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30.5.16

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"Rico, qual é a principal diferença moral entre um cidadão e um civil / Um cidadão assume total responsabilidade quanto à defesa politica, o civil não."

 

É fácil sentirmo-nos repugnados com Starship Troopers, o filme de Paul Verhoeven que não ostentou fascínio durante a sua data de estreia, até porque o realizador holandês a operar em Hollywood era visto nada mais como um voyeurista maldito, a juntar a isto o flop colossal de Showgirls. Mas não são o único factor que fecundou um injustiçado massacre a esta pseudo-ficção cientifica, não senhor, as acusações de fascismo era coisa que não faltava entre os insultos. Mas com o passar de quase 20 anos, olhamos para Starship Troopers não como um filme que lisonjeia o fascismo, mas sim como uma obra sobre o fascismo, e a sua aceitação, deveras normal, que causa no espectador uma tremenda sensação de incomodo. Porquê que estes soldados atacam insectos alienígenas? Qual o objectivo? O que é que fazemos no seu habitat natural?

 

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Verhoeven criou uma falsa propaganda, prolongada por um cínico magnetismo pela militarização. São as forças armadas, ditadas por autênticas lavagens cerebrais sociais, e fortalecidas por uma intolerância antropocêntrica. Com duas décadas em cima, este seja talvez um dos filmes mais actuais do realizador que nos dias de hoje tem sido alvo de uma reavaliação. Afinal, Verhoeven não é assim tão maldito como pintavam e a prova esteve no último Festival de Cannes com a sua nova obra integrada na Competição Oficial. Elle [ler crítica], título desta nova produção, apresentou um cenário bem diferente do habitual na carreira do realizador, foi unanimemente elogiado.

 

Durante a conferência de imprensa, Verhoeven foi confrontado com a questão de um eventual regresso a Hollywood, território que deixou em 2000 com o ainda malfadado The Hollow Man (O Homem Transparente). A resposta foi dada da seguinte maneira: com desejo de retornar ao país dos seus êxitos (quem não se lembra de Basic Instinct, Robocop e Total Recall), o realizador apenas expressou que de momento não recebera nenhuma proposta decente (indecente), enumerando o facto dos filmes de super-heróis dominarem o mercado hollywoodesco.

 

verhoeven-hubbert-set.jpg

 

A ponte aqui estabelecida entre dois filmes completamente distintos, é o fascismo representado em Starship Troopers, exposto para eventuais alvos críticos e o fascismo não assumido que um produto como Captain America: Civil War [ler crítica] ostenta, mas que passa despercebido pela crítica, porque simplesmente muitos dos órgãos preferem lançar conhecedores de BD e não de Cinema em geral. Para além disso, muito dos críticos norte-americanos fogem da militância politica assim como o Diabo foge da cruz.

 

Mas afinal o que há de errado com Civil War da Marvel? Primeiro, quando tentamos avaliar um filme destes deparamos sempre com uma legião de "marias-ofendidas" que nos apresentam a ideia que para avaliar é preciso ler uma BD, partindo do principio que no caso do material adaptado, a matéria-prima é sempre boa. Errado. Mas a questão não está em bater num filme de super-heróis como um hater qualquer, mas especificar o porquê de Civil War ser um dos piores filmes do subgénero dos últimos anos, e falamos obviamente no sentido ideológico, social e político, esses inúmeros factores que uma Empire Magazine gosta tanto de esquivar.

 

Spider-Man-Civil-War-Team-Cap.jpg

 

Ao contrário da série de BDs originais, esta adaptação não refere a nenhuma Lei de Registos de Super-Humanos com tamanha supervisão do Governo dos EUA, não, somos apresentados a uma ameaça real, a ameaça de uma elite de "soldados", chamaremos assim, que podem combater em qualquer lugar do Mundo sem o mínimo de responsabilidade, quer governamental, quer humanitária. Um dos exemplos do filme dos irmãos Russo encontra-se nas primeiras sequências, onde uma missão em Lagos dá para o "torto", resultando numa centena de vitimas civis, fruto de uma negligência de um dos seus "protectores". Danos colaterais como alguns apelidarão.

 

Se os Russos fossem frontais como Verhoeven (e se a Disney deixasse), poderiam utilizar esse tópico como um balançado dilema ao longo da narrativa, porém, não é isso que acontece. Capitão América, o grande herói da malta, é incutido como uma voz dominante da razão, proclamando diálogos de liberdade sob a bandeira estaduniense estampada no seu peito. Afinal o Capitão não gosta de receber ordens, nem sequer ser coordenado pela ONU, o seu ideal é combater onde bem apetecer e sob os seus reflexos políticos, até porque o maniqueísmo existe aqui com fartura.

 

CaptainAmericaCivilWar_Trailer2.jpg

 

Apesar de ser um filme esteticamente limpo (pudera, a Disney está interessada em vender brinquedos aos mais novos), tal serve como uma bandeja esterilizada para tais ideais. Traduzindo por miúdos, de como a ONU é má para o totalitarismo destes vigilantes e como os super-heróis podem matar pessoas sem qualquer tipo de responsabilidade nem monitorização. É algo perigoso, porque aqui não existe nenhum senso crítico ou alvo incomodo como o que Verhoeven fez com o seu Starship Troopers. Em tempos de Donald Trump e depois das lições aprendidas com a "invasão" das tropas norte-americanas no Iraque sob o argumento, ainda não provado, de armas de destruição maciça, coisas como este Civil War conseguem tornar-se filmes perigosos. Estarei a ser demasiado alarmante ou realmente existem filmes fascistas disfarçados como produtos para inúmeras idades.

 

Agora já sabemos o porquê de Verhoeven recusar fazer um filme de super-herói actual, visto que está impedido de desconstrui-los ideologicamente.

 

movie22.jpg

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:00
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10 comentários:
De Nóbrega a 31 de Maio de 2016 às 01:55
Se me lembro bem, os críticos norte-americanos são aqueles que sempre classificam Batman como o mais puro retrato do fascismo, não?

Sobre Starship Troopers não era um filme criticado, ele é um filme criticado. Uma rápida olhada na internet, e você verá uma dúzia de críticas sobre como o filme é fascista, nojento, opressor.

Agora, sobre Capitão América, é Capitão América, poxa :P


De GrammarNazi a 2 de Junho de 2016 às 14:48
Ao fim de 15 anos de discussão pública seria de esperar que já não houvesse dúvida quanto à expressão: "armas de destruição MASSIVA" - porque se trata de destruição em massa ou em grande escala e não destruição "maciça" que seria algo como lançar bigornas (objeto maciço) de um avião...

Tanta crítica e intelectualismo e nem escrever sabem!

Quanto à nova vaga (uma autêntica PRAGA) de filmes de super-heróis da BD, já acho um desperdício de tempo ver os filmes, quanto mais escrever uma análise. Cada palavra dessa mesma crítica é uma palavra mais do que estes "filmes" merecem.

Ah e tal e o sucesso nas bilheteiras? Pois, os adolescentes também esgotam as bilheteiras da luta livre americana, mas isso não a torna algo minimamente interessante para quem já desenvolveu um cérebro adulto e funcional.


De Anónimo a 2 de Junho de 2016 às 15:09
Eis uma verdadeira análise, pura e dura. Parabéns! Apenas um detalhe,,, infelizmente o que não falta por aí são adultos com cérebro de crianças, daí a razão para tanto alarido com temas mortos á nascença.


De anónimo a 2 de Junho de 2016 às 17:37
e alguns escrevem aqui...


De Blue Seed a 3 de Junho de 2016 às 00:28
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arma_de_destrui%C3%A7%C3%A3o_em_massa

http://www.dn.pt/globo/interior/cia-e-mi6-sabiam-que-nao-havia-armas-de-destruicao-macica-3115266.html


De Manel a 3 de Junho de 2016 às 02:17
O facto de teres encontrado 2 links onde o erro é repetido, não prova que o GrammarNazi está errado. Pelo contrário, prova como o erro é generalizado e quantos mais teimosos existirem, tarde ou nunca será corrigido.

Destruição em massa = destruição massiva = destruição em grande escala = muita destruição

Já destruição MACIÇA é uma coisa que simplesmente não faz sentido. Maciça é, como foi dito, a bigorna, ou uma montanha.

A RTP até tinha um programa de poucos minutos sobre como falar português corretamente, apresentado pelo Diogo Infante, e esta questão apareceu lá e nunca mais me esqueci da lição.


De Paulo Rato a 3 de Junho de 2016 às 07:13
Antes de mais, quero referir o meu acordo quase total (as diferenças são mínimas e mais de expressão que de conteúdo) com esta crítica.
Já quanto ao "massivo" e "maciço", há que esclarecer que a questão é apenas de bom ou mau português e não de uma pretensa (mas inexistente!) diferença de significados: "massiva" é um galicismo, adaptação do francês "massif", no feminino (importado directamente para inglês, o que não tem mal nenhum para os anglo-saxões, a quem até dá jeito), que se traduz em português por... "maciço": isto é, para um francês, "massive" tem o mesmíssimo sentido que "maciça" para um falante de português, desde que não baralhado pela pertinaz ignorância de muitos profissionais dos "media" e de outros frequentadores dos mesmos - comentadores, políticos, "especialistas" e etc. Em conclusão, o autor da crítica sabe português e usa a expressão correcta. O "entendido", que pretende emendar o que está certo, é que não sabe português (mas deve sentir-se apoiado em mais uma inglesice assaz vulgarizada...), pelo que as suas considerações são pura invenção, atingindo o delírio quando declara, dos baixos de uma qualquer cátedra coxa, que "nem escrever sabem", na sequência da misturada (habitual entre iliteratos inscientes das suas limitações, mas estranhamente orgulhosos das asneiras que proferem) com "intelectualidade" e conceitos afins (um horror!, para quem nem percebe o que é isso). Ao fim de todos estes anos, o que já não devia andar a passear pelo português, falado ou escrito, é este grosseiro desconhecimento da própria língua... A consulta de um bom dicionário recomenda-se, vivamente, a estes "sábios errantes", que vagueiam, à deriva, pela "rede": nos melhores dicionários, em geral, a palavra "massivo" nem consta; noutros, existe, com a devida menção da sua origem...


De Anónimo a 2 de Junho de 2016 às 17:42
Starship Troopers não é fascista, é uma crítica, uma exposição, uma denúncia do que é o fascismo. A ironia e estupidez televisiva é utilizada como conteúdo de forma a satirizar, e a mesma fórmula foi usada na saga Robocop.
Agora atenção: aquilo foi feito de modo a entreter, e como toda a obra Hollywoodiana, de modo a lavar o cérebro às pessoas. E por isso, talvez aquilo tivesse obrigatoriamente que ser montado de forma a publicitar o fascismo.
Outro filme que também merece reflexões neste género é o mais-do-que-repetido-e-talvez-não-seja-por-acaso Demolition Man...


De Joao gil a 2 de Junho de 2016 às 18:46
O comentario parece deslocado. As pessoas que acham que ha filmes fascistas (e que absurdamente classificam Starship Troopers de fascista) gostam de pensar que os espectadores nao tem cerebro e estao dispostos à lavagem ao cerebro de que acusam o realizador e que no limite pretendem concretizar com a forma como colocam a questao. O problema debquem nao gosta e que o filme e bom. Ao ve-lo pela primeira vez, pensei que era uma porcaria. Passado aligns anos revio-o e conclui que merecia atenção cuidada e percebi que me tinha enganado na primeira apreciacao. o filme e bom. O resto e patetice.


De Eu a 3 de Junho de 2016 às 08:47
Mas porque terá sido que os malditos fascistas dos americanos não lutaram ao lado de Mussolini e de Hitler na 2ª Guerra? OK, preferiram os malditos sociais-fascitas russos... Estavam distraídos?


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