Data
Título
Take
2.4.15

Manoel-de-Oliveira-1.jpg

Morreu esta manhã, dia 2 de Abril, Manoel de Oliveira, o realizador português mais consagrado e famoso do Mundo. Tinha 106 anos e foi outrora considerado o mais velho cineasta no activo.

 

Nascido a 11 de Dezembro de 1908, na cidade do Porto, Manoel Candido Pinto de Oliveira estava predestinado em herdar os negócios da sua família, mas a sua indiferença o fez afastar. Dedicou-se ao automobilismo, atletismo, o qual fora campeão nacional de salto à vara e atleta do Sport Club do Porto e até mesmo a vida boémia, muito antes do Cinema fixar-se como sua grande paixão. Aos 20 anos segue para a Escola de Actores fundada por Rino Lupo, cineasta italiano radicado em Portugal, fascinando inconfessavelmente pela arte durante o visionamento do documentário de Walther Ruttmann, Berlin: Die Sinfonie der Grosstadt.

 

Ainda sem experiência como realizador, Manoel de Oliveira filma durante os seus tempos livres o quotidiano das margens do Douro e elabora um retrato completo de um dia vivente daquele local em uma curta de 21 minutos, Douro, Faina Fluvial (1931), o muito elogiado e incontornável obra do cinema mudo português e uma esplendorosa execução do exercício do cinema de Bolchevique no nosso panorama cinematográfico. Porém, durante a sua estreia no Congresso Internacional da Crítica, as primeiras reacções não foram das melhores, levando mesmo a um arraso completo por parte da crítica portuguesa.

 

Douro.jpg 

Dividido entre a realização, assim como a interpretação, Oliveira integrou o elenco de A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo (1933), com um pequeno papel, para depois seguir em circuito comercial com uma versão sonora de Douro, Faina Fluvial. Tornou-se um dos pioneiros da chamada docuficção (um género distintamente português) e concretizou algumas curtas documentais até 1942, anos em que estreia no cinema totalmente ficcional, e sua primeira longa-metragem, Aniki-Bóbó.

 

Hoje tido como o seu filme mais popular, Aniki-Bóbó é um conto infantil decorrido num período de guerra que realçava aquelas que seriam as imagens de marca da sua carreira, a lentidão da acção e dos planos, assim como afeicção pelo plano fixo e a mise-en-scène digno do teatro. Marcas, essas, que seriam mais tarde convertidas em senso comum. Depois do filme, Manoel de Oliveira dedica-se algum tempo à agricultura, regressando ao activo em 1957 com a curta-metragem O Pintor e a Cidade (1957), a sua primeira obra a cores.

 

Depois seguiram-se a média-metragem O Pão (1959), cuja procura de cenários para a obra levou Manoel de Oliveira ao encontro de uma das tradições mais singulares do nosso país, o Auto da Paixão encenado pelo Povo da Curalha, representação que ficou marcada no seu Acto da Primavera (1963, ler crítica). O filme garantiu-lhe, no ano seguinte, o seu primeiro reconhecimento, o Grande Prémio no Festival de Siena, como também a primeira retrospectiva da sua obra, no Festival de Locarno. No mesmo ano lançou A Caça, uma curta-metragem cujo desfecho viria ser vítima de censura.

 

15009975_iZMUw.jpg

 

Depois de uma homenagem do ao poeta e pintor Júlio dos Reis Pereira, em As Pinturas do meu irmão Júlio (1965), Manoel de Oliveira aventura-se naquela que seria apelidada a sua teatralogia de Amores Frustrados, composto pelos filmes O Passado e o Presente (1971), Benilde, ou a Virgem Mãe (1975), a sua controversa versão do homónimo livro de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1978) e Francisca (1981), considerado uma obra-prima durante a sua projecção na Quinzena dos Realizadores, em Cannes.

 

Nos anos 80, o cineasta permanece um estado de actividade imparável, com obra atrás de obra. A carreira do realizador adquire um reconhecimento único no estrangeiro, mas ainda é visto com frieza em Portugal, sobrevivendo apenas em nichos cinéfilos e na crítica especializada. Nessa mesma década destaca-se Os Canibais, a ópera baseada num fantástico conto de Álvaro do Carvalhal, que assume-se como uma crítica à bizarria e ao oportunismo da classe social alta. Foi nomeado para a Palma de Ouro em Cannes e venceu o Prémio Especial da Crítica no Festival Internacional de São Paulo.

 

Mesmo com uma idade avançada, Manoel de Oliveira surpreendeu tudo e todos com o seu ritmo e energia em filmar. Imparável como nunca, foi nos anos 90 que teve por fim uma aclamação consensual na massa crítica portuguesa, mesmo sendo repudiado pelo público nacional. Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), um registo analítico da História militar portuguesa é consagrado com o Prémio FIPRESCI em Cannes, A Divina Comédia (1991) arrecada o Prémio Especial do Júri em Veneza, O Dia do Desespero (1992), sobre os últimos dias do escritor Camilo Castelo Branco e Vale Abraão (1993), agraciado com prémio de Best Artistic Contribution do Festival Internacional de Cinema de Tóquio, bem como o Prémio Especial da Crítica no Festival Internacional de São Paulo. Seguiram-se A Caixa (1994), O Convento (1995), com Catherine Deneuve e John Malkovich, Inquietude (1998) e a A Carta (1999), galardoado com o Prémio do Júri no Festival de Cannes.

 

vale_abraao_04.jpg

 

No século XXI, Manoel de Oliveira continuou imparável; Palavra e Utopia (2000), Porto da Minha Infância (2000), O Principio da Incerteza (2002) e Um Filme Falado (2003), algumas obras que fizera antes de se aventurar numa longa colaboração com o seu neto, o actor Ricardo Trêpa, que protagonizou alguns dos seus filmes mais elogiados e por sua vez mais odiados. O Quinto Império – Ontem como Hoje (2004), uma obra de uma rígida “medula óssea” teatral sobre a vida do jovem rei D. Sebastião, desaparecido misteriosamente na batalha de Alcácer-Quibir, O Espelho Mágico (2005), o magnifico Belle Toujours (2006, ler crítica), a sequela não oficial de Belle de Jours de Luis Buñuel, Cristóvão Colombo – O Enigma (2007, ler crítica), um revisitar das origens do famoso navegador, Singularidades de uma Rapariga Loura (2009, ler crítica), baseado numa peça de Eça de Queiroz, O Estranho Caso de Angélica (2010, ler crítica) e O Gebo e a Sombra (2012), que teve a sua estreia no Festival de Veneza.

 

Para além das longas-metragens, o cineasta integrou no colectivo O Centro Histórico, ao lado de Pedro Costa, Víctor Erice e Aki Kaurismäki, um projecto elaborado no âmbito do programa Guimarães 2012: Capital Europeia da Cultura, e concretizou a curta-metragem O Velho do Restelo, aquela que seria a sua última obra. Em 2014, o realizador recebeu um importante título, o de Grande Oficial da Legião de Honra, na França, pelas mãos do presidente francês François Hollande, que aclamava “recompensar uma carreira fora do comum”.

 

2013-03-06-manoel-oliveira.jpg

 

Manoel de Oliveira (1908 – 2015)

 


publicado por Hugo Gomes às 14:26
link do post | comentar | partilhar

sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Trailer de Ghostland, o n...

Clive Owen junta-se a Wil...

Leonardo DiCaprio protago...

John Wick será série de t...

Quote #09: Body Snatchers...

Jeanne! será o próximo fi...

Pop Aye (2017)

Quote #8: All Abou Eve (J...

Pinhead de regresso! Divu...

Primeiro vislumbre de Joh...

últ. comentários
Este gênero nunca foi um dos meus preferidos, póre...
Concordo, "Índice Médio de Felicidade" e "Malapata...
O "São Jorge" é até agora o meu preferido, mantend...
Vi hoje, Robert Pattinson no seu melhor! Que venha...
Uma das maiores surpresas do ano, mesmo sendo do W...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
25 comentários
20 comentários
13 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO