Data
Título
Take
5.5.17

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Só pode ser praxe!

 

Um filme português sobre praxes universitárias? Há certamente um fantasma entre nós, um espectro de uma tragédia que persegue esta contracultura universitária e do seu referido ritual de iniciação como de aprovação. Contudo, esse mesmo “testemunho” poderá dormir descansado, até porque Miguel Clara Vasconcelos não está aqui para fazer uma afronta a tais ciclos “tribais” nem um tributo ao infortúnio evento, realçado pela opinião pública e pelos medias.

 

Encontro Silencioso é uma obra sobre silêncios, e é nesses silêncios que encontramos a grande incapacidade do seu realizador, a sua passividade e a sua mudez. Se a intenção não era fazer uma crítica, muito menos será em atribuir uma personalidade distinta a esta “sociedade secreta”. O que aconteceu foi exactamente o previsto de muitas das novas gerações de realizadores portugueses, a vontade de integrar o mesmo espaço que os demais, os veteranos e inspirações, ao invés de encontrar a sua divergente e particular voz.

 

Nesse aspecto, Miguel Clara Vasconcelos é um mero estudante, um aluno aplicado subjugado a uma intensa praxe, o que resultou na moldagem de um ser homónimo, fascinado pelas coisas que outros amaram e que continuarão a amar. A vontade de abraçar a mise-en-scène como o núcleo essencial da cinematografia, expor a teatralidade, não somente nos desempenhos, mas na forma como constrói e desconstrói esse bando de ritualidades, e por fim, perder-se em espaços temporais, silêncios intermédios e na procura vazia pelo igual vazio.

 

Tínhamos tema? Tínhamos, mas o realizador, que passa agora do documental para a ficção, apenas o “agarrou” com uma luva de latex, fugindo da toxicidade e da sujidade que porventura poderia remexer. Pena que tudo seja resumido a isto, um local remoto apenas presenciado por pessoas remotas, sem ligações com o exterior e um realizador com provas de talento, mas sem a devida integração interior. Este foi o filme da praxe, sendo assim, que venha então uma verdadeira mostra de capacidades.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Miguel Clara Vasconcelos / Int.: Ágata Pinho, Alexander David

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:01
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A sobrenaturalidade é o novo realismo!

 

Sem querer entrar no território do spoiler, até porque o filme dispõe de certa forma um plot twist que dissipa por fim toda a atmosfera de uma prenunciada catástrofe. Elon, a personagem, é um homem sob uma completa face de negação, que após o desaparecimento repentino da sua mulher, decide procurá-la nos mais prováveis recantos da sua existência. Uma busca ao tentar encontrar a sua amada, que gradualmente o faz desencontrar-se de si próprio.

 

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A câmara segue de forma persistente o actor Rômulo Braga nestas suas andanças malparadas. O espectador é uma testemunha invisível, silenciosa e completamente impotente face aos destinos elididos estampados no grande ecrã. Existe aqui neste registo quase existencial, uma busca e ao mesmo tempo uma voluntária perda do nosso protagonista à realidade que se identifica. Assistimos assim à sua corrupção gradual e aos trilhos que contrapõem o óbvio. Tecnicamente, Elon Não Acredita na Morte é um filme desencantado, regendo-se pelas leis do naturalismo quase neorrealista, as tendências de um cinema ficcional que abraça esse realismo com tamanho afinco.

 

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Elon dialoga ainda (quase esteticamente é certo) com um outro filme, desta feita português, São Jorge, de Marcos Martins. Ambos abordam um certo inferno social, um ambiente precário de vestes cinzas e o sorriso como uma miragem lendária. São filmes que falam de tempos negros, pessimistas, condenados à solidão individual (o biótopo perfeito de um decadente bovarismo) e cada um à sua maneira exorcizam essa mesma "negritude". No caso de Elon, o território é bem outro, parece um misticismo herdado dos antepassados amazónicos, dessas lendas que coabitam com a História brasileira. Se não isso, como explicar a cada vez maior recorrência ao sobrenaturalismo como um novo realismo?

 

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Já vimos tal explorar num Aquarius (por exemplo), e sob o signo do Indielisboa, no não conciso Mata-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira. O cinema brasileiro recente tem coligado a esse passado cinematográfico, que por sua vez são as crenças e a eterna fobia ao mundo dos mortos que sujeitam essas mesmas temáticas (por mais reais que sejam). Será um escape, uma alternativa para "sujar" esse quadro de realismo "perfeito"? A verdade é que Elon vence a muitas outras abordagens da chamada "docuficção" por essa hibridez, uma invocação quase "mizoguchiana" desses dois mundos tão desiguais.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Ricardo Alves Jr. / Int.: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Ricardo Alves Jr.

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:15
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2.5.17

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O medo não tem cor!

 

Questões raciais num EUA ideologicamente repreensivo que parece ter encontrado lugar nos discursos de Trump. É cliché afirmar isso, mas é sob esse carvão que Get Out se tornou num entusiasmante exercício de série B, um misto entre a correria pela sobrevivência de enésimos filmes de terror e das conspirações à la The Stepford Wives (Mulheres Perfeitas).

 

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Dirigido por Jordan Peele, Get Out repesca o medo da discriminação e da supremacia branca, porém, a reviravolta suscita outras encruzilhadas que parecem fazer frente ao nosso dia a dia. Existe um ponto de identidade e como essa identidade é definida sobre as convenções da sociedade actual; o porquê de regermos os estereótipos étnicos e raciais; e a persistência na ignorância que nos levam a um beco sem saída. Será o racismo parte integrante da nossa condição enquanto ser humano de consciências morais, ou simplesmente um apelo primitivo ao que desconhecemos individualmente?

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Para Chris (Daniel Kaluuya) seria simplesmente um fim-de-semana normal na casa dos pais da sua namorada (branca). Contudo, alarmado, o nosso protagonista questiona se ela advertiu ou não os progenitores quanto à cor da sua pele. "O meu pai teria votado em Obama pela terceira vez se pudesse. Ele não é racista". Foi esta resposta que deixou seguro Chris. Só que tudo não passou de um engodo. A chegada a este "paraíso maioritariamente branco", uma comunidade onde os negros parecem comportar-se de maneira bizarra, é atribulada e rodeada de suspeição e Chris sente-se uma presa de algo que não consegue explicar.

 

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É fácil cair no erro de considerar Get Out em mais um arquétipo do "bate e foge" como tem sido claro no cinema deste género. Felizmente, os marcos do género aqui incutidos são um embuste, um disfarce para que Peele consiga difundir a sua mensagem através da sua "voz". Voz essa perturbada com o crescente temor sociopolítico que abraça os EUA pela discussão na "praça pública" de temas que se consideravam "enterrados" há anos. Sim, Get Out é um filme sobre o medo. E é também nesse medo que encontramos o ponto de ebulição e o lançamento de farpas às mob flash politicamente corretas que -  à sua maneira - são culpadas pela crescente vaga de populismo e de idealismos do arco-da-velha.

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Inquietante, suspenso pela sua metáfora que dissipa na atmosférica "wannabe" do clássico enredo do terror corriqueiro, o filme, sob a produção de Jason Blum (o produtor que tem vindo a renovar o cinema de terror com sensações low cost como The Conjuring, Sinister e Paranormal Activity), revela-se um dos seus trabalhos mais metódicos e socialmente relevantes. Depois disto, há que referir o óbvio, Daniel Kaluuya dá uma força à fita e LilRel Howery é um comic relief tipificado a servir de gelo para um ambiente fervoroso. Com isto, Get Out é livremente perturbador.

 

Real.: Jordan Peele / Int.: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, LilRel Howery

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:59
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28.4.17

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Barulho para nós, música para Malick!

 

A música toca e toca em modo playlist, continuamente, imperativamente e ritmicamente perante as imagens que funcionam num vórtice de corpos vazios, que bailam ao som das mesmas de forma dessincronizada. A música, segundo Malick, é a alma de Austin, esse paraíso liberal num estado tão fechado como o Texas, e a única alma verdadeiramente sentida, por a arte invocada por estes ritmos diversos não engendrar com a narrativa visual que o realizador “tímido”, agora prometendo uma maior assiduidade na indústria, gera.

 

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Song to Song é a sua nona longa-metragem, a terceira da fase pós-2011 (sem considerar o seu documentário Voyage of Time), e a nova evidência de que os autores, por mais inconfundíveis que sejam, também cedem ao mais profundo conformismo. O “culpado” desta presença repentinamente está no digital, a infinidade e o facilitismo que as tecnologias atribuíram ao Cinema, mas para Malick é o prenúncio do seu fim enquanto ser misterioso da indústria, é o cansaço em pessoa de quem não tem mais nada de novo para contar. Triste realidade, Song to Song é mais do mesmo em doses malickianas, são as “maliquices” levadas até ao fim e o seu cinema tão “autoral” converteu-se na mais perfeita caricatura, a loucura da repetição e dos problemas de primeiro mundo como base de um prolongado sofrimento de personagens. Esse sofrimento entra em loop, na persistência dos mesmos planos “over and over”, e das frases sussurrantes cada vez menos inspiradas e cedidas a uma lamechice de pacotilha. Será Malick o Pedro Chagas Freitas cinematográfico?

 

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Song to Song começa com um triangulo amoroso (Michael Fassbender, Ryan Gosling e Rooney Mara), um ménage de Dreamers, de Bertulocci, com os mesmos “joguinho” sexuais e de foro emocional. Tais vértices vão-se afastando dando origens a trilhos cada vez mais paralelos entre as diferentes personagens. Sim, é triste chamar isto de personagens, até porque Malick brinca com o vazio, com os movimentos erráticos e circulares destas, nos diálogos impostos num falso-raccord. Não existe espaço para personagens, tudo são bonecos que se pavoneiam perante um autor que se assume desorganizado, espontâneo e refém do seu instinto.

 

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Será isso bom? Não será a Arte um veiculo pensante? Ou um instinto humano de comunicar? Conforme seja a escolha, a verdade é que o sedentarismo é um veneno e para Malick esperemos que encontre a cura. Song to Song é um som incorrespondido com a narrativa visual, é a prova de depois de Tree of Life (A Árvore da Vida), Malick não demonstra qualquer sinal de revitalização, mas sim de preguiça no mais incurável sentido.

 

"What part of me do you want?"

 

Real.: Terence Malick / Int.: Ryan Gosling, Rooney Mara, Michael Fassbender, Natalie Portman, Holly Hunter, Cate Blanchett, Lykke Li, Val Kilmer, Bérénice Marlohe

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 16:17
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26.4.17

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Andando em círculos!

 

O que é pior do que um filme assumidamente fascista? Um filme que remexe em tais perspectivas e que não possui capacidade de os "exorcizar" (sendo esse o seu evidente objectivo). O Circulo é esse filme, uma ficção cientifica distopica tão próxima do nosso actual panorama sociopolítico, a tecnologia e a nossa dependência como novas formas de totalitarismo e a clara ideia de "direita"em optar a segurança extrema e por vezes excessiva frente à liberdade individualista.

 

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Baseado num livro de David Eggers, esta obra de James Ponsoldt (The Spectacular Now) é um indicio proeminente de que Hollywood está cada vez mais à mercê das ideias anexadas ao fenómeno Trump e tudo relacionado. Recordamos que Paul Verhoeven, durante a apresentação do seu Starship Troopers no Film Society of Lincoln Center, confrontado com as notícias de uma nova versão do seu filme, com planos de fidelidade com o livro de Robert A. Heinlein, o realizador holandês alertou a possibilidade desta obra vir agradar a presidência Trump, visto que o estúdio não estaria disposto em absorver-se novamente na ironia e no cinismo. Obviamente que distopias são a melhor metáfora para orquestrar qualquer base ideológica e politica de forma subversiva e sugestiva, tendo a capacidade de esquivar a eventuais censuras e auto-censuras, mas será que estas mesmas não deverão ser metamorfoseadas consoante o contexto que nos envolve?

 

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No caso de O Circulo, as boas intenções não pagam imposto (existe lá um certo fantasma NSA e Snowden), ao invés disso, é a sua incompetência extraordinária a fazer frente à distopia em si. Eis um filme que se preocupa com a imagem da sua actriz, Emma Watson (a passar de promissora a "fedelha" irritante), com a estética quase desktop da narrativa ("já entendemos, é uma rede social"), e todo um conjunto de soluções fáceis, moralismos concertantes e personagens secundárias sem dimensão e claro, sem carisma algum. Visto falarmos de uma irritante Watson, o que dizer doutra promessa, neste caso a estrela de Boyhood - Ellar Coltrane? O protagonista de um dos mais desafiantes filmes dos últimos anos oferece-nos um desempenho a esquecer, o mesmo que pelo qual este tão piroso Circulo está destinado.

 

Real.: James Ponsoldt / Int.: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Ellar Coltrane, Bill Paxton, Karen Gillan

 

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3/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:45
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24.4.17

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O regresso dos desajeitados!

 

O Mundo poderia viver sem uma sequela de Guardiões da Galáxia? Claro que podia, mas digamos que a sua existência não nos levará ao Armagedão. Porém, o que era descontraído no primeiro filme, torna-se forçado e demasiado confiante no segundo. É a vida! São as leis de mercado e sobretudo as regras das “sequelites”. A proposta tem que ser maior, mais ambiciosa, e quantitativamente aliciante, o resto é jogar no seguro e fazer “rolar” a “magia” dos encantadores números do box-office.

 

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Sim, Guardiões da Galáxia é a “grandiosa” aposta para as audiências pré-estivais, aquele sci-fi humorado e colorido, recheado de easter eggs que vão do kitsch ao vintage e vice-versa, tendo como ingrediente extra, um recanto perfeito para famílias. Trata-se do regresso dos cinco “misfits”, agora consolidados a uma espécie de comunidade “familiar”, uma equipa de mercenários que protege a Galáxia por um bom preço. As personagens do anterior estão lá, conservadas em âmbar para que os espectadores não notem divergências e, pelo facto, são eles que nos trazem as boas novas desta continuação. A começar pelo wrestler David Bautista no papel do atípico Drax, a personagem que lhe mais condiz, e o verdadeiro comic relief de um universo cheio de comic reliefs. Nesse aspecto, temos aqui o perfeito clown intergaláctico. Pelo meio encontraremos guaxinins falantes, um par de “pombinhos” em constante vaivém e árvores “fofas”, esta última, uma aposta mais forte ao mercado do merchadising do que propriamente em trazer algo de útil a um filme com milhentas cenas inúteis.

 

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Será que vemos em Guardiões da Galáxia os ensinamentos de George Lucas, o cinema como uma tela branca, o facilitismo do CGI e, pior, a prolongação das sequências descartáveis como provas de manuseamento de tal tecnologia? Pois, se por eventualidade editássemos o nosso Volume 2, descartando toda essa frente de momentos slapstick e dignamente paródias, as runnings gags que persistem e perduram, as correrias que dão uso à palete de cores e à infinidade do CGI, e como não poderia deixar de ser, os easter eggs anexados a cameos, nomes, referências e ganchos para futuros capítulos. Se tirássemos isso tudo, Guardiões da Galáxia estaria despido a pouco mais de uma hora e meia de duração (ao invés das duas horas), integrado a um enredo corriqueiro de vilões com desejo de dominar o Mundo e as moralidades de sempre na Casa do Rato Mickey (a Disney tem um verdadeiro “daddy issue”).

 

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É um blockbuster de bons momentos, disso não há dúvida, sobretudo no jogo versátil de imagem com a musicalidade, mas é de um desequilíbrio total, um confronto entre a libertinagem de James Gunn frente a um megalómano estúdio que tem tudo para sufocar liberdades criativas. Pode ser cliché afirmar isto, mas cá vai. Não há frescura como o primeiro!

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Michael Rooker, Sylvester Stallone, Kurt Russell

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:20
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24.4.17

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A peregrinação das actrizes!

 

Cansaço ... é o que sentimos no final desta peregrinação. Simplesmente cansaço! Mas aqui não é um defeito, é uma virtude, o sentimento pretendido neste novo rol de realismo à lá Canijo, onde uma vez mais são as suas actrizes a liderar o processo criativo, mulheres que mimetizam o real e não o oposto. É a continuação do seu trabalho, os métodos experienciados para atingir a natureza-matriz do actor. O que os move? O que os faz atingir esse patamar? O que os torna, não inconfundíveis, mas sim confundíveis com o cenário envolto?

 

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João Canijo tem-se submetido a essa experiência desde que a noite tornou-se escura [Noite Escura, 2004] e aí, gradualmente, tem avançado com uma aproximação ao realismo e ao mesmo tempo improvisando e sofisticando o processo de direcção de atores. Foi com o É o Amor que a ideia de cruzamento surgiu, a do conflito entre a ficção, indiciada por "infiltrados" numa realidade que não lhes pertence, e do lado documental, o realismo aprisionado na lente e moldado para as infinidades da interpretação e reinterpretação. Nesse jeito, Fátima funciona nesse apoderamento do primeiro ponto, em constante abalo com o segundo. A veia documental encontra-se presente no percurso, na jornada replicada que se evidencia como um obstáculo de capacidades. As capacidades, por sua vez, encontram-se nas actrizes, subjugadas ao método de improvisação quase "strasbergiana".

 

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A peregrinação torna-se então num coliseu de gladiadoras, actrizes que rivalizam egos e batalham pela atenção do espectador. Mas nem todas as actrizes são capazes de sobreviver neste "circo de feras", nesta estrada sem fim que assume como o palco de improbabilidades. Apenas duas (Anabela Moreira e Rita Blanco) concentram forças para a "pedalada" e é nelas que nasce um conflito tardio (dramaticamente falando), que atingirá um estado de ebulição de forma gloriosa. A satisfação surge aí. As personagens estão criadas e nessa frecha conseguem por fim separar-se da actriz num processo doloroso, demoroso e dispendioso que resumiu toda esta experiência. A da interpretação, a da matéria de que são feitos os actores e, por fim, do espectador, capaz de testemunhar esta instalação "sob milhas".

 

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Ao contrário do que se julga, Fátima não é um filme religioso. Não no sentido católico do desfecho desta jornada. Nada disso. A religião é apenas evidenciada na composição das personagens e na crença mutua, das actrizes em relação a Canijo, e de Canijo em relação às actrizes. O embate final é um atalho para Fátima, o refúgio religioso que se converte na perfeita união de espírito e da cinematografia que Canijo consegue emanar através de imagens assombrosas!

 

Real.: João Canijo / Int.: Anabela Moreira, Rita Blanco, Teresa Tavares, Sara Norte, Ana Bustorff, Teresa Madruga

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:35
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20.4.17

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Os Demónios que nos livre!


Inicialmente tido como uma terceira parte de Demons, a saga demoníaca levado a cabo por Dario Argento e Lamberto Bava (filho do cineasta Mario Bava), Michele Soavi declarou independência e o transformou em algo autónomo, mas ... não devidamente emancipado do estilo dos seus "padrinhos".

 

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La Chiesa (The Church) leva-nos ao tormento das Idades das Trevas, por entre templários e inquisições de desfechos sangrentos. São as cruzadas, trazendo consigo o derrame de muitos "hereges", cúmplices das forças demoníacas que sempre ameaçaram o espírito humano. No seio do massacre submetido ao nome divino, é erguido um monumento, um edifício que pudesse consagrar o amor terreno por Deus e que aprisionasse qualquer forma inglória. Como tal é construído uma Catedral, um símbolo vitorioso. Anos passaram, até chegarmos aos tempos actuais, onde a chegada de um bibliotecário faz adivinhar tamanha tragédia, um desconhecido que se deixará vencer pelos espiritos torturados e pelas entidades que se escondem nas sombras, no mais remoto lugar daquela "prisão" de pedra sobre pedra.

 

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Em La Chiesa, devido ao seu pretensiosismo aguçado e quase arquitectónico, o fracasso é um iminente destino, agravado pela incapacidade de construção de personagens ou na condução de um argumento escrito e transcrito e assim crucificado na falta de coerência. Se tudo está destinado ao mais martirológio dos falhanços, deve-se salientar a forma com que Michele Soavi manobra-se pelo estilo vincadamente série B, pela redução aos lugares-comuns e pelo humor involuntário refeito a partir da não exactidão do enredo. A verdade é que Soavi aproveita a cenografia gótica, a atmosfera por vezes sacrificada e a via sacra como inspiração para este modelo de pesadelo cinematográfico.

 

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No terceiro acto, La Chiesa transforma-se num atento filme de cerco (a invocação da saga não assumida), onde "bonecos" (ao invés de personagens) são subjugados a uma orgia de tentações infernais, heresias que se enquadram como formas demoníacas. É assim que recomeça o sangue, a "nova" cruzada, agora invertida e altamente comunicativa com o veio sexual e por vezes, profano. Sim, tal como uma descida danteana, este é um filme recheado de luxuria, de trevas que embicam para os sonhos molhados dos nossos negados temores e medos. É o Inferno sedutor e indesejado descrito nas escrituras e na memória humana quando esta proclama os feitos cometidos por Deus e a tentação empestada pela Besta.

 

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"Não há Deus sem Diabo", diz o bispo (Feodor Chaliapin Jr.), espalhando o medo pelo desconhecido que os envolve. Michele Soavi conseguiu no meio do caos um pesadelo, e por pouco dava-nos a sua obra-prima (dentro dos parametros mimetizados do legado Bava / Argento). Mas grandes monumentos tendem em cair e La Chiesa cede abruptamente.


Real.: Michele Soavi / Int.: Hugh Quarshie, Tomas Arana, Feodor Chaliapin Jr., Barbara Cupisti, Asia Argento

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 02:21
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19.4.17

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Esta terra é nossa!

 

Se tem ou não recursos para o fazer, isso são questões que divergem da capacidade de fazer. A Ilha dos Cães, o filme que tem sido equivocamente publicitado como o último do actor Nicolau Breyner, é uma tentativa infeliz no campo do cinema de género português, mas que não deve ser ignorado de todo.

 

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Contado a três tempos e com base criativa na obra literária do escritor angolano Henrique AbranchesOs Senhores do Areal - o realizador Jorge António (O Miradouro da Lua, a 1ª co-produção luso-angolana) constrói uma fita que se complementa a preencher o espaço da série B, do subestimado cinema fantástico pelos demais, e tendo como foco uma memória colonial que entra em colisão com diferentes etapas temporais. É o esclavagismo a perpetuar o pior do colonialismo, a resistência a servir de avante para ideias opositoras e, por fim, o cenário actual onde os fantasmas de um passado negligenciado parecem coabitar.

 

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Tudo resulta num filme de boas intenções, mas incompleto no seus objectivos, tal como um cão raivoso que responde ao instinto e não com a exactidão das ordens do seu dono. Para Jorge António, falta sobretudo um aprumo nos diálogos (forçados deve-se salientar), uma liberdade em fugir dos lugares-comuns que assumem impasses (como um romance incutido a três pancadas) e, sobretudo, uma coragem em arriscar, acima do simplesmente agradar ao público-alvo.

 

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Quanto aos efeitos visuais, nomeadamente as tentativas de CGI, perdoamos, até por que sabemos que o tecnicismo advém do financiamento e sem recursos não existem frutos para mais. Contudo, há que referir A Ilha dos Cães está à frente de muitas produções assumidamente mainstream da nossa cinematografia, que com maiores recursos tendem em tratar o espectador como um alarve. Um exercício produtivo!

 

Real.: Jorge António / Int.: Ângelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, Ciomara Morais, João Cabral

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 15:43
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13.4.17

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Os Filhos da Lua!

 

"(…) com devotos fieis, mas nenhum discípulo e nenhuma exegeta", menciona o realizador Paulo Rocha em relação ao consagrado cineasta japonês, Kenji Mizoguchi, que contaria com um inédito ciclo programado na Calouste Gulbenkan. Ciclo, esse, projectado 20 anos depois da morte de um dos homens mais incontornáveis da História cinematográfica nipónica, e, tendo como uso as palavras escritas de Rocha, um dos mais esquecidos. A sua carreira é hoje, integralmente, um desafio, passando do mudo até aos talkies (em similaridades com outro conterrâneo tardiamente desvendado em terras lusas - Yasujiro Ozu), e cuja fama entre o circuito cinéfilo havia apenas sido suscitado anos tardios. Essa mesma aclamação, como também atenção, fora realçada com a passagem de Os Contos da Lua Vaga (Ugetsu monogatari) no Festival de Veneza de 1953, onde iria vencer o Leão de Prata do certame, à imagem de O Intendente Sansho (Sanshô dayû) que conquistaria tal proeza no ano seguinte.

 

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Mas Os Contos da Lua Vaga não resultou em nenhum impulsor deste cinema dignamente “mizoguchiano”, ainda hoje estudado e por vezes ignorado, tendo como principais influências uma cercada globalização cinematográfica (há toques de neo-realismo italiano ali, um expressionismo alemão acolá, a moralidade de Hollywood além). O que, na sua provável ambição, Os Contos da Lua Vaga tornou-se na mais célebre das suas obras graças ao aperfeiçoamento das principais características do realizador; os planos longos intercalados por grandes gerais e travellings que tanto usufruem dos cenários feudais e outras reconstituições históricas (ainda há espaço para exorcizar um Japão tradicional e regido no seu particular quotidiano), e da união quase umbilical entre a imagem e o som, com principal destaque a confrontação de demónios por parte de Genjurô (Masayuki Mori) no filme referido.

 

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Em certa parte, Os Contos da Lua Vaga assume-se como um jogo de sombras, flashsbacks integrados na acção e não reduzidos a camadas narrativas, marcos que seriam aproveitados por Michelangelo Antonioni em Profissão: Repórter (quem nunca se esquece da dupla interpretação de Jack Nicholson na acção decorrida e no flashback de varanda), a atmosfera que nos afronta como um submisso a mercê desta Lua de Agosto e da coexistência entre a ficção e o onírico, o fantástico com a reconstituição e o mundo dos vivos com os dos mortos, negligenciando as suas condições metafísicas. Mizoguchi beneficia das dicotomias, da harmonia de teores para implantar a sua fábula de homens ambiciosos e das respectivas mulheres mártires desse pretensiosismo egoísta.  

 

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É como uma pintura delicada, pintada sob toques graciosos e delineado por um carvão hesitante, mas de concepção precisa. Mizoguchi é um artesão, um perfeccionista (como muito tem sido caracterizado), mas redutor do seu espaço, e nisso torna-se mais que subtil na transposição desta (bi)adaptação (baseado nos contos de Ueda Akinari e de Guy de Maupassant), mais um factor que nos leva à sua natureza híbrida. Híbrida? Porque no cinema de Mizoguchi encontramos a fusão, um requintado e apetitoso prato no qual concentra as memórias tradicionais com a sofisticação do tempo que se depara. Os Contos da Lua Vaga não é nenhum avante nesta sua “gastronomia”, é simplesmente o solstício de um autor que merece mais do que uma mera menção. 

 

Real.: Kenji Mizoguchi / Int.: Masayuki Mori, Machiko Kyô, Kinuyo Tanaka

 

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 13:31
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Destino sobre rodas!

 

A alta velocidade ou suscita um acidente ou uma autuação e, neste caso especifico, ficaremos com a segunda hipótese, porque o desastre é iminente caso continuem com estas velocidades frívolas. Mas antes de mais, deve-se aplaudir a nossa "Furiosa", Charlize Theron, que fez tudo para que esta carruagem não se despenhasse de forma catastrófica, e tem a capacidade de salvar um filme condenado à auto-ejaculação dos fãs (Charlize só não foi avisada a tempo para um desastre à lá Sean Penn).

 

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Aliás, são as mulheres por detrás do volante que direccionam este Velocidade Furiosa 8 para caminhos menos corriqueiros. Resumidamente, é a nossa Theron em conjunto com uma breve, mas mesmo assim profissional Helen Mirren, a lembrarem como se faz no plano dos desempenhos. Isto porque os nossos homens são demasiado vigorosos em relação à sua imagem "máscula"  e procrastinam em atribuir algo mais pessoal a um franchise cada vez mais despersonalizado desde a saída do realizador Justin Lin (na altura, o verdadeiro herói de Fast and Furious).

 

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O resto é tudo aquilo que esperamos da saga, só que em doses meramente cansativas, desde o foco central à personagem de Vin Diesel (andamos 8 filmes com o protagonismo e já estava na altura de mudar), um incoerência na continuidade e ainda a industrialização que se entranha, até mesmo no melhor ponto que estes filmes possuíam: os stunts, agora cada vez menos impressionantes.

 

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De resto, recorre-se aos estereótipos (Tyrese Gibson), às experiências iniciadas mas não levadas a avante (a dupla Dwayne Johnson e Jason Statham poderiam ser um Terence Hill e Bud Spencer em modo testosterona) e a perpetuação do conservadorismo a defraudar a irreverência, até porque falamos de família e bons valores morais de forma a não ofender as massas que tanto contribuíram para o êxito estrondoso disto tudo. Após este capítulo, só falta mesmo este grupo ir para o espaço, até porque já não existem mais caminhos a seguir para além do beco sem saída. Isto já cansa … e muito!

 

Real.: F. Gary Gray / Int.: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Helen Mirren, Michelle Rodriguez, Scott Eastwood, Tyrese Gibson, Ludacris, Kurt Russell, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Nathalie Emmanuel

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:35
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12.4.17

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A absolvição chega tarde!

 

Desde cedo os italianos souberam extrair da crítica social, como política, o seu modelo cinematográfico. O neo-realismo, oficialmente nascido em 1943, é tido como uma dessas importantes visões de ousadia mordaz, enquanto que se servia de afronta para a ideia, então estabelecida, de cinema, contrariando as tendências estilísticas, filmando de forma estilizada, um realismo não estilizado (Erwin Panofsky).

 

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Com o passar dos anos, as críticas italianas obtiveram as suas diferentes facetas, desde a comédia à lá Itália que olhava para o humor como um portento escudo no seu ataque, e o "fellinismo", esse surrealismo barroco disfarçado que se abatia anos seguintes como um novo signo de vocabulário cinéfilo. Por fim, aparece-nos a poesia de Pasolini a servir de contraste e a fervorosa veia politica de Nanni Moretti a prevalecer numa despida sinceridade ideológica. Ou seja, em sangue italiano, a política como tema crítico para uma visão analista corre com tamanha agressividade nestas veias.

 

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Actualmente, o cinema não encontra nenhum movimento artístico predefinido, e a globalização tem tido papel fundamental na diversidade de vozes, cuja única similaridade é esse tom crítico. Le Confessioni é o enésimo avante de discurso politico, principalmente vindo da dupla Andò / Servillo, que após o sucesso de Viva La Libertá (Viva a Liberdade), onde apresentava o humor doppelganger para construir uma politica de sinceridades (mas nunca objectiva na sua crítica), reúne-se para invocar um misto de referências, que vão desde uma reunião G8 e a clássica forma de thriller de Agatha Christie, passando pelas óbvias menções de I Confess, de Hitchcock (as personagens estão encarregues de elucidar-nos) e a estética que fora mundialmente reconhecida pela cinema de Sorrentino.

 

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Toni Servillo é um monge de raízes misteriosas, convidado a participar em tal reunião politica, a pedido do líder da FMI, Daniel Roché (Daniel Auteuil). Os motivos deste misterioso convite são revelados após o suicídio deste último. Um ataque às politicas de austeridade e às empresas que ganharam com a crise, que tanto têm a dizer para os países do Sul da Europa, como Itália. Contudo, esse mesmo ataque é feito por impasses do grotesco burguês à lá Sorrentino, mas ao contrário do realizador de La Grande Bellezza, Roberto Andó funciona como um impostor, copista, e essa preocupação pela estética revela-se na sua maior fraqueza, até porque o filme nada tem para dizer, para além de um extremo senso de moralismo.

 

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Entre punch lines aqui e ali, frases que nos levam à nossa consciência moral, Le Confessioni é demasiado preso às suas influências. Toni Servillo é imperativamente regido ao seu ego e o resto, totalmente inofensivo, interligando as devoções religiosas, o maniqueísmo das boas acções, como uma solução pela frieza politica. Tal como diz Connie Nielsen a meio do filme, "já todos andamos fartos de contos de fadas".

 

Filme visualmente na 10ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

 

Real.: Roberto Andó / Int.: Toni Servillo, Daniel Auteuil, Pierfrancesco Favino, Connie Nielsen

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:27
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11.4.17
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Todos aguardam pelo seu Paraíso!

 

Não é negação, mas sim saturação. O Holocausto parece ter atingido o seu ponto de ebulição no Cinema, ou há ideias e novas abordagens para apostar, ou se verga, como se turismo de tratasse, numa reconstituição crowd pleaser. Conta-se pelos dedos as "inovações" nestes lugares, não comuns, mas tão presentes no nosso "eu" moral. Em tempos de populismos e "revisionismos históricos" (termo técnico trocado pelos historiadores para amenizar a evolução do negacionismo), existe uma importância humanitária, como cultural, para recordar estas "horas negras" onde a sobreposição ideológica acima das condições humanas obtiveram resultados catastróficos que ainda hoje ecoam. Mas até que ponto deveremos recordar essas atrocidades? Andrei Konchalovsky parece ter encontrado uma nova perspectiva ao tema através do ponto consequente da desgraça da ideologia politica. Paraíso, o título, resume, não ao Reino dos Céus, mas à emancipação de uma ideia, de uma comunidade "moral high ground" onde a politica adquire a sua consistência massiva.

 

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"Um Paraíso para o nosso povo. Um Paraíso alemão", declara de peito erguido o oficial Khelmut (Christian Clauss) nos interrogatórios que intercalam a narrativa desta obra envolvida em tons cinzentos. Ele é um homem decente, segundo as doutrinas globalmente conhecidas de Henrich Himmler, de um coração abrangente, mas completamente embebido pelo sonho Nazi partilhado por Hitler e os seus seguidores de partido. Khelmut é a prova de que a intolerância juntamente com a ignorância condiciona-nos como humanos e que o passado nos confronta, igualmente unindo-nos a essa mesma jornada moral. Para o nosso oficial, a ligação directa para essa consciência deveu-se a uma "princesa russa", caída em desgraça num campo de concentração. Olga (Julia Vysotskaya) é essa aristocrata agora reduzida a um número, um número a ser subtraído pelas contas dos alemães, e a sua vivência longínqua com o oficial que se vai tecendo numa réstia de esperança numa fuga iminente - "achas que há um paraíso para todos?".

 

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Andrei Konchalovsky recria aqui um embate entre ideologias e golpear perspectivas, porém, e infelizmente, tudo é feito através da invocação dos lugares-comuns, do requisitar da violência gratuita que nos explicita o óbvio - a desumanidade das SS. Assim, o realizador parece tropeçar num evidente maniqueísmo, principalmente tendo em conta um certo teor nacionalista, onde guarda rancor de gerações aos germânicos e compaixão pelos seus conterrâneos (basta ler a dedicatória deixada pelo mesmo no final da fita).

 

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Mas apesar dessa motivação obscura, Paraíso desfragmenta em cacos um filme nascido nas ruínas que se expande como uma panóplia de conhecimentos ideológicos isolados e algumas catch phrases que ficam para futuras reflexões, mais do que todo o filme ("O mundo sem corrupção, seria completamente desumano"). Como se não bastasse, as decisões narrativas culminam num plot twist com mais 500 anos, e bem português por ventura. A invocação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, aqui a soar como um puro registo de manipulação, da desgraça sofredora do cristianismo e o julgamento dos três cabecilhas dos respectivos grupos. No final das contas, o que sobra é O Arrependido, O Orgulhoso e a A Absolvida.

 

Real.: Andrei Konchalovsky / Int.: Julia Vysotskaya, Peter Kurth, Philippe Duquesne, Christian Clauss

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:53
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6.4.17

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Ladrões em modo vintage!

 

Zach Braff cumpriu o seu primeiro requisito como realizador em 2004 com um pequeno grande filme de superação existencial, Garden State, o qual também protagonizou ao lado de uma Natalie Portman sob uma inocência virginal. Outrora conhecido como "o actor" da série Scrubs, Braff regressa à cadeira de realizador, passados 10 anos, e o resultado foi um registo independente (Wish I was Here) em que espectador sente que visita o mesmo lugar de antes,  mas o efeito não é nostálgico. Foi então que, após uns produtos para a televisão, o actor convertido em realizador avança numa nova tentativa no cinema, desta feita em estreita cooperação com um grande estúdio (Warner Bros.) e como matéria-prima um homónimo filme de Martin Brest (que por cá teve o título de Quadrilha do Reumático) e, voilá, chegamos ao mero anonimato de Braff como cineasta.

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Este Ocean's Eleven de terceira idade, com mais ligações ao original protagonizado pelo Rat Pack (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop) do que na versão de Steven Soderbergh, é um entretenimento emocional sob a máscara de cinema politico para massas. A razão está num discurso algo nacionalista e anti-capitalista (a guerra contra a classe de Wall Street e a transferência de empresas na busca de mão-de-obra mais barata no resto do Globo) que hoje encontrou voz na eleição de Trump, da mesma forma que traz três veteranos actores de uma Hollywood que nega as suas "royalties" para induzir a temática da terceira idade e o desprezo social para com estes.

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Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin são bons motivos para comprar o bilhete para esta mesma sessão, mesmo que o tom cómico e o modelo heist movie já tenha visto melhores dias. E é então que após um cínico desfecho em que a criminalidade compensa, como se tal movimentasse o destino financeiro, politico e social de um país (a invocar o complexo Robin dos Bosques mais uma vez), somos levados para os créditos finais. Afinal, Zach Braff filmou isto! Sim, foi ele mas poderia ter sido outro "tarefeiro" qualquer. Aliás, Hollywood está cheio deles.

 

Real.: Zack Braff / Int.: Michael Cane, Morgan Freeman, Alan Arkin, Christopher Lloyd, Matt Dillon

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:48
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30.3.17

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Fantasmas de Shirow!

 

Bem-vindos à queda do cinema americano, e não, nada tem a haver com as controvérsias de whitewashing, a escolha de Scarlett Johansson para interpretar uma cyborg. Não, simplesmente o que vemos nesta adaptação de uma adaptação de uma manga da autoria de Masamune Shirow, é o requisito de lugares-comuns e dos truques primários que tanto minam o cinema para as massas oriundos dos grandes estúdios americanos.

 

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Já a primeira conversão do material original para cinema, uma animação estilizada de Mamoru Oshii, funcionou como um quebra-formulas daquilo que poderia no entanto suscitar. É ficção cientifica da futurista, com pinceladas fortes de Phillip K. Dick e, sob linguagem cinematográfica, influenciada por clássicos como Metropolis e Blade Runner, que orquestrava uma narrativa anti-climax, sugestiva e sobretudo cerebral. Aonde irão as nossas particularidades enquanto seres humanos num mundo completamente a mercê do robótico? E as questões da inteligência artificial? E do "uncanny valley"? Estas tendências são debatidas em quase tudo o que se designa  ser ficção cientifica "astuta". Sim, o filme tinha esses propósitos de servir mais como uma reflexão ao serviço da animação, do que se apresentar como o enésimo arquétipo de acção animada, e a esquecida sequela (Innocence, 2004) prolongou essa fantasia filosófica de um futuro à vista.

 

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Porém, eis que surge a lavagem de Hollywood, um produto com claras pretensões de agradar os fãs do original e adeptos dos chamados "blockbusters inteligentes", mas que se perde perante as suas ambições. O porquê? Por que todos os ingredientes que transformaram Ghost in the Shell em mais do que um mero fruto da industrialização, são esquecidos e trocados por equações homogéneas daquilo que tanto abunda no entretenimento mainstream. Diria que este Agente do Futuro (lembraram-se de traduzir para português) é um embrião do cada vez mais formulaico cinema de super-heróis, trocando a dita filosofia por enredos de vingança, o sugestivo pelo explicito, e o cerebral pelo códigos primitivos do bem entreter (salienta-se ainda o maniqueísmo básico). 

 

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Scarlett Johansson é a nossa heroína, meio Lucy, meio "Viuva Negra" da Marvel, que se movimenta pela narrativa como uma "boneca de prontidão exacta para a acção". A sua Major é demasiado emocional, frente às crises existenciais da versão animada. Tudo o resto, excepto o ocasional "Kitano Show" [Takeshi Kitano a assumir o controlo a meio da fita], é uma réplica prolongada, e segundo eles actualizada, que apenas jura fidelidade ao visual da obra de 1995. São estes raros pontos de contacto que fazem salivar os ditos fãs, mas por aqui grito em pleno pulmões: "It's a trap".

 

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Talvez uma premonição de como este Ghost in the Shell iria falhar (se bem que se espera, mesmo assim, que faça sucesso nas bilheteiras, até porque Scarlett Johansson já faz parte do star system) é a época em que os dois filmes surgem. A versão de Mamoru Oshii surgiu em 1995 e foi uma das influências para The Matrix dos Wachowsky, e esta versão de Rupert Sanders (com Snow White and the Huntsman no currículo) surge numa altura em que quase todo o entretenimento cinematográfico encontra-se contagiado pelo referido frenesim cyberpunk. Resultado, apenas chuva em terra molhada. 

 

"Well, maybe next time you can design me better."

 

Real.: Rupert Sanders / Int.: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Juliette Binoche, Anamaria Marinca

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:58
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29.3.17
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O efeito negação!

 

Por vezes também acontece o inesperado, um filme medíocre onde as possibilidades de cinema são limitadas pela linguagem televisiva e no virtuosismo académico, que mesmo assim tem a capacidade de gerar um debate para além do visto na grande tela. Denial (Negação), de Mick Jackson, resume-se a um drama de tribunal que tem como anexo uma história verídica (o que não falta por aí são "histórias verídicas", ou seja, a "oeste" nada de novo, o julgamento de Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), escritora do livro Denying The Holocaust, da editora Penguin Books, acusada de difamação para com o historiador David Irving (Timothy Spall), um negacionista do Holocausto e um dos maiores estudiosos da vida de Adolf Hitler.

 

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Ao decorrer desta obra, que remexe sem espinhas por entre a sua compostura competente e o elenco de igual adjectivo que faz antever uma boa entrega nesta reconstituição, Denial vai-nos apresentando temas que implodirão como objectivos para uma eventual discussão e reflexão acerca do mundo que assistimos em constante transformação. A ascensão do populismo, com clara ligação aos extremismos, essa propagação, e até que ponto a liberdade de expressão poderá ser abalada, e o quanto abalados poderemos ser em relação à mesma, e por fim, o negocismo como um problema, suavizado por historiadores, como um revisionismo histórico, e por vezes utilizado sob contextos políticos e ideológicos.

 

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Temáticas, essas, que ficam para fora da sala, visto que a obra de Mick Jackson "sensivelmente" toca nos pontos, mas a sua agenda possui uma certa tendência ao moralismo panfletário. Em particular, há que realçar uma sequência dispensável à narrativa, decorrida fora dos réus, que comete a pedagógica alusão do Holocausto como um assunto inesquecível e cuja a abordagem é necessária para evitar réplicas imorais. Uma cena com os propósitos de abalar consciências e criar um signo de "males que vem por bem" no nosso século. Será o Holocausto cada vez mais restrito a um símbolo de erro humano, e custe o que custar teremos que relembrar na consciência como uma porta interdita a reentradas?

 

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Sim, um filme como este, condenado ao esquecimento e sem o brilho da literal categoria cinematográfica, consiga ser um fósforo por entre uma inflamável "fogueira". Talvez seja os tempos "loucos" que nos fazem requerer modéstias como implantes reflexivos e pensativos do nosso século XXI. Esquece-se o filme, fica-se pelo debate.

 

Filme de abertura do 5º Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Mick Jackson / Int.: Rachel Weisz, Timonthy Spall, Tom Wilkinson, Andrew Scott

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:58
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23.3.17

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O meu nome não é Ninguém … é Courgette!

 

Icare, mais conhecido como Courgette, é um rapaz de nove anos cujo infortúnio bateu-lhe à porta, a sua mãe morre. A criança é assim transportada para um orfanato onde tentará conviver com outros na mesma situação, ou não, que ele. Sob o olhar atencioso de Raymond, um policial que encarregou-se do seu caso, Courgette tentará aprender por entre a sua vida caótica encontrar a felicidade nas pequenas coisas.

 

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A primeira longa-metragem do suíço Claude Barras é uma aventura espirituosa que se assume como uma afronta ao legado mercantil da Disney, através de uma duração com mais de uma hora (não mais que isso), consegue construir uma trama igualmente emocional sem o utensílio de conflitos demarcados nem da requisição de moralidades maniqueístas. Trata-se de um filme sobre crianças, ao contrário da tendência de filmes para criança, uma obra honesta nas ambições dos seus "heróis" e verdadeiramente presente nestas.

 

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Courgette, a figura, capta a nossa atenção pelo seu jeito doce, inocente e Claude Barras, sob a colaboração de Céline Sciamma (autora do argumento adaptado de uma obra de Gille Paris), invocam devidamente essa ingenuidade digna de enfant. No meio desse olhar deliciado e subjugado aos efeitos de um tom intrinsecamente agridoce, Ma Vie de Courgette é aquilo que poderemos identificar como dois em um. Uma animação stop-motion que encara o infortúnio como um ciclo vivente e despejado (sem vozes panfletárias) na superação, e ao mesmo tempo, uma subversiva visão para com o sistema de tutor educacional e de adopção.

 

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Em tempos de Bambi, onde a morte é vista como um trauma incontornável mas parte integra da vida (tal como ela é sem floreados) Ma Vie de Courgette poderia ter-se triunfado por entre a audiência mais jovem, mesmo com as claras sugestões que encontramos em determinadas personagens, mas numa época como aquela que se vive hoje, onde os nossos filhos estão sob uma constante, e por vezes alarmante, vigilância e protecção (e nisso reflecte a qualidade dos desenhos animados que assistem), o filme de Claude Barras apenas será restringido a um público adulto.

 

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Porém, espera-se que haja um passa-a-palavra, Ma Vie de Courgette, que teve a ventura de estrear em Cannes com algum entusiasmo e a nomeação ao Óscar ao lado de outros concorrentes de peso como Kubo and the Two Strings e Le Tortue Rouge (o prémio, que infelizmente, caiu nas mãos do mais previsível e formatado candidato), é um mimo para a nossa sensibilidade. Um mimo acima do que aquilo que realmente merecemos!

 

Filme visualizado na 16ª Monstra: Festival Internacional de Animação de Lisboa

 

Real.: Claude Barras / Int.: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 21:42
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21.3.17

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O espaço na moldura!

 

Ao ver Ornamento e Crime, a sensação é praticamente idêntica de ter visto The Good German, de Steven Soderbergh, há alguns anos atrás, que tentava a passos citar Casablanca no seu modo produtivo. Temos um cinema tributo que não sai desse mesmo acto, o de forçar um ligação com a memória cinematográfica do espectador.

 

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O resultado é iminente neste episódio film noir de Rodrigo Areias (que já se tinha aventurado em outro género póstumo, o western em A Estrada de Palha), onde a música colaborativa entre Rita Redshoes e The Legendary Tigerman batem certo numa incursão reservado em termos de personalidade. Ou seja, o que assistimos não é mais do que um mero exercício de reflexão de género, mas o vazio abate perante as referências e lugares-comuns propositados.

 

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Porque o film noir morreu há anos, o que resta são os seus embriões, e mesmo apetecível este saudosismo por um subgénero tão característico, sentimo-nos preso a uma peça de museu, com a arte pedagógica de informar e relembrar-nos que em tempos existiu filmes assim. Sem desfazer a contribuição artística por detrás de Ornamento e Crime, desde a fotografia, o som e a capacidade de mimetizar dos seus atores, este é um filme que fascina-nos pela sua invocação, e não pela sua presença. Entre detectives privados, casos infiéis, gangsters, prostitutas e femme fatales, somos corridos a uma pele de cobra, brilhante, esplendorosa à luz natural, mas oco por dentro.

 

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Ornamento e Crime é tudo aquilo que esperávamos numa proposta destas, e tal como soa a sua melancólica banda sonora e citando essa letra de cabaret, é caso para dizer que estamos perante num filme "Vodoo", um objecto que respira somente através dos outros. Não era isto que tínhamos em mente quando referimos dinamizar o cinema português.

 

Real.: Rodrigo Areias / Int.: Vítor Correia, Tânia Dinis, Djin Sganzerla, Ângela Marques

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 18:05
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20.3.17

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 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

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Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

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Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

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Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

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Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

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But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

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Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:50
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14.3.17

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Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

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Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

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Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

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Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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