Data
Título
Take
18.10.17

transferir.jpg

Thrillers nórdicos de pacote!

 

O conceito whodunit (Quem matou? Quem fez?) não é um exclusivo fílmico ou um atalho de pré-concepção narrativa. Todo esse “mistério”, resolução criminal, nascera da literatura, desde as manchetes “gordas” da imprensa que notificavam periodicamente os mais horrendos crimes da época, preenchendo a mente dos seus leitores com uma mórbida curiosidade, ou na expansão do policial literário com principal foco nas criações de Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Agatha Christie (Hercules Poirot).

 

MV5BM2MwZmM5ZDUtYzQzYi00MzQzLTk4MWItZWVkM2I0NTMzNG

 

O Cinema, como sempre, pediu emprestado esse conceito e transformou-o num dos mais atrativos e clássicos chamarizes. Se Hitchcock foi uma incontornável referência, David Fincher ampliou a temática e simultaneamente reduzi-a a segundo plano. Como exemplo, olhando com mais atenção nas entrelinhas do seu Se7en, apercebemos a analogia da condição do policia num mundo cada mais desarmado pela violência nos mais diferentes graus.

 

MV5BMWMyMWE4NDYtY2EwNy00MzU3LWFhMWUtNzA0MGVhZmI1MT

 

Depois de Fincher,thriller desta espécie pouco evoluiu, e com a chegada deste The Snowman, inspirado no best-seller de Jo Nesbo, percebemos o quão escasso e até retrocesso é essa linha evolutiva. Sob as pisadas do chamado subgrupo do thriller nórdico, Tomas Alfredson, responsável pelas façanhas de Let the Right One In (Deixa-me Entrar) e de Tinker, Tailor, Soldier, Spy (A Toupeira), abandona o seu cinema calculista e completamente imposto ao presente, para se inserir numa tentativa de franchise “amerikansk”. Nesse sentido deciframos uma Oslo de lugares-comuns e com graves crises identitárias e linguísticas que servem de cenário para hediondos crimes cometidos por um assassino alcunhado de Boneco de Neve.

 

MV5BYmVkZWI4M2ItOGE3Mi00ZDRmLTg4ZjgtMzExNTg1YmIzNG

 

O presente de Alfredson é cedido à preguiça dos flashbacks e da dependência do whodunit (em modo plot twist) acima de qualquer leitura intrínseca. Mesmo com as breves eclipses de uma reflexão tecnológica dentro da ciência criminal, nada detém Boneco de Neve de seguir as suas mesmas pisadas em encontro à resolução do crime, por entre enredos e subenredos mais próximos do “encher chouriços” do que enriquecer este universo, principalmente o do nosso protagonista, Harry Hole (Michael Fassbender), uma espécie em extinção dentro do seu departamento policial. O actor faz o que pode, e a mais não é obrigado, revelando-se incapaz de retirar esta produção do contexto de mero produto corriqueiro, engendrado numa agenda descontaminada de ensaios autorais.

 

MV5BMjFhMDc4YWQtODY4NC00N2Y0LTgyNDMtNzQzNTMzMDU4Y2

 

Não existe aqui sobretudo preocupação em criar uma ligação invisível deste detetive com o seu pecaminoso perseguido, assim como, e mais uma vez referindo Fincher (com particular olhar no seu Zodiac). Este Boneco de Neve não é alvo algum, é a desculpa esfarrapada para nos esfregar na cara o conceito de “cinema adulto”, sem a maturidade cinematográfica para tal. O tempo passa, os mortos acumulam-se, o serial killer torna-se mais habilidoso. Enquanto isso, o espectador mostra-se em todas as ocasiões sempre indiferente.   

 

Real.: Tomas Alfredson / Int.: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J.K. Simmons, Toby Jones, Jonas Karlsson

 

MV5BZTYzOGFlZTAtN2E0Ni00MjZjLTg5MzUtMThjNjNkMTM5YT

 

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 19:13
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

4.10.17
4.10.17

Al Berto.jpg

O "Amar-te ei Perdidamente" por Vicente Alves de Ó

 

Tens os olhos tristes, e todos os homens com olhos tristes são poetas”. Assim é nos dito inicialmente, no meio do encontro de duas personagens, que o espectador, até então, desconhece as suas identidades e paradeiros, mas apercebe-se instantaneamente da teatralidade dos seus diálogos proclamados com tamanha serenidade e espera. Com a frase feita, pronunciada e ouvida, o espectador é informado automaticamente da natureza de uma das suas personagens. O Poeta, o eremita da sua verdade, refém das palavras que nascem do seu interior com fins de expressar a alma da maneira como lhe convém. Porém, Al Berto, de Vicente Alves de Ó está longe dessa recolha de talentos pelo qual se tornaram as cinebiografias.

 

20683206_8LkVu.jpeg

 

A personalidade-protagonista nunca recita uma estrofe, a sua criação é sugestiva na mente do público, visto que não é esse o objectivo inicial do realizador de Florbela, a adaptação da poetisa de “Amar Perdidamente” que soa como um rascunho em comparação a este relato de foro mais emocional, pelo ponto de vista do seu narrador (Alves de Ó). É sabido que Vicente (o chamaremos assim) conviveu com este amante da liberdade, dos ideias do 25 de Abril que não se viveram na sua totalidade na população de Sines. Até certo ponto, a existência de Al Berto cruza com a existência do nosso Vicente, directa e indirectamente, nesta ultima estância e como parte umbilical deste filme, o romance com o irmão de Alves de Ó, um “amor entre homens” acima da sexualidade “profana” aos olhos dos “pacóvios conservadores”.

 

alberto.jpg

Mas do Al para Berto nota-se um espaçamento, uma distância e nela, se materializa com toda esta época induzida como um espectro da sua sugestão. O afastamento para com o espectador dá-se por vários motivos, pela rigidez planificada que nunca encontra lugar no onirismo libertino nem da sujidade do intimismo dito queer (referenciando os lugares-comuns detidos nesse subgénero), ou, pelos conflitos internos do telefilme com a própria matéria cinematográfica, uma linguagem empestada por um crescente academismo. Outro ponto que remete Al Berto para o “feliz” fracasso, é a quantidade de secundários nunca desenvolvidos, subjugados pela sombra da personagem-título e do seu romance protagonista, o carisma requisitado de Ricardo Teixeira que ofusca qualquer justificação para que o produto saia do seu umbiguismo. A juntar a ausência de lirismo que não disfarça a teatralidade destes atores e situações, Al Berto funciona como um gesto, narcisista para uns, honesto para outros, dando forma a um exercício falhado.

 

Real.: Vicente Alves de Ó / Int.: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Raquel Rocha Vieira, Rita Loureiro

 

1478085811743_0570x0400_1478085829557.jpg

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 16:17
link do post | comentar | partilhar

8.9.17

MV5BMTkwOTQ4OTg0OV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzQyOTM0OTE@._

O Comboio dos Mortos!

 

Numa das suas últimas entrevista, George A. Romero acusou Brad Pitt e os Walking Deads de estarem a matar o subgénero dos zombies, a permitir que os grandes estúdios e canais de televisão penetrassem nesse mesmo universo, investindo milhões e “sufocando” assim qualquer liberdade criativa ou margem para críticas sociais, numa temática que o mestre conhece e intimamente bem.

MV5BMjAwMTkzMTAyNF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTU0MTEyOTE@._

 

Train to Busan, uma grande produção sul-coreana de Sang-ho Yeon (com prática na animação adulta), seria de facto um desses exemplos de megalomania mercantil. Um comboio para o Fim da Humanidade, uma peste sabe-se lá donde e os mortos que teimam em não cair no repouso eterno, pistas que já funcionam como lugares-comuns neste universo cinematográfico, em acréscimo com a vibrante e frenética acção, que tal como o World War Z (esse infame incursão com Brad Pitt), apresentam os cadáveres como baratas famintas, tudo movimentado por uma orgânica e infernal hiperactividade. Com um leque escolhido de personagem em mais um modo de sobrevivência, bocejantes deva-se dizer, são arrasados em tempo limite, é uma corrida contra ao tempo, ultra-física e sem espaço para conceber um comentário social. Porque não vale a pena fingir, não existe qualquer elemento crítico, o terror não é mais um metáfora, é um circo ambulante a condizer com os códigos mais reconhecíveis do cinema sul-coreano recente.

MV5BOTUxZjc2MGItYTRmZC00ZDNkLWJiYzktOTdmODYxZjBmYT

 

O meloso extremo que se atropela nas proximidades do final (muita dela em forma de flashbacks pára-quedistas), de forma a garantir uma emocionante (ou manipuladora) ênfase ao sacrifício heróico, os estereótipos que se resumem a personagens, roçando o vagante industrial (mais uma produção coreana, mais um hobo [vagabundo]), tudo feito num “oito” para a concepção de um blockbuster sem consciência. Romero criou nos seus zombies uma lente para ver os “podres” da nossa sociedade, do capitalismo à febre do Vietname, às castas de classes aos privilégios sociais, porém, a indústria os roubou e os converteu ao “vazio”, aos moribundos arrastados em busca dos seus "miolos". Train to Busan viveu do hype, apenas isso! 

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Terror

 

Real.: Sang-ho Yeon / Int.: Yoo Gong, Yu-mi Jung, Dong-seok Ma

 

train_to_busan_h_2016-0.jpg

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 18:29
link do post | comentar | partilhar

21.8.17

Wind River.jpg

Uma gelada experiência na direcção!

 

Depois da escrita, Taylor Sheridan (argumentista de Sicário) apresenta-nos a sua primeira experiência … perdão … segunda na realização (visto que após as primeiras apresentações deste Wind River houve uma tentativa de ofuscar o seu primeiro trabalho na direcção, o terror Ville, em 2011). Eis um cold western que se assume como um policial à paisana, um prolongamento de um mero episódio CSI sob a desculpa de um diálogo "intrínseco" entre uma América em plena recusa com o seu passado. Temáticas, essas, já abordadas no seu anterior guião, Hell or High Water, de David Mackenzie, graciosamente refinada na química entre Jeff Bridges e Gil Birmingham: "Não é suposto os índios sentirem pena por um cowboy". A decadência identitária desta América em que os índios se vêem forçados a integrar uma sociedade feita por semi-tolerâncias é agora um ponto de partida para a expansão deste extenso whoddunit.

 

wind-river-still-4_30559155864_o-e1485206451630.jp

 

O resto é colocar os "vingadores" à patrulha (Jeremy Renner e Elizabeth Olsen novamente como dupla) e deixar-nos pelo rotineiro da narrativa que recorre às mais extremas preguiças do ramo (flashbacks sem utilidade alguma, sem ser para induzir um profundo maniqueísmo nesta busca) ou da cumplicidade com a violência primária ao invés de repugná-la. Foram situações que o anterior Hell or High Water soube conduzir sem erros de principiante, enquanto que em Taylor Sheridan, encontramos uma persona demasiada presa às suas palavras e vírgulas, sem a fluidez técnica (por vezes parece que não há tripé para planos fixos) para dinamizar essa própria história. Aí nota-se a importância de um realizador visual, aquilo que Mackenzie era tão bem.

 

MV5BNjllNTYzNjAtMDJiYS00NjZlLWFlYjUtZGEwNmZlNTc4MW

Quanto a reflexões da decadência nativa, assim pega, assim esquece. Wind River está condenado ao hype de award season (talvez seja a falta de propostas adultas em sala), mas infelizmente ficamos com a promessa. Sim, Taylor, só as promessas de um messias deste subgénero.    

 

Real.: Taylor Sheridan / Int.: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Gil Birmingham

 

MV5BMjI5MzUxOTUzNV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTExMzcwMzI@._

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 20:56
link do post | comentar | partilhar

19.7.17
19.7.17

Dunkirk.jpg

… ou será antes Dunquerque?

 

É um bélico sem o sufixo de épico. Christopher Nolan recolhe os factos históricos que rodeiam a evacuação de mais de 300 mil militares aliados em 1940, nas praias de Dunquerque (França), um episódio crucial da Segunda Guerra Mundial que revelou ao mundo a ameaça ignorada que se o tornaram os alemães sob a ideologia nazi. Nessa recolha, Nolan assumiu-se preparado para retratar a batalha e a retirada, essa ferida no orgulho britânico, ao invés de personificar os idos do campo de guerra através de heróis patriotas, ou do maniqueísmo avassalador cujo tema suscita automaticamente.

 

Christopher-Nolans-Dunkirk-IMAX-poster-cropped.jpg

 

E se o realizador, de origem britânica a operar em Hollywood, isola um pedaço de "História morta" ao serviço da sua narrativa, novamente contada em três espaços temporais em constante colisão resultante num só quadro, é verdade que todo esse argumento de reconstituição tornam Dunkirk num ensaio dramaticamente vazio.

 

MV5BMjEzNjU3NTg5OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNDcyNDY4MjI@._

 

Ao contrário de Titanic, de Cameron, em que a dita "História morta" entra em serviço do romanesco cinematográfico, neste bélico filme de jeito possante, a romantização está fora de alcance. Aliás, esta é a "nova" Hollywood idealizada por Nolan, numa cruel limpeza ao misticismo e ao simbolismo contraído nos putrefactos ventos saídos dos enésimos campos de batalha. Se fosse só isso, estaríamos calmos e serenos, esperando o reforço vindo da outra margem, mas não. Mesmo que as "vacas sejam sagradas" e "intocáveis", há que reconhecer que a megalomania tomou Nolan e a sua ambição de germinar um "espírito autoral" o atraiçoa, fazendo-o tropeçar nas suas próprias qualidades.

 

dunkirk.jpg

Se foi dito que o realizador é um artesão cuja emocionalidade é zero, eis a prova dessa inaptidão. Para contrariar, como trunfo na manga, surge a manipulação. Dunkirk arranca com a primeira nota de Hans Zimmer e é com ele que o espectador segue sem interrupções até à última da pauta. A ginástica cometida pelo compositor é tanta que chega a executar com mais exactidão o trabalho que estava encarregue a Nolan: o de adereçar às suas "personagens" as emoções necessárias, a tensão das ocorrências, aquela espera de um milagre que se faz hiperactivamente de forma a competir com a (im)paciência da audiência.

 

dunkirk-696x391.jpg

 

É um filme de guerra mirabolante, quer na sonoplastia ensurdecedora, quer na edição "salta-pocinhas" e sob promessa do "time delay". Contudo, é nessa dita edição que não devemos perdoar essa grandiloquência produtiva. Nolan falha na técnica, não reconhece as dificuldades com que se filma em alto mar, em enfrentar as instáveis condições climatéricas marítimas, da coloração que o mar porventura dispõe diariamente.

 

dunkirk-600x338.jpg

 

Não há com que perdoar, Dunkirk tem um orçamento milionário, um realizador com uma liberdade em Hollywood invejável e a tecnologia actual que funcionam como verdadeiros feitos e facilitismos (sem com isto insinuar que grandes produções deveriam estar restringidas a estúdios e a chroma keys). Ou seja, depois de The Dark Knight Rises, este é o novo desleixo de Nolan, para além de ser um filme à sua imagem. Tão subtil que nem um camião-TIR, um peso-pesado sem graciosidade, sem a violência, quer gráfica, quer sentimental, das imagens, ou o constante barulho que retira qualquer experiência sensorial.

 

maxresdefault.jpg

"The sweetest sound" clama Mark Rylance ao observar os caças aliados a sobrevoar sobre ele. Poderia ser o "som mais doce", mas Nolan impossibilita essa "audição", assim como é incapaz de nos oferecer o tão aguardado espectáculo que nos prometia. Longe da reflexão humana e social que Dunquerque possivelmente proporcionaria, Nolan atira-nos como epílogo um apelo ao "Novo Mundo" para resgatar este "Velho Mundo" em modo de ebulição. Parece que afinal a "História morta" acaba por ser "História morta"!

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Mark Rylance, Tom Hardy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh, James D'Arcy

dunkirk-trailer-harry-styles-2016-billboard-1548.j

4/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

3.7.17

Homem-Aranha - Regresso a Casa.jpg

O regresso ao Universo, mas afastamento da emancipação.

 

Para o bem ou para o mal, a trilogia Spider-Man de Sam Raimi obteve um relevante impacto no agora formado género de "cinema de super-heróis". Primeiramente, servindo de auto-consolo do fracasso de Darkman, a primeira incursão de Raimi neste modelo (se não considerarmos a emancipação da sua personagens, Ash de uma anterior trilogia, Evil Dead, como rascunho desse seu fascínio por heróis de ordem). Foi o realizador, juntamente com Bryan Singer em outra saga (X-Men), que recolocaram os "heróis de quadradinhos" no mapa "hollywoodesco", anteriormente de volta à marginalização com culpas voltadas para Joel Schumacher e o seu doloroso "retro camp".

rs_1024x683-161209034906-1024.spider-man-homecomin

Contudo, é com Spider-Man 2 [ler crítica], em 2004, que por fim começou a olhar para o género com possibilidades dramáticas e no seu jeito limitado, intimistas. Passados três anos, o muito esperado terceiro filme assumiu-se como um autêntico abanão: os estúdios interferiram na anterior liberdade de construção e de decisão de Raimi, o que, não limpando as culpas no realizador, transformaram o desfecho numa esquizofrénica produção em permanente conflito. Conflito esse que levou à saída de Raimi, e com ele, os dois protagonistas: Tobey Maguire e Kirsten Dunst. Sem realizador e sem os actores principais, a Sony teria, não tendo outra alternativa, refazer a saga milionária, desta vez com atentamente observando o modelo implantado pela concorrente Marvel Studios / Disney (sedentos pelos direitos "caídos" do Homem-Aranha).

spider-man-homecoming-trailer-micheal-keaton-adria

The Amazing Spider-Man, com Andrew Garfield, era um projecto megalómano que foi vencido pela sua própria ambição. Numa saga onde um segundo filme rende menos que o primeiro, em linguagem militar, há que bater em retirada, e essa mesma deu-se com as tréguas ao até então estúdio rival. Spider-Man "regressou" a casa, noticiaram os medias perante a bombástica decisão da Sony em ceder os direitos do seu "aranhiço", personagem que teve a sua "triunfal" entrada em Capitão América: Civil War [ler crítica], uma aparição hipócrita tendo como margem a suposta temática politica e ideológica do filme. Depois da chegada, veio a emancipação, é assim que promete este filme a meias com o trocista título Homecoming.

y89lkua78c5gzijsn0ul.jpg

Tom Holland é o Peter Parker da nova geração, às ordens da Marvel Stu … perdão … do realizador Jon Watts, um homem vindo de produções independentes que já havia demonstrado uma delicadeza e conhecimento em abordar o universo infanto-juvenil. Vejamos o exemplo do seu anterior Cop Car [ler crítica], em que duas crianças encontram acidentalmente um abandonado carro de patrulha, deparando com duas personagens que tão bem ligam a inocência com a equivoca ignorância da "tenra idade", a inconsequência lado-a-lado com a rebeldia. Em Homecoming, as personagens joviais parecem forçadas ao seu próprio registo de estúdio, neste caso o regresso ao ambiente de liceu, com tentativas de encontrar influências em John Hughes, mas com os seus "herdeiros" Disney como esboços. Resultado: eis um enésimo ambiente pastiche que confunde inocência com prê-mecanismos estabelecidos.

homem-aranha-homecoming-trailer-213043.jpg

Mas quem espera ver um novo filme de Homem-Aranha, não espera encontrar um retrato realista de jovens de hoje, nem nada que pareça, mas sim, e sob o selo da MCU, um canónico episódio desta novela The Avengers. Se Tom Holland é de certa forma um talento, Jon Watts um realizador a ter em conta e um Michael Keaton aquilo que já sabemos, entre outros, é evidente que em Homecoming está investido talento. Porém, e infelizmente, como manda a indústria imperativa, os talentos são dissipados pela máquina oleada, pelo produto em reflexo do "universo partilhado" e assim ficamos pela "competência". Pela ausência de transgressão, pela ausência de motivar cinema para além dos testados vínculos narrativos que tão bem funcionam entre o público.

1280_spider_man_homecoming.jpg

E é pena que depois do passageiro hype (sim, Homecoming é simplesmente vitima de hype), esquecemo-nos dos agachamentos que a equipa de Jon Watts parece querer invocar por aqui: a vulgarização do super-herói, e a sua relevância imposta na cultura pop de hoje, com especial atenção às camadas mais jovens. Sim, existe uma espécie de autocrítica nisto tudo, mas a sua audiência esquece e o que parece importar é o "devolver" Peter Parker ao universo que supostamente pertence. Carece da ingenuidade marginal de Raimi e a sua vontade de homenagear os comics como plataforma narrativa ao invés do universo conhecedor dos fãs. Além disso, é urgente desligarmo-nos do militarismo de hoje (Homecoming perpetua esse fantasma imposto pela Marvel / Disney) e … ah, como dói o coração ver Keaton novamente numa personagem alada depois daquele statement em Birdman.

 

Real.: Jon Watts / Int.: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Zendaya, Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Donald Glover, Chris Evans, Jennifer Connelly, Logan Marshall-Green

bf20620112291f7420a02f3a95a948da_L.jpg

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:01
link do post | comentar | partilhar

19.6.17

Tom of Finland.jpg

O Tom que veio do frio!

 

Touko Laaksonen, um ex-tenente do exercito finlandês, encontrava-se em Guerra com os russos, conflito que perderam como reza a História, mas não era esse palco de guerra que o interessava. A verdadeira batalha residia no seu interior, nas dúvidas da sua sexualidade, nos seus desejos e afectos. Touko não se envergonhava dessa sua homossexualidade, aliás utilizava-a como uma afronta a uma sociedade restringida e intolerável para novas ideias e movimentos. Os seus desejos eram metamorfoseados em desenhos, gravuras que criava e que apresentavam um misto de erotismo e devaneio, ilustrações que viriam marcar gerações e influenciar um estilo de vida.

tom_finland.jpeg

Contudo, Touko, de forma a não comprometer o seu nome de família e a sua reputação na sociedade finlandesa, descartava o seu verdadeiro nome nas assinaturas, ao invés disso, chega-nos Tom… Tom of Finland, o activista que veio do frio com “criações” escaldantes. Inspirações não é o que falta nos trabalhos de Tom, e isso é indiscutível nas mais diferentes frentes, desde a literatura, as artes plásticas, a música e até o cinema (sublinhamos sobretudo Querelle, de Fassbinder). Porém, este Tom of Finland, rabisco ao serviço de um esboço para o enésimo modelo do biopic convencional, é um deserto de ideias e sobretudo de um cinema mais transgressivo em conformidade com os desenhos da personalidade mencionada.

 

tom-of-finland-goteburg-film-festival.jpg

 

É o fazer bonito e academicamente aceite, Dome Karukoski torna-se num mero artesão sem voz nem personalidade, deixando os eventuais oásis da sua jornada pelo caminho (se poderia acentuar as fantasias eróticas de Touko, assim como o ocasional “amigo imaginário” que surge sem aviso no seu quarto). Nada disso, Tom of Finland é um puro animal amestrado, apenas valorizado pela sua História comprimida a um formato pedagógico, sem qualquer textura cinematográfica.

 

TomOfFinland_TRL_2K_still04.jpg

 

Perdeu-se um filme, personagens e reconstituições histórias, e no seu lugar consegue-se uma gota numa imensidão marítima. O “artista de pilas”, como é apelidado a meio deste longa-metragem, merecia bem mais que um rascunho.

 

Filme de abertura do 13º FEST: Festival Novos Realizadores e Novo Cinema

 

Real.: Dome Karukoski / Int.: Jakob Oftebro, Werner Daehn, Jimmy Shaw

 

tomoffinland.jpg

 

4/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 23:04
link do post | comentar | partilhar

8.6.17

Mumia, A.jpg

Começo mumificado?

 

Monstros! Monstros em todo o lado, e sem a necessidade de pagar direitos de autor, é assim que a Universal Pictures lança o seu “Universo Partilhado” – Dark Universe – de forma a não ficar atrás dos outros case study de sucessos que se têm visto por aí, nomeadamente, a pioneiro e até à data, a melhor sucedida Marvel. Contudo, o curioso caso da Universal é um olhar de certa forma nostálgico ao seu registo monstruoso de criaturas e outras histórias clássicas que hoje integram o imaginário, directamente ou indirectamente, do espectador. Antes de toda esta confusão de crossovers e afins, a Universal já integrava os seus “universos partilhados”, era lobisomens contra frankensteins, vampiros contra qualquer coisa e, em casos específicos (como House of Frankenstein (Erle C. Kenton, 1944)), com todas estas figuras em modo boys band.

 

Cy4NqG5WIAE_dC3.jpg

 

Depois da era clássica, os direitos desta colectânea monstruosa começaram a dispersar por outros estúdios e produtoras, até porque os direitos encontravam-se vencidos, sendo que se tornou fácil a inserção dos mesmos, resultando assim, nas mais diversas versões dos “clássicos”. A Universal Pictures perdeu terreno, mas mesmo assim aventurou-se numa recuperação. Em 1999 conseguiria colocar a Múmia no topo do box-office, mesmo que a chamada “febre do Egipto” tenha desvanecido com o tempo. Sucessivamente surgiram sequelas e até mesmo spin-offs, com algum êxito financeiro, mas artisticamente nulos e, em certos casos, reduzidos à própria caricatura. Até mesmo o herói surgido neste franchise – Brendan Fraser – pareceu ter sido “mumificado” nos tempos pós-Múmia. Mas a Universal não descansou, eles queriam monstros, a ressurreição do seu legado.

 

mummy-day.jpg

 

Em 2004 chega-nos Van Helsing, com Hugh Jackman, que simplificaria os desejos desse mercado. A história do célebre nemésis de Drácula foi igualmente “vaporizado” pela crítica, da mesma forma que fora pelo público. Com as notícias da concorrência em que os chamados universos partilhados eram fórmulas comprovadas “cientificamente”, a Universal, cada vez mais reduzida em termos de franchises, encontraria o dispositivo perfeito para esse consolidar de criaturas. Dracula Untold foi a experiência falhada, o falso-início que não convenceu nem sequer os produtores, mas é em A Múmia onde, por fim, nos deparamos com esta introdução.

 

landscape-1480604242-screen-shot-2016-12-01-at-144

 

Sim, uma introdução, visto que Alex Kurtzman preocupa-se mais com a representação que as personagens podem ter neste Universo do que propriamente com a desenvolvimento destas figuras, e feita as contas, temos o enésimo blockbuster mecanizado, pronto a decorrer sem surpresas nem desfeitas. O terror é elementar, reduzido a jump scares e a sustos fáceis de terceira escola, a acção é implantada sem imaginação e Tom Cruise repete-se no seu papel de sempre. Ou seja, apesar dos efeitos e desta pré-construção de um Mundo próprio, A Múmia eleva-se como um entretenimento sem personalidade e reduzido a adereços de injecção instantânea. Mesmo que a argelina Sofia Boutella se comporta devidamente como o “monstro do título”, tudo o resto parece abandoná-la a favor de um filme pleno para todos.

 

the-mummy-movie-sofia-boutella-10.png

 

Todavia, o grande problema desta Múmia não está inteiramente no produto em si, mas sim na indústria omnipresente que agrega. É uma cópia dos modelos mercantis com todos os marcos que poderíamos "desejar" neste tipo de produções. É previsível, cumpre a sua agenda de forma aplicada e ainda transtorna os monstros que assustaram gerações passadas, escusado será dizer que teremos mais uns episódios para “aturar” num futuro próximo. Mas este começo é tudo menos relíquia, é pechisbeque.

 

"Welcome to a new world of gods and monsters."

 

Real.: Alex Kurtzman / Int.: Tom Cruise, Russel Crowe, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson

 

MV5BNWE5Mzg2ZGEtYTQ0Yy00YTI0LWJjNGUtMDc4NTk4OGI0Mz

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 15:32
link do post | comentar | partilhar

25.5.17

MV5BY2YxM2IyYmQtZmUyZS00NmVhLTkxOWYtMTJkOTdjZTU5ND

Peripécias a dobrar!

 

A infelicidade bovariana e a repreensão sexual da protagonista seriam belíssimos pontos de partida para uma caprichosa fecundação neste thriller erótico. François Ozon usufrui da sua transgressão sexual e psicológica para minar neste seu L’Amant Double um intenso clima de ebulição, e com isso, presenteando-nos um magnificente artifício visual que vai desde a transposições vaginais, split screens invisíveis e um fetiche sexual onírico. O realizador anexa esse apetite estético com uma auto-reciclagem, há uma busca pelo Jeune & Jolie, onde Marine Vacth novamente segue em modo “stalker” dos seus desejos, mais uma vez, apta a explorar esse seu inerente desconhecido.

primary_Lamant-Double-Cannes-2017.jpg

L’Amant Double é um cruzar de dois olhares, o desconhecimento tormento de géneros (a sexualidade encontra-se no limiar da sua fronteira) e do jogo de ilusões que Ozon pedala com alguma classe. Há Brian DePalma aqui, existe citações a Dead Ringers de Cronenberg, do outro lado do espelho, e o visual possui aspirações a Refn. Por outras palavras, L’Amant Double é uma orgia de influências que, para nossa infelicidade, geram um nado morto, porque simplesmente o argumento não segue essa mesma ambição, a essa narrativa visual. Assim, sucessivamente vamos cedendo a um terreno pantanoso, aos truques baratos que fazem descortinar um embuste, os lugares-comuns do território do thriller mais convencional e o plot twist que nos arrebata com uma incoerência impossível.

l-amant-double.jpg

Engolimos a seco essas revelações e depressa tentamos encaixá-los na já exposta narrativa, ao contrário de um Hitchcock (citando o óbvio dos cineastas desse sentido), onde a intriga sofre com uma metamorfose encadeada com a sua revelação, alterando a nossa perspectiva, mas consolidando-a com o estabelecido desde então. L’Amant Double tem que “colar” a cuspo e a sémen esse mesmo twist, e o resultado é um verdadeiro acidente de proporções catastróficas. Digamos que Ozon embateu numa parede de concreto, e é pena, porque os primeiros actos prometiam. E que promessas eles nos davam.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: François Ozon / Int.: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset

 

255144.jpg

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:49
link do post | comentar | partilhar

23.5.17
23.5.17

189132.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Olhar de forma radiante!

 

Naomi Kawase deve pensar que fazer Cinema é o mesmo que pastelaria, que pode abusar assim no açúcar e tratar o espectador como um diabético sob vontades suicidas. Radiance (Hikari) é o filme que precisava de mais ciência e menos emoção, até porque é fácil cair na história dos "coitadinhos" ao abordar personagens cegas e outras, como é o caso do co-protagonista (Mantarô Koichi), em contagem decrescente para o igual estado.

 

thumb_52539_media_image_1144x724.jpg

 

O porquê de insinuar que falta mais cabeça e menos hinos do coração? Simples. Kawase tem ideias iniciais, tais como o cinema para invisuais onde as palavras adquirem o poder da imagem, obviamente alicerçado à imaginação, sentido apurado para muitos dos seus utentes. Depois existem os ocasionais POV (Point-of-View) que transportam o espectador para a situação vivida, transmitindo um tormento de impossível compreensão para quem ainda possui todas as capacidades de visão.

 

Cannes-2017-decouvrez-la-bande-annonce-de-Hikari-d

 

Infelizmente, essas ideias são descartadas porque a nossa realizadora está desesperada em emocionar o espectador, em utilizar a música como uma linguagem manipulativa, de orquestrar protagonistas de fraco desenvolvimento (mesmo assim, há que reconhecer o esforço e a sensibilidade da actriz Ayame Misaki) ou de "castigar-nos" com os milésimos pores do sol, simbolismos baratos e cores quentes com objectivos "kamikazes" para o nosso coração. Não, a emoção não se força. A emoção é algo vivenciado naturalmente.

 

Hikari-e1478286447377.jpg

Naomi Kawase confundiu então o poder das imagens e da sonoplastia (essa riqueza sensorial que o Cinema nos pode oferecer), confundiu as personagens e as suas desesperadas situações e, pior, confundiu o tom meloso que nunca desgruda de nós. Diríamos penoso? Não é bem isso, mas sim sobrelimitado à sua ideia de cinema. E infelizmente as ideias ficaram à porta e dela nos acenaram: um filme falhado e demasiado radiante.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Naomi Kawase / Int.: Tatsuya Fuji, Mantarô Koichi, Ayame Misaki

 

Radiance-1-620x359.jpg

4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:48
link do post | comentar | partilhar

19.5.17

365735.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Amantes inconstantes!

 

A esta altura, perguntamos sinceramente até quando terminará a dita trilogia dos Amantes. É que mesmo sob essa desculpa, Philippe Garrel não tem rigorosamente mais nada para nos dizer. É a triste realidade, mas o seu novo filme L'Amant d'un jour (Amante por um Dia) é a resposta às suas limitações, quer criativas, quer, acima de tudo, ideológicas. Ciúme (La Jelousie) levou-nos a crer que essa mesma barreira criativa era possível existir na carreira do autor, enquanto que A Sombra das Mulheres (L'Ombre de Femmes), que representava um refrescante sopro, ficou-se pelo impasse ideológico.

 

amant_d_un_jour_3_h_2017.jpg

 

Este L'Amant' sofre dos dois males: primeiro pela falta de personalidade, visto que voltamos às cores monocromáticas, à edição angustiante (onde cada plano não tem a sua necessária expiração) e aos casais rompidos pelo adultério. Quanto ao segundo ponto, a ideologia de um burguês do arco-da-velha que discursa liberalmente uma espécie de poligamia secreta, pois, tudo contado no feminino para não sofrer com eventuais acusações de misoginia. Nesses termos, Garrel parece engraçar com a causa feminista, o direito das mulheres "perseguirem" as suas fantasias sexuais, os seus desejos instantâneos pela luxúria, o que mostra ser um avanço curioso frente à glorificação sentimentalista de As Sombras das Mulheres (a confundir sensibilidade com feminismo).

 

5135902_7_37a4_les-deux-heroines-du-film-francais-

 

Mas L'Amant' é mesmo assim uma pretensão, uma máscara na qual Garrel se esconde, de forma a escapar aos seus fantasmas, os quais que de alguma forma o alcançam. Assim, somos confrontados com um terceiro ato completamente previsível, "garrelianamente" falando. Afinal, a libertação sexual era uma fraude, pois o homem torna-se um elemento em sofrimento sem razão (por incentivo seu) e a mulher caí nas "boas graças" da praça pública.

 

351052.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

Fácil ceder-se a reacções primitivas e de pura misoginia por aqui. Está no nosso sangue! Como está no sangue de Garrel. Existem realizadores que nunca deveriam filmar um filme por ano: o prolifico não é sinónimo de qualidade e Garrel prova isso, sendo um autor que vai sobrevivendo à custa do seu estatuto.

 

Filme visualizado na 49º Quinzena de Realizadores

 

Real.: Philippe Garrel / Int.: Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte

 

170420221415.jpg

 

 

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
link do post | comentar | partilhar

19.5.17

18519887_1191008037675481_7836646851179418666_n.jp

Um porquinho chamado … Netflix!

 

Balde de água fria! Okja não é mais que um produto que se joga sobre competências industriais para captar um cinema apto para todos, e não o oposto (nada contra o acessível, mas filmes que forçam para isso é outra história). É o modelo de filme familiar acasalado com um negro panfleto da PETA, a alternativa dispendiosa de uns "cowspiracy". Contra o consumo excessivo de carne, subsequente os questionáveis processos de criação em massa, uma campanha green servida de propósito para a Netflix.

 

NEkaa48uqeKLnk_1_b.jpg

A plataforma, agora virada em produtora, ambiciona um tom de cinismo a toda esta obra de gado mutante e de civilização “selvagem”, e para isso contratam Bong Joon Ho, que à imagem do seu anterior Snowpiercer consegue invocar tamanha sensação de “máscara” logo nos créditos iniciais. Mas visto que falamos de um realizador habituado a criaturas digitais (basta relembrar a sua variação kaiju em The Host), Okja aposta forte e feio no seu animal computorizado, cuja intenção não é mais que construir um vínculo emocional entre este suíno-hipopótamo com a jovem Seo-Hyun Ahn, e assim, sucessivamente com o espectador (numa grotesca réplica da matriz Disney). Ligação essa que se remeterá como o objectivo priorizado de uma aventura em modo veloz e furioso.

okja-creature-littlegirl-woods.jpg

Uma produção a cumprir agenda, com toques de clara minimização de um ambiente pesado que, porventura, irá surgir num terceiro ato, aqui o fantástico culminado pelos avanços tecnológicos a servir de protótipos do nosso quotidiano e parabolizá-lo em contornos apocalípticos. Contudo, Okja é um filme maniqueísta, aborda questões, mas não possui a tamanha coragem para contrair uma ambiguidade, o resultado é iminente, mesmo com uma simulação de PETA em jeito caricatural, é a sua miopia que nos leva a lugares sem saída possível.

pasted-image-0-1.png

Diríamos antes, que Okja é a Maria Antonieta dos filmes, confrontada com a fome mundial e a sobrepopulação (uma situação que parece ninguém querer arranjar uma solução), manda-nos literalmente comer “ervinhas”. Falta o outro lado, e para este filme de Boong Joon Ho falta a convicção da sua palavra! Sobra com isso Tilda Swinton, a nossa pitoresca sem medo de se humilhar.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Bong Joon Ho / Int.: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Jake Gylenhaal, Lily Collins

 

26-okja-3.w710.h473.jpg

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:26
link do post | comentar | partilhar

13.4.17

Velocidade Furiosa 8.jpg

Destino sobre rodas!

 

A alta velocidade ou suscita um acidente ou uma autuação e, neste caso especifico, ficaremos com a segunda hipótese, porque o desastre é iminente caso continuem com estas velocidades frívolas. Mas antes de mais, deve-se aplaudir a nossa "Furiosa", Charlize Theron, que fez tudo para que esta carruagem não se despenhasse de forma catastrófica, e tem a capacidade de salvar um filme condenado à auto-ejaculação dos fãs (Charlize só não foi avisada a tempo para um desastre à lá Sean Penn).

 

the-fate-of-the-furious-trailer-sets-records.jpg

 

Aliás, são as mulheres por detrás do volante que direccionam este Velocidade Furiosa 8 para caminhos menos corriqueiros. Resumidamente, é a nossa Theron em conjunto com uma breve, mas mesmo assim profissional Helen Mirren, a lembrarem como se faz no plano dos desempenhos. Isto porque os nossos homens são demasiado vigorosos em relação à sua imagem "máscula"  e procrastinam em atribuir algo mais pessoal a um franchise cada vez mais despersonalizado desde a saída do realizador Justin Lin (na altura, o verdadeiro herói de Fast and Furious).

 

transferir.jpg

 

O resto é tudo aquilo que esperamos da saga, só que em doses meramente cansativas, desde o foco central à personagem de Vin Diesel (andamos 8 filmes com o protagonismo e já estava na altura de mudar), um incoerência na continuidade e ainda a industrialização que se entranha, até mesmo no melhor ponto que estes filmes possuíam: os stunts, agora cada vez menos impressionantes.

 

NELoQH89EdqkOS_2_b.jpg

 

De resto, recorre-se aos estereótipos (Tyrese Gibson), às experiências iniciadas mas não levadas a avante (a dupla Dwayne Johnson e Jason Statham poderiam ser um Terence Hill e Bud Spencer em modo testosterona) e a perpetuação do conservadorismo a defraudar a irreverência, até porque falamos de família e bons valores morais de forma a não ofender as massas que tanto contribuíram para o êxito estrondoso disto tudo. Após este capítulo, só falta mesmo este grupo ir para o espaço, até porque já não existem mais caminhos a seguir para além do beco sem saída. Isto já cansa … e muito!

 

Real.: F. Gary Gray / Int.: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Helen Mirren, Michelle Rodriguez, Scott Eastwood, Tyrese Gibson, Ludacris, Kurt Russell, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Nathalie Emmanuel

 

_fd712912-1f98-11e7-a5a9-704c25d3160d.jpg

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 10:35
link do post | comentar | partilhar

12.4.17

MV5BN2NjYTU5MzgtZjQzOC00ZTczLThiNTgtMTFlZTZhY2ZkMj

A absolvição chega tarde!

 

Desde cedo os italianos souberam extrair da crítica social, como política, o seu modelo cinematográfico. O neo-realismo, oficialmente nascido em 1943, é tido como uma dessas importantes visões de ousadia mordaz, enquanto que se servia de afronta para a ideia, então estabelecida, de cinema, contrariando as tendências estilísticas, filmando de forma estilizada, um realismo não estilizado (Erwin Panofsky).

 

confessioni.jpg

 

Com o passar dos anos, as críticas italianas obtiveram as suas diferentes facetas, desde a comédia à lá Itália que olhava para o humor como um portento escudo no seu ataque, e o "fellinismo", esse surrealismo barroco disfarçado que se abatia anos seguintes como um novo signo de vocabulário cinéfilo. Por fim, aparece-nos a poesia de Pasolini a servir de contraste e a fervorosa veia politica de Nanni Moretti a prevalecer numa despida sinceridade ideológica. Ou seja, em sangue italiano, a política como tema crítico para uma visão analista corre com tamanha agressividade nestas veias.

 

foto-le-confessioni-26-low.jpg

 

Actualmente, o cinema não encontra nenhum movimento artístico predefinido, e a globalização tem tido papel fundamental na diversidade de vozes, cuja única similaridade é esse tom crítico. Le Confessioni é o enésimo avante de discurso politico, principalmente vindo da dupla Andò / Servillo, que após o sucesso de Viva La Libertá (Viva a Liberdade), onde apresentava o humor doppelganger para construir uma politica de sinceridades (mas nunca objectiva na sua crítica), reúne-se para invocar um misto de referências, que vão desde uma reunião G8 e a clássica forma de thriller de Agatha Christie, passando pelas óbvias menções de I Confess, de Hitchcock (as personagens estão encarregues de elucidar-nos) e a estética que fora mundialmente reconhecida pela cinema de Sorrentino.

 

slide_le_confessioni_04.jpg

 

Toni Servillo é um monge de raízes misteriosas, convidado a participar em tal reunião politica, a pedido do líder da FMI, Daniel Roché (Daniel Auteuil). Os motivos deste misterioso convite são revelados após o suicídio deste último. Um ataque às politicas de austeridade e às empresas que ganharam com a crise, que tanto têm a dizer para os países do Sul da Europa, como Itália. Contudo, esse mesmo ataque é feito por impasses do grotesco burguês à lá Sorrentino, mas ao contrário do realizador de La Grande Bellezza, Roberto Andó funciona como um impostor, copista, e essa preocupação pela estética revela-se na sua maior fraqueza, até porque o filme nada tem para dizer, para além de um extremo senso de moralismo.

 

le-confessioni.jpg

 

Entre punch lines aqui e ali, frases que nos levam à nossa consciência moral, Le Confessioni é demasiado preso às suas influências. Toni Servillo é imperativamente regido ao seu ego e o resto, totalmente inofensivo, interligando as devoções religiosas, o maniqueísmo das boas acções, como uma solução pela frieza politica. Tal como diz Connie Nielsen a meio do filme, "já todos andamos fartos de contos de fadas".

 

Filme visualmente na 10ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andó / Int.: Toni Servillo, Daniel Auteuil, Pierfrancesco Favino, Connie Nielsen

 

21114_orig.jpeg

 

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:27
link do post | comentar | partilhar

6.4.17

Ladrões com Muito Estilo.jpg

Ladrões em modo vintage!

 

Zach Braff cumpriu o seu primeiro requisito como realizador em 2004 com um pequeno grande filme de superação existencial, Garden State, o qual também protagonizou ao lado de uma Natalie Portman sob uma inocência virginal. Outrora conhecido como "o actor" da série Scrubs, Braff regressa à cadeira de realizador, passados 10 anos, e o resultado foi um registo independente (Wish I was Here) em que espectador sente que visita o mesmo lugar de antes,  mas o efeito não é nostálgico. Foi então que, após uns produtos para a televisão, o actor convertido em realizador avança numa nova tentativa no cinema, desta feita em estreita cooperação com um grande estúdio (Warner Bros.) e como matéria-prima um homónimo filme de Martin Brest (que por cá teve o título de Quadrilha do Reumático) e, voilá, chegamos ao mero anonimato de Braff como cineasta.

going-in-style.jpg

Este Ocean's Eleven de terceira idade, com mais ligações ao original protagonizado pelo Rat Pack (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop) do que na versão de Steven Soderbergh, é um entretenimento emocional sob a máscara de cinema politico para massas. A razão está num discurso algo nacionalista e anti-capitalista (a guerra contra a classe de Wall Street e a transferência de empresas na busca de mão-de-obra mais barata no resto do Globo) que hoje encontrou voz na eleição de Trump, da mesma forma que traz três veteranos actores de uma Hollywood que nega as suas "royalties" para induzir a temática da terceira idade e o desprezo social para com estes.

07goingstyle-master768.jpg

Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin são bons motivos para comprar o bilhete para esta mesma sessão, mesmo que o tom cómico e o modelo heist movie já tenha visto melhores dias. E é então que após um cínico desfecho em que a criminalidade compensa, como se tal movimentasse o destino financeiro, politico e social de um país (a invocar o complexo Robin dos Bosques mais uma vez), somos levados para os créditos finais. Afinal, Zach Braff filmou isto! Sim, foi ele mas poderia ter sido outro "tarefeiro" qualquer. Aliás, Hollywood está cheio deles.

 

Real.: Zack Braff / Int.: Michael Cane, Morgan Freeman, Alan Arkin, Christopher Lloyd, Matt Dillon

 

goinginstyleheader.jpg

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 23:48
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

30.3.17

Ghost in the Shell - Agente do Futuro.jpg

Fantasmas de Shirow!

 

Bem-vindos à queda do cinema americano, e não, nada tem a haver com as controvérsias de whitewashing, a escolha de Scarlett Johansson para interpretar uma cyborg. Não, simplesmente o que vemos nesta adaptação de uma adaptação de uma manga da autoria de Masamune Shirow, é o requisito de lugares-comuns e dos truques primários que tanto minam o cinema para as massas oriundos dos grandes estúdios americanos.

 

11c4c5456bde89b63055d4a4f9934a32.jpg

 

Já a primeira conversão do material original para cinema, uma animação estilizada de Mamoru Oshii, funcionou como um quebra-formulas daquilo que poderia no entanto suscitar. É ficção cientifica da futurista, com pinceladas fortes de Phillip K. Dick e, sob linguagem cinematográfica, influenciada por clássicos como Metropolis e Blade Runner, que orquestrava uma narrativa anti-climax, sugestiva e sobretudo cerebral. Aonde irão as nossas particularidades enquanto seres humanos num mundo completamente a mercê do robótico? E as questões da inteligência artificial? E do "uncanny valley"? Estas tendências são debatidas em quase tudo o que se designa  ser ficção cientifica "astuta". Sim, o filme tinha esses propósitos de servir mais como uma reflexão ao serviço da animação, do que se apresentar como o enésimo arquétipo de acção animada, e a esquecida sequela (Innocence, 2004) prolongou essa fantasia filosófica de um futuro à vista.

 

MV5BNjM1OTM1MDExM15BMl5BanBnXkFtZTgwNjAyMzk1MDI@._

 

Porém, eis que surge a lavagem de Hollywood, um produto com claras pretensões de agradar os fãs do original e adeptos dos chamados "blockbusters inteligentes", mas que se perde perante as suas ambições. O porquê? Por que todos os ingredientes que transformaram Ghost in the Shell em mais do que um mero fruto da industrialização, são esquecidos e trocados por equações homogéneas daquilo que tanto abunda no entretenimento mainstream. Diria que este Agente do Futuro (lembraram-se de traduzir para português) é um embrião do cada vez mais formulaico cinema de super-heróis, trocando a dita filosofia por enredos de vingança, o sugestivo pelo explicito, e o cerebral pelo códigos primitivos do bem entreter (salienta-se ainda o maniqueísmo básico). 

 

ghost-in-the-shell-2017-trailer-ed.jpg

 

Scarlett Johansson é a nossa heroína, meio Lucy, meio "Viuva Negra" da Marvel, que se movimenta pela narrativa como uma "boneca de prontidão exacta para a acção". A sua Major é demasiado emocional, frente às crises existenciais da versão animada. Tudo o resto, excepto o ocasional "Kitano Show" [Takeshi Kitano a assumir o controlo a meio da fita], é uma réplica prolongada, e segundo eles actualizada, que apenas jura fidelidade ao visual da obra de 1995. São estes raros pontos de contacto que fazem salivar os ditos fãs, mas por aqui grito em pleno pulmões: "It's a trap".

 

MV5BMjQzODU5MDk4OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTAyMzk1MDI@._

 

Talvez uma premonição de como este Ghost in the Shell iria falhar (se bem que se espera, mesmo assim, que faça sucesso nas bilheteiras, até porque Scarlett Johansson já faz parte do star system) é a época em que os dois filmes surgem. A versão de Mamoru Oshii surgiu em 1995 e foi uma das influências para The Matrix dos Wachowsky, e esta versão de Rupert Sanders (com Snow White and the Huntsman no currículo) surge numa altura em que quase todo o entretenimento cinematográfico encontra-se contagiado pelo referido frenesim cyberpunk. Resultado, apenas chuva em terra molhada. 

 

"Well, maybe next time you can design me better."

 

Real.: Rupert Sanders / Int.: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Juliette Binoche, Anamaria Marinca

 

MV5BMTk0MDY3Mjg3N15BMl5BanBnXkFtZTgwNDAyMzk1MDI@._

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 00:58
link do post | comentar | partilhar

20.3.17

7f16109f1619fd7a733daf5a84c708c1.jpg

 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

power-rangers-second-trailer-team.png

 

Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

MV5BNjI1OTAwNDUxOV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTA5MTkxMTI___

 

Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

power-rangers-2017-poster-teaser.jpg

 

Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

de2a5c14c072782e2dda4314b7f78704ce7fc4fb.jpg

 

Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

power-rangers-2017-movie-zordon.jpg

 

But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

"It's morphin time"

 

Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

MV5BMjQwNTU1MzM4MF5BMl5BanBnXkFtZTgwOTEyODI3MTI@._

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:50
link do post | comentar | partilhar

14.3.17

Bela e o Monstro (2017).jpg

Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

la-et-mn-beauty-and-the-beast-review-20170316.jpg

 

Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

beautyandthebeast-beast-window.jpg

 

Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

gallery-1478513336-belle-and-her-father-beauty-and

 

Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

beauty-and-the-beast-trailer.jpg

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 15:15
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

16.2.17

Grande Muralha.jpg

Há uma muralha que separa Yimou Zhang do seu cinema!

 

Existe uma linha directa que une este megalómano blockbuster chinês com o mais recente filme de Jia Zhang-ke, Mountains May Depart (Se As Montanhas Afastam). É tudo uma questão de identidade, e a China tem sido uma das civilizações mais fustigadas pela injecção ocidental e globalizada dos tempos que decorrem. No referido de Zhang-ke, num futuro próximo, existirão escolas para reabilitação da cultura chinesa, onde chineses estudam para ser chineses e manter vivo as suas heranças.

 

MV5BMjA3NjI5Mjk0Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwNzQzODc0MTI@._

 

Em The Great Wall (A Grande Muralha), a produção mais cara até à data em território chinês, é um exemplo de como o cinema, por vias de chegar a um vasto leque de audiências, abdica da sua essência hereditária em prol de um espectáculo contagiado pelo modus operandi dos grandes estúdios norte-americanos. O mais frustrante desta experiência é o nome Yimou Zhang surgir nos créditos. O realizador de épicos chineses como Hero e House of Flying Daggers, revela a sua fascinação pelo luxuoso e pelo pomposo, mas "vende a sua alma ao Diabo". É um realizador convertido ao anonimato, tecendo uma câmara imparável que nunca em momento algum deseja "descansar" (aprendendo os tiques de um Michael Bay, por exemplo) e pela artificialidade com que esta narrativa tende em recriar.

 

MV5BMjE4OTA4Nzg1OF5BMl5BanBnXkFtZTgwOTA0MDg1OTE@._

 

No geral, esquecendo de nomes, A Grande Muralha é de uma ciência básica no storytelling, requisitando estrelas internacionais para induzir conteúdo mitológico a audiências habituadas à linguagem do cinema blockbuster. Tal, como manda esses contratos "faustianos", esta produção cede-se aos lugares-comuns, ao humor ligeiro de puro comic relief (encarregue por Pedro Pascal), à submissão dos efeitos visuais e a um argumento de uma imaginação pobre e preguiçosa. Em terras do wuxia faz-se "coisas" destas. Resultaria, se não fosse tão desprovido do efeito série B. No fim de contas, Jia Zhang-ke é que tinha razão, a identidade é valiosa, mas igualmente frágil.

 

Real.: Yimou Zhang / Int.: Matt Damon, Tian Jing, Willem Dafoe, Pedro Pascal, Andy Lau

 

great_wall_ver16_xxlg.jpg

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 12:22
link do post | comentar | partilhar

21.12.16

Passageiros (2016).jpg

No Espaço ninguém pode sentir a sua solidão!

 

Para muitos, estar "isolado" com Jennifer Lawrence seria uma fantasia realizada. Para os espectadores de Passengers (Passageiros) é um turbilhão de emoções, e todos fora do campo positivo.

 

rs_1024x683-160920055455-1024.passengers-chris-pra

 

Dirigido por Morten Tyldum, o mesmo realizador do bem-sucedido The Imitation Game, eis uma variação espacial de A Lagoa Azul com um dos casais mais esperados para os eternos deliciados em grandes produções de Hollywood. De um lado temos, como já havia referido, Lawrence a desempenhar a mulher mais intelectual num raio de anos-luz e Chris Pratt, o Starlord para adeptos da Marvel, como o Robison Crusoé espacial. Ambos são os únicos despertos numa nave espacial com destino a uma colónia do outro lado do Universo, trazendo a bordo milhares de passageiros, todos eles sob um tremendo estado de hibernação (e com o despertador programado para 90 anos depois).

 

df04255_r.jpg

 

Pratt e Lawrence são o casal maravilha, e não é a química que o ordena, mas o isolamento, uma força imperativa que os junta de forma tão rotineira como qualquer romance de Nicholas Sparks. E como qualquer relação a dois, eis o terceiro elemento: um o andróide-barman com a face de Michael Sheen a servir de conselheiro matrimonial e de propaganda para os gastos no sector dos efeitos visuais.

 

chris-pratt-and-jennifer-lawrence-in-the-passenger

 

Passageiros é um filme vincado no star system com um enorme "apetite" para um enredo minimalista, se não fosse … aí está … Hollywood a fazer das suas e a tomar algo adquirido numa fórmula circense. No meio, temos o eventual "conflito": o A para B que coloca a vida dos nossos "passageiros" em risco e os heróis de ocasião, que tão bem acompanham o nosso pacote de pipocas. É um espectáculo visto e revisto, com todas os requisitos para romance descartável de grande ecrã e cameos involuntariamente hilariantes (actores de renome que servem de figurantes por 3 segundos).

 

2016%2F09%2F20%2F2b%2Fjenniferlawrencepassengers20

 

Resumindo, este é um filme que ousa em não sair da sua posição vampírica em relação às estrelas que a lideram. Vive e sobrevive dos protagonistas, e mostra-se sem "motor" para avançar delicadamente no espaço. Esqueçamos comparações com Moon ou até Sunshine. Isto é Hollywood na sua forma mais gratuita.

 

Real.: Morten Tyldum / Int.: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia

 

jennifer-lawrence-passengers-2016-promo-images-2.j

 

 

4/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 18:27
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

The Snowman (2017)

Al Berto (2017)

Train to Busan (2016)

Wind River (2017)

Dunkirk (2017)

Spider-Man: Homecoming (2...

Tom of Finland (2017)

The Mummy (2017)

L'Amant Double (2017)

Radiance (2017)

últ. comentários
Muito bom o teu blog, Hugo! Continua com o excelen...
Boas biopics são os verdadeiros e honestos retrato...
Boa Tarde; enviei-lhe um email para o seu email. O...
Uma Jóia do Cinema. O Kubrick sempre foi muito sub...
Já tinha visto este trailer e antes de ver fiquei ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
9 comentários
3 comentários
3 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO