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22.5.15
22.5.15

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O Amor, segundo Noé!

 

Love é um plano antigo, um projecto de sonho que ousa em desafiar as próprias convenções do cinema, politicamente aceite, e resgatar muito do teor, agora reduzido à industria pornográfica, ao serviço do storytelling. Esta ideia permaneceu em Gaspar Noé anos antes do trabalho que o consagrou como um dos mais irreverentes e controversos cineastas do nosso tempo - Irréversible [ler crítica] - sendo que uma proposta de protagonizar, o que o realizador apelida de "sexo com sentimento", seguiu primeiramente aos actores Vincent Cassell e Monica Bellucci, numa altura em que ambos constituíam um casal e que tal factor atribuiria à eventual perfomance uma intimidade requisitada. Porém, a dupla recusou, tendo Love ficado residido ao limbo cinematográfico.

 

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Limbo, esse, que fora retirado recentemente, mas antes Noé havia experimentado novas formas narrativas e estéticas com o não muito consensual Enter the Void [ler crítica]. A proposta de uma trip narcótica em mistura com o esoterismo tibetano serviu de objecto de estudo e incentivo para o avanço deste projecto (agora protagonizado por desconhecidos, talvez os únicos que aceitaram tal excentricidade ou estratégica executada para que o espectador não identifique as caras desta "relação" com outros trabalhos) que se revelou muito pessoal. Love arranca com uma amostra daquilo que havia sido prometido enquanto produto choque, o que se resumiria vulgarmente de filme pornográfico em 3D. O sexo parece real, de certa forma sujo e "ordinário", afastando-se de qualquer indicio de encenação, neste caso Gaspar Noé consegue o seu "quê" de atenção e superar o limites estéticos estabelecidos pelo cinema erótico.

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Mas, Love apresenta mais do que simplesmente exploração a foro sexual e do muito publicitado ménage-a-trois, o filme funciona como um romance vincado em memórias autobiográficas, sim, leram bem, uma biografia complementada sob uma liberdade criativa e ficcional em concordância com toda uma colecção de fetiches que operam num júbilo masturbatório, para ele e não para o espectador. Noé acaba por abordar a sua veia mais romântica, entregue numa bandeja de perversão para "inglês ver", até que por fim essa mesma capa dissipa e a lamechice extrema é realçada e desmesurada no seu requinte visual.

 

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Temos uma estética retirada através dos estudos feitos por Enter the Void - as suas concepções aqui reaproveitadas em prol de uma nova trama, e a narrativa enxertada por falsas elipses e malabarismo temporal - aliás, tais referências autorais são assumidas com os inúmeros easter eggs que acompanham o regresso ao passado de Murphy (Karl Glusman), um homem que viveu intensamente uma paixão, cuja ruptura é ainda tida como um dos seus maiores arrependimentos. Electra, nome dessa sua "Vénus", é novamente ouvida após uma tremenda ausência, abrindo "portas" para emoções e recordações não sentidas há muito tempo.

 

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Gaspar Noé interage com a lei de Murphy ("qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível") para basear nesta matriz que vai ao reencontro do seu pessimismo e arrependimento - o tempo destrói tudo de Irréversible - o não retorno emocional e físico das suas personagens e a aura fantasmagórica que permanece no final da sessão. No final, somos todos criaturas taradas por experiências, apenas submetidas a uma derradeira fragilidade, é que sabemos, ou julgamos saber, amar. 

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Gaspar Noé / Int.: Aomi Muyock, Karl Glusman, Klara Kristin

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 13:35
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