – através da conquista dos nossos “pequenotes”. Mas tendo em conta o lote que tivemos este ano, desde o banalíssimo Finding Dory, passando pelo desperdiçado Zootopia, até ao emocionante Kubo, e claro, o engodo chamado “A Vida Secreta dos Nossos Bichos”, Sing é um produto bem intencionado, que não os envergonha e com uma selecção musical que poderá, de maneiras devidamente doseadas, surpreender os mais cépticos. Não, não é dos piores. Não senhor!

 

Real.: Garth Jennings, Christophe Lourdelet / Int.: Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, Seth MacFarlane, Scarlett Johansson, Taron Egerton, John C. Relly, Jennifer Hudson

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:21
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24.11.16

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Quem sai aos seus é da América!

 

Tornou-se quase cliché caracterizar um tipo de EUA como "votantes de Trump", um sinal de empobrecimento social que tem vindo a originar nos últimos tempos inúmeros documentos filmados sobre esse estilo de vida ignorado, e por vezes repugnado em embate com uma outra América, a cosmopolita que tanto se vende no cinema mais mainstream.

 

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Blood Father poderia culminar em mais uma enésima variação de Taken, daquele tipo de thriller de acção que puxa os elos paternais dos "espectadores mais másculos", ou até, tende em conta o seu protagonista, um regresso à estrada a referenciar Mad Max. Mas não, o que vemos é sobretudo uma oportunidade deste tipo de "americanos" possuírem a sua história contada (e recontada) no grande ecrã. Como tal, esse tipo de incisão faz-se por via de um exercício de acção longe do gratuito "arraial de pancada", onde Mel Gibson é o exemplo de herói que facilmente "repugnamos", um homem do interior, ex-condenado, com ligações a mexicanos mas com a ousadia de acusar estes imigrantes como "ladrões de trabalho", catalisando um dos pontos fulcrais para a falta de postos de trabalho através de um "inimigo comum". Como não podia deixar de ser, os "amigos" mais íntimos deste soldado do asfalto enfurecido são integrantes de uma comunidade de supremacia branca, referindo os seus ideais como modos viventes de uma sociedade em plena luta.

 

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No geral, Blood Father assume-se como um vulgar filme de acção, com qualidades próprias no ramo, para se aventurar numa crítica subversiva de um país em pleno "May Day", que encontra a salvação nos errados trilhos. Um filme que se disfarça de fascismo e xenófobo para se enfeitar como um "lobo nas veste de cordeiro". Pelo menos, este é o regresso esperado de Mel Gibson aos grandes ecrã, numa obra muito mais sincera que o seu retorno à realização. Sim, Hacksaw Ridge, muito mais racista que todo os 100 minutos de Blood Father.

 

Real.: Jean-François Richet / Int.: Mel Gibson, Erin Moriarty, Diego Luna, Michael Parks, William H. Macy

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:16
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14.11.16
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Um trabalho de actriz!

 

Benoît Jacquot não é necessariamente o realizador agressivo que o Cinema necessita, a sua passividade tem vindo a tornar-se, de certa maneira, uma rédea que o encurta de explorar psicologicamente e atmosfericamente as suas personagens. Como tal, esta adaptação de uma das obras mais exquisite de Don DeLillo, Body Artist, foi visto inicialmente como um projecto arriscado e demasiado ambicioso para os dotes de Jacquot. A merecer a bênção do próprio escritor, que supervisionou esta co-produção luso-francesa de Paulo Branco, e a protagonista, Julia Roy, a revelar os seus “truques” no argumento e na construção autodidacta da sua personagem, À Jamais é uma surpreendente nova faceta de um realizador em vias de penetrar territórios nunca antes explorados pelo próprio. Porém, não a sua total entrega carnal.

 

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A intriga, cenicamente transladada a Portugal, leva-nos a Laura (Julia Roy), uma artista performativa que terá que lidar com o suicídio do seu companheiro (Mathieu Almarich). De forma a lutar contra a perda e a constante saudade que a sufoca, Laura utiliza o seu método artístico para mimetizar os movimentos, os gestos, o dialecto, as rotinas, mais concretamente “ressuscitar” mentalmente o seu amor como um método freudiano enviusado em "mitologia" de Mary Shelley tratasse.

 

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Não existe um cadáver, uma entidade física onde uma vida pode ser devolvida de forma lazariana, abundam sim, as memórias, e a força destas que são “armas de apelo” da nossa protagonista, “barricada” na casa do seu ente querido, aguardando por fantasmas. Benoît Jacquot filma um trabalho de concepção de uma artista, o método invocado e elaborado como uma manifestação emocional, um saudosismo pesaroso pelo qual Julia Roy espelha no grande ecrã.

 

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À Jamais vive da actriz, vive do seu trabalho, da sua dedicação, e é nessa força que o espectador contempla, por fim, a fraqueza de Benoît Jacquot por detrás das câmaras, a referida passividade. O realizador revelou que não interferiu no desempenho de Roy, dando a liberdade para a sua criação. O resultado desta saudação à protagonista, é um ensaio psicológico que manifesta e expande para a além da sua atmosfera, mas a isso, devemos inteiramente a Laura Roy.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Benoît Jacquot / Int.: Laura Roy, Mathieu Almarich, Jeanne Balibar, Victória Guerra

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:12
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13.11.16

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O cinéfilo limitado e o Wim Wenders recuperado!

 

Qualquer cinéfilo que se preze é incapaz de conformar com as descrições de “arte menor”, ou “não arte”, assim como “mero entretenimento de feira”, o qual são dirigidas ao Cinema em geral. O verdadeiro cinéfilo nega, com todas as suas forças, a franqueza e simplicidade face em comparação com as outras artes. O cinéfilo é impuro, por vezes limitado à sua verdade, mas em isso do que desprezar o amor pela Sétima Arte e nunca abandoná-lo à sorte do menosprezo artístico. E se para muitos o Cinema não possui a profundidade da literatura, o uso imaginativo do “faz-de-conta” do teatro, a contemplação divina e quase artesanal da pintura, ou a monumentalidade da arquitectura, para o cinéfilo é nada mais, nada menos, que a fusões de todas essas plataformas artísticas, o filho bastardo que aos poucos toma o seu lugar.

 

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Mas abandonada a oligárquica ideologia de cinéfilo, sabendo que o Cinema não é par para a literatura e à dramaturgia, Wim Wenders aventura-se num extremo jogo “faz-de-conta”, experimentando uma adaptação de uma peça de Peter Handke (o dramaturgo tem um pequeno papel neste filme) para superar as limitações que inicialmente o colocaram. Infelizmente, Wenders cede à “burguesia” de um cinema erudito, tentando sobretudo apoiar-se nos textos que, para sua desgraça, não contrai a poética sonoridade nem os ecos de filosofia citada. Se o cineasta alemão tenta percorrer Eric Rohmer neste seu quadro vivo, esta prova auto-rejeita-se, os diálogos não foram o seu forte muito menos a proclamação destas prosas faladas, despejadas sem a orgânica, nem compostura.

 

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Porém, Wenders brinca com as dimensões, atropela-se nas plataformas artísticas que ele própria cita e tenta dar luzes a uma fértil amostra imaginativa, uma alusão da criação térrea de uma realidade. Assim, são duas que se embatem e dispersem, vidas artificiais pulsadas pelo toque do seu criador na sua máquina de escrever. Jens Harzer é um Deus para estes seres preenchidos por linhas, mecanizadas nas suas palavras, e é então que o improviso surge, os fatos que alteram a cor consoante a vontade do mentor, as falas que são interrompidas pelas mudanças musicais … e novamente a realidade paralela a funcionar quando entra Nick Cave em cena, a música pode ser o nosso álibi imaginativo.

 

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Mas o nosso leitor questiona neste preciso momento, do que se trata este "Os Belos Dias de Aranjuez"? A resposta esconde-se por entre estes artifícios manipuláveis, Wim Wenders tenta reinventar o seu cinema, colocando e transcendo das suas limitações enquanto criação visual. Obviamente, que esta nova obra não goza desse statment artístico, pelo contrário este retrocedo a um cinema burguês o coloca na pista donde o seu cinema evoluirá. Tal como o relato de uma das suas personagens, durante uma viagem a Aranjuez, a desilusão o tomou ao ver que a chamada “Casa del Labrador” não passava de um anexo no Parque Real, mas é nas groselhas, outrora domésticas, que adaptaram-se ao assilvestrado do meio, expandido e tomando o lugar das amoras e outros frutos que habitavam nos bosques para além do Tejo. Por outras palavras, Wenders descarta o seu cinema, assume a arte de outro e espera que esta toma a sua forma. Trata-se de cedência para mais tarde evoluir. Esperemos que sim.

 

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Contudo, o cineasta alemão tem sido dos poucos que tem associado o 3D ao cinema dramático, “despindo” das suas conotações circenses, porém, faltará uma maior emancipação para que sinta o uso dessa mesma tecnológica.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Wim Wenders / Int.: Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave

 

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5.11.16

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Os sonhadores do Desterro!

 

El Destierro é a prova de que Arturo Ruiz Serrano precisava, passando das curtas elogiadas em inúmeros festivais para a sua primeira longa-metragem. O Desterro desta história leva-nos aos anais da Guerra Civil Espanhola para espelhar fantasias de poligamia sob certos contornos feministas. Um posto de vigia numa remota região (o filme foi filmado nas ilhas Baleares), onde dois sentinelas, que divergem ideologicamente um do outro, encontram uma misteriosa mulher polaca. Sem saber o que fazer com ela, os dois homens acabam por aceitar os termos propostos por esta “femme”, que para sobreviver ao rigoroso Inverno tomará o lugar de esposa para estes “solitários” militares. 

 

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El Destierro é meticuloso no seu minimalismo argumentativo, colocando diversas vezes o espectador à deriva de uma intriga com poucas respostas e background definidos pelas personagens. É uma posição ingrata, mas necessária, a audiência nunca sabe mais que estes "peões" dum prolongado jogo de sedução. Contudo, existe na obra de Arturo Ruiz Serrano uma certa urgência para resolver assuntos pendentes quando ao feminismo representado no grande ecrã, a mulher, interpretada por Monika Kowalska, é um subliminar panfleto dessas ideologias crescentes, salientando diversas vezes um papel faz-de-conta que é o de dona de casa para incutir reservadamente a posição da Mulher na sociedade actual. Infelizmente, este seu discurso termina como um incrédulo amontoado de palavras que traem a personagem num ápice, até porque este enredo, que segue sobre uma simplicidade exemplar, erra em permitir tais ideologias proclamadas enquanto a personagem metamorfoseia em algo mais rudimentar.

 

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Apesar dos deslizes, El Destierro tende em aguentar-se graças a um forte alicerce que consiste nos desempenhos (nomeadamente Juan Carles Suau) e numa belíssima fotografia (autoria de Nicolás Pinzón Sarmiento) que capta a indomável terra árida que serve de cenário. Arturo Ruiz Serrano não desaponta nesta sua estreia no formato de longas, mas faltava-lhe sobretudo mais sangue na guelra para sair da lógico do exercício cinematográfico. Enfim, vê-se com interesse.

 

Filme visualizado no âmbito do Evolution! Mallorca Internacional Film Festival 2016

 

Real.: Arturo Ruiz Serrano / Int.: Eric Francés, Juan Carles Suau, Monika Kowalska, Chani Martín

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:03
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26.10.16
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Um fim-de-semana com um morto!

 

Como o cinema é fascinado por road trips! Como as mesmas transformam-se em jornadas pessoais ou coming-to-age para personagens inocentes! Em Calabria, por outro lado, essa viagem, mesmo tendo um objectivo seguro, é uma linha plana sem desenvolvimentos pessoais, as suas personagens são as mesmas, inerentemente falando, do início, no meio e no seu desfecho.

 

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Tal como Louis L'Amour havia citado - "O caminho é o que importa, e não o seu fim" - Calabria adquire a sua dimensão enquanto produto documental no percurso, onde dois imigrantes suíços (um português e um sérvio), sem nada em comum tirando o facto de serem ambos empregados de uma funerária, partem longa viagem para entregar o corpo de um imigrante italiano falecido. A narrativa faz-se pelas paragens em áreas de serviço e hotéis, que funcionam como pausas de um ininterrupta confissão. Os dois protagonistas dialogam sobre os seus medos, os ideais, o amor e até mesmo a cultura.

 

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O morto que transportam é o testemunho mudo desta troca de palavras, recorridas a um tom de companheirismo, sem afectos gratificantes, nem evoluções aparentes na relação de ambos. São meros colegas, prontos para cumprir o seu trabalho, cujas conversas correspondidas são meras distracções, entretenimentos para as horas que seguem, porém, são nelas que concentra as suas respectivas expressões étnicas. Um retrato etnográfico sem os odes do neo-realismo, sem a abrangência de uma determinada investigação? Pois bem, Calabria é um estudo sobre gente, um jogo ao acaso inserido nesta ideia onde a morte é a aproximação destas vidas, e cuja diversidade celebra-se perante festividades mórbidas.

 

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O realizador Pierre-François Sauter humaniza a imigração, atribui-lhes uma face, um passado, sonhos e relações afectivas a um fenómeno cada vez mais desprezado, criticado e sobretudo anexado a agendas politicas. Calabria é um agradável exercício de temáticas indirectas, o qual a Morte é novamente servida como palco de fundo para um estudo sobre a Vida.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pierre-François Sauter / Int.: José Russo Baião, Jovan Nikolic

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 19:52
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26.10.16

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300 milhas que separam a nossa inocência!

 

Será a inocência nos dias de hoje um aspecto perigoso? Será que essa natureza encontra-se perdida perante um Mundo cada vez mais cínico, e assumidamente hipócrita? Com a crise dos refugiados  a atingir um dos seus picos em 2015, uma fotografia automaticamente tornou-se viral, que suscitou novas discussões quanto à gravidade, ou não, do problema da migração forçada. Essa mesma foto exibia um corpo de uma criança, vitima desse mesmo fluxo migratório, um corpo sem vida que deu à costa da Turquia. Logo, os medias focaram na atenção global desta mesma imagem, explorando o passado desta precoce morte, ao mesmo tempo, sob um tom sensacionalista, desenhar um percurso futuro nos "se" da sua vivência. A comoção foi geral, mas depressa começou a surgir questões quanto às imagens, quanto à manipulação da história e dos interesses políticos por detrás (de ambos os lados) que repentinamente culminavam. Por isso, questiono, será a inocência válida nos tempo que decorrem, sem ser sobretudo, questionada?

 

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Enquanto reflectimos, temos que ter em conta que é uma mistura de inocência como também de pura ingenuidade que integram os maiores conflitos do nosso Mundo, desta forma são a base deste 300 Miles, a descoberta das razões que levarão a um dos mais badalados cenários bélicos dos tempos decorrentes. Sim, é a Síria, a temática tabu para muitos, a "mina de ouro" do mediatismo para alguns, e é aqui o arranque deste registo fílmico que reúne a pessoalidade do seu realizador (Orwa Al Mokdad) com a urgência de um jornalista "spotlight" sob tendências de guerrilha.

 

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Porém, neste último ponto, as respostas poderão ficar aquém das nossas expectativas, até porque a perspectiva de todos é requerida desses mesmos dois factores: inocência e ingenuidade. Da mesma forma que as duas crianças ao relento apontam para o Sol em busca de um ponto negro, visível com um persistente olhar (um simbolismo infantil da busca de uma outra perspectiva), temos os rebeldes, ou homens sob uma grande vontade de rebelar … contra o quê, ou quem? … nem eles mesmo sabem. Tudo se resume a isso, a inocência nos mais diferentes ramos, e é essa mesma torna-nos cego, desinformados, em simultâneo nos revela hipócritas e cínicos nas nossas buscas.

 

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Como documentário, Orwa Al Mokdad vai "beber" bastante do Silvered Water, Syria Self-Portrait (apresentado em Portugal no Lisbon & Estoril Film Festival de 2014), que também utiliza as diferentes plataformas de gravação de vídeo (com principal relance as webcams e câmaras de telemóvel) para mapear um conflito. Mas não é por isso, que este 300 Miles não possui a sua importância como documento de registo. Ou será que estamos a ser inocentes?

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Orwa Al Mokdad / Int.: Orwa Al Mokdad

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:50
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23.10.16

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O álbum de família!

 

A documentação e colecta de memórias é umas das principais raízes do cinema documental. O documentário longe da pedagogia interactiva que muitos parecem associar, mas sim, do registo de qualquer natureza. Tal como os índios amazónicos que acreditavam que uma fotografia roubava-lhe as almas, o cinema tem sido diversas vezes encarado como um “caçador de espíritos”, perseguindo, “agarrando” e preservado, não em âmbar, mas em fita, (neste momento o digital serve de alternativa).

 

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E dentro desse mesmo cinema-arquivo, encontramos por vezes o álbum de família, um grupo pelo qual pertence este 95 and 6 to Go, um filme dirigido pela realizadora Kimi Takesue, que remete-nos à história da sua família tendo principal foco o seu adorado avô, que com quase um século de vida expõe a sua experiência e aventuras, assim como desventuras, o qual foi submetido ao longo da sua longa existência. Mais do que uma “musa”, o patriarcal Tom Takesue torna-se, maioritariamente, no assistente de realização desta mesma obra, tal como refere em jeito jocoso nesta mesma jornada de registo.

 

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A sua vontade de viver, um dos tópicos pelo qual a câmara de Kimivasculha”, converte-se no maior combustível deste mesmo filme. Um velho que recusa morrer, e sobretudo guardar as tristezas de uma vida em desfragmentação no seu próprio ser. Tom refere várias vezes que a morte da esposa, assim como da filha, que faleceu antes do tempo, “espinhos” cravados de uma existência que dá e tira, mas que é no seu gradual esquecimento que o nosso protagonista encontra a resistência ao ceifeiro.

 

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Amante de cinema, música e dança, de um jeito curioso de ver o seu redor, Tom consiste na grande estrela destas filmagens tecidas entre si. Possivelmente sem ele, 95 and 6 to Go (nota-se que até o título foi escolhido pelo próprio Tom com alusão aos seis meses de vida que o seu médico previu perante um diagnóstico de cancro), seria uma tentativa falhada de colectar memórias mais queridas para nossa realizador do que para o público. Todavia, Kim encontrou uma “pepita de ouro”, um vórtice de interesse que resiste à monotonia do seu formato. E é essa jóia chama-se Tom, que nos contagia com a sua imensa vitalidade.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Kimi Takesue / Int.: Tom Takesue, Kimi Takesue

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 00:08
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19.10.16

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Voltando atrás com uma saga!

 

Em Hollywood o que não falta são realizadores sem personalidade, e dentro dessa vaga encontramos o muito pomposo Edward Zwick, que assumindo agora como o tarefeiro num franchise sob uma segunda oportunidade, poderá ter feito o melhor filme da sua carreira.

 

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Sim, estamos a falar desse mesmo, o autor dos êxitos de The Last Samurai, Blood Diamond e Glory (mais conhecido como a obra que garantiu o primeiro Óscar de interpretação a Denzel Washington), está neste momento resumido a um nome de lista, o qual embarca na segunda aventura de Jack Reacher, a criação de Lee Child, convertido numa variação híbrida entre Ethan Hunt / Dirty Harry por parte de Tom Cruise. É acima de tudo uma personagem militante e autoritária que se move como um freelancer ao serviço de uma nação, as suas "missões" tem sim, personalidade, algo que primeiramente confronta com o estilo confundível de Zwick.

 

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Mas verdade seja dita, Cruise é daqueles atores bem ligados ao star system, e porque não considerá-lo num autor emancipado, ao invés de referirmos o "sujeito" sentado na cadeira de realização? Estamos perante num automático filme de acção, mas nada de irritante aliás, porque a sua automatização é oleada e lustrada com os propósitos da sua estrela, e em comparação com o primeiro tomo (estreado entre nós com algum agrado em 2012), este Never Go Back é deveras "plus" emocional, até porque humanizar heróis e vilões são o prato do dia, e como ninguém mais acredita em "homens de ferro", porque não encher esta satírica personagem com traços paternais (de velha guarda, claro).

 

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Outro ponto que marca este novo Jack Reacher encontra-se reflectido na produção, existe nos créditos um nome que devemos tomar nota, Christopher McQuarrie. Realizador do filme de 2012, mas que conheceu o êxito verdadeiramente com o quinto Missão: Impossível, cujo paralelismo com este Never Go Back é simplesmente na condução das personagens femininas, se na aventura de Ethan Hunt era Rebecca Ferguson a acompanhar as "peripécias" do herói com tamanha dignidade e solidez, neste segundo Jack Reacher é Cobbie Smulders (sob a experiência da série da Marvel, S.H.I.E.L.D) a livrar constantemente do rótulo de "dama em apuros", ao mesmo tempo dignificando o papel feminino nas Forças Armadas.

 

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Mas pronto, de resto este novo capítulo de uma saga (veremos o que ditará o box-office, confirmando assim ou não, a força de Tom Cruise em bilheteira), é simplesmente um veículo de acção que não envergonha ninguém, nem ofende o intelecto do espectador (nesse aspecto o franchise Velocidade Furiosa sempre fora um atentado), que sob uma previsibilidade um quanta atormentada garante-nos um modelo, hoje em dia descartado, do cinema lúdico e ferozmente capaz dos tempos de Charles Bronson. Mas fica na mesma o aviso à navegação, nada aqui de verdadeiramente vintage

 

Real.: Edward Zwick / Int.: Tom Cruise, Cobie Smulders, Aldis Hodge, Robert Knepper

 

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Jack Reacher (2012)

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:59
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27.9.16

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A Gaiola das Loucas!

 

Se caíssemos na esquematização superficial de muita da crítica norte-americana facilmente apelidaríamos o novo filme de Paolo Virzi, Loucamante, com a equação “Thelma & Louise meets One Flew Over the Cuckoo's Nest”.

 

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Três anos depois de transfigurar a verdade nas suas variadas ramificações com o filme-mosaico Il Capitale Umano (Capital Humano), Virzi centra no drama road-trip longe das euforias coming-to-age. São duas loucas, para resumir a intriga, “engaioladas” que encontram a liberdade na primeira oportunidade. Durante esta escapatória que se arrasta até ao seu desfecho, Valeria Bruni Tedeschi (actriz que trabalhou com Virzi em o Capital’) e Micaela Ramazotti (do muito subvalorizado Anni Felici) tentam reconciliar-se com a vida que haviam “perdido” após os respectivos “enclausuramentos”.

 

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O realizador incide no espectador um autêntico mundo de loucura, não no sentido onírico e surreal, mas quanto ao seu ritmo que parece ganhar velocidade tremenda até a uma eventual colisão. Porém, o percurso faz-se com agrado, sob um tom agridoce que nos envolve e as actrizes que dão o melhor de si para atribuir uma humanidade digna a este duo de personagens, que tão bem residiriam num conto de Gil Vicente. Mas, obviamente, que a viagem leva-nos a estradas de terreno batido, altamente caminhadas pelos seus antecessores e rodeadas por paisagens rotineiras, essas, para quem não entendeu esta linguagem viajante, são os dramas secundários que entrelaçam com o destino das protagonistas, o macguffin que as fazem mexer numa jornada ao encontro dos seus fantasmas.

 

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Mas o drama não é suficiente forte, diria mesmo desequilibrado, visto que a personagem mais interessante é diversas vezes confundida como um comic relief, sim, falo de Valeria Bruni Tedeschi, essa diva desvalorizada do cinema italiano, numa variação paranóica de Norma Desmond (Sunset Boulevard, de Billy Wilder). Ela é a tragédia em pessoa, infelizmente, pouco explorada nesta “ópera” que termina sob abruptos acordes melosos e no "choradinho” do costume. Tal como acontecera com Capital Humano, Paolo Virzi tem uma fraqueza enorme, o seu talento é por vezes superado por uma tendência suicida de crowd pleasure.

 

Real.: Paolo Virzi / Int.: Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi, Valentina Carnelutti

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:23
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3.8.16

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Serão estes os heróis da DC?

 

É a moda do vilão, o fascínio pelo bandido, a má índole e do carismático anti-herói, e no ano 2016, os filmes de super-heróis têm beneficiado disso, a começar com Deadpool que introduziu uma certa "vibe" a um género cada vez mais industrializado e homogéneo ("shame on you Marvel") e do, aos poucos reavaliado, Batman V Superman, que converteu dois dos mais conhecidos super-heróis da BD em potenciais ameaças globais e pessoais. Já que referimos a DC, vale a pena avançar para este Suicide Squad (Esquadrão Suicida), baseado numa popular série de banda desenhada onde um grupo de reconhecidos vilões terão que aceitar missões suicidas de forma a redimir-se dos seus "pecados".

 

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No filme adaptado por David Ayer (End of Watch) os vilões estão mais próximos dos "tipos incompreendidos" que propriamente da criminalidade que acompanha estas personagens, e é nesse conceito de "bad guy" que Suicide Squad falha. Ao invés disso leva-nos a um estilo já indiciado por Guardians of Galaxy (sim o da rival Marvel), onde um "bando de misfits" unem-se em prol de um mal comum. Visto que falamos no filme de James Gunn, é de comparar o seu estilo narrativo e nos acordes de acompanhamento, por outras palavras, na musicalidade e a sua importância para o dramatismo das personagens. Mas onde Suicide Squad vence à trupe intergaláctica é na sua estética, pois em vez de perfeitamente integrar o CGI como um criador de mundos e criaturas inimagináveis, funciona de forma a condensar um estilo. David Ayer não quer perder a linha de raciocínio de Zack Snyder e dos seus outros dois capítulos, por isso é de evidenciar os "slows", a coreografia hiperactiva nas sequências de acção e ainda um veia de Guy Ritchie, naquele formato videoclipe que quase obriga-nos a exclamar "cool!".

 

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Talvez o tom pretendido neste filme seja outro, aquele teor descontraído ou quase screwball de um Deadpool, visto que após o êxito da fita todos anseiam por "cópias". Pois, tirando poucos ou raros momentos, Suicide Squad leva-se inteiramente a sério e é essa dramatização que muitos acusam de ser o "calcanhar de Aquiles". Neste extenso universo cinematográfico da DC Comics / Warner Bros. está um romance puramente caótico entre duas das mais interessantes personagens deste universo: Harley Quinn e Joker, uma química improvável entre Margot Robbie e Jared Leto. A dupla compõe algumas das melhores sequências de Suicide Squad, apoiando-se na já referida estética e na sua musicalidade. Obviamente são os seus desempenhos que orientam para esse factor; Robbie é um "must" e Leto é um esboço da genialidade de um demente e diferente Joker, contornando totalmente as anteriores incursões de Heath Ledger e de Jack Nicholson.

 

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David Ayer consegue em todos os caso concretizar um competente filme no sentido em que mina uma narrativa exaustiva por introduções prolongadas e por humanizações sob pouco tempo de antena. Consegue transformar uma "mess" em algo visitável (se Batman V Superman é heavy metal este é punk rock) e recheá-lo por personagens que queremos realmente conhecer. O problema é que tudo isto não passou de um supra-estilizado desfile cosplay, mas uma parada que se vê com agrado. Sim, longe da tentativa de suicídio que as críticas norte-americanos e o seu sistema de "fun" ou "not fun" tentam descrever. Aliás, foram os mesmos que deixaram Civil War impune das suas patéticas ideologias politicas, por isso não vale ir por aí.

 

"We're bad guys, it's what we do."

 

Real.: David Ayer / Int.: Margot Robbie, Will Smith, Jared Leto, Viola Davis, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ezra Miller, Ben Affleck, Joel Kinnaman, Cara Delevingne, Common, Jai Courtney

 

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Man of Steel (2013)

Batman V Superman: Dawn of Justice (2016)

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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27.7.16

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You know my name!

 

Prevejo que aquilo que o leitor pretende realmente saber, é se esta quarta estância é ou não o esperado regresso do "velho" Jason Bourne (e não outro esquecível e oportunista spin-off como The Bourne Legacy). Com Paul Greengrass de novo detentor da batuta e Matt Damon, o "corpo ao manifesto" de mais uma conspiração global, a resposta é claramente - sim.

 

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Sim, eis o modelo de acção milenar que a saga tão bem apresentou-nos em três bem sucedidos filmes. Até porque em 2002, Doug Liman assinava a adaptação do livro de Robert Ludlum (e remake de uma mini-série televisiva de 1988), tendo um resultado que saiu dos eixos da matéria prima, mas que primou numa "vintage" sofisticação. The Bourne Identity evidenciava de uma acção de realismo formatado, de tons cinzento que depressa o divergia dos embriões da moda Matrix que o início do século lançava sem exaustão, e "bebendo fortes golos" dos ditos thrillers conspirativos da década de 70.

 

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A outra razão da dita inovação foi de uma mera questão de timing, Matt Damon, sob a pele de um mortífero homem sem memória, enfrentava os mais diferentes inimigos, todos eles vindos ou fruto das politicas de segurança nacional e da fragilidade do mesmo. Vivíamos em tempos pós-11 de Setembro, o centro daquele vórtice de heróis da "pesada" directos dos 80s e 90s perdeu o seu "quê" de invencibilidade, eram agora um alvo como tantos outros (falo obviamente dos ataques ao Pentágono, que gerou uma alarmante ideia de vulnerabilidade num país que sempre apresentara ideia diferente). Ou seja, sob uma forte atmosfera de medo e paranóia, a estreia de The Bourne Identity e a sua recepção foi um meio para despoletar outros ensaios de acção cada vez mais focados neles próprios, por outras palavras, tornaram-se mais ambíguos, críticos e menos dados a maniqueísmos geopolíticos.

 

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A saga Bourne funcionou como uma distorcida variação da Guerra Fria, há quem encontre aqui uma certa veia do Candidato da Manchúria e a ferocidade de um Charles Bronson, quer em Death Wish ou no subvalorizado The Mecanic. Com a vinda de Greengrass à realização e o seu modo de filmagem guerrilheira, tivemos direito a dois dos mais duros e credíveis filmes de acção do nosso tempo (The Bourne Supremacy e The Bourne Ultimatum).

 

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Voltando a este quarto filme, somente intitulado de Jason Bourne, onde o nosso "anti-herói" envolve-se (ou novamente) na intriga que nunca o abandonara desde 2002. O 11 de Setembro e as políticas de medo já lá vão, mas nunca nos abandonaram, por um lado a insegurança mantêm-se, mas existe outras preocupações que o filme Greengrass quer manter-se actualizado, e uma delas chama-se "Caso Snowden". Desde a revelação dos ficheiros da NSA pelo ex-analista de sistemas que uma das grandes questões levantadas pelo Homem em relação à sua gradual dependência da tecnologia é a preservação da privacidade e os jogos orquestrados nas nossas sombras. A informação torna-se no ouro deste novo milénio e nisso Jason Bourne consome mais uma vez para embarcar em mais um conjunto de sequências de acção e de neo-espionagem.

 

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A gestação de nove anos deu-nos uma réplica dilacerada pelos habituais lugares-comuns, o filme de Paul Greengrass pode bem ser moderno, mas é repetitivo e a inovação diversas atribuída à saga não encontra lugar em todo este pano global. Porém, aquilo que não se pode acusar neste Jason Bourne é de moleza, o filme continua a apresentar-nos um ritmo gratificante, sempre interagido com o realismo e ampliado por um realização hand-cam de enorme carácter. Depois disto, temos ainda uma Alicia Vikander a roubar qualquer cena em que surge (não percam esta "rapariga" de vista, por favor).

 

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Contudo, existe algo interessante nesta, para muitos, enésima produção de adrenalina: é que Jason Bourne faz até um certo mapeamento da situação europeia através dos seus locais de rodagem. Iniciando com a Islândia, passando pela Grécia (sob motins), chegando à Alemanha e atravessando uma Inglaterra receosa, quatro localidades que traduzem todo um recente historial da velha Europa, o continente em constante metamorfose politica, social e económica. Todavia, não estou aqui para dar lições ou debates sobre a nossa vivida actualidade, isso terá que ficar para outro dia!

 

"I know who I am. I remember everything."

 

Real.: Paul Greengrass / Int.: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassel, Julia Stiles, Riz Ahmed

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:35
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18.6.16

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"Filho de peixe sabe nadar!"

 

Atenção à navegação, Inside Out (Divertida-Mente) foi só faísca, a originalidade já não mora na Pixar e a prova está nesta sequela / spin-off de um dos maiores êxitos do estúdio. Muitos são aqueles que emocionaram com Nemo, o pequeno peixe-palhaço que perdeu-se do seu progenitor e cujo reencontro tornou-se no leitmotiv de uma demanda pelo fundo marinho, mas mais foram os que realmente “derreteram” com Dory, o cirurgião azul com problemas de memória que funcionou numa das mais divertidas personagens secundárias do reino da animação.

 

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Acompanhado pela voz da mundialmente conhecida apresentadora Ellen DeGeneres, Dory tornou-se numa trademark a não perder de vista, que facilmente poderia ser rentabilizado numa nova aventura animada com um leve sabor estival. Em Finding Dory (À Procura de Dory) seguimos a mesma fórmula de Finding Nemo (À Procura de Nemo), ou seja, um inicio que nos leva ao passado trágico da personagem e uma procura pelos entes queridos que resulta em mais uma interminável viagem pelos cantos e recantos do Oceano.

 

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Mas como não poderia faltar, visto que a fórmula tem que ser repetida, o Homem está presente como uma manifestação antagónica, uma mensagem ecológica com evidentes inspirações do polémico documentário de 2013 - Black Fish (de Gabriela Cowperthwaite) - o qual adverte ao espectador o perigo do cativeiro para algumas espécies marinhas e a hipocrisia das ditas instituições marinhas (com alusão à Sea World) que proclamam reabilitar os seus provisórios “habitantes”.

 

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Claro que toda esta temática é uma "faca de dois gumes" que nunca é, de maneira alguma, debatida numa animação provida de claros fins morais. Novamente a família como o vector de toda a demanda e a ingenuidade de uma educação ecológica de igual adjectivo. Obviamente que todo este teor é servido por um grafismo de “arrasar”, nunca a água teve de forma tão realista representada numa animação CGI, e um humor ligeiro anexado a algumas personagens construídas de forma inteligente. E sim, como não poderia faltar de enumerar, a aparição do primeiro casal homossexual numa produção animada da Disney, nem que seja por instantes, o que não deixa de ser uma pequena proeza.

 

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Porém, não deixa ser desconcertante um filme, mesmo tendo como objectivo o público mais infantil e as famílias, apostar numa credibilidade, quer visual, quer comportamental, quer no argumento e no fim possuir uma ou outra “gaffe” que nos faz pensar se os envolvidos pesquisaram alguma “coisa” sobre a condição de um peixe. Por fim, fica o conselho, não deixe as vossas crianças sozinhas perto de um aquário depois de assistirem a este filme, porventura poderão fazer o que acharem mais “correcto”.

 

Real.: Andrew Stanton, Angus MacLane / Int.: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O'Neil, Idris Elba, Kaitlin Olson, Eugene Levy, Diane Keaton, Ty Burrell, Dominic Cooper, Bill Hader

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:11
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21.5.16

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O "Cage" enraivecido!

 

Será esta a redenção de Paul Schrader com o cinema? Contudo, outra pergunta deveria ser feita – será que Schrader realmente vingou como realizador de cinema? “Tricky question”, mas a verdade que o autor é mais tido como um lendário argumentista, o responsável pelos guiões de Taxi Driver e Raging Bull, do que propriamente como um realizador a solo, sendo que as suas tentativas nessa área diversas vezes deram para o torto (nesse sentido Adam Ressurected poderá ter sido o seu melhor trabalho).

 

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Mas em Dog Eat Dog vemos um, não um regresso, mas  uma entrada bastante peculiar ao universo da direcção cinematográfica. É um filme violentado, sim, induzido numa indústria politicamente correcta e cheia de moralismos e sensibilidades que se insurge contra essa mesma condição. Dog Eat Dog é um thriller de acção da veia altamente criminosa, cuja premissa simplista se pode referir em três “malfeitores” que sequestram o bebé de um mafioso e o golpe desmorona desde o momento em que é concebido. No centro dessa intriga, que no papel não traduz a sua vitalidade, encontramos Nicolas Cage no seu inesperado regresso, o retorno à sua forma impulsiva dos anos 90 (quem não se lembra dos seus “irreais” papeis em Face Off e Leaving Las Vegas). Ao seu redor está um ambiente tipicamente 80’s sob as costelas deixadas pelo cinema de Scorsese (fruto das melhores colaborações de Schrader com o realizador nova-iorquino).

 

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Uma atmosfera que não deixa dúvidas, Schrader está a borrifar-se para os censores da boa conduta cinematográfica e muito mais para a classificação estabelecida pelos órgãos de avaliação. Isso nota-se na primeira sequência, onde um impagável Willem DaFoe destrói qualquer indicio de benevolência. Se Dog Eat Dog é um exercício de indisciplina cinematográfica, infelizmente é só isso que o filme tem a oferecer-nos. Com um final alucinado a “copiar” um David Lynch na sua melhor forma, Paul Schrader encerra o seu novo trabalho de forma inconclusiva. Assim, sentimos que havia mais a ser entregue aqui, mas tal não é cumprido.

 

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De resto, surge Nicolas Cage a demonstrar que não esqueceu de como actuar, sim, acabando por ser o grande presente de uma sessão pouco satisfatória. Dog Eat Dog é simplesmente “mais olhos que barriga”, mas precisamos mais olhos destes na actual indústria cinematográfica norte-americana.

 

Filme de encerramento da 48ª Quinzena de Realizadores

 

Real.: Paul Schrader / Int.: Nicolas Cage, Willem Dafoe, Magi Avila, Paul Schrader

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 17:59
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16.5.16
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Amor sem barreiras!

 

Nos últimos tempos, temos constatando que os EUA não tem sido (nem hoje é), o país detentor da liberdade, igualdade e oportunidades que muitas vezes tem sido descrito. A discriminação racial continua ainda a ser um dos grandes problemas dessa mesma nação, nos tempos mais recentes tem ganho uma relevante “voz”, provavelmente face a um antagonista de peso, Donald Trump, que demonstrou que os EUA ainda não havia superado esse racismo intrínseco.

 

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Em paralelo, surgiu a campanha #OscarsSoWhite, um boicote activista contra a ausência de actores “negros” entre os nomeados em tais cobiçados prémios norte-americanos. Tal funcionou como uma reflexão à falta de diversidade no cinema de Hollywood, assim como branqueamento que tem atingido inúmeras produções. Entretanto, muitas outras produções foram feitas nos últimos anos que visaram e desvendaram histórias “malditas” de um país cujo maior tesouro é a Constituição Nacional. Entre essas produções, que tem como principal intuito “abanar” consciências, surge Loving, a nova obra de Jeff Nichols que estreou no mesmo ano em que havia apostado num “embrião” de ficção cientifica à la Steven Spielberg, que fora Midnight Special (que por cá conheceu a luz do dia através do circuito direct-to-video).

 

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A seguir a passos desse artesão de histórias norte-americano, Nichols, mais conhecido por obras como Shotgun Stories e Take Shelter [ler crítica], “descortina” ao espectador um curioso facto histórico, porém, infeliz, de um EUA marginal, longe dos feitos heróicos e humanitários - a América onde a oportunidade é para alguns, e esses alguns os verdadeiros privilegiados. Trata-se da história de Richard e Mildred Loving, os modernos Romeu e Julieta onde a verdadeira barreira para a concretização das suas paixões é a nível judicial.

 

loving-2016-003-joel-edgerton-and-ruth-negga-are-e

 

No estado de Virgínia, durante a década de 50, era proibido qualquer união entre “raças”, uma lei, como pode ser vista no filme, que anexou-se a um prolongado julgamento, a luta de quem desejava acima de tudo viver (e conviver) com a sua “cara de metade”. Obviamente o objectivo deste casal não era o do mero activismo, mas sim a requisitada normalidade na sua vida matrimonial, um feito que para Jeff Nichols e todos os interessados é um statment sociopolítico, que exibe duas contradições acerca desta “brilhante” nação. A primeira era que a Guerra Civil não terminou, apenas residido a pequenos confrontos na sociedade, e para um país que se auto-titula livre, uma governação semi-independente dos estados não era necessariamente um veículo político mais viável (o contrário também não seria).

 

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Loving, é assim, mais uma obra sobre a verdadeira distopia, não daquelas agregadas a ficções cientificas, mas à nossa História, um passado bem presente, e um presente antiquado para aqueles que “respiram” na actualidade. Mas por mais boas intenções que exista, tal não justifica um filme, Jeff Nichols desmereceu-se perante tal dramático enredo (talvez os factos verídicos não seja a sua “praia”), sendo que a vitalidade anteriormente apresentada é desvanecida em conformidade com um ensaio académico de cinema formalista.

 

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É o tipo de produção que de certo irá integrar entre os nomeados ao Óscar deste ano, mas infelizmente é um filme que funciona graças a uma “fantástica” intriga por detrás dos bastidores, e claro, pelos rigorosos desempenhos de Joel Edgerton e a surpresa de Ruth Negga, a grande aposta para a categoria de Melhor Actriz.  

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Jeff Nichols / Int.: Joel Edgerton, Ruth Negga, Michael Shannon, Marton Csokas, Nick Kroll

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 21:47
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