Data
Título
Take
12.10.17

Estrangeiro, O.jpg

Busca Implacável actualizada!

 

Deparamos novamente com o efeito Taken, ou, por outras palavras, quando o infortúnio “bate à porta” de indivíduos com habilidades e técnicas especiais. Desta feita não é Liam Neeson o protagonista deste “comeback”, mas outro cinquentão do cinema de acção: Jackie Chan, que interpreta um humilde gerente de um restaurante chinês em Londres que, por azar, encontra-se à hora errada no lugar errado. Um atentado terrorista levou assim a sua única filha, motivando-o a uma cega vingança pelos responsáveis, que se vem a saber mais tarde serem membros da reactivada cédula da IRA (Exército Republicano Irlandês). O destino desta personagem completamente amargurada e sob um luto silencioso entrelaça com o de um politico com ligações passadas à organização (Pierce Brosnan).

 

MV5BMTBjNjA1ODMtMDBlOS00MTM1LWE1ZDktMjVjMmU1NWYzZj

 

Martin Campbell retorna ao território de conspiração e do thriller policial cuidadosamente alinhado com a acção que nunca se assume como o “prato principal”. É certo que no historial do realizador abatemo-nos com uma incapacidade, ou, por outras palavras, infantilidade de retratar cenários geopolíticos e situações limites consequentes de duplos gumes da mesma faca. Resultado, não tão agravado como sucedera com The November Man - A Última Missão (mencionando um dos mais recentes filmes protagonizados por Pierce Brosnan), um exercício maniqueísta evidente que baila com a coerência que poderia ser suscitada no enredo.

 

MV5BNmY4Y2I4MjQtNWRkMy00M2U4LWI0YjUtYTI4MTc4ZmMxND

 

Fora isso, é bem verdade que Jackie Chan, fora do território imposto por Hollywood (a comédia de acção que nunca lhe encontra sincronização), dá cartas como um mártir dramatizado completamente vencido pelo violento pesar. Entretanto, o filme foi feito de forma rotineira e inconsequente no tratamento de um História antiga, meramente replicada sob o rascunho dos nossos medos actuais. Contudo, em The Foreigner encontramos similaridades com um dos galardoados filmes de Cannes deste ano, In the Fade, de Fatih Akin. Mas fica a grande heresia da nossa parte: esta reunião de Jackie Chan com Pierce Brosnan é um exemplar muitíssimo mais sóbrio e coerente sob o seu género “refém”.   

 

Real.: Martin Campbell / Int.: Jackie Chan, Pierce Brosnan, Rufus Jones, Katie Lung

 

MV5BMTc2NDExOTE0M15BMl5BanBnXkFtZTgwMzEyMjM3MjI@._

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:05
link do post | comentar | partilhar

8.10.17

MV5BY2Y3Njc4MzItZmJhOS00MTRhLTlkN2YtYTQwNmM3YTUxY2

Os filhos desconhecidos!

 

Philippe Lioret abandona por momentos a sua veia mais intimista e social para folhear as páginas do romance de Jean-Paul DuboisSi ce livre pouvait me rapprocher de toi, de forma a conceber este Le Fils de Jean, uma decepcionante busca pelos nossos antepassados. Tendo como protagonista Pierre Deladonchamps (que os mais atentos cinéfilos o recordarão do L'Inconnu du Lac [O Desconhecido do Lago], de Alan Guiraudie), a intriga leva-nos ao parisiense Mathieu, que recebe, certo dia, uma chamada do Canadá com a informação de que o seu pai morreu. Até aqui, o nosso protagonista desconhecia por completo do paradeiro paternal, sendo que, sem grandes hesitações, viaja para o outro continente de forma a conhecer as suas próprias raízes. O que encontra lá é um ambiente puramente hostil no qual não pretende participar.

 

1476689926195_0570x0400_1476689973107.jpg

De histórias fúnebres com revelações “bombásticas” o Cinema parece andar farto, porém, Le Fils de Jean tende em evitar esse amontoado de clichés de primeira vista, apostando na passividade e subtileza do seu enredo identitário que por vezes confunde-se com a natureza do protagonista. Diremos mesmo que para contornar esses lugares-comuns, o filme ruma para outra dependência, a dos atores, mais concretamente na química apresentada entre Deladonchamps e o veterano Gabriel Arcand. Lioret apercebe-se da força motivada pelos desempenhos simbióticos para com o cenário em plena transgressão e nele concentra todos os holofotes, sem perceber que com isso descarta a “graciosidade” do seu cinema, a urgência da actualidade com a emotividade despertada nos olhares que culminara sucesso em Welcome.

 

MV5BYTEzOTBkNDMtMmNjZC00M2QyLTlhNDItMmYwMTQ4Yzk3YT

 

Simplesmente discreto, Le Fils de Jean pode não ser a rotineira telenovela, mas não possui a capacidade nem versatilidade para se revelar num "must see" da temporada. Nesta, assim como num futuro próximo. Sim, estamos desapontados.

 

Filme visualizado na 18ª Festa do Cinema Francês

 

Real.: Philippe Lioret / Int.: Pierre Deladonchamps, Gabriel Arcand, Catherine de Léan

 

MV5BMDU3MTQ0OWEtMmViYi00ODY4LWIxZjktMDBlOGRkMjM5ZT

5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:29
link do post | comentar | partilhar

8.9.17

Sorte à Logan.jpg

Que a sorte esteja com o cinema!

 

Podem existir movimentos realistas, sensoriais e outros cujas temáticas apegam cada vez mais o espectador, porém o cinema é, afinal de contas, a prolongação de uma mentira. Quer a mentira projectada no grande ecrã que nos faz acreditar nessa “verdade fabricada”, quer a mentira do meta-cinema, dos atores ao realizadores, e nesse último ponto, a reforma antecipada que poucos cumprem. Steven Soderbergh é um desses mentirosos compulsivos.

 

logan-lucky-1.jpg

 

Quantas vezes deparamo-nos com as suas promessas de afastamento da sétima arte, e quantas vezes o vemos a desistir desse próprio refúgio – se não for claro, o cinema como o refúgio afectivo de muitos. Pois bem, o “sobredotado” do cinema regressa e, desta feita, com uma pequena piscadela à sua carreira diversificada, onde o autoral encontra-se na sua anonimidade. É tarefa árdua reconhecer e identificar um filme de Soderbergh, o “salta-pocinhas” de géneros e estilos que avança agora num “mundo” tão bem à sua medida, aquela faceta que parece ter perdido na exploração do star system na sua trilogia Ocean’s. Aliás Logan Lucky é um anti-Ocean’s, o oposto do brilho de estúdio dos referidos e a sua camuflagem em doses cuidadas num cinema americanamente proletário.

 

MV5BYjZjYTUzMGUtNzY0My00ZGJhLWFiMTItNmE2NWUwYjNiZT

 

Sem querer entrar em discussões clichés, quanto aos seguidores trumpistas, a sua natureza e as implicações no Estado actual da União, Soderbergh conserva o filme de golpe (heist movie) e as tendências criminalmente românticas de um Out of Sigh (Romance Perigoso, 1998), para dar-nos a conhecer um conto de misfits (marginais da sociedade). Em tal contexto misfit, assim por dizer, Logan Lucky recorre à comédia de costumes, a panóplia de personagens de incapacidade social, uma irmandade criminosa que segue na operação de um roubo, um milionário roubo. Já que falávamos em refúgios, o universo de Soderbergh é o único para Channing Tatum, dando espaço à sua criação, fora dos conceitos de sex symbol que Hollywood tem adoptado agressivamente.

 

logan-lucky.png

 

Ele é um corpo na defesa e preservação dos valores redneck, a camada conservadora de uma América tolerante, da música country ao gosto pela militarização, dos rodeos até aos regimentos religiosos. E é com Tatum que encontramos a humanidade num cenário que soaria trocista nas mãos de um dos “suspeitos do costume”, e com essa mesma humanização, a simpatia no espectador, deparamos com o outro leque de personagens. Os mártires de inocência longínqua, os ignorantes de plena confiança e os lesados da forte e desequilibrada capitalização (o que leva para além das alterações urbana e quotidianas de algumas áreas, a criação de “cidades fantasmas”, “afogadas” pela escassa empregabilidade, de outras).

636383142774155205-LL-02020-R.jpg

Obviamente, este contexto social e geográfico, levemente etnográfico, é condensado pela pretensão de Soderbergh em reflectir-se no convencional, ou seja, é um filme de golpe e é nele que se concentram todas as forças. Recorre-se aos tiques deste subgénero, o processo de planeamento como desenvolvimento narrativo e o assalto como o grande climax, para depois esbarrarmos, previsivelmente, na anatomia deste mesmo golpe, o tremendo plot twist. Tudo em concordância com a moralidade disfarçada de vingança social e das personagens descartáveis, alicerces da própria agenda (o que faz Hilary Swank aqui torna-se no grande mistério).

thumb_C14726A2-92EB-43C6-8B60-EB054C0239B5.jpg

No final, brinda-se, literalmente e metaforicamente a Soderbergh num mais um regresso ao cinema, porém, um retorno agora aclamado com a maior das normalidades, o falado anonimato que se entende por rotina cinematográfica. Mesmo simpatizarmos com um Daniel Craig a implorar por ovos cozidos, Lucky Logan não é de todo um filme sortudo.

 

Real.: Steven Soderbergh / Int.: Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig, Riley Keough, Hilary Swank, Seth MacFarlane, Katie Holmes

 

01SODERBERGHJP-master768.jpg

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 10:49
link do post | comentar | partilhar

6.9.17

MV5BMjA4NzU2ODA5OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTk1ODkwMzI@._

Juventude incontrolável!

 

Facilmente o identificamos como um Stand By Me - Conta Comigo disfarçado, mas fora isso, este Super Dark Times é a típica exibição do melhor e do pior do estatuto de "primeira longa-metragem". É um coming-to-age sob as promessas do macabro, ou é por esse indicio que a atmosfera se adensa, por entre jogos visuais e pequenas provocações lançadas de rompante ao espectador. Jogos visuais? Sim, não esperávamos outra coisa de Kevin Phillips, que após a experimentação em curtas, avança de confiantemente para esta sua nova etapa.  Tendo trabalhado diversas vezes no departamento de fotografia de inúmeras curtas-metragens, é evidente a sua linguagem estética, enquanto tenta emparelhá-la numa narrativa com mais "olhos que barriga".

superdarktimes-h_2017.jpg

Um "pequeno" crime entre amigos, jovens que enfrentam as adversidades da puberdade, leva-os a um turbilhão de violência, um fascínio por si levado como brisa através dos easters eggs de época (visto o filme ser centrado nos anos 90 somos confrontados com o boom dos videojogos ultra-violentos "que jogo é este?"), das paranóias colmatadas por estas personagens, em certo ponto, marginais desta sociedade de rótulos, e da inconsequência destes pensamentos reféns da imperatividade sexual. Mas todo este episódio que tão bem aludiria o Massacre de Columbine, é fragmentado pela inexperiência de Phillips em acertar no tom narrativo, em alargar os horizontes das suas personagens (sem falar da inexactidão do jovem elenco) e atribuir confiantemente coerência ao argumento, dispersado aqui por um prólogo e epílogo demasiado emancipados em simbolismos.

screen-shot-2017-04-19-at-12-36-27-am (1).png

Super Dark Times é então isto: uma promessa que desvanece pela "inexperiência" do seu realizador. Como tal, o desafio foi incumprido, Kevin Phillips não é uma revelação no qual cruzávamos os dedos, nem nada que pareça. É um pretensioso sem o devido rigor.   

 

Filme visualizado na abertura do 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Kevin Phillips / Int.: Owen Campbell, Charlie Tahan, Elizabeth Cappuccino

 

super-dark-times-photo-jpeg.jpg

 

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 04:53
link do post | comentar | partilhar

9.8.17

Vida de uma Mulher, A.jpg

A lei da vida!

 

Tal como acontecera com o anterior La Loi du Marché (A Lei do Mercado) [ler crítica], Stéphane Brizé centra-se num foco inicial, uma mensagem quase pedagógica para que no fim entre num sistema de simbolismos à deriva. Em A Lei do Mercado, Vincent Lindon compunha com humanidade um desempregado em busca, não só da sua sobrevivência, mas do orgulho proletariado, por vezes esquecido num mundo cada vez mais dependente da sombra capitalista e dos avanços tecnológicos alicerçados no tão chamado mercado. Aqui temos Judith Chemla, que se apropria da personagem de Jeanne nesta adaptação de um livro de Guy de Maupassant, um dos mais incontornáveis romancistas franceses. Ela é um "pássaro enclausurado" em prol do seu impotente estatuto numa sociedade patriarcal e dito masculina do século XIX.

 

f84a647102a46b4c3fc72d05afdb94b4.jpg

 

Esta personagem de Chemla está assim muito próxima à desempenhada por Lindon: ambos são seres encurralados pelos tempos que não lhe correspondem, pelas sociedades que teimam em rebaixá-los, em torná-los menos que seres humanos, números, no caso da Lei do Mercado, um propósito no caso deste Une Vie. E nesse sentido, é no interesse de assistir um retrato de poucas palavras de uma mulher iludida, aquele espectro vitimado do seu redor. Jovem dotada de felicidade, sob as ordens e visão omnipresente do seu progenitor, em breve, convertendo-se, numa mulher de casa, refém de um amor que depressa evolui para à ordens de um marido dominante: "quem manda nesta casa sou eu". Jeanne torna-se então, em matéria fílmica, não uma personagem, mas um retrato bifurcado do anterior passado, do presente e do futuro, a condição da mulher, longe dos traços definidos das classes sociais (para não cairmos na história do "coitadinho" dos ricos e a sua "monotonia").

 

judith-chemla-dans-une-vie-de-stephane-brize-1_574

 

Assim sendo, Stéphane Brizé transforma esta vida feminina numa outra Lei do Mercado, a exposição dos seus traços comunicativos e narrativos em prol de uma mensagem que facilmente se esgota na sua representação. É com a chegada de outro obstáculos social, a "viuvez" que se instala na nossa Jeanne, que o filme atravessa uma espécie de impasse descritivo. Se anteriormente Une Vie era composto de silêncios e elipses agachadas entre flashbacks discretos, agora é tornado num retrato de martirologia, um erro que já fora cometido a meio gás no já referido A Lei do Mercado, aquele sofrimento que se torna um espectáculo redutível. Constantemente, em cenas seguintes, Jeanne observa o Oceano, recordando dos poucos momentos da sua felicidade, mantendo o saudosismo e as saudades por uma vida que lhe passou completamente ao lado.

 

slide_avida3-800x555.png

 

Se é bem verdade que o espectador não necessitava de algo concreto - basta sentir, o não-realismo, mas o bressoniano estilo de Brizé - Une Vie é um filme, acima de tudo, que se assume numa voluntaria fachada de requinte, ao invés de um requinte de produto.   

 

Real.: Stéphane Brizé / Int.: Judith Chemla, Jean-Pierre Darroussin, Yolande Moreau

 

Une-vie-de-Stephane-Brize-Como-inaugurar-un-festiv

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 19:55
link do post | comentar | partilhar

Annabelle - A Criação do Mal.jpg

A criação de um êxito de terror!

 

A popularidade desta boneca amaldiçoada em The Conjuring [ler crítica] levou-a a bordo num franchise próprio. Aí, Annabelle, anteriormente reduzido a adereço secundário converte-se no centro de uma artimanha de jump scares e provocações satânicas num malfadado filme de 2014 [ler crítica], sendo que uma sequela / prequela desse mesmo fenómeno foi visto com alguma desconfiança, principalmente com a vinda de notícias de um "Universo Partilhado". As brisas positivas chegaram com a entrada de David F. Sandberg na cadeira de realização, o sueco que havia demonstrado perícia em trabalhar a luz e a escuridão na sua curta, e mais tarde convertida a longa, Lights Out [ler crítica]. Se é bem verdade que este Creation supera aos pontos os acidentes cometidos pelo anterior Annabelle, é também verdade que se trata de mais um caso de um prolongado síndrome nas grandes produções de terror. Mas vamos por partes.

 

Screen-Shot-2017-04-02-at-145901.jpg

 

Annabelle: Creation recorre às típicas camadas do old dark house, as assombrações como ponto de criação para um dispositivo narrativo que mais tarde ou mais cedo assemelhará a um “comboio-fantasma”. Mas é logo nesta declaração a um subgénero tão antigo, que este segundo capítulo arrecada o seu primeiro ponto favorável. Quando deparamos com uma visita guiada pela casa, esse cenário que nos acompanhará ao longo do filme, somos induzidos por uma câmara que topografa espacialmente esse imóvel-décor. Assim, o espectador consegue ter uma visualização mental de onde encontra-se cada assoalhada, cada compartimento, cada quarto escuro e proibido, isto, acima da “cegueira” cometida no primeiro Annabelle, onde encarávamos uma protagonista correndo desalmadamente por “sabe-se lá onde”. As audiências são assim, visitantes em plena descoberta do espaço.

 

Annabelle-Creation-Poster-Cropped.jpeg

 

Apresentado o espaço, personagens e subenredos, seguimos então para os jump scares, pelos sustos que saltitam e pelas personagens que se comportam como verdadeiras cobaias do medo. Sandberg é dotado na sua inclusão da escuridão, o jogo de luzes e sombras que salienta a sua dose de terror atmosférico - e mais, notável conhecedor do chamado “terror invisível” que tão bem Jacques Torneur usufruiu nas suas incursões do fantástico. Aqui, a boneca é um acessório máximo dessa … sugestão.

Annabelle-2-Exclusive.jpg

 

Contudo, o carris oleado e devidamente meticuloso da sua proposta, depressa descarrila e é então que entramos no referido “síndrome” (que contagiou todas as produções de James Wan): o terceiro ato, essa apropriação do caos, literalmente falando. Annabellle: Creation esgota a sua porção de sustos e truques e cede ao desespero. É tudo ou nada, o espectador habituado à construção desta atmosfera depressa se vê encurralado numa rodopiante perseguição sobrenatural. Há que fugir aos demónios que já não se dão ao trabalho de “brincar connosco”, ao invés disso, é a dependência do CGI (esse maldito “parasita” do género), a música que denuncia os "surpreendentes" sustos e do Universo Partilhado que actualmente se insere. O resultado, um final com um cameo “especial” (a verdadeira Annabelle, essa boneca de pano, faz a sua, por fim, aparição), que nada acrescenta e com um sentido muito, mas muito duvidoso.

 

annabelle-creation-full-new-trailer.jpg

 

Annabelle: Creation, uma sequela/prequela que supera o seu antecessor, reúne o que de melhor e de pior se faz no chamado “terror de estúdio”. Quanto a isso, há que reconhecer o talento por detrás de Sandberg, nele sim, encontramos um certo vinculo perdido no género.

 

Real.: David F. Sandberg / Int.: Stephanie Sigman, Miranda Otto, Lulu Wilson, Anthony LaPaglia

 

annabelle-creation-trailer.jpg

 

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:59
link do post | comentar | partilhar

1.8.17

Baby Driver - Alta Velocidade.jpg

Wright … com ritmo!

 

Edgar Wright coloca a sua playlist à nossa disposição neste pseudo-heist arrancado em mudança 5. A introdução a este mundo criminal revestido na fantasia vendida de um GTA (referindo um dos ponto-auge da veneração do crime e as suas inconsequências), faz-se de um jeito previsível, até porque começamos com um assalto e assim sequencialmente, uma fuga. Por vias de diegese musical, ouvimos The Jon Spencer Blues Explosion e os seus The Bellbottoms, o ritmo excede cada vez mais, a edição torna-se num organismo por via da acção, numa perseguição automobilística exacta que faz envergonhar qualquer capítulo de uma saga "veloz e feroz". Sim, é um pequeno pedaço de acção a culminar numa certa veia da recta final dos anos 60 e 70, na explosão dos policiais com grande aposta na arte dos stunts automobilísticos. E se orquestrar uma perseguição no grande ecrã é uma arte, porque não incluir na galeria estes primeiros minutos de adrenalina Baby Driver?

 

C6bQXFYU4AAug6k.jpg

 

Contudo, evadimos por momentos a questão das questões, regressamos a terra firme e contemplamos a mundania destas personagens. Curiosamente este Baby (Ansel Elgort) não é uma personagem, é uma justificação para a musicalidade do filme. Nada contra, mas é nele que somos encaminhados para os lugares-comuns, à tragédia familiar em cenários vistos e revistos por vias de flashbacks ou do romance que se instala como uma "força maior", sugestivamente terminada como um falso-Bonnie & Clyde. É tudo espectáculo, e tudo a favor deste conceito hollywoodesco de "fazer as coisas". Baby Driver, pelo lado positivo, assume-se como uma tímida panóplia de nichos pops, de sons libertados em nome da nostalgia e das inúmeras referências cinematográficas que percorrem por enésimas rotações por minuto.

 

babydriver-xlarge_trans_NvBQzQNjv4Bqeo_i_u9APj8Ruo

 

Apesar da sua corriqueira forma, das más decisões que levam a lugares não solicitados e atores como Jamie Foxx e Kevin Spacey a desempenhar os rótulos etiquetados nas suas costuras, este é um filme dirigido com algum coração e sim … com ritmo que baste para nos transportar descontraidamente para a sua postura "live and let die". Será que no meio disto tudo, Edgar Wright é um Tarantino para geeks? Evitando a questão, que não é a questão das questões, refuto, apesar ser um dos seus trabalhos mais fracos, Baby Driver encara com entusiasmo e ingenuidade o cinema como um veiculo de emoções.  

 

"He's a looney. Just like his tunes."

 

Real.: Edgar Wright / Int.: Ansel Elgort, Jon Bernthal, Jon Hamm, Jamie Foxx, Kevin Spacey, Lily James, Eiza González

 

baby-driver-1200-1200-675-675-crop-000000 (1).jpg

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 18:35
link do post | comentar | partilhar

17.7.17
17.7.17

Carros 3.jpg

Há quem diga que a vida é uma auto-estrada … pois!

 

Ka-chow! A toda a velocidade chegamos à segunda sequela de Cars, aquele que é considerado o lado mais mercantil da Pixar, tentando regressar à estrada após ter sofrido um "pequeno" acidente pelo caminho. Enquanto o estúdio tenta corrigir-se dos erros tomados no anterior, a megalomania e o espaço de antena exagerado para um dos secundários (quando não percebem que com pequena doses tudo torna-se mais que saudável), este terceiro filme sobre carros falantes aposta na veia emocional que todas as animações parecem ter contraído até então.

 

cars-3.jpg

 

Por isso, colocando tudo em "pratos-limpo", este Cars 3 nada diferencia das enésimas produções hoje lançadas, qualquer que seja o estúdio por detrás, é o amontoado de clichés e lugares-comuns requeridos num enredo de previsibilidade. Porém, como se trata de uma resolução, um efeito de compensação e ao mesmo tempo uma afirmação do poder económico da Pixar (é preciso vender merchandising), digamos que este algoritmo 3 é um bon voyage das memórias motivadoras alicerçadas a um Rocky e suas sequelas. Depois da historia do "retorno triunfal aos ringues", neste caso "pista", somos presenteados com o "legado". Restringindo ao vocabulário da saga pugilista de Stallone, deparamos com uma espécie de Creed [ler crítica], a passagem do testemunho, a herança a servir de fim a um ciclo.

 

cars-3-880x400.jpg

 

Nesse sentido, é assim fortalecido o lado fabulista da animação, as cadências emocionais que, em tempos, poderiam ser bem sucedidas e sacrifica-se o humor corriqueiro anexado a comic reliefs de qualquer espécie (damos graças por isso). O que torna este Cars 3 numa curiosidade cinéfila é a pequena homenagem a um dos actores que tanto nos deixa saudades e cujo o início, o filme de 2006, convertia-se na última vez em que a sua voz cansada, e de certa forma sábia, foi ouvida. Sim, refiro-me a Paul Newman, aqui replicado para seguir como uma meta-ênfase dramática, a sua encarnação digital no enredo do filme, e o timbre vocal que invoca as recordações, o legado deixado e imortalizado no espectador-cinéfilo. Só é pena que o testamento seja lido num produto tão esquecível como este.

 

Real.: Brian Fee / Int.: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Larry The Cable Guy, Armie Hammer, Nathan Fillion, Tony Shalhoub, Kerry Washington

 

cars-3-lightning-mcqueen-beach-clouds-animation-mo

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:01
link do post | comentar | partilhar

3.7.17

51KFHR5DD4L._SY445_.jpg

As bodas da reanimação!

 

Sem Stuart Gordon mas com Brian Yuzna a auto-promover-se de produtor a realizador, eis a sequela do êxito de 1985 (Re-Animator). Nesta continuação e seguindo a fórmula do seu antecessor, ou seja, como Gordon havia assumido, uma sátira do clássico literário de Mary Shelley (mais do que uma adaptação fiel ao conto de H.P. Lovecraft, o qual serviu de base), The Bride of Re-Animator vai beber da mesma fonte que The Bride of Frankenstein havia bebido em 1935. Por outras palavras, mais que uma sequela, esta é uma reinvenção do material concebido quatro anos antes (encaramos como tal para "fecharmos os olhos" aos extensos buracos narrativos que o ligam ao primeiro filme).

 

bride-of-reanimator-blu-1-620x349.jpg

 

O enredo remete-nos para algum tempo depois do massacre hospital que ditou o desfecho da prequela. Herbert West (novamente interpretado por Jeffrey Combs) e Dr.Cain (Bruce Abbott é também repetente) partem para uma Guerra Civil de um país "sabe-se lá donde" com o intuito de exercer trabalho comunitário. É no centro do conflito que West depara-se com a sua nova inspiração, os desejos de devolver vida são ultrapassados, a nova meta é sim, a criação de vida.

bra2.jpg

Em Bride of Re-Animator existe uma enorme aptidão para referências "frankenstenianas" que o culto gerado por Stuart Gordon, para além disso, este filme é mais propicio para o absurdo que o anteriormente referido. Yuzna sempre declarou-se um fã dos efeitos práticos, do sintético e com isso, da manipulação corporal e das ilimitações duma imaginação macabra e igualmente jubilante. O climax deste The Bride' é tão redutor desse "fascínio" que tende em perder do seu trilho lovecraftiano (chamaremos assim) e lançar-se a uma jornada "spoof" de contornos oscilantes.

 

bride-reanimator.png

Comparando com o original Re-Animator, esta sequela resume-se a uma sombra daquilo que o filme poderia ter sido se restringisse à astúcia perdida, porém, um facto que não podemos negar aqui é a preservação da atmosfera hereditária. A sua aura negra torna-se na sua maior criatividade e tendo em conta que os anos 90 não serão "amáveis" para os recorrentes efeitos práticos, fiquemos então satisfeitos com a mostra aqui adquirida.   

 

Real.: Brian Yuzna / Int.: Jeffrey Combs, Bruce Abbott, Claude Earl Jones, Kathleen Kinmont, David Gale

 

Brider.jpg

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:45
link do post | comentar | partilhar

22.6.17
22.6.17

MV5BYTlhYjk0NjItYjBkNS00NWYwLWFhNTctMDdlZDY5YTcxYz

Traumas adolescentes!

 

A actriz e agora realizadora Tereza Nvotová aposta nos dramas profundos da adolescência para tecer uma primeira longa-metragem. O resultado é um filme sobre os mistérios da essência "teenager", sem com isso orquestrar um retrato colectivo e de exemplaridades, visto que a singularidade reina e, com ela, nasce uma ligação bastante mórbida e incompreensível da flor-da-idade.

 

3-7.jpg

 

Filthy leva-nos a essa atmosfera de jovens e dos seus mundos em parábolas, porém, o sentido trágico cerca a nossa protagonista, já problemática por natureza, impedindo-a de "florescer" numa sociedade reprimida pela "invisibilidade", pela pressão de um futuro estável e pelas tentações cada mais vez mais precoces da chamada actividade sexual. Mas a nossa jovem, bem poderia ser uma qualquer, um exemplo sem rosto e nome a servir de modelo para um elo identitário ou simplesmente etário. Na verdade, há um conflito que a persegue, e uma trama que tenta encontrar um sentido por meio de uma crítica ao redor e não ao individuo central (os adolescentes serão sempre os menos credibilizados consoante as situações), por isso o nosso exemplo tem uma cara e, sim, um nome, chama-se Lena ... e ela tem um segredo.

 

MV5BNDU3ZTA1MzgtMTA4NC00ZGZjLWI3NDgtMDYzOTcxZmI4ZD

 

Nvotová consegue por alguns momentos uma sensibilidade de cortar-a-faca ao propósitos emocionais da protagonista, aos silêncios constrangedores que por vezes opta, pelo seu percurso dificultado pelo próprio didactismo. Sim, ela invoca ocasionalmente essa compaixão, esse reconhecimento, mas há ausência ... a falta de ir mais longe do que nos entregar em mãos uma anoréctica narrativa sem transgressividade, nem a rebeldia simbiótica de um adolescente para com as convenções estabelecidas. Por outras palavras, ficamos com a sensação de Filthy se contentar com o modelo de realismo formal, pelas palavras não ditas e pela resolução de conflitos facilitados para agendar-se num existencialismo de "fogo-de-artifício".

 

MV5BNzQ2ODg0OTItZDA4ZS00OGFkLTgzODUtMzlmZjExMWM3OG

 

Eis um filme que vale pela tentativa, pela entrada na liga das longas-metragens, e pela ausência de ambição em entregar-nos algo único, ou personalizado. Fiquemos então com os desempenhos, pela força "invisível" da jovem Dominika Zeleníková que nos conduz a esta meia jornada.

 

Filme visualizado no 13º FEST: Festival Novos Realizadores I Novo Cinema

 

Real.: Tereza Nvotová / Int.: Dominika Zeleníková, Anna Rakovska, Róbert Jakab

 

MV5BMDYxNmExYTctMTI2My00OTlmLWFlMjAtNmJhYjJjZDc4MT

 

 

 

5/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 09:23
link do post | comentar | partilhar

24.5.17

MV5BMTg5NjY3NDYxMl5BMl5BanBnXkFtZTgwMjI5ODgyMjI@._

Os Rituais da Guerra dos Sexos!

 

O que realmente falta a este novo cinema americano, é a sua destreza na provocação, é a escapatória dos moldes implantados pela indústria, mesmo que, no caso de Sofia Coppola, ela represente uma espécie de outsider do badalado cinema mercantil. The Beguilled é a quinta longa-metragem da filha do lendário realizador de The Godfather e Apocalypse Now, uma aventurosa que tem vindo a emancipar-se da sombra do seu pai e desta forma difundir a sua voz no legado cinematográfico de Hollywood.

 

MV5BNmMxMDcwMzEtZGFiOS00Y2JiLTlmYjItODIxOTM3ZTE1ZG


A conquista desta feita é um filme de 1971 de Don Siegel, protagonizado por Clint Eastwood, decorrida numa América mergulhada na sua Guerra Civil, onde um soldado da união, ferido, é acolhido e tratado por uma jovem rapariga sulista numa escola feminina. A referida obra espelhava uma guerra que se travava a metros do cenário da acção, uma casa onde se debatia dois lados ideológicos, assim como dois géneros em plena dominância. Contudo, bem verdade, que a versão de 1971 adquirir um rígido tom masculino, um filme sobre uma violência invisível que nos levaria, a certo ponto, à demonização da própria mulher. É aí que Sofia Coppola tem as armas perfeitas para expor a sua visão enquanto mulher. Notavelmente verificamos essa perspectiva por uma câmera focada nesta comunidade de “amazonas”, mulheres restringidas ao seu refúgio enquanto homens combatem as suas políticas. Averiguamos que o sexo masculino, por mais diferente seja a farda, continua, no seu fundo, como um ser de ambições dominantes, um verdadeiro elemento alfa em construção. Os dois filmes dialogam um com o outro nesse sentido. Porém, a versão de Coppola sai a perder num determinado ponto, é demasiado anorético.

 

the-beguiled.png


Uma hora e meia é pura velocidade, o espectador nunca consegue ter a noção de espaço nem de tempo do filme, nunca chegamos a conhecer verdadeiramente estas personagens (e aqui não se trata de mistério, é mesmo falta de ligação) e nota-se, verdadeiramente, um senso cosido do politicamente correcto. É um filme inofensivo que se quer fazer grande, mas que esquece do ainda mais óbvio, de emanar a sua própria ideologia, a capacidade de estabelecer um clima de conflito, quer interior, quer exterior. Sofia Coppola torna-se incapaz de tal coisa e o mesmo se aplica à sua relação com a violência. Os actos cometidos poderiam ter o mesmo conteúdo que uma banal conversa de café, não se vive, não se sente, não se respira, é pura automatização (ainda há quem acuse de Tarantino ter tornado tal num gesto confundível a quotidianos).

 

les-proies-photo-elle-fanning-978386.jpg

 

Contudo, Coppola significa estética, a fotografia trabalhada e agradavelmente primitiva, a luz das velas que aquecem a mais densa escuridão (The Beguiled encontra-se no mesmo território que um Barry Lyndon), os bosques que não são mais que fronteiras para uma Guerra a acontecer longe, os canhões ouvem-se constantemente. Nesse sentido, entramos noutro atributo de The Beguiled, o som. O eco que intrusa nos diálogos das personagens, assim como os passos ocasionais que nos atribuem um plano sugestivo de espaço sonoro (pena que ela não consolide isso com a narrativa). The Beguiled é isso mesmo, uma produção construída sob adereços, sob cores e ruídos, mas o vazio acaba por reinar nesta guerra entre sexos. É pena, porque o filme de ’71 precisava do seu sexo oposto, com igual capacidade para transgredir. Longe do memorável.

 

Filme visualizado no 70o Festival de Cannes

 

Real.: Sofia Coppola / Int.: Kirsten Dunst, Nicole Kidman, Elle Fanning, Colin Farrell

 

beguiled-castlooks.png

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:27
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

18.5.17

transferir.jpg

Um toque feminino …

 

Em tempos de guerra, os homens deixam as suas casas para combater. Por sua vez as mulheres residem nesses "lares destroçados", as esperadas donas de casa, mulheres de armas que sustentam as respetivas sociedades em declínio. Falamos em plena Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), é certo, onde a profissão de armas era vista como um universo totalmente masculino, e as mulheres ao cumprirem as "obrigações" sociais estabelecidas naqueles tempos negros, contribuíam indiretamente nesse mesmo cenário bélico. Elas cuidavam do património deixado, ou noutros casos, operavam no fabrico de munição (para além do auxilio no sector de enfermagem militar).

TheirFinest.jpg

Mas estas almas teriam que ser motivadas, e nada melhor que isso do que o Cinema (cumprindo as ideias de Lenin sobre o uso da Sétima Arte como veículo de propaganda ou difusor de uma mensagem), nestes períodos de grande aflição, a indústria virou-se completamente para o sexo feminino, revendo na importância de contar histórias sob esse signo, direta ou indiretamente. Hollywood fazia-o bem, o Reino Unido nem por isso, até porque aqui não vamos comparar indústrias, e muitos menos países e as suas posições na Segunda Grande Guerra. O Reino Unido, sobretudo Londres era constantemente bombardeados por força aérea inimiga. Uma capital reduzida aos escombros, um quotidiano que resistia diariamente para sobreviver e o Cinema que tentaria encontrar o seu propósito entre a população.

000dec26-800.jpg

Their Finest é esse retrato, o novo trabalho da realizadora Lone Scherfig (An Education) que empesta nesta produção dita BBC um certo olhar feminino e subversiva crítica a uma indústria dominada por um género e consenso. Infelizmente, nada disso alertou o filme a tempo de evitar os tão batidos lugares-comuns da sua sigla, assim como apostar em protagonistas fortes para conduzi-las ao poço do romance "sparkiano" (ou a "pieguice" como diz ritualmente certa personagem). Gemma Arterton é essa vítima, que dificilmente encontra carisma para enfrentar os mais temidos rivais (Sam Claffin e Bill Nighy), o primeiro ambienta o filme na camada pretendida e o segundo aposta com charme o seu personagem (o mais sólido do leque).

 

TFHAH_D04_01030.jpg

 

Feitas as contas, Their Finest é um ensaio morno que sobretudo criará empatia pela sua meta-história, pelas "farpas", discretas, lançadas pela realizadora à indústria que tanto abraça, e por um leve amor ao cinema, enquanto evento social de carácter humanitário. Mas nada a impediu de se tornar em mais uma gota no oceano. Frankly, my dear, I don't give a damn...

 

Real.: Lone Scherfig / Int.: Gemma Arterton, Sam Claffin, Bill Nighy, Jack Huston, Eddie Marsan, Jeremy Irons, Henry Goodman

 

Their-Finest-1-x650.jpg

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 01:03
link do post | comentar | partilhar

9.5.17

Alien Covenant.jpg

Haja "peito" para isto tudo!

 

O regresso dos xenomorfos ao Cinema após a decepção generalizada que foi Prometheus (das poucas vezes que Ridley Scott teve uma ideia) faz-me recordar uma certa frase de J.K. Simmons no filme Whiplash, de Damien Chazelle: "There are no two words in the English language more harmful than "good job"" (não há palavras mais prejudiciais que 'bom trabalho'). Tudo isto para confirmar o que muitos gostariam de ouvir. Sim, Alien: Covenant é competente … e daí? Que medo é esse de sair dos aceites parâmetros gustativos do público e o de nunca conseguir transgredir a sua forma?

 

costas.jpeg

 

Ridley Scott já não toma riscos, tudo é viável para rentabilização. Nesse aspecto, basta seguir essas tendências que se encontram tão penetradas na indústria actual. Não é novidade nenhuma que Alien Blade Runner decorrem no mesmo universo, como também não é spoiler afirmar que se encontra a ser preparado uma vastidão de crossovers a esta nova mina. Covenant vem polvilhar essa certeza, com impasses à matança esperada por reflexões “dickeanas” da inteligência artificial e da condição humana. É Blade Runner sim, disfarçado de “lobo”, neste caso, de xenomorfo para consolidar as duas legiões de fãs para uma massa de respeito. A sequência inicial é a prova disso, ligando não só estes dois filmes incontornáveis na carreira de Scott, mas também deixando a ideia de que Prometheus não foi um tiro no escuro. Esta dita “filosofia” tão emprestada de Philip K. Dick leva-nos certamente a caminhos que percorremos com agrado, não muitos profundos nem complexos, mas sim, provocadores e incentivantes.

 

xnew-alien-covenant-images-what-they-tell-us-about

 

O resto … bem o resto … vem por acréscimo. Eis o enésimo episódio de parasitas, planetas remotos (mas mortíferos) e um passageiro indesejável que tão bem conhecemos. O filme é sobretudo esterilizado e limpo, com um gore imenso e igualmente discreto, e por fim os lugares-comuns novamente a persistirem (Ellen Ripley era única, pelos vistos), com direito ao mais falhado dos twists finais das recentes grandes produções. Todavia, o mais irritante disto tudo são mesmos os clichés voluntariamente invocados, uma Lei de Murphy ao quadrado seguindo as instruções da famosa frase de Edmund Burke: “The only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing” (a única coisa que faz o mal triunfar é quando homens bens nada o façam para impedir), neste caso, basta um bando de incompetentes.

 

Alien-Covenant-Trailer-Breakdown-59.jpg

 

Alien converteu-se assim num franchise reavivado, pronto a ser explorado, e a ser sodomizado pelo sapateiro que se tornou este Ridley Scott. Sim, a saga respira bem, e nem sempre isso é uma coisa boa.

 

Real.: Ridley Scott / Int.: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Carmen Ejogo, Danny McBride, Demián Bichir, Callie Hernandez

 

xalien-covenant-fill.jpg.pagespeed.ic.rPyCbS72Kx.j

 

 

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 18:53
link do post | comentar | partilhar

5.5.17

2937791.jpg

 

Só pode ser praxe!

 

Um filme português sobre praxes universitárias? Há certamente um fantasma entre nós, um espectro de uma tragédia que persegue esta contracultura universitária e do seu referido ritual de iniciação como de aprovação. Contudo, esse mesmo “testemunho” poderá dormir descansado, até porque Miguel Clara Vasconcelos não está aqui para fazer uma afronta a tais ciclos “tribais” nem um tributo ao infortúnio evento, realçado pela opinião pública e pelos medias.

 

Encontro Silencioso é uma obra sobre silêncios, e é nesses silêncios que encontramos a grande incapacidade do seu realizador, a sua passividade e a sua mudez. Se a intenção não era fazer uma crítica, muito menos será em atribuir uma personalidade distinta a esta “sociedade secreta”. O que aconteceu foi exactamente o previsto de muitas das novas gerações de realizadores portugueses, a vontade de integrar o mesmo espaço que os demais, os veteranos e inspirações, ao invés de encontrar a sua divergente e particular voz.

 

Nesse aspecto, Miguel Clara Vasconcelos é um mero estudante, um aluno aplicado subjugado a uma intensa praxe, o que resultou na moldagem de um ser homónimo, fascinado pelas coisas que outros amaram e que continuarão a amar. A vontade de abraçar a mise-en-scène como o núcleo essencial da cinematografia, expor a teatralidade, não somente nos desempenhos, mas na forma como constrói e desconstrói esse bando de ritualidades, e por fim, perder-se em espaços temporais, silêncios intermédios e na procura vazia pelo igual vazio.

 

Tínhamos tema? Tínhamos, mas o realizador, que passa agora do documental para a ficção, apenas o “agarrou” com uma luva de latex, fugindo da toxicidade e da sujidade que porventura poderia remexer. Pena que tudo seja resumido a isto, um local remoto apenas presenciado por pessoas remotas, sem ligações com o exterior e um realizador com provas de talento, mas sem a devida integração interior. Este foi o filme da praxe, sendo assim, que venha então uma verdadeira mostra de capacidades.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Miguel Clara Vasconcelos / Int.: Ágata Pinho, Alexander David

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:01
link do post | comentar | partilhar

24.4.17

Guardiões da Galaxia Vol 2.jpg

O regresso dos desajeitados!

 

O Mundo poderia viver sem uma sequela de Guardiões da Galáxia? Claro que podia, mas digamos que a sua existência não nos levará ao Armagedão. Porém, o que era descontraído no primeiro filme, torna-se forçado e demasiado confiante no segundo. É a vida! São as leis de mercado e sobretudo as regras das “sequelites”. A proposta tem que ser maior, mais ambiciosa, e quantitativamente aliciante, o resto é jogar no seguro e fazer “rolar” a “magia” dos encantadores números do box-office.

 

guardios-galaxia-vol-2-teaser-2016.jpg

 

Sim, Guardiões da Galáxia é a “grandiosa” aposta para as audiências pré-estivais, aquele sci-fi humorado e colorido, recheado de easter eggs que vão do kitsch ao vintage e vice-versa, tendo como ingrediente extra, um recanto perfeito para famílias. Trata-se do regresso dos cinco “misfits”, agora consolidados a uma espécie de comunidade “familiar”, uma equipa de mercenários que protege a Galáxia por um bom preço. As personagens do anterior estão lá, conservadas em âmbar para que os espectadores não notem divergências e, pelo facto, são eles que nos trazem as boas novas desta continuação. A começar pelo wrestler David Bautista no papel do atípico Drax, a personagem que lhe mais condiz, e o verdadeiro comic relief de um universo cheio de comic reliefs. Nesse aspecto, temos aqui o perfeito clown intergaláctico. Pelo meio encontraremos guaxinins falantes, um par de “pombinhos” em constante vaivém e árvores “fofas”, esta última, uma aposta mais forte ao mercado do merchadising do que propriamente em trazer algo de útil a um filme com milhentas cenas inúteis.

 

cena-de-trailer-de-guardioes-da-galaxia-vol-2-divu

 

Será que vemos em Guardiões da Galáxia os ensinamentos de George Lucas, o cinema como uma tela branca, o facilitismo do CGI e, pior, a prolongação das sequências descartáveis como provas de manuseamento de tal tecnologia? Pois, se por eventualidade editássemos o nosso Volume 2, descartando toda essa frente de momentos slapstick e dignamente paródias, as runnings gags que persistem e perduram, as correrias que dão uso à palete de cores e à infinidade do CGI, e como não poderia deixar de ser, os easter eggs anexados a cameos, nomes, referências e ganchos para futuros capítulos. Se tirássemos isso tudo, Guardiões da Galáxia estaria despido a pouco mais de uma hora e meia de duração (ao invés das duas horas), integrado a um enredo corriqueiro de vilões com desejo de dominar o Mundo e as moralidades de sempre na Casa do Rato Mickey (a Disney tem um verdadeiro “daddy issue”).

 

573779.jpg

 

É um blockbuster de bons momentos, disso não há dúvida, sobretudo no jogo versátil de imagem com a musicalidade, mas é de um desequilíbrio total, um confronto entre a libertinagem de James Gunn frente a um megalómano estúdio que tem tudo para sufocar liberdades criativas. Pode ser cliché afirmar isto, mas cá vai. Não há frescura como o primeiro!

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Michael Rooker, Sylvester Stallone, Kurt Russell

 

transferir.jpg

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 22:20
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

20.4.17

ce3ceafcccc1c41d7b55dbc11d38c5b3.jpg

Os Demónios que nos livre!


Inicialmente tido como uma terceira parte de Demons, a saga demoníaca levado a cabo por Dario Argento e Lamberto Bava (filho do cineasta Mario Bava), Michele Soavi declarou independência e o transformou em algo autónomo, mas ... não devidamente emancipado do estilo dos seus "padrinhos".

 

348178_full.jpg

 

La Chiesa (The Church) leva-nos ao tormento das Idades das Trevas, por entre templários e inquisições de desfechos sangrentos. São as cruzadas, trazendo consigo o derrame de muitos "hereges", cúmplices das forças demoníacas que sempre ameaçaram o espírito humano. No seio do massacre submetido ao nome divino, é erguido um monumento, um edifício que pudesse consagrar o amor terreno por Deus e que aprisionasse qualquer forma inglória. Como tal é construído uma Catedral, um símbolo vitorioso. Anos passaram, até chegarmos aos tempos actuais, onde a chegada de um bibliotecário faz adivinhar tamanha tragédia, um desconhecido que se deixará vencer pelos espiritos torturados e pelas entidades que se escondem nas sombras, no mais remoto lugar daquela "prisão" de pedra sobre pedra.

 

71.jpg

 

Em La Chiesa, devido ao seu pretensiosismo aguçado e quase arquitectónico, o fracasso é um iminente destino, agravado pela incapacidade de construção de personagens ou na condução de um argumento escrito e transcrito e assim crucificado na falta de coerência. Se tudo está destinado ao mais martirológio dos falhanços, deve-se salientar a forma com que Michele Soavi manobra-se pelo estilo vincadamente série B, pela redução aos lugares-comuns e pelo humor involuntário refeito a partir da não exactidão do enredo. A verdade é que Soavi aproveita a cenografia gótica, a atmosfera por vezes sacrificada e a via sacra como inspiração para este modelo de pesadelo cinematográfico.

 

vlcsnap-2010-05-08-04h42m04s60.png

 

No terceiro acto, La Chiesa transforma-se num atento filme de cerco (a invocação da saga não assumida), onde "bonecos" (ao invés de personagens) são subjugados a uma orgia de tentações infernais, heresias que se enquadram como formas demoníacas. É assim que recomeça o sangue, a "nova" cruzada, agora invertida e altamente comunicativa com o veio sexual e por vezes, profano. Sim, tal como uma descida danteana, este é um filme recheado de luxuria, de trevas que embicam para os sonhos molhados dos nossos negados temores e medos. É o Inferno sedutor e indesejado descrito nas escrituras e na memória humana quando esta proclama os feitos cometidos por Deus e a tentação empestada pela Besta.

 

C1-EfQPWIAA9TVM.jpg

 

"Não há Deus sem Diabo", diz o bispo (Feodor Chaliapin Jr.), espalhando o medo pelo desconhecido que os envolve. Michele Soavi conseguiu no meio do caos um pesadelo, e por pouco dava-nos a sua obra-prima (dentro dos parametros mimetizados do legado Bava / Argento). Mas grandes monumentos tendem em cair e La Chiesa cede abruptamente.


Real.: Michele Soavi / Int.: Hugh Quarshie, Tomas Arana, Feodor Chaliapin Jr., Barbara Cupisti, Asia Argento

 

00240504.JPG

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 02:21
link do post | comentar | partilhar

19.4.17

8f14a28e5ed10b9a40e8795bc4399d014e38e2e7.jpg

Esta terra é nossa!

 

Se tem ou não recursos para o fazer, isso são questões que divergem da capacidade de fazer. A Ilha dos Cães, o filme que tem sido equivocamente publicitado como o último do actor Nicolau Breyner, é uma tentativa infeliz no campo do cinema de género português, mas que não deve ser ignorado de todo.

 

67a9d4_f305cfd5411045b79fde52e8d4c7d4c0-mv2.jpg

 

Contado a três tempos e com base criativa na obra literária do escritor angolano Henrique AbranchesOs Senhores do Areal - o realizador Jorge António (O Miradouro da Lua, a 1ª co-produção luso-angolana) constrói uma fita que se complementa a preencher o espaço da série B, do subestimado cinema fantástico pelos demais, e tendo como foco uma memória colonial que entra em colisão com diferentes etapas temporais. É o esclavagismo a perpetuar o pior do colonialismo, a resistência a servir de avante para ideias opositoras e, por fim, o cenário actual onde os fantasmas de um passado negligenciado parecem coabitar.

 

image.jpg

 

Tudo resulta num filme de boas intenções, mas incompleto no seus objectivos, tal como um cão raivoso que responde ao instinto e não com a exactidão das ordens do seu dono. Para Jorge António, falta sobretudo um aprumo nos diálogos (forçados deve-se salientar), uma liberdade em fugir dos lugares-comuns que assumem impasses (como um romance incutido a três pancadas) e, sobretudo, uma coragem em arriscar, acima do simplesmente agradar ao público-alvo.

 

img_796x560$2017_04_07_18_18_13_50585.jpg

 

Quanto aos efeitos visuais, nomeadamente as tentativas de CGI, perdoamos, até por que sabemos que o tecnicismo advém do financiamento e sem recursos não existem frutos para mais. Contudo, há que referir A Ilha dos Cães está à frente de muitas produções assumidamente mainstream da nossa cinematografia, que com maiores recursos tendem em tratar o espectador como um alarve. Um exercício produtivo!

 

Real.: Jorge António / Int.: Ângelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, Ciomara Morais, João Cabral

 

8855.jpg

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 15:43
link do post | comentar | partilhar

29.3.17
29.3.17

Negação.jpg

O efeito negação!

 

Por vezes também acontece o inesperado, um filme medíocre onde as possibilidades de cinema são limitadas pela linguagem televisiva e no virtuosismo académico, que mesmo assim tem a capacidade de gerar um debate para além do visto na grande tela. Denial (Negação), de Mick Jackson, resume-se a um drama de tribunal que tem como anexo uma história verídica (o que não falta por aí são "histórias verídicas", ou seja, a "oeste" nada de novo, o julgamento de Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), escritora do livro Denying The Holocaust, da editora Penguin Books, acusada de difamação para com o historiador David Irving (Timothy Spall), um negacionista do Holocausto e um dos maiores estudiosos da vida de Adolf Hitler.

 

full.1260.jpg

 

Ao decorrer desta obra, que remexe sem espinhas por entre a sua compostura competente e o elenco de igual adjectivo que faz antever uma boa entrega nesta reconstituição, Denial vai-nos apresentando temas que implodirão como objectivos para uma eventual discussão e reflexão acerca do mundo que assistimos em constante transformação. A ascensão do populismo, com clara ligação aos extremismos, essa propagação, e até que ponto a liberdade de expressão poderá ser abalada, e o quanto abalados poderemos ser em relação à mesma, e por fim, o negocismo como um problema, suavizado por historiadores, como um revisionismo histórico, e por vezes utilizado sob contextos políticos e ideológicos.

 

Rachel-Weisz-Deborah-Lipstadt-Denial-Movie.jpg

 

Temáticas, essas, que ficam para fora da sala, visto que a obra de Mick Jackson "sensivelmente" toca nos pontos, mas a sua agenda possui uma certa tendência ao moralismo panfletário. Em particular, há que realçar uma sequência dispensável à narrativa, decorrida fora dos réus, que comete a pedagógica alusão do Holocausto como um assunto inesquecível e cuja a abordagem é necessária para evitar réplicas imorais. Uma cena com os propósitos de abalar consciências e criar um signo de "males que vem por bem" no nosso século. Será o Holocausto cada vez mais restrito a um símbolo de erro humano, e custe o que custar teremos que relembrar na consciência como uma porta interdita a reentradas?

 

denial-2016-movie-review-rachel-weisz-tom-wilkinso

 

Sim, um filme como este, condenado ao esquecimento e sem o brilho da literal categoria cinematográfica, consiga ser um fósforo por entre uma inflamável "fogueira". Talvez seja os tempos "loucos" que nos fazem requerer modéstias como implantes reflexivos e pensativos do nosso século XXI. Esquece-se o filme, fica-se pelo debate.

 

Filme de abertura do 5º Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Mick Jackson / Int.: Rachel Weisz, Timonthy Spall, Tom Wilkinson, Andrew Scott

 

denial-movie-review-2016-rachel-weisz.jpg

5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:58
link do post | comentar | partilhar

21.3.17

Ornamento e Crime.jpg

O espaço na moldura!

 

Ao ver Ornamento e Crime, a sensação é praticamente idêntica de ter visto The Good German, de Steven Soderbergh, há alguns anos atrás, que tentava a passos citar Casablanca no seu modo produtivo. Temos um cinema tributo que não sai desse mesmo acto, o de forçar um ligação com a memória cinematográfica do espectador.

 

MV5BODU4MjBmZGMtZmIxNi00NWY3LTljNTMtMGNlYjgxNmJlZG

 

O resultado é iminente neste episódio film noir de Rodrigo Areias (que já se tinha aventurado em outro género póstumo, o western em A Estrada de Palha), onde a música colaborativa entre Rita Redshoes e The Legendary Tigerman batem certo numa incursão reservado em termos de personalidade. Ou seja, o que assistimos não é mais do que um mero exercício de reflexão de género, mas o vazio abate perante as referências e lugares-comuns propositados.

 

960full-ornamento-e-crime-screenshot.jpg

 

Porque o film noir morreu há anos, o que resta são os seus embriões, e mesmo apetecível este saudosismo por um subgénero tão característico, sentimo-nos preso a uma peça de museu, com a arte pedagógica de informar e relembrar-nos que em tempos existiu filmes assim. Sem desfazer a contribuição artística por detrás de Ornamento e Crime, desde a fotografia, o som e a capacidade de mimetizar dos seus atores, este é um filme que fascina-nos pela sua invocação, e não pela sua presença. Entre detectives privados, casos infiéis, gangsters, prostitutas e femme fatales, somos corridos a uma pele de cobra, brilhante, esplendorosa à luz natural, mas oco por dentro.

 

6.png

 

Ornamento e Crime é tudo aquilo que esperávamos numa proposta destas, e tal como soa a sua melancólica banda sonora e citando essa letra de cabaret, é caso para dizer que estamos perante num filme "Vodoo", um objecto que respira somente através dos outros. Não era isto que tínhamos em mente quando referimos dinamizar o cinema português.

 

Real.: Rodrigo Areias / Int.: Vítor Correia, Tânia Dinis, Djin Sganzerla, Ângela Marques

 

efc833_04dace99ea8947b990634053599abe50-mv2.png_sr

5/10

publicado por Hugo Gomes às 18:05
link do post | comentar | partilhar

9.3.17

Fundador, O.JPG

O nascimento de um Império!

 

Existirá filme mais glorificador do capitalismo que uma obra sobre as raízes da cadeia de restaurantes McDonalds, e a sua difusão neste mundo fora? Esta ode a um dos temas mais polarizados de qualquer cardápio oral, funciona, como já era de esperar, na mesma e tangível formatização do conceito cinebiográfico. Não no sentido individual. O que está em causa não é a história vivente feito RVCC de um sujeito, mas o paralelismo entre Ray Krok e o seu achado "gastronómico".

 

the-founder-michael-keaton-image.jpg

 

Michael Keaton volta às suas vestes de pretensioso egocêntrico (já tínhamos saudades de The Birdman), um vendedor que encontra num restaurante local a sua hipótese de brilhar numa carreira falhada, e lançar-se assim à tão esperada definição de "Franchiseee". Esse restaurante era McDonalds, sob a gerência dos irmãos McDonalds que inovaram o conceito de "comida-rápida", como a certa altura sublinham a grande prioridade deste invento - hambúrgueres em 30 segundos, ao invés de 30 minutos. Porém, é aqui que o capitalismo demonstra a sua vil faceta, respirando num eterno jogo de "monopólio".

 

TheFounder_TheNewAmericanChurchmpx.jpg

 

The Founder nunca cai no erro de glorificar a manifestação pelo qual McDonalds serve actualmente de símbolo, mesmo que a amoralidade da obra de John Lee Hancock tenha mais percalços do que propósitos, e o receio de denegrir a fundação mais conhecida dos EUA ("a nova igreja da América", como prometia Ray Krok), fale mais alto, estampando a suposta veia crítica na eterna formatização do biopic. E claro, a enésima variação do devoto percurso do herói que o cinema americano tanto adora abordar.

 

5d36d862b8c6cc1dbab132138327d295-the-founder.jpg

 

Mas enfim, Keaton (que merecia a nomeação ao Óscar) é o rei deste filme que servirá como imenso estudo a um movimento sociopolítico do que propriamente Cinema, visto que nessa área tudo é cedido à fórmula industrial, como manda a lei McDonalds.

 

"You know what - contracts are like hearts, they are made to be broken."

 

Real.: John Lee Hancock / Int.: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, Patrick Wilson, Linda Cardellini

 

Founder2.jpg

 

5/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 22:36
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

The Foreigner (2017)

Le Fils de Jean (2016)

Logan Lucky (2017)

Super Dark Times (2017)

Une Vie (2016)

Annabelle: Creation (2017...

Baby Driver (2017)

Cars 3 (2017)

The Bride of Re-Animator ...

Filthy (2017)

últ. comentários
Muito bom o teu blog, Hugo! Continua com o excelen...
Boas biopics são os verdadeiros e honestos retrato...
Boa Tarde; enviei-lhe um email para o seu email. O...
Uma Jóia do Cinema. O Kubrick sempre foi muito sub...
Já tinha visto este trailer e antes de ver fiquei ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO