Data
Título
Take
23.10.17

Thor Ragnarok.jpg

À terceira é de vez … em 9 anos!

 

Não vamos aqui “histericamente” proclamar que este Ragnarok é o Filme da Marvel por excelência, como muita da imprensa norte-americana interessada em seguir como insiders os estúdios da Marvel / Disney considera em cada produção lançada, mas poderemos garantir que este era o filme que precisávamos (não totalmente) neste universo cinematográfico.

10-thor-2610.jpg

Era fácil superar os dois standalones anteriores, tendo em conta que The Dark World (O Mundo das Trevas) representou tamanha pedra na qualidade narrativa e produtiva destes episódios-fílmicos. Em Ragnarok, o neozelandês Taika Waititi (What We Do in the Shadows, da série Flight of the Conchords) percebeu a tempo que a personagem-título necessitava de um “refresh”, de uma actualização (digamos assim), trazendo com isso consequências e implicações. Primeiro, a auto-paródia que preenche o protagonista, tornando-o adaptável para uma variedade estilística. Sim, Thor 3 é dos poucos que aposta numa divergência de estilo (anteriormente este título era de Guardians of Galaxy), nem que seja pelos cenários deliciosamente coloridos ou da música techno 80 de fazer chorar David Hasselhoff, tudo isto em enquadramento com o nosso “herói”, que subliminarmente é movido por vingança, sentimento primitivo raro neste universo colorido da Disney.

 

MV5BMTNhYTQwNTAtYWQ1YS00OTEwLWIzNjEtZTI5MmM5ZWNmYj

 

Porém, se ficamos minimamente satisfeitos com este upgrade, por este precioso momento de causa-efeito, e as inconsequências disfarçadas por alguma preocupações de insurreição, Ragnarok é para todos os termos uma produção gloriosamente engendrada no seu A a B em linguagem argumentativa, pelo lufa-lufa narrativo e pelas constantes personagens unidimensionais (Cate Blanchett e Tessa Thompson são exemplos disso) que apenas vingam por alguns pormenores irreverentes.

 

MV5BMGIwMzU5NzAtMGNlNi00ODg0LWEyYWItZDVjZTljMWM0Nj

 

A cobardia da Marvel ao longo de 9 anos é compensada com “passos-coxos” avante, oferece-nos um entretenimento visual com uma noção satírica invejável … ou Jeff Goldblum como o merecedor imperador de uma nação. Já esperávamos isto por muito tempo (não me refiro apenas à iconoclastia de Goldblum), mas aos “ventos de mudança” que entraram no estúdio mais sobrevalorizado dos dias de hoje.  

 

"We know each other. He's a friend from work."

 

Real.: Taika Waititi / Int.: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Tessa Thompson, Anthony Hopkins, Idris Elba, Karl Urban, Ray Stevenson, Jeff Goldblum, Mark Ruffalo, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Matt Damon, Sam Neill

 

MV5BYmE3NmU3NDItMmUzYi00YjFkLTkzNzQtZDg5NTM2OTkzNT

 

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 12:46
link do post | comentar | partilhar

13.10.17

v1.bTsxMTE3MjYwNztqOzE3NTg5OzEyMDA7ODAwOzEyMDA

Quando os bons valores matam!

 

Existe em todo este jogo de “correr atrás” um sentimento de culpa, e essa culpa é minimizada com o uso da máscara. Neste caso, o slasher movie, subgénero que se difundiu na década de 80, encontrou refúgio no disfarce, algo aprendido com as caças de Michael Myers em Halloween, ou do açoiteiro Leatherface em Massacre no Texas, tudo isso na década de 70 (tendo como piscar de olhos às reencarnações maternais de Norman Bates em Psycho). Sexta-Feira 13 não traz nada de novo no eterno jogo do gato e rato; o assassino no seu recreio, escolhendo as armas e sucessivamente as vitimas, a popularizar a “moda” do whodunit, a descoberta da identidade misteriosa, a verdadeira face por detrás da “máscara”*.

 

friday_1_1.jpg

 

Em Sexta-Feira 13, a tragédia marcou o campo de férias de Crystal Lake. Devido à negligência dos monitores, uma criança acidentalmente afoga-se no paradisíaco lago. Anos mais tarde, o mesmo campo de férias é assombrado por um assassino. Fala-se do regresso de Jason Vorhees, a trágica criança que perdeu a sua vida nas águas, um retorno não apenas físico, mas até metafísico. Apesar da sua componente sanguinária e politicamente incorrecta, Sexta-Feira 13 desenvolve uma veia moralista cristã. Os adolescentes (vitimas) são literalmente castigados pela sua rebeldia, pela luxúria, pelo consumismo e pelos vícios que apresentam. Uma das regras estabelecidas nestes confrontos é a tendência do casal sexualmente activo ser mortalmente punido durante o acto, a má índole do grupo merece um procrastinado fim e a final girl teria que corresponder os requisitos virginais e de pureza.

 

friday-the-13th-1980-DI.jpg

 

Sean S. Cunningham cria sob partes "frankenstenianas", um slasher atmosférica embebido nas influências deixadas nos exercícios dos anos 70 e por fim, formalizar o modelo que seria seguido anos e anos de indústria até chegar ao sentido "spoof", de paródia, dos anos 90. No fim, Jason poderá não ser o assassino esperado, porém, as sequelas iriam corrigir isso através do método régua e esquadro (esvaziando o síndrome whodunit que só seria recuperado no quinto capítulo). Curiosidade, o primeiro filme apresenta um dos desempenhos primordiais de Kevin Bacon.

 

PS: apesar do uso da palavra máscara no texto, esta não é invocada de modo literal. A conhecida máscara de hóquei que a figura de Jason Vorhees popularizou, só foi introduzida em 1982 com o terceiro capítulo da saga. O uso da máscara tido neste texto deriva sobretudo da identidade ocultada do assassino.

 

Real.: Sean S. Cunningham / Int.: Betsy Palmer, Adrienne King, Jeannine Taylor, Kevin Bacon

 

friday-the-13th.png

 

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 13:13
link do post | comentar | partilhar

7.10.17

Borg vs McEnroe.jpg

A new rush!

 

Estamos em 1980, estádio Wimbledon, na grande final do campeonato de ténis. O público espera impacientemente pela chegada dos dois tenistas, a competição está ao rubro. Do túnel de acesso ao estádio, duas silhuetas sombrias fazem se presenciar. A cada passo aproximam-se a luz que por fim os banhará com o holofote, revelando as suas verdadeiras identidades. Eles são Björn Borg e John McEnroe, os finalistas deste esperado torneio, o maior do desporto do ténis. De um canto, Borg, conhecido como o iceberg, vindo dos recantos mais remotos da Suécia. Eis o verdadeiro campeão, um atleta nato que concretizou 4 campeonatos mundiais de forma triunfal, estando agora na proximidade do seu quinto titulo. Mas a tarefa não será fácil para este Golias. Um "David" tenta-lhe retirar o tapete, McEnroe, um jovem prodígio, talentoso, mas com um carácter oposto ao do seu adversário, um rebelde sem causa de má conduta desportiva, odiado pelo público e muito mais pelo corpo de árbitros que assiste às suas partidas (o enfant terrible Shia LaBeouf é a mais apropriada escolha de casting).

 

borg-vs-mcenroe-03.jpg

 

Neste momento do campeonato, estas figuras, agora convertidas em personagens, cada uma regida ao leitmotiv, à jornada do herói e do anti-herói, do objetivo que os torna consequentes dos seus respectivos destinos O macguffin – o título – lança-os nesta aventura desportiva agora conformada como uma demanda cinematográfica do storytelling. Durante o tempo demorado a chegar aos seus cantos de jogo, o filme recorre ao slow motion, às câmaras-gruas que nos deixam antever a audiência que servirá de massa malfeitora, e do "ringue" plenamente situado neste vórtice. McEnroe arranca com a sua jogada, atira a bola ao ar e movimenta-se de forma a concretizar a primeira "raquetada" da partida. O espectador [nós] esperava por este momento sob cadências de um thriller, o suspense que nos faz recatar nas nossas ocultas emoções.

 

borg-vs-mcenroe-07.jpg

A raquete bate na bola e, consequentemente, o jogo, ou filme, entra no plano picado generalizado, daquelas imagens que nos acostumamos a assistir na televisão, nas transmissões directas dos nossos desportos de requinte. A banda-sonora é interrompida com o "tlack" emitido pelo esférico, as personagens são agora meros peões a correr atrás desse minúsculo ponto que velozmente atravessa cada lado do perímetro. Neste preciso momento em que o rotineiro cinema emocional dá lugar à rotina do desporto, percebemos da manipulação que o cinema "contador de histórias" parece induzir nestes retalhos viventes; a rivalidade de dois campeões num desporto que está para a grande tela como a engenharia está para o lírico. Falando nessa metamorfose romantizada que o desporto possui na Sétima Arte, é fácil identificar o boxe como a aperfeiçoada adaptação, onde os rounds se comparam a arcos narrativos e a luta prolongada, realçada pela câmara dos nossos directores, num autêntico clímax de almas em bruta confrontação, intrínseca e extrínseca.

imgID126757393.jpg.gallery.jpg

O ténis não possuía até à data nenhum estandarte cinematográfico, e como tal Borg vs McEnroe funciona como o melhor exemplo deste desporto na grande tela. Um história de rivalidade novamente encarada como o ingrediente apimentado, imaculado perante a exactidão competente do realizador Janus Metz, uma competência que não vai além do formalismo estético e da manipulação emocional. Nesse sentido, Rush, do sempre tarefeiro Ron Howard, correspondeu com maior expectativa o desafio.

Borg-vs-McEnroe.jpg

No final, seguimos para a comparação, o cinema contra os reais factos isolados traduzidos pelas imagens captadas por outras lentes; as fotografias que registam a glória e a derrota num dos maiores duelos desportivos de sempre. Se uma imagem vale mil palavras, é bem verdade que nessa comparação o cinema deste Borg vs McEnroe perde em preencher as emoções ao seu visual, despindo os simbolismos desta dicotomia de triunfo/desilusão.

 

Real.: Janus Metz / Int.: Sverrir Gudnason, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgård, Tuva Novotny

 

MV5BNWY3ZTU4NmUtNTQwYS00MGRlLWE4OGYtZmEzM2JhOWNhNm

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:07
link do post | comentar | partilhar

12.9.17
12.9.17

It.jpg

E tudo começou com um … palhaço!

 

Para entendermos a natureza desta nova versão do êxito literário de Stephen King, devemos inteirarmos numa das sequência-chaves de ambas as conversões, a infame mini-série que foi transmitida em 1990, e o filme que tem culminado num grandiloquente hype.

MV5BMjEyMzM3NjM0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDQ1NzMzMzI@._

No projecto televisivo, Tim Curry veste a pele desta entidade que assume a forma do palhaço como catalisador de um medo comum e, não só, criar um engodo, uma empatia fraudulenta para com as suas vitimas. Na cena em questão, que intitularemos simplesmente como sarjeta, seguimos Georgie, uma criança que desfruta um dia chuvoso na "companhia" de um barco de papel, fabricado pelo seu irmão mais velho. Enquanto segue as correntes induzidas pela forte precipitação e das eventuais sarjetas que se encontram à berma dos passeios, Georgie perde a sua embarcação numa delas e, desesperadamente, ao tentar reavê-lo, é surpreendido por um palhaço. Existe nele um sorriso amigável, um discurso de promessas, iguarias, dotado de um humor matreiro, mas que para qualquer criança é um comité de confiança. O rapazinho cai na armadilha, assim como muitas crianças cairiam na "conversa de estranhos", esses terrores comuns dos progenitores.

MV5BMTg1NTU5NTgwOV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTQ1NzMzMzI@._

Claramente, com possibilidades de censura televisiva, nunca vemos verdadeiramente a criatura consumir a sua presa, tudo cai num cliffhanger de cena, dando lugar ao créditos iniciais. Na versão de 2017, por sua vez, o "palhaço", agora interpretado por Bill Skarsgård (filho do actor Stellan Skarsgård), é uma ameaça evidente, sorriso malicioso, aspecto pomposo, com diálogos arrastados e uma voz asquerosa. Um verdadeiro pesadelo para a "criançada". A sua abordagem é tudo menos engodo, a farsa como um isco, mas sim a persistência, aquela de consumir a sua presa o mais depressa possível. No caso da alimentação, contrariando o repentino corte da mini-série, este IT é explicitamente gráfico. A exposição dos novos tempos do horror acaba por contornar um dos grandes tabus do cinema de horror, isto porque poucos são os que demonstram expressamente a morte de uma criança de forma visualmente macabra.

68-IT-remake-fb.jpg

Apontado por muitos como uma nova faceta do terror contemporâneo, e ainda mais a operar nos grandes estúdios, Andy Muschietti concebeu Mamã há quatro anos atrás (apadrinhado por Guillermo Del Toro). Vencedor do Fantasporto, o filme apresentava um conjunto de nuances na vertente do fantástico e da estética terrorífica de outros tempos. Muschietti é fascinado pelo terror hoje "infabricável", pelo desconhecido como signo e neste IT pelo regresso do carismático vilão do género (algo que não víamos desde a morte de Jigsaw na "longuíssima" saga iniciada por James Wan).

MV5BNDVjMjIxMzEtMGZmNi00ZmM5LWEzN2ItODJkNTRkZjdiYz

Como importante influência na concepção desta ameaça antagónica, Nightmare on Elm Street parece ganhar dimensão nos aspectos visuais e na tentativa de conceder uma atmosfera penetrável. Tal como as criação de Wes Craven, existe um imenso "carinho" pelo vilão, pela entidade maligna que se assume como o derradeiro protagonista de um conto sob contornos comuns do imaginário de King (sim, todo aquele cenário Stand By Me não é meramente déjá vu).

dims.jpg

Nesse sentido, a "palhaçada" tem tendências a estorvar o potencial narrativo do filme. IT desenvolve-se desequilibradamente entre uma preocupação com as personagens (os jovens capazes que se fundem na reconstituição de época) e os jump scares - como manda a agenda (até  Annabelle 2 conseguia ser mais inventivo nessa abordagem)- gratuitos que nada contribuem para um cenário de medo. Aliás, o medo é coisa inexistente por estas bandas.

maxresdefault (4).jpg

Obviamente que somos induzidos a uma produção competente, quer a nível técnico (apesar do excesso do CGI que não se separa do protagonista), quer na narração (saber condizer duas nuances opostas é, em termos industriais, uma bravura). Porém, a competência nunca salvou projectos do esquecimento e em IT existe uma ausência de agressividade na sua abordagem … E não. Não me refiro ao grafismo, mas sim ao inconsciente, o elemento mais tenebroso de todos.  

 

"You'll float, too, you'll float, too, you'll float, too... YOU'LL FLOAT, TOO!"

 

Real.: Andy Muschietti / Int.: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard

 

Movie-Cast-2017.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 16:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

6.9.17

MV5BNzU0MzgxMjAtYjU0NC00ZWYyLTljZWUtNTRkNzBhZTYwYz

O sentido do terror!

 

A dupla Jeremy Gillespie e Steve Kostanski, que tem vingado no departamento de caracterização (com orgulho poderão exibir o Óscar ganho por Suicide Squad), têm apostado a meio pés de lã na realização e ambos com resultados satisfatórios. Agora, reunidos novamente, avançam num autêntico bolo de camadas, um filme de cerco que depressa evolui para algo mais … demente.

 

MV5BNjM2NDZiZTItZTAzNy00NmNlLThjNWItOTQyYzdmYTQ2Nj

 

Se Gillespie e Kostanski juntam esforços para nos trazer um arranque envolto em cultos satanistas e à limitação dos cercados num hospital no “meio do nada”, depressa recorre-se aos lugares-comuns do seu subgénero, às tendências da fórmula, e à honestidade das referências (assume-se os tributos e escapam, por vias de uma cínica absolvição, à acusações de cópia) -  mas onde os trilhos levavam em becos sem saída, The Void torna-se num marginal, um nostálgico desajeitado.

 

MV5BNmQ0MWNkMmQtOTYyMC00ZGY5LTgwNDgtZWViOTNlNmVhMm

 

Os anos 80 (ou a memória destes) ditam os fluxos sanguíneos deste exemplar em prol de influências óbvias, de Clive Barker e o imaginário infernal do sofrimento via sacra, até Lovecraft e às seitas para além das dimensões reconhecíveis. Esta “descida ao submundo” torna-se num recreio para os devaneios da dupla, a criação das bestas por vias dos efeitos práticos, a obscuridade dos pesadelos trazidos à luz do dia através do “artesanato”. É cinema visual, a estética do horror, o grafismo e o onirismo que faltava numa panóplia rendida ao género -  os psicopatas estéreis aos fantasmas explicados “às criancinhas”.

 

MV5BMmM0MGJkOTktYjViYi00ZmFkLTgwNmItNTE4YjBmMTM1Nm

 

The Void é de certa forma um “fóssil vivo”, uma peça antiquada, mas não obsoleta. É por essas e por outras que perdoarmos mais facilmente o fraco desenvolvimento das personagens, as interpretações fraudulentas e o enredo refém da linguagem puramente visual do que a credibilidade do argumento, até porque o terror não encontra sentido físico. Aliás, o terror é sobretudo abstracto.

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski / Int.: Aaron Poole, Kenneth Welsh, Daniel Fathers

 

MV5BNzFiZTBhMGYtNGVjMC00OGM1LTlhYWMtZTdhMDYzNzRiNT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:36
link do post | comentar | partilhar

30.7.17

Atomic Bonde - Agente Especial.jpg

A nossa "loira atómica"!

 

Vamos fingir por momentos que Charlize Theron não é a protagonista de Agente Especial... sim, vamos supor que ela está ausente do projecto. O que nos resta afinal? Um thriller de acção pingarelho completamente estilizado, cujo estilo, quer estético, quer técnico, engole por completo o que de bom este filme poderia culminar? Sim, exactamente isso!

Atomic-Blonde-Charlize-Theron-Stairwell-Fight.jpg

Atomic Blonde desloca-nos para os temores da Guerra Fria, mais precisamente nos dias premonitórios da Queda do Muro de Berlim, tudo embrulhado no típico filme de espionagem mais devedor aos tempos musicalizados de hoje do que ao apogeu deste mesmo subgénero na década de 70. Como é de esperar, a premissa envolve-nos um macguffin, um dispositivo que levará a nossa protagonista e as restantes personagens numa extensa corrida contra o tempo, esse que se faz não da maneira cronometrada, mas na reconstituição de época, com a História a ser escrita em paralelo (das promessas da queda do muro até à realização do histórico acto).

 

atomic-blonde-reviews-1012330.jpg

 

Contudo, o objectivo desta intriga, o motivo de desespero destas personagens, não fazem efectivamente o sangue correr no espectador, a responsabilidade encontra-se de facto na saturação do subgénero, na vulgaridade com que o macguffin se converte nos constantes plot twists, ocorridos pontualmente e sem surpresa alguma. Mas todas estas desculpas têm um propósito (calma, ainda não é aqui que entra Charlize). A desculpa é um show off técnico e estético por parte de David Leitch (um dos realizadores de John Wick e futura sequela Deadpool), uma bandeja requintada de sequências de acção desafiadas por uma montagem poupada em cortes e planificações desnecessárias, aliás são os constantes travellings, esses planos sequências quase espaciais que ditam a natureza desta “loira atómica”.

 

atomic-blonde.jpg

 

Que em união com a violência gráfica, os stunts sem falhas e devidamente treinados, a decadência de uma Berlim em ebulição e por fim … entramos então naquele ponto inicial … a nossa actriz com esforço e dedicação neste papel fisicamente árduo. Theron dispensa os duplos, é autodidacta e essas qualidades reflectem uma cumplicidade com o olhar clínico de Leitch, esse dinamismo vibrante entre a técnica pensada em prol da acção e não o oposto.

 

c6lkrbjwcaaxzxf.jpg

 

Curiosamente, existem vestígios de um sub-enredo existencialista que parece ocasionalmente demarcar-se da proposta de acção. Quem é esta Atomic Blonde? O que procura ela numa cidade dividida sob a agenda política? “Em Berlim, todos procuram algo”, afirma uma das personagens que atravessa no seu caminho, uma estrada que a guia para uma outra sequência. Enquanto combate capangas no Cinema Kino, é projectado Stalker, de Andrei Tarkovsky, a ficção científica filosófica onde um grupo de personagens tentam alcançar a “Zona”, um local misterioso, perigoso e proibido que realiza os respectivos desejos íntimos de quem o atravessa. Nessa jornada cinematográfica, estas personagens defrontam as suas dúvidas e medos antes de se instalarem na “Zona”, que resulta igualmente no espaço de uma Humanidade cada vez mais guiada pelo seu “umbiguismo”. Cena seguinte temos: “Everything you want is on the other side of fear”, lê-se num dos letreiros visíveis de um clube nocturno de Berlim, essa cidade conflituosa em prol dos seus mais íntimos desejos, um desejo colectivo que não reflecte a dúvida individual da personagem de Theron.

 

atomicblonde.jpg

 

Infelizmente, ficou a sugestão, Atomic Blonde perde esse rasto no trilho, e o que sobra é só mesmo uma dedicada actriz de corpo-e-alma. E sim, é ao adicionarmos Charlize Theron a esta equação que o resultado se torna satisfatório. A actriz torna-se a rainha da acção, a estrela deste palco em ruínas e o resto… bem, o resto, a intriga, os secundários e a direcção, estão somente elementos subjugados a uma realeza apenas.  

 

Real.: David Leich / Int.: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman. Toby Jones, Sofia Boutella, Eddie Marsan, James Faulkner

 

atomic-blonde-poster-header-image.jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 11:34
link do post | comentar | partilhar

27.7.17

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.jpg

O progenitor da space opera!

 

Uma adaptação de Valerian em pleno século XXI arrisca-se a repetir os mesmos contornos do anterior flop John Carter. Eis dois filmes que vieram muito depois do seu tempo, projectados numa altura em que a cultura pop e o reino do space opera encontra-se intrinsecamente embebida pelas suas próprias influências (muitas vezes sem ter a percepção que os referencia). No caso da publicação franco-belga, Valerian & Laureline, criado por Pierre Christin, a sua importância serviu de base para muita da “ficção cientifica” hoje tida como fenómeno cinematográfico e cultural, nomeadamente Star Wars, o qual o seu mentor, George Lucas, sempre assumiu ser fã da banda-desenhada e cujas referências o auxiliaram na criação do seu tão amado universo.

 

thumbnail_25123.jpg

 

Desde a primeira publicação, em 1967, contam-se sensivelmente 50 anos, e Luc Besson, sempre desejoso em converter este legado para o grande ecrã, experienciou tais templantes com o seu Fifth Element (Quinto Elemento, 1997). Sendo um projecto por si arriscado, no seu contexto mercantil (vender space opera fora do conceito Star Wars é uma tarefa quase hercúlea para as audiências estivais), Valerian poderá ser induzido a erro pelas gerações mais novas, o de ser ultrapassado pelos seus descendentes, e equivocamente reduzido a um “frankenstein de ideias”, uma vistosa e histérica criação oportunista. Mas, longe dessa miopia envolvente ao fenómeno Star Wars, que hoje parece ter encontrado os seus piores dias de criatividade com o cunho da Disney, Besson encontra em Valerian mais que o jeito homenagem, o jubilo recorrente à fertilidade de uma imaginação interestelar, como se por momentos o realizador francês propusesse um regresso aos seus tempos de juventude, ao imaginário febril daqueles seus "sonhos molhados” envoltos de naves espaciais e criaturas from outer space, anteriormente apenas possíveis no formato quadradinhos.

 

valerian_and_the_city_of_a_thousand_planets-HD.jpg

 

Se é certo que em Valerian and the City of a Thousand Planets deparamos com a típica produção destinada ao fracasso comercial (nem o orçamento ajuda a contrariar a premonição), é bem verdade que se esperava uma autêntica catástrofe qualitativa por entre galáxias. Toda esse “segurança”, poderemos assim chamar, advém da sua natureza, despretensiosa e ciente das suas inverosimilhanças. Tudo recorre ao estilo de uma auto-paródia, quer com a matéria-prima, quer com a própria filmografia que Besson astutamente brinca nas entrelinhas. Para além de fazer uma constante perpendicularidade com o seu anterior Quinto Elemento, um caso de “pescadinha rabo-na-boca”, onde o filho torna-se o pai e o pai torna-se no seu próprio filho.

 

valerian2.jpg

 

E como é óbvio, 250 milhões de dólares investidos aqui resultam de um visual exuberante que nos remete ao pitoresco e à glória do burlesco criativo. Mas nesse aspecto, Besson é tão próximo de Cameron, tão ligado a esse vínculo tecnológico que suporta a estética do projecto, sempre numa jornada em busca do artificialmente credível, constantemente em confronto com o maior dos seus inimigos – o tempo que nos traz o obsoleto. E é então que o realizador segue os ideais de outro, George Lucas, e o seu paradigma da tela branca, dando asas à criatividade possibilitada pelo CGI e assim adiante, conceber um mundo de raiz. Essa “criação” é nos trazida a largos passos pelos créditos iniciais onde Space Oddity de David Bowie ecoa no profundo espaço, uma montagem de um futuro próximo, atingível daqui a um par de anos, que distancia até dar lugar a este tutti-frutti espacial.

 

Valerian.jpg

 

Enfim, Besson sabe o que faz, apesar do argumento o atraiçoar por diversas vezes e o elenco ser mais apelativo para gerações novas e não os eventuais fãs do original “Valeria & Laureline”, sem com isto negar a química existente entre Dane DeHaan e Cara Delevingne, ou da sedução natural de Rihanna num papel desvanecido de ênfase (vista como uma solução argumentativa que qualquer outra coisa). E como se trata de um filme de Luc Besson, existe sempre a tendência de sermos polvilhados com deliciosos pormenores … e porque não, encontrar no meio deste lunatismo, uma metáfora estrelar ao transgenerismo? Fica o desafio.

 

Real.: Luc Besson / Int.: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Alain Chabat, Rutger Hauer, Benoît Jacquot, Louis Leterrier

 

valerian5.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 20:40
link do post | comentar | partilhar

22.6.17

Cuidar dos Vivos.jpg

O belo caminho da Morte!

 

A terceira longa-metragem da ainda jovem realizadora e argumentista, Katell Quillévéré, é um pedaço de sensibilidade enrolado num naperon suis "catita". Baseado num premiado best-seller francês (escrito por Maylis De Kerangal), Réparer Les Vivants remete-nos ao tema do transplante de órgãos para revisitar os bons costumes do cinema emocional, num tecido tão próprio para o público mainstream e para os menos absolvidos a essas "multidões".

 

MV5BYTQ3NDZiYjQtZjM4Yi00ZDAwLTkxYjktMmE3MjI5NWQ1Y2

 

Sim, Quillévéré tem estofo na sua direcção, consegue-se envergar pelo tempo, esses compassos de espera, para extrair uma delicadeza fragilizada nas suas personagens, de forma a construir um quadro narrativo, uma espécie de falso filme-mosaico com uma única raiz - o coração de um jovem levado antes do tempo. O título traduzido, Cuidar dos Vivos, explicita essa vontade de juntar os "cacos" depois do acidente, a de cuidar destas personagens que respiram pós-morte, contagiadas pela tragédia.

 

MV5BNDM3NmUzY2YtNTdlOC00MDkyLWJjYmQtNzYwYzhmODU2N2

 

Mas mesmo assim, é na morte que o filme encontra a sua beleza, é nos momentos que a antecedem que a câmara de Quillévéré proporciona-nos uma divina ida pelo purgatório. O olhar debaixo, no arrebatar das ondas. Submerso num oceano de vida, onde a cor mais quente é o azul, as visões que se lançam como coros angelicais num repouso dos bravos, o nosso "morto", um jovem surfista que faz as tréguas com a sua existência antes do seu desfecho. E por fim, a transposição de cenários que abrem essa porta para o desconhecido, a vida para além do leito da morte. São belíssimas e inspiradoras imagens, essas que Quillévéré nos confia, para depois seguir num percurso do sensível, por entre lutos e esperanças de uma nova oportunidade existencial.

 

MV5BYWJjZmE5YmItMzdkYy00ZjFmLWFhMjAtMzE2Y2ExYjMzYm

 

E é sim, depois da morte que o filme parece ter perdido a sua vida inicial, esse vitalidade invejável, ficando assim as réstias de um demorado melodrama com obscuros e melosos toques. Não foi a obra que esperávamos, mas a caminhada até a morte compensou-nos.

 

Real.: Katell Quillévéré / Int.: Tahar Rahim, Emmanuelle Seigner, Anne Dorval, Alice Taglioni, Bouli Lanners

 

MV5BODY4NjY0YWQtYzRiNi00OTJkLTk3NDUtODg0ZDdmZWMxMD

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 06:45
link do post | comentar | partilhar

1.6.17

Mulher Maravilha.jpg

Girl Power: A primeira vingadora!

 

Esta não é a primeira vez que os super-heróis seguem a batuta feminina, mas é um marco que um deles atinja os 100 milhões de dólares de orçamento o que, tendo em contas as notícias que surgem, trata-se de uma repercussão positiva. Lexi Alexander e Karyn Kusama (citando duas) arriscaram neste mundo ainda plenamente masculino, e os resultados foram, em todo o caso, infelizes. Porém, Patty Jenkins (cuja primeira obra garantiu um Óscar a Charlize Theron) vem provar que é possível quebrar as barreiras estranhamente estabelecidas, fazendo-o da mesma maneira que uma Kathryn Bigelow faria: jogando o mesmo jogo tendo como objectivo superá-lo.

 

wonder_woman_SD2_758_426_81_s_c1.jpg

 

Wonder Woman, o quarto filme do universo partilhado da DC, a meio-gás em comparação com a concorrente Marvel, não chega como um apogeu do seu subgénero, nem como destabilizador dos mesmos códigos. Trata-se somente de uma evolução industrial que simpaticamente exibe alguns dotes valiosos do chamado cinema-espectáculo. Em entrevista, Jenkins afirmou que trabalharia com esta Mulher-Maravilha da mesma maneira que Richard Donner operara com Super-Homem de Christopher Reeve, ou seja, convencer inteiramente que um homem pode realmente voar, neste caso, que uma mulher se assumiria mais, em palco de Guerra, que uma espécie de pin-up bélico, e sim, um catalisador do seu fim.

 

GalleryMovies_1920x1080_WW-01748c_581be0d043d5a5.5

E é verdade, que com a mistura de uma mitologia grega disfarçada e o mundo vivendo a sua Primeira Grande Guerra como se fosse o eterno apocalipseMulher-Maravilha consegue envergar por uma maior transparência da sua personagem feminina, assim como as minorias que compõem este esquadrão de "inglourious basterds". Não há que fingir, Jenkins está interessada, dentro dos vínculos de limitação do produto, em erguer uma espécie de statement sobre a discriminação de género e racial, usufruindo das influências de Edgar Rice Burroughs (o autor de Tarzan John Carter) para se disfarçar num simples filme de aventuras.

18835491_1520672787995146_3661229566888746871_n.jp

Em Gal Gadot encontramos os traços desenvolvidos de uma personagem em constante descoberta. A actriz foi capaz de separar os flashbacks como uma essência temporal manipuladora da sua figura. Aliás, o tempo tem um papel importante nesta intriga, visto que será o mesmo em que o espectador se inteirará por épocas vividas e desvanecidas na memória. Mulher-Maravilha joga com o tempo de duas maneira: na primeira, todo o enredo central é integrado num extenso flashback, narrado pela própria Gal Gadot. Neste duo temporal é possível o espectador assistir a uma metamorfose posicional, assim como emocional, das duas figuras. Segunda, o tempo opera como uma jornada de criação, neste caso, um híbrido de mitologias, expostas de forma dimensional uma com a outra. A paradisíaca ilha helénica onde amazonas, mulheres emancipadas, vivem subjugadas às histórias e leis, e a "civilização", que vive num extremo conflito. Aqui as mulheres vivem em plena transição dos seus iguais direitos sociais (como podemos ver na baixinha suffragette Lucy Davis nas sequências londrinas).

Wonder-Woman-2017-Movie-Free-Download-720p-BluRay-

Contudo, o tempo atraiçoa o filme e quando este chega ao ponto em que já não existe mais nada para provar (a batalha de No Man's Land leva-nos a essa linha de fim criativo), Mulher-Maravilha cede aos lugares-comuns desta "linha de montagem": cai na previsibilidade amorosa e no estapafúrdio da batalha final, onde os efeitos especiais protagonizam pela enésima vez e a moral sobre a natureza da Humanidade vem à baila como um slogan. É o impasse desta maravilha que não funciona de todo maravilhosamente, mas nota-se: Patty Jenkins é sempre uma rebelde na sua cadeira de conforto e, desafiando a própria convenção de Universo Partilhado,  o filme tende em abrir e a fechar plenamente, sem a necessidade de ganchos, previous episodes ou cliffhangers.

 

"Be careful in the world of men, Diana, they do not deserve you."

 

Real.: Patty Jenkins / Int.: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, Danny Huston, David Thewlis, Lucy Davis

 

Vamers-FYI-Movies-Full-Length-Wonder-Woman-Trailer

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 17:58
link do post | comentar | partilhar

6.5.17

transferir (2).jpg

O desejo de ser o Nada!

 

Eis o magnetismo quase xamânico que o deserto do Arizona parece emanar no Cinema, e não só (assim de repente, recordamos as desventuras alucinogénias do vocalista dos The Doors, Jim Morrison, imagem eternizada pela cinebiografia de Oliver Stone). Aquela força inspiradora que funde as personagens com a aridez do cenário. Um espaço de reflexão existencial, um marco onde as road trips se encruzilham com os vínculos interiores. É a cénica que fala, e cuja oralidade “silenciosa” sobressai, mais do que os dilemas dos seus peregrinos.

nada.jpg

Em Fade into Nothing, a estreia de Pedro Maia nas longas-metragens, longe se está de fugir a tal destino. Um destino que encontramos em territórios já pisados por Wim Wenders e do seu mentor Nicholas Ray, essa paixão pelo correr contra o tempo e do deserto que constantemente invoca um prolongado transe. Sim, esta colaboração do realizador com Rita Lino (direcção artística e fotográfica) e com o artista Paulo Furtado, mais conhecido entre nós como The Legendary Tigerman, que executa de forma espirituosa a este enésimo conto de uma procura existencial em terras californianas, nada faz de diferente.

transferir (3).jpg

Contudo, aqui não se trata de reencontrar ou encontrar o ser interior, ao invés disso é-nos apresentado uma ambiciosa jornada pelo nada, a conversão de um indivíduo cheio de palavras, sonhos, projectos, experiências, todo um recheio que no fim reduzir-se-á a isso mesmo - nada. Abaixo do número unitário e do individuo propriamente dito. Um percurso musicado, filmado como um diário sob o formato de 16mm, como um found footage de um pretendido vazio.

mw-860.jpg

O nada do filme, é um estado de alma, uma etapa alcançada com a ajuda de estupefacientes, um exercício mental em prol de um transe sem objectivo. Fade into Nothing revela essa mesma fase, um experimentalismo reduzido ao vazio, um vácuo de palavras feitas e desfeitas num ápice, a pretensão do ensaio visual e a performance como estado emotivo de um filme que se joga em território sensorial (há uma tendência quase jodorowskiana em todo este retrato), e não na incutida sobriedade. Certamente, não será Fade into Nothing, o filme que “salvará” o cinema português, mas aí questionamos, precisará o nosso cinema ser salvo? Muito menos por um filme que invoca o nada como a sua arte?

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Pedro Maia / Int.: Paulo Furtado, Rita Lino

 

45ec4e260da8b83b613bcdd615c2cd3dff8e0b2e.jpg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:52
link do post | comentar | partilhar

5.5.17

elon_nao_acredita_na_morte.jpg

A sobrenaturalidade é o novo realismo!

 

Sem querer entrar no território do spoiler, até porque o filme dispõe de certa forma um plot twist que dissipa por fim toda a atmosfera de uma prenunciada catástrofe. Elon, a personagem, é um homem sob uma completa face de negação, que após o desaparecimento repentino da sua mulher, decide procurá-la nos mais prováveis recantos da sua existência. Uma busca ao tentar encontrar a sua amada, que gradualmente o faz desencontrar-se de si próprio.

 

291154_medium.jpg

A câmara segue de forma persistente o actor Rômulo Braga nestas suas andanças malparadas. O espectador é uma testemunha invisível, silenciosa e completamente impotente face aos destinos elididos estampados no grande ecrã. Existe aqui neste registo quase existencial, uma busca e ao mesmo tempo uma voluntária perda do nosso protagonista à realidade que se identifica. Assistimos assim à sua corrupção gradual e aos trilhos que contrapõem o óbvio. Tecnicamente, Elon Não Acredita na Morte é um filme desencantado, regendo-se pelas leis do naturalismo quase neorrealista, as tendências de um cinema ficcional que abraça esse realismo com tamanho afinco.

 

elon.jpg

 

Elon dialoga ainda (quase esteticamente é certo) com um outro filme, desta feita português, São Jorge, de Marcos Martins. Ambos abordam um certo inferno social, um ambiente precário de vestes cinzas e o sorriso como uma miragem lendária. São filmes que falam de tempos negros, pessimistas, condenados à solidão individual (o biótopo perfeito de um decadente bovarismo) e cada um à sua maneira exorcizam essa mesma "negritude". No caso de Elon, o território é bem outro, parece um misticismo herdado dos antepassados amazónicos, dessas lendas que coabitam com a História brasileira. Se não isso, como explicar a cada vez maior recorrência ao sobrenaturalismo como um novo realismo?

 

106619.jpg

 

Já vimos tal explorar num Aquarius (por exemplo), e sob o signo do Indielisboa, no não conciso Mata-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira. O cinema brasileiro recente tem coligado a esse passado cinematográfico, que por sua vez são as crenças e a eterna fobia ao mundo dos mortos que sujeitam essas mesmas temáticas (por mais reais que sejam). Será um escape, uma alternativa para "sujar" esse quadro de realismo "perfeito"? A verdade é que Elon vence a muitas outras abordagens da chamada "docuficção" por essa hibridez, uma invocação quase "mizoguchiana" desses dois mundos tão desiguais.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Ricardo Alves Jr. / Int.: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Ricardo Alves Jr.

 

elonpgmcinevitor.jpg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:15
link do post | comentar | partilhar

11.4.17
11.4.17

Paraiso.jpg

Todos aguardam pelo seu Paraíso!

 

Não é negação, mas sim saturação. O Holocausto parece ter atingido o seu ponto de ebulição no Cinema, ou há ideias e novas abordagens para apostar, ou se verga, como se turismo de tratasse, numa reconstituição crowd pleaser. Conta-se pelos dedos as "inovações" nestes lugares, não comuns, mas tão presentes no nosso "eu" moral. Em tempos de populismos e "revisionismos históricos" (termo técnico trocado pelos historiadores para amenizar a evolução do negacionismo), existe uma importância humanitária, como cultural, para recordar estas "horas negras" onde a sobreposição ideológica acima das condições humanas obtiveram resultados catastróficos que ainda hoje ecoam. Mas até que ponto deveremos recordar essas atrocidades? Andrei Konchalovsky parece ter encontrado uma nova perspectiva ao tema através do ponto consequente da desgraça da ideologia politica. Paraíso, o título, resume, não ao Reino dos Céus, mas à emancipação de uma ideia, de uma comunidade "moral high ground" onde a politica adquire a sua consistência massiva.

 

3e9093b850f0ac686c1cb6cdd9155f88.jpg

 

"Um Paraíso para o nosso povo. Um Paraíso alemão", declara de peito erguido o oficial Khelmut (Christian Clauss) nos interrogatórios que intercalam a narrativa desta obra envolvida em tons cinzentos. Ele é um homem decente, segundo as doutrinas globalmente conhecidas de Henrich Himmler, de um coração abrangente, mas completamente embebido pelo sonho Nazi partilhado por Hitler e os seus seguidores de partido. Khelmut é a prova de que a intolerância juntamente com a ignorância condiciona-nos como humanos e que o passado nos confronta, igualmente unindo-nos a essa mesma jornada moral. Para o nosso oficial, a ligação directa para essa consciência deveu-se a uma "princesa russa", caída em desgraça num campo de concentração. Olga (Julia Vysotskaya) é essa aristocrata agora reduzida a um número, um número a ser subtraído pelas contas dos alemães, e a sua vivência longínqua com o oficial que se vai tecendo numa réstia de esperança numa fuga iminente - "achas que há um paraíso para todos?".

 

Paradise_film_scene_characters.jpg

 

Andrei Konchalovsky recria aqui um embate entre ideologias e golpear perspectivas, porém, e infelizmente, tudo é feito através da invocação dos lugares-comuns, do requisitar da violência gratuita que nos explicita o óbvio - a desumanidade das SS. Assim, o realizador parece tropeçar num evidente maniqueísmo, principalmente tendo em conta um certo teor nacionalista, onde guarda rancor de gerações aos germânicos e compaixão pelos seus conterrâneos (basta ler a dedicatória deixada pelo mesmo no final da fita).

 

paradise-_filmproduction_-Andrei-Konchalovsky-720x

 

Mas apesar dessa motivação obscura, Paraíso desfragmenta em cacos um filme nascido nas ruínas que se expande como uma panóplia de conhecimentos ideológicos isolados e algumas catch phrases que ficam para futuras reflexões, mais do que todo o filme ("O mundo sem corrupção, seria completamente desumano"). Como se não bastasse, as decisões narrativas culminam num plot twist com mais 500 anos, e bem português por ventura. A invocação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, aqui a soar como um puro registo de manipulação, da desgraça sofredora do cristianismo e o julgamento dos três cabecilhas dos respectivos grupos. No final das contas, o que sobra é O Arrependido, O Orgulhoso e a A Absolvida.

 

Real.: Andrei Konchalovsky / Int.: Julia Vysotskaya, Peter Kurth, Philippe Duquesne, Christian Clauss

 

paradise-rai-venice.jpg

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:53
link do post | comentar | partilhar

11.3.17

Sombra das Mulheres, À.jpg

Philippe Garrel, o feminista?

 

Será esta a maldição de Philippe Garrel reviver nestes últimos tempos as mesmas intrigas adulteradas? L’Ombre de Femmes tem sido visto como a tendência feminista no seu discurso das traições, da natureza frágil das relações amorosas e da condição imposta pela sociedade ocidentalizada em matéria da monogamia "forçada".

 

OMB0093b.jpeg

 

Sim, para quem assistiu à trilogia dos "Amantes", é melhor apertar o "cinto", porque a mesma jornada é induzida em mais uma tonalidade de tons cinzentos. Em comparação com La Jelouise, esta À Sombra das Mulheres é um upgrade dessas mesmas "sombras", fora Louis Garrel carnal, e entra dois desconhecidos neste mundo "garreliano" para servir de vitimas em mais um fraudulento "faz-de-conta" amoroso. Garrel [pai] aposta numa visão que coloca a mulher acima da fragilidade luxuriosa do homem, entendendo que com essa inclinação sentimental, esteja a conduzir-se num proclamado retrato feminista.

 

434554.jpg

 

Mas não. Existe sim, um lisonjear ao sexo oposto, abdicando do seu "eu" intimamente masculino para forçosamente inserir-se numa "troca-de-papeis", de forma a quebrar o circulo que o próprio havia criado em loop. Mas a Mulher, valorizada ao estatuto de "Vénus" amorosa, é uma somente doce vingança para a carência impelida pelo seu marido. Voltamos ao palco das milésimas Sabrinas, Rebeccas e de outros romances de cordel - a mulher é ultra-sensível, colocando primeiramente o seu sentimento mais inocente frente ao desejo sexualizado, ao contrário do homem, novamente posicionado como o "sacana" de serviço rendido aos instintos primitivos (será a poligamia um acto meramente primitivo?).

 

L-ombre-des-femmes-en-ouverture-de-la-Quinzaine-de

 

Aqui, o que está em causa não são hierarquias, mas sim igualdades, e neste momento queremos mulher a persistir no seu desejo, na fantasia, não no platónico amoroso que parece aqui instalar-se. Sem com isso negar a possibilidade "civilizada" de uma relação afectuosa ao mais alto nível. Até porque temos dois seres que se completam, que se amam, mesmo expostos a "pecados carnais" de diferentes objectividades. O final, essa quebra de uma maldição "teimosa", é inteiramente enxertada como uma vinha de cultivo, não se sente, apenas "engole".

 

l_ombre_des_femmes_in_the_shadow_of_women_still.jp

 

Todavia, há que valorizar o esforço de Garrel em fugir dos grandes pecados de La Jelouise, começando por diálogos cuidados e trabalhados, "migalhas de pão" em direcção ao adultério, os actores e o seu orgulho de "vestir" tais personagens e a realização menos apressada por parte do nosso Philipe. Por outras palavras, talvez seja a melhor obra do realizador nos últimos tempos, mas longe do feminismo pelo qual é vendido.

 

Real.: Philip Garrel / Int.: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Vimala Pons, Louis Garrel

 

maxresdefault.jpg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 21:31
link do post | comentar | partilhar

3.3.17

Kong - Ilha da caveira.jpg

Em terra de monstros, Kong é o rei.

 

Um gorila colossal no topo do Empire State Building, afastando violentamente os caças que desesperadamente o tentam  abater, defendendo-se igualmente e protegendo a sua não correspondida amada. Será que existe imagem tão universalmente identificável no Cinema como o climax de King Kong? Obviamente que não, e não estamos aqui para enganar ninguém. Kong: Skull Island não está aqui para tirar o lugar ao filme de 1933,  mas surge como uma variação comercialmente fiável para um futuro universo partilhado. Pois, não é spoiler. Já se sabe que este símio do tamanho de um arranha-céus vai enfrentar Godzilla numa futura produção.

 

KongSkullIsland_Clip_Graveyard.jpg

 

Mas já que temos que "gramar" com um revisitar à tão icónica figura da sétima arte, porque não aceitar o que de bom tem esta aventura tecnológica? São vários pontos, aliás, a começar pelos momentos em que o realizador Jordan Vogt-Roberts (do filme indie King of Summer) tenta contrariar a linguagem visual básica das grandes produções. Cenas como a da libelinha a mimetizar uns helicópteros saídos da ataque-naplam de Apocalypse Now, fazem-nos de certa forma salivar por mais desses mimos. E o que dizer da troca de olhares entre Samuel L. Jackson e a nossa besta? Mas estes "5 minutos de paraíso" que Vogt-Roberts parece usufruir de vez em quando têm um senão. Tal como uma troca de cromos, há que apostar no já batido ... e até invocar um certo estilo à lá Zack Snyder para corresponder aos requisitos estéticos das novas audiências.

 

kong-skull-island-review.jpg

 

Segundo ponto, a conservação do clássico filme de aventuras. Kong: Skull Island, dentro da sua agenda da Hollywood tecnológica, emana um espírito "aventureiro" algo perdido no nosso cinema. Será que tal sensação parece apenas reavivada nas incursões de King Kong (já a subvalorizada versão de 2005 respeitava o subgénero)? Terceiro ponto, e talvez o mais desafiante desta produção: a febre da Guerra explicitada na rivalidade acidentalmente criada por Samuel L. Jackson, em modo "Hurt Locker", e o nosso Kong. A fúria dos olhares, quer reais (do actor), quer artificiais (a do símio digital), e a procura de um inimigo como fermento para uma sociedade à beira da ebulição conflitual - "Nós encontramos os inimigos quando os procuramos". Tudo servido, com certa leveza (ou seja, contado para miúdos), como catarse para a memória bélica do nosso século XX.

 

NEtwhpql1MkXwz_1_14.jpg

 

O resto é o costume do actual panorama industrial: personagens básicas e construídas consoante as necessidades do guião (mesmo com um John C. Reilly em boa forma) e não o oposto; o climax a dever demasiado aos efeitos visuais e ao espalhafato dos mesmos; e a impressão de assistir a uma reciclagem do guião de Godzilla (2015). Factores estes que constroem a rotina do espectáculo cinematográfico à lá IMAX. Ainda assim, é certo que existe muito mais em Kong do que a mera artificialidade pagã. Sim, muito melhor que o esperado, mas não a Oitava Maravilha do Mundo.

 

"This planet doesn't belong to us. Ancient species owned this earth long before mankind. I spent 30 years trying to prove the truth: monsters exist."

 

Real.: Jordan Vogt-Roberts / Int.: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, Toby Kebbell, Richard Jenkins

 

Kong-Skull-Island-Final-Official-Trailer-6.jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 22:01
link do post | comentar | partilhar

22.1.17
22.1.17

Fado_poster_goldposter_com_1.jpg

Tudo isto é triste, tudo isto é Fado!

 

A primeira longa-metragem de Jonas Rothlaender revela-nos uma história de ciúme e obsessão (contado com o auxilio da imaginação do protagonista) que tem como palco de fundo uma Lisboa filmada sob um olhar meramente turístico. Mas antes de desatarmos a apelidar este "esforço" de "europudim" perdido na tradução, vale a pena salientar a sensibilidade do realizador em procurar a medula desta cidade à beira Tejo. Como diz até certa altura uma das personagem habitantes deste Fado, Lisboa é uma cidade camaleão que se confunde com o estado de espírito da pessoa, enquanto alegres se transforma no recanto mais belo do pedaço, enquanto tristes a cidade veste o seu manto de melancolia e de tristeza derrotada.

 

a11.jpg

 

Talvez seja a cidade ser tão nossa que nos faz sermos exigentes com o olhar estrangeiro de Rothlaender, mas vejamos, muitos dos realizadores portugueses filmaram Lisboa com os mesmos olhos, contando com Bruno de Almeida e o seu The Lovebirds, até João Pedro Rodrigues e o seu gesto desencantado com Odete, e Marcos Martins e a sua busca numa cidade sem identidade com Alice. O único pecado do jovem realizador é a sua ambição de filmar os lugares comuns de Lisboa e as utilizar a favor de uma história carente em psicologia, mas apta nas insinuações emocionais. Com isso junta-se uma certa miopia e não ir mais longe, e ocultado, o desejado de por fim, integrar a alma de Lisboa, invocando o seu lado camaleônico ao extremo. Chegamos ao ponto de desejar o iminente desastre.

 

fado_stills_o.jpg

 

A obsessão, o ciúme, a ameaça de crime passional preenchem a intriga, que nos dá o ar de "faz-de-conta", de insuflação automática ao serviço de um co-produção. Mas nem isso, Fado, esse sentimento que só os portugueses parecem conhecer, leva o filme ao desastre. Apenas precisávamos mais de paixão no argumento, e menos fixação no cenário.

 

Filme visualizado no 14º KINO: Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 

Real.: Jonas Rothlaender / Int.: Golo Euler, Luise Heyer, Albano Jerónimo, Duarte Grilo, Rui Morisson

 

FADO_Stills_001-1024x569.jpg

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 10:50
link do post | comentar | partilhar

6.1.17

Manchester By the Sea.jpg

Emoção à beira-mar!

 

Dramaturgo, argumentista e agora realizador (contando com três obras no curriculum), Kenneth Lonergan parece cada vez mais chamar a atenção no campo dramático do cinema norte-americano actual, e não é por menos. Manchester By the Sea é-nos apresentado como uma faca afiada de ênfases dramáticas e picos de emotividade através da, e somente, a adaptabilidade dos seus atores, neste caso especifico, Casey Affleck.

 

michelle-williams-manchester-by-the-sea.jpg

 

Irmão mais novo da reascendente estrela de Hollywood, Ben Affleck, Casey é aquilo que vulgarmente poderíamos denominar de “ninja”, ninguém parece dar por ele, mas quando por fim se revela, é arrebatador. É difícil ficar indiferente ao seu underacting (vertente popularizada por Marlon Brando em que descredibiliza os rasgos de interpretação dramática). Actualmente, Tommy Lee Jones detém o título de mais sucedido dessa categoria, porém, Affleck converte-se numa autêntica carta de trunfos ao conseguir fugir das eventuais armadilhas do campo da comédia involuntária que a sua personagem e enredo parecem suscitar. Por exemplo, a sequência do hospital, após o anúncio de morte do seu companheiro confraternal, a sua visível indiferença abate-nos com um indigestível sabor de dúvida. Por momentos suspeitamos de “canastrice”, mas cedo somos engolidos pela sua figura vencida pela dor, cuja origem será desvendada mais tarde.

 

manchester-by-the-sea-casey-affleck-lucas-hedges-p

 

Sim, Casey Affleck é o melhor que o novo filme de Lonergan tem para nos oferecer. O resto induz-nos para o maior engodo de “colo”. Ao contrário das aclamações que têm sido viabilizadas lá fora, Manchester By the Sea é enfraquecido pela tendência de Lonergan transformar este ensaio de interpretações num filme, sob o signo cinematograficamente mainstream. Até porque o importante é chegar às audiências mais vastas e, porque não, miná-lo de flashbacks. A cortante e afiada fórmula narrativa parece despedaçar a minimalidade do enredo (pelo menos era o que julgávamos) e o plot twist precocemente concebido trai-nos e leva-nos a uma previsibilidade sem limites quanto aos modelos de redenção emocional.

 

manchester-by-the-sea.jpeg

 

A viagem torna-se então atribulada, mas Casey Affleck é um resistente, a demonstrar que é um campeão no que requer a embater em filmes que, cada um à sua maneira, fogem da conformidade do espectador. Longe da obra-prima que fora catalogado, Manchester By the Sea é a presença de um actor pouco convencional nas tendências oscarizadas.

 

"I can't beat it. I can't beat it. I'm sorry."

 

Real.: Kenneth Lonergan / Int.: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler

 

manchester0002 (1).jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 23:26
link do post | comentar | partilhar

4.1.17
4.1.17

Zeus.jpg

Nos escritos do Presidente!

 

Se considerarmos Zeus um biopic é como se a banalizássemos perante os seus "primos" americanos (que segundo Tarantino são motivos para atores vencerem Óscares) e de alguns dos horrores nacionais que temos vindo a testemunhar nos últimos anos. A primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro é uma descoberta por um período quase negligenciado nos manuais de História e a ribalta de uma das figuras mais esquecidas no Portugal contemporâneo: um escritor de contos eróticos que ascende a Presidente de República; um homem que abandonou o seu cargo para poder viver no anonimato numa Argélia colonial. Trata-se de Manuel Teixeira Gomes, um ilustre caso de literatura nefelibata no nosso país, sendo que um filme sobre a sua personalidade requeria algo mais que somente fórmulas reutilizadas.

 

imagem4.jpg

 

Zeus não tenta de maneira nenhuma abandonar o seu estatuto de cinebiografia. A sua personalidade não o aflige como um caso único e inédito, quer no nosso panorama cinematográfico, quer em relação com o dito "World Cinema". Mas Paulo Filipe Monteiro tudo fez para o demarcar dos restantes produtos de linha de montagem que o subgénero tem atingido, e muito mais desligou-se da dependência televisiva que muito do cinema comercial português não consegue emancipar-se.

 

f259e8a81212d37e06483ab10b17c1b0.jpg

 

Até aqui existem motivos para sorrir. Zeus não é uma bestialidade como as mais recentes biopics nacionais. Relembro que já tivemos um Salazar playboy, uma Amália sob toques de loucura, e sem esquecer a quimera envolta no escândalo de Carolina Salgado. Por sua vez temos uma produção singela, bem intencionada (visto que vem recriar um pedaço de História esquecida), e um trabalho dedicado e forte por parte do actor Sinde Filipe, que transforma Manuel Teixeira Gomes num patriarcal bon vivant. Em nota, temos uma notoriedade na caraterização (coisa rara no cinema português) e efeitos práticos que nunca cedem à tendência failsafe.

 

ng8089152.jpg

 

O grande senão deste Zeus está naquilo que o realizador fortemente apostou, na narrativa dividida em três camadas, na constante oscilação, meio "salta-pocinhas", envolvida nas suas devidas particularidades (Ivo Canelas quebra a quarta barreira, a fotografia varia consoante a história centrada), porém, subentendidas numa conexão desfragmentada. Mas nada que nos impeça de usufruir dos propósitos desta recriação saudosista, com mais atenção à figura homenageada do que propriamente conceber-se numa incisão político-social de época. Se no caso do espectador é a procura do último ponto, então este não estará na sala certa.  

 

Real.: Paulo Filipe Monteiro / Int.: Sinde Filipe, Paulo Pires, Ivo Canelas, Carlotto Cota, Idir Benebouiche

 

image-6.jpg

 

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 18:11
link do post | comentar | partilhar

8.12.16
8.12.16

Cantar.jpg

Animals got Talent!

 

Confortavelmente sentamos na cadeira para visualizar mais um filme de animação. No nosso interior, esperemos que seja o último do ano, visto que 2016 suou ter sido um ano bem animado, no bom como no mau sentido da palavra. Assim, a sessão começa, entra o logo – Ilumination – com os Minions, esses “bonequinhos marketing a fazer das suas. Deste lado, o pior se espera, visto que foi a Ilumination que produziu The Secret Life of Pets, um ode à violência sem sentido e uma violação à premissa prometida que revelou-se num autêntico êxito de bilheteira (Why?). Do outro lado da sala, ouve-se um “shhhhiiiiiiuuuu”, o filme vai realmente começar.

 

sing-trailer-screencap.jpg

 

As portas do Grand Theatre de “nenhures” abrem, um sítio que o espectador mais atento irá aceitá-lo como um anexo de Zootopia. Sim, mais um filme de animais antropomorfos! Começa a narração, a voz-off, o qual identificamos como Matthew McConaughey a fazer de tudo para disfarçar o seu sotaque sulista. O actor é um Koala, um pequeno peludo que assiste à sua primeira obra teatral, uma espécie de espectáculo da Broadway, onde uma diva em forma de ovelha “grita” pelos seus pulmões, anunciando todo este flashback prefixo num autêntico “mar de rosas”.

 

sing-teaser-trailer.jpg

 

Depois da velha cantiga de cumprir sonhos e afins, chegamos à actualidade, o nosso Koala é agora um produtor desta Broadway, mas um falhado produtor. Antes que alguém invoque o filme de Mel Brooks, é sabido que este marsupial tem um truque na manga, a sua chance de sair da “bancarrota”, aquele buraco, pelo qual se meteu após produções desastrosas e fiascos com “F” grande. Essa iluminação é a premissa de toda esta nova jornada animada, um concurso de talentos musicais.

 

sing-3.jpg

 

Enquanto que a sua noção de novo projecto nos parece banal e mais que vendido, como animação, um concurso vocal parece de momento afastá-lo do território básico, mas não tão longe. A partir desta disposição são nos apresentados um diverso leque de personagens que sonham ocultamente ter os holofotes apontados em si. Pequenos backgrounds das personagens aqui e ali para nos situar e contribuir para este “world building”, para depois seguirmos a um casting, mais divertido que aqueles episódios de pré-selecção dos eventuais programas que esta animação alude. Mas obviamente, que esta animação é dirigida a um público especifico e bastante abrangente, por isso, deixemos de “concursos” e passemos então à fórmula.

 

sing-snail-image.jpg

 

É previsível que após a aplicação da Lei de Murphy, um momento de humilhação algures e voilá, esquecemos as diferenças e todos os anteriores concorrentes se reúnem em prol de um objectivo comum. O final é essa façanha concretizada, com mais resoluções moralistas por metro quadrado que todas as produções de animação deste ano. Mas é uma “viagem” que compensa? Posso levar os meus filhos? Ao menos, diverte? Pergunta o leitor e muito bem.

 

sing0006.jpg

 

Sabendo que este tipo de animações industriais tem um propósito principal – money – através da conquista dos nossos “pequenotes”. Mas tendo em conta o lote que tivemos este ano, desde o banalíssimo Finding Dory, passando pelo desperdiçado Zootopia, até ao emocionante Kubo, e claro, o engodo chamado “A Vida Secreta dos Nossos Bichos”, Sing é um produto bem intencionado, que não os envergonha e com uma selecção musical que poderá, de maneiras devidamente doseadas, surpreender os mais cépticos. Não, não é dos piores. Não senhor!

 

Real.: Garth Jennings, Christophe Lourdelet / Int.: Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, Seth MacFarlane, Scarlett Johansson, Taron Egerton, John C. Relly, Jennifer Hudson

 

Sing.jpg

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 01:21
link do post | comentar | partilhar

24.11.16

Blood Father - O Protector.jpg

Quem sai aos seus é da América!

 

Tornou-se quase cliché caracterizar um tipo de EUA como "votantes de Trump", um sinal de empobrecimento social que tem vindo a originar nos últimos tempos inúmeros documentos filmados sobre esse estilo de vida ignorado, e por vezes repugnado em embate com uma outra América, a cosmopolita que tanto se vende no cinema mais mainstream.

 

BloodFather_clip_motorcyclechase.jpg

 

Blood Father poderia culminar em mais uma enésima variação de Taken, daquele tipo de thriller de acção que puxa os elos paternais dos "espectadores mais másculos", ou até, tende em conta o seu protagonista, um regresso à estrada a referenciar Mad Max. Mas não, o que vemos é sobretudo uma oportunidade deste tipo de "americanos" possuírem a sua história contada (e recontada) no grande ecrã. Como tal, esse tipo de incisão faz-se por via de um exercício de acção longe do gratuito "arraial de pancada", onde Mel Gibson é o exemplo de herói que facilmente "repugnamos", um homem do interior, ex-condenado, com ligações a mexicanos mas com a ousadia de acusar estes imigrantes como "ladrões de trabalho", catalisando um dos pontos fulcrais para a falta de postos de trabalho através de um "inimigo comum". Como não podia deixar de ser, os "amigos" mais íntimos deste soldado do asfalto enfurecido são integrantes de uma comunidade de supremacia branca, referindo os seus ideais como modos viventes de uma sociedade em plena luta.

 

melgibson-0.jpg

 

No geral, Blood Father assume-se como um vulgar filme de acção, com qualidades próprias no ramo, para se aventurar numa crítica subversiva de um país em pleno "May Day", que encontra a salvação nos errados trilhos. Um filme que se disfarça de fascismo e xenófobo para se enfeitar como um "lobo nas veste de cordeiro". Pelo menos, este é o regresso esperado de Mel Gibson aos grandes ecrã, numa obra muito mais sincera que o seu retorno à realização. Sim, Hacksaw Ridge, muito mais racista que todo os 100 minutos de Blood Father.

 

Real.: Jean-François Richet / Int.: Mel Gibson, Erin Moriarty, Diego Luna, Michael Parks, William H. Macy

 

blood-father-1280bjpg-36683b_1280w.jpg

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 17:16
link do post | comentar | partilhar

14.11.16
14.11.16

Até Nunca.jpg

Um trabalho de actriz!

 

Benoît Jacquot não é necessariamente o realizador agressivo que o Cinema necessita, a sua passividade tem vindo a tornar-se, de certa maneira, uma rédea que o encurta de explorar psicologicamente e atmosfericamente as suas personagens. Como tal, esta adaptação de uma das obras mais exquisite de Don DeLillo, Body Artist, foi visto inicialmente como um projecto arriscado e demasiado ambicioso para os dotes de Jacquot. A merecer a bênção do próprio escritor, que supervisionou esta co-produção luso-francesa de Paulo Branco, e a protagonista, Julia Roy, a revelar os seus “truques” no argumento e na construção autodidacta da sua personagem, À Jamais é uma surpreendente nova faceta de um realizador em vias de penetrar territórios nunca antes explorados pelo próprio. Porém, não a sua total entrega carnal.

 

4.jpg

 

A intriga, cenicamente transladada a Portugal, leva-nos a Laura (Julia Roy), uma artista performativa que terá que lidar com o suicídio do seu companheiro (Mathieu Almarich). De forma a lutar contra a perda e a constante saudade que a sufoca, Laura utiliza o seu método artístico para mimetizar os movimentos, os gestos, o dialecto, as rotinas, mais concretamente “ressuscitar” mentalmente o seu amor como um método freudiano enviusado em "mitologia" de Mary Shelley tratasse.

 

ngVdnP1.jpg

 

Não existe um cadáver, uma entidade física onde uma vida pode ser devolvida de forma lazariana, abundam sim, as memórias, e a força destas que são “armas de apelo” da nossa protagonista, “barricada” na casa do seu ente querido, aguardando por fantasmas. Benoît Jacquot filma um trabalho de concepção de uma artista, o método invocado e elaborado como uma manifestação emocional, um saudosismo pesaroso pelo qual Julia Roy espelha no grande ecrã.

 

594471.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

À Jamais vive da actriz, vive do seu trabalho, da sua dedicação, e é nessa força que o espectador contempla, por fim, a fraqueza de Benoît Jacquot por detrás das câmaras, a referida passividade. O realizador revelou que não interferiu no desempenho de Roy, dando a liberdade para a sua criação. O resultado desta saudação à protagonista, é um ensaio psicológico que manifesta e expande para a além da sua atmosfera, mas a isso, devemos inteiramente a Laura Roy.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Benoît Jacquot / Int.: Laura Roy, Mathieu Almarich, Jeanne Balibar, Victória Guerra

 

0.jpg

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 17:12
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Thor: Ragnarok (2017)

Friday the 13th (1980)

Borg McEnroe (2017)

IT (2017)

The Void (2016)

Atomic Blonde (2017)

Valerian and the City of ...

Réparer Les Vivants (2016...

Wonder Woman (2017)

Fade into Nothing (2017)

últ. comentários
I bought Raytheon on this site, I do not know whet...
Muito ansioso, especialmente por ser do Wes Anders...
ou seja, uma bosta de comentario de quem nao enten...
Obrigado pelo reparo, corrigido ;)
Bonitas palavras, Hugo! O filme foi, de facto, mui...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
2 comentários
2 comentários
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO