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5.5.16

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Sem comentários, o título diz tudo!

 

Lembro perfeitamente de assistir à trupe composta por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe alugarem um apartamento em Manhattan, a fim de embarcarem numa demanda em busca de um marido milionário que pudesse providenciar uma vida isente de sacrifícios e possível a excessos. Esse filme, How to Marry a Millionaire, de Jean Negulesco, estreava há 62 anos atrás, num mundo onde a mulher de sucesso ainda era vista como um dedicada esposa e dona-de-casa. E quem fala desse filme, refere também às enésimas produções que no entretanto estreava nessa década, como antes e depois dela.

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Mas os anos passaram, neste momento uma réplica desse How to Marry a Millionaire seria um filme perigoso, sexista e provido de incapazes personagens femininas. Nos tempos actuais, pedimos mulheres de carácter, detentoras de personalidade e sobretudo, determinação. No caso de sociedades ultra-conservadoras, todos nós solicitamos a crítica como a especiaria das eventuais narrativas. Nesse aspecto, quem não se lembra de Mustang? A obra onde cinco raparigas turcas tentam desafiar destinos traçados por matrimónios arranjados numa comunidade "governada" por homens.

 

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Contudo, no caso de Cartas de Amor são Ridículas (título inspirado num poema de Álvaro de Campos, heterónimo do poeta português Fernando Pessoa) não existe sequer uma tentativa de sátira (visto tratar-se de uma comédia de costumes), mas sim uma cumplicidade descarada da realizadora e argumentista, Alvarina Souza e Silva, aos ideais misóginos que o filme não tem vergonha de expor. Tudo corre muito mal aqui, um cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Cyrano que resulta na patética tentativa de branquear o matrimónio como a mais pura das etapas humanas, mesmo quando a violação é aqui sugerida, porém, ofuscada simplesmente pela ideia de um casamento como uma garantia de sobrevivência.

 

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São doutrinas parolas, ultra-conservadoras do século passado e ainda a religião novamente a apresentar culpas no cartórios que tornam esta "filme" ofensivo e desprovido de qualquer denúncia social ou algo do género. Não, simplesmente é um "faz-de-conta" de que tudo aquilo apresentado é correctíssimo e que a mulher não possui qualquer tipo de voz em todo este cenário. Agora, passando para o resto, porque um filme não deve ser apenas construído com base numa crença, Cartas de Amores são Ridículas serve ainda outras ofensas em termos técnicos, interpretativos e argumentativos.

 

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A primeira, evidencia a urgência de oferecer um tripé à realizadora nas suas fracassadas tentativas de steadycam, leccioná-la a uma rápida introdução quanto à edição e a necessidade do tempo nas passagens entre planos e, por fim, demonstrar como é indecente apresentar um produto sem qualquer brilho quer fotográfico ou de sonoplastia. No segundo ponto, os atores são automáticos sob as suas pele de "bonecos" ocos, pseudo-emocionais e motivados por uma argumento (terceiro ponto) sem noção de construção quanto às personagens, nem a inserção do conflito dramático. Por último, devemos consolar Fernando Pessoa, que imensas reviravoltas deve ter efectuado na sua tumba perante à utilização indevida dos seus poemas. Tudo ao serviço de tamanha dose de amadorismo. Resumidamente, eis um filme ridículo e não as supostas cartas de amor. Enfim!

 

Filme de abertura da 9ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Alvarina Souza e Silva / Int.: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 01:21
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