Data
Título
Take
11.4.17
11.4.17

Paraiso.jpg

Todos aguardam pelo seu Paraíso!

 

Não é negação, mas sim saturação. O Holocausto parece ter atingido o seu ponto de ebulição no Cinema, ou há ideias e novas abordagens para apostar, ou se verga, como se turismo de tratasse, numa reconstituição crowd pleaser. Conta-se pelos dedos as "inovações" nestes lugares, não comuns, mas tão presentes no nosso "eu" moral. Em tempos de populismos e "revisionismos históricos" (termo técnico trocado pelos historiadores para amenizar a evolução do negacionismo), existe uma importância humanitária, como cultural, para recordar estas "horas negras" onde a sobreposição ideológica acima das condições humanas obtiveram resultados catastróficos que ainda hoje ecoam. Mas até que ponto deveremos recordar essas atrocidades? Andrei Konchalovsky parece ter encontrado uma nova perspectiva ao tema através do ponto consequente da desgraça da ideologia politica. Paraíso, o título, resume, não ao Reino dos Céus, mas à emancipação de uma ideia, de uma comunidade "moral high ground" onde a politica adquire a sua consistência massiva.

 

3e9093b850f0ac686c1cb6cdd9155f88.jpg

 

"Um Paraíso para o nosso povo. Um Paraíso alemão", declara de peito erguido o oficial Khelmut (Christian Clauss) nos interrogatórios que intercalam a narrativa desta obra envolvida em tons cinzentos. Ele é um homem decente, segundo as doutrinas globalmente conhecidas de Henrich Himmler, de um coração abrangente, mas completamente embebido pelo sonho Nazi partilhado por Hitler e os seus seguidores de partido. Khelmut é a prova de que a intolerância juntamente com a ignorância condiciona-nos como humanos e que o passado nos confronta, igualmente unindo-nos a essa mesma jornada moral. Para o nosso oficial, a ligação directa para essa consciência deveu-se a uma "princesa russa", caída em desgraça num campo de concentração. Olga (Julia Vysotskaya) é essa aristocrata agora reduzida a um número, um número a ser subtraído pelas contas dos alemães, e a sua vivência longínqua com o oficial que se vai tecendo numa réstia de esperança numa fuga iminente - "achas que há um paraíso para todos?".

 

Paradise_film_scene_characters.jpg

 

Andrei Konchalovsky recria aqui um embate entre ideologias e golpear perspectivas, porém, e infelizmente, tudo é feito através da invocação dos lugares-comuns, do requisitar da violência gratuita que nos explicita o óbvio - a desumanidade das SS. Assim, o realizador parece tropeçar num evidente maniqueísmo, principalmente tendo em conta um certo teor nacionalista, onde guarda rancor de gerações aos germânicos e compaixão pelos seus conterrâneos (basta ler a dedicatória deixada pelo mesmo no final da fita).

 

paradise-_filmproduction_-Andrei-Konchalovsky-720x

 

Mas apesar dessa motivação obscura, Paraíso desfragmenta em cacos um filme nascido nas ruínas que se expande como uma panóplia de conhecimentos ideológicos isolados e algumas catch phrases que ficam para futuras reflexões, mais do que todo o filme ("O mundo sem corrupção, seria completamente desumano"). Como se não bastasse, as decisões narrativas culminam num plot twist com mais 500 anos, e bem português por ventura. A invocação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, aqui a soar como um puro registo de manipulação, da desgraça sofredora do cristianismo e o julgamento dos três cabecilhas dos respectivos grupos. No final das contas, o que sobra é O Arrependido, O Orgulhoso e a A Absolvida.

 

Real.: Andrei Konchalovsky / Int.: Julia Vysotskaya, Peter Kurth, Philippe Duquesne, Christian Clauss

 

paradise-rai-venice.jpg

 

6/10
tags: ,

publicado por Hugo Gomes às 14:53
link do post | comentar | partilhar

sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Conheçam a programação do...

Trailer: Suburbicon, Geor...

Valerian and the City of ...

Animação portuguesa no fe...

Trailer: Iceman, um crime...

10 anos de Cinematografic...

Sarah Paulson em sequela ...

Quote #6: André Bazin

Michelle Pfeiffer e Laure...

Morreu John Heard, actor ...

últ. comentários
Mesmo sem dar o feedback merecido (cada vez mais n...
A tua "criatura" ganhou vida e já alcançou uma efe...
Nóbrega, mas Nolan não é Deus, tem o direito de er...
Até entendo o ódio de uns críticos contra Shyamala...
Cinquenta tons de anônimo
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
25 comentários
20 comentários
13 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO