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30.7.17

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A nossa "loira atómica"!

 

Vamos fingir por momentos que Charlize Theron não é a protagonista de Agente Especial... sim, vamos supor que ela está ausente do projecto. O que nos resta afinal? Um thriller de acção pingarelho completamente estilizado, cujo estilo, quer estético, quer técnico, engole por completo o que de bom este filme poderia culminar? Sim, exactamente isso!

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Atomic Blonde desloca-nos para os temores da Guerra Fria, mais precisamente nos dias premonitórios da Queda do Muro de Berlim, tudo embrulhado no típico filme de espionagem mais devedor aos tempos musicalizados de hoje do que ao apogeu deste mesmo subgénero na década de 70. Como é de esperar, a premissa envolve-nos um macguffin, um dispositivo que levará a nossa protagonista e as restantes personagens numa extensa corrida contra o tempo, esse que se faz não da maneira cronometrada, mas na reconstituição de época, com a História a ser escrita em paralelo (das promessas da queda do muro até à realização do histórico acto).

 

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Contudo, o objectivo desta intriga, o motivo de desespero destas personagens, não fazem efectivamente o sangue correr no espectador, a responsabilidade encontra-se de facto na saturação do subgénero, na vulgaridade com que o macguffin se converte nos constantes plot twists, ocorridos pontualmente e sem surpresa alguma. Mas todas estas desculpas têm um propósito (calma, ainda não é aqui que entra Charlize). A desculpa é um show off técnico e estético por parte de David Leitch (um dos realizadores de John Wick e futura sequela Deadpool), uma bandeja requintada de sequências de acção desafiadas por uma montagem poupada em cortes e planificações desnecessárias, aliás são os constantes travellings, esses planos sequências quase espaciais que ditam a natureza desta “loira atómica”.

 

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Que em união com a violência gráfica, os stunts sem falhas e devidamente treinados, a decadência de uma Berlim em ebulição e por fim … entramos então naquele ponto inicial … a nossa actriz com esforço e dedicação neste papel fisicamente árduo. Theron dispensa os duplos, é autodidacta e essas qualidades reflectem uma cumplicidade com o olhar clínico de Leitch, esse dinamismo vibrante entre a técnica pensada em prol da acção e não o oposto.

 

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Curiosamente, existem vestígios de um sub-enredo existencialista que parece ocasionalmente demarcar-se da proposta de acção. Quem é esta Atomic Blonde? O que procura ela numa cidade dividida sob a agenda política? “Em Berlim, todos procuram algo”, afirma uma das personagens que atravessa no seu caminho, uma estrada que a guia para uma outra sequência. Enquanto combate capangas no Cinema Kino, é projectado Stalker, de Andrei Tarkovsky, a ficção científica filosófica onde um grupo de personagens tentam alcançar a “Zona”, um local misterioso, perigoso e proibido que realiza os respectivos desejos íntimos de quem o atravessa. Nessa jornada cinematográfica, estas personagens defrontam as suas dúvidas e medos antes de se instalarem na “Zona”, que resulta igualmente no espaço de uma Humanidade cada vez mais guiada pelo seu “umbiguismo”. Cena seguinte temos: “Everything you want is on the other side of fear”, lê-se num dos letreiros visíveis de um clube nocturno de Berlim, essa cidade conflituosa em prol dos seus mais íntimos desejos, um desejo colectivo que não reflecte a dúvida individual da personagem de Theron.

 

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Infelizmente, ficou a sugestão, Atomic Blonde perde esse rasto no trilho, e o que sobra é só mesmo uma dedicada actriz de corpo-e-alma. E sim, é ao adicionarmos Charlize Theron a esta equação que o resultado se torna satisfatório. A actriz torna-se a rainha da acção, a estrela deste palco em ruínas e o resto… bem, o resto, a intriga, os secundários e a direcção, estão somente elementos subjugados a uma realeza apenas.  

 

Real.: David Leich / Int.: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman. Toby Jones, Sofia Boutella, Eddie Marsan, James Faulkner

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 11:34
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27.7.17

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O progenitor da space opera!

 

Uma adaptação de Valerian em pleno século XXI arrisca-se a repetir os mesmos contornos do anterior flop John Carter. Eis dois filmes que vieram muito depois do seu tempo, projectados numa altura em que a cultura pop e o reino do space opera encontra-se intrinsecamente embebida pelas suas próprias influências (muitas vezes sem ter a percepção que os referencia). No caso da publicação franco-belga, Valerian & Laureline, criado por Pierre Christin, a sua importância serviu de base para muita da “ficção cientifica” hoje tida como fenómeno cinematográfico e cultural, nomeadamente Star Wars, o qual o seu mentor, George Lucas, sempre assumiu ser fã da banda-desenhada e cujas referências o auxiliaram na criação do seu tão amado universo.

 

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Desde a primeira publicação, em 1967, contam-se sensivelmente 50 anos, e Luc Besson, sempre desejoso em converter este legado para o grande ecrã, experienciou tais templantes com o seu Fifth Element (Quinto Elemento, 1997). Sendo um projecto por si arriscado, no seu contexto mercantil (vender space opera fora do conceito Star Wars é uma tarefa quase hercúlea para as audiências estivais), Valerian poderá ser induzido a erro pelas gerações mais novas, o de ser ultrapassado pelos seus descendentes, e equivocamente reduzido a um “frankenstein de ideias”, uma vistosa e histérica criação oportunista. Mas, longe dessa miopia envolvente ao fenómeno Star Wars, que hoje parece ter encontrado os seus piores dias de criatividade com o cunho da Disney, Besson encontra em Valerian mais que o jeito homenagem, o jubilo recorrente à fertilidade de uma imaginação interestelar, como se por momentos o realizador francês propusesse um regresso aos seus tempos de juventude, ao imaginário febril daqueles seus "sonhos molhados” envoltos de naves espaciais e criaturas from outer space, anteriormente apenas possíveis no formato quadradinhos.

 

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Se é certo que em Valerian and the City of a Thousand Planets deparamos com a típica produção destinada ao fracasso comercial (nem o orçamento ajuda a contrariar a premonição), é bem verdade que se esperava uma autêntica catástrofe qualitativa por entre galáxias. Toda esse “segurança”, poderemos assim chamar, advém da sua natureza, despretensiosa e ciente das suas inverosimilhanças. Tudo recorre ao estilo de uma auto-paródia, quer com a matéria-prima, quer com a própria filmografia que Besson astutamente brinca nas entrelinhas. Para além de fazer uma constante perpendicularidade com o seu anterior Quinto Elemento, um caso de “pescadinha rabo-na-boca”, onde o filho torna-se o pai e o pai torna-se no seu próprio filho.

 

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E como é óbvio, 250 milhões de dólares investidos aqui resultam de um visual exuberante que nos remete ao pitoresco e à glória do burlesco criativo. Mas nesse aspecto, Besson é tão próximo de Cameron, tão ligado a esse vínculo tecnológico que suporta a estética do projecto, sempre numa jornada em busca do artificialmente credível, constantemente em confronto com o maior dos seus inimigos – o tempo que nos traz o obsoleto. E é então que o realizador segue os ideais de outro, George Lucas, e o seu paradigma da tela branca, dando asas à criatividade possibilitada pelo CGI e assim adiante, conceber um mundo de raiz. Essa “criação” é nos trazida a largos passos pelos créditos iniciais onde Space Oddity de David Bowie ecoa no profundo espaço, uma montagem de um futuro próximo, atingível daqui a um par de anos, que distancia até dar lugar a este tutti-frutti espacial.

 

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Enfim, Besson sabe o que faz, apesar do argumento o atraiçoar por diversas vezes e o elenco ser mais apelativo para gerações novas e não os eventuais fãs do original “Valeria & Laureline”, sem com isto negar a química existente entre Dane DeHaan e Cara Delevingne, ou da sedução natural de Rihanna num papel desvanecido de ênfase (vista como uma solução argumentativa que qualquer outra coisa). E como se trata de um filme de Luc Besson, existe sempre a tendência de sermos polvilhados com deliciosos pormenores … e porque não, encontrar no meio deste lunatismo, uma metáfora estrelar ao transgenerismo? Fica o desafio.

 

Real.: Luc Besson / Int.: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Alain Chabat, Rutger Hauer, Benoît Jacquot, Louis Leterrier

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 20:40
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19.7.17
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… ou será antes Dunquerque?

 

É um bélico sem o sufixo de épico. Christopher Nolan recolhe os factos históricos que rodeiam a evacuação de mais de 300 mil militares aliados em 1940, nas praias de Dunquerque (França), um episódio crucial da Segunda Guerra Mundial que revelou ao mundo a ameaça ignorada que se o tornaram os alemães sob a ideologia nazi. Nessa recolha, Nolan assumiu-se preparado para retratar a batalha e a retirada, essa ferida no orgulho britânico, ao invés de personificar os idos do campo de guerra através de heróis patriotas, ou do maniqueísmo avassalador cujo tema suscita automaticamente.

 

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E se o realizador, de origem britânica a operar em Hollywood, isola um pedaço de "História morta" ao serviço da sua narrativa, novamente contada em três espaços temporais em constante colisão resultante num só quadro, é verdade que todo esse argumento de reconstituição tornam Dunkirk num ensaio dramaticamente vazio.

 

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Ao contrário de Titanic, de Cameron, em que a dita "História morta" entra em serviço do romanesco cinematográfico, neste bélico filme de jeito possante, a romantização está fora de alcance. Aliás, esta é a "nova" Hollywood idealizada por Nolan, numa cruel limpeza ao misticismo e ao simbolismo contraído nos putrefactos ventos saídos dos enésimos campos de batalha. Se fosse só isso, estaríamos calmos e serenos, esperando o reforço vindo da outra margem, mas não. Mesmo que as "vacas sejam sagradas" e "intocáveis", há que reconhecer que a megalomania tomou Nolan e a sua ambição de germinar um "espírito autoral" o atraiçoa, fazendo-o tropeçar nas suas próprias qualidades.

 

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Se foi dito que o realizador é um artesão cuja emocionalidade é zero, eis a prova dessa inaptidão. Para contrariar, como trunfo na manga, surge a manipulação. Dunkirk arranca com a primeira nota de Hans Zimmer e é com ele que o espectador segue sem interrupções até à última da pauta. A ginástica cometida pelo compositor é tanta que chega a executar com mais exactidão o trabalho que estava encarregue a Nolan: o de adereçar às suas "personagens" as emoções necessárias, a tensão das ocorrências, aquela espera de um milagre que se faz hiperactivamente de forma a competir com a (im)paciência da audiência.

 

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É um filme de guerra mirabolante, quer na sonoplastia ensurdecedora, quer na edição "salta-pocinhas" e sob promessa do "time delay". Contudo, é nessa dita edição que não devemos perdoar essa grandiloquência produtiva. Nolan falha na técnica, não reconhece as dificuldades com que se filma em alto mar, em enfrentar as instáveis condições climatéricas marítimas, da coloração que o mar porventura dispõe diariamente.

 

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Não há com que perdoar, Dunkirk tem um orçamento milionário, um realizador com uma liberdade em Hollywood invejável e a tecnologia actual que funcionam como verdadeiros feitos e facilitismos (sem com isto insinuar que grandes produções deveriam estar restringidas a estúdios e a chroma keys). Ou seja, depois de The Dark Knight Rises, este é o novo desleixo de Nolan, para além de ser um filme à sua imagem. Tão subtil que nem um camião-TIR, um peso-pesado sem graciosidade, sem a violência, quer gráfica, quer sentimental, das imagens, ou o constante barulho que retira qualquer experiência sensorial.

 

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"The sweetest sound" clama Mark Rylance ao observar os caças aliados a sobrevoar sobre ele. Poderia ser o "som mais doce", mas Nolan impossibilita essa "audição", assim como é incapaz de nos oferecer o tão aguardado espectáculo que nos prometia. Longe da reflexão humana e social que Dunquerque possivelmente proporcionaria, Nolan atira-nos como epílogo um apelo ao "Novo Mundo" para resgatar este "Velho Mundo" em modo de ebulição. Parece que afinal a "História morta" acaba por ser "História morta"!

 

Real.: Christopher Nolan / Int.: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Mark Rylance, Tom Hardy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh, James D'Arcy

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
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17.7.17
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Há quem diga que a vida é uma auto-estrada … pois!

 

Ka-chow! A toda a velocidade chegamos à segunda sequela de Cars, aquele que é considerado o lado mais mercantil da Pixar, tentando regressar à estrada após ter sofrido um "pequeno" acidente pelo caminho. Enquanto o estúdio tenta corrigir-se dos erros tomados no anterior, a megalomania e o espaço de antena exagerado para um dos secundários (quando não percebem que com pequena doses tudo torna-se mais que saudável), este terceiro filme sobre carros falantes aposta na veia emocional que todas as animações parecem ter contraído até então.

 

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Por isso, colocando tudo em "pratos-limpo", este Cars 3 nada diferencia das enésimas produções hoje lançadas, qualquer que seja o estúdio por detrás, é o amontoado de clichés e lugares-comuns requeridos num enredo de previsibilidade. Porém, como se trata de uma resolução, um efeito de compensação e ao mesmo tempo uma afirmação do poder económico da Pixar (é preciso vender merchandising), digamos que este algoritmo 3 é um bon voyage das memórias motivadoras alicerçadas a um Rocky e suas sequelas. Depois da historia do "retorno triunfal aos ringues", neste caso "pista", somos presenteados com o "legado". Restringindo ao vocabulário da saga pugilista de Stallone, deparamos com uma espécie de Creed [ler crítica], a passagem do testemunho, a herança a servir de fim a um ciclo.

 

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Nesse sentido, é assim fortalecido o lado fabulista da animação, as cadências emocionais que, em tempos, poderiam ser bem sucedidas e sacrifica-se o humor corriqueiro anexado a comic reliefs de qualquer espécie (damos graças por isso). O que torna este Cars 3 numa curiosidade cinéfila é a pequena homenagem a um dos actores que tanto nos deixa saudades e cujo o início, o filme de 2006, convertia-se na última vez em que a sua voz cansada, e de certa forma sábia, foi ouvida. Sim, refiro-me a Paul Newman, aqui replicado para seguir como uma meta-ênfase dramática, a sua encarnação digital no enredo do filme, e o timbre vocal que invoca as recordações, o legado deixado e imortalizado no espectador-cinéfilo. Só é pena que o testamento seja lido num produto tão esquecível como este.

 

Real.: Brian Fee / Int.: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Larry The Cable Guy, Armie Hammer, Nathan Fillion, Tony Shalhoub, Kerry Washington

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 12:01
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14.7.17

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Somos gémeos, somos mutantes!

 

Dead Ringers (Irmãos Inseparáveis) em todo o caso deve-se incluir numa lista de falsos-bromances, enquanto se discute um triângulo amoroso que levam-nos à autodestruição de dois vértices do mesmo. Porém, ao contrário de qualquer intriga que se poderia suscitar nesta descrição, um efeito comum na transcrição do cinema noir e do cinema sobretudo masculino, existe um pormenor a ser discutido neste mesmo triângulo, dois dos seus lados são iguais, por outras palavras … idêntico. Gémeos idênticos.

 

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Baseado num livro de Jack Geasland e Bari Wood sobre o suicídio dos irmãos Marcus, David Cronenberg encontra nesta história real a possibilidade de uma dissecação psicológica sobre a natureza dos gémeos. O tom encontrado foi de uma repulsa prolongada por diversos factores. Mais do que detalhes de enredo, esses elementos são ferramentas para esta cuidadosa cirurgia. Começamos com uma dupla de ginecologistas, gémeos fraternos (fisicamente idênticos), que repartem o mesmo gosto, assim como as mesmas experiências. Em derivação disso, partilham mulheres, sentimentos, a luxúria vibrante que pode despoletar nesses relacionamentos, fazendo-o através de um jogo. Um perfeito jogo de ilusões.

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Eles são os "fabulosos" gémeos Mantle (ambos desempenhados por Jeremy Irons no meticuloso processo de individualidade), brilhantes mentes da sua área, verdadeiros manipuladores que cedem à sua própria armadilha. O "isco" para esta entrada encontra-se no fascínio pela "anormalidade", pelo bizarro deparado no útero de uma mulher. Ela é Claire Niveau (Geneviève Bujold), uma actriz de cinema, uma beleza exterior assim como interior, afirma Elliot Mantle enquanto declara no meio da consulta que deveriam existir parâmetros de beleza completos. O seu útero é disforme, é como fazer sexo com um mutante, afirma alterado o outro gémeo, uma particularidade que coloca Claire no seio desta partilha entre dois homens, que auto-mascaram um no outro, formando uma só identidade. Provavelmente todo este "recreio" não se resume a um disfarce completo, a um "faz-de-conta". Eles são dois, mas como seres individuais eles são apenas um único. Um feto completo que origina um completo adulto de experiências próprias e exclusivas.

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Cronenberg explicita esta psicologia quase telepática entre gémeos através de uma invocação mutante. Serão os gémeos verdadeiros mutantes, um ser repartido prontos para tomar mais que um espaço? A alegoria utilizada para essa discussão está na utilidade das passagens dos irmãos siameses, unidos num só corpo e com a necessidade de separação para motivos para sobrevivência de, pelo menos, um deles. No caso dos Mantle, a "separação" leva-lhes à destruição dessa identidade, à morte do individuo. Nesse sentido, o desempenho de Irons é também ele um desafio, as posturas de duas personagens distintas que se vão confundido constantemente na narrativa, diluindo-se numa só, a catarse da sua personalidade. O espectador é desafiado a reconhecer estas figuras, para no fim, ser abalado com o paradigma lançado por Cronenberg: o que é um gémeo? Existe naturalidade num gémeo? Como funciona a sua saúde psicológica? Existe assim, no seio deste paradigma uma certa tragédia grega. Nasceram juntos, terão, portanto, direito a morrerem juntos?

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Dead Ringers não explora da maneira que requeremos, não atribui a esta intriga de obsessão as derradeiras respostas às provocações lançadas. Simplesmente empesta-as numa cauda de tormento, uma alucinação que vai desde o body horror tão próprio de Cronenberg (que controla essa loucura para um estado das personagens; sonhos, devaneios, fantasias e perdição) até à psicologia febril e fragilizada que atenta o espectador com a constante dúvida. Este é sobretudo um filme, que tal como a profissão dos seus protagonistas, encontra a "beleza" no seu interior, uma deveras distorcida que só os "loucos" poderão verdadeiramente amar. É como fazer sexo com um mutante...

 

Real.: David Cronenberg / Int.: Jeremy Irons, Geneviève Bujold, Heidi von Palleske

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 11:59
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13.7.17

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A origem, a revolta e agora a guerra!

 

Em tempos existia um pássaro que encontrou refúgio numa ilha, remota e intocável pelo tempo, onde nenhuma ameaça pairava naquele reduto paradisíaco. A ave nidificou aí, viveu feliz por gerações, levando uma vida sem preocupações nem temores. O seu corpo habituou-se a tal “pasmaceira”, engordou, perdeu a capacidade de voo, assim como o instinto de sobrevivência. Algum tempo depois, o Homem conseguiu por fim chegar a essa tão paradisíaca ilha, proclamando como seu lar. O pássaro outrora pacífico e depois nada atlético, não deparou nos seres humanos uma ameaça, nem sequer a intuição de fugir aos seus “abraços mortais”. O pássaro, que foi baptizado de dodó pelos holandeses, foi caçado até à extinção, sem oferecer qualquer resistência, isto apenas um século após a sua descoberta. Hoje, o dodó, um espectro de criatura que em tempos pisou o nosso planeta, converteu-se num símbolo da ameaça real da extinção, e por sua vez do desmazelo, da negligência desta.

 

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Um paradigma que fora utilizado vezes sem conta para representar de que maneira um indivíduo não se apercebe da sua própria extinção, mesmo que os sinais estejam ao nosso alcance. Em 2002, o êxito de animação Ice Age apresentou de forma paródica e directa esse mesmo simbolismo, onde um grupo de dodós que planeava escapar ao fim de uma era, mas sem a incapacidade de se aperceber das causas da sua eventual dizimação, levava-lhes a esse caminho mais que certo. No terceiro capítulo da trilogia / prequela Planet of the Apes (Planeta dos Macacos), os humanos são os pássaros dodós da trama, os seres mais próximos da extinção, ora vítimas de uma peste, ora vítimas das suas mais primitivas características - o gosto pelo conflito e pela guerra.

 

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Novamente sob a batuta de Matt Reeves, após a fábula política de Dawn of the Planet of the Apes, esta Guerra promete-nos um desfecho ao prolongado êxodo iniciado em 2011, e possivelmente, um dos surpreendentes êxitos desta recente Hollywood tecnológica. É um exemplar pomposo, de um parabolismo dramático que nos convence perante uma invocada memória cinéfila, a exposição de uma guerra sob os adereços que o Cinema tão bem conhece. Se por um lado encontramos referências de um cinema de John Ford (onde nem falta o Monument Valley), ou do febril guerrilheiro de Apocalypse Now (faltava a Woody Harrelson o pregão “Horror... Horror has a face”), e as tendências dos efeitos visuais ao serviço da narrativa e não o oposto (não víamos tamanha exactidão nesse sentido desde o Avatar).

 

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Mas em todo o caso, este é dos ditos blockbustersarmados em espertinhos”, porém, a sua astúcia tem um lado mais politicamente filosófico que as metafísicas do costume, é o retrato da desumanização da Humanidade, que acarreta a extinção como um Atlas martirológico, e a humanização do Primata (o aparecimento da subconsciência em Caesar - novamente concebido graças ao empenho de Andy Serkis - como momento-chave para o derradeiro destino que todos nós conhecemos), o testemunho forçadamente deixado da nossa “soberania”. Cada vez mais longe de Rise of the Planet of the Apes, cada vez mais perto do clássico de Franklin J. Schaffner, daquela distopia pelo qual Charlton Heston cedeu a tamanha culpa perante as ruínas da Estátua da Liberdade.

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O único senão deste War of the Planet of the Apes é a sua vontade de agradar a gregos e troianos, o de equilibrar o registo cinéfilo com a perspectiva política assim como os elementos tão corriqueiros do entretenimento hollywoodesco. Nesta última estância, refiro a entrada do comic relief (um chimpanzé pelado com voz de Steve Zahn) ou de um último terço literalmente explosivo, como 95% dos blockbusters que se produzem actualmente. Todavia, é boa macacada aquela que encontramos aqui, e num Verão disperso por franchises falhados e de produtos inconsequentes do costume, Planet of the Apes vem provar o que de melhor se faz nesta grande indústria.

 

"There are times when it is necessary to abandon our humanity to save humanity."

 

Real.: Matt Reeves / Int.: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Amiah Miller

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:04
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3.7.17

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As bodas da reanimação!

 

Sem Stuart Gordon mas com Brian Yuzna a auto-promover-se de produtor a realizador, eis a sequela do êxito de 1985 (Re-Animator). Nesta continuação e seguindo a fórmula do seu antecessor, ou seja, como Gordon havia assumido, uma sátira do clássico literário de Mary Shelley (mais do que uma adaptação fiel ao conto de H.P. Lovecraft, o qual serviu de base), The Bride of Re-Animator vai beber da mesma fonte que The Bride of Frankenstein havia bebido em 1935. Por outras palavras, mais que uma sequela, esta é uma reinvenção do material concebido quatro anos antes (encaramos como tal para "fecharmos os olhos" aos extensos buracos narrativos que o ligam ao primeiro filme).

 

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O enredo remete-nos para algum tempo depois do massacre hospital que ditou o desfecho da prequela. Herbert West (novamente interpretado por Jeffrey Combs) e Dr.Cain (Bruce Abbott é também repetente) partem para uma Guerra Civil de um país "sabe-se lá donde" com o intuito de exercer trabalho comunitário. É no centro do conflito que West depara-se com a sua nova inspiração, os desejos de devolver vida são ultrapassados, a nova meta é sim, a criação de vida.

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Em Bride of Re-Animator existe uma enorme aptidão para referências "frankenstenianas" que o culto gerado por Stuart Gordon, para além disso, este filme é mais propicio para o absurdo que o anteriormente referido. Yuzna sempre declarou-se um fã dos efeitos práticos, do sintético e com isso, da manipulação corporal e das ilimitações duma imaginação macabra e igualmente jubilante. O climax deste The Bride' é tão redutor desse "fascínio" que tende em perder do seu trilho lovecraftiano (chamaremos assim) e lançar-se a uma jornada "spoof" de contornos oscilantes.

 

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Comparando com o original Re-Animator, esta sequela resume-se a uma sombra daquilo que o filme poderia ter sido se restringisse à astúcia perdida, porém, um facto que não podemos negar aqui é a preservação da atmosfera hereditária. A sua aura negra torna-se na sua maior criatividade e tendo em conta que os anos 90 não serão "amáveis" para os recorrentes efeitos práticos, fiquemos então satisfeitos com a mostra aqui adquirida.   

 

Real.: Brian Yuzna / Int.: Jeffrey Combs, Bruce Abbott, Claude Earl Jones, Kathleen Kinmont, David Gale

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:45
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O regresso ao Universo, mas afastamento da emancipação.

 

Para o bem ou para o mal, a trilogia Spider-Man de Sam Raimi obteve um relevante impacto no agora formado género de "cinema de super-heróis". Primeiramente, servindo de auto-consolo do fracasso de Darkman, a primeira incursão de Raimi neste modelo (se não considerarmos a emancipação da sua personagens, Ash de uma anterior trilogia, Evil Dead, como rascunho desse seu fascínio por heróis de ordem). Foi o realizador, juntamente com Bryan Singer em outra saga (X-Men), que recolocaram os "heróis de quadradinhos" no mapa "hollywoodesco", anteriormente de volta à marginalização com culpas voltadas para Joel Schumacher e o seu doloroso "retro camp".

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Contudo, é com Spider-Man 2 [ler crítica], em 2004, que por fim começou a olhar para o género com possibilidades dramáticas e no seu jeito limitado, intimistas. Passados três anos, o muito esperado terceiro filme assumiu-se como um autêntico abanão: os estúdios interferiram na anterior liberdade de construção e de decisão de Raimi, o que, não limpando as culpas no realizador, transformaram o desfecho numa esquizofrénica produção em permanente conflito. Conflito esse que levou à saída de Raimi, e com ele, os dois protagonistas: Tobey Maguire e Kirsten Dunst. Sem realizador e sem os actores principais, a Sony teria, não tendo outra alternativa, refazer a saga milionária, desta vez com atentamente observando o modelo implantado pela concorrente Marvel Studios / Disney (sedentos pelos direitos "caídos" do Homem-Aranha).

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The Amazing Spider-Man, com Andrew Garfield, era um projecto megalómano que foi vencido pela sua própria ambição. Numa saga onde um segundo filme rende menos que o primeiro, em linguagem militar, há que bater em retirada, e essa mesma deu-se com as tréguas ao até então estúdio rival. Spider-Man "regressou" a casa, noticiaram os medias perante a bombástica decisão da Sony em ceder os direitos do seu "aranhiço", personagem que teve a sua "triunfal" entrada em Capitão América: Civil War [ler crítica], uma aparição hipócrita tendo como margem a suposta temática politica e ideológica do filme. Depois da chegada, veio a emancipação, é assim que promete este filme a meias com o trocista título Homecoming.

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Tom Holland é o Peter Parker da nova geração, às ordens da Marvel Stu … perdão … do realizador Jon Watts, um homem vindo de produções independentes que já havia demonstrado uma delicadeza e conhecimento em abordar o universo infanto-juvenil. Vejamos o exemplo do seu anterior Cop Car [ler crítica], em que duas crianças encontram acidentalmente um abandonado carro de patrulha, deparando com duas personagens que tão bem ligam a inocência com a equivoca ignorância da "tenra idade", a inconsequência lado-a-lado com a rebeldia. Em Homecoming, as personagens joviais parecem forçadas ao seu próprio registo de estúdio, neste caso o regresso ao ambiente de liceu, com tentativas de encontrar influências em John Hughes, mas com os seus "herdeiros" Disney como esboços. Resultado: eis um enésimo ambiente pastiche que confunde inocência com prê-mecanismos estabelecidos.

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Mas quem espera ver um novo filme de Homem-Aranha, não espera encontrar um retrato realista de jovens de hoje, nem nada que pareça, mas sim, e sob o selo da MCU, um canónico episódio desta novela The Avengers. Se Tom Holland é de certa forma um talento, Jon Watts um realizador a ter em conta e um Michael Keaton aquilo que já sabemos, entre outros, é evidente que em Homecoming está investido talento. Porém, e infelizmente, como manda a indústria imperativa, os talentos são dissipados pela máquina oleada, pelo produto em reflexo do "universo partilhado" e assim ficamos pela "competência". Pela ausência de transgressão, pela ausência de motivar cinema para além dos testados vínculos narrativos que tão bem funcionam entre o público.

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E é pena que depois do passageiro hype (sim, Homecoming é simplesmente vitima de hype), esquecemo-nos dos agachamentos que a equipa de Jon Watts parece querer invocar por aqui: a vulgarização do super-herói, e a sua relevância imposta na cultura pop de hoje, com especial atenção às camadas mais jovens. Sim, existe uma espécie de autocrítica nisto tudo, mas a sua audiência esquece e o que parece importar é o "devolver" Peter Parker ao universo que supostamente pertence. Carece da ingenuidade marginal de Raimi e a sua vontade de homenagear os comics como plataforma narrativa ao invés do universo conhecedor dos fãs. Além disso, é urgente desligarmo-nos do militarismo de hoje (Homecoming perpetua esse fantasma imposto pela Marvel / Disney) e … ah, como dói o coração ver Keaton novamente numa personagem alada depois daquele statement em Birdman.

 

Real.: Jon Watts / Int.: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Zendaya, Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Donald Glover, Chris Evans, Jennifer Connelly, Logan Marshall-Green

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publicado por Hugo Gomes às 14:01
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27.6.17

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Até uma sósia da Megan Fox arranjaram!

 

Arrancamos com o texto com uma controversa afirmação: Michael Bay é um autor desta Hollywood subjugada tecnologicamente. Pronto, está dito. Agora, se isto é um facto a ter em conta, e puxando pela chamada política dos autores que, de certa maneira, os envolve numa imunidade crítica, é com cada um, porque não é isso que vem à baila na confrontação desta "sucata" escarafunchando em outra "sucata". Enquanto não seguimos então um novo efeito Verhoeven, fiquemos com o seguinte equívoco da industria estival.

 

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O quinto Transformers é, de longe, o mais insuportável da saga. O porquê desta afirmação? Simples. Enquanto o cinema de entretenimento tende em inserir no seio da agenda de lufa-lufa um desenvolvimento empático com o espectador, Bay descarta completamente qualquer sobriedade nas suas personagens, acções, tramas, efeitos e todas as consequências trazidas por esse extremo ego.

 

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Falta world building (termo utilizado para a construção de uma mitologia, de uma atmosfera, um ambiente, neste caso a desculpa de vender mais brinquedos e merchandising), não existe dedicação do material, há um desleixo na construção das suas personagens e uma dependência vinculada nos movimentos de câmara que tão bem mimetizam um videojogo. E não nos estamos a referir apenas ao plano americano à lá Bay, das longas sequências a lisonjear as forças militares americanas, da bandeira que baila ao vento, dos enésimos product placements que se camuflam como easter eggs e … pela quinta vez … o dispositivo narrativo do mundo em perigo por um iminente apocalipse (a esta altura já bocejamos com as imagens de destruição e do bye bye monumentos protegidos pela UNESCO).

 

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Não, referimo-nos ao ritmo epiléptico induzido na narrativa, às mil e uma coisas a acontecerem no grande ecrã sem a percepção do espectador, os diálogos formatados e sem emoção, o agravamento da continuidade com a saga, a descartabilidade dos eventos e a falta de noção e de astúcia para conduzir isto como um espectáculo circense. Pois, porque nem para isso serve. Gastamos 200 milhões … nisto. Um "filme" que nos deixa mudos, mas devido ao cansaço psicológico causado por esta anarquia mais anárquica, que nem serve sequer para o conseguirmos apelidar de cinema experimental. Apre!

 

Real.: Michael Bay / Int.: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Josh Duhamel, Stanley Tucci, Laura Haddock, Omar Sy, Isabela Moner, Ken Watanabe John Goodman, John Turturro, Gemma Chan, Jim Carter, Steve Buscemi

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:25
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22.6.17
22.6.17

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Traumas adolescentes!

 

A actriz e agora realizadora Tereza Nvotová aposta nos dramas profundos da adolescência para tecer uma primeira longa-metragem. O resultado é um filme sobre os mistérios da essência "teenager", sem com isso orquestrar um retrato colectivo e de exemplaridades, visto que a singularidade reina e, com ela, nasce uma ligação bastante mórbida e incompreensível da flor-da-idade.

 

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Filthy leva-nos a essa atmosfera de jovens e dos seus mundos em parábolas, porém, o sentido trágico cerca a nossa protagonista, já problemática por natureza, impedindo-a de "florescer" numa sociedade reprimida pela "invisibilidade", pela pressão de um futuro estável e pelas tentações cada mais vez mais precoces da chamada actividade sexual. Mas a nossa jovem, bem poderia ser uma qualquer, um exemplo sem rosto e nome a servir de modelo para um elo identitário ou simplesmente etário. Na verdade, há um conflito que a persegue, e uma trama que tenta encontrar um sentido por meio de uma crítica ao redor e não ao individuo central (os adolescentes serão sempre os menos credibilizados consoante as situações), por isso o nosso exemplo tem uma cara e, sim, um nome, chama-se Lena ... e ela tem um segredo.

 

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Nvotová consegue por alguns momentos uma sensibilidade de cortar-a-faca ao propósitos emocionais da protagonista, aos silêncios constrangedores que por vezes opta, pelo seu percurso dificultado pelo próprio didactismo. Sim, ela invoca ocasionalmente essa compaixão, esse reconhecimento, mas há ausência ... a falta de ir mais longe do que nos entregar em mãos uma anoréctica narrativa sem transgressividade, nem a rebeldia simbiótica de um adolescente para com as convenções estabelecidas. Por outras palavras, ficamos com a sensação de Filthy se contentar com o modelo de realismo formal, pelas palavras não ditas e pela resolução de conflitos facilitados para agendar-se num existencialismo de "fogo-de-artifício".

 

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Eis um filme que vale pela tentativa, pela entrada na liga das longas-metragens, e pela ausência de ambição em entregar-nos algo único, ou personalizado. Fiquemos então com os desempenhos, pela força "invisível" da jovem Dominika Zeleníková que nos conduz a esta meia jornada.

 

Filme visualizado no 13º FEST: Festival Novos Realizadores I Novo Cinema

 

Real.: Tereza Nvotová / Int.: Dominika Zeleníková, Anna Rakovska, Róbert Jakab

 

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publicado por Hugo Gomes às 09:23
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O belo caminho da Morte!

 

A terceira longa-metragem da ainda jovem realizadora e argumentista, Katell Quillévéré, é um pedaço de sensibilidade enrolado num naperon suis "catita". Baseado num premiado best-seller francês (escrito por Maylis De Kerangal), Réparer Les Vivants remete-nos ao tema do transplante de órgãos para revisitar os bons costumes do cinema emocional, num tecido tão próprio para o público mainstream e para os menos absolvidos a essas "multidões".

 

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Sim, Quillévéré tem estofo na sua direcção, consegue-se envergar pelo tempo, esses compassos de espera, para extrair uma delicadeza fragilizada nas suas personagens, de forma a construir um quadro narrativo, uma espécie de falso filme-mosaico com uma única raiz - o coração de um jovem levado antes do tempo. O título traduzido, Cuidar dos Vivos, explicita essa vontade de juntar os "cacos" depois do acidente, a de cuidar destas personagens que respiram pós-morte, contagiadas pela tragédia.

 

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Mas mesmo assim, é na morte que o filme encontra a sua beleza, é nos momentos que a antecedem que a câmara de Quillévéré proporciona-nos uma divina ida pelo purgatório. O olhar debaixo, no arrebatar das ondas. Submerso num oceano de vida, onde a cor mais quente é o azul, as visões que se lançam como coros angelicais num repouso dos bravos, o nosso "morto", um jovem surfista que faz as tréguas com a sua existência antes do seu desfecho. E por fim, a transposição de cenários que abrem essa porta para o desconhecido, a vida para além do leito da morte. São belíssimas e inspiradoras imagens, essas que Quillévéré nos confia, para depois seguir num percurso do sensível, por entre lutos e esperanças de uma nova oportunidade existencial.

 

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E é sim, depois da morte que o filme parece ter perdido a sua vida inicial, esse vitalidade invejável, ficando assim as réstias de um demorado melodrama com obscuros e melosos toques. Não foi a obra que esperávamos, mas a caminhada até a morte compensou-nos.

 

Real.: Katell Quillévéré / Int.: Tahar Rahim, Emmanuelle Seigner, Anne Dorval, Alice Taglioni, Bouli Lanners

 

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publicado por Hugo Gomes às 06:45
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21.6.17

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O estatuto da invisibilidade!

 

Longe da pedagogia de um Laurent Cantet, La Mano Invisible (primeira longa-metragem de David Macián) auto-constrói-se como um experimento, um filme-instalação sob plena fase de metamorfoses em total rodagem para um "espectáculo de horrores". Mas afinal que horrores são esses? Aqueles mesmos que lidamos no dia-a-dia, os quais, infelizmente, estamos sujeitos como parte do nosso ciclo vivente.

 

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"Trabalhar até morrer", assim nos dita o lema que ecoa no nosso quotidiano como um hino de guerra para relembrar as razões da nossa existência. Leis formadas desde a Era Industrial, reafirmadas com toda a sua extremidade nos apogeus da globalização e dos avanços tecnológicos. Os trabalhadores transformam-se em números, facilmente descartados e prontos para eventuais subtracções. É a sobrevivência, não a do mais forte segundo Darwin, mas a do oportunista, aquele que não deixa escapar a chance por entre os dedos. Porém, onde está a dignidade? O orgulho de integrar uma classe trabalhadora, esse estandarte da precariedade?

 

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Como experimento dessa Natureza, La Mano Invisible dialoga com um dos "hermanos", o português A Fábrica do Nada, de Pedro Pinho. Ambos expõem os operários como cobaias de uma experiência politizada, ferramentas para a compreensão para um quotidiano em constante "lufa-lufa" {João Machado Pais}. Contudo, La Mano Invisible tece uma capacidade de compaixão humanizada ao contrário do cerco politico formado no exemplar luso. E falando em cercos, David Macián, com base numa novela de Isaac Rosa, cria um "cerco", uma de invisível forma onde as nossas personagens parece erradicar-se a uma prisão de precariedade cooperativa. Lá se vão, uma vez mais, os sonhos da esquerda, aqui ideais disfarçados de combustão para o acentuado capitalismo. Em La Mano Invisible não existem estruturas perfeitas; estas são abaladas pelas quedas constantes dos ciclos repetitivos que iludiam como estabilidade a estes operadores.

 

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A hierarquia, assim como a oligarquia, são "ramificações" de frágil compostura que devem acima de tudo serem relembradas. Aos infractores, a maré de sorte encontra-se na "porta" ao lado. O Caos toma conta do "barco", a destas classes "escravizadas" em prol de uma ideia de sobrevivência. O espectáculo desenvolve à vista de todos, sob o olhar deste público "invisível" que por vezes dá a "cara" nos seus actos mais violentos. Estes proletários estão à mercê dos seus julgamentos, de menor compreensão possível e de uma intolerância "hooligan". Eles são vitimas da sociedade que os alberga, eles são os "filhos do trabalhos".

 

Filme visualizado no 13º FEST: Festival Novos Realizadores I Novo Cinema

 

Real.: David Macián / Int.: Anahí Beholi, Josean Bengoetxea, Eduardo Ferrés

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:02
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19.6.17

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O Tom que veio do frio!

 

Touko Laaksonen, um ex-tenente do exercito finlandês, encontrava-se em Guerra com os russos, conflito que perderam como reza a História, mas não era esse palco de guerra que o interessava. A verdadeira batalha residia no seu interior, nas dúvidas da sua sexualidade, nos seus desejos e afectos. Touko não se envergonhava dessa sua homossexualidade, aliás utilizava-a como uma afronta a uma sociedade restringida e intolerável para novas ideias e movimentos. Os seus desejos eram metamorfoseados em desenhos, gravuras que criava e que apresentavam um misto de erotismo e devaneio, ilustrações que viriam marcar gerações e influenciar um estilo de vida.

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Contudo, Touko, de forma a não comprometer o seu nome de família e a sua reputação na sociedade finlandesa, descartava o seu verdadeiro nome nas assinaturas, ao invés disso, chega-nos Tom… Tom of Finland, o activista que veio do frio com “criações” escaldantes. Inspirações não é o que falta nos trabalhos de Tom, e isso é indiscutível nas mais diferentes frentes, desde a literatura, as artes plásticas, a música e até o cinema (sublinhamos sobretudo Querelle, de Fassbinder). Porém, este Tom of Finland, rabisco ao serviço de um esboço para o enésimo modelo do biopic convencional, é um deserto de ideias e sobretudo de um cinema mais transgressivo em conformidade com os desenhos da personalidade mencionada.

 

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É o fazer bonito e academicamente aceite, Dome Karukoski torna-se num mero artesão sem voz nem personalidade, deixando os eventuais oásis da sua jornada pelo caminho (se poderia acentuar as fantasias eróticas de Touko, assim como o ocasional “amigo imaginário” que surge sem aviso no seu quarto). Nada disso, Tom of Finland é um puro animal amestrado, apenas valorizado pela sua História comprimida a um formato pedagógico, sem qualquer textura cinematográfica.

 

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Perdeu-se um filme, personagens e reconstituições histórias, e no seu lugar consegue-se uma gota numa imensidão marítima. O “artista de pilas”, como é apelidado a meio deste longa-metragem, merecia bem mais que um rascunho.

 

Filme de abertura do 13º FEST: Festival Novos Realizadores e Novo Cinema

 

Real.: Dome Karukoski / Int.: Jakob Oftebro, Werner Daehn, Jimmy Shaw

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:04
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17.6.17

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Stallion of Finland

 

Em 1976, nas ruas de Filadélfia (bem poderia ser uma música de Bruce Springsteen) surgia um boxeur underground com as ambições de competir na grande liga. Intitulado de Italian Stallion, ele conseguiu essa oportunidade de estar entre os grandes e, não só, também combater com o na altura campeão de pesos-pesados, Apollo Creed. O leitor certamente já deu de caras com o filme que proponho, Rocky, a tão popular ascensão cinematográfica que arrebatou meio mundo e o tão cobiçado Óscar de Melhor Filme. Porquê falar de Rocky, visto que o cinema já abordava o pugilismo como um espectáculo cinematográfico? Sim, com devida razão, o filme não foi, nem será, o primeiro, nem o último exemplar do seu género. Contudo, a obra teve a capacidade de revitalizar esse amor tão antigo entre o boxe com a Sétima Arte, quiçá, o desporto mais simbiótico com a grande tela.

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E é com tão popularizado jab que seguimos para um opositor, 41 anos depois e mesmo assim o combate que mais fala a sua linguagem. Eis O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki que tão bem poderia passar por uma criação qualquer de Aki Kaurismaki, mas não é. No centro desse "embuste" estético (a fotografia preto-e-branco visualmente granulada coloca-nos nesse equívoco e, ao mesmo tempo, requisita a memória de algumas obras desse grande nome do cinema finlandês (Calamari Union, Juha ou até Take Care of Your Scarf, Tatjana, de forma a citar alguns)), encontramos o jovem Juho Kuosmanen a dirigir esta história de underdogs rumo ao estrelato, ou pelo menos, a restringir-se a esse mesmo rumo.

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Desde os primeiros minutos, o espectador apercebe-se do tipo de espectáculo para que veio, um filme do "ia sendo", onde todas as personagens estão em plena colisão com a mais triste das belezas (relembrando as palavras de Fernando Lopes, e porque não encontrar aqui o fôlego de Belarmino) - a derrota. Ao contrário do sucedido há 41 anos, o romance é frio entre as duas plataformas, Kuosmanen não está interessado em feel-good movies, não no sentido mais óbvio da palavra, o nosso pugilista que veio do meio rural pronto para lutar pelo título não se faz com um mero içar do cinto premiado ou pelo ding dong final do sino. Os momentos em que concentramos a "felicidade" inerente da personagem principal, em transmissão com a audiência, é a sua ingénua disposição para o romance (não com o desporto, mas com a sua rapariga), tão tímido que parece apagado no meio desta insuflação de um campeão, mas que ganha força como inevitável prémio de consolação perante o tão iminente fim.

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'Olli Mäki é em todo o caso um anti-Rocky, uma afronta às mensagens inspiradoras, ao lema de "seguir os nossos sonho" mesmo que o nosso redor diga exactamente o contrário. Kuosmanen atira-nos para um poço sem inocência, a um desporto motivado pela onda capitalista, pela criação de uma fantasia anoréctica em prol de uma população desesperançada, forçada a risos contrariados, para ser conduzido a um final sem sabor, onde, por fim, olhamos com algum brilho para a sua verdadeira ingenuidade - o amor impera apesar das contradições e é nele que se acredita. Por um lado, queremos acreditar na beleza e paixão trazida por um Rocky, porém, devemos lembrar que o boxe é como a vida: há que saber como bater, mas acima de tudo há que aprender como levar, cair e levantar.

 

Real.: Juho Kuosmanen / Int.: Oona Airola, Eero Milonoff, Jarkko Lahti

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:37
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9.6.17

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Noites felizes, filmes tristes!

 

Despedidas de solteiros em comédias é a garantia de caos e leis de Murphy ao quadrado. Rough Night (com o estranho título traduzido de Girls Night) é o enésimo uso do lema: “um mal nunca vem só”, e não é preciso citar After Hours, de Scorsese, para automaticamente apercebermos de que filme se trata. O enredo centra-se num grupo de 5 amigas que partem para o “fim-da-semana das suas vidas” numa Miami em modo Spring Breakers. Por entre a diversão, noites vividas pela musicalidade, o álcool e a droga, a trupe mata acidentalmente um stripper. Resultado, há que livrarem-se do corpo e ocultar as provas, tarefa nada fácil visto que a postura das nossas meninas parece não ajudar nem por um bocadinho a situação.

 

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Não sigam nas cantigas quando se referem a este filme de Lucia Aniello como a “A Ressaca no feminino”, não convenhamos comparar a astúcia de um para a parvoíce do outro, e verdade seja dita, mesmo sob códigos femininos, as piadas não desgrudam do simples mau gosto. Primeiro, encontramos aqui um concentrado do pior das comédias de estúdio, de personagens bocejantes a dispositivos deus ex machina para facilitar resoluções, neste caso a justificar um homicídio.

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Rough Night recorre a essa violência e disfarça-a como uma piada prolongada, não se tratando propositadamente de humor negro, mas sim de um equívoco em relação ao “girls power”. Apelação do activismo físico e não ideológico, a vingança como ferramenta de “igualdade de géneros” e a descrição de um grupo social numa eterna busca pelo direito da diferença (e não o da integração). Tal como acontecera com o remake de Ghostbusters (sim aquele pseudo-politizado produto de 2016), não basta encher um filme de protagonistas-mulheres para automaticamente este converter-se num filme feminista. Não, basta saber expor as ideias, focar o problema e tecer a crítica necessária, ao mesmo tempo, desenvolver com alguma transparência e sinceramente as suas personagens.

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Confessamos, que nem nós sabemos o porquê de estarmos a referir isto tudo, tendo em conta que Rough Night é somente uma parvoíce (e que dispensa sexos). Nada mais que isso. Comédias há muitas, agora fazer rir … esse é que é o desafio.  

 

Real.: Lucia Aniello / Int.: Scarlett Johansson, Kate McKinnon, Zoë Kravitz, Paul W. Downs, Jillian Bell, Ilana Glazer, Ty Burrell, Demi Moore

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:51
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8.6.17

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Começo mumificado?

 

Monstros! Monstros em todo o lado, e sem a necessidade de pagar direitos de autor, é assim que a Universal Pictures lança o seu “Universo Partilhado” – Dark Universe – de forma a não ficar atrás dos outros case study de sucessos que se têm visto por aí, nomeadamente, a pioneiro e até à data, a melhor sucedida Marvel. Contudo, o curioso caso da Universal é um olhar de certa forma nostálgico ao seu registo monstruoso de criaturas e outras histórias clássicas que hoje integram o imaginário, directamente ou indirectamente, do espectador. Antes de toda esta confusão de crossovers e afins, a Universal já integrava os seus “universos partilhados”, era lobisomens contra frankensteins, vampiros contra qualquer coisa e, em casos específicos (como House of Frankenstein (Erle C. Kenton, 1944)), com todas estas figuras em modo boys band.

 

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Depois da era clássica, os direitos desta colectânea monstruosa começaram a dispersar por outros estúdios e produtoras, até porque os direitos encontravam-se vencidos, sendo que se tornou fácil a inserção dos mesmos, resultando assim, nas mais diversas versões dos “clássicos”. A Universal Pictures perdeu terreno, mas mesmo assim aventurou-se numa recuperação. Em 1999 conseguiria colocar a Múmia no topo do box-office, mesmo que a chamada “febre do Egipto” tenha desvanecido com o tempo. Sucessivamente surgiram sequelas e até mesmo spin-offs, com algum êxito financeiro, mas artisticamente nulos e, em certos casos, reduzidos à própria caricatura. Até mesmo o herói surgido neste franchise – Brendan Fraser – pareceu ter sido “mumificado” nos tempos pós-Múmia. Mas a Universal não descansou, eles queriam monstros, a ressurreição do seu legado.

 

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Em 2004 chega-nos Van Helsing, com Hugh Jackman, que simplificaria os desejos desse mercado. A história do célebre nemésis de Drácula foi igualmente “vaporizado” pela crítica, da mesma forma que fora pelo público. Com as notícias da concorrência em que os chamados universos partilhados eram fórmulas comprovadas “cientificamente”, a Universal, cada vez mais reduzida em termos de franchises, encontraria o dispositivo perfeito para esse consolidar de criaturas. Dracula Untold foi a experiência falhada, o falso-início que não convenceu nem sequer os produtores, mas é em A Múmia onde, por fim, nos deparamos com esta introdução.

 

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Sim, uma introdução, visto que Alex Kurtzman preocupa-se mais com a representação que as personagens podem ter neste Universo do que propriamente com a desenvolvimento destas figuras, e feita as contas, temos o enésimo blockbuster mecanizado, pronto a decorrer sem surpresas nem desfeitas. O terror é elementar, reduzido a jump scares e a sustos fáceis de terceira escola, a acção é implantada sem imaginação e Tom Cruise repete-se no seu papel de sempre. Ou seja, apesar dos efeitos e desta pré-construção de um Mundo próprio, A Múmia eleva-se como um entretenimento sem personalidade e reduzido a adereços de injecção instantânea. Mesmo que a argelina Sofia Boutella se comporta devidamente como o “monstro do título”, tudo o resto parece abandoná-la a favor de um filme pleno para todos.

 

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Todavia, o grande problema desta Múmia não está inteiramente no produto em si, mas sim na indústria omnipresente que agrega. É uma cópia dos modelos mercantis com todos os marcos que poderíamos "desejar" neste tipo de produções. É previsível, cumpre a sua agenda de forma aplicada e ainda transtorna os monstros que assustaram gerações passadas, escusado será dizer que teremos mais uns episódios para “aturar” num futuro próximo. Mas este começo é tudo menos relíquia, é pechisbeque.

 

"Welcome to a new world of gods and monsters."

 

Real.: Alex Kurtzman / Int.: Tom Cruise, Russel Crowe, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:32
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1.6.17

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Girl Power: A primeira vingadora!

 

Esta não é a primeira vez que os super-heróis seguem a batuta feminina, mas é um marco que um deles atinja os 100 milhões de dólares de orçamento o que, tendo em contas as notícias que surgem, trata-se de uma repercussão positiva. Lexi Alexander e Karyn Kusama (citando duas) arriscaram neste mundo ainda plenamente masculino, e os resultados foram, em todo o caso, infelizes. Porém, Patty Jenkins (cuja primeira obra garantiu um Óscar a Charlize Theron) vem provar que é possível quebrar as barreiras estranhamente estabelecidas, fazendo-o da mesma maneira que uma Kathryn Bigelow faria: jogando o mesmo jogo tendo como objectivo superá-lo.

 

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Wonder Woman, o quarto filme do universo partilhado da DC, a meio-gás em comparação com a concorrente Marvel, não chega como um apogeu do seu subgénero, nem como destabilizador dos mesmos códigos. Trata-se somente de uma evolução industrial que simpaticamente exibe alguns dotes valiosos do chamado cinema-espectáculo. Em entrevista, Jenkins afirmou que trabalharia com esta Mulher-Maravilha da mesma maneira que Richard Donner operara com Super-Homem de Christopher Reeve, ou seja, convencer inteiramente que um homem pode realmente voar, neste caso, que uma mulher se assumiria mais, em palco de Guerra, que uma espécie de pin-up bélico, e sim, um catalisador do seu fim.

 

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E é verdade, que com a mistura de uma mitologia grega disfarçada e o mundo vivendo a sua Primeira Grande Guerra como se fosse o eterno apocalipseMulher-Maravilha consegue envergar por uma maior transparência da sua personagem feminina, assim como as minorias que compõem este esquadrão de "inglourious basterds". Não há que fingir, Jenkins está interessada, dentro dos vínculos de limitação do produto, em erguer uma espécie de statement sobre a discriminação de género e racial, usufruindo das influências de Edgar Rice Burroughs (o autor de Tarzan John Carter) para se disfarçar num simples filme de aventuras.

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Em Gal Gadot encontramos os traços desenvolvidos de uma personagem em constante descoberta. A actriz foi capaz de separar os flashbacks como uma essência temporal manipuladora da sua figura. Aliás, o tempo tem um papel importante nesta intriga, visto que será o mesmo em que o espectador se inteirará por épocas vividas e desvanecidas na memória. Mulher-Maravilha joga com o tempo de duas maneira: na primeira, todo o enredo central é integrado num extenso flashback, narrado pela própria Gal Gadot. Neste duo temporal é possível o espectador assistir a uma metamorfose posicional, assim como emocional, das duas figuras. Segunda, o tempo opera como uma jornada de criação, neste caso, um híbrido de mitologias, expostas de forma dimensional uma com a outra. A paradisíaca ilha helénica onde amazonas, mulheres emancipadas, vivem subjugadas às histórias e leis, e a "civilização", que vive num extremo conflito. Aqui as mulheres vivem em plena transição dos seus iguais direitos sociais (como podemos ver na baixinha suffragette Lucy Davis nas sequências londrinas).

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Contudo, o tempo atraiçoa o filme e quando este chega ao ponto em que já não existe mais nada para provar (a batalha de No Man's Land leva-nos a essa linha de fim criativo), Mulher-Maravilha cede aos lugares-comuns desta "linha de montagem": cai na previsibilidade amorosa e no estapafúrdio da batalha final, onde os efeitos especiais protagonizam pela enésima vez e a moral sobre a natureza da Humanidade vem à baila como um slogan. É o impasse desta maravilha que não funciona de todo maravilhosamente, mas nota-se: Patty Jenkins é sempre uma rebelde na sua cadeira de conforto e, desafiando a própria convenção de Universo Partilhado,  o filme tende em abrir e a fechar plenamente, sem a necessidade de ganchos, previous episodes ou cliffhangers.

 

"Be careful in the world of men, Diana, they do not deserve you."

 

Real.: Patty Jenkins / Int.: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, Danny Huston, David Thewlis, Lucy Davis

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:58
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26.5.17

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Queria realmente não estar aqui!

 

Para entendermos a escocesa Lynn Ramsay teríamos que navegar pela sua anterior carreira e percebermos o que a move profundamente – o trauma. Contudo, este You Were Never Really Here é um exemplo da dissipação miraculosa do efeito de trauma; o que restou foram as imagens, anexadas a um vazio alarmante, onde a violência passa daquele território inteiramente masculino e transforma-se num universo recontado sob o sujeito de ‘ela’.

 

Digamos que este misto de Taxi Driver com Drive (um cocktail de Scorsese e Refn - este último, de certa forma, a invocar as influências do primeiro), é um exercício de agressividade que se exerce de fora para dentro, ao invés do dentro para fora. As imagens perdem o seu sentido mais intrínseco, assumindo-se como protótipos de um engenho visual. Triste será dizer, que Ramsay falha o alvo numa intensa deambulação narrativa. Quanto ao enredo, as pistas são nos deixadas como migalhas de pão se tratasse, encontramos o rasto por momentos, mas este tende desaparecer face à gula dos “pássaros”. Pássaros, esses, os artifícios animalescos que nos conduzem a uma indiferença enorme entre as personagens, e a realizadora perante o material adaptado (visto tratar-se numa pequena história de Jonathan Ames), incutindo uma estética sem propósitos, quer criativos, quer induzidos narrativamente.

 

Joaquin Phoenix ainda em modo I’m Still Here neste You Were Never Really Here, uma ligação artística do seu modus operandi de interpretação, um homem pronto a emanar a sua força para transportar um filme à pendura como um Atlas. Mas os seus esforços são em vão. Ramsay polvilha o filme com alguns truques visíveis de inércia, entre os quais as rápidas transposições, de forma a simular um sistema de videovigilância, atenuando o explícito da violência embarcada, ou a rádio que nunca se cala, dando-nos um filme sonoro dentro deste filme, estreitamente visual. Infelizmente os truques não resgatam este “freakshow” da penumbra do seu ser. Eis um fracasso completo, Ramsay com pretensões de invocar o seu ‘eu’ violento, dando-nos preocupações quanto ao seu estado. Depois disto, haja alguém que critique o Refn.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Lynn Ramsay / Int.: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alessandro Nivola

 

3/10

publicado por Hugo Gomes às 23:42
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25.5.17

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Peripécias a dobrar!

 

A infelicidade bovariana e a repreensão sexual da protagonista seriam belíssimos pontos de partida para uma caprichosa fecundação neste thriller erótico. François Ozon usufrui da sua transgressão sexual e psicológica para minar neste seu L’Amant Double um intenso clima de ebulição, e com isso, presenteando-nos um magnificente artifício visual que vai desde a transposições vaginais, split screens invisíveis e um fetiche sexual onírico. O realizador anexa esse apetite estético com uma auto-reciclagem, há uma busca pelo Jeune & Jolie, onde Marine Vacth novamente segue em modo “stalker” dos seus desejos, mais uma vez, apta a explorar esse seu inerente desconhecido.

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L’Amant Double é um cruzar de dois olhares, o desconhecimento tormento de géneros (a sexualidade encontra-se no limiar da sua fronteira) e do jogo de ilusões que Ozon pedala com alguma classe. Há Brian DePalma aqui, existe citações a Dead Ringers de Cronenberg, do outro lado do espelho, e o visual possui aspirações a Refn. Por outras palavras, L’Amant Double é uma orgia de influências que, para nossa infelicidade, geram um nado morto, porque simplesmente o argumento não segue essa mesma ambição, a essa narrativa visual. Assim, sucessivamente vamos cedendo a um terreno pantanoso, aos truques baratos que fazem descortinar um embuste, os lugares-comuns do território do thriller mais convencional e o plot twist que nos arrebata com uma incoerência impossível.

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Engolimos a seco essas revelações e depressa tentamos encaixá-los na já exposta narrativa, ao contrário de um Hitchcock (citando o óbvio dos cineastas desse sentido), onde a intriga sofre com uma metamorfose encadeada com a sua revelação, alterando a nossa perspectiva, mas consolidando-a com o estabelecido desde então. L’Amant Double tem que “colar” a cuspo e a sémen esse mesmo twist, e o resultado é um verdadeiro acidente de proporções catastróficas. Digamos que Ozon embateu numa parede de concreto, e é pena, porque os primeiros actos prometiam. E que promessas eles nos davam.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: François Ozon / Int.: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:49
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Nothing Else Matters!

 

As Máquinas não podem parar, e o Cinema deve acompanhar todo esse processo de auto-sustentabilidade. A Fábrica do Nada, a quarta longa-metragem de Pedro Pinho, é esse conceito simultâneo de fazer cinema e falar de política, um retrato de um activismo em pleno passo de reflexão. Trata-se de um filme baseado na peça de Jorge Silva Melo, por sua vez inspirada na experimentação de auto-sustentabilidade da fábrica de elevadores Otis, durante 1974 - 2016, uma ideia de absoluta esquerda a invocar os fracassos de Torres Bela.

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Quando a austeridade avança ameaçando postos de trabalho, os trabalhadores tomam conta da fábrica, expulsando os seus patrões e operando através de didactismo. O "Nada" do título, é essa espera que intervala entre o “golpe de estado” e o fim do sonho esquerdista, bem como a discussão política, um avante anti-capitalista que resulta na própria consolidação com o movimento globalizado. Pinho trabalha essas ideias dando-nos um cinema que, acima de tudo, é um próprio experimento, incutindo a ficção como uma anestésica perspectiva quase mundana a uma ciência que muitos parecem evitar - a política. Sim, A Fábrica do Nada é para além de mais, um filme politizado que aposta numa duo-linguagem para a difusão da sua própria mensagem.

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É a docuficção, como Portugal sabe muito bem fazer, em que cada caminho serve-nos como um atalho (a ficção) ou o prolongado e completo (documentário). Em certas alturas, Pinho inspira-se em Miguel Gomes para incutir a sua veia de crítica, não por vias da sátira, mas na objectividade das suas imagens. De tal forma que A Fábrica do Nada espelha uma breve história dos gestos políticos que assombram a nossa Nação, do outro lado ele resume as tendências cinematográficas do nosso panorama recente, inclusive a nossa persistência em reter as memórias em forma de imagens. É como se a película (neste caso o digital) conservasse e servisse de uma extensa voz para estes silenciados.

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O final não é eterno, mas terno, é a declaração que esperávamos imensamente no nosso Cinema, a vontade de falar politica, politizar-se, sem se definir por uma esquerda, por uma direita, por um centro, ou qualquer outro lado. Fala-nos de experiências, mas nunca de posições, nem de oposições. Apesar dos eventuais discursos resultarem em impasses de uma linguagem mais directa e menos cientificada (tal como acontecera no anterior A Cidade e as Trocas, Pedro Pinho receia o desperdício na selecção de imagens), A Fábrica do Nada é um filme obrigatório para qualquer português, e não só … Uma obra dedicada e envolvente.

 

Filme visualizado na 49ª Quinzena de Realizadores de Cannes

 

Real.: Pedro Pinho / Int.: Carla Galvão, Dinis Gomes, Américo Silva

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:22
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