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2.6.14

De volta aos Monstros!

 

Com o anúncio de uma nova versão de Godzilla em Hollywood, muito se questionou sobre a criatividade (ou melhor, a falta dela) no cinema comercial norte-americano, cada vez mais reduzido a sequelas, spin-offs, prequelas, reboots e outras fidelidades com já concretizadas matérias-primas. Todavia, a opinião pública mudou, talvez um pouco, com um outro anuncio - Gareth Edwards, a prova viva de talento artístico deste início de década com Monsters, encontrava-se anexado ao projecto. Tendo a noção que desde sempre o cinema de monstros, ou filmes kaijus (denominação popular no Japão), sempre fora desejo do jovem e promissor cineasta, então talvez este ressuscitar do Rei dos Monstros tenha algo mais do que o pressuposto.

 

 

Criado em 1954 pelos estúdios Toho como uma alternativa ficcional de retratar os horrores e consequências das radiações nucleares, como também "exorcizar" os fantasmas de Hiroshima, cedo Godzilla se converteu num ícone, num herói nacional, uma metáfora social que com o tempo dá lugar a uma veia acentuada do trash. Os americanos sempre foram fascinados na relevância desta figura cinematográfica, ansiosos para transporta-lo para o panorama norte-americano. Contudo essa transgressão deu-se em 1998 com Roland Emmerich, saído do êxito de Independence Day, a abordar o monstro japonês como um primo afastado da tendência Jurassic Park de Spielberg e todo um enredo banalizado por estereótipos e os suspeitos do costume que transformaram-no num filme repudiante para os fãs e não só. Godzilla de Emmerich foi mais tarde homenageado num novo capítulo da original saga japonesa, Godzilla: The Final Wars (2004), como Zilla, um antagonista que na intriga acusa directamente os americanos de o terem confundido com o monstro original. Por estas e outras razões um revisitar às terras hollywoodescas seja motivo que chegue para que qualquer aficionado torcer o nariz, mas o resultado é mais directo e sincero que o previsto, aliás é a vertente mais série Z das sequelas oficiais que mais salienta-se aqui.

 

 

Gareth Edwards abandona as produções de baixo orçamento e revigora os efeitos visuais (e sonoros, excelentes nesse campo) para sintetizar o conhecimento aprofundado pela saga em questão (o medo da radiação foi actualizado para alusões ao desastre de Fukushima). Contudo um dilema deve ser feito para que não acha confusões - Godzilla de Edwards sobrevive dos efeitos visuais? Sim, sobrevive. E nisso o filme é claro desde o início, aliás este é um daqueles e escassos casos em que os seus defeitos fílmicos, alguns deles mais que banalizados nas produções deste género, tornam-se nas suas virtudes. A começar pela fraca aptidão de personagens, um leque secundário nulo e inútil que não são mais do que meras chaves de acesso na intriga, o arranque deste segue neles. São estereótipos ou figuras generalizadas que se encontram no filme com um simples propósito de informar o espectador do que se está decorrer (como no caso dos personagens de Ken Watanabe e Sally Hawkins), de guiar o protagonista ao enredo (Bryan Cranston) ou para simplesmente humanizar e salientar o lado heróico dos humanos (Aaron Taylor-Johnson) como manda a tradição dos blockbusters sérios de Verão.

 

 

Ou seja, tudo está lá para um motivo apenas, conduzir o guião até o grande atractivo do filme, que é esse mesmo - Godzilla - arrastado para segundo plano, bem que Gareth Edwards prova nisso ser conhecedor dos filmes de monstros e não só, como executando um veio influente de Jaws de Steven Spielberg, onde o tubarão antagonista é revelado apenas no último acto do filme. A partir daqui é fácil um grande fã da criatura sentir pele de galinha, os efeitos visuais são incríveis, as sequências de destruição são avassaladoras e respeitosas à tensão requerida e por fim, Gareth Edwards sob o argumento da entrega, não se cede ao descalabro gratuito, e tal como havia feito em Monsters, o efeito de sugestão (mesmo que mais reduzido) está presente. Godzilla está vivo e indiscutivelmente continua como título de Rei dos Monstros, tributado como uma criatura digital que verdade seja dita, tem tanta personalidade como qualquer vestimenta de borracha.

 

 

Este é um filme modesto na sua promessa, sem grandes aspirações de se tornar algo mais do que bigger than life, e possuir de uma astúcia algo rara no cinema industrializado norte-americano nos dias de hoje. Apesar da inexistência de personagens, Godzilla de Gareth Edwards é já guilty pleasure deste ano.       

 

The arrogance of men is thinking nature is in their control and not the other way around. Let them fight.”

 

Real.: Gareth Edwards / Int.: Aaron Taylor-Johnson, Bryan Cranston, Ken Watanabe, David Strathairn, Sally Hawkins, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche

 

 

Ver também

Godzilla (1998)

Gojira (1954)

 

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:05
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1 comentário:
De Carolina MP a 3 de Junho de 2014 às 00:31
BOA GODZILLA!!!!!! XD


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