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27.6.14
27.6.14

Inimigos para a vida!

 

Segundo Pilar Del Rio, José Saramago recusava qualquer proposta de adaptação cinematográfica aos seus livros, acusando maioritariamente de serem obras copistas, oportunistas e escassas de ideias. O “Prémio Nobel” por outro lado sempre foi agradado pela liberdade artística, e a prova chegou com a apresentação de Ensaio Sobre A Cegueira, o seu bestseller mundialmente aclamado pelas mãos de Fernando Meirelles. O momento desse embate do criador com a sua criação foi registada num vídeo comovente, o qual Saramago agradecia a Meirelles pelo belíssimo filme que havia concretizado, talvez das glórias incontornáveis da carreira de tal cineasta - a gratidão de um autor de tamanha natureza e relevância. O Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) de Meirelles era um filme livre, longe da transcrição directa de página para tela e que a certa altura assumia uma forma precisa e própria, algo que Enemy: O Homem Duplicado parece também usufruir, e voltando a citar a companheira do escritor, Pilar Del Rio, no contacto com o novo filme do canadiano Denis Villeneuve, este seria certamente uma adaptação que Saramago adoraria assistir.

 

 

Inspirado no homónimo bestseller do autor português, um dos seus ensaios no campo do thriller literário, em Enemy seguimos Adam Bell (Jake Gyllenhaal), um professor universitário solitário e preso a uma constante rotina. Anseia pela mudança mas nunca possuiu a coragem nem motivação para tal, contudo a vida de Adam tende em alterar drasticamente no preciso momento em que assiste um filme, recomendado por um colega seu, o qual se depara com um actor idêntico a si próprio. O professor inicia assim uma frenética busca ao encontro desse mesmo “sósia”, chegando mesmo a combinar um encontro com o dito actor, porém o embate destes levará a consequências irreversíveis na vida de ambos.

 

 

Existindo cerca de seis mil milhões de pessoas em todo o Mundo, é muito provável que exista alguém semelhante a nós, e é sob essa temática que Enemy joga para tecer as teias de um thriller existencialista, intimista e deveras intriguista nos seus propósitos. É um exemplo glorioso de um cineasta que aponta o seu estilo como veio condutor da narrativa  e não o contrario, lançando-se ainda numa demanda de provocação para com o espectador. É que Denis Villeneuve desafia-o, aufere as pistas e convida-o a interpretar o seu próprio filme, uma metáfora moldada que diverge conforme quem o vê. Os territórios do thriller convencional são assim abalados pela psicologia do seu tema e profundamente, das suas imagens. Villeneuve é como Freud num panorama cinematográfico, requisitando o génio de Saramago em prol de uma catarse sobre duplicidade, compromisso e acções ditatoriais. E à conta disso a "aranha" proclama o seu espaço e o realizador demonstra mais uma vez o seu dom do inesperado.

 

 

Tal como acontecera com o recente The Double de Richard Ayoade, Enemy usufrui do conceito de duplicidade para transparecer as divergências entre os diferentes elementos, assim requisitando um faustoso trabalho de dualidade do actor, nesse aspecto Jake Gyllenhaal (parece continuar o seu papel de Donnie Darko) está à altura do desafio erigindo dois personagens hipnotizantes simplesmente baseados somente pelo carácter. Ou seja ambos iguais e ao mesmo tempo, diferentes. Já que falamos em elenco não poderíamos deixar de salientar a ênfase dramática trazida pela formidável actriz Sarah Gadon, uma figura crucial deste aludido episódio de Twilight Zone e a sensualidade fria da sempre ascendente Mélanie Laurent.

 

 

Em Enemy, Denis Villeneuve aposta e vence, um thriller de atributos invejáveis ditado por um estilo único e labiríntico. E voltando à questão inicial, sim, Saramago era bem capaz de adorar esta visão libertina e simultaneamente inerente da sua criação literária, uma tese de autor sobre outro autor. O regresso do cinema provocador num filme para quem acredita que o cinema pode ser profundo e ao mesmo tempo, esteticamente cativante. 

 

Real.: Denis Villeneuve / Int.: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini

 

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 23:31
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