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26.3.15

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A maravilhosa ficção!

 

O Grande Vencedor do Prémio do Júri da passada edição do Festival de Cannes, Le Meraviglie, é sobretudo uma etnoficção que se estabelece como um acordo entre uma Itália antiga e misteriosa, em plena relação rupestre com os seus ancestrais, e um país em vias de transição com o moderno, a globalização agregada a Confederações Europeias, por exemplo. É um mundo exposto, limitado à sua inerente "beleza", receosa pela extinção que é proclamada pelos novos “ventos” e por sinal, pela tecnologia. Mas mais do que um evidente retrato crítico sobre mais um embate entre a antiguidade e o sofisticado, a segunda longa-metragem de ficção de Alice Rohrwacher nos envolve com um enredo recheado de simbolismos e notas identitárias.

 

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Segundo a própria realizadora, a temática das abelhas são mais que meras criaturas que povoam o mundo de Le Meraviglie, e sim, uma "riqueza" invisível que transmite a mais plena sensação de liberdade. Tal como aclama Rohrwacher, até o mais rico dos apicultores, face à natureza deste insecto “doméstico”, nada tem em sua posse, ou algo que possa ser verdadeiramente considerado “seu”. Talvez seja esta liberdade vista como um refúgio de uma família de apicultores que tentam manterem-se unidos num mundo em plena mudança, e que mesmo tempos se esforçam por integra-lo parcialmente. Essa dita inclusão é figurativa nos medias, mais particularmente de um concurso televisivo populista que apresenta o tradicional como um registo exoticamente obsoleto e prestes a enfrentar a sua respectiva extinção.

 

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Tal como algumas obras de Matteo Garrone e Nani Moretti, a televisão tem aqui o seu crucial papel como um catalisador de surrealismo, aparentemente real face aos constantes simbolismos. É uma ênfase populista que transmite a influência e a padronização social a nível colectivo, para além disso, o mesmo “pequeno ecrã” é descrito muito mais que um mero dispositivo de entretenimento, mas um espelho identitário, neste caso numa vulnerabilidade desse aspecto, de uma comunidade face a uma massa “circense”, manipulada e absorvida pela igual ignorância. Alice Rohrwacher atribui contornos místicos a esse programa de televisão, recriando em todo o ser num “isco” impossível de escapar para os seus personagens viventes dum derradeiro “oásis” (o camelo funciona como uma alegoria desse termo quase alienado), até mesmo a selecção de Mónica Bellucci, como diva desse mundo fictício e produtivo, realça as tais burladas ostentações, códigos quase “fausteanos” para “As Maravilhosas” (aquele que deveria ser a tradução mais correcta).

 

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Novamente frisando, Alice Rohrwacher compõe um filme que revisa os tradicionais costumes como um claro alerta do seu desaparecimento, mas ao invés de ilustrar um panfleto cinematográfico óbvio, transforma este híbrido de documentário e ficção (em Portugal o género seria docuficção) num silencioso zumbido que ecoa num presente evidente mas interagido com o respectivo passado. A misteriosa identidade do povo etrusco é servida como uma das complexidades desta obra de espelhos. Perto da maravilha que se adivinhava.

 

Filme de abertura da 8ª edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Alice Rohrwacher / Int.: Alba Rohrwacher, Maria Alexandra Lungu, Sam Louwyck, Monica Bellucci

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 11:26
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