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9.3.17

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O nascimento de um Império!

 

Existirá filme mais glorificador do capitalismo que uma obra sobre as raízes da cadeia de restaurantes McDonalds, e a sua difusão neste mundo fora? Esta ode a um dos temas mais polarizados de qualquer cardápio oral, funciona, como já era de esperar, na mesma e tangível formatização do conceito cinebiográfico. Não no sentido individual. O que está em causa não é a história vivente feito RVCC de um sujeito, mas o paralelismo entre Ray Krok e o seu achado "gastronómico".

 

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Michael Keaton volta às suas vestes de pretensioso egocêntrico (já tínhamos saudades de The Birdman), um vendedor que encontra num restaurante local a sua hipótese de brilhar numa carreira falhada, e lançar-se assim à tão esperada definição de "Franchiseee". Esse restaurante era McDonalds, sob a gerência dos irmãos McDonalds que inovaram o conceito de "comida-rápida", como a certa altura sublinham a grande prioridade deste invento - hambúrgueres em 30 segundos, ao invés de 30 minutos. Porém, é aqui que o capitalismo demonstra a sua vil faceta, respirando num eterno jogo de "monopólio".

 

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The Founder nunca cai no erro de glorificar a manifestação pelo qual McDonalds serve actualmente de símbolo, mesmo que a amoralidade da obra de John Lee Hancock tenha mais percalços do que propósitos, e o receio de denegrir a fundação mais conhecida dos EUA ("a nova igreja da América", como prometia Ray Krok), fale mais alto, estampando a suposta veia crítica na eterna formatização do biopic. E claro, a enésima variação do devoto percurso do herói que o cinema americano tanto adora abordar.

 

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Mas enfim, Keaton (que merecia a nomeação ao Óscar) é o rei deste filme que servirá como imenso estudo a um movimento sociopolítico do que propriamente Cinema, visto que nessa área tudo é cedido à fórmula industrial, como manda a lei McDonalds.

 

"You know what - contracts are like hearts, they are made to be broken."

 

Real.: John Lee Hancock / Int.: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, Patrick Wilson, Linda Cardellini

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:36
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25.2.17

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Ofuscado pelas sombras das produções maiores!

 

Desde o primeiro momento de The Age of Shadows (A Idade das Sombras), sentimos a grandiloquência da produção, da câmara que anseia libertar-se e "mapear" todo o cenário até ao último canto e recanto, a atmosfera que se adensa e deixa-nos encurralados, até ao tom de conflito que parece evidentemente "explodir". Tudo isto, é evidente só nos primeiros dez minutos, antes da entrada do título que funciona como um pontapé de saída para este thriller de espionagem pretensioso e dotado de rigor histórico.

 

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O que está em causa é mesmo isso, o rigor que não deixa o filme respirar com a sua requerida e devida liberdade. É imperativamente controlado como qualquer criação de laboratório, cronometrado e registado desde o primeiro até ao último momento. A Idade das Sombras fica mais fraco com isso, com um storytelling de estufa e personagens que correm sem o mínimo pingo de motivação. Mas a grande desilusão encontra-se nos créditos. Kim Jee-won assina a obra, um dos nomes mais importantes do cinema sul-coreano actual (responsável por obras impares como The Tale of Two Sisters e do ambíguo moralmente I Saw the Devil), mais aqui encontramos o seu cinema profundamente irreconhecível. O autor saiu-se vencido perante uma produção maior que ele próprio, e uma pretensão de exercer o mais ocidental dos seus filmes, quer em termos narrativos quer até mesmo estilísticos. O episódio cede assim a esta "mornice" autoral, demasiado esquemático, atrapalhado, vazio, embora igualmente belo e profissional.

 

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Pontos altos? O actor Kang-ho Song a converter-se na força motora emocional da intriga e a ambiguidade política que nunca encontra conforto na dita propaganda ideológica. A história de resistência ao Império do Sol Nascente, e a imensas bifurcações de traição e infiltração, convocou A Idade das Sombras para o lugar de candidato sul-coreano aos Óscares de 2016, e, nota-se, diga-se de passagem, o esforço em agradar às audiências "gringas".

 

Filme visualizado no âmbito da 37ª edição do Fantasporto: Festival Internacional de Cinema do Porto

 

Real.: Kim Jee-won / Int.: Byung-hun Lee, Yoo Gong, Kang-ho Song

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 17:30
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17.2.17

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Não se metam com o John Wick, segunda parte!

 

Depois da velha cantiga de "homem de barba rija" que o antecessor possuía (aquela psicologia barata de que um homem não pode nutrir sentimentos por um animal, condenou a simplicidade da acção em um statement a uma fantasia de masculinidade), esta sequela avança num tom despreocupado, mas igualmente estilizado e quase ritualista perante uma subversiva distopia.

 

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Não há que enganar, este é o produto de acção do cinema recente que mais próximo se encontra do fenómeno Matrix (e não é só pelos ajuntamentos de Keanu Reeves e Laurence Fishburne que replicam aqui diálogos de "pílulas", neste caso concreto, decisões). É a manipulação da realidade, traiçoeira à nossa percepção que funcionou como o melhor elemento do primeiro filme, e aqui o trunfo desta sequela de agenda. O submundo de hitmans, altamente organizados por oligarquias e regras sob regras, contratos e até poder monetário próprio, a relevância desta camada no quotidiano que julgávamos ser … simplesmente o "nosso" quotidiano, reflectem, como é figurado numa das sua sequências de acção, na alma deste projecto.

 

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A Reeves é devolvido a sua aura de herói de acção, o protótipo evolutivo da imagem estendida dos anos 90 até à transição do novo século. Este John Wick é o novo Neo, o herói de acção dedicado a uma geração habitualmente pobre nesse registo. Esta "sequelite" serve como um upgrade elegante ao primeiro tiro de 2014, que igualmente não foge das evidentes cuspidas dramaticamente "enfáticas" que tentam atribuir um teor de tragédia a este assassino em saldos em constante "vicio de vingança".

 

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Como continuação, largando as amarras introdutórias, Chapter 2 opera, sem intervalos, num ensaio de pancada que salienta, sobretudo, as mestrias da edição e da coordenação entre cenas. Chad Stahelski, o realizador que ficou, declara amor a Matrix e o legado deixado por esse frenesim cyberpunk dos irmãos Wachowsky no cinema de género (com isto, sem nunca requisitar o "bullet time" e outros maneirismos estilísticos). O tributo é feito na recriação da a sua filosofia de pacotilha, envolvida numa ode à violência hiperactiva e a adrenalinas artificialmente induzidas, assim como referências visuais (Reeves e McShane dialogando na praça, tem tanto de Neo e Oráculo).

 

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Contudo, as menções não terminam aqui, Chapter 2 reserva-nos uma homenagem directa a um dos mais letais e tenebrosos assassinos do Cinema, Django, com a entrada de Franco Nero em cena. Vendo bem as contas, porque não encarar esta nova personagem de Keanu Reeves como um "prodígio" sanguíneo da célebre encarnação de Franco Nero?  

 

"You stabbed the devil in the back. To him this isn't vengeance, this is justice."

 

Real.: Chad Stahelski / Int.: Keanu Reeves, Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Franco Nero, Ruby Rose, John Leguizamo, Laurence Fishburne, Common, Claudia Gerini

 

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publicado por Hugo Gomes às 11:57
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15.2.17

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Será que ainda ecoa o "Lust for Life"?

 

"És um turista no teu próprio passado", quem nunca sentiu tal saudosismo a apoderar-se no nosso ser, não sabe decerto o que é ser humano. As recordações guardadas soam como parasitas que nos esventram lentamente e, após a sua embusteira liberdade, nos acarretam por tempos vividos sob a sombra de um passado longínquo.

 

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Como diz o ditado popular, "o tempo não volta atrás" e Danny Boyle sofre exactamente desse mal, dessa tendência de olhar para antecedentes, de se assumir como o turista na sua própria carreira. Nada contra a essa nostalgia que nos faz reflectir o que somos e o que seremos, porém, o nosso Boyle deveria mentalizar que ele próprio mudou, a jovialidade foi-se, o toque anarquista e despreocupado são agora meras ilusões ópticas, o "choose life" em tempos de discórdia converteu-se num slogan de campanhas de marketing. Não se trata da advertência "não voltes ao lugar onde foste feliz", mas sim "não voltes ao ponto em que te reinventaste"e Trainspotting (1996) foi esse mesmo marco.

 

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Passados 20 anos, eis um retorno a estas personagens "miseráveis", a estes misfits que nos conduziram aos becos fechados da podridão humana, agora sob as inspirações do livro Porno, de Irvine Welsh. Quem não se lembra da pior casa de banho de toda a Escócia? Com T2 (não, não é a sequela de Terminator) somos inseridos a um ato de réplica, desprovido da anterior desarrumação (que segundo as personagens é um sinal de masculinidade) e apenas aceite como qualquer nostalgia mercantil que hoje parece abundar nesta indústria. Mas o ensaio underground está infectado (sentimos o cheiro da emocionalidade bacoca) pela negritude dramática dos trabalhos posteriores de Boyle e um happy ending do típico estilo crowd pleasure.

 

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Provavelmente, o problema não está nesta "nova" reinvenção com foco nas glórias passadas, mas no regimento dos planos: "primeiro vem a oportunidade, depois a traição". Pois bem, Danny Boyle teve a sua chance, só que vergou num processo de auto-traição, até porque o "gosto", evidenciado no momento em que Renton (EwanMcGregor) tenta reconfortar-se na sua velha colecção de vinis, tem a irritante tendência de alterar. 

 

"It's just nostalgia! You're a tourist in your own youth. We were young; bad things happened."

 

Real.: Danny Boyle / Int.: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 18:28
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11.2.17

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O Cavaleiros das Peças!

 

"Preto. Todos os grandes filmes começam com o ecrã preto. Logos. Grandes logos." É com este monologo, envolvido em escuridão, com que embarcamos numa segunda entrada no universo LEGO no grande ecrã. Contam-se dois anos depois do bem-sucedido filme inaugural e, como os tempos áureos de capitalismo cinematográfico exigem, porque não rentabilizar esta mina de ouro do merchandise?

 

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A resposta encontrada para "espremer a fruta" foi com Batman, que para além da imortalizada personagem da DC Comics, assumiu-se como um dos secundários mais deliciosos do êxito de 2014. Aqui, o "homem-morcego" (sob a voz de Will Arnet) torna-se no centro desta hiperactiva animação dotada de gags que encantam miúdos, assim como graúdos. Em The LEGO Movie, o que entendíamos por aventura animada, desdobrava-se numa crítica à homogénea colectividade, às "massas" e aos estereótipos que ousam em operar como inserções sociais. Em The LEGO Batman: O Filme, a coisa começa por satirizar o próprio mercado cinematográfico, os blockbusters e os sistemas de produção, para cair na ainda usada campanha de moralismo quase "disneyesco". Faltam os objectivos da paródia, carece maturidade no tratamento destes "brinquedos" e perde-se o encanto num grafismo tão mirabolante que até dói ao olhar.

 

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Sim, The LEGO Batman: O Filme não faz jus ao seu antecessor, mesmo que, dentro desta cartola de gags e spoofs, existam alguns "coelhos da cartola" bem tirados. Porém, tudo se resume à mesma cantiga dos valores de mercado, não ofende (tirando as ocasionais farpas lançadas à concorrente Marvel), não transcende, e é apto para todo tipo de audiências. E sim, esta versão de Batman continua a ser a mais caricata (desculpa Adam West e George Clooney) que se pode encontrar no historial cinemático desta personagem tão vincada na nossa cultura.

 

Real.: Chris McKay / Int.: Will Arnett, Michael Cera, Rosario Dawson, Zach Galifianakis, Ralph Fiennes

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:26
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1.2.17
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M. Night "fragmentado" Shyamalan!


Depois do sucesso contido de The Visit, era com tamanha expectativa que se aguardava este retorno de M. Night Shyamalan à sua zona de conforto - o thriller convencional - sem com isto insinuar que o género adquire banalidade nas suas mãos.

 

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Split é o típico filme que o realizador poderia ter feitos anos atrás, na altura em que banhava dos "raios de sol" transmitidos pelo frenesim de The Sixth Sense e do ameno sucesso de Unbreakable. É um projecto limpo, longe das "invenções" que condenariam o autor aos olhos do público e da crítica mais generalizada. Porém, foram essas transcendências, pelo qual vislumbramos a melhor das facetas de Shyamalan, o conhecimento dos códigos do thriller de estúdio e a vontade de desmontá-los para depois reconstruí-los de forma desafiante. Nesse ponto, salientamos a parábola de The Village (hoje visto como a sua "obra-prima") e o "condenável" The Lady in the Water, a análise corporal da fábula que resultou num dos seus filmes mais criticados (mas dos mais resistentes em questões de revisionismos temporais).

 

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Mas em Split, o que evidenciamos é uma jogada segura, onde a ousadia é apenas uma "provocação" míope. A intriga de um psicopata de 23 personalidades, tendo como base uma história verídica de Billy Milligan, daria facilmente numa obra complexa e formidavelmente agressiva. As primeiras notícias em relação a este projecto apontavam para Leonardo DiCaprio como um eventual protagonista, um actor de método Strasberg que facilmente direccionaria a obra para campos psicologicamente, como também, fisicamente improváveis. A alternativa encontrada foi James McAvoy, que nunca encontra o "norte" nesta multifacetada tendência ao improviso, ou a personificação automática, falhando redondamente na atribuída credibilidade na(s) sua(s) personagem(ns).

 

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É um rapto que nos transporta directamente para os confins do "exercício de cerco", para depois incendiar-se como uma catarse de contornos sobrenaturais aos limites da mente humana, da mesma maneira que Scarlett Johansson foi vítima em Lucy, de Luc Besson. Mas Shyamalan faz desta sobrenaturalidade, um equinócio de dois teores, uma sugestão a ser abordada com o maior dos cepticismo por parte do espectador. Um banalizado jogo de gato e rato que serve como prosseguimento neste pesadelo "freudiano". Uma "roda furada" apenas sustentada pela constante oposição de Anya Taylor-Joy (The Witch) e pelos toques "shyamalanos" (poderemos chamar assim) que nos faz respirar ocasionalmente de alívio (a evidenciar mais um "conto" de fé e superação individual). O autor encontra-se novamente confiante e como tal, esperemos que este medíocre episódio sirva de apelo para um novo universo que aí avizinha-se chegar.

 

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Enquanto The Visit, onde o found footage demonstrou a sua medula óssea, em Split, "saboreamos" o regresso de um realizador acima da industrialização, porém, cedido a esta para sua própria sobrevivência. Sim, Shyamalan, temos que falar ... seriamente ... porque o teu futuro não se resume somente a sobreviver.


"The broken are the more evolved."


Real.: M. Night Shyamalan / Int.: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 02:00
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10.1.17

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O Bom Gangster!

 

Será Ben Affleck capaz de ressuscitar o apelidado cinema de gangsters na sua quarta longa-metragem, a segunda tendo como base um livro de Dennis Lehane? Definitivamente não. Nada de novo ou rejuvenescente parece querer germinar aqui. Eis um décor prolongado da Lei Seca e arredores que nos remete com um imaginário saudosismo. Mas este Live By Night (Viver na Noite) opera como uma confirmação da destreza e, sim, vitalidade do actor convertido a realizador por detrás das câmaras.

 

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A História de um homem "bom" (para implementar-nos em mais um confronto de consciências maniqueístas pintado sob tons cinzentos), que se vê gradualmente corrompido pela ambição ascendente no negócio ilícito (misturando por aqui uns certos toques de vingança), é a esperada rasteira na carreira de Affleck enquanto homem polivalente. Não pretendo com isto afirmar que este conto do vigário é um total desastre artístico. Para além do narcisismo do ator que ousa em protagonizar e adaptar-se a um ambiente envolto (fica o aviso: papéis de gangster não nasceram para Ben), é a câmara que ousa em "cuspir" no academismo-fantasma que nos faz prezar por este fracasso acima dos anonimatos que têm sido feitos para award seasons.

 

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Affleck parece determinado em recalcar as imagens perante uma narrativa que respira, ora vintage, ora uma dinâmica articulada. Veja-se, por exemplo, na condução de travellings e panorâmicas em espaços limitados, dando a noção de "acção" mesmo que o ato seja o simples abanão de gelo num copo de whiskey. No feito da direcção, e sem insinuar inovação, Viver na Noite aposta num registo dotado em reconstituições e em marcos coadjuvantes deste subgénero.

 

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O grande senão é o argumento, uma facada sem objectividade no livro de Dennis Lehane que resultou no mesmo modelo pastelão do qual são feitos as cinebiografias galardoadas, com as mesmas personagens esquemáticas e aprisionadas em estereótipos que, facilmente, habitam neste Universo. Uma ambição de curto rastilho, porém motivado no interesse de assistir a um dos mais bem-sucedidos atores-realizadores a operar na Hollywood actual.

 

Real.: Ben Affleck / Int.: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Zoe Saldana, Sienna Miller, Chris Messina, Remo Girone, Chris Cooper

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 18:42
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3.1.17

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O credo de assassinos!

 

Videojogos e cinema são tão compatíveis como azeite e água, mas nos últimos tempos, em paralelismo com a evolução das adaptações de BD no grande ecrã, tais plataformas parecem ter, por fim, adquirido alguma linguagem cinematográfica … e sim … no cinema.

 

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Longe vão os tempos das marginais e trapaceiras conversões dos anos 80 e 90, hoje vistas como uma "espécie de paródias" (Double Dragon, Street Fighter e Super Mario Bros.), do low cost de Uwe Boll e das barafundas "sequelites" de Resident Evil. Pouco a pouco este subgénero mentalizava as suas próprias convenções cinematográficas, obviamente tendo cumplicidade com a grande indústria. Tal "marco" aconteceu no ano passado com a chegada do muito procrastinado Warcraft (que fora arrasado pela crítica norte-americana), o qual somaria um mais um nas equações relativas a grandes produções de Hollywood. Duncan Jones, assumido fã da franquia, torna o imaginário anteriormente regido ao campo dos videojogos em matéria fértil para adaptações emancipadoras. Finalmente, existiu uma mitologia "emprestada" própria que viabiliza o produto para uma vasta abrangência de audiências, sem condensá-lo a habituais "gamers". A seguir as pisadas de Warcraft surge-nos Assassin's Creed, a estadia do popular franchise da Ubisoft no grande ecrã, exercido e trabalhado como uma produção de alto nível técnico e recursivo.

 

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Michael Fassbender e Marion Cottilard são actores de lista A a protagonizarem este misto de épico e ficção cientifica de profunda influência na série B, se não fosse o macguffin ser verdadeiramente "patético". No seu todo, este é o tipo de entretenimento induzido a massas com mais perdas que ganhos, até porque a história é esquecível. Quem sobretudo joga sairá defraudado e a complexidade dos enredos dos títulos de videojogo são condenados a minimalismos preguiçosos.  

 

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Mas, e como sempre existe um mas, este Assassin's Creed preserva alguns atributos invejáveis e valiosos em comparação com a indústria actual. Entre elas está a dedicação empenhada na reconstituição histórica (apesar dos visuais serem demasiados escuros em conformação com o território flashback), e, nesse contexto, a preservação de uma linguagem nativa. Visto que este subenredo leva-nos aos tempos da inquisição espanhola e de uma Península Ibérica ainda dividida por reinos disputados, o castelhano é ouvido, por entre um elenco sobretudo espanhol e até mesmo na estrela Michael Fassbender.

 

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O actor, como é costume, resulta noutro arquétipo sofredor; o constante torturado como tem sido o habitual na sua carreira, e Cottilard, a instalar-se com algum carisma (e nada mais). Porém, a química de ambos é visível, e pudera, visto que contracenaram, sob as ordens do repetente Justin Kurzel, em Macbeth. O realizador deixa para trás Shakespeare para implantar Shakespeare numa produção que tinha tudo para "enfiar-se" na tragédia. Felizmente, não saiu-se tão grego nesse patamar, mas apesar dos valores de produção, Assassin's Creed está longe da bravura pelo qual foi apontado num subgénero "maldito" e resistente perante tais contratempos. 

 

Real.: Justin Kurzel / Int.: Michael Fassbender, Marion Cottilard, Jeremy Irons, Brendan Gleeson

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:30
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8.12.16

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… ou talvez não!

 

O que parecia ser uma comédia de costumes da mesma raiz que os remakes de Canção de Lisboa ou Pátio das Cantigas (o que não é bom sinal), revelou-se numa aspiração a um enésimo episódio de um Twilight Zone. Se não sabiam, ficam agora avisados, quanto à estranheza nesta oscilante variação entre dois géneros (a comédia de influências salazaristas, os bons costumes morais e conservadores como mandam a tradição, e da ficção cientifica) … bem … a Mãe é que Sabe.

 

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É fácil identificar os propósitos de Nuno Rocha (da curta-metragem 3X3) e todos os envolvidos deste projecto - centrar um tipo de cinema acostumado ao formato televisivo para indiciar aquilo que muito da nossa cinematografia havia perdido, a arte do storytelling, e não a regência de um estilo, de um statement politico ou de uma transgressão artística. É uma questão de enredo, do pitoresco dos gags disfarçados em “nosso pão de cada dia” e a nostalgia mercantil que muitos dos nossos espectadores, principalmente aqueles que cresceram sob o regime do Estado Novo, irão se identificar.

 

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Sim, é tudo um episódio de “faz-de-conta”, uma mixórdia de temáticas que a meio gás envolve-se com o de mais mediático existe na ficção cientifica norte-americana. Ouso em afirmar que este A Mão é que Sabe é o mais próximo que temos do Arrival, de Denis Villeneuve, por exemplo. Para as audiências endereçadas às telenovelas do costume, àquelas narrativas lineares e aos failsafes, o filme de Nuno Rocha é um desafio mental, uma salada temperada ao gosto do freguês. Se isso será aceite por este ou não, advém da disposição do nosso “cidadão”. Para o cinéfilo mais profundo, a verdade é mais certa que a morte, e neste caso não poderemos antever telepaticamente, A Mãe é que Sabe cansa.

 

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Cansa pelo seu meio-termo, pela veia cientifica que empesta a narração e sobretudo nos mói pelo facto que os retalhos de uma vida salazarenta protagonizada pela talentosa Joana Pais de Brito, são mais interessantes que todo o frenesim de “o que raio está-se a passar” pelo qual o filme se assume. Competente, sim senhor, mas um filme o qual nenhuma força cósmica o conseguirá resgatar num futuro próximo.

 

Real.: Nuno Rocha / Int.: Maria João Abreu, Joana Pais de Brito, Manuel Cavaco, Filipe Vargas, Filipa Areosa, Carlos Santos

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 01:11
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25.11.16
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Alianças amorosas!

 

Claro que a imprensa sensacionalista e cor-de-rosa apelidará, assim servindo de publicidade gratuita, esta obra de sequela não assumida de Mr. And Mrs. Smith. Em derivação de tal título estão os inúmeros boatos originados pela separação de um dos casais maravilha de Hollywood, Brad Pitt e Angelina Jolie, assim como os rumores de um possível caso do actor com a actriz Marion Cottilard no set. Verdade ou não, tema, esse não nos cabe julgar perante esta nova longa-metragem de Robert Zemeckis, um dos classicistas movie brats a operar em Hollywood (mesmo seduzido pela tecnologia o qual dispõe para inserir na narrativa, e não o oposto como muito blockbuster que anda por aí).

 

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Mas de uma coisa essa dita imprensa acertou “na mouche”, de Mr. And Mrs. Smith, Allied (Aliados) tenta sobretudo replicar uma química entre Pitt e Cottilard, da mesma forma que o sucesso dependente de Doug Liman fez com o “ex-casal” em 2005. Proposta falhada, visto que, primeiro, com Brad Pitt tornou-se impossível o estabelecimento de qualquer ligação, até mesmo amorosa veritê (veja-se o caso com Jolie em By the Sea). O reconhecido grande galã do seu tempo, converteu-se num actor fechado a qualquer vínculo, e em consequência disso, limitado pelo cansaço de fugir ao seu verdadeiro role play (o papel de ser o próprio Brad Pitt, de interprete a globalizada socialité). Por sua vez, Marion Cottilard é uma faca de dois gumes, nunca fora devidamente aproveitada no cinema yankee, muito menos em grandes produções como este Aliados. Aliás, a sua personagem polariza um certo “quê”” de Ingrid Bergman em terras de Tio Sam, ou seja, um feminismo “fogo-de-vista”que esconde um real facto, ser o interesse amoroso do nosso “herói”, e neste caso especifico, uma espécie de macguffin que o faz correr num último terço bem apressado.

 

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Como é possível verificar, Aliados é uma fita que apostou sobretudo numa mediatizada dupla, mas que não soube compor, porque devidamente, nenhum dos dois está recíproco de tal demanda emocional. Quanto a referências, Robert Zemeckis apaixonado pelo fôlego algo perdido desse cinema clássico de uma idade de ouro que nunca mais será reproduzida, cita Casablanca em tudo o que pode. O célebre e popularizado “monumento cinematográfico” (possivelmente a obra que destroçou Gone with the Wind no estatuto de filme mais reconhecido da História do Cinema) é a estrutura óssea deste thriller de espionagem que joga com a duplicidade em estratagemas amorosos.

 

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Até mesmo um final ocorrido num aeroporto sob as juras de despedidas de dois amantes faz invocar-nos essa memória cinéfila, da mesma forma que o piano sob os acordes de A Marselha instala-se como o pico de sentimentalismo indomável, recorrendo a essa fantástica viagem do passado. Por outras palavras, Aliados é um filme de uma dotada herança de referências, porém, sem a imortalização dos mesmos, até porque o espectador mais atento sabe que tudo não passa de uma ficção, e o nosso Casablanca é agora uma memória colectiva bem real, da mesma forma que Paris é, a promessa idealizada de dois dos mais poderosos românticos da Sétima Arte.  

 

Real.: Robert Zemeckis / Int.: Brad Pitt, Marion Cottilard, Jared Harris, Lizzy Caplan, Matthew Goode, Simon McBurney

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:17
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14.11.16

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Vamos caçar Pokémons … peço desculpa … "Criaturas Fantásticas"!

 

Cinco antes depois do encerramento da saga Harry Potter, que no cinema, como nas livrarias, encantou gerações e as fez fascinar pelo Mundo da Feitiçaria, uma fórmula que fortunas deu a sua mentora, J.K. Rowlings, chega-nos outra adaptação de um Universo que não teima em deixar-nos. Fantastic Beasts and Where to Find Them, é a conversão de um livro para cinco filmes, com a escritora a assumir-se como argumentista de uma saga que vem apelar aos repetentes, assim como as novas audiências, provavelmente tendo em conta este formato, os viciados da aplicação Pokémon.

 

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Pois, leram bem, Newt Scamander (interpretado por Eddie Redmayne), é um estudioso em criaturas mágicas que após um pequeno acidente perde alguns dos seus exemplares em Nova Iorque. O objectivo, e grande conflito do filme, trata-se obviamente de encontrá-lo e reavê-los ao respectivo cativeiro. Obviamente, como pano de fundo existe uma conspiração e mais um "dark lord" a ameaçar a existência do nosso novo herói, assim como a comunidade de feiticeiros, que para mal dos seus pecados ainda tem que se preocupar com "muggles" (os humanos normais, aqui sob o termo "no-mags"), que desejam regressar aos tempos da inquisição. O argumento tenta conciliar o cinema espectáculo sob fórmulas recentemente identificáveis, até ao fan service em doses mínimas (não vamos exagerar como os filmes da Marvel nem os da DC).

 

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Fantastic Beasts and Where to Find Them é todo aquele mimo visual, pomposo e oleado já habitual na saga da Warner Bros., e o facto de David Yates estar novamente nas rédeas deste Universo Hogwartiano é uma evidencia de que o maior interesse dos estúdios é conectar este novo segmento aos parâmetros do definido franchise. Porém, esta nova aventura, agora centrada num herói mais carismático que o anterior Harry Potter (não era preciso muito), é uma prova de que o cinema blockbuster encontra-se mais que homogéneo, com estruturas narrativas industrializadas e agendas de condensação no ponto máximo.

 

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Não importa a temática, o registo é formatado, respeitando os parâmetros básicos do argumento academista e das tendências de mercado. Por exemplo, temos um estapafúrdio de conflito final a dar a lide aos efeitos visuais e à sonoplastia de "parte-pratos". Todo este primeiro capítulo nos deixa um certo sabor de "revisto", mas a verdade é que até podemos "encontrar" qualidades aqui, deixo só o aviso, não são "fantásticos".

 

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Há um enriquecimento por parte do elenco, assim como o esforço em compor personagens, ultrapassando-as do mero cartão (vale sublinhar a palavra "esforço"), e um bem conseguido comic relief por parte Dan Fogler. Outro factor que nos faz visualizar com certo agrado este primeiro tomo, é que o filme de David Yates funciona num todo, ou seja, não ostenta imperativos cliffhangers para futuros capítulos … Contudo, vamos tê-los, sim senhor, de certeza que vamos tê-los.   

 

"So you're the guy with the case full of monsters, huh?"

 

Real.: David Yates / Int.: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, Colin Farrell, Ezra Miller, Dan Fogler, Samantha Morton, Ron Perlman, Zoë Kravitz, Jon Voight, Johnny Depp

 

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25.10.16

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Um estranho caso chamado Marvel!

 

Numa certa entrevista, Steven Spielberg comparou esta "onda" de filmes de super-heróis com o fenómeno do western existente há décadas atrás (abundância era "coisa" que o valha). Produtos replicados e lançados sistematicamente, que só poucos conseguiram realmente enfrentar o "maior inimigo de todos" - o tempo - e no caso destes meta-humanos, ainda estaremos vivos até surgir o determinante período em que caiam em desuso. Para tal acontecer, é preciso existir um desinteresse por parte do público, um factor crucial que se dará com o primeiro "crash" de uma das majors, o primeiro flop financeiro para ser mais concreto.

 

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Enquanto vivemos nesse tempo de "vacas gordas", vamos espreitar este Doutor Estranho, o mais recente tomo da franchise Marvel Cinematic Universe, pelo qual foi lhe encarregue a missão de salvar uma saga que parece sofrer com uma modelização crónica. Tirando um ou outro, a Marvel tem pontuado com uma máquina industrial oleada, e como recentemente Joss Whedon afirmou em entrevista, questionado sobre o embate do estúdio com a sua rival DC, a grande proeza deste negócio encontra-se na sua narrativa, intacta desde o primeiro capítulo e completamente despida de qualquer transgressão estilística (relembramos a saída de Edgar Wright por divergências artísticas em Ant-Man).

 

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Enquanto, Zack Snyder, e companhia, tentam fazer um "treat" mais visual do outro lado do campo, o produtor executivo Kevin Feige tenta preencher a sua Marvel com os mais marcados dispositivos narrativos, como também apostando forte na concepção das suas personagens. Doctor Strange surge no tempo em que o visual torna-se sobretudo num bem essencial e necessitado neste mesmo universo, e a suas trips mágicas e dimensionais funcionam como um regalo aos olhos, mesmo que, para o espectador mais relembrado, nada disto é absolutamente original. Nota-se por exemplo, os túneis alucinogénicos de um 2001: A Space Odyssey (clássica referência do metafísico no cinema), como a desconstrução de cidades a dever muito a Inception: A Origem, de Christopher Nolan, ou seja, todos estes impressionáveis conjuntos de efeitos visuais, que consistem em formar o mundo espiritual diversas vezes referido, são de uma imaginação pobre.

 

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Essa pobreza torna-se ainda mais visível no argumento. Ora vejamos, sabemos que Dr. Stephen Strange é um egocêntrico, um arrogante com uma vida perfeita, que a certa altura, em consequências de um acidente, todo o seu mundo "cai". Fica então dependente da caridade de outros, e para sair desta mesma situação procura ajuda, nem que para isso siga para os lugares mais remotos do Mundo. Nessa sua peregrinação, dá de "caras" com uma legião de magos e feiticeiros, a partir daqui arranca outra jornada pessoal - a aprendizagem de forças que nem o próprio compreende. O nosso herói acaba por aprender uma lição que se torna útil para o desfecho do climax. É o moralismo típico Disney, mas não só, existe muita reciclagem aqui. Tirando o assunto de esoterismo pagão, este Doctor Strange é uma versão upgrade do primeiro Homem de Ferro, o filme realizado por Jon Favreau que lançou a saga bilionária, assim como Robert Downey Jr. à ribalta estrelar. Parece que a Marvel já não tem volta a dar na sua "originalidade", esgotou a fórmula e o que sobra são os mesmos truques de sempre, o humor, por exemplo, continua como a sua melhor arma. Mas até quando isso se durará?

 

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Todavia, este Doctor Strange aguenta-se "nas canelas", a razão desse mesmo apoio chama-se Benedict Cumberbatch, que adapta-se à sua personagem com o carisma necessário. Ele é o tour de force de toda esta demanda heróica influenciado por um outro universo sob o selo Disney, Star Wars. Mas nem o actor é capaz de salvar este Mundo da iminente destruição, apenas retardá-lo. Basta agora, esperar o que o tempo dirá a este novo, e vistoso, capítulo de feitos heróicos. Será que Steven Spielberg tem razão? Por enquanto, ficamos a aguardar com o discurso do nosso mais recente, assim como esquecível (prato do dia para a Marvel), vilão de serviço (desta vez é Mads Mikkelsen a vitima), na mente. O Tempo é o maior inimigo de todos, ele destrói tudo. Não, meus senhores, não estou a confundir com o Irréversible, de Gaspar Noé.     

 

"You're a man looking at the world through a keyhole. You've spent your life trying to widen it. Your work saved the lives of thousands. What if I told you that reality is one of many?"

 

Real.: Scott Derrickson / Int.: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Chris Hemsworth, Benedict Wong, Scott Adkins, Benjamin Bratt, Michael Stuhlbarg

 

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24.10.16

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"There's something in the Woods"

 

A sequela que ninguém havia pedido, mas que secretamente desejávamos, visto que o papel desta façanha coube a um maldito filme de 2000 (o que raio aquilo era). Adam Wingard, um dos descendentes directos do estilo multifacetado de John Carpenter, surpreendeu tudo e todos quando um dos seus programados projectos, anteriormente apelidado de The Woods, converteu-se automaticamente na continuação enviusada de um êxito de 1998, Blair Witch Project.

 

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O filme em questão não inventou o estilo found footage como muitos afirmam, porém, o reiventou para as novas geração, uma proposta de exploração que foi adiada até 2007 , no decorrer do baby boom do subgénero (as culpas ainda estão por apurar, ou é [REC] ou Diary of the Dead, de George A. Romero). Wingard tem a noção de que 2007 para cá, as pessoas andam minimamente “fartinhas” de found footage, por isso é que este Blair Witch providencia como um reflexo aos avanços tecnológicos que marcaram a pausa de 17 anos. Temos drones (GO PRO), câmaras integradas e digitais, GPS à mistura e um ego cada vez mais evidente das nossas personagens (culpamos aqui as redes sociais e a geração "Youtube").

 

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Mas nada disso impede que uma noite nas florestas amaldiçoadas de Burkittsville torne-se num autêntico pesadelo. Aquilo que o anterior Blair Witch conseguiu vingar até aos dias de hoje, é sobretudo esquecido neste pretensioso pedaço de homage. Falo obviamente da subtileza. Enquanto que no filme de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, o terror era uma sugestão obscura do outro lado da porta, na versão de Adam Wingard existe a tendência de “ver o monstro” por detrás dessa mesma porta.

 

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Não é bem culpa de Wingard, as audiências também evoluíram, e neste momento possuem apetites vorazes pelo grafismo, sobretudo pelo explicito, desejam o conhecido, a imaginação empapada e regida pela ordem de outros. Infelizmente não existe passo para o nosso intelecto, para a interpretação intima desse mesmo escuro, dos medos primitivos que governavam a Idade das Trevas, reina neste momento, a pura e simplesmente curiosidade, o mediático e o automático. Nesse sentido Blair Witch falha, não por ser bem concedido nos seus jump scares e condizê-los com o som (este é uma versão bem barulhenta), mas por limitar-se a preencher esse tal desconhecido com pesadelos que não são os nossos. Ou seja, conhecemos a origem dos barulhos paranormais, conhecemos as lendas e as suas veracidades e exploramos as pontas soltas do filmes de 1998 com uma vertente quase pornográfica.

 

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A sobrar nesta experiência mais devedora aos tiques triunfantes de [REC] do que à sua prequela, está os desempenhos destas jovens vitimas, a contrariar a tendência de personagens desinteressantes em enredos de artificio circense.

 

Real.: Adam Wingard / Int.: James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid

 

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21.10.16

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O texto imperativo!

 

Há uma mistura de teores que percorre todas estas palavras, desde o poético ao lírico passando pelo simplesmente politico, até à preocupação da nossa língua (essa nossa identidade), como a preservação dos nossos ideais culturais e sociais - "devemos ser mais como o gregos" - tal como é referido em determinado ponto. Rita Azevedo Gomes (A Vingança de uma Mulher) encontrou a sua matriz, a correspondência trocada entre dois poetas, Jorge Sena e Sophia Mello Breyner, durante o exílio do primeiro no Brasil e posteriormente dos EUA, de forma a "fugir" ao regime fascista que se vivia em Portugal. Porém, para Breyner, a sua escrita remete à recordação de cada palavra como a saudade do seu mais intimo amigo. Uma amizade separada por quilómetros de distância, mas reforçadas pelas estrofes, pelas frases que substituem horas e horas de conversa.

 

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Belos textos temos aqui! E a realizadora bem o sabe, aliás, até demais. Correspondência vem a reforçar a ideia de uma vaga que se vai brotado no nosso seio cinematográfico - um cinema cada vez mais lírico, empurrado pelos textos de uma correspondências antiga - que servem, não só de guião, assim como puro alicerce de uma eventual intriga. Será a saudade vencida por este prolongado método de comunicação, agora perdido pela distância de um clique das novas tecnologias em cumplicidade com as redes sociais que nos atingem, que nos faz invocar referido formato? Será a preocupação com o texto imprimido, a degustação de cada palavra, cada acento, cada paragrafo e até a grafia no seu mais extremo nível, que nos afronta espiritualmente?

 

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A verdade, é que temos aqui um português falado e escrito à beira da extinção, que nos dias de hoje, vê-se atropelado pela globalização e nesta redução de distância de contacto entre os mais diferentes pontos geográficos. Será que esta aproximação nos torna menos cuidados? Assim sendo, Correspondências vem ao auxilio de Cartas da Guerra, da Ivo Ferreira, a prioridade do texto-legado, da literatura salientada nas suas imagens. Mas infelizmente, para Azevedo Gomes, Ferreira soube construir uma narrativa visual que pudesse emancipar-se do próprio texto, em Correspondências tal isso não acontece, tudo é recorrido à forma de cautela. A nossa realizadora parece ter medo de superar o mencionado texto, focando-se nele e aceitando à aleatoriedade das imagens.

 

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Quase seguindo à letra a poética forma da citação, Correspondências  evidencia um "terror de penetrar na habitação secreta da beleza", o que impede que as encenações tomam conta das palavras residentes e trocadas, sem conseguir apoiar no seu todo. "As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim", uma miragem nestas Correspondências de facto. Nesse aspecto, Rita Azevedo Gomes poderia leccionar-se no seu próprio formato - "será que a vida é a luta das imagens que não morrem?" Ao invés disso, soube criar um belo produto para os nossos ouvidos, a sensualidade de palavras tecidas com a maior das dedicações, quer da sua forma e construção, quer do sentimento nelas depositadas. Poderia ser um grande filme … poderia, mas Rita Azevedo Gomes preferiu encenar um mero exercício de encenação.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Rita Azevedo Gomes / Int.: Luís Miguel Cintra, Rita Durão, Eva Truffaut, Mário Barroso, Tânia Dinis

 

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publicado por Hugo Gomes às 02:20
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18.8.16
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Cães danados!

 

"I don't care if it's legal! It's wrong.", dizia Bridget Monayan em relação ao comércio de armas levado a cabo pelo protagonista de The Lord of War. Toda esta confrontação ideológica como um esquema de "smartest guy in a room" serviu de tour de force para Nicolas Cage, a marioneta escolhida por Andrew Niccols nesse sleeper de 2005.

 

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Onze anos depois, surge o revisitar, não como a assumida sequela ou spin-off do mercador de arsenal, mas ao "lugar-comum", um incomodo para todos aqueles que veneram um certo paternalismo hippie. War Dogs é um improvável em todo este cenário, dirigido pelo "orquestrador" do êxito de The Hangover e produzido por um dos maiores estúdios de Hollywood, eis um episódio de ascensão e queda sob tiques à la gangster que revela o armamento como uma questão de artimanha. Novamente o limiar da legalidade e do maniqueísmo exorcizado em um reconto de cinismo e de falsas-filosofias, tendo como protagonismo duas iguais estrelas de ascensão (Jonah Hill e Miles Teller a preencher os requisitos de duo dinâmico).

 

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Tal como acontecera com The Hangover, Todd Phillips é versátil em construir rápidas relações de camaradagem, mas continua fraudulento no que requer a trazer humanidade a todo este ácido cenário de conselhos pagos. É verdade que esta fraqueza não seja inteiramente culpa do nosso realizador, até que esta "chico-espertize" contém camadas próprias para a auto-comercialização do produto, vendendo-se como um comédia negra buddie até culminar numa crítica passageira e inofensiva "encavalitada" no mesmo esquema narrativo.

 

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É um Scorsese que tresanda, a narração quase indulgente de The Wolf of Wall Street até às trocas e baldrocas das etapas narrativas de um Casino (por exemplo), tudo em prol do conto, segundo eles. Nada de alarmante, visto que este "faz-de-conta" não é de todo um exercício escusado, mas falta-lhe sumo para chegar aos calcanhares do seu parente mais próximo - The Lord of War - assim como eficácia em deslocar-se para fora do modelo exposto, até porque novamente temos uma cumplicidade "espetada" num universo tão míope e egocêntrico.   

 

Real.: Todd Phillips / Int.: Jonah Hill, Miles Teller, Steve Lantz, Bradley Cooper, Ana de Armas

 

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13.6.16

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O terror teve os seus dias!

 

Por estas alturas, James Wan goza de um implacável estatuto! Deu nas vistas em 2004 com o exercício de serial killers que originou um dos mais rentáveis franchises do género do terror, Saw, até chegar a todo um conjunto de obras de baixo-orçamento que garantiram sucessos instantâneos (sem falar da sua contribuição no cinema blockbuster como em Furious 7 e Aquaman, este último ainda a ser preparado). O realizador malaio é actualmente um dos braços fortes desse "império" low cost do produtor Jason Blum (cada vez mais visto como um Roger Corman da nova geração), mas é inegável o toque que atribui a este conjunto de "produtos", transformando ideias recicladas em matéria (pseudo)refrescante para ávidos apreciadores do cinema de terror.

 

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Esta sequela do seu maior êxito de bilheteira, The Conjuring (com o orçamento de 20 milhões de dólares, rendeu mais de 300 milhões em todo o Mundo), é a prova viva desse veio "artístico" que Wan injecta (a sua ausência, por sua vez, foi catastrófica no terceiro capítulo de Insidious) em terreno extremamente maleável. Infelizmente, o realizador preferiu-se vincar no seu guia "old school", apresentando ao espectador os mais velhinhos truques do livro, uns com resultados satisfatórios e outros … nem por isso.

 

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Arrancando com uma ida e volta à célebre mansão de Amityville (o caso de investigação mais famoso do casal Warren), The Conjuring 2 avança como uma auto-referência do cinema de Wan, neste caso Insidious é estampado no inicio deste "take". Aí desenvolve os primeiros jump scares, com direito a monstruosos fantasmas e ameaças proclamadas que iremos seguir mais tarde (basta verificar a fórmula do primeiro filme para apercebemos como a "coisa" irá desenrolar). Depois desse inicio acelerado, com os Warrens (interpretados novamente por Vera Farmiga e Patrick Wilson) a serem puxados para segundo plano, seguimos para Inglaterra onde uma família é assombrada por um poltergeist "traquinas".

 

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Trata-se do caso Enfield, o mais documentada da História da sobrenaturalidade, que acabou por revelar-se numa farsa. Porém, The Conjuring 2 o visualiza como um caso de crença, onde o espectador mais informado sobre o sucedido terá que "fingir" que tudo não passa de uma possessão demoníaca de "colossal" tamanho. Tal como foram acusados o verdadeiro casal Warren, igualmente Wan traz um exagero a toda esta "assombração", como tal basta comparar a entrevista televisiva da BBC feita a uma das crianças perturbada por estes fenómenos paranormais e a encenação fictícia neste filme.

 

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Obviamente que todo aquele argumento de que "isto não é mais que um filme" é uma cartada neste embate entre ficção e factos reais, porém, esse dito exagero cinematográfico que Wan traz a Enfield Poltergeist é rodeado pelos maiores clichés do género; as luzes descontroladas, as ameaçadas vindas de uma outra dimensão, os reflexos, a manipulação da sonoplastia, as crianças demoníacas e os artefactos infantis que de alguma forma servem de "ponte" entre vivos e os supostos mortos.

 

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Mas não é por isso que a viagem faz-se de maneira menos agradável, o que acaba por "desgraçar" toda esta pintura é um último acto, vulgarizado e estupidificado por um twist forçado, que de maneira alguma tem significado no percurso percorrido até então. De certa forma, este The Conjuring 2 está mais próximo ao anterior Poltergeist, de Tobe Hooper, o qual ambos apostam num climax mirabolante e demasiado vistoso para a sua condição de filme de "assombração". Provavelmente, James Wan ainda estava a pensar no seu Velocidade Furiosa, esquecendo de desacelerar a narrativa deste exercício de terror de estúdio. Confirma-se, bastante inferior ao seu antecessor.

 

Real.: James Wan / Int.: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O'Connor, Lauren Esposito

 

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1.6.16

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Aves em Fúria!

 

Pássaros irados que se lançam em fisgas contra porcos acéfalos, uma imagem que tão bem serviria de figuração aos desejos íntimos de muitos críticos de cinema no final dos seus visionamentos, é na verdade a inesperada adaptação de um êxito dos videojogos de telemóveis produzido pela finlandesa Rovio Entertainment. A intriga da aplicação é simples, um grupo de porcos invadem uma remota ilha habitada por pássaros inaptos de voo e roubam os seus ovos. Para reavê-los as ditas aves terão que "destruir" os suínos e as respectivas habitações através de lançamentos de fisga (uma completa ironia). Uma animação baseada numa premissa assim seria "sopa de galinha" para argumentistas, mas a verdade é que todo o conceito de Angry Birds tem de relacionado com o prolongamento da teoria "dodologia" da escritora Clara Pinto Correia, ou seja a extracção de um triste fenómeno (i)natural  que tem vitimado imensas espécies endémicas de aves, entre as quais, o mais famoso, o Pássaro Dodó.

 

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Para quem desconhece o pássaro dodó é uma espécie que não se encontra nós, uma ave que encontrou numa ilha pacifica e remota [Maurícias] o seu perfeito lar e evolui de forma a ser um animal amistoso e inepto para o voo, factores que facilitaram a sua extinção com a chegada do Homem, que por sua vez trouxe consigo algumas espécies não naturais no "mundo" conhecido pelo dodó. Falo obviamente de ratazanas e de porcos, estes últimos conhecidos por comerem-lhe os ovos. Na maior das possibilidades o jogo Angry Birds teve inspiração nessas tristes histórias que ainda hoje envergonham a Ecologia, ao contrário das teorias suscitadas recentemente com a estreia do filme, de que é baseado em ideologias de anti-imigração que os partidos neo-nazis norte-americanos têm adoptado para promover as suas politicas Trump.

 

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Quanto à animação, Angry Birds poderá ser encarado como um filme bem-humorado e devidamente "esgalhado" em alguns dos seus gags, mas transmite uma mensagem estranha, possivelmente até perigosa para os mais novos - a raiva é um sentimento que pode ser útil para lidar com certas e determinadas situações. Tirando isso, esta é uma produção sem pretensões para uma estatueta, aliás a sua postura é leve, nunca acentua uma ênfase dramática nem se apoia em moralidades, porém, é enriquecedor de certos traços satíricos de uma Dreamworks menos esforçada.

 

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Existe uma ou outra personagem a merecer registo entre o público, mas Angry Birds "fisga-se", literalmente, da sua própria condição de filme durante o seu terceiro e último acto, onde o merchandising toma conta e uma réplica dos parâmetros do videojogo é imperativo a amostra. A barafunda toma conta deste mesmo capítulo, perdendo-se em gags soltos e Deus Ex Machina ocultos. Mas nada que verdadeiramente prejudique a proposta, até porque o resultado baseou-se num videojogo, e como tal, não se deve pedir mais do que exigido em termos de produto negociável às audiências estivais. Para todos os efeitos este será uma das melhores adaptações de um videojogo no Cinema (o que não é um título por aí além).     

 

"Greetings! I am a pig."

 

Real.: Clay Kaytis, Fergal Reilly / Int.: Jason Sudeikis, Josh Gad, Danny McBride, Maya Rudolph, Sean Penn, Peter Dinklage, Bill Hader

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:31
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20.5.16

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A pintura borrada de Refn!

 

Promovido como um herdeiro do cinema provocatório de Lars Von Trier, o também dinamarquês Nicolas Winding Refn aposta num prolongado concurso de beleza, um universo enxugado de luzes e sons psicadélicos, porém, anoréctico em tudo o resto. É o seu conceito de filme de terror, segundo a ambição do realizador que confronta o espectador com mais outro retrato fascinado pela violência gráfica, visto que a psicologia é somente uma atmosfera dissipante e frágil nestas “ruelas”. Em certos aspectos, The Neon Demon resulta na extensão do moralismo fabulista. Neste caso o já rudimentar debate da beleza (a estética contra tudo o resto), apoiada na visão incandescente e por vezes alucinogénico que Refn alastra neste enésimo “conto” de procura e concretização de sonhos em terras dos “Anjos”.

 

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Neste episódio, seguimos Jesse (uma hipnotizante Elle Fanning), uma adolescente determinada a tornar-se numa modelo, nem que para isso tenha que vender a sua alma a uma entidade faustiana. Até porque no preciso momento em que assina o tão precioso contrato das mãos de Christina Hendrick algo de sobrenatural acontece, um íman inquebrável rodeia a nossa protagonista, um magnetismo que capta novas oportunidades como também novos e mortais inimigos.

 

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Uma bênção, um dom, ou uma inerente maldição? O destino de Jesse converte-se numa luxuosa descida aos infernos, com Nicolas Winding Refn a providenciar ferramentas visuais e sonoras ao serviço de tal tarefa danteana. Cada flash de fotografia ocorrida em Neon Demon é como a palpitação de uma monstruosa criatura se tratasse, uma anormalidade que se revela pouco a pouco mas nunca se desvenda na sua totalidade, como tal o filme parece não cumprir a sua simples premissa.

 

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O que soava como um estilizado produto de terror urbano, colorido sob um holofote néon, cede-se infelizmente à mera masturbação. Uma direcção em redor do seu umbigo, um punhado aleatório de referências que vão desde a Historia Antiga (alusão à trágica condessa Báthory), o cinema tingido de um Mario Bava ou do sucessor, Dario Argento, e até o neo-noir voyeurista de Brian DePalma.

 

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Contudo, é no interior deste festim de espontânea coloração que se esconde a verdadeira "espinha dorsal" deste projecto - o expressionismo alemão. The Neon Demon é um filme absolutamente influenciado por esse movimento; pelos enredos de pactos infernais, pela figura da femme fatal (que floresceu durante o expressionismo, ao contrário do senso comum da expansão do film noir norte-americano) e dos constantes jogos de sombras, aqui cambiados pelos berrantes néones que deixam transparecer as emoções das suas respectivas personagens.

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Uma euforia que resultaria num bem costurado tecido, mas como havia referido, Nicolas Winding Refn cede ao seu pesado ego e deixa cair por terra qualquer indicio de análise estética e psicológica. Provas disso, temos um final à deriva de um grotesco desnecessário, um evidente toque masculino em temática tão feminina e sob o cinismo de uma "improvável" homenagem à mulher do realizador e por fim, uma barafunda de elementos que nos leva aos mais desconcertantes "becos sem saída" narrativos. Depois do subvalorizado Only God Forgives, eis a obra mais desastrosa da sua carreira, um pretensioso exercício a ser distinguido com o título "mas que raio" (!?) do ano.  

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Nicolas Winding Refn / Int.: Elle Fanning, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Jena Malone, Bella Heathcote, Karl Glusman, Abbey Lee, Desmond Harrington

 

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5/10

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Being Xavier Dolan!

 

A difícil arte de ser Xavier Dolan, as complicações geradas por ser aclamado em tenros anos e consecutivamente ao longo da sua, até então, imaculada carreira. Se por um lado, ouvimos constantemente citações de historiadores e outros especialistas cinematográficos de que um "autor, até a obra mais fraca é melhor que tantas de outros realizadores", por outro, através de reflexões sobre o sentimento vivido por este Juste La Fin du Monde, um outro conselho surge ao meu alcance: "quando se gosta de um autor, somos os primeiros a admitir que ele errou".

 

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Porém, antes de começarem com as "pedradas", questiono o seguinte, será correcto considerar o ainda jovem franco-canadiano Xavier Dolan, num autor cinematográfico? Porque não!? Contudo, não é esta a derradeira questão aqui envolvida, aliás, muitos esperam que o nosso "cineastazito" prove de uma vez por todos que é digno desse título (sendo que em Mommy já havia provado que as aclamações precoces não foram um erro). Mas em Juste la Fin du Monde, a recente obra que ganhou mediatismo com os "surpreendentes" apupos na sessão de imprensa de Cannes, existe um claro tom de "auto-estima elevada". Talvez tenha sido esta sensação de "triunfo antes do sabor" que causou o maior choque entre o então adorado Xavier Dolan e os críticos que apelidavam o seu novo trabalho como "desastre artístico".

 

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Adaptação de uma peça teatral de Jean-Luc Lagarde, Juste La Fin du Monde beneficia de um ambiente caótico de procrastinação, enquanto a intriga começa a ganhar forma, desenvolvendo para lado nenhum, dando a sensação de impotência e clara frustração ao espectador. Esta é a história de um escritor homossexual que vai encontro da sua família para anunciar a sua breve morte, visto que é um seropositivo de HIV. A respectiva família, que desconhecia o seu paradeiro e o estilo de vida levado a cabo pelo seu ente querido, tenta o receber da melhor forma possível, mas os assuntos inacabados, que o nosso protagonista deixou para trás, o confrontam.

 

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Sim, Xavier Dolan acerta na "mouche" quanto ao teor a ser invocado neste drama de complexidades familiares, mas o que não anteviu é que por vezes o cinema tem que desligar do palco teatral para assumir a sua vida emancipada. Resultado isso, evidentemente, é um esforço descomunal na caracterização dos seguintes personagens, inseridos num rótulo de morte anunciada, a outra é os desempenhos, prometedores mas "fogo de vista" face a uma claustrofobia descontrolada deste enredo de manutenção de relações afectivas.

 

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Existem demasiadas pontas soltas aqui, obviamente que Dolan não irá resolver tendo em conta o respeito pela obra original, mas falta de extensão, do alinhamento, e da renegação com a artificialidade constrangedora com que tenta transformar drama de 2ª Arte para Sétima Arte, o leva para "becos sem saída" de criatividade intrínseca. Ao menos assumisse tudo como "teatro filmado" como Manoel de Oliveira sempre o fizera. Assim sendo, as personagens parecem "morrer" demasiado cedo, as actuações não se vingam perante tal voluntária barafunda (mesmo que Vincent Cassel, Gaspard Ulliel e Marion Cottilard mereçam destaque) e a técnica (fotografia, por exemplo) entra em conflito com o trabalho de escrita e de coordenação.

 

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E assim chegamos a outra questão, será a obra merecida de a sua devida reavaliação, a revisão por novas audiências? Não nego, cheira-me a filme a ser valorizado daqui a uns valentes anos, mas também não é com esta "fruta podre" do cesto que nos vai fazer desligar do potencial de Dolan. Por isso, que venha esse The Death and Life of John F. Donovan, porque está provado que o fim do mundo não é matéria para o nosso realizador.

 

Filme visualizado no 69ª Festival de Cannes

 

Real.: Xavier Dolan / Int.: Gaspard Ulliel, Lea Seydoux, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard

 

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Tom à la Ferme (2013)

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 17:30
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18.5.16

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O fantástico não mora aqui!

 

Automaticamente encontramos em Captain Fantastic, a segunda longa-metragem de Matt Ross, um ensaio comparativo com a pouca ortodoxa obra de Yorgos Lanthimos, Canino, o qual se depara com uma distopia induzida, o como distorcer e controlar o nosso quotidiano, o mundo que olhamos e idealizamos regendo a essas ideias implementadas por órgãos superiores. Enquanto que o grego levava essa vertente para uma alegoria de caverna de Platão, em Captain Fantastic a situação declara-se inicialmente como um "grito de guerra" aos costumes ocidentalizados.

 

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Viggo Mortensen é esse "fantástico líder", um homem eremita que se refugia nos densos bosques americanos, dependendo do seu instinto e intelecto para sobreviver (pronto e uma "ajudinha" a nível de segurança social, pormenores, enfim). Em acréscimo, ele é um pai de 6 crias, o qual educa segundo as suas revolucionárias ideologias, promessas feitas para a sua falecida mulher, juras de uma impotente tendência de "mudar o Mundo" da sua própria formatação. Pois bem, até certo caminho, esta "estranheza" nada nova de Captain Fantastic conquista-nos com a sua crítica social, ingénua é certo, mas constantemente desafiadora da "perfeita comunidade" que se dá pelo nome de EUA.

 

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Neste percurso, previsivelmente anexado a mais uma road trip (como o cinema norte-americano independente adora viagens pela estrada fora), os alvos são muitos, desde a educação escolar (ou a insuficiência desta) até ao entranhar religioso nos nossos dias (a magnífica ideia de Ben substituir o Natal pelo dia de Noam Chomsky), passando pela falta de senso crítico individualista. Até determinado ponto, Captain Fantastic sabe "puxar" os fios de forma correcta, porém, estamos a falar de um obra de vertente indie, daquela classe que adequadamente figuraria num Festival de Sundance (na verdade o filme chegou mesmo a estrear no dito festival norte-americano), ou seja, tudo acaba por recorrer ao território moralista, mais do que o suposto intimismo.

 

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Quando o macguffin do filme revela-se numa família atípica a lutar para dar à falecida mãe e mulher um funeral digno às suas "crenças", entra em cena uns supostos antagonistas, os sogros de Ben (interpretados por Frank Langella e Ann Dowd), fervorosos religiosos e de frutíferas posses. A partir deste momento, Matt Ross tenta encontrar um "meio termo" entre o modo de vida pouco ortodoxa levado a cabo pelo protagonista e dos costumes "normais" de uma cultura ocidentalizada deste par de personagens. Falha a crítica, a perspectiva, a ousadia de transgredir o pensamento comum e por fim, a queda para o registo coming-to-maturity.

 

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Captain Fantastic, alusão ao energético álbum de Elton John (Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy), sobrevive graças a uma ideia, a uma sugestão que não é levada avante em derivação do politicamente correcto que afronta os nossos dias, sem percebemos que essa atitude de não ferir susceptibilidades converte-se na sua maior ofensa. No final é isto, um filme cobarde apenas erguido com a força do seu protagonista. Pois bem, Viggo Mortensen é verdadeiramente o "fantástico" do título. Graças a Noam Chomsky!  

 

Filme visualizado na secção Un Certain Regard do 69º Festival de Cannes

 

Real.: Matt Ross / Int.: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Frank Langella, Ann Dowd, Steve Zahn, Missi Pyle

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 00:56
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