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30.7.17

Atomic Bonde - Agente Especial.jpg

A nossa "loira atómica"!

 

Vamos fingir por momentos que Charlize Theron não é a protagonista de Agente Especial... sim, vamos supor que ela está ausente do projecto. O que nos resta afinal? Um thriller de acção pingarelho completamente estilizado, cujo estilo, quer estético, quer técnico, engole por completo o que de bom este filme poderia culminar? Sim, exactamente isso!

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Atomic Blonde desloca-nos para os temores da Guerra Fria, mais precisamente nos dias premonitórios da Queda do Muro de Berlim, tudo embrulhado no típico filme de espionagem mais devedor aos tempos musicalizados de hoje do que ao apogeu deste mesmo subgénero na década de 70. Como é de esperar, a premissa envolve-nos um macguffin, um dispositivo que levará a nossa protagonista e as restantes personagens numa extensa corrida contra o tempo, esse que se faz não da maneira cronometrada, mas na reconstituição de época, com a História a ser escrita em paralelo (das promessas da queda do muro até à realização do histórico acto).

 

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Contudo, o objectivo desta intriga, o motivo de desespero destas personagens, não fazem efectivamente o sangue correr no espectador, a responsabilidade encontra-se de facto na saturação do subgénero, na vulgaridade com que o macguffin se converte nos constantes plot twists, ocorridos pontualmente e sem surpresa alguma. Mas todas estas desculpas têm um propósito (calma, ainda não é aqui que entra Charlize). A desculpa é um show off técnico e estético por parte de David Leitch (um dos realizadores de John Wick e futura sequela Deadpool), uma bandeja requintada de sequências de acção desafiadas por uma montagem poupada em cortes e planificações desnecessárias, aliás são os constantes travellings, esses planos sequências quase espaciais que ditam a natureza desta “loira atómica”.

 

atomic-blonde.jpg

 

Que em união com a violência gráfica, os stunts sem falhas e devidamente treinados, a decadência de uma Berlim em ebulição e por fim … entramos então naquele ponto inicial … a nossa actriz com esforço e dedicação neste papel fisicamente árduo. Theron dispensa os duplos, é autodidacta e essas qualidades reflectem uma cumplicidade com o olhar clínico de Leitch, esse dinamismo vibrante entre a técnica pensada em prol da acção e não o oposto.

 

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Curiosamente, existem vestígios de um sub-enredo existencialista que parece ocasionalmente demarcar-se da proposta de acção. Quem é esta Atomic Blonde? O que procura ela numa cidade dividida sob a agenda política? “Em Berlim, todos procuram algo”, afirma uma das personagens que atravessa no seu caminho, uma estrada que a guia para uma outra sequência. Enquanto combate capangas no Cinema Kino, é projectado Stalker, de Andrei Tarkovsky, a ficção científica filosófica onde um grupo de personagens tentam alcançar a “Zona”, um local misterioso, perigoso e proibido que realiza os respectivos desejos íntimos de quem o atravessa. Nessa jornada cinematográfica, estas personagens defrontam as suas dúvidas e medos antes de se instalarem na “Zona”, que resulta igualmente no espaço de uma Humanidade cada vez mais guiada pelo seu “umbiguismo”. Cena seguinte temos: “Everything you want is on the other side of fear”, lê-se num dos letreiros visíveis de um clube nocturno de Berlim, essa cidade conflituosa em prol dos seus mais íntimos desejos, um desejo colectivo que não reflecte a dúvida individual da personagem de Theron.

 

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Infelizmente, ficou a sugestão, Atomic Blonde perde esse rasto no trilho, e o que sobra é só mesmo uma dedicada actriz de corpo-e-alma. E sim, é ao adicionarmos Charlize Theron a esta equação que o resultado se torna satisfatório. A actriz torna-se a rainha da acção, a estrela deste palco em ruínas e o resto… bem, o resto, a intriga, os secundários e a direcção, estão somente elementos subjugados a uma realeza apenas.  

 

Real.: David Leich / Int.: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman. Toby Jones, Sofia Boutella, Eddie Marsan, James Faulkner

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:34
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