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20.3.17

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 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

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Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

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Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

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Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

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Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

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But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

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Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:50
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14.3.17

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Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

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Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

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Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

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Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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16.2.17

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Há uma muralha que separa Yimou Zhang do seu cinema!

 

Existe uma linha directa que une este megalómano blockbuster chinês com o mais recente filme de Jia Zhang-ke, Mountains May Depart (Se As Montanhas Afastam). É tudo uma questão de identidade, e a China tem sido uma das civilizações mais fustigadas pela injecção ocidental e globalizada dos tempos que decorrem. No referido de Zhang-ke, num futuro próximo, existirão escolas para reabilitação da cultura chinesa, onde chineses estudam para ser chineses e manter vivo as suas heranças.

 

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Em The Great Wall (A Grande Muralha), a produção mais cara até à data em território chinês, é um exemplo de como o cinema, por vias de chegar a um vasto leque de audiências, abdica da sua essência hereditária em prol de um espectáculo contagiado pelo modus operandi dos grandes estúdios norte-americanos. O mais frustrante desta experiência é o nome Yimou Zhang surgir nos créditos. O realizador de épicos chineses como Hero e House of Flying Daggers, revela a sua fascinação pelo luxuoso e pelo pomposo, mas "vende a sua alma ao Diabo". É um realizador convertido ao anonimato, tecendo uma câmara imparável que nunca em momento algum deseja "descansar" (aprendendo os tiques de um Michael Bay, por exemplo) e pela artificialidade com que esta narrativa tende em recriar.

 

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No geral, esquecendo de nomes, A Grande Muralha é de uma ciência básica no storytelling, requisitando estrelas internacionais para induzir conteúdo mitológico a audiências habituadas à linguagem do cinema blockbuster. Tal, como manda esses contratos "faustianos", esta produção cede-se aos lugares-comuns, ao humor ligeiro de puro comic relief (encarregue por Pedro Pascal), à submissão dos efeitos visuais e a um argumento de uma imaginação pobre e preguiçosa. Em terras do wuxia faz-se "coisas" destas. Resultaria, se não fosse tão desprovido do efeito série B. No fim de contas, Jia Zhang-ke é que tinha razão, a identidade é valiosa, mas igualmente frágil.

 

Real.: Yimou Zhang / Int.: Matt Damon, Tian Jing, Willem Dafoe, Pedro Pascal, Andy Lau

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:22
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21.12.16

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No Espaço ninguém pode sentir a sua solidão!

 

Para muitos, estar "isolado" com Jennifer Lawrence seria uma fantasia realizada. Para os espectadores de Passengers (Passageiros) é um turbilhão de emoções, e todos fora do campo positivo.

 

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Dirigido por Morten Tyldum, o mesmo realizador do bem-sucedido The Imitation Game, eis uma variação espacial de A Lagoa Azul com um dos casais mais esperados para os eternos deliciados em grandes produções de Hollywood. De um lado temos, como já havia referido, Lawrence a desempenhar a mulher mais intelectual num raio de anos-luz e Chris Pratt, o Starlord para adeptos da Marvel, como o Robison Crusoé espacial. Ambos são os únicos despertos numa nave espacial com destino a uma colónia do outro lado do Universo, trazendo a bordo milhares de passageiros, todos eles sob um tremendo estado de hibernação (e com o despertador programado para 90 anos depois).

 

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Pratt e Lawrence são o casal maravilha, e não é a química que o ordena, mas o isolamento, uma força imperativa que os junta de forma tão rotineira como qualquer romance de Nicholas Sparks. E como qualquer relação a dois, eis o terceiro elemento: um o andróide-barman com a face de Michael Sheen a servir de conselheiro matrimonial e de propaganda para os gastos no sector dos efeitos visuais.

 

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Passageiros é um filme vincado no star system com um enorme "apetite" para um enredo minimalista, se não fosse … aí está … Hollywood a fazer das suas e a tomar algo adquirido numa fórmula circense. No meio, temos o eventual "conflito": o A para B que coloca a vida dos nossos "passageiros" em risco e os heróis de ocasião, que tão bem acompanham o nosso pacote de pipocas. É um espectáculo visto e revisto, com todas os requisitos para romance descartável de grande ecrã e cameos involuntariamente hilariantes (actores de renome que servem de figurantes por 3 segundos).

 

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Resumindo, este é um filme que ousa em não sair da sua posição vampírica em relação às estrelas que a lideram. Vive e sobrevive dos protagonistas, e mostra-se sem "motor" para avançar delicadamente no espaço. Esqueçamos comparações com Moon ou até Sunshine. Isto é Hollywood na sua forma mais gratuita.

 

Real.: Morten Tyldum / Int.: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:27
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14.12.16

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A facturar com a nostalgia!

 

Há quem ainda acuse George Lucas de ter sido o "cancro" de uma saga tão querida para milhões. Desde a suas remasterizações e "remexidelas" na trilogia original em múltiplas edições de home video, até aos três filmes produzidos entre 1999 e 2005 que actualmente é esquecido por muitos. Mas não devemos ignorar, que apesar do resultado, Lucas tentou expandir o Universo que ele próprio criou com alguma inovação, quer tecnológica, quer narrativa.

 

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Porém, vivemos num Mundo onde a personalidade parece ser condenável, e depois de uma homage algo cobarde (diga-se por passagem), por parte de J.J. Abrams, chega-nos o intitulado Rogue One, uma referência no scroll credits de 1977 que originou um filme sob tons bélicos e de tamanha "piscadela de olhos" a temáticas politicas. Enfim, politicas e Disney nunca se misturaram, relembro o caso de Civil War onde super-heróis disputavam entre si consoante as suas fraudulentas ideologias. Neste Star Wars, tal é o fogo brando do extremismo oriental, como muito media ocidental parece insinuar, e o liberalismo em acordes de guerrilha-activista, que tenta soar com seriedade neste "world building" formatado.

 

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Contudo, Star Wars não é uma distopia politica sob o formato de sci-fy, é simplesmente a tentativa de vender e extrair até à última gota uma memória, uma nostalgia e um sentimento que muitos guardam fervorosamente dentro de si. O resultado não é um filme francamente mau em termos técnicos (tirando o uso e o abuso do motion capture para a ressurreição de personagens vencidas, até porque "Peter Cushing is not alive anymore"), é sim, uma réplica, uma obra despersonalizada exercida sobre personagens de tamanha causticidade na sua concepção. Nada de sólido, só "carne para canhão".

 

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Depois temos os inevitáveis cameos, o fan service a vingar sobre os fãs, e um enredo rotineiro que joga-se forçosamente na cronologia estrelar. Para nosso encanto, é mesmo Ben Mendelsohn a perpetuar como vilão de serviço (mas já está na hora de abandonar a "sacanice"), e a banda-sonora saudosista de Michael Giacchino que segue a tradição de John Williams. Mas fora isso, é a indústria megalómana comanda, transformando, o então astuto Gareth Edwards (que ressuscitou com algum agrado Godzilla em terras estadunienses), num mero "moço de recados".

 

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Temos que perdoar os pecados de George Lucas, ao menos ele trouxe uma breve sensação de novidade a um franchise, que não inventou o Cinema como muitos acreditam, mas que redefiniu os moldes do entretenimento cinematográfico para grandes massas. Sim, os fãs vão "venerar", mas Rogue One nada de relevante tem para o Cinema, e isso meus amigos, em épocas de produtos bem "lubrificados", não é nada.

 

"Make ten men feel like a hundred."

 

Real.: Gareth Andrews / Int.: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Wen Jiang

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 17:58
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10.11.16
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O Contacto de Villeneuve!

 

Arrancando sob acordes de Max Ritcher e o seu On the Nature of Daylight, Arrival exibe a pior faceta de Denis Villeneuve, a ausência de personalidade. Depois de um grupo de obras que tem-se destacado pelas diferentes virtudes, tons e estilos, tendo como ponto alto o ainda fresco "Sicário", Villeneuve começa por fazer "maliquices", ou seja "caiu" na ideia, na possibilidade alguma de ser Terrence Malick. Se Malick já existe um, e mesmo assim, essa unidade chega-nos a irritar perante um estilo tão caoticamente ambicioso, quanto mais as imitações. Enfim, com filmagens de natureza, crianças e um coming-to-age em modo flash forward, tudo pontuado com a narração "filosófica" de Amy Adams, este é o nosso "primeiro encontro". Queremos sair, até porque este não foi o filme que nos prometeram, aquele dos trailers e das boas críticas vindas directamente de Veneza que nos falavam duma continuação intra-espécies de Sicário. Não, ao invés disso temos uma insuportavelmente e pretensiosa esquizofrenia.

 

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Mas esperem, existe uma esperança ao fundo do túnel, é que depois de terminada as "maliquices", segue assim, a premissa, as invasões alienígenas e um Mundo em pleno estado de alerta perante estes "visitantes from outter space". A nossa Amy Adams é um linguista prestigiada (considera o português numa língua romântica e artística), que é abordada pelo Exército Norte-Americano para servir de ponte diplomática com estes "visitantes", que cujo grande obstáculo é a discrepante divergências entre as duas línguas e dicções. A nossa protagonista avança então com um elaborado plano para conhecer radicalmente o alfabeto destes, e vice-versa.

 

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Em Arrival (não confundir com o filme protagonizado por Charlie Sheen), existe ecos desse Sicário - a força da protagonista, a mulher que quebra a fronteira e relaciona com um mundo inimaginável. A fórmula está aqui representada, só fica a faltar as particularidades desta nova aventura de Villeneuve. Enquanto uns, pasmaceiam perante o ritmo calmo e astutamente manipulado por Arrival, outros questionarão o próprio argumento que se assume "inteligente". Há dois anos consecutivos que levamos com filmes que tentam contrair esse mesmo estatuto, o de "muito inteligente para as audiências, e ao mesmo tempo entretenimentos de qualidade". Refiro a Interstellar e The Martian, duas obras que beneficiaram das ligações publicitárias da NASA, porém, este Arrival não possui o mesmo tratamento, mas a sensação é exactamente replicada.

 

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Serão poucos que vão constatar as inverosimilhanças do argumento, principalmente no "motivo criado" para colocar a heroína na dita acção e assim avançar-se na intriga, da mesma forma que nos tremendos Deus Ex Machina. Soluções de última hora, que não são mais que meros "tapa-buracos" com graves aspirações a um determinado filme de Robert Zemeckis, sim, esse mesmo, O Contacto (1997). Se já Interstellar, de Christopher Nolan, ia buscar essa fonte, em Arrival a inspiração é mais que evidente, e o filme não consegue contornar isso, mesmo pretendendo seguir direcções menos identificáveis. Ah … já me ia esquecendo, sabem que mais? Eis mais um bajulador produto para os mercados chineses.

 

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O que nos resta? Bem, este "lost in translation" tem a maior ambição de transformar-se numa "pescadinha com rabo na boca", até porque pensávamos que as "maliquices" tinham terminado no prelúdio. Pensávamos que sim … mas não é que Villeneuve recorda-se desse mesmo cosplay! E assim ficamos com um filme tecnicamente irrepreensível (nota-se a repescagem do compositor de Sicário, Jóhann Jóhannsson) , com desempenhos agradáveis dos seus actores e uma tendência de se perder gradualmente do seu carris. Esta é a provável grande desilusão do ano, a prova de que Denis Villeneuve está no "caminho certo" para virar tarefeiro em terras de Hollywood.

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Tzi Ma, Michael Stuhlbarg

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 13:55
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Com a verdade me enganas!

 

Promete dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade?” Prometo … e prometo afirmar que os papeis de advogados para o inexpressivos Keanu Reeves assenta-lhe que nem uma luva. Prometo ser sincero que ao declarar que nesta réplica ao sucesso de Devil's Advocate, Reeves é um rei, mesmo que o filme que lhe sirva de trono é um thriller padronizado de Courtney Hunt, a mesma realizadora de Frozen River. Confesso ainda que The Whole Truth não é, nada mais, nada menos, que o título que fugiu do circuito home video (ou VOD, adequando-se aos novos tempos). Um filme que recupera alguns “mortos vivos” de Hollywood, entre quais um Jim Belushi que evita o foro cómico como o “diabo foge da cruz”, e uma irreconhecível Renée Zellweger, que tirando o seu “não estava a espera disso” êxito de Bridget Jones, parece não ter lugar no cinema actual.

 

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Mais alguma coisa a declarar neste tribunal?” Posso dizer que o filme não merece este esforço conjuntivo de ser falado. Todo o enredo oscila entre a vulgaridade, até ao involuntariamente cómico, passando por um plot twist que nos envergonha com tamanha incapacidade. Mas devo acrescentar que perante uma indústria que nos conduz a filmes exageradamente pretensiosos, politicamente perversos, um leque imenso de super-heróis e adaptações de tudo e ao mesmo tempo de nada, biopics a cobiçar prémios sazonais ou ainda comédias com Melissa McCarthy, The Whole Truth convence-nos pela sua humildade. Aquela honestidade de não querer ser mais do que realmente é, nem de se convencer com grandes aptidões enquanto não os tens, e mais, aguentar-se “à bomboca” perante o enredo ridículo que ostenta.

 

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Então, considera o nosso réu inocente?” O que tentei dizer é tendo em conta o nosso panorama industrial cinematográfico, The Whole Truth é tão inofensivo que o torna inocente. Sim, isso mesmo, inocente. “Meritíssimo, não tenho mais nenhumas perguntas para a nossa testemunha?””Muito bem, testemunha dispensada.”

 

Real.: Courtney Hunt / Int.: Keanu Reeves, Renée Zellweger, Gugu Mbatha-Raw, Jim Belushi

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:56
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6.11.16

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Perfeito, perfeito … era inovação!

 

Vamos por partes, a esta altura do campeonato, cruzar ficção com documentário, o docudrama que os portugueses tão bem sabem fazer, já não possui ciência nenhuma, muito menos quando os objectivos de um filme como este El Futuro Perfecto não sejam sobretudo claros.

 

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Dirigido por Nele Wohlatz, alemã radicada na Argentina, este é um filme onde a evidente intenção é apresentar a condição do imigrante e demonstrar que mesmo em perseguição de um “better place”, sonham e aspiram por um "futuro perfeito". A língua é também um importante vinculo identitário e até certa altura El Futuro Perfecto aposta nas palavras soltas, ensinadas sob a intenção de sobrevivência e sem um mínimo despejo emocional. Mas também é sob esse tratamento frio e encoberto que nos descortina uma mensagem perigosa e por vezes nacionalista, será que este grupo de personagens que cede à cultura de fora é característica de tamanha inexpressividade, será que uma língua oposta aquela que nós dialogamos as tornam em relativos "humanóides robóticos".

 

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Emoção, é decerto, aquilo que a obra de Wohlatz não ostenta, e como prova dessa falta de interacção humana, empatia é algo que nos falha enquanto espectador. Mas enfim, o que dizer do resto deste exercício de hibridez documental? El Futuro Perfecto esgota a sua virtude experimental em minutos, depois do "I get it", tudo é recorrido para crise identitária por parte da personagem principal, a jovem chinesa Xiaobin, que auto-intitula-se de Beatriz e até certa altura de Sabrina. A rapariga, que entra em restaurantes para poder ler o respectivo menu, em busca de uma ligação carnal com as palavras em dialecto latino, vive um romance imaginário que a coloca no trilho da sua escapatória emocional.

 

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Essa dita relação é vazia e penosa de assistir, a culpa é diversa, ou os actores (não-actores) não possuem a aptidão de ultrapassar as palavras, ou a realizadora não procurava qualquer foro emocional para não cair no erro de ceder ao telenovelesco. Conforme tenha sido a decisão, este é o romance (se poderemos chamar assim), mais "gelado" dos últimos anos. El Futuro Perfecto fica-se pelo exercício, mas uma experiência vista e revista vezes sem conta. Esperemos que o futuro de Nele Wohlatz soe melhor que isto.

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Nele Wohlatz / Int.: Xiaobin Zhang, Saroj Kumar Malik, Mian Jiang

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
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2.11.16

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Ben Affleck, o exterminador incontável!

 

Parece que Rain Man teve um encontro com Taken e dessa noite gerou algo como este The Accountant - Acerto de Contas. Um thriller de acção que remete-nos a um contabilista, diversas vezes associado à marginalidade e ao crime organizado, que afinal de contas sofre de um certo grau de autismo, o que o torna em; a) um anti-social,  b) num extremo obsessivo em concluir as suas tarefas, e c) uma verdadeira máquina de matar. Tudo isto integrado numa direcção de Gavin O'Connor (Warrior), que seguindo os passos das suas últimas obras (excepto Jane Got a Gun), remexe novamente nas panóplias do amor fraternal.

 

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The Accountant é dotado de uma certa fragrância de série B … e poderia, tendo em conta esta prolongada premissa que salta diversas vezes da acção "à la Luc Besson", para a comédia involuntariamente romântica (a inclusão de Anna Kendrick aqui, não foi fruto do acaso). Mas não foi isso que aconteceu, até porque temos Ben Affleck no protagonismo, e visto que este mártir de Hollywood tem tentado drasticamente mudar o rumo da sua carreira nos últimos anos, assim como a sua imagem na indústria cinematográfica, o filme tende em seguir o pretensiosismo de um drama académico.

 

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Resumindo, tudo é levado intrinsecamente a sério. Porém, Ben Affleck até consegue assumir-se como o melhor deste enésimo capítulo de acção mal contado e escravizado pelos mesmos entediantes dispositivos narrativos. Ou seja, flashbacks com fartura, aqueles planos e pormenores focados para depois serem invocados num plot twist (onde só não vê quem é cego), e pela pachorra para aguentar mais um punhado de histórias trágicas, apenas presentes para se inserir nos motivos nas nossas personagens.

 

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Sim, Gavin O'Connor nunca fora prezado pela sua originalidade, nem sequer ao tentar evitar o previsível, mas ao menos sabe como entregar uma história, um factor que é aqui esquecido, abusado pelo argumento incapaz de Bill Dubuque. Será amnésia? Não sabemos, porém, vamos supor que realmente aconteceu algo do género.   

 

"Sooner or later, different scares people."

 

Real.: Gavin O'Connor / Int.: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal, Jeffrey Tambor, John Lithgow, Cynthia Addai-Robinson

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 18:06
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26.10.16
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Para onde vamos agora?

 

Vamos ser claros, Wang Bing é daqueles documentaristas com iniciativa, em constante busca por temas transgressivos e, alguns deles, tabus de uma China em plena crise identitária e moral. Sim, ele é incansável no seu trabalho de terreno, nas horas de filmagem, na abrangência do seu olhar que neste caso é a lente da sua câmara, tão operacional como ele.

 

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Porém, falta-lhe a objectividade, sobretudo no campo da edição. Existe nele uma possessão de material realmente forte, o que o impossibilita descartar algum do seu tempo de filmagem em prol do produto final. Em consequência, são filmes como estes, de temas fortes, mas sem a força necessária para que o espectador "abrace a causa". Talvez seja por isso que Wang Bing filma tanto, as suas criações não são centradas, nem devidamente frontais para com que realidade que o próprio encara, são objectos deambulados, etnograficamente ricos como documentos de igual matéria, longe da provocação que precisa para realmente ser ouvido.

 

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O documentarista chinês não faz "épicos de violência social", faz ensaios cansativos e completamente desarmantes de temas que deveriam ter o seu "quê" de alarme, e neste caso, Ta'ang, este registo do exilo levado a cabo por famílias inteiras burmesas, como escape da guerra civil, parece apenas servir como uma decoração para ferir os mais susceptíveis. São quadros vivos, mas dentro deles, existem pessoas que lidam com a sua desgraça, uma má sorte que para Wang Bing são matéria que compõem o seu mais recente ensaio de "poverty porn", um embrião dos reality shows dotados de uma certa tendência fetichista.

 

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A envolvência neste mundo em "cacos", onde as "personagens" tendem em lidar com as suas próprias situações, deixando para trás partes integras das suas vidas em busca de quem os acolhe, algo mediático tendo em conta a crise dos refugiados que nos bombardeia os medias, sendo que Ta'ang revela-nos um caso especifico ignorado por estes mesmos. Uma viagem desesperante sem fim, que o realizador filma com a maior das tranquilidades. Sentimo-nos cúmplices perante este mau trabalho de investigação, onde os testemunhos secam perante o "on" prolongado da câmara, sem qualquer indicio de moderação nem coordenação.

 

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Talvez, Wang Bing não queira manipular esta realidade, e nisso faz ele muito bem, porém, o que adianta mostrar por mostrar, o que adianta captar este novo-realismo que não nos electriza, ao invés disso nos entendia da forma mais emocional possível. Será Wang Bing um voyeurista da desgraça alheia? Pelos vistos sim, nada aqui aponta-nos estarmos cara-a-cara com o documentarista do novo século como fora aclamado desde sempre. 

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Wang Bing

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:26
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13.10.16
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Quando o Código Da Vinci é longínquo e os Anjos e os Demónios foram ontem!

 

Espero que tenham tomado aquele batido forte rico em nutrientes e que tenham vestido o vosso melhor fato de treino, porque a corrida pelos monumentos e museus vai agora (re)começar. Eis a terceira parte da trilogia de Robert Langdon, a personagem imaginada por Dan Brown nos seus respectivos bestsellers, um homem de muitos talentos cujo melhor é simplesmente “imitarJohn McClane no que requer a inserir-se em situações difíceis.

 

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Comparativamente, este terceiro capítulo é narrativamente mais fluido e coerente que o dolorosamente inseguro Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006), um polémico êxito que não confirmou a sua qualidade, mas sim o oportunismo de Hollywood por sucessos fáceis. Mas é na comparação que este Inferno ganha aos pontos, porque como produto separado não chega a intitular-se de thriller de requinte, aliás contrai os mesmos defeitos que os seus antecessores, “deixa-se levar demasiado à letra”. Enquanto que a escrita de Dan Brown soa mais um guião que um livro, Ron Howard, o ocasionalmente competente e tarefeiro de Hollywood, raramente consegue incutir cinema nestes episódios, apenas ilustrações de um mundo ao virar da página com bonecos ao invés de personagens.

 

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Com Dante como temática, este Inferno prometia um diabólico mistério pela arte de Florença e os marcos históricos da transição da Idade Média para o Renascimento, assim como a exploração do teor religioso despoletado pelo famoso escritor, esse “interminável fosso de 9 câmaras onde milhões de almas torturadas são julgadas pelos seus pecados”. Mas infelizmente não foi isso que aconteceu, Inferno, de Dan Brown, contrai os mesmos males que muitas grandes produções de hoje, carece de paciência e o mesmo se pode dizer do espectador, cada vez mais impaciente.

 

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Sem essa solicitude na forma, o resultado é uma hiperactividade na sua própria narrativa, aliás o mistério nunca adensa, não, senhor, o que importa é quebrar todos os enigmas a tempo recorde, salvar a Humanidade de uma iminente destruição e por meio de flashbacks, às três pancadas, atribuir um “background” ao seu leque de personagens. Tom Hanks, apesar da repetência, continua um “estranho” na saga, e até as novas aquisições, como Felicity Hoffman, Omar Sy e  Irrfan Khan, são meramente reduzidas a “checkpoints”. Todavia vale a pena mencionar a presença de Sidse Babett Knudsen, que esteve presente no magnifico conto de fetichismo sexual - The Duke of Burgundy.

 

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Obviamente que este é outro caso de sucesso à la Robert Langdon, escusado dizer que não é a sua qualidade que reflectirá o impacto de uma fervorosa campanha de marketing, mais crente que a própria matéria.

 

Real.: Ron Howard / Int.: Tom Hanks, Sidse Babett Knudsen, Ben Foster, Felicity Hoffman, Omar Sy, Irrfan Khan, Ana Ularu

 

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publicado por Hugo Gomes às 11:59
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3.10.16

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Próxima paragem!

 

Alguém gosta de brincar aos thrillers e essa pessoa certamente não é Tate Taylor. O homem por detrás do "querido", mas nada transgressivo, The Help: As Serviçais, adapta o grande êxito literário de Paula Hawkins, A Girl on a Train (A Rapariga do Comboio), uma trama que nos leva ao nosso consciente voyeurista adensado num plot de conspirações a lá hitchcockianas (a culpa e comboios tem muito a sua "cara"). Infelizmente, tal como o livro, o filme acaba por sofrer de uma premissa sob direcções óbvias, neste caso o "wannabe" de um arquétipo fincheriano a tenta "replicar" o sucesso de Gone Girl.

 

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Pois, conturbações matrimoniais são tema delicado e certeiro na devida sensibilidade, em A Rapariga do Comboio, essa mesma "sensibilidade" é substituída por um receio rigoroso de não falhar o alvo. A começar pelo início, onde a narrativa ramifica por capítulos literários que por sua vez saltam como "saltimbancos" por entre as diferentes perspectivas das personagens. Uma indicação de que os envolvidos não estavam meramente interessados em atribuir "folgas" para "criatividades" e liberdades de algum género. O plano é adaptar e agradar os leitores, mais do que reinventar o que está escrito. Mesmo que para isso, ofereça-nos um início fiel a Paula Hawkins, para depois esquecer de redefinir tal formula durante os prolongamentos.

 

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Até porque narrativas em paralelo não é coisa que agrade o público mainstream, ou será que agrada? A verdade é que esta teia de enredos e subenredos que nos levam ao fundo mistério perde as suas determinantes definições, assim como o filme avança até aos eventuais plot twists que vão surgindo, sistematicamente como manda a sapatilha. Falta o desafio no espectador, falta o lançar da dúvida e os "iscos" à nossa mercê. Mas não, A Rapariga no Comboio prefere apostar no seguro, segue as páginas do livro como um esqueleto do guião, sem perceber que é preciso trabalhar relações e personagens secundárias, é sim, preciso separar as águas da matéria-prima e da adaptação.

 

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Tate Taylor atribui o seu quê de profissionalismo, a sensação de que estamos a ver um thriller de categoria A sem saber que tudo resume a uma chapa B preguiçosa, automática, limpa e incoerente na trama e míope na realização (faz lembrar o equivoco de o Código DaVinci). Um confirmado receio de criar um "universo" para além das descrições contidas nas páginas de Paula Hawkins, o que só resume a ilustrações sem alma. Por fim, lanço o caos, Emma Blunt não é par para o filme, para além do seu esforço em vão, o seu casting é mais que uma desculpa do "tratamento estético" que muita da Hollywood aposta (quem leu o livro vai perceber o que digo). Em contraponto, Haley Bennett parece ter sido uma escolha acertada. Fica para a próxima paragem!

 

Real.: Tate Taylor / Int.: Haley Bennett, Emily Blunt, Justin Theroux, Luke Evans, Rebecca Ferguson, Allison Janney

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:35
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28.9.16

Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiare

Peculiar? Tim Burton faz o que pode, e mais não é obrigado. Será?

 

Verdade seja dita, saturados andamos com enésimas adaptações de livros infanto-juvenis de teor fantástico [vórtice 1]. Verdade seja dita, Tim Burton consegue trazer com tema tão explorado um certo grau de rigor e estilismo [vórtice 2]. Verdade seja dita, nem Burton é capacitado o suficiente para retirar a "milésima experiência" no ramo da mediocridade de estúdio formatado [vórtice 3].

 

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Inspirado na escrita de Ransom Riggs, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (título traduzido) possui os ingredientes integrais para agradar uma faixa etária, "comovo-nos" com humanos "especiais" e com heróis em modo "the one", envolvidos num pano de fundo da Segunda Guerra Mundial. Em Tim Burton tal matéria daria asas às suas catarses da "normalidade", assim como havia feito no ainda imbatível Edward Scissorhands (Eduardo Mãos de Tesoura). Mas nada disso, sendo possível identificar os "dedos" burtonescos do realizador, assim como uma certa ousadia em transgredir por entre a "normalidade" da produção, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é um daqueles casos de que a originalidade não "mora aqui".

 

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A culpa é de Ransom Riggs, poderão proclamar muitos, e a verdade sim, mas nada invalida que a produção cinematográfica sofra com todos os sindromas que abatem este subgénero de filmes, muito mais nas fases pós-Harry Potter, ou pós-Twilight, onde tudo que soava franchise juvenil-literário era motivo de adaptação. A começar por uma prolongada introdução deste universo fantástico até chegar a personagens rebuscadas sob uma infelicidade enorme de serem reduzidas a adereços do bizarro e até mesmo Eva Green, apostada como a grande protagonista, numa caricatura de si própria. Já que falamos de caricaturas, porque não mencionar Samuel L. Jackson.

 

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Todo este arrastar pouco emocional e de território previsível termina sob "dinâmicos" acordes, um climax apressado, demasiado tosco e pueril que não deixa ninguém indiferente. Sim, o estúdio tem medo da palavra "flop", e há motivos para alarmes, vivemos em tempos que Spielberg já não é nome certo para o sucesso, por isso, Tim Burton também pode falhar nessa vertente comercial, sendo que tais pensamentos nos reflectem sobre o sucedido: "existe receio em apostar em mais um franchise".

 

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Continuando com o "vórtice" da "verdade, seja dita", muitos serão tentados a responder que Tim Burton é acima de tudo um autor, e a menor obra deste pode ser considerado melhor que os dos outros, pois, é nesse estatuo que o nosso realizador precisa de uns "calduços". Vendeu a sua personalidade à indústria e voilá … o pior filme da sua carreira. Sim, mais esquecível que a "macacada" de 2001. Vale pelo previsível; cenários, efeitos visuais e sonoros e o estilo ainda "burtonesco" que corre nas veias das personagens.

   

Real.: Tim Burton / Int.: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Chris O'Dowd

 

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1.9.16

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Uma Diva Fora de Tom? Será só a "diva"?

 

Florence, Uma Diva Fora de Tom (título traduzido) centra na história de uma aristocrata que sonha protagonizar uma ópera. Um sonho que poderia ser facilmente cumprido se ela não possuísse a mais "inaudível das vozes" … esperem aí … será que estou a viver um déjà vu! Tal história já não havia sido adaptada ano passado? Mas afinal o que se passa aqui?

 

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Não se trata de nenhuma recordação de vidas passadas, mas sim, da resposta norte-americana a Marguerite, um filme francês de Xavier Giannoli que apresentava Catherine Frot como uma aficionada de música que sofre de um grande mal … é desafinada "o quanto farta para cantorias". Mas esse "pequeno" grande defeito é ocultado da protagonista. Como? Com concertos encenados, opiniões forjadas e uma dedicação "martirologica" do seu marido. Mas nada disso impediu que Marguerite Dumont (referência à actriz Margaret Dumont, que constantemente contracenava com os irmãos Groucho) cumprisse a sua intima "fantasia" de ser um "anjo" em palco.

 

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Marguerite [o filme] foi um êxito, quer financeiro, quer artístico, conseguindo trespassar a sua ideia anedótica para um negro retrato sobre a arte como objecto de ostentação. Pelo meio passava algumas e óbvias incursões de Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder. Contudo, não devo avançar mais, até porque esta é a crítica de um outro filme. Sim, a de Florence, A Diva Fora de Tom, a previsível aposta para a vigésima da nomeação ao Óscar de Meryl Streep (e porque a Academia adora ousadia, óbvia ironia para quem não percebeu), é mais um "biscate" de Stephen Frears. A replicada história, agora, readaptada sob a desculpa de factos verídicos.

 

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Pelos vistos existiu na realidade uma "pior cantora de sempre" e que se dá pelo nome de Florence Foster Jenkins, uma herdeira nova-iorquina que conseguiu, nos anos 40, um espectáculo no histórico Carnegie Hall, mesmo tendo como seu grande inimigo uma voz "torturante". Meryl Streep, como sempre, encarna na sua personagem com garra e ousadia (mais que o próprio filme), mas infelizmente é na sua composição que esta produção hollywoodesca falha em todo os sentidos. Florence é demasiado "angelical", sem o pingo de loucura de Catherine Frot e induzida num quadro semi-hagiógrafa. É o problema destes biopics sob constantes piscadelas aos prémios da Academia, tendem em branquear em demasia as suas personalidades centrais (a relembrar o falhado retrato de Margaret Thatcher em The Iron Lady, novamente com Meryl Streep na "calha").

 

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Florence, Uma Diva Fora de Tom resume a um produto que falhou em consolidar a sua própria nota musical, tentando dispersar na imensidão cinematográfico, porém, encenando somente a mesma fórmula cinebiográfica. O tom, esse, é mais anedótico que o primo gaulês, encarando a história de Florence Foster Jenkins num prolongado gag de sitcom (demasiado trocista em relação à sua protagonista). A salientar ainda, Hugh Grant em forma e a surpresa de Simon Helberg numa variação muito "pee-wee". O resto é desafinação pura.

 

"Some say I that couldn't sing, but no one can say that I didn't sing"

 

Real.: Stephen Frears / Int.: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 11:54
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31.8.16
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O "épico" de hoje?

 

Não, de maneira nenhuma precisaríamos de outra versão cinematográfica de Ben-Hur, a história ficcional cruzada com um dos mais importantes capítulos bíblicos, mas visto que temos que "gramar" com mais um … cá vamos então! Tudo começou com um livro escrito pelo devoto General Lew Wallace que chegou ao grande ecrã, pela primeira vez, em 1925. Durante o espaço (desde a sua criação literária a este "embrião" de épico que assistimos em 2016), surgiu a epopeia de 1959, um colosso filme de William Wyler que revelou-se numa mostra de grandeza de uma Hollywood agregada a majors e produções sem precedentes.

 

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Protagonizado por Charlton Heston, que viria a tornar-se no galã de épicos de longo fôlego, esse Ben-Hur fez História dentro do circuito cinematográfico da altura, arrecadou uns impressionantes 11 Óscares, um feito que seria mais tarde "batido" por James Cameron e o seu trágico naufrágio ao som de Celine Dion. Obviamente que este novo Ben-Hur não irá triunfar com a mesma dezena de estatuetas (uma piada fácil que fora optada pela imprensa norte-americana), porém, seria de esperar um outro tipo de tratamento em relação às tão famosas adaptações.

 

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Sim, heresias à parte, este equivoco de Timur Bekmambetov é o mais tolerável das versões cinematográficas por um simples facto - é em comparação com os outros três o menos evangélico, cristalizado, e o mais ambíguo no que requer ao retrato "demonizado" dos romanos, os perfeitos antagonistas e … pagãos, como é referido no filme de 1925. Claramente, que essa faceta "humanitária" deriva de um século (hoje vivido), em que questionamos e pensamos sobre o fundamento da religião e das ideologias dos de crença oposta. Nesse termo, são pequenas as provocações (tal como sucedera em Exodus, de Ridley Scott), mas é evidente que esta tentativa de afastar-se o quanto possível do cristianismo intolerante das obras anteriores é, não um feito, mas um esforço que faz com que Ben-Hur seja readaptado às mais diferentes audiências. Aliás, esse vector de pensamento é evidente no, por fim, vislumbre de Jesus Cristo (aqui interpretado por Rodrigo Santoro), uma figura ocultada pelas produções anteriores porque simplesmente seria blasfémia atribuir uma cara ao Nazareno em uma história ficcional do século passado.

 

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Todavia, vamos ser sinceros, mesmo que fraudulento e movido com a maior das preguiças (a edição é uma lastima), este Ben-Hur ganha aos pontos à adorada versão Wyler pela naturalidade (ou pela aproximação) nos desempenhos. Afastando-se do exagero overacting, e do charlatão Charlton Heston. Mas perde, novamente na comparação, no ponto menos improvável - qualidade de produção - Ben-Hur de 1959 continua imbatível nesses termos; numa realização orgânica, uma edição monstruosa e quase sem falhas (a corrida continua, depois destes anos todos, no auge da acção cinematográfica) e os cenários construídos que atribuem uma textura impressionável. Agora, com o de 2016, face aos avanços tecnológicos, temos um produto estival, demasiado corriqueiros e igualmente desastrado. Quanto à famosa e mortal corrida no coliseu … nada a fazer … uma sequência "engasgada" onde ninguém parece perceber bem o quê.

 

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Certamente, não iríamos apostar num "novo clássico", mas o filme de Timur Bekmambetov não deixa dúvidas - o épico morreu em Hollywood - e ninguém parece importar com qualidade produtivas (actualmente o único a operar efectivamente em grandes produções hollywoodianas é Christopher Nolan, fica a provocação). Uma afronta para actores (Toby Kebbel condenado a outro "flop" de Verão), aos envolvidos (penso que ninguém se orgulhará proclamar que fez parte da produção) e ao público que cresceu a "venerar" a versão de William Wyler e que encontra aqui um tremendo e prolongado videoclipp narrado por Morgan Freeman. Ah! Já me ia esquecendo, quanto a evangelizações, este Ben-Hur tem outro ponto contra, possui o final mais moralmente "tosco" das mencionadas três versões.

 

Real.: Timur Bekmambetov / Int.: Jack Huston, Toby Kebbell, Rodrigo Santoro, Nazanin Boniadi, Morgan Freeman, Haluk Bilginer, Pilou Asbæk, James Cosmo

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:48
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25.8.16

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Velocidade Espacial!

 

Depois de minar dois Star Treks com os seus len flares, J.J. Abrams partiu para outra "galáxia" mas a sua presença reside na produção destas novas aventuras da USS Enterprise. No lugar do leme chega-nos então Justin Lin, o responsável por trazer mais velocidade e vitalidade a uma outra saga milionária - Fast & Furious - tornou-se então o capataz do provavelmente mais energético de toda o universo Star Trek.

 

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Enquanto que a ideia dos envolvidos nesta nova saga "trekkie" foi trazer mais de Star Wars do que propriamente o franchise que acompanha o cinema desde 1979 (pois, tudo começou com um inteligente filme de Robert Wise, mas antes existia a série televisiva), este Além do Universo funciona como uma equação perfeita para tal requerida fórmula, é o "mexido" blockuster de Verão, sem astúcia e muita estética.

 

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Uma aventura galáctica imensa de efeitos visuais, correrias, batalhas "navais" e aquilo que poderemos caracterizar de "artes marciais" interestelares, sim, é um anti-Star Trek, tal como fora o anterior de Abrams, Into Darkness. Só que ao contrário do filme de 2013, o vilão não consegue realmente prender-nos, aliás se isto fosse uma crítica em inglês se poderia utilizar o termo "lame"… apesar de Idris Elba dar "corpo" a este antagonista.

 

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O resto, devemos salientar, é mais do mesmo (bem, como estou tão farto de dizer isto). Um argumento reciclado onde sobra-nos um twist a meio da intriga (um "gancho" para iminentes capítulos), alguns actores esforçados nas suas personificações (Zachary Quinto é, apesar de tudo, uma boa alternativa de Leonard Nimoy) e por fim, umas homenagens, quer acidentais, quer planeadas, de algumas personalidades e personagens que marcaram esta saga além fronteiras. Leonardo Nimoy (obviamente), o recém-falecido Anton Yelchin, toda a antiga tripulação do Enterprise e o tributo à orientação sexual de George Takei, o original Sulu, incorporado na reencarnação de John Cho.

 

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Enfim, tínhamos tudo para deparar-nos com um agradável aventura cósmica, assim como muitos capítulos de Star Trek conseguiram invocar, mas as tentativas de tornar esta mesma saga num "refeitório geral" fez com que um legado caminhasse para uma variação de Velocidade Furiosa nas estrelas. Confirma-se, até à data é o pior do Reinado de J.J. Abrams.

 

"Fear of death is what keeps us alive"

 

Real.: Justin Lin / Int.: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Zoe Saldana, John Cho, Simon Pegg, Anton Yelchin, Idris Elba, Sofia Boutella

 

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Star Trek (2009)

Star Trek: Into Darkness (2013)

4/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:52
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11.8.16

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Os "Amigos" Improváveis!

 

A sensação que temos com este Me Before You, é que a argumentista e escritora do romance original, Jojo Moyes, teve uma experiência e tanta ao ver o mega-êxito francês, Intouchables (Amigos Improváveis), ao ponto de converter a tal história bromance num romance literário. O resultado foi também um sucesso, e obviamente, os estúdios oportunistas aproveitaram a "deixa" para conceder a sua adaptação cinematográfica.

 

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Assim temos mais uma variação "wannabe" Nicholas Spark que centra na história de uma jovem inglesa simplória (e inocente) que arranja trabalho como assistente domiciliaria de um tetraplégico, milionário e …claro, jovem charmoso. Esta relação profissional, inicialmente "azeda" vai-se transformando num tremendo caso de amor. Todavia a nossa protagonista descobre os desejos de morte do seu "paciente", e como tal torna-se determinada a alterar as suas ideias a fim de preservar um promissor amor.

 

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Se existe qualquer coisa de ambicioso em tudo isto, é o debate sugerido e por vezes culminado sobre a eutanásia, mas dar crédito ao filme de Thea Sharrock pelo dito é uma pura hipocrisia. Este é um romance prazenteiro que aborda temas sob uma fantasia pueril e inconsequente, partilhada com uma visão monocromática por parte da sua personagem principal, aqui desempenhada por uma irritante Emilia Clarke. Porém, toda esta condição humana é enfatizada por Sam Claflin que se comporta como um mártir tragicamente amoroso versão galã.

 

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Em Me Before You, a importância da estética deste "mundo faz-de-conta" serve como dieta para um filme tecnicamente "bem-disposto", mas demasiado corriqueiro nas sua tendências de encantar corações despedaçados e romanticamente incuráveis. Aliás, é a milésima vez que nos inserimos num universo míope e homogeneizado, onde as personagens secundárias são meros "produtos de cartão".

 

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Quanto a eutanásias, mortes assistidas e vidas com dignidade, ao leitor fica inúmeras outras sugestões que vai desde o Mar Adentro, com Javier Bardem numa das suas melhores prestações, o cuidado Million Dollar Baby de Eastwood, o abismal Amour, de Michael Haneke, assim como o original Intouchables. Quatro exemplos bem mais entusiasmantes e cinematograficamente ricos do que assistir Emilia Clarke a fugir da sua "obrigação" de "caçar dragões".    

 

"Live boldly. Push yourself. Don't settle."

 

Real.: Thea Sharrock / Int.: Emilia Clarke, Sam Claflin, Charles Dance, Janet McTeer, Matthew Lewis

 

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publicado por Hugo Gomes às 02:08
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8.8.16

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Here we go again!

 

A Disney faz das suas, aquilo que tem feito ultimamente, e continua com a sua jornada de auto-reciclagem. Desta vez pegaram no seu próprio clássico, Pete's Dragon (1977), um pouco esquecido actualmente devido à sua obsoleta tecnologia (que hoje lhe atribui um certo “charme”), para o transformar na produção estival direccionada a toda a família.

 

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É uma obra politicamente correcta sobre a amizade entre um menino e um dragão “peludo”. O enredo tenta conduzir-nos por um falso-folclore onde apresenta os EUA como uma terra povoada por essas criaturas lendárias, e quem conta tal facto é nada mais, nada menos, que Robert Redford, só para dar uma certa credibilidade. O actor / realizador narra o seu encontro com a “besta” com mais emoção que todo o filme, e quem o sabe é Bryce Dallas Howard, que após “caçar dinossauros” decide procurar o seu próprio dragão.

 

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O grande problema de Pete's Dragon (A Lenda do Dragão) é a sua costura, tão formatada nos tremendos lugares-comuns e na narrativa formulaica que somente ganha admiração com a sua criação tecnológica. Enquanto que no original de 1977, o dito dragão era um molde de animação tradicional (seguido a tradição de Mary Poppins e Bedknobs and Broomsticks, sendo que a arte foi aperfeiçoada anos depois com Who Frammed Roger Rabbit), nesta versão moderna, o animal é fruto de CGI. Até aqui, nada contra, visto que a animação em si é irrepreensível, mas com isso perde-se a … singularidade.

 

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Depois temos as sequências involuntariamente cómicas, desde a “vingança do Bambi” à reconstituição infantil de Tarzan e Jane. Para filme de família, ressentido no seu moralismo quase ecológico, A Lenda do Dragão resulta como um trabalho amorfo, nada de ofensivo e nem sequer de ousado. É com produtos como este, sem vontade de transgredir ou levar-nos a outro tipo de linguagem cinematográfica que tornam Hollywood num lugar aborrecido para viver.

 

Real.: David Lowery / Int.: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Karl Urban, Wes Bentley

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:20
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17.7.16

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Tenham muito medo do escuro!

 

Lights Out é mais um exercício de terror sob o modus operandi de um The Babadook [ler crítica] ou Mama [ler crítica], ou seja, a sua base seguiu-se de uma curta, um mecanismo de susto que culminou numa prolongada ideia para uma longa. No caso de Babadook, o projecto tinha “pernas” para atingir o seu pico, mas ficou-se pelo interesse inicial, em relação a Mama, a sua situação é semelhante a esta criação de David F. Sandberg, os grandes estúdios levaram a melhor e injectaram a sua dose de cobertura mercantil. Mesmo tendo na produção nomes como James Wan (The Conjuring [ler crítica]) e o Roger Corman do novo século - Jason Blum (actualmente podemos referi-lo como o grande mentor por detrás dos êxitos do diptico The Conjuring e Insidious) - Lights Out é um produto que resiste à sua ideia de medo, infelizmente esticado por subenredos e pelos conflitos emocionais que este tipo de produção tresandam.

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A curta, produzida em 2013, rendia os seus dois minutos de duração com uma sugestão primitiva de medo, a escuridão. Quem tem medo do escuro? A resposta, muitos, mas muitos possuem uma fobia ao turn off das lâmpadas, o desaparecimento da luz, a dominância do escuro, sentimos receio naquilo que se esconde por entre as sombras. Desde o tempo dos homens primitivos que o tememos e é normal, mesmo nos dias hoje, como homem civilizado, ainda demonstramos esses receios, que em conjunto com a nossa natureza supersticiosa, geram os mais labiríntico medos.

 

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Sandberg sob um preciso e tão simples acto recriou o choque com o mundo nocturno, onde a “escuridão” abraça-nos e nos deixam indefesos. Um jump-scare, assim descrevendo o minimalismo do Lights Out original, transformou-se numa autêntica salada de referências vincadas ao moralismo cristão (um individuo que ouve música metal é visto como um marginal social e incapaz de tomar responsabilidades), comummente presente nas produções norte-americanas, e nos elementos “apropriados” do J-horror.

 

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Tudo funciona de forma disforme, mas o exagero do referido e anterior minimalismo contrai um efeito inesperado, em certas alturas, muitas mais nas réplicas referenciais, Lights Out é comédia involuntária. E é pena que tal resulta nessa forma, o esforço de “assustar” não desgruda dessa comédia inequivocamente lançada e no desespero dos lugares-comuns. Infelizmente é essa a ordem do dia, até porque existe aqui indícios de transformar Lights Out, mais do que mero produto corriqueiro. Como por exemplo, Teresa Palmer é uma protagonista forte, o suficiente para a destacar fora do rótulo de sósia de Kristen Stewart, e a entidade antagonista, ao contrário de muitos que se converteram em ícones do terror, é necessariamente desprezível para que desejamos a sua “aniquilação”.

 

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Porém, esses curiosos elementos não salvam Lights Out de ser um valente “apagão” de ideias de terror, é um exercício que se faz e desfaz nos momentos em que as luzes reacendem na sala de projecção. Quem tem medo do escuro? Não com filmes destes.

 

Real.: David F. Sandberg / Int.: Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Maria Bello, Billy Burke, Alexander DiPersia, Alicia Vela-Bailey

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:22
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16.7.16

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"As Caça-Nostalgias"

 

Actualmente, qualquer crítica dirigida à nova versão de Ghostbusters deve ser conduzida com a maiores das delicadezas. Pelos vistos, e como já soa polémica, durante a sua produção, Paul Feig foi criticado por fontes, sobretudo sexistas, pela direcção que este remake estaria a seguir, sendo que o quarteto, anteriormente interpretado por Bill Murray, Harold Ramis, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, era agora desempenhado por mulheres, três delas oriundas do SNL (Saturday Night Live).

 

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Em consequência deste hater mob, o filme integrou uma espécie de statment sociopolítico nos dias de hoje. O resultado ficou à vista de todos, fácil de defender como também "atacar", consoante a posição, automaticamente ingressada numa ideologia, conforme ela seja. Mas vamos por partes, não estamos a insinuar que o primeiro Ghostbusters, ou popularmente chamado de Caça-Fantasmas, seja um exemplo máximo da comédia cinematográfica. Tende bons momentos nessa área e sobretudo composto por um argumento astuto, a obra de Ivan Reitman "envelheceu" mal até aos dias de hoje. Os efeitos especiais são obsoletos, o ritmo é muito vinculado na pop culture dos 80's e há sobretudo uma carência de personagens femininas, mesmo tendo Sigourney Weaver (uma das primeiras grandes heroínas de Hollywood) no elenco (talvez tenha sido por essa área que Paul Feig decidiu repensar na estrutura desta refilmagem).

 

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Mas em comparação com a nova versão, deparamos um filme mais livre, solene e sobretudo carismático. Enquanto que a de Paul Feig, por outro lado, é uma arriscada fita que tenta consolidar os talentos das suas protagonistas com um eventual "fan service", ou seja, de livre, este Ghosbuster nada tem, apenas assume-se aquilo que é, um remake, e pessoalmente foi essa a única característica que me fez "torcer o nariz" durante os anúncios desta produção.

 

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Muito bem, já que começámos com o pé esquerdo, vamos esquecer por momentos que existiu um homónimo filme em 1984 e a respectiva sequela de 1989, e assistimos a este Ghostbusters como um só e único filme. Depois de ter envergado pelas comédias rotuladas de femininas como Bridesmaid, o sem nexo The Heat: Armadas e Perigosas e o mais sexualmente consensual Spy, Paul Feige regressa ao seu estilo humorístico, brejeiro e por vezes ofensivo, mas socialmente aceite devido ao género sexual das suas protagonistas.

 

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Sim, já sei o que devem estar a pensar - mais um que julga que as mulheres não podem "ter piada". Mas uma "coisa" é ter piada, a outra é a utilização do mesmo tipo de humor que enche e sobra nas "malditas" produções de Adam Sandler ou nas inúmeras tentativas cómicas que surgem nas nossas salas, sob protagonistas masculinos. Mas como havia referido, o problema não está no sexo, mas na qualidade das piadas, recorrendo quase instantaneamente a "dick jokes" ou neste caso a "vagina jokes". Por outras palavras o humor chega a ser insuportável, pueril, egocêntrico e demasiado enraizado no stand up comedy, existe pouca subtileza aqui e nos momentos em que por fim esboçamos um sorriso nas nossas faces advém da caricatura transposta por Chris Hemsworth, talvez a sua grande prestação de carreira, ou das previsíveis referências e especiais cameos que nos afrontam.

 

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Mas o pior está para vir, é que Ghostbuster tende em transformar da comédia improvisada e alicerçada aos "atributos" das suas protagonistas num claro e rotineiro blockbuster norte-americano, os efeitos visuais tomam rédeas do projecto, os tiques de milhares de produções fundem num só registo, e o climax é de uma previsibilidade avassaladora. A juntar a isto, temos quase uma cópias deslavada dos terceiros actos do filme de 1984 e da respectiva sequela. Pronto, cedi, acabei por voltar à comparação.  Mas pelos vistos é isto "folks", no fim de contas, este Ghostbuster não é mais que um remake que durante a sua progressiva produção adquiriu um activismo que não se evidencia no seu resultado. Vale a pena este novo Caça-Fantasmas? A curiosidade pode matar o "gato", como se diz, mas não as memórias. Estas persistem, até porque Paul Feig fez um filme tão inofensivo, que qualquer atenção nisto, é demais.  

 

"Do not compare me to the Jaws mayor."

 

Real.: Paul Feig / Int.: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones, Nail Casey, Chris Hemsworth, Charles Dance, Andy Garcia, Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, Ernie Hudson

 

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Ghostbusters (1984)

 

4/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:02
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8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
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