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Título
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2.9.14

Os tons de Ozu!

 

Yasujiro Ozu teve não só voz no trajecto geracional como também na ténue emancipação feminina, mulheres que o autor as remete às diferentes causas rebeldes, desafiando todo um legado de tradições. A verdade é que nessa transição entre a modernidade globalizada e o primórdio Japão que teima em desvanecer, o realizador de A Viagem a Tóquio (Tokyo Monogatari) regressa com a sua paleta, neste caso a primeira a se pintar a cores, concretizando um quadro divergente com o mesmo uso de tons, ou seja, todos os elementos inerentes do seu cinema encontram-se presentes e ainda mais, a sua linguagem fílmica, imutável e intransmissível (planos filmados a pouco centímetros do chão, a implementação do “falso-raccord” na montagem e a quase ausência de expressividade dos seus personagens).

 

 

Tal como a estilizada dança kabuki, os palcos são os mesmos como as próprias “marionetas”, actores afáveis ao estilo de Ozu que emprestam as suas almas em prol dos seus contos, é como visitasse-mos os mesmos amigos sob circunstâncias diferentes. E para quem está habituado às jornadas de simplicidade transcritas pelo autor, encontrará neste seu leque de actores uma comodidade calorosa. Como é bom presenciar cada esquina, sala de estar, bar de saké com estes mesmo homens e mulheres ao serviço de Ozu, as suas rotinas, a sua conversa fiada e cinematograficamente inútil que nos remete a algo deveras simples mas genuíno. O realizador não tem bonecos, nem personagens, mas sim pessoas.

 

 

A Flor do Equinócio (titulo traduzido) seja talvez o filme mais moderno de Ozu, que evoca a nostalgia mais uma vez para ser o alicerce ensaísta das novas mudanças. Repetidamente os casamentos arranjados são tema de conversa e a conduta directa para a intriga. Aqui, somos remetidos ao patriarca Wataru Hirayama (Shin Saburi), desafiando pela própria filha que arranja casamento sem o seu consentimento. Hirayama, defensor dos valores tradicionais japoneses, porém apologista do amor livre entre jovens, opõem a esta decisão, não por desacreditar a causa da sua filha mas como preservação da sua autoridade. Estas desavenças entre pai e filha levarão a Ozu criar material necessário para culminar o subliminar, a referida mensagem de desconstrução da sociedade conservadora nipónica por parte das gerações mais novas.

 

 

Este é o cinema guiado pelo signo do autor japonês, apoiado por um drama rotineiro que qualquer espectador (conforme seja a sua sociedade e crença) identifica, o humor singelo e autêntico que contagia e por fim, como parece ser habitual na grande parte das suas obras, o clímax emocional, que implode na narrativa de forma crescente sem que o público aperceba. Sendo este o seu primeiro trabalho a cores, Yasujiro Ozu não perdeu, de maneira alguma, o seu delicado toque.

 

Real.: Yasujiro Ozu / Int.: Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Ineko Arima, Yoshiko Kuga, Chishû Ryû

 

Ver Também

Sanma no Aji (1962)

Tokyo Monogatari (1953)

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 09:43
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