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13.4.17

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Destino sobre rodas!

 

A alta velocidade ou suscita um acidente ou uma autuação e, neste caso especifico, ficaremos com a segunda hipótese, porque o desastre é iminente caso continuem com estas velocidades frívolas. Mas antes de mais, deve-se aplaudir a nossa "Furiosa", Charlize Theron, que fez tudo para que esta carruagem não se despenhasse de forma catastrófica, e tem a capacidade de salvar um filme condenado à auto-ejaculação dos fãs (Charlize só não foi avisada a tempo para um desastre à lá Sean Penn).

 

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Aliás, são as mulheres por detrás do volante que direccionam este Velocidade Furiosa 8 para caminhos menos corriqueiros. Resumidamente, é a nossa Theron em conjunto com uma breve, mas mesmo assim profissional Helen Mirren, a lembrarem como se faz no plano dos desempenhos. Isto porque os nossos homens são demasiado vigorosos em relação à sua imagem "máscula"  e procrastinam em atribuir algo mais pessoal a um franchise cada vez mais despersonalizado desde a saída do realizador Justin Lin (na altura, o verdadeiro herói de Fast and Furious).

 

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O resto é tudo aquilo que esperamos da saga, só que em doses meramente cansativas, desde o foco central à personagem de Vin Diesel (andamos 8 filmes com o protagonismo e já estava na altura de mudar), um incoerência na continuidade e ainda a industrialização que se entranha, até mesmo no melhor ponto que estes filmes possuíam: os stunts, agora cada vez menos impressionantes.

 

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De resto, recorre-se aos estereótipos (Tyrese Gibson), às experiências iniciadas mas não levadas a avante (a dupla Dwayne Johnson e Jason Statham poderiam ser um Terence Hill e Bud Spencer em modo testosterona) e a perpetuação do conservadorismo a defraudar a irreverência, até porque falamos de família e bons valores morais de forma a não ofender as massas que tanto contribuíram para o êxito estrondoso disto tudo. Após este capítulo, só falta mesmo este grupo ir para o espaço, até porque já não existem mais caminhos a seguir para além do beco sem saída. Isto já cansa … e muito!

 

Real.: F. Gary Gray / Int.: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Helen Mirren, Michelle Rodriguez, Scott Eastwood, Tyrese Gibson, Ludacris, Kurt Russell, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Nathalie Emmanuel

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:35
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12.4.17

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A absolvição chega tarde!

 

Desde cedo os italianos souberam extrair da crítica social, como política, o seu modelo cinematográfico. O neo-realismo, oficialmente nascido em 1943, é tido como uma dessas importantes visões de ousadia mordaz, enquanto que se servia de afronta para a ideia, então estabelecida, de cinema, contrariando as tendências estilísticas, filmando de forma estilizada, um realismo não estilizado (Erwin Panofsky).

 

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Com o passar dos anos, as críticas italianas obtiveram as suas diferentes facetas, desde a comédia à lá Itália que olhava para o humor como um portento escudo no seu ataque, e o "fellinismo", esse surrealismo barroco disfarçado que se abatia anos seguintes como um novo signo de vocabulário cinéfilo. Por fim, aparece-nos a poesia de Pasolini a servir de contraste e a fervorosa veia politica de Nanni Moretti a prevalecer numa despida sinceridade ideológica. Ou seja, em sangue italiano, a política como tema crítico para uma visão analista corre com tamanha agressividade nestas veias.

 

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Actualmente, o cinema não encontra nenhum movimento artístico predefinido, e a globalização tem tido papel fundamental na diversidade de vozes, cuja única similaridade é esse tom crítico. Le Confessioni é o enésimo avante de discurso politico, principalmente vindo da dupla Andò / Servillo, que após o sucesso de Viva La Libertá (Viva a Liberdade), onde apresentava o humor doppelganger para construir uma politica de sinceridades (mas nunca objectiva na sua crítica), reúne-se para invocar um misto de referências, que vão desde uma reunião G8 e a clássica forma de thriller de Agatha Christie, passando pelas óbvias menções de I Confess, de Hitchcock (as personagens estão encarregues de elucidar-nos) e a estética que fora mundialmente reconhecida pela cinema de Sorrentino.

 

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Toni Servillo é um monge de raízes misteriosas, convidado a participar em tal reunião politica, a pedido do líder da FMI, Daniel Roché (Daniel Auteuil). Os motivos deste misterioso convite são revelados após o suicídio deste último. Um ataque às politicas de austeridade e às empresas que ganharam com a crise, que tanto têm a dizer para os países do Sul da Europa, como Itália. Contudo, esse mesmo ataque é feito por impasses do grotesco burguês à lá Sorrentino, mas ao contrário do realizador de La Grande Bellezza, Roberto Andó funciona como um impostor, copista, e essa preocupação pela estética revela-se na sua maior fraqueza, até porque o filme nada tem para dizer, para além de um extremo senso de moralismo.

 

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Entre punch lines aqui e ali, frases que nos levam à nossa consciência moral, Le Confessioni é demasiado preso às suas influências. Toni Servillo é imperativamente regido ao seu ego e o resto, totalmente inofensivo, interligando as devoções religiosas, o maniqueísmo das boas acções, como uma solução pela frieza politica. Tal como diz Connie Nielsen a meio do filme, "já todos andamos fartos de contos de fadas".

 

Filme visualmente na 10ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andó / Int.: Toni Servillo, Daniel Auteuil, Pierfrancesco Favino, Connie Nielsen

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:27
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6.4.17

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Ladrões em modo vintage!

 

Zach Braff cumpriu o seu primeiro requisito como realizador em 2004 com um pequeno grande filme de superação existencial, Garden State, o qual também protagonizou ao lado de uma Natalie Portman sob uma inocência virginal. Outrora conhecido como "o actor" da série Scrubs, Braff regressa à cadeira de realizador, passados 10 anos, e o resultado foi um registo independente (Wish I was Here) em que espectador sente que visita o mesmo lugar de antes,  mas o efeito não é nostálgico. Foi então que, após uns produtos para a televisão, o actor convertido em realizador avança numa nova tentativa no cinema, desta feita em estreita cooperação com um grande estúdio (Warner Bros.) e como matéria-prima um homónimo filme de Martin Brest (que por cá teve o título de Quadrilha do Reumático) e, voilá, chegamos ao mero anonimato de Braff como cineasta.

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Este Ocean's Eleven de terceira idade, com mais ligações ao original protagonizado pelo Rat Pack (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop) do que na versão de Steven Soderbergh, é um entretenimento emocional sob a máscara de cinema politico para massas. A razão está num discurso algo nacionalista e anti-capitalista (a guerra contra a classe de Wall Street e a transferência de empresas na busca de mão-de-obra mais barata no resto do Globo) que hoje encontrou voz na eleição de Trump, da mesma forma que traz três veteranos actores de uma Hollywood que nega as suas "royalties" para induzir a temática da terceira idade e o desprezo social para com estes.

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Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin são bons motivos para comprar o bilhete para esta mesma sessão, mesmo que o tom cómico e o modelo heist movie já tenha visto melhores dias. E é então que após um cínico desfecho em que a criminalidade compensa, como se tal movimentasse o destino financeiro, politico e social de um país (a invocar o complexo Robin dos Bosques mais uma vez), somos levados para os créditos finais. Afinal, Zach Braff filmou isto! Sim, foi ele mas poderia ter sido outro "tarefeiro" qualquer. Aliás, Hollywood está cheio deles.

 

Real.: Zack Braff / Int.: Michael Cane, Morgan Freeman, Alan Arkin, Christopher Lloyd, Matt Dillon

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:48
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30.3.17

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Fantasmas de Shirow!

 

Bem-vindos à queda do cinema americano, e não, nada tem a haver com as controvérsias de whitewashing, a escolha de Scarlett Johansson para interpretar uma cyborg. Não, simplesmente o que vemos nesta adaptação de uma adaptação de uma manga da autoria de Masamune Shirow, é o requisito de lugares-comuns e dos truques primários que tanto minam o cinema para as massas oriundos dos grandes estúdios americanos.

 

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Já a primeira conversão do material original para cinema, uma animação estilizada de Mamoru Oshii, funcionou como um quebra-formulas daquilo que poderia no entanto suscitar. É ficção cientifica da futurista, com pinceladas fortes de Phillip K. Dick e, sob linguagem cinematográfica, influenciada por clássicos como Metropolis e Blade Runner, que orquestrava uma narrativa anti-climax, sugestiva e sobretudo cerebral. Aonde irão as nossas particularidades enquanto seres humanos num mundo completamente a mercê do robótico? E as questões da inteligência artificial? E do "uncanny valley"? Estas tendências são debatidas em quase tudo o que se designa  ser ficção cientifica "astuta". Sim, o filme tinha esses propósitos de servir mais como uma reflexão ao serviço da animação, do que se apresentar como o enésimo arquétipo de acção animada, e a esquecida sequela (Innocence, 2004) prolongou essa fantasia filosófica de um futuro à vista.

 

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Porém, eis que surge a lavagem de Hollywood, um produto com claras pretensões de agradar os fãs do original e adeptos dos chamados "blockbusters inteligentes", mas que se perde perante as suas ambições. O porquê? Por que todos os ingredientes que transformaram Ghost in the Shell em mais do que um mero fruto da industrialização, são esquecidos e trocados por equações homogéneas daquilo que tanto abunda no entretenimento mainstream. Diria que este Agente do Futuro (lembraram-se de traduzir para português) é um embrião do cada vez mais formulaico cinema de super-heróis, trocando a dita filosofia por enredos de vingança, o sugestivo pelo explicito, e o cerebral pelo códigos primitivos do bem entreter (salienta-se ainda o maniqueísmo básico). 

 

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Scarlett Johansson é a nossa heroína, meio Lucy, meio "Viuva Negra" da Marvel, que se movimenta pela narrativa como uma "boneca de prontidão exacta para a acção". A sua Major é demasiado emocional, frente às crises existenciais da versão animada. Tudo o resto, excepto o ocasional "Kitano Show" [Takeshi Kitano a assumir o controlo a meio da fita], é uma réplica prolongada, e segundo eles actualizada, que apenas jura fidelidade ao visual da obra de 1995. São estes raros pontos de contacto que fazem salivar os ditos fãs, mas por aqui grito em pleno pulmões: "It's a trap".

 

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Talvez uma premonição de como este Ghost in the Shell iria falhar (se bem que se espera, mesmo assim, que faça sucesso nas bilheteiras, até porque Scarlett Johansson já faz parte do star system) é a época em que os dois filmes surgem. A versão de Mamoru Oshii surgiu em 1995 e foi uma das influências para The Matrix dos Wachowsky, e esta versão de Rupert Sanders (com Snow White and the Huntsman no currículo) surge numa altura em que quase todo o entretenimento cinematográfico encontra-se contagiado pelo referido frenesim cyberpunk. Resultado, apenas chuva em terra molhada. 

 

"Well, maybe next time you can design me better."

 

Real.: Rupert Sanders / Int.: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Juliette Binoche, Anamaria Marinca

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:58
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20.3.17

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 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

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Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

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Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

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Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

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Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

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But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

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Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:50
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14.3.17

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Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

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Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

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Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

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Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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16.2.17

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Há uma muralha que separa Yimou Zhang do seu cinema!

 

Existe uma linha directa que une este megalómano blockbuster chinês com o mais recente filme de Jia Zhang-ke, Mountains May Depart (Se As Montanhas Afastam). É tudo uma questão de identidade, e a China tem sido uma das civilizações mais fustigadas pela injecção ocidental e globalizada dos tempos que decorrem. No referido de Zhang-ke, num futuro próximo, existirão escolas para reabilitação da cultura chinesa, onde chineses estudam para ser chineses e manter vivo as suas heranças.

 

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Em The Great Wall (A Grande Muralha), a produção mais cara até à data em território chinês, é um exemplo de como o cinema, por vias de chegar a um vasto leque de audiências, abdica da sua essência hereditária em prol de um espectáculo contagiado pelo modus operandi dos grandes estúdios norte-americanos. O mais frustrante desta experiência é o nome Yimou Zhang surgir nos créditos. O realizador de épicos chineses como Hero e House of Flying Daggers, revela a sua fascinação pelo luxuoso e pelo pomposo, mas "vende a sua alma ao Diabo". É um realizador convertido ao anonimato, tecendo uma câmara imparável que nunca em momento algum deseja "descansar" (aprendendo os tiques de um Michael Bay, por exemplo) e pela artificialidade com que esta narrativa tende em recriar.

 

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No geral, esquecendo de nomes, A Grande Muralha é de uma ciência básica no storytelling, requisitando estrelas internacionais para induzir conteúdo mitológico a audiências habituadas à linguagem do cinema blockbuster. Tal, como manda esses contratos "faustianos", esta produção cede-se aos lugares-comuns, ao humor ligeiro de puro comic relief (encarregue por Pedro Pascal), à submissão dos efeitos visuais e a um argumento de uma imaginação pobre e preguiçosa. Em terras do wuxia faz-se "coisas" destas. Resultaria, se não fosse tão desprovido do efeito série B. No fim de contas, Jia Zhang-ke é que tinha razão, a identidade é valiosa, mas igualmente frágil.

 

Real.: Yimou Zhang / Int.: Matt Damon, Tian Jing, Willem Dafoe, Pedro Pascal, Andy Lau

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:22
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21.12.16

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No Espaço ninguém pode sentir a sua solidão!

 

Para muitos, estar "isolado" com Jennifer Lawrence seria uma fantasia realizada. Para os espectadores de Passengers (Passageiros) é um turbilhão de emoções, e todos fora do campo positivo.

 

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Dirigido por Morten Tyldum, o mesmo realizador do bem-sucedido The Imitation Game, eis uma variação espacial de A Lagoa Azul com um dos casais mais esperados para os eternos deliciados em grandes produções de Hollywood. De um lado temos, como já havia referido, Lawrence a desempenhar a mulher mais intelectual num raio de anos-luz e Chris Pratt, o Starlord para adeptos da Marvel, como o Robison Crusoé espacial. Ambos são os únicos despertos numa nave espacial com destino a uma colónia do outro lado do Universo, trazendo a bordo milhares de passageiros, todos eles sob um tremendo estado de hibernação (e com o despertador programado para 90 anos depois).

 

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Pratt e Lawrence são o casal maravilha, e não é a química que o ordena, mas o isolamento, uma força imperativa que os junta de forma tão rotineira como qualquer romance de Nicholas Sparks. E como qualquer relação a dois, eis o terceiro elemento: um o andróide-barman com a face de Michael Sheen a servir de conselheiro matrimonial e de propaganda para os gastos no sector dos efeitos visuais.

 

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Passageiros é um filme vincado no star system com um enorme "apetite" para um enredo minimalista, se não fosse … aí está … Hollywood a fazer das suas e a tomar algo adquirido numa fórmula circense. No meio, temos o eventual "conflito": o A para B que coloca a vida dos nossos "passageiros" em risco e os heróis de ocasião, que tão bem acompanham o nosso pacote de pipocas. É um espectáculo visto e revisto, com todas os requisitos para romance descartável de grande ecrã e cameos involuntariamente hilariantes (actores de renome que servem de figurantes por 3 segundos).

 

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Resumindo, este é um filme que ousa em não sair da sua posição vampírica em relação às estrelas que a lideram. Vive e sobrevive dos protagonistas, e mostra-se sem "motor" para avançar delicadamente no espaço. Esqueçamos comparações com Moon ou até Sunshine. Isto é Hollywood na sua forma mais gratuita.

 

Real.: Morten Tyldum / Int.: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:27
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14.12.16

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A facturar com a nostalgia!

 

Há quem ainda acuse George Lucas de ter sido o "cancro" de uma saga tão querida para milhões. Desde a suas remasterizações e "remexidelas" na trilogia original em múltiplas edições de home video, até aos três filmes produzidos entre 1999 e 2005 que actualmente é esquecido por muitos. Mas não devemos ignorar, que apesar do resultado, Lucas tentou expandir o Universo que ele próprio criou com alguma inovação, quer tecnológica, quer narrativa.

 

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Porém, vivemos num Mundo onde a personalidade parece ser condenável, e depois de uma homage algo cobarde (diga-se por passagem), por parte de J.J. Abrams, chega-nos o intitulado Rogue One, uma referência no scroll credits de 1977 que originou um filme sob tons bélicos e de tamanha "piscadela de olhos" a temáticas politicas. Enfim, politicas e Disney nunca se misturaram, relembro o caso de Civil War onde super-heróis disputavam entre si consoante as suas fraudulentas ideologias. Neste Star Wars, tal é o fogo brando do extremismo oriental, como muito media ocidental parece insinuar, e o liberalismo em acordes de guerrilha-activista, que tenta soar com seriedade neste "world building" formatado.

 

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Contudo, Star Wars não é uma distopia politica sob o formato de sci-fy, é simplesmente a tentativa de vender e extrair até à última gota uma memória, uma nostalgia e um sentimento que muitos guardam fervorosamente dentro de si. O resultado não é um filme francamente mau em termos técnicos (tirando o uso e o abuso do motion capture para a ressurreição de personagens vencidas, até porque "Peter Cushing is not alive anymore"), é sim, uma réplica, uma obra despersonalizada exercida sobre personagens de tamanha causticidade na sua concepção. Nada de sólido, só "carne para canhão".

 

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Depois temos os inevitáveis cameos, o fan service a vingar sobre os fãs, e um enredo rotineiro que joga-se forçosamente na cronologia estrelar. Para nosso encanto, é mesmo Ben Mendelsohn a perpetuar como vilão de serviço (mas já está na hora de abandonar a "sacanice"), e a banda-sonora saudosista de Michael Giacchino que segue a tradição de John Williams. Mas fora isso, é a indústria megalómana comanda, transformando, o então astuto Gareth Edwards (que ressuscitou com algum agrado Godzilla em terras estadunienses), num mero "moço de recados".

 

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Temos que perdoar os pecados de George Lucas, ao menos ele trouxe uma breve sensação de novidade a um franchise, que não inventou o Cinema como muitos acreditam, mas que redefiniu os moldes do entretenimento cinematográfico para grandes massas. Sim, os fãs vão "venerar", mas Rogue One nada de relevante tem para o Cinema, e isso meus amigos, em épocas de produtos bem "lubrificados", não é nada.

 

"Make ten men feel like a hundred."

 

Real.: Gareth Andrews / Int.: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Wen Jiang

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:58
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10.11.16
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O Contacto de Villeneuve!

 

Arrancando sob acordes de Max Ritcher e o seu On the Nature of Daylight, Arrival exibe a pior faceta de Denis Villeneuve, a ausência de personalidade. Depois de um grupo de obras que tem-se destacado pelas diferentes virtudes, tons e estilos, tendo como ponto alto o ainda fresco "Sicário", Villeneuve começa por fazer "maliquices", ou seja "caiu" na ideia, na possibilidade alguma de ser Terrence Malick. Se Malick já existe um, e mesmo assim, essa unidade chega-nos a irritar perante um estilo tão caoticamente ambicioso, quanto mais as imitações. Enfim, com filmagens de natureza, crianças e um coming-to-age em modo flash forward, tudo pontuado com a narração "filosófica" de Amy Adams, este é o nosso "primeiro encontro". Queremos sair, até porque este não foi o filme que nos prometeram, aquele dos trailers e das boas críticas vindas directamente de Veneza que nos falavam duma continuação intra-espécies de Sicário. Não, ao invés disso temos uma insuportavelmente e pretensiosa esquizofrenia.

 

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Mas esperem, existe uma esperança ao fundo do túnel, é que depois de terminada as "maliquices", segue assim, a premissa, as invasões alienígenas e um Mundo em pleno estado de alerta perante estes "visitantes from outter space". A nossa Amy Adams é um linguista prestigiada (considera o português numa língua romântica e artística), que é abordada pelo Exército Norte-Americano para servir de ponte diplomática com estes "visitantes", que cujo grande obstáculo é a discrepante divergências entre as duas línguas e dicções. A nossa protagonista avança então com um elaborado plano para conhecer radicalmente o alfabeto destes, e vice-versa.

 

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Em Arrival (não confundir com o filme protagonizado por Charlie Sheen), existe ecos desse Sicário - a força da protagonista, a mulher que quebra a fronteira e relaciona com um mundo inimaginável. A fórmula está aqui representada, só fica a faltar as particularidades desta nova aventura de Villeneuve. Enquanto uns, pasmaceiam perante o ritmo calmo e astutamente manipulado por Arrival, outros questionarão o próprio argumento que se assume "inteligente". Há dois anos consecutivos que levamos com filmes que tentam contrair esse mesmo estatuto, o de "muito inteligente para as audiências, e ao mesmo tempo entretenimentos de qualidade". Refiro a Interstellar e The Martian, duas obras que beneficiaram das ligações publicitárias da NASA, porém, este Arrival não possui o mesmo tratamento, mas a sensação é exactamente replicada.

 

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Serão poucos que vão constatar as inverosimilhanças do argumento, principalmente no "motivo criado" para colocar a heroína na dita acção e assim avançar-se na intriga, da mesma forma que nos tremendos Deus Ex Machina. Soluções de última hora, que não são mais que meros "tapa-buracos" com graves aspirações a um determinado filme de Robert Zemeckis, sim, esse mesmo, O Contacto (1997). Se já Interstellar, de Christopher Nolan, ia buscar essa fonte, em Arrival a inspiração é mais que evidente, e o filme não consegue contornar isso, mesmo pretendendo seguir direcções menos identificáveis. Ah … já me ia esquecendo, sabem que mais? Eis mais um bajulador produto para os mercados chineses.

 

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O que nos resta? Bem, este "lost in translation" tem a maior ambição de transformar-se numa "pescadinha com rabo na boca", até porque pensávamos que as "maliquices" tinham terminado no prelúdio. Pensávamos que sim … mas não é que Villeneuve recorda-se desse mesmo cosplay! E assim ficamos com um filme tecnicamente irrepreensível (nota-se a repescagem do compositor de Sicário, Jóhann Jóhannsson) , com desempenhos agradáveis dos seus actores e uma tendência de se perder gradualmente do seu carris. Esta é a provável grande desilusão do ano, a prova de que Denis Villeneuve está no "caminho certo" para virar tarefeiro em terras de Hollywood.

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Tzi Ma, Michael Stuhlbarg

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 13:55
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Com a verdade me enganas!

 

Promete dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade?” Prometo … e prometo afirmar que os papeis de advogados para o inexpressivos Keanu Reeves assenta-lhe que nem uma luva. Prometo ser sincero que ao declarar que nesta réplica ao sucesso de Devil's Advocate, Reeves é um rei, mesmo que o filme que lhe sirva de trono é um thriller padronizado de Courtney Hunt, a mesma realizadora de Frozen River. Confesso ainda que The Whole Truth não é, nada mais, nada menos, que o título que fugiu do circuito home video (ou VOD, adequando-se aos novos tempos). Um filme que recupera alguns “mortos vivos” de Hollywood, entre quais um Jim Belushi que evita o foro cómico como o “diabo foge da cruz”, e uma irreconhecível Renée Zellweger, que tirando o seu “não estava a espera disso” êxito de Bridget Jones, parece não ter lugar no cinema actual.

 

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Mais alguma coisa a declarar neste tribunal?” Posso dizer que o filme não merece este esforço conjuntivo de ser falado. Todo o enredo oscila entre a vulgaridade, até ao involuntariamente cómico, passando por um plot twist que nos envergonha com tamanha incapacidade. Mas devo acrescentar que perante uma indústria que nos conduz a filmes exageradamente pretensiosos, politicamente perversos, um leque imenso de super-heróis e adaptações de tudo e ao mesmo tempo de nada, biopics a cobiçar prémios sazonais ou ainda comédias com Melissa McCarthy, The Whole Truth convence-nos pela sua humildade. Aquela honestidade de não querer ser mais do que realmente é, nem de se convencer com grandes aptidões enquanto não os tens, e mais, aguentar-se “à bomboca” perante o enredo ridículo que ostenta.

 

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Então, considera o nosso réu inocente?” O que tentei dizer é tendo em conta o nosso panorama industrial cinematográfico, The Whole Truth é tão inofensivo que o torna inocente. Sim, isso mesmo, inocente. “Meritíssimo, não tenho mais nenhumas perguntas para a nossa testemunha?””Muito bem, testemunha dispensada.”

 

Real.: Courtney Hunt / Int.: Keanu Reeves, Renée Zellweger, Gugu Mbatha-Raw, Jim Belushi

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:56
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6.11.16

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Perfeito, perfeito … era inovação!

 

Vamos por partes, a esta altura do campeonato, cruzar ficção com documentário, o docudrama que os portugueses tão bem sabem fazer, já não possui ciência nenhuma, muito menos quando os objectivos de um filme como este El Futuro Perfecto não sejam sobretudo claros.

 

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Dirigido por Nele Wohlatz, alemã radicada na Argentina, este é um filme onde a evidente intenção é apresentar a condição do imigrante e demonstrar que mesmo em perseguição de um “better place”, sonham e aspiram por um "futuro perfeito". A língua é também um importante vinculo identitário e até certa altura El Futuro Perfecto aposta nas palavras soltas, ensinadas sob a intenção de sobrevivência e sem um mínimo despejo emocional. Mas também é sob esse tratamento frio e encoberto que nos descortina uma mensagem perigosa e por vezes nacionalista, será que este grupo de personagens que cede à cultura de fora é característica de tamanha inexpressividade, será que uma língua oposta aquela que nós dialogamos as tornam em relativos "humanóides robóticos".

 

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Emoção, é decerto, aquilo que a obra de Wohlatz não ostenta, e como prova dessa falta de interacção humana, empatia é algo que nos falha enquanto espectador. Mas enfim, o que dizer do resto deste exercício de hibridez documental? El Futuro Perfecto esgota a sua virtude experimental em minutos, depois do "I get it", tudo é recorrido para crise identitária por parte da personagem principal, a jovem chinesa Xiaobin, que auto-intitula-se de Beatriz e até certa altura de Sabrina. A rapariga, que entra em restaurantes para poder ler o respectivo menu, em busca de uma ligação carnal com as palavras em dialecto latino, vive um romance imaginário que a coloca no trilho da sua escapatória emocional.

 

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Essa dita relação é vazia e penosa de assistir, a culpa é diversa, ou os actores (não-actores) não possuem a aptidão de ultrapassar as palavras, ou a realizadora não procurava qualquer foro emocional para não cair no erro de ceder ao telenovelesco. Conforme tenha sido a decisão, este é o romance (se poderemos chamar assim), mais "gelado" dos últimos anos. El Futuro Perfecto fica-se pelo exercício, mas uma experiência vista e revista vezes sem conta. Esperemos que o futuro de Nele Wohlatz soe melhor que isto.

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Nele Wohlatz / Int.: Xiaobin Zhang, Saroj Kumar Malik, Mian Jiang

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
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2.11.16

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Ben Affleck, o exterminador incontável!

 

Parece que Rain Man teve um encontro com Taken e dessa noite gerou algo como este The Accountant - Acerto de Contas. Um thriller de acção que remete-nos a um contabilista, diversas vezes associado à marginalidade e ao crime organizado, que afinal de contas sofre de um certo grau de autismo, o que o torna em; a) um anti-social,  b) num extremo obsessivo em concluir as suas tarefas, e c) uma verdadeira máquina de matar. Tudo isto integrado numa direcção de Gavin O'Connor (Warrior), que seguindo os passos das suas últimas obras (excepto Jane Got a Gun), remexe novamente nas panóplias do amor fraternal.

 

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The Accountant é dotado de uma certa fragrância de série B … e poderia, tendo em conta esta prolongada premissa que salta diversas vezes da acção "à la Luc Besson", para a comédia involuntariamente romântica (a inclusão de Anna Kendrick aqui, não foi fruto do acaso). Mas não foi isso que aconteceu, até porque temos Ben Affleck no protagonismo, e visto que este mártir de Hollywood tem tentado drasticamente mudar o rumo da sua carreira nos últimos anos, assim como a sua imagem na indústria cinematográfica, o filme tende em seguir o pretensiosismo de um drama académico.

 

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Resumindo, tudo é levado intrinsecamente a sério. Porém, Ben Affleck até consegue assumir-se como o melhor deste enésimo capítulo de acção mal contado e escravizado pelos mesmos entediantes dispositivos narrativos. Ou seja, flashbacks com fartura, aqueles planos e pormenores focados para depois serem invocados num plot twist (onde só não vê quem é cego), e pela pachorra para aguentar mais um punhado de histórias trágicas, apenas presentes para se inserir nos motivos nas nossas personagens.

 

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Sim, Gavin O'Connor nunca fora prezado pela sua originalidade, nem sequer ao tentar evitar o previsível, mas ao menos sabe como entregar uma história, um factor que é aqui esquecido, abusado pelo argumento incapaz de Bill Dubuque. Será amnésia? Não sabemos, porém, vamos supor que realmente aconteceu algo do género.   

 

"Sooner or later, different scares people."

 

Real.: Gavin O'Connor / Int.: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal, Jeffrey Tambor, John Lithgow, Cynthia Addai-Robinson

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 18:06
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26.10.16
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Para onde vamos agora?

 

Vamos ser claros, Wang Bing é daqueles documentaristas com iniciativa, em constante busca por temas transgressivos e, alguns deles, tabus de uma China em plena crise identitária e moral. Sim, ele é incansável no seu trabalho de terreno, nas horas de filmagem, na abrangência do seu olhar que neste caso é a lente da sua câmara, tão operacional como ele.

 

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Porém, falta-lhe a objectividade, sobretudo no campo da edição. Existe nele uma possessão de material realmente forte, o que o impossibilita descartar algum do seu tempo de filmagem em prol do produto final. Em consequência, são filmes como estes, de temas fortes, mas sem a força necessária para que o espectador "abrace a causa". Talvez seja por isso que Wang Bing filma tanto, as suas criações não são centradas, nem devidamente frontais para com que realidade que o próprio encara, são objectos deambulados, etnograficamente ricos como documentos de igual matéria, longe da provocação que precisa para realmente ser ouvido.

 

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O documentarista chinês não faz "épicos de violência social", faz ensaios cansativos e completamente desarmantes de temas que deveriam ter o seu "quê" de alarme, e neste caso, Ta'ang, este registo do exilo levado a cabo por famílias inteiras burmesas, como escape da guerra civil, parece apenas servir como uma decoração para ferir os mais susceptíveis. São quadros vivos, mas dentro deles, existem pessoas que lidam com a sua desgraça, uma má sorte que para Wang Bing são matéria que compõem o seu mais recente ensaio de "poverty porn", um embrião dos reality shows dotados de uma certa tendência fetichista.

 

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A envolvência neste mundo em "cacos", onde as "personagens" tendem em lidar com as suas próprias situações, deixando para trás partes integras das suas vidas em busca de quem os acolhe, algo mediático tendo em conta a crise dos refugiados que nos bombardeia os medias, sendo que Ta'ang revela-nos um caso especifico ignorado por estes mesmos. Uma viagem desesperante sem fim, que o realizador filma com a maior das tranquilidades. Sentimo-nos cúmplices perante este mau trabalho de investigação, onde os testemunhos secam perante o "on" prolongado da câmara, sem qualquer indicio de moderação nem coordenação.

 

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Talvez, Wang Bing não queira manipular esta realidade, e nisso faz ele muito bem, porém, o que adianta mostrar por mostrar, o que adianta captar este novo-realismo que não nos electriza, ao invés disso nos entendia da forma mais emocional possível. Será Wang Bing um voyeurista da desgraça alheia? Pelos vistos sim, nada aqui aponta-nos estarmos cara-a-cara com o documentarista do novo século como fora aclamado desde sempre. 

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Wang Bing

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:26
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13.10.16
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Quando o Código Da Vinci é longínquo e os Anjos e os Demónios foram ontem!

 

Espero que tenham tomado aquele batido forte rico em nutrientes e que tenham vestido o vosso melhor fato de treino, porque a corrida pelos monumentos e museus vai agora (re)começar. Eis a terceira parte da trilogia de Robert Langdon, a personagem imaginada por Dan Brown nos seus respectivos bestsellers, um homem de muitos talentos cujo melhor é simplesmente “imitarJohn McClane no que requer a inserir-se em situações difíceis.

 

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Comparativamente, este terceiro capítulo é narrativamente mais fluido e coerente que o dolorosamente inseguro Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006), um polémico êxito que não confirmou a sua qualidade, mas sim o oportunismo de Hollywood por sucessos fáceis. Mas é na comparação que este Inferno ganha aos pontos, porque como produto separado não chega a intitular-se de thriller de requinte, aliás contrai os mesmos defeitos que os seus antecessores, “deixa-se levar demasiado à letra”. Enquanto que a escrita de Dan Brown soa mais um guião que um livro, Ron Howard, o ocasionalmente competente e tarefeiro de Hollywood, raramente consegue incutir cinema nestes episódios, apenas ilustrações de um mundo ao virar da página com bonecos ao invés de personagens.

 

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Com Dante como temática, este Inferno prometia um diabólico mistério pela arte de Florença e os marcos históricos da transição da Idade Média para o Renascimento, assim como a exploração do teor religioso despoletado pelo famoso escritor, esse “interminável fosso de 9 câmaras onde milhões de almas torturadas são julgadas pelos seus pecados”. Mas infelizmente não foi isso que aconteceu, Inferno, de Dan Brown, contrai os mesmos males que muitas grandes produções de hoje, carece de paciência e o mesmo se pode dizer do espectador, cada vez mais impaciente.

 

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Sem essa solicitude na forma, o resultado é uma hiperactividade na sua própria narrativa, aliás o mistério nunca adensa, não, senhor, o que importa é quebrar todos os enigmas a tempo recorde, salvar a Humanidade de uma iminente destruição e por meio de flashbacks, às três pancadas, atribuir um “background” ao seu leque de personagens. Tom Hanks, apesar da repetência, continua um “estranho” na saga, e até as novas aquisições, como Felicity Hoffman, Omar Sy e  Irrfan Khan, são meramente reduzidas a “checkpoints”. Todavia vale a pena mencionar a presença de Sidse Babett Knudsen, que esteve presente no magnifico conto de fetichismo sexual - The Duke of Burgundy.

 

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Obviamente que este é outro caso de sucesso à la Robert Langdon, escusado dizer que não é a sua qualidade que reflectirá o impacto de uma fervorosa campanha de marketing, mais crente que a própria matéria.

 

Real.: Ron Howard / Int.: Tom Hanks, Sidse Babett Knudsen, Ben Foster, Felicity Hoffman, Omar Sy, Irrfan Khan, Ana Ularu

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:59
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3.10.16

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Próxima paragem!

 

Alguém gosta de brincar aos thrillers e essa pessoa certamente não é Tate Taylor. O homem por detrás do "querido", mas nada transgressivo, The Help: As Serviçais, adapta o grande êxito literário de Paula Hawkins, A Girl on a Train (A Rapariga do Comboio), uma trama que nos leva ao nosso consciente voyeurista adensado num plot de conspirações a lá hitchcockianas (a culpa e comboios tem muito a sua "cara"). Infelizmente, tal como o livro, o filme acaba por sofrer de uma premissa sob direcções óbvias, neste caso o "wannabe" de um arquétipo fincheriano a tenta "replicar" o sucesso de Gone Girl.

 

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Pois, conturbações matrimoniais são tema delicado e certeiro na devida sensibilidade, em A Rapariga do Comboio, essa mesma "sensibilidade" é substituída por um receio rigoroso de não falhar o alvo. A começar pelo início, onde a narrativa ramifica por capítulos literários que por sua vez saltam como "saltimbancos" por entre as diferentes perspectivas das personagens. Uma indicação de que os envolvidos não estavam meramente interessados em atribuir "folgas" para "criatividades" e liberdades de algum género. O plano é adaptar e agradar os leitores, mais do que reinventar o que está escrito. Mesmo que para isso, ofereça-nos um início fiel a Paula Hawkins, para depois esquecer de redefinir tal formula durante os prolongamentos.

 

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Até porque narrativas em paralelo não é coisa que agrade o público mainstream, ou será que agrada? A verdade é que esta teia de enredos e subenredos que nos levam ao fundo mistério perde as suas determinantes definições, assim como o filme avança até aos eventuais plot twists que vão surgindo, sistematicamente como manda a sapatilha. Falta o desafio no espectador, falta o lançar da dúvida e os "iscos" à nossa mercê. Mas não, A Rapariga no Comboio prefere apostar no seguro, segue as páginas do livro como um esqueleto do guião, sem perceber que é preciso trabalhar relações e personagens secundárias, é sim, preciso separar as águas da matéria-prima e da adaptação.

 

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Tate Taylor atribui o seu quê de profissionalismo, a sensação de que estamos a ver um thriller de categoria A sem saber que tudo resume a uma chapa B preguiçosa, automática, limpa e incoerente na trama e míope na realização (faz lembrar o equivoco de o Código DaVinci). Um confirmado receio de criar um "universo" para além das descrições contidas nas páginas de Paula Hawkins, o que só resume a ilustrações sem alma. Por fim, lanço o caos, Emma Blunt não é par para o filme, para além do seu esforço em vão, o seu casting é mais que uma desculpa do "tratamento estético" que muita da Hollywood aposta (quem leu o livro vai perceber o que digo). Em contraponto, Haley Bennett parece ter sido uma escolha acertada. Fica para a próxima paragem!

 

Real.: Tate Taylor / Int.: Haley Bennett, Emily Blunt, Justin Theroux, Luke Evans, Rebecca Ferguson, Allison Janney

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:35
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28.9.16

Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiare

Peculiar? Tim Burton faz o que pode, e mais não é obrigado. Será?

 

Verdade seja dita, saturados andamos com enésimas adaptações de livros infanto-juvenis de teor fantástico [vórtice 1]. Verdade seja dita, Tim Burton consegue trazer com tema tão explorado um certo grau de rigor e estilismo [vórtice 2]. Verdade seja dita, nem Burton é capacitado o suficiente para retirar a "milésima experiência" no ramo da mediocridade de estúdio formatado [vórtice 3].

 

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Inspirado na escrita de Ransom Riggs, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (título traduzido) possui os ingredientes integrais para agradar uma faixa etária, "comovo-nos" com humanos "especiais" e com heróis em modo "the one", envolvidos num pano de fundo da Segunda Guerra Mundial. Em Tim Burton tal matéria daria asas às suas catarses da "normalidade", assim como havia feito no ainda imbatível Edward Scissorhands (Eduardo Mãos de Tesoura). Mas nada disso, sendo possível identificar os "dedos" burtonescos do realizador, assim como uma certa ousadia em transgredir por entre a "normalidade" da produção, A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é um daqueles casos de que a originalidade não "mora aqui".

 

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A culpa é de Ransom Riggs, poderão proclamar muitos, e a verdade sim, mas nada invalida que a produção cinematográfica sofra com todos os sindromas que abatem este subgénero de filmes, muito mais nas fases pós-Harry Potter, ou pós-Twilight, onde tudo que soava franchise juvenil-literário era motivo de adaptação. A começar por uma prolongada introdução deste universo fantástico até chegar a personagens rebuscadas sob uma infelicidade enorme de serem reduzidas a adereços do bizarro e até mesmo Eva Green, apostada como a grande protagonista, numa caricatura de si própria. Já que falamos de caricaturas, porque não mencionar Samuel L. Jackson.

 

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Todo este arrastar pouco emocional e de território previsível termina sob "dinâmicos" acordes, um climax apressado, demasiado tosco e pueril que não deixa ninguém indiferente. Sim, o estúdio tem medo da palavra "flop", e há motivos para alarmes, vivemos em tempos que Spielberg já não é nome certo para o sucesso, por isso, Tim Burton também pode falhar nessa vertente comercial, sendo que tais pensamentos nos reflectem sobre o sucedido: "existe receio em apostar em mais um franchise".

 

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Continuando com o "vórtice" da "verdade, seja dita", muitos serão tentados a responder que Tim Burton é acima de tudo um autor, e a menor obra deste pode ser considerado melhor que os dos outros, pois, é nesse estatuo que o nosso realizador precisa de uns "calduços". Vendeu a sua personalidade à indústria e voilá … o pior filme da sua carreira. Sim, mais esquecível que a "macacada" de 2001. Vale pelo previsível; cenários, efeitos visuais e sonoros e o estilo ainda "burtonesco" que corre nas veias das personagens.

   

Real.: Tim Burton / Int.: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Chris O'Dowd

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 21:15
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1.9.16

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Uma Diva Fora de Tom? Será só a "diva"?

 

Florence, Uma Diva Fora de Tom (título traduzido) centra na história de uma aristocrata que sonha protagonizar uma ópera. Um sonho que poderia ser facilmente cumprido se ela não possuísse a mais "inaudível das vozes" … esperem aí … será que estou a viver um déjà vu! Tal história já não havia sido adaptada ano passado? Mas afinal o que se passa aqui?

 

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Não se trata de nenhuma recordação de vidas passadas, mas sim, da resposta norte-americana a Marguerite, um filme francês de Xavier Giannoli que apresentava Catherine Frot como uma aficionada de música que sofre de um grande mal … é desafinada "o quanto farta para cantorias". Mas esse "pequeno" grande defeito é ocultado da protagonista. Como? Com concertos encenados, opiniões forjadas e uma dedicação "martirologica" do seu marido. Mas nada disso impediu que Marguerite Dumont (referência à actriz Margaret Dumont, que constantemente contracenava com os irmãos Groucho) cumprisse a sua intima "fantasia" de ser um "anjo" em palco.

 

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Marguerite [o filme] foi um êxito, quer financeiro, quer artístico, conseguindo trespassar a sua ideia anedótica para um negro retrato sobre a arte como objecto de ostentação. Pelo meio passava algumas e óbvias incursões de Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder. Contudo, não devo avançar mais, até porque esta é a crítica de um outro filme. Sim, a de Florence, A Diva Fora de Tom, a previsível aposta para a vigésima da nomeação ao Óscar de Meryl Streep (e porque a Academia adora ousadia, óbvia ironia para quem não percebeu), é mais um "biscate" de Stephen Frears. A replicada história, agora, readaptada sob a desculpa de factos verídicos.

 

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Pelos vistos existiu na realidade uma "pior cantora de sempre" e que se dá pelo nome de Florence Foster Jenkins, uma herdeira nova-iorquina que conseguiu, nos anos 40, um espectáculo no histórico Carnegie Hall, mesmo tendo como seu grande inimigo uma voz "torturante". Meryl Streep, como sempre, encarna na sua personagem com garra e ousadia (mais que o próprio filme), mas infelizmente é na sua composição que esta produção hollywoodesca falha em todo os sentidos. Florence é demasiado "angelical", sem o pingo de loucura de Catherine Frot e induzida num quadro semi-hagiógrafa. É o problema destes biopics sob constantes piscadelas aos prémios da Academia, tendem em branquear em demasia as suas personalidades centrais (a relembrar o falhado retrato de Margaret Thatcher em The Iron Lady, novamente com Meryl Streep na "calha").

 

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Florence, Uma Diva Fora de Tom resume a um produto que falhou em consolidar a sua própria nota musical, tentando dispersar na imensidão cinematográfico, porém, encenando somente a mesma fórmula cinebiográfica. O tom, esse, é mais anedótico que o primo gaulês, encarando a história de Florence Foster Jenkins num prolongado gag de sitcom (demasiado trocista em relação à sua protagonista). A salientar ainda, Hugh Grant em forma e a surpresa de Simon Helberg numa variação muito "pee-wee". O resto é desafinação pura.

 

"Some say I that couldn't sing, but no one can say that I didn't sing"

 

Real.: Stephen Frears / Int.: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 11:54
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31.8.16
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O "épico" de hoje?

 

Não, de maneira nenhuma precisaríamos de outra versão cinematográfica de Ben-Hur, a história ficcional cruzada com um dos mais importantes capítulos bíblicos, mas visto que temos que "gramar" com mais um … cá vamos então! Tudo começou com um livro escrito pelo devoto General Lew Wallace que chegou ao grande ecrã, pela primeira vez, em 1925. Durante o espaço (desde a sua criação literária a este "embrião" de épico que assistimos em 2016), surgiu a epopeia de 1959, um colosso filme de William Wyler que revelou-se numa mostra de grandeza de uma Hollywood agregada a majors e produções sem precedentes.

 

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Protagonizado por Charlton Heston, que viria a tornar-se no galã de épicos de longo fôlego, esse Ben-Hur fez História dentro do circuito cinematográfico da altura, arrecadou uns impressionantes 11 Óscares, um feito que seria mais tarde "batido" por James Cameron e o seu trágico naufrágio ao som de Celine Dion. Obviamente que este novo Ben-Hur não irá triunfar com a mesma dezena de estatuetas (uma piada fácil que fora optada pela imprensa norte-americana), porém, seria de esperar um outro tipo de tratamento em relação às tão famosas adaptações.

 

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Sim, heresias à parte, este equivoco de Timur Bekmambetov é o mais tolerável das versões cinematográficas por um simples facto - é em comparação com os outros três o menos evangélico, cristalizado, e o mais ambíguo no que requer ao retrato "demonizado" dos romanos, os perfeitos antagonistas e … pagãos, como é referido no filme de 1925. Claramente, que essa faceta "humanitária" deriva de um século (hoje vivido), em que questionamos e pensamos sobre o fundamento da religião e das ideologias dos de crença oposta. Nesse termo, são pequenas as provocações (tal como sucedera em Exodus, de Ridley Scott), mas é evidente que esta tentativa de afastar-se o quanto possível do cristianismo intolerante das obras anteriores é, não um feito, mas um esforço que faz com que Ben-Hur seja readaptado às mais diferentes audiências. Aliás, esse vector de pensamento é evidente no, por fim, vislumbre de Jesus Cristo (aqui interpretado por Rodrigo Santoro), uma figura ocultada pelas produções anteriores porque simplesmente seria blasfémia atribuir uma cara ao Nazareno em uma história ficcional do século passado.

 

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Todavia, vamos ser sinceros, mesmo que fraudulento e movido com a maior das preguiças (a edição é uma lastima), este Ben-Hur ganha aos pontos à adorada versão Wyler pela naturalidade (ou pela aproximação) nos desempenhos. Afastando-se do exagero overacting, e do charlatão Charlton Heston. Mas perde, novamente na comparação, no ponto menos improvável - qualidade de produção - Ben-Hur de 1959 continua imbatível nesses termos; numa realização orgânica, uma edição monstruosa e quase sem falhas (a corrida continua, depois destes anos todos, no auge da acção cinematográfica) e os cenários construídos que atribuem uma textura impressionável. Agora, com o de 2016, face aos avanços tecnológicos, temos um produto estival, demasiado corriqueiros e igualmente desastrado. Quanto à famosa e mortal corrida no coliseu … nada a fazer … uma sequência "engasgada" onde ninguém parece perceber bem o quê.

 

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Certamente, não iríamos apostar num "novo clássico", mas o filme de Timur Bekmambetov não deixa dúvidas - o épico morreu em Hollywood - e ninguém parece importar com qualidade produtivas (actualmente o único a operar efectivamente em grandes produções hollywoodianas é Christopher Nolan, fica a provocação). Uma afronta para actores (Toby Kebbel condenado a outro "flop" de Verão), aos envolvidos (penso que ninguém se orgulhará proclamar que fez parte da produção) e ao público que cresceu a "venerar" a versão de William Wyler e que encontra aqui um tremendo e prolongado videoclipp narrado por Morgan Freeman. Ah! Já me ia esquecendo, quanto a evangelizações, este Ben-Hur tem outro ponto contra, possui o final mais moralmente "tosco" das mencionadas três versões.

 

Real.: Timur Bekmambetov / Int.: Jack Huston, Toby Kebbell, Rodrigo Santoro, Nazanin Boniadi, Morgan Freeman, Haluk Bilginer, Pilou Asbæk, James Cosmo

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:48
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25.8.16

Star Trel - Além do Universo.jpg

Velocidade Espacial!

 

Depois de minar dois Star Treks com os seus len flares, J.J. Abrams partiu para outra "galáxia" mas a sua presença reside na produção destas novas aventuras da USS Enterprise. No lugar do leme chega-nos então Justin Lin, o responsável por trazer mais velocidade e vitalidade a uma outra saga milionária - Fast & Furious - tornou-se então o capataz do provavelmente mais energético de toda o universo Star Trek.

 

beyond0001.jpg

 

Enquanto que a ideia dos envolvidos nesta nova saga "trekkie" foi trazer mais de Star Wars do que propriamente o franchise que acompanha o cinema desde 1979 (pois, tudo começou com um inteligente filme de Robert Wise, mas antes existia a série televisiva), este Além do Universo funciona como uma equação perfeita para tal requerida fórmula, é o "mexido" blockuster de Verão, sem astúcia e muita estética.

 

star_trek_beyond_still_0.jpg

 

Uma aventura galáctica imensa de efeitos visuais, correrias, batalhas "navais" e aquilo que poderemos caracterizar de "artes marciais" interestelares, sim, é um anti-Star Trek, tal como fora o anterior de Abrams, Into Darkness. Só que ao contrário do filme de 2013, o vilão não consegue realmente prender-nos, aliás se isto fosse uma crítica em inglês se poderia utilizar o termo "lame"… apesar de Idris Elba dar "corpo" a este antagonista.

 

Simon-Pegg-Sofia-Boutella-and-Chris-Pine-in-Star-T

 

O resto, devemos salientar, é mais do mesmo (bem, como estou tão farto de dizer isto). Um argumento reciclado onde sobra-nos um twist a meio da intriga (um "gancho" para iminentes capítulos), alguns actores esforçados nas suas personificações (Zachary Quinto é, apesar de tudo, uma boa alternativa de Leonard Nimoy) e por fim, umas homenagens, quer acidentais, quer planeadas, de algumas personalidades e personagens que marcaram esta saga além fronteiras. Leonardo Nimoy (obviamente), o recém-falecido Anton Yelchin, toda a antiga tripulação do Enterprise e o tributo à orientação sexual de George Takei, o original Sulu, incorporado na reencarnação de John Cho.

 

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Enfim, tínhamos tudo para deparar-nos com um agradável aventura cósmica, assim como muitos capítulos de Star Trek conseguiram invocar, mas as tentativas de tornar esta mesma saga num "refeitório geral" fez com que um legado caminhasse para uma variação de Velocidade Furiosa nas estrelas. Confirma-se, até à data é o pior do Reinado de J.J. Abrams.

 

"Fear of death is what keeps us alive"

 

Real.: Justin Lin / Int.: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Zoe Saldana, John Cho, Simon Pegg, Anton Yelchin, Idris Elba, Sofia Boutella

 

star-terk-beyond-scotty-jaylah.jpg

 

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Star Trek (2009)

Star Trek: Into Darkness (2013)

4/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:52
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