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27.6.17

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Até uma sósia da Megan Fox arranjaram!

 

Arrancamos com o texto com uma controversa afirmação: Michael Bay é um autor desta Hollywood subjugada tecnologicamente. Pronto, está dito. Agora, se isto é um facto a ter em conta, e puxando pela chamada política dos autores que, de certa maneira, os envolve numa imunidade crítica, é com cada um, porque não é isso que vem à baila na confrontação desta "sucata" escarafunchando em outra "sucata". Enquanto não seguimos então um novo efeito Verhoeven, fiquemos com o seguinte equívoco da industria estival.

 

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O quinto Transformers é, de longe, o mais insuportável da saga. O porquê desta afirmação? Simples. Enquanto o cinema de entretenimento tende em inserir no seio da agenda de lufa-lufa um desenvolvimento empático com o espectador, Bay descarta completamente qualquer sobriedade nas suas personagens, acções, tramas, efeitos e todas as consequências trazidas por esse extremo ego.

 

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Falta world building (termo utilizado para a construção de uma mitologia, de uma atmosfera, um ambiente, neste caso a desculpa de vender mais brinquedos e merchandising), não existe dedicação do material, há um desleixo na construção das suas personagens e uma dependência vinculada nos movimentos de câmara que tão bem mimetizam um videojogo. E não nos estamos a referir apenas ao plano americano à lá Bay, das longas sequências a lisonjear as forças militares americanas, da bandeira que baila ao vento, dos enésimos product placements que se camuflam como easter eggs e … pela quinta vez … o dispositivo narrativo do mundo em perigo por um iminente apocalipse (a esta altura já bocejamos com as imagens de destruição e do bye bye monumentos protegidos pela UNESCO).

 

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Não, referimo-nos ao ritmo epiléptico induzido na narrativa, às mil e uma coisas a acontecerem no grande ecrã sem a percepção do espectador, os diálogos formatados e sem emoção, o agravamento da continuidade com a saga, a descartabilidade dos eventos e a falta de noção e de astúcia para conduzir isto como um espectáculo circense. Pois, porque nem para isso serve. Gastamos 200 milhões … nisto. Um "filme" que nos deixa mudos, mas devido ao cansaço psicológico causado por esta anarquia mais anárquica, que nem serve sequer para o conseguirmos apelidar de cinema experimental. Apre!

 

Real.: Michael Bay / Int.: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Josh Duhamel, Stanley Tucci, Laura Haddock, Omar Sy, Isabela Moner, Ken Watanabe John Goodman, John Turturro, Gemma Chan, Jim Carter, Steve Buscemi

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:25
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9.6.17

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Noites felizes, filmes tristes!

 

Despedidas de solteiros em comédias é a garantia de caos e leis de Murphy ao quadrado. Rough Night (com o estranho título traduzido de Girls Night) é o enésimo uso do lema: “um mal nunca vem só”, e não é preciso citar After Hours, de Scorsese, para automaticamente apercebermos de que filme se trata. O enredo centra-se num grupo de 5 amigas que partem para o “fim-da-semana das suas vidas” numa Miami em modo Spring Breakers. Por entre a diversão, noites vividas pela musicalidade, o álcool e a droga, a trupe mata acidentalmente um stripper. Resultado, há que livrarem-se do corpo e ocultar as provas, tarefa nada fácil visto que a postura das nossas meninas parece não ajudar nem por um bocadinho a situação.

 

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Não sigam nas cantigas quando se referem a este filme de Lucia Aniello como a “A Ressaca no feminino”, não convenhamos comparar a astúcia de um para a parvoíce do outro, e verdade seja dita, mesmo sob códigos femininos, as piadas não desgrudam do simples mau gosto. Primeiro, encontramos aqui um concentrado do pior das comédias de estúdio, de personagens bocejantes a dispositivos deus ex machina para facilitar resoluções, neste caso a justificar um homicídio.

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Rough Night recorre a essa violência e disfarça-a como uma piada prolongada, não se tratando propositadamente de humor negro, mas sim de um equívoco em relação ao “girls power”. Apelação do activismo físico e não ideológico, a vingança como ferramenta de “igualdade de géneros” e a descrição de um grupo social numa eterna busca pelo direito da diferença (e não o da integração). Tal como acontecera com o remake de Ghostbusters (sim aquele pseudo-politizado produto de 2016), não basta encher um filme de protagonistas-mulheres para automaticamente este converter-se num filme feminista. Não, basta saber expor as ideias, focar o problema e tecer a crítica necessária, ao mesmo tempo, desenvolver com alguma transparência e sinceramente as suas personagens.

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Confessamos, que nem nós sabemos o porquê de estarmos a referir isto tudo, tendo em conta que Rough Night é somente uma parvoíce (e que dispensa sexos). Nada mais que isso. Comédias há muitas, agora fazer rir … esse é que é o desafio.  

 

Real.: Lucia Aniello / Int.: Scarlett Johansson, Kate McKinnon, Zoë Kravitz, Paul W. Downs, Jillian Bell, Ilana Glazer, Ty Burrell, Demi Moore

 

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2/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:51
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18.5.17

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Escapar não … esconder!

 

Queria dizer isto devagarinho, de forma a atenuar qualquer indício de hostilidade, mas não consigo, peço desculpas aos mais susceptíveis desde já… Bem, aqui vai. O filme Por Onde Escapam as Palavras faria melhor figura, se não deixasse escapar somente as palavras, mas sim se deixasse escapar inteiramente de todos nós. Porque não precisávamos de ver isto.

 

Eis um lixo, visto do ponto vista criativo, artístico, sociológico e mercantil. Uma comédia involuntária que nos remete ao pior que o cinema português possui: a falta de ideias, e, pior, a falta de ideias de cinema. Não é por questões monetárias que a criatividade e a coerência, têm de se ver descartadas. Pelo contrário, por vezes é sobre esse signo de apertos financeiros e outras limitações que nascem… eureka!… as ideias. Mas este projecto de Luís Albuquerque é uma omelete sem ovos, de um oportunismo que dói no que requer a citar o “terror islâmico” para nos oferecer um mau pastiche de auto-ajuda emocional.

 

O argumento, meus amigos, é ele próprio um verdadeiro atentado terrorista. Não acreditam? Vejamos a seguinte situação: um pai, cuja filha foi vítima de um ataque de fazer relembrar os trágicos episódios do Bataclan (Paris, 2015) persegue um dos autores do mesmo. Eis senão que nosso herói encontra o desprezível vilão barricado num antigo edifício, cercado pela competentíssima polícia. Tiros são trocados entre as duas parcelas, um violento duelo entre as autoridades e o perigoso terrorista ilustra o grande ecrã, enquanto a emoção aumenta no espectador pela incerteza do desfecho. "Sendo o nosso protagonista um mero e vulgar cidadão, como conseguirá ele entrar no edifício?", pensamos sem aguentarmos tamanho suspense (peço ao leitor que avalie todas as opções possíveis, use a imaginação, para então seguir com a revelação). Ah, “bonita” revelação desta mente elucidada que é o nosso herói! A personagem entra na dita batalha campal usando... as traseiras. Sim, simplesmente abrindo uma porta descoberta, sem quaisquer vestígios de seguranças! E isto é apenas um exemplo! Um!

 

Por onde Escapam as Palavras é um palavroso e amador filme, que nos apresenta 90 minutos da pior espécie, desde um enredo cosido e mal escrito, uma estrutura académica (mas, vá lá, de um academismo de quem saiu duma escola de cinema) até a um elenco ruinoso, onde cada actor é pior que o anterior. Sabemos que com a vinda do digital, qualquer um pode fazer cinema, mas fazê-lo não aplica apenas a vontade. Há que possuir o talento, a forma e a ideologia. Luís Albuquerque não possui nem uma coisa, nem nenhuma das outras, o que faz desta obra somente mais um "pecado fatal" [ler crítica] neste nosso meio cinematográfico.

 

Peço desculpas leitores pelo meu tom agressivo, visto que não tem a culpa disto. É que, ao contrário do título do filme, as minhas palavras não somente escapam... têm mesmo um objectivo definido.

 

Real.: Luís Albuquerque / Int.: Bruno Manique, Leonor Nobre, Beatriz Dias, Isabel Girão, Tó Zé Ferreira, Miguel Babo, João Damasceno

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 16:36
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13.3.17
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Cinema português … o eterno dilema da dinamização!

 

Diogo Morgado anunciou que esta sua experiência na realização teria como intuito trazer algum dinamismo ao panorama cinematográfico … por outras palavras, lá vamos nós à velha cantiga do cinema comercial português versus o autoral do costume.

 

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Mas será que esta proposta de comédia, um registo tão malfadado na nossa "indústria" actual, consegue vencer e transpor as barreiras da limitação televisiva? Claro que não, este filme que tem como signo a "má sorte" (ou Malapata) persiste numa ideia, e essa é dissipada pelas tendências de mercado que nós próprios abraçamos. Um bilhete premiado, dois amigos improváveis e dois dias cheios mergulhados numa maré de azar poderiam ser motivo para invocar as peças de uma série de infortúnios que funcionaram tão bem em comédias como After Hours, de Scorsese, e nas aventuras surreais de Harold & Kumar.

 

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Mas a ideia, essa, é o de somente uma sugestão, o que interessa é polvilhar a narrativa com camadas televisivas que teimam em não deixar ou preencher as elipses e transições com longuíssimas imagens de drones por um Faro em modo turístico. Depois, os cameos, desde o mágico Luís de Matos até à cantora Ana Malhoa, são os de uma cadência de "estrelas" que tende em servir mais como atractivos para o cartaz do que contribuir para a credibilidade do enredo. No caso do primeiro, a sua honestidade leva-nos à real percepção deste projecto: tudo não passa de um verdadeiro espectáculo de ilusionismo.

 

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Assim chegamos ao humor básico tão característico dos alter-egos dos seus protagonistas (Marco Horácio e Rui Unas), à narrativa que falha sem a concepção de um alvo requerido ou de uma linguagem cinematográfica e, como não poderia deixar de ser, a direcção sem brilho e quase anónima de Diogo Morgado, mas ao menos a sua estreia demonstra mais talento que um Leonel Vieira.

 

Real.: Diogo Morgado / Int.: Marco Horácio, Diogo Morgado, Rui Unas, Luciana Abreu, Pedro Marques, Luís de Matos, Ana Malhoa

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:12
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11.2.17

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Quando o sadomasoquismo é conservador!

 

No preciso momento em que Marlon Brando pediu a manteiga a Maria Schneider, do cinema erótico pouco faltava para transgredir. A última "pedra" foi com Gaspar Noé e o seu Love, mas isso é outra história. Quanto a Fifty Shades Darker (Cinquenta Sombras mais Negras) ... o que está em causa é um produto vindo da mais defeituosa linha de montagem, existindo mais interesse em apelar aos fãs do livro, reduzindo-se a uma adaptação de adereços, do que propriamente apostar no campo do cinema erótico.

 

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Pois sim, de erotismo este episódio nada tem, e muito menos o teor explicito, apenas dissecado no product placement de qualquer sex shop. Esta sequela, agora sob o cargo de um homem e com maior intromissão da autora E.L. James no guião, não dá dignidade a Anastasia Steel, ao contrário do filme anterior, em que a realizadora Sam Taylor-Johnson tentava perante tão afamado material "infectar" a personagem num "loop" que percorria os mesmos traços de 9 1/2 Weeks. É tudo igualmente púdico, limpo e absolutamente vendido à "pop culture" da MTV (a banda sonora é um autêntico balde de gelo perante qualquer atmosfera sensual).

 

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Os actores nada se esforçam e ambos revelam se limitadíssimos em "rasgar" as suas personagens de papelão. A entrada de Kim Basinger, a única referência pura ao filme de Adrian Lyne, é uma piada de extremo mau gosto, até porque no que diz respeito a personagens secundárias, Fifty Shades Darker nada tem de submissão (o que interessa são os protagonistas, os restantes são adereços). Assim continuamos a criar fenómenos sem razão, a sermos escravos de um marketing bondage, e a ser histéricos por um material "kinky" para maiores de 16 anos.

 

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Depois de Paul Verhoeven ter apresentado em Elle que é possível representar mulheres numa jornada em busca das suas fantasias sexuais, é quase uma censura moral sermos presenteados com um filme sobre sexo tão inofensivo que até o próprio tempo de antena lascivo é um mero embaraço narrativo. Na televisão conseguimos ver bem mais.

 

Real.: James Foley / Int.: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Kim Basinger, Rita Ora, Marcia Gay Harden

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:29
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1.2.17

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Unidos, mas igualmente separados

 

Em Cannes de 2015, Brillante Mendoza apresentaria, em secção Un Certain Regard, Taklub, uma suposta homenagem aos sobreviventes do super tufão Haiyan, que abateu as Filipinas em 2013, vitimando mais de 6.300 vidas. Um episódio catastrófico que nem mereceu a atenção da imprensa global (apesar de ser visto como um dos mais fatais desastres do sudoeste asiático). Tendo em conta esse factor, Mendoza decidiu conceber um filme para reavivar essas mentes que infortúnios como estes acontecem nos quatros cantos da Terra e que cada vida, merece sim, a sua solidariedade. Muito antes disto, em 2002, uma antologia de curtas sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001 encontrava-se a ser produzida para a criação de um filme colectivo. Por entre os realizadores convidados a integrar o projecto (11'9"01 September 11), um deles, Ken Loach, decidiu abordar um outro 11 de Setembro, o dia negro que marcou o Chile em 1973, totalmente esquecido na actualidade.

 

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O que queremos insinuar com estes exemplos, não é o menosprezo das vidas perdidas nos atentados de Boston em 2013, onde duas bombas explodiriam por entre a multidão que assistia à maratona festiva de Patriots Day. Os medias captaram, em completa sintonia, o incidente e o desenrolar destes, terminando na captura dos autores desse tal acto. Mediatismo é a essência pelo qual compõe este Patriots Day, a nova colaboração entre o realizador Peter Berg e o actor Mark Wahlberg, que resultou em mais um desesperado e desonesto filme sobre a "força" inerente dos EUA.

 

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Era de esperar algo do género. Porque honestidade e reflexão não são com esta dupla pela qual, relembramos, presenteou-nos com um dos piores filmes bélicos recentes (difícil, visto que não têm sido poucos). Em Lone Survivor, deparávamos com a réplica do videojogo Call of Duty, onde a acção rebuscada e as densas palas "patriotas" eram motivo que bastasse para incutir uma indigna homenagem a "heróis caídos". Heróis? Questionamos os actos. Aliás, assim como deveremos questionar os propósitos desta homenagem às vidas perdidas de Boston, juntamente com a vendida frase - "baseado em factos verídicos".

 

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Patriots Day arranca com um choque completo, tudo é filmado com um handycam constantemente inquieto, auferindo um tom vérité e claro, a aproximação com a plataforma jornalística. Todavia, é apenas isto que Berg, "pupilo" de Michael Mann, consegue fazer. Nesse mesmo jogo, não referido o seu "sensei", um outro realizador, Paul Greengrass sempre havia evidenciado uma certa orgânica da câmara em consolidação com a acção, enquanto que o nosso Berg se perde por constantes batalhas de planificação de última hora, dando uma essência certinha e igualmente desorganizada. Não é found footage meus amigos, é entretenimento "tremido".

 

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Depois de apercebermos o desvaire técnico, seguimos ao encontro de uma panóplia de personagens, 90% delas sem relevância para o enredo em si. São representações, faces das vítimas com todo aquele cenário pastiche e pastelão por detrás. São seres de pura felicidade, como se não existissem conflitos numa Boston antes dos atentados. Perfeitos seres humanos, preenchidos com amor, dedicação e harmonia em todos os seus poros. Esta Boston é um protótipo de cidade perfeita … isso se acreditarmos na hipocrisia das imagens, nesta manipulação "branqueada" que nos leva à outra face da moeda - os autores do atentado. Estes muçulmanos "radicais", cujos ideais oscilam violentamente para anarquismo, acima de qualquer statment político, são seres torturados por um maniqueísmo sem tréguas. Num filme, onde as outras personagens gozam de uma tremenda "joy" em cadeia, estes islâmicos são ainda reduzidos a estereótipos embutidos.

 

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Patriots Day nem sequer tenta disfarçar as suas ideias perigosas, estas servidas de bandeja como uma homenagem às vítimas. O que vemos é um perigoso ensaio da actualidade norte-americana. Mark Wahlberg discursa até certa altura sobre o bem e o mal. Os ponteiros do maniqueísmo sobem a pique. E a sequência final, mais um na tendência de epílogo documental de testemunhos e imagens reais funciona como um soco de realidade à cara do espectador: "o que dissemos até agora é tudo, mas tudo, verdade". E os nossos antagonistas a proclamarem "vamos matá-los os todos". Peter Berg é um artesão de um raio em lavagens cerebrais, e conseguiu mais um feito, e dos grandes. 

 

Real.: Peter Berg / Int.: Mark Wahlberg, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin Bacon

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:57
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19.1.17

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"Velocidade Furiosa 7.2"!

 

Com que então Xander Cage está vivo! Matá-lo foi uma decisão a qual os produtores cedo arrependeram-se –  tendo em conta os resultados pouco animadores da sequela / spin-off de 2005, onde substituíam o ascendente Vin Diesel por um Ice Cube em extremo modo de “grumpy cat”.

 

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Passados 12 anos, eis que surge a continuação “digna” do sucesso de 2002, um filme apenas possível graças ao desespero da sua estrela em agarrar os seus antigos êxitos. Parece que os problemas são os seus fãs, estes que estiveram nas “tintas” para a sua tentativa ao Óscar em Mafioso Enquanto Baste (provavelmente o filme mais “cinematográfico” da carreira de Diesel, sob as ordens do lendário Sidney Lumet), salivando apenas para mais entretenimentos instantâneos, como manda esta Hollywood tão Bollywood. Consequência? É ressuscitado Velocidade Furiosa, pelo meio um Riddick e agora esta aspiração de outros tempos –  um xXx demasiado preso ao narcisismo da sua estrela.

 

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O filme é uma versão “light” de Fast & Furious, com Vin Diesel a formar uma nova equipa sob os mesmos moldes culturais e com missões de “encher chouriço” para longas e toscas sequências de acção que nada adiantam ao enredo. Não é que procurássemos nesta “aventura” um dos pilares máximos do cinema enquanto Sétima Arte, mas o efeito paródia que o original transpirava é desfeito por uma produção igualmente séria e desmiolada. Personagens descartáveis, cameos desnecessários (Neymar entra na industria pela “porta pequena”), diálogos sem utilidade e gags previsíveis e sem criatividade fazem as “maravilhas” dos espectadores.

 

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Vale pelo pouco “malabarismo” marcial de Donnie Yen, cada vez mais requisitado nas produções hollywoodescas (ao contrário de Tony Jaa, que nunca é devidamente utilizado). Quanto ao resto… bem, o resto é engodo. Um aperitivo somente apropriado para quem não aguenta esperar pelo oitavo filme de um certo franchise bilionário. Se é para brincar aos “espiões”, fiquemos com a classe politicamente incorrecta de Kingsman.

 

Real.: D.J. Caruso / Int.: Vin Diesel, Donnie Yen, Deepika Padukone, Ruby Rose, Nina Dobrev, Toni Collette, Samuel L. Jackson, Tony Jaa

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:12
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22.10.16
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O Evangelho dos Burgueses!

 

A crise dos refugiados contraiu tal dimensão mediática que é praticamente impossível ficar indiferente ao tema. Em consequência disso, são “às centenas”, as obras que são lançadas este ano e que deambulam sobre as condições desta gente. Felizmente, há quem o faça bem, como também, a quem os explores de maneira quase pornográfica. Nesta última opção encontramos Vangelo (em Competição Internacional do Doclisboa) sobre um actor e encenador italiano - Pippo Delbono (conhecido pelo seu desempenho em I am Love, de Luca Guadagnino, ao lado de Tilda Swinton) - que após a morte da sua querida mãe e dos diagnósticos assombrosos da sua saúde, decide aventurar-se entre os refugiados para … sabe-se lá o que se passa na cabeça dele … encenar o Evangelho.

 

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Antes disso, bem, após algumas sequências longas e narcisistas, filmadas por telemóvel sobre a sua pessoa, Pippo afirma que para consolação da sua dor havia encenado um chamado “Evangelho dos Ricos”, uma peça trabalhada com muitos dos seus amigos artistas, que segundo o realizador, são burgueses que desconhecem o mundo real. Bem visto, sim senhor, se não fosse o facto de logo a seguir Pippo afirmar que pessoas infelizes devem se manter próximo de pessoas ainda mais miseráveis para se sentir na melhor das formas.

 

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Solução, o encontro com um grupo de refugiados para confortar o seu pesar. Esta comparação entra logo em conflito com a moralidade do projecto, até porque a restante duração do documentário faz-se com puro bullying. Pippo é um burguês privilegiado que encontra nos refugiados o seu ar de graça para simplesmente troçar, quase obrigando-os a citar frases italianas, o qual se entende que estes homens não percebem nem sequer uma palavra daquilo, até à natureza religiosa cristã da peça sobre vários homens, que sem sombras de dúvidas, são muçulmanos. A persistência nessa evangelização está em perguntas como “Conheces Jesus?”. Será Pippo um jesuíta?

 

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O incomodo é um sentimento vivido por estes homens com vidas destroçadas, os respectivos olhos falam por si. Homens munidos de coragem para deixar para trás as suas vidas anteriores e aventurarem-se nas mais arriscadas façanhas (exemplo, é o único relato de vida destes, Safi, que com o seu péssimo inglês torna-se no ponto alto da obra). Por entre “torturas” (um homem residido minutos sem fim no alto mar para citar textos do Nazareno), até a interrogatórios frios e voyeuristas, Pippo, sob uma sugestiva respiração ofegante, faz de “domador de feras” num circo que ele próprio montou, para além disso, todo este registo funciona numa espécie de “snuff film”.

 

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Para finalizar, este homens cujo futuro é incerto, muitos deles com vistos negados e recambiados aos seus países de origem (qual? O filme nem interessa por isso), Pippo, revela o seu pensamento mais egoísta de puro conformista burguês, “estas pessoas são felizes porque tem música e dança”, ou “como estas pessoas não tem medo da morte, sabem o que é viver”. Mas que raio de “moralismo” é este?! Pippo pega nos refugiados para o seu próprio entretenimento (existe também alusões sexualmente fantasiosas com estes mesmos homens), depois reforça a sua miserabilidade humana, como fosse o mais desgraçado de todo este Mundo, esquecendo que é um privilegiado homem branco ocidental.

 

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No final temos a sua “queridaÚltima Ceia, sob o som de uma música em looping I Feel Good”, sim, bastante apropriado, indeed!. Pelos vistos, encontrei o Je m’appelle Hmmm … deste ano [ler crítica aqui], mal executado, mal idealizado e imoral no seu sentido de oportunismo.

 

Filme visualizado no 14ª Doclisboa: Festival Internacional de Cinema

 

Real.: Pippo Delbono

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 16:04
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11.9.16

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E seja quem for que ganhe... nós perdemos … literalmente!

 

Crossovers no género de terror é um truque mais antigo do que aquilo que se julga. Nos anos 40 e por aí fora era comum encontrar este tipo de registo de forma a “despacharfranchises, ícones ou simplesmente combinar dois “clubismos” num só. O resultado, Lobisomens contra Frankensteins, Frankensteins contra Dráculas, Dráculas contra Lobisomens, ou tudo ao “molho” como é o caso de House of Frankenstein (Erle C. Kenton, 1944).

 

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Do outro lado do Oceano, os japoneses não ficaram de fora perante esta artimanha, aliás foi essa mesma que serviu de plano de sobrevivência para uma saga sua, Gojira (Godzilla), e os casos mais gritantes como Gojira Vs King Kong (subliminarmente a desforra do resultado da Segunda Guerra Mundial) ou Gojira Vs Gamera. É lógico que passados estes anos todos, “coisas” como Alien Vs Predator e Freddy Vs Jason (este último acaba por ser o mais modesto dos exemplos hollywoodianos) integram a memória do espectador no preciso momento que se fala em crossovers, embates entre duas sagas.

 

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Sadako Vs Kayako (de um lado Ringu, de Hideo Nakata, do outro Ju-On, de Takashi Shimizu), são duas “vitimas” do desgaste, sombras do que outrora foram - pioneiros no prolifero subgénero j-horror – encontram a única solução de revitalização num confronto cinematográfico. A quem acredite que todo esta manobra de comércio marque o fim de dois franchises, porém, algo é certo, Sadako Vs Kayako é um “caçador formidável”. Digo isto porque tem a proeza de “matar dois coelhos duma cajadada só”.

 

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Pois bem, a ideia está à vista de todos, “vamos juntar dois pesos-pesados do cinema de terror nipónico para facturar o que sobra destas espécies em vias de extinção”. Quanto a argumentos? Segundo a “mentalidade” dos produtores, qualquer coisa serve como desculpa (todo este episódio faz lembrar a "matança" a Freddy Krueger ocorrido em 1991). Os actores? Estes serão apenas reduzidos a caricaturas das caricaturas num filme que não consegue encontrar o seu verdadeiro tom. Quanto às poucas sequências de terror que o filme tenta emanar, palavra de honra, puros motivos de chacota para as audiências.

 

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Estes pesadelos converteram-se em inofensivas imagens, sem força alicerçada, nem sequer rigor para funcionar como sátira, é somente uma produção sem esforço nem vontade, "pastilha elástica" da pior qualidade. Aliás tudo resume-se a uma “palhaçada” com objectivo de extrair o que resta nestas duas sagas em vias de eutanásia. Visto isto, mais valem morrer sozinhas. Abaixo deixo a minha homenagem a estas duas sagas:

 

R.I.P. Ringu: 1998 - 2016

 

R.I.P. Ju-On: 2000 - 2016

 

Real.: Kôji Shiraishi / Int.: Mizuki Yamamoto, Tina Tamashiro, Aimi Satsukawa, Masanobu Andô

 

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Ler também

The Grudge 3 (2009)

The Grudge 2 (2006)

Ju-On: The Beggining of the End (2014)

2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:14
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20.5.16

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A inesperada face de Sean Penn!

 

Por onde devemos começar? Pelo facto de Sean Penn, mesmo sob o pretexto de amor ONG, não conseguir esconder um espírito colonialista de uma África auxiliada pelo Ocidente? Pelo seu activismo politico e social com discursos de bolso sobre a ajuda humanitária aos Refugiados e à pobreza mundial? As boas intenções que não conseguem disfarçar o baratismo sentimental como dispositivo de comoção direccionado ao público das mesmas notícias de telejornais? Pelo enésimo branqueamento, literalmente falando, de uma África cinematográfica e problemática? Ou pelos diálogos incrivelmente bacocos e deslavados perante tanta "pirosidade"?

 

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Sim, The Last Face é algo indescritível, o cinema volta a mostrar que pouco sabe de África para além dos estabelecidos lugares-comuns da eterna consciência branca. Sean Penn, defraudado com o seu "high moral ground", convencido que as boas intenções pagam a passagem ao barqueiro, incute um romance desproporcional tal como acontecera anos antes em Beyond Borders (Martin Campbell, 2003), onde Angelina Jolie e Clive Owen apaixonam-se para além das barreiras. Este não é o Penn que conhecemos, o realizador de Into the Wild, é antes um orador de um discurso activista com mais chance de irritar do que propriamente "mudar o mundo".

 

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Uma colecção de "porverty porn" e de desgraças com mais noção hollywoodesca do que propriamente a criação de uma crítica / denúncia social. Nesse sentido, Beasts of No Nation é mais directo, sem a necessidade de condimentos românticos nem personagens ocidentais como atractivos de marketing. Até porque a África actual está longe do romantismo colonial de outrora, daquela "fantasia exótica" que os portugueses tanto adoram invocar nos seus filmes de época (Cartas da Guerra, Tabu, Costa dos Murmúrios). Isto é um assunto sério, a nível global, como também é desprezado por essa mesma escala. Tal como a canção colectiva "we are the world, we are the children", o mundo não muda com cantigas. O paternalismo hippie -  make love, not war -  aludido à primeira legenda deste filme, prevê o fracasso de todo o tamanho que este The Last Face iria se tornar.

 

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Nem mesmo Javier Bardem e Charlize Theron safam-se a este grave atentado, a este Sean Penn "bêbado" que se julga Terrence Malick em causas humanitárias. Falando em atentados, ver a "promissora" actriz Adéle Exarchopoulos, presente no elenco só como garantia de co-produção, é o equivalente a esfaquear o meu coração com uma faca de manteiga. Matem-me, por favor!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Sean Penn / Int.: Charlize Theron, Javier Bardem, Adèle Exarchopoulos, Jean Reno, Jared Harris

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 13:45
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5.5.16

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Sem comentários, o título diz tudo!

 

Lembro perfeitamente de assistir à trupe composta por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe alugarem um apartamento em Manhattan, a fim de embarcarem numa demanda em busca de um marido milionário que pudesse providenciar uma vida isente de sacrifícios e possível a excessos. Esse filme, How to Marry a Millionaire, de Jean Negulesco, estreava há 62 anos atrás, num mundo onde a mulher de sucesso ainda era vista como um dedicada esposa e dona-de-casa. E quem fala desse filme, refere também às enésimas produções que no entretanto estreava nessa década, como antes e depois dela.

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Mas os anos passaram, neste momento uma réplica desse How to Marry a Millionaire seria um filme perigoso, sexista e provido de incapazes personagens femininas. Nos tempos actuais, pedimos mulheres de carácter, detentoras de personalidade e sobretudo, determinação. No caso de sociedades ultra-conservadoras, todos nós solicitamos a crítica como a especiaria das eventuais narrativas. Nesse aspecto, quem não se lembra de Mustang? A obra onde cinco raparigas turcas tentam desafiar destinos traçados por matrimónios arranjados numa comunidade "governada" por homens.

 

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Contudo, no caso de Cartas de Amor são Ridículas (título inspirado num poema de Álvaro de Campos, heterónimo do poeta português Fernando Pessoa) não existe sequer uma tentativa de sátira (visto tratar-se de uma comédia de costumes), mas sim uma cumplicidade descarada da realizadora e argumentista, Alvarina Souza e Silva, aos ideais misóginos que o filme não tem vergonha de expor. Tudo corre muito mal aqui, um cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Cyrano que resulta na patética tentativa de branquear o matrimónio como a mais pura das etapas humanas, mesmo quando a violação é aqui sugerida, porém, ofuscada simplesmente pela ideia de um casamento como uma garantia de sobrevivência.

 

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São doutrinas parolas, ultra-conservadoras do século passado e ainda a religião novamente a apresentar culpas no cartórios que tornam esta "filme" ofensivo e desprovido de qualquer denúncia social ou algo do género. Não, simplesmente é um "faz-de-conta" de que tudo aquilo apresentado é correctíssimo e que a mulher não possui qualquer tipo de voz em todo este cenário. Agora, passando para o resto, porque um filme não deve ser apenas construído com base numa crença, Cartas de Amores são Ridículas serve ainda outras ofensas em termos técnicos, interpretativos e argumentativos.

 

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A primeira, evidencia a urgência de oferecer um tripé à realizadora nas suas fracassadas tentativas de steadycam, leccioná-la a uma rápida introdução quanto à edição e a necessidade do tempo nas passagens entre planos e, por fim, demonstrar como é indecente apresentar um produto sem qualquer brilho quer fotográfico ou de sonoplastia. No segundo ponto, os atores são automáticos sob as suas pele de "bonecos" ocos, pseudo-emocionais e motivados por uma argumento (terceiro ponto) sem noção de construção quanto às personagens, nem a inserção do conflito dramático. Por último, devemos consolar Fernando Pessoa, que imensas reviravoltas deve ter efectuado na sua tumba perante à utilização indevida dos seus poemas. Tudo ao serviço de tamanha dose de amadorismo. Resumidamente, eis um filme ridículo e não as supostas cartas de amor. Enfim!

 

Filme de abertura da 9ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Alvarina Souza e Silva / Int.: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:21
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3.4.16

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E porque não chamar as "coisas" pelo nome?

 

O enredo de Il Nome del Figlio é um efeito dominó que adquire o seu tom de grotesco quando avança na calamidade do "mal entendido", e como uma noite passada entre amigos pode-se tornar num turbilhão de revelações e de emoções escondidas. Adaptado da peça de Mathieu Delaporte e Alexandre de La Patelliére, este é um tipo de filme que dificilmente consegue deserdar as suas raízes teatrais em conformidade com uma linguagem distantemente televisiva.

 

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Nesse aspecto, aqui a experiência pode causar um sentimento de repugna, visto que as personagens dificilmente deslocam da sua caricatura e a intriga, que apostava ser divertida, não é credível na sua própria mentira. Se a simpatia não encontra aqui o lar, Il Nome del Figlio desfere ainda um autêntico golpe no espectador após serem levantadas questões, por si só acidamente hilariantes, mas desfeitas como "petas" narrativas. Falo obviamente do título - O Nome do Filho - que desperta uma adversão reaccionária na civilização moderna, os residentes de um mundo onde cada palavra é imperativamente associada a eventos ou personalidades.

 

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Neste caso, a "confusão" começa com o substantivo Benito, automaticamente ligado ao fascista italiano Benito Mussolini, uma palavra que invoca e acende uma discussão que vai para além do politicamente correcto e da limitação desse meio, neste caso a associação de temas que qualquer vocabulário parece adquirir de forma politica e social. Talvez seja uma questão de susceptibilidade, mas é fácil de imaginar este argumento transposto para território alemão, com Benito substituído por Adolfo, ou até mesmo português, com Salazar na "canha".

 

 

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Todavia, o debate é apenas uma desculpa esfarrapada para incidir o caos nesta comédia tecnicamente deslavada, rodeada de personagens inanimadas que por sua vez são guiadas por uma narrativa constantemente "esfaqueada" por flashbacks inúteis, cujo único propósito é retratar o espectador como um acéfalo sem noção alguma de história. Para além de ser de uma visualização aborrecida, este é o tipo de "cinema" populista que em Portugal traduzia-se a algo como Leonel Vieira e os seus respectivos "atentados".

 

Filme visualizado na 9ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Francesca Archibugi / Int.: Alessandro Gassman, Micaela Ramazzotti, Valeria Golino, Luigi Lo Cascio

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 19:44
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13.8.15

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Os portugueses no resto do Mundo? Nem por isso!

 

Do outro lado do Oceano, A Date with Miss Fortune tem sido comparado exaustivamente com My Big Greek Wedding (Viram-se Gregos para Casar), tudo porque ao nosso dispor temos a enésima visão pitoresca dos estrangeiros em culturas norte-americanas, onde mais uma vez são retratados como famílias profundamente tradicionais e caricaturalmente bizarras.

 

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Em Portugal, o filme de John L'Ecuyer recebe previsivelmente o cognome da Gaiola Dourada canadiana, porém, em comparação com a obra de Ruben Alves, que tanto sucesso fez no nossos país, a modéstia referencial é substituída por estereótipos extremistas, elaborados em traços que induzem-nos fanatismo religioso como patriótico, e até mesmo um dotado cariz fascista (e não estamos a falar de nazis). Sim, são estas as características que estão implantadas nas personagens portuguesas que compõem este retrato cómico-amoroso de John L'Ecuyer, sobre um encontro acidental que resultou num romance acima do esoterismo e dos vínculos culturais. São filmes como estes que nos fazem perdoar Love Actually, de Richard Curtis, e nos fazem realmente questionar que imagem é que o mundo tem de Portugal. Uma questão interessante, contudo, de difícil explicação quando deparamos com o facto da filha de emigrantes açorianos, Jeannette Sousa, ter sido uma das autoras do argumento, para além de protagonizá-lo ao lado do canadiano Ryan Scott.

 

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Mas pondo estas vertentes, que soam a nacionalismo, de parte, Um Encontro Com o Destino (titulo traduzido) resume-se a uma comédia romântica com um promissor ponto de partida a nível narrativo, mas que depressa converte-se num emaranhado de clichés do género. John L'Ecuyer não consegue engrenar no dito registo e quando menos se espera deixa cair a sua imagem profissional e acarreta um protótipo de uma sitcom criada exclusivamente para a internet (até parece que tudo resume-se a um mau episodio piloto de um websérie). Sem um pingo de graciosidade e genica nas suas gags, em Um Encontro com o Destino soma o carisma de Jeannette Sousa, que parece ser a única razão para que este filme tenha sido concebido. No fim disto tudo, temos mais um registo falhado de Joaquim De Almeida para além fronteiras.  

 

Real.: John L'Ecuyer / Int.: Jeannette Sousa, Ryan Scott, Joaquim De Almeida

 

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Le Cagé Dorée (2013)

2/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:00
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4.8.15

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O Pátio já não é o que era!

 

Não é que O Pátio das Cantigas seja um clássico absoluto do cinema mundial. Foi, sim, um objecto do regime salazarista que caiu actualmente nas boas graças do povo português e ainda hoje integra parte do nosso dialogo e tradições. Quando se fala de O Pátio das Cantigas, se menciona, obviamente, filmes como A Canção de Lisboa, O Leão da Estrela, O Costa do Castelo, entre outros e, com excepção de O Pai Tirano, todas elas comédias ditas populistas que tiveram o favor de transladar um humor de revista e de rádio para o grande ecrã. Foi como o cinema português deu os primeiros passos "correctos" no sentido do que julgava ser cinema comercial. Por outro lado, eram filmes moralistas, adeptos dos bons costumes e de conteúdos limitados em consequência do regime politico que se vivia. Nota-se, por exemplo, a célebre sequência do tumulto no arraial do Pátio das Cantigas, em que a personagem de Vasco Santana leva um grupo de crianças para um recanto obscuro e aclama "aqui não vos acontece mal nenhum", no mesmo local onde se vê uma tabuleta com a inscrição SALAZAR.

 

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Sim, sempre existiram mensagens subliminares nestes filmes que respeitavam os chamados "três Fs" de Salazar. Porém, a ideia de um remake ou "homenagem", como cobardemente se quer auto-intitular este filme, é uma manobra arriscada e que dificilmente nos diz algo sobre a época em que vivemos. Leonel Vieira (A Arte de Roubar, A Selva) conduz um grupo de atores, todos formados na escola da televisão, imagem adversa do elenco original, "extraído" da rádio e do teatro, que suportam personagens por vias de meras caricaturas e confronto entres egos ou, como no caso de Miguel Guilherme, uma descarada imitação do Evaristo de António Silva. Até a melhor actriz do elenco, Anabela Moreira, encontra-se num desperdício herege.

 

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Como referência à digna "caixa-maravilha", este O Pátio das Cantigas tresanda a todo um registo televisivo, especialmente com o seu humor descartável, pouco imaginativo e, por vezes, de mau gosto. Existem mesmo sitcoms nacionais mais sofisticadas que toda esta lavagem "pseudo-moderna", já que o modernismo fica-se pelo "pastiche" e pelo product placement que controla o quotidiano das suas personagens e não o contrário. É um pátio míope, sem textura nem dimensão e, pior, sem vida, para além da aquela incutida artificialmente para "português ver".

 

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Da mesma forma, enquanto produtos mais originais e ousados da nossa cinematografia são desprezados pelo seu público, são "coisas" como estas que auferem o seu título de filmes "populistas". Por fim, se eu tiver que nomear algo de bom neste exercício transvestido de comédia, é que Leonel Vieira consegue ser mais sóbrio a nível técnico e de planificação em comparação com Nicolau Breyner e o seu "híbrido" 7 Pecados Rurais [ler crítica]. Cinema? Não, autocolante televisivo. Homenagem? Não, simplesmente oportunismo.

 

"Ó Evaristo, não sabes nada disto!"

 

Real.: Leonel Vieira / Int.: Miguel Guilherme, César Mourão, Dânia Neto, Cristóvão Campos, Sara Matos, Anabela Moreira, Rui Unas, Aldo Lima, Joaquim Nicolau, Oceana Basílio, José Pedro Vasconcelos

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 22:45
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21.5.15
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Os imigrantes!

 

Existem claros problemas em Dheepan, o mais recente filme de Jacques Audiard (Un Prophète, Rust and Bones), principalmente na sua estrutura narrativa e nas constantes mensagens que poderão transmitir. É que a história de sobrevivência de uma família fictícia vinda do Sri Lanka para França, a fim de escapar à desolação da guerra, é regida pelos mais variados lugares-comuns, os quais tão bem integrariam uma produção de Hollywood.

 

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É verdade que Jacques Audiard é um cineasta competente em induzir uma ênfase dramática às suas personagens, e conseguiu fazer com as suas anteriores obras uma espécie de meio-termo, ou seja, não muito dado ao lado autoral e sendo acessível sem com isso requisitar o bacoco do mainstream. Mas em Dheepan, Audiard mete a "pata na poça". Aquilo que aparentaria ser cinema de inserção social depressa se converte num drama sobre a criação de laços familiares e afectuosos quando no preciso momento em que os três membros deste "embuste familiar" começam por fim a interagir e a definir as relações afectivas.

 

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Até aqui todos os clichés do retrato social de um bairro suburbano algures na França são invocados sob um jeito pastiche. Estes propósitos depressa convertem-se em episódicos tomos de traumas e de construção inapta com a realidade do Sri Lanka, mas isso é desprezado quando o climax começa a "bater à porta" e Dheepan (filme e personagem) revela a sua face mais fácil e de certa forma "pirosa", transformando-se num arquétipo de Rambo. Pois é, um drama que se adivinha próximo do cinema verité, abordando temas de imigração e de reinserção social, depressa vira um filme de acção filmado em handycam. Nem Paul Greengrass conseguia melhor (evidente ironia, para quem não tenha percebido).

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Mas o pior não está ai, o autêntico degredo é no seu "happy ending", uma hipocrisia que esboça ignorância em prol de uma mensagem de militância. Nesse sentido, as boas intenções são ultrapassadas pelo valor da imagem. O seu constante simbolismo emocional instiga um debate sobre a imigração na sociedade francesa, mas com uma miopia constante. É que afinal, segundo Jacques Audiard, a França é o pior país para um estrangeiro se reintegrar e até mesmo o mais violento e desumano. Uma mensagem que poderia soar a crítica, não fosse o facto de este cair em comparações evidentes e descabidas.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Jacques Audiard / Int.: Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby

 

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Rust and Bone (2012)

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 12:11
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19.4.15

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Quando o cinema é um jogo para alguns!

 

Prisão e mulheres no cinema já são por si temas de exploitation, temas, esses que foram muito popular nos anos 60 e que conseguiram perdurar até aos dias de hoje graças a alguns exemplares. Mas em Jogo de Xadrez, a primeira longa-metragem de Luis Antonio Pereira, a temática algo trash desses mesmos produtos é aqui invocada de forma involuntária.

 

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O que reside nesta fita protagonizada por Priscila Fantin (popular em Portugal devido ao trabalho em inúmeras novelas da Globo) é somente uma caricatura do termo. Depois é o enredo que desenvolve a partir de pedagogias e morais dignas de telenovela que entrelaçam com a denuncia "à la direitos humanos" sob bonecos unidimensionais. Aliás, chamar disto "bonecos" é pouco, basta evidenciar o leque de pseudo-personagens que nunca saem do registo de estereotipo e maniqueísmo, munidos por diálogos tão risíveis e pueris como o próprio argumento (também ele da autoria do realizador).

 

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Parece que Luis Antonio Pereira encontra-se mais interessado em mimetizar um mundo de faz-de-conta do que resolver elaborar um quadro credível povoado por personagens respiráveis. Infelizmente, nem os mínimos foram requisitados pois a realização é pura mediocridade e isente de ênfase dramática, que era seu dever evocar para benefício do seu conjunto de bonecos. Sim, existe aqui qualquer coisa de penoso em assistir um desperdício tão prolongando de material.

 

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Felizmente, parece que os envolvidos aperceberam de imediato o "potencial" da obra e não excederam o filme para além dos 60 minutos de duração. Até esse curto tempo enfraquece o enredo e os devidos personagens, todos eles encabeçados por atores mal direccionados. O que resta nisto tudo, segundo o realizador, é a denuncia social. Porém, esse mesmo não ostenta seriedade porque simplesmente o anexo não apela a tal atitude. Para um filme destes, a prisão perpétua era pouco.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luis Antonio Pereira / Int.: Priscila Fantin, Carla Marins, Antonio Calloni

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:11
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1.4.15

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Uma adaptação? Ou mutilação?

 

A escritora judia Irène Némirovsky (1903 – 1942) nunca conseguiu terminar a sua série literária que seria composta por cinco volumes em torno de uma França invadida pelas forças nazis. Os tempos em que vivia eram tão idênticos às histórias que escrevia, que não é novidade alguma que o destino não lhe foi feliz. A escritora foi capturada e enviada para Auschwitz, onde acabou por falecer um mês depois. Os manuscritos foram mais tardes encontrados e publicados num só livro, sob o titulo de Suite Française.

 

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Ninguém nega a qualidade da escrita e da história tecida pela escritora, mas existe uma revolta imensa ao ver uma adaptação cinematográfica deste tipo. Para além de não fazer jus ao célebre e emotivo livro, preguiçosamente estabelece-se como um produto cinematográfico que se sustenta através dos mais corriqueiros truques. Esta é uma co-produção francesa, britânica e canadiana do realizador Saul Dibb (The Duchess: A Duquesa) que aspira ser qualquer coisa, excepto do romance que descaradamente adapta. Envolve-se em classicismos gritantes como maneira encontrada para consolidar o gosto do espectador, mas a infelicidade acontece quando essa veia é empregue nos momentos mais inoportunos e tudo maioritariamente confundido com puro academismo, sem brilho nem irreverência.

 

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Ficamos perplexos a testemunhar um romance que adquire um tom de relevância grandiloquente, mas sem razões para tal visto sermos conduzidos a épocas cruciais, onde em pleno século XXI o tratamento deveria ser outro. O acentuado tratamento maniqueísta vincula até mesmo na sua linguagem. Sabendo tratar-se de uma forma viável de comercialização, o uso da língua inglesa em personagens francesas atribui o seu "quê" de artificialismo para os tempos que decorrem (a globalização tem tornado o Mundo numa autêntica "aldeia"), enquanto o alemão é imaculado (involuntariamente dá a entender que é uma língua enraizada no Mal). Nesse sentido, as saudades de Quentin Tarantino e o seu Inglourious Basterds são cada vez mais evidentes, o respeito pela diversidade linguística e com isso a credibilidade das suas personagens fez-se sentir na sua obra. Talvez nesse sentido, Suite Française esteja mais convicto em comportar-se como um "europudim" de época do que supostamente numa reconstituição história e de dimensão humana, como foi The Pianist de Roman Polanski, no qual a decisão linguística ficou-se pelos mesmo termos que o filme de Saul Dibb.

 

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Mas a comparação de um com o outro soa a um sacrilégio imperdoável, isto embora o piano seja novamente descrito como uma peça crucial na narrativa, até porque este revisitar não é mais do que um espólio de lugares-comuns. Quanto às interpretações, todas elas fazem o que podem perante um leque inquestionável de personagens unidimensionais, mais interessados em fincar marcos sociais estereotipados do que em estabelecer uma verdadeira combustão para a intriga.

 

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Assim, desenrola-se um arquétipo de Romeu & Julieta composto por um final incoerente face a tudo aquilo que se assistiu. Suite Française é sim uma vergonhosa adaptação de um livro que se revelou o derradeiro legado de um ser humano acorrentado pelo seu panorama social, mas livre pelas suas palavras.

 

Real.: Saul Dibb / Int.: Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Kristin Scott Thomas, Sam Rilley, Margot Robbie, Lambert Wilson, Alexandra Maria Lara

 

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The Duchess (2008)

 

2/10
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publicado por Hugo Gomes às 02:02
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26.12.14

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A polémica não faz um filme!

 

Depois de toda esta "novela" em torno do seu lançamento e dos eventuais conflitos internacionais sugeridos nos órgãos de comunicação social, uma questão reside. Será The Interview merecedor da nossa atenção? A resposta é definitivamente não! Eis a típica comédia grosseira de Hollywood, um aluno sobredotado da escola "humorística" de Judd Apatow que faz uso da sua aprendizagem para se lançar na sátira. O problema é que nem James Franco, nem Seth Rogen, as duas mentes "brilhantes" por trás deste The Interview, conseguem de todo incutir essa mesma vertente. O resultado é uma desastrosa cronologia de ideias que formam no seu todo uma propaganda norte-americana.

 

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Propaganda? Sim. Enquanto The Interview serviria com a sua premissa - dois jornalistas que são recrutados pela CIA para assassinar o líder supremo do Governo Coreano, Kim Jong-un (interpretado de forma divertida e credível por Randall Park), através de uma entrevista televisiva. Para conduzir esse debate critico aos diferentes regimes políticos, o duo prefere instalar-se como merceeiro e vender a sua própria ideologia. Aqui a democracia "à americana" é a grande fantasia do género e o "happy ending" para um país que pouco ou nada conhecemos, apenas do "quadro pintado" pela comunicação social.

 

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Maniqueísta até à medula, The Interview ainda possui outra grande fraqueza: não consegue divertir - é enfadonho no sentido que todas as suas piadas, auto-aclamadas como politicamente incorrectas, são farsas egocêntricas de ambos as estrelas convertidas a pseudo-activistas. Até mesmo o ritmo narrativo é dilacerado por esta vingança pessoal e pela imensidão da cultura pop norte-americano ao invés da astúcia na sua crítica (até o díptico Hot Shots, de Jim Abrahams, tem mais cérebro que isto). Como ponto positivo: o cameo do rapper Eminem é um "must" que por si resultaria numa curta-metragem, talvez mais engraçada que todo o filme, ou o actor Randall Park que consegue fazer de Kim Jong-un uma personagem por quem realmente nos preocupamos.

 

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Reza a lenda que na Coreia do Norte é habitual produzir filmes deste género, em que os EUA são ridicularizados, humilhados e abatidos em pleno ecrã. Contudo, o chamado país da "liberdade de expressão" limitou-se a copiar o mesmo truque circense com a desculpa de "entertainment". A alimentar a ideia do "Eixo do Mal" e a procurar um vilão a quem culpar.

 

Real.: Evan Goldberg, Seth Rogen / Int.: James Franco, Seth Rogen, Randall Park, Diana Bang, Lizzy Caplan, Joseph Gordon-Levitt, Rob Lowe, Eminem

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2/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:25
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26.10.14
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O equivoco do "filme-protesto", novos realismos aos poder!

 

Reza a lenda que foi um casaco sobre a câmara a servir como uma forma de protesto para João César Monteiro. O resultado dessa sua revolta, e nem menciono a expressão verbal captada pelas televisões, foi acompanhado por um mediatismo canibal que posicionou o seu Branca de Neve como a) o grito sufocado de um autor contra o sistema, b) a demasiada liberdade dos cineastas portugueses, c) a auto-destruição do próprio Monteiro, tendo sido esta a sua última obra. Conforme seja a opção, avançamos assim adiante.

 

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Caso idêntico é o de Wang Bing, o documentarista chinês que tanta estima tem no Doclisboa e que fora impedido de gravar o seu último trabalho, possibilitando-o apenas organizar o material que havia recolhido. Este é o seu "filme-protesto", uma "colheita" de somente uma hora e meia de duração, o que parecia boa notícia para quem estava habituado aos seus pastelões isentes de edição. Contudo, termina por ser um grito silencioso e penoso de alguém que claramente deseja a atenção de todos nós, mais do que expandir a sua mensagem (se é que a tem).

 

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Sim, mesmo tendo uma hora e meia, Fu Yu Zi (Father and Sons) é aborrecido, monótono e com todos os adjectivos associados a esse mesmo sentimento. Porquê? Porque invoca um exaustivo novo-realismo, cada vez mais na moda cultural e onde tudo se resume a dois ou três planos - cujo um deles se arrasta por 80% da narrativa. Nesse mesmo plano somos confrontados com uma criança a viver em condições desumanas, mas que mesmo assim tem ao seu dispor uma televisão e um telemóvel. A primeira é perceptível graças ao imparável som que emana; a segunda, só não vê quem é cego. O plano em questão é fixo e de conjunto (academicamente falando), onde a dita criança assiste e "remexe" no seu telemóvel. E, somente isto. Por uns bons quarenta minutos. Até que, em certo momento, surge outra criança no plano, o irmão, como claramente se percebe. Mas ele limita-se a reunir-se ao "velho residente" e ambos acabam por continuar a rotina já retratada (citando João César Monteiro - "queriam telenovela?").Esta sequência é tão longa que chegamos mesmo a presenciar o anoitecer em tempo real. 

 

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Por fim chega o suposto pai das crianças, o trabalhador que seria o protagonista deste novo filme de Wang Bing, o "herói mártir", se não fossem as ameaças do seu respectivo patrão que impediram do cineasta "recolher" mais filmagens. Continuando, é então que o pai chega à acção e termina com o desligar de luzes, assim como o filme. Rápido? Nem por isso, basta lançar um olhar para o relógio para nos apercebermos que passaram hora e meia de duração. Tempo, foi aquilo que insinuaram no início da sessão no Doclisboa. Sob um jeito metafórico, filosófico ou esotérico, uma coisa é certa: esse tempo não será devolvido. Agora, ou aceita-se ou dispersa-se da elite. A verdade é que Wang Bing já não se esforça, nem mesmo para protestar, mas talvez o problema seja do próprio festival em colocar um chamado "filme-protesto" em plena competição internacional de longas-metragens. Com Fathers and Sons, Bing continua a fabricar reality shows sobre a miséria humana e a vender-nos como se de um Van Gogh se tratasse. Obviamente, é o sistema de autor a funcionar como marketing cinematográfico. Quer queiram, quer não.

 

Filme visualizado no Doclisboa'14

 

Real.: Wang Bing

 

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Feng Ai (2013)

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 13:34
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3.10.14

 

O homem de Novembro!

 

Existe alguma razão para existir filmes como este November Man? Num momento em que o conflito encontra-se à beira da erupção, será que existe a necessidade de reafirmar estatutos lendários em risco? Porquê Hollywood a continuar a persistir em antagonizar a Rússia nas suas produções que tem como fins atingir o mercado internacional? São estas as diversas questões que assaltam as nossas mentes após a visualização de algo tão inarrável como a nova "coisa" de Roger Donaldson (do curioso The Bank Job), que para além de ser um objecto teoricamente obsoleto, é na prática uma frontalidade cinematográfica. Pierce Brosnan veste a pele de um velho espião da CIA que durante a sua jornada "vendetta", insere-se no centro de um conflito de interesses entre duas grandes potências mundiais ao mesmo tempo que inicia uma guerra pessoal com o antigo discípulo.

 

 

O actor parece desesperadamente em busca das antigas glórias como James Bond, papel do qual dificilmente conseguirá separar, assim como os EUA procuram as "vitórias" da Guerra Fria. Todo este conceito é acima de tudo uma formula poeirenta, envergada sem ritmo nem chama, que envolve-se em rebuscadas sequências de acção, personagens involuntariamente caricatas, assim como as interacções entre estas. Olga Kurylenko, por sua vez, após ter passado pelas mãos esotéricas de Terrence Malick em To the Wonder (A Essência do Amor), regressa agora em jeito catapultado à sua "origem", uma mera sidekick amorosa de afinidades russas concretizada para somente deleite visual, pois é, a estética acima da essência.

 

 

November Man consegue ser um filme tão enfadonho que estreia no nosso país na mais errada das alturas: é que a silly season já terminou ao tempo. Visto isso, então o porquê de continuar a persistir em idiotices como esta? A Guerra Fria já lá vai, mas os americanos adoram relembra-la e o resto do mundo consome alvoraçadamente essas memórias.

 

"Know what we used to call you Peter? The November Man. Cause after you passed through, nothing lived. You were one bleak motherfucker my friend."

 

Real.: Roger Donaldson / Int.: Pierce Brosnan, Luke Bracey, Olga Kurylenko, Bill Smitrovich

 

 

 

 

2/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:05
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