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26.5.17

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Queria realmente não estar aqui!

 

Para entendermos a escocesa Lynn Ramsay teríamos que navegar pela sua anterior carreira e percebermos o que a move profundamente – o trauma. Contudo, este You Were Never Really Here é um exemplo da dissipação miraculosa do efeito de trauma; o que restou foram as imagens, anexadas a um vazio alarmante, onde a violência passa daquele território inteiramente masculino e transforma-se num universo recontado sob o sujeito de ‘ela’.

 

Digamos que este misto de Taxi Driver com Drive (um cocktail de Scorsese e Refn - este último, de certa forma, a invocar as influências do primeiro), é um exercício de agressividade que se exerce de fora para dentro, ao invés do dentro para fora. As imagens perdem o seu sentido mais intrínseco, assumindo-se como protótipos de um engenho visual. Triste será dizer, que Ramsay falha o alvo numa intensa deambulação narrativa. Quanto ao enredo, as pistas são nos deixadas como migalhas de pão se tratasse, encontramos o rasto por momentos, mas este tende desaparecer face à gula dos “pássaros”. Pássaros, esses, os artifícios animalescos que nos conduzem a uma indiferença enorme entre as personagens, e a realizadora perante o material adaptado (visto tratar-se numa pequena história de Jonathan Ames), incutindo uma estética sem propósitos, quer criativos, quer induzidos narrativamente.

 

Joaquin Phoenix ainda em modo I’m Still Here neste You Were Never Really Here, uma ligação artística do seu modus operandi de interpretação, um homem pronto a emanar a sua força para transportar um filme à pendura como um Atlas. Mas os seus esforços são em vão. Ramsay polvilha o filme com alguns truques visíveis de inércia, entre os quais as rápidas transposições, de forma a simular um sistema de videovigilância, atenuando o explícito da violência embarcada, ou a rádio que nunca se cala, dando-nos um filme sonoro dentro deste filme, estreitamente visual. Infelizmente os truques não resgatam este “freakshow” da penumbra do seu ser. Eis um fracasso completo, Ramsay com pretensões de invocar o seu ‘eu’ violento, dando-nos preocupações quanto ao seu estado. Depois disto, haja alguém que critique o Refn.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Lynn Ramsay / Int.: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alessandro Nivola

 

3/10

publicado por Hugo Gomes às 23:42
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25.5.17

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Peripécias a dobrar!

 

A infelicidade bovariana e a repreensão sexual da protagonista seriam belíssimos pontos de partida para uma caprichosa fecundação neste thriller erótico. François Ozon usufrui da sua transgressão sexual e psicológica para minar neste seu L’Amant Double um intenso clima de ebulição, e com isso, presenteando-nos um magnificente artifício visual que vai desde a transposições vaginais, split screens invisíveis e um fetiche sexual onírico. O realizador anexa esse apetite estético com uma auto-reciclagem, há uma busca pelo Jeune & Jolie, onde Marine Vacth novamente segue em modo “stalker” dos seus desejos, mais uma vez, apta a explorar esse seu inerente desconhecido.

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L’Amant Double é um cruzar de dois olhares, o desconhecimento tormento de géneros (a sexualidade encontra-se no limiar da sua fronteira) e do jogo de ilusões que Ozon pedala com alguma classe. Há Brian DePalma aqui, existe citações a Dead Ringers de Cronenberg, do outro lado do espelho, e o visual possui aspirações a Refn. Por outras palavras, L’Amant Double é uma orgia de influências que, para nossa infelicidade, geram um nado morto, porque simplesmente o argumento não segue essa mesma ambição, a essa narrativa visual. Assim, sucessivamente vamos cedendo a um terreno pantanoso, aos truques baratos que fazem descortinar um embuste, os lugares-comuns do território do thriller mais convencional e o plot twist que nos arrebata com uma incoerência impossível.

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Engolimos a seco essas revelações e depressa tentamos encaixá-los na já exposta narrativa, ao contrário de um Hitchcock (citando o óbvio dos cineastas desse sentido), onde a intriga sofre com uma metamorfose encadeada com a sua revelação, alterando a nossa perspectiva, mas consolidando-a com o estabelecido desde então. L’Amant Double tem que “colar” a cuspo e a sémen esse mesmo twist, e o resultado é um verdadeiro acidente de proporções catastróficas. Digamos que Ozon embateu numa parede de concreto, e é pena, porque os primeiros actos prometiam. E que promessas eles nos davam.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: François Ozon / Int.: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:49
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Nothing Else Matters!

 

As Máquinas não podem parar, e o Cinema deve acompanhar todo esse processo de auto-sustentabilidade. A Fábrica do Nada, a quarta longa-metragem de Pedro Pinho, é esse conceito simultâneo de fazer cinema e falar de política, um retrato de um activismo em pleno passo de reflexão. Trata-se de um filme baseado na peça de Jorge Silva Melo, por sua vez inspirada na experimentação de auto-sustentabilidade da fábrica de elevadores Otis, durante 1974 - 2016, uma ideia de absoluta esquerda a invocar os fracassos de Torres Bela.

 

Quando a austeridade avança ameaçando postos de trabalho, os trabalhadores tomam conta da fábrica, expulsando os seus patrões e operando através de didactismo. O "Nada" do título, é essa espera que intervala entre o “golpe de estado” e o fim do sonho esquerdista, bem como a discussão política, um avante anti-capitalista que resulta na própria consolidação com o movimento globalizado. Pinho trabalha essas ideias dando-nos um cinema que, acima de tudo, é um próprio experimento, incutindo a ficção como uma anestésica perspectiva quase mundana a uma ciência que muitos parecem evitar - a política. Sim, A Fábrica do Nada é para além de mais, um filme politizado que aposta numa duo-linguagem para a difusão da sua própria mensagem.

 

É a docuficção, como Portugal sabe muito bem fazer, em que cada caminho serve-nos como um atalho (a ficção) ou o prolongado e completo (documentário). Em certas alturas, Pinho inspira-se em Miguel Gomes para incutir a sua veia de crítica, não por vias da sátira, mas na objectividade das suas imagens. De tal forma que A Fábrica do Nada espelha uma breve história dos gestos políticos que assombram a nossa Nação, do outro lado ele resume as tendências cinematográficas do nosso panorama recente, inclusive a nossa persistência em reter as memórias em forma de imagens. É como se a película (neste caso o digital) conservasse e servisse de uma extensa voz para estes silenciados.

 

O final não é eterno, mas terno, é a declaração que esperávamos imensamente no nosso Cinema, a vontade de falar politica, politizar-se, sem se definir por uma esquerda, por uma direita, por um centro, ou qualquer outro lado. Fala-nos de experiências, mas nunca de posições, nem de oposições. Apesar dos eventuais discursos resultarem em impasses de uma linguagem mais directa e menos cientificada (tal como acontecera no anterior A Cidade e as Trocas, Pedro Pinho receia o desperdício na selecção de imagens), A Fábrica do Nada é um filme obrigatório para qualquer português, e não só … Uma obra dedicada e envolvente.

 

Filme visualizado na 49ª Quinzena de Realizadores de Cannes

 

Real.: Pedro Pinho / Int.: Carla Galvão, Dinis Gomes, Américo Silva

 

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:22
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Encontro de Irmãos!

 

O percurso dos irmãos Safdie leva-nos aos imprevistos da noite, num conto que visa a violência urbana mas que nela investe o amor fraternal, uma faísca de esperança nesta corrompida desumanização que se abate entre nós. Poderia ser mais um retrato influenciado no neo-realismo ou no vérité de que derivava o anterior Heaven Knows What. Porém, ao invés disso, deparamo-nos com uma obra envolvida em ácidos, nas cores neons que tomam conta das imagens e da música techno que ecoa para nos trazer essa desesperada atmosfera. Robert Pattinson é esse peregrino, um criminoso que após um golpe falhado, resultando na detenção do seu irmão, tenta de tudo para conseguir libertá-lo.

 

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Para o bem dele, para o seu bem, e para o bem desta cidade cada mais adereçada a um oportunismo individualista, esta corrida contra o tempo (ao bom jeito das noites atribuladas de imprevistos, tais como After Hours, de Martin Scorsese), Good Time é um filme que fala sobre todos nós, mas é acima de tudo um diálogo entre os Safdie. Um intimismo, não individualista, mas colectivo. A sua relação, a sua história, as suas emoções espelhadas nos olhares desesperados de Pattinson (por sua vez a escolha de Ben Safdie a desempenhar o irmão encarcerado), como se o antigo ator de Twilight emanasse uma espécie de heterônimo de Josh [Safdie]. Novamente, o cinema desta dupla de irmãos remexe-se pela deambulação citadina, como se continuassem nesta imensa peregrinação pela selva de asfalto, sem rumo algum.

 

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Há quem aponte o efeito visual e sonoro de um agressivo videoclip minimalista e animalista, amarrado aquelas equívocas semelhanças com obras de Refn e a sua respectiva e superlativa atribuição estética, mas no seio de todo este novo tratamento, existe, com certeza, os nossos ‘“velhos” Safdie. O filme e o seu meta-filme, unidos numa só obra.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Ben & Josh Safdie / Int.: Robert Pattinson, Ben Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:04
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24.5.17

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Os Rituais da Guerra dos Sexos!

 

O que realmente falta a este novo cinema americano, é a sua destreza na provocação, é a escapatória dos moldes implantados pela indústria, mesmo que, no caso de Sofia Coppola, ela represente uma espécie de outsider do badalado cinema mercantil. The Beguilled é a quinta longa-metragem da filha do lendário realizador de The Godfather e Apocalypse Now, uma aventurosa que tem vindo a emancipar-se da sombra do seu pai e desta forma difundir a sua voz no legado cinematográfico de Hollywood.

 

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A conquista desta feita é um filme de 1971 de Don Siegel, protagonizado por Clint Eastwood, decorrida numa América mergulhada na sua Guerra Civil, onde um soldado da união, ferido, é acolhido e tratado por uma jovem rapariga sulista numa escola feminina. A referida obra espelhava uma guerra que se travava a metros do cenário da acção, uma casa onde se debatia dois lados ideológicos, assim como dois géneros em plena dominância. Contudo, bem verdade, que a versão de 1971 adquirir um rígido tom masculino, um filme sobre uma violência invisível que nos levaria, a certo ponto, à demonização da própria mulher. É aí que Sofia Coppola tem as armas perfeitas para expor a sua visão enquanto mulher. Notavelmente verificamos essa perspectiva por uma câmera focada nesta comunidade de “amazonas”, mulheres restringidas ao seu refúgio enquanto homens combatem as suas políticas. Averiguamos que o sexo masculino, por mais diferente seja a farda, continua, no seu fundo, como um ser de ambições dominantes, um verdadeiro elemento alfa em construção. Os dois filmes dialogam um com o outro nesse sentido. Porém, a versão de Coppola sai a perder num determinado ponto, é demasiado anorético.

 

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Uma hora e meia é pura velocidade, o espectador nunca consegue ter a noção de espaço nem de tempo do filme, nunca chegamos a conhecer verdadeiramente estas personagens (e aqui não se trata de mistério, é mesmo falta de ligação) e nota-se, verdadeiramente, um senso cosido do politicamente correcto. É um filme inofensivo que se quer fazer grande, mas que esquece do ainda mais óbvio, de emanar a sua própria ideologia, a capacidade de estabelecer um clima de conflito, quer interior, quer exterior. Sofia Coppola torna-se incapaz de tal coisa e o mesmo se aplica à sua relação com a violência. Os actos cometidos poderiam ter o mesmo conteúdo que uma banal conversa de café, não se vive, não se sente, não se respira, é pura automatização (ainda há quem acuse de Tarantino ter tornado tal num gesto confundível a quotidianos).

 

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Contudo, Coppola significa estética, a fotografia trabalhada e agradavelmente primitiva, a luz das velas que aquecem a mais densa escuridão (The Beguiled encontra-se no mesmo território que um Barry Lyndon), os bosques que não são mais que fronteiras para uma Guerra a acontecer longe, os canhões ouvem-se constantemente. Nesse sentido, entramos noutro atributo de The Beguiled, o som. O eco que intrusa nos diálogos das personagens, assim como os passos ocasionais que nos atribuem um plano sugestivo de espaço sonoro (pena que ela não consolide isso com a narrativa). The Beguiled é isso mesmo, uma produção construída sob adereços, sob cores e ruídos, mas o vazio acaba por reinar nesta guerra entre sexos. É pena, porque o filme de ’71 precisava do seu sexo oposto, com igual capacidade para transgredir. Longe do memorável.

 

Filme visualizado no 70o Festival de Cannes

 

Real.: Sofia Coppola / Int.: Kirsten Dunst, Nicole Kidman, Elle Fanning, Colin Farrell

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:27
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23.5.17
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Olhar de forma radiante!

 

Naomi Kawase deve pensar que fazer Cinema é o mesmo que pastelaria, que pode abusar assim no açúcar e tratar o espectador como um diabético sob vontades suicidas. Radiance (Hikari) é o filme que precisava de mais ciência e menos emoção, até porque é fácil cair na história dos "coitadinhos" ao abordar personagens cegas e outras, como é o caso do co-protagonista (Mantarô Koichi), em contagem decrescente para o igual estado.

 

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O porquê de insinuar que falta mais cabeça e menos hinos do coração? Simples. Kawase tem ideias iniciais, tais como o cinema para invisuais onde as palavras adquirem o poder da imagem, obviamente alicerçado à imaginação, sentido apurado para muitos dos seus utentes. Depois existem os ocasionais POV (Point-of-View) que transportam o espectador para a situação vivida, transmitindo um tormento de impossível compreensão para quem ainda possui todas as capacidades de visão.

 

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Infelizmente, essas ideias são descartadas porque a nossa realizadora está desesperada em emocionar o espectador, em utilizar a música como uma linguagem manipulativa, de orquestrar protagonistas de fraco desenvolvimento (mesmo assim, há que reconhecer o esforço e a sensibilidade da actriz Ayame Misaki) ou de "castigar-nos" com os milésimos pores do sol, simbolismos baratos e cores quentes com objectivos "kamikazes" para o nosso coração. Não, a emoção não se força. A emoção é algo vivenciado naturalmente.

 

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Naomi Kawase confundiu então o poder das imagens e da sonoplastia (essa riqueza sensorial que o Cinema nos pode oferecer), confundiu as personagens e as suas desesperadas situações e, pior, confundiu o tom meloso que nunca desgruda de nós. Diríamos penoso? Não é bem isso, mas sim sobrelimitado à sua ideia de cinema. E infelizmente as ideias ficaram à porta e dela nos acenaram: um filme falhado e demasiado radiante.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Naomi Kawase / Int.: Tatsuya Fuji, Mantarô Koichi, Ayame Misaki

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:48
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22.5.17

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E viveram felizes para sempre …

 

Happy End (Final Feliz) será que vamos acreditar? Michael Haneke não é dotado de finais felizes, mas quem é que realmente quer saber disso? O "final" não funciona como um juízo, uma redenção, nem uma recompensa moral. Nem sequer existe tal coisa que é um "final feliz". A morte encarrega-se disso, e o tempo é apenas o argumento para este persistir. Mas é no referido "final feliz" que a piada reside, de um humor negro e absolutamente mórbido.

 

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Há que entender que Haneke é um manipulador, um dos maiores manipuladores do cinema, sem querer persistir que existe um tom traiçoeiro, um engano. Não, quem se sentirá provavelmente traído são as suas personagens, condenadas a respirar neste universo tão hanekianoHappy End é talvez, antes de mais, um filme que consolida esse mesmo Universo, essa carreira de emoções fortes e incómodos constantes. Filmado em Calais, o filme assume-se como um conto de burguesia tão próxima da soap opera, mas até aqui somos enganados. As personagens que se concentram nas suas tramas são violentamente atiradas ao grande abismo, esse que as levará a uma "bolha", a um isolamento, uma quarentena. A burguesia, assim descrevendo, as classes sociais que o cinema francês sempre adorou retratar, e as diferenças, veiculadas em flashes de quotidiano.

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Sim, Michael Haneke levou Happy End para Calais, a cidade francesa mundialmente conhecida pelo problema dos fluxos migratórios. Todavia, não se trata de um filme de refugiados, quer dizer, não nesse ponto de vista. Os refugiados são outros, a família, que se refugia, cada um à sua maneira, nos seus mundos, nas tramas que tentam orquestrar com tamanha plenitude. Eles isolam-se, criam e mantêm um ecossistema de aparências, de sustentabilidade, mas novamente, são enganados. Haneke ... Haneke ... o que andas realmente a fazer?

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Neste universo é claro, a prisão tecnológica que arranca de um jeito tão cúmplice, o uso das novas plataformas audiovisuais leva-nos à memória de Caché, e a imponentes testemunhas que nos tornamos guiam-nos directamente para os pesadelos vividos de Funny Games. Sim, as redes sociais, a partilha online, os smartphones e todas as possibilidades que nos prendem num autêntico calabouço. Tornamo-nos psicopatas, as nossas personagens tornam-se psicopatas e o espectador também. Este último contido, impedido pela câmara de Haneke que silencia os diálogos à distância, coloca-nos a léguas da acção, imponentes, indefesos, tornamo-nos assim as personagens.

 

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Meticulosamente, Haneke vai construído o seu ambiente, uma atmosfera de iminente catástrofe. Sentimos isso, essa faca aguçada que nos ameaça. Somente ameaça. E é então que chegamos às festas; a primeira ao som de um angelical violino e um discurso de boas-vindas pela nossa Isabelle Huppert; somos convidados a um cruzar de olhares, a um clima de suspeita, ao nascer de um "monstro", a relações proibidas secretamente vividas no ar, às conversas soltas que nos confundem mais e mais. Saímos a meio, e partimos para outro festejo. O caos já é elevado, as consequências são fatais, fazemos corar as implantações de Luis Buñuel, os burgueses "estão em maus lençóis".

 

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Haneke fala de violência calmamente, mas de forma dolorosa. É como Amour (este filme bem poderia funcionar como uma sequela vistos os "easters eggs"), tecido frágil e de instintos imprevisíveis. Este é o filme que nos compreende e ao mesmo tempo nos interroga sobre a nossa natureza. A burguesia é uma piada, mas sem o seu final feliz.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Michael Haneke / Int.: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Toby Jones, Franz Rogowski

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 23:54
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Que a caça comece!

 

Yorgos Lanthimos incomoda, tira-nos o chão das nossas morais, desafia o politicamente correto e sob o jeito meticuloso e calculista conduz o espectador numa viagem para o além sentido. The Killing of a Sacred Deer é um filme frio, na sua teoria, onde as personagens, como é hábito na sua filmografia, comportam-se de forma mecanizada, operadas por um texto que não lhes condiz e movimentando planejadamente cada gesto.

 

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Mas ao contrário do anterior The Lobster, a nova aventura de Lanthimos adquire um surpreendente sentimento de frivolidade colmatada, as personagens tentam gradualmente sair dos seus velcros, sonham alcançar a humanidade não reconhecida dos seus “bonecos”, até porque o realizador opera como um psicopata, psicologicamente falando, conhecendo as barreiras das éticas ocidentais e mesmo assim transpondo-as de livre vontade. Verdade seja dita, The Killing of a Sacred Deer não está longe do território do cinema de terror, muita vezes desafiante nessas questões morais, mas não estamos a referir um filme de terror, estamos a falar de uma estranha distopia de Lanthimos - não outra sociedade alternativa, e sim, a nossa realidade onde um elemento “alienígena”, algo impróprio, parece criar as suas raízes.

 

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Tudo começa com um cardiologista (Colin Farrell), de família feita (esposa e dois filhos), que visita constantemente o filho de um falecido paciente seu, provavelmente culpado pela sua morte. O rapaz apresenta traumas psicológicos, o espectador fica na dúvida quanto a esses mesmos tormentos, até porque os maneirismos anormais confundem-se com a “normalidade” a la Lanthimos (e do sempre colaborador argumentista Efthymis Filippou). Contudo, chega o momento em que percebemos que estes ciclos pretendidos corrompem-se quando o cardiologista é ameaçado por uma escolha. A escolha que o fará redefinir novamente como humano sentimental, ou talvez expondo a sua frieza no seu estado mais puro e esterilizado. Sim, essa escolha, essa difícil escolha requer na morte de um ente querido, e apenas ele terá que anunciar a sua mesma morte.

 

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Lanthimos continua com o seu estilo obcecado pela estética. Esta, limpa e mecanizada, uma banda sonora esquizofrênica (entre o rompante e minimalista, a condizer com o espírito do filme), personagens atípicas e aparentemente sem sopro de vidas, reféns da sua sociedade. A inovação de Killing of a Sacred Deer advém desse gradual rompimento com as suas próprias regras, conservando ainda o seu modo de provocar de maneira subtil, mas enganosamente explosiva o público. A vingança confrontada sob outra perspectiva e uma atormentada Nicole Kidman são os tiros certeiros para a morte deste “veado sagrado”.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Yorgos Lanthimos / Int.: Nicole Kidman, Colin Farrell, Barry Keoghan, Alicia Silverstone

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 12:31
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21.5.17

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Um musical que canta sem intenções de encantar!

 

Bruno Dumont não acredita em musicais e reflete isso nesta sua nova criação – Jeannette, l'enfance de Jeanne d'Arc – a musicada juventude da mais amada das heroínas de França, onde o absurdismo do género torna-se num veículo de provocação. Já vimos tais tons a serem experimentados nas suas duas últimas obras (Ma Loute, P'tit Quinquin), mas até agora nunca tínhamos sentimos tamanha heresia em ridicularizar um género.

 

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Diríamos antes que Jeannette é um anti-género, uma blasfémia aos musicais. Aqui, os não-actores fazem o melhor que podem nas suas cantorias. Dumont afirmou que nada fora filmado em playback, tudo é verídico, as vozes desafinadas, ou simplesmente ausentes de dotes musicais, as coreografias atípicas, algo entre o estilo metaleiro e do frenético trance, as questões religiosas discursadas com uma extrema opacidade e uma deselegância de toda esta natureza musical ilustrada num cenário apenas, citando constantemente o seu anterior filme (Ma Loute).

 

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Jeannette é o Je vous salue, Marie, uma afronta ao sagrado, a desmistificação do estabelecido, a prece de Joana D'Arc (Jeanne Voisin) cuja divindade que apela encontra-se do outro lado da tela, quebrando a "virginal" quarta barreira para nos trazer o mais mortal dos deuses – o espectador. Por outro lado, a comédia involuntária aqui exposta tem o seu quê de voluntarismo. É a História relatada como um experimento e não uma rigorosa reconstituição. É a coragem de ser ridicularizado, por ele próprio.

 

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Talvez seja esta a obra mais desafiante da carreira do realizador, e a mais inacessível. A resposta que precisávamos da ilusão onírica tão presente no género, aos "La La Land" que perpetuam uma memória cinematográfica, Jeannette responde destruindo todo esse legado, rabiscando e delineando a partir do zero. Vai ser difícil recuperar o fôlego para futuras incursões musicais depois disto, e muito mais a forma que olharemos para Joan D'Arc no cinema, heroína tão celebrada em importantes trabalhos como os de Dryer, Breeson e até (porque não) Besson.

Filme visualizado na 49o Quinzena dos Realizadores de Cannes


Real.: Bruno Dumont / Int.: Lise Leplat Prudhomme , Jeanne Voisin

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:42
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19.5.17

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Amantes inconstantes!

 

A esta altura, perguntamos sinceramente até quando terminará a dita trilogia dos Amantes. É que mesmo sob essa desculpa, Philippe Garrel não tem rigorosamente mais nada para nos dizer. É a triste realidade, mas o seu novo filme L'Amant d'un jour (Amante por um Dia) é a resposta às suas limitações, quer criativas, quer, acima de tudo, ideológicas. Ciúme (La Jelousie) levou-nos a crer que essa mesma barreira criativa era possível existir na carreira do autor, enquanto que A Sombra das Mulheres (L'Ombre de Femmes), que representava um refrescante sopro, ficou-se pelo impasse ideológico.

 

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Este L'Amant' sofre dos dois males: primeiro pela falta de personalidade, visto que voltamos às cores monocromáticas, à edição angustiante (onde cada plano não tem a sua necessária expiração) e aos casais rompidos pelo adultério. Quanto ao segundo ponto, a ideologia de um burguês do arco-da-velha que discursa liberalmente uma espécie de poligamia secreta, pois, tudo contado no feminino para não sofrer com eventuais acusações de misoginia. Nesses termos, Garrel parece engraçar com a causa feminista, o direito das mulheres "perseguirem" as suas fantasias sexuais, os seus desejos instantâneos pela luxúria, o que mostra ser um avanço curioso frente à glorificação sentimentalista de As Sombras das Mulheres (a confundir sensibilidade com feminismo).

 

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Mas L'Amant' é mesmo assim uma pretensão, uma máscara na qual Garrel se esconde, de forma a escapar aos seus fantasmas, os quais que de alguma forma o alcançam. Assim, somos confrontados com um terceiro ato completamente previsível, "garrelianamente" falando. Afinal, a libertação sexual era uma fraude, pois o homem torna-se um elemento em sofrimento sem razão (por incentivo seu) e a mulher caí nas "boas graças" da praça pública.

 

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Fácil ceder-se a reacções primitivas e de pura misoginia por aqui. Está no nosso sangue! Como está no sangue de Garrel. Existem realizadores que nunca deveriam filmar um filme por ano: o prolifico não é sinónimo de qualidade e Garrel prova isso, sendo um autor que vai sobrevivendo à custa do seu estatuto.

 

Filme visualizado na 49º Quinzena de Realizadores

 

Real.: Philippe Garrel / Int.: Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
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19.5.17

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Um porquinho chamado … Netflix!

 

Balde de água fria! Okja não é mais que um produto que se joga sobre competências industriais para captar um cinema apto para todos, e não o oposto (nada contra o acessível, mas filmes que forçam para isso é outra história). É o modelo de filme familiar acasalado com um negro panfleto da PETA, a alternativa dispendiosa de uns "cowspiracy". Contra o consumo excessivo de carne, subsequente os questionáveis processos de criação em massa, uma campanha green servida de propósito para a Netflix.

 

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A plataforma, agora virada em produtora, ambiciona um tom de cinismo a toda esta obra de gado mutante e de civilização “selvagem”, e para isso contratam Bong Joon Ho, que à imagem do seu anterior Snowpiercer consegue invocar tamanha sensação de “máscara” logo nos créditos iniciais. Mas visto que falamos de um realizador habituado a criaturas digitais (basta relembrar a sua variação kaiju em The Host), Okja aposta forte e feio no seu animal computorizado, cuja intenção não é mais que construir um vínculo emocional entre este suíno-hipopótamo com a jovem Seo-Hyun Ahn, e assim, sucessivamente com o espectador (numa grotesca réplica da matriz Disney). Ligação essa que se remeterá como o objectivo priorizado de uma aventura em modo veloz e furioso.

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Uma produção a cumprir agenda, com toques de clara minimização de um ambiente pesado que, porventura, irá surgir num terceiro ato, aqui o fantástico culminado pelos avanços tecnológicos a servir de protótipos do nosso quotidiano e parabolizá-lo em contornos apocalípticos. Contudo, Okja é um filme maniqueísta, aborda questões, mas não possui a tamanha coragem para contrair uma ambiguidade, o resultado é iminente, mesmo com uma simulação de PETA em jeito caricatural, é a sua miopia que nos leva a lugares sem saída possível.

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Diríamos antes, que Okja é a Maria Antonieta dos filmes, confrontada com a fome mundial e a sobrepopulação (uma situação que parece ninguém querer arranjar uma solução), manda-nos literalmente comer “ervinhas”. Falta o outro lado, e para este filme de Boong Joon Ho falta a convicção da sua palavra! Sobra com isso Tilda Swinton, a nossa pitoresca sem medo de se humilhar.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Bong Joon Ho / Int.: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Jake Gylenhaal, Lily Collins

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:26
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Rostos na paisagem!

 

Visage, Villages nasceu da admiração mútua e correspondida entre dois artistas de meios transversais, que unem esforços por uma causa conjunta. Essa, a de encontrar os limites simbólicos das imagens, ou a latência das memórias que parecem assombrar os locais visitados pela dupla. De um lado, Agnès Varda, um dos nomes maiores da nouvelle vague, reconhece as fotografias do seu parceiro como uma declaração de humanidade captada, e do outro lado, a mente fotográfica de JR a citar na perfeição os frames da filmografia de Varda, constituindo-as como inspirações do seu prestigiado trabalho.

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É uma viagem turística, podemos assim chamar, as missões que assinam com tamanha motivação, e a cumplicidade que se deixa transparecer, consolidando as divergências artísticas de ambos. Mesmo que Visage, Villages seja um filme sobre dois olhares, erguido com o trabalho de quatro mãos, é em Vardas que o projeto se aprofunda e reside. Será isto a sequela, de alguma forma o esperávamos, de As Praias de Varda, aquele anúncio de reforma que não se cumpriu?

 

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Podemos apostar que sim, a realizadora interioriza a sua carreira, da mesma forma que exorciza a sua vida pessoal e afetiva durante uma demanda apimentada com um contagioso humor. Sim, experiência pessoal, se não fosse o facto de JR relembrar-lhe um fantasma de um Godard em “verdes anos”. A sombra de uma relação corrompida e a possessão da nostalgia. Nunca voltes ao lugar onde foste feliz. Varda, porém, como qualquer rebelde que se preze, despreza a “lição moral” e o resultado fica à vista num esperado encontro, burlado à última hora. Nos olhos da realizadora belga nota-se a emoção, a tristeza, a compaixão, o sofrimento de reviver sentimentos vividos num passado cada vez mais longínquo.

 

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Aqui, percebemos o verdadeiro propósito deste ensaio de artes, a linguagem das imagens e a sua força, portais infinitos apenas possíveis através do uso da nossa imaginação, aliás foi assim que Varda respondeu quando lhe perguntaram o porque desta demanda em ilustrar a paisagem. Um pequeno grande filme.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Agnès Varda, JR / Int.: Agnès Varda, JR

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:54
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18.5.17

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Escapar não … esconder!

 

Queria dizer isto devagarinho, de forma a atenuar qualquer indício de hostilidade, mas não consigo, peço desculpas aos mais susceptíveis desde já… Bem, aqui vai. O filme Por Onde Escapam as Palavras faria melhor figura, se não deixasse escapar somente as palavras, mas sim se deixasse escapar inteiramente de todos nós. Porque não precisávamos de ver isto.

 

Eis um lixo, visto do ponto vista criativo, artístico, sociológico e mercantil. Uma comédia involuntária que nos remete ao pior que o cinema português possui: a falta de ideias, e, pior, a falta de ideias de cinema. Não é por questões monetárias que a criatividade e a coerência, têm de se ver descartadas. Pelo contrário, por vezes é sobre esse signo de apertos financeiros e outras limitações que nascem… eureka!… as ideias. Mas este projecto de Luís Albuquerque é uma omelete sem ovos, de um oportunismo que dói no que requer a citar o “terror islâmico” para nos oferecer um mau pastiche de auto-ajuda emocional.

 

O argumento, meus amigos, é ele próprio um verdadeiro atentado terrorista. Não acreditam? Vejamos a seguinte situação: um pai, cuja filha foi vítima de um ataque de fazer relembrar os trágicos episódios do Bataclan (Paris, 2015) persegue um dos autores do mesmo. Eis senão que nosso herói encontra o desprezível vilão barricado num antigo edifício, cercado pela competentíssima polícia. Tiros são trocados entre as duas parcelas, um violento duelo entre as autoridades e o perigoso terrorista ilustra o grande ecrã, enquanto a emoção aumenta no espectador pela incerteza do desfecho. "Sendo o nosso protagonista um mero e vulgar cidadão, como conseguirá ele entrar no edifício?", pensamos sem aguentarmos tamanho suspense (peço ao leitor que avalie todas as opções possíveis, use a imaginação, para então seguir com a revelação). Ah, “bonita” revelação desta mente elucidada que é o nosso herói! A personagem entra na dita batalha campal usando... as traseiras. Sim, simplesmente abrindo uma porta descoberta, sem quaisquer vestígios de seguranças! E isto é apenas um exemplo! Um!

 

Por onde Escapam as Palavras é um palavroso e amador filme, que nos apresenta 90 minutos da pior espécie, desde um enredo cosido e mal escrito, uma estrutura académica (mas, vá lá, de um academismo de quem saiu duma escola de cinema) até a um elenco ruinoso, onde cada actor é pior que o anterior. Sabemos que com a vinda do digital, qualquer um pode fazer cinema, mas fazê-lo não aplica apenas a vontade. Há que possuir o talento, a forma e a ideologia. Luís Albuquerque não possui nem uma coisa, nem nenhuma das outras, o que faz desta obra somente mais um "pecado fatal" [ler crítica] neste nosso meio cinematográfico.

 

Peço desculpas leitores pelo meu tom agressivo, visto que não tem a culpa disto. É que, ao contrário do título do filme, as minhas palavras não somente escapam... têm mesmo um objectivo definido.

 

Real.: Luís Albuquerque / Int.: Bruno Manique, Leonor Nobre, Beatriz Dias, Isabel Girão, Tó Zé Ferreira, Miguel Babo, João Damasceno

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 16:36
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Um toque feminino …

 

Em tempos de guerra, os homens deixam as suas casas para combater. Por sua vez as mulheres residem nesses "lares destroçados", as esperadas donas de casa, mulheres de armas que sustentam as respetivas sociedades em declínio. Falamos em plena Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), é certo, onde a profissão de armas era vista como um universo totalmente masculino, e as mulheres ao cumprirem as "obrigações" sociais estabelecidas naqueles tempos negros, contribuíam indiretamente nesse mesmo cenário bélico. Elas cuidavam do património deixado, ou noutros casos, operavam no fabrico de munição (para além do auxilio no sector de enfermagem militar).

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Mas estas almas teriam que ser motivadas, e nada melhor que isso do que o Cinema (cumprindo as ideias de Lenin sobre o uso da Sétima Arte como veículo de propaganda ou difusor de uma mensagem), nestes períodos de grande aflição, a indústria virou-se completamente para o sexo feminino, revendo na importância de contar histórias sob esse signo, direta ou indiretamente. Hollywood fazia-o bem, o Reino Unido nem por isso, até porque aqui não vamos comparar indústrias, e muitos menos países e as suas posições na Segunda Grande Guerra. O Reino Unido, sobretudo Londres era constantemente bombardeados por força aérea inimiga. Uma capital reduzida aos escombros, um quotidiano que resistia diariamente para sobreviver e o Cinema que tentaria encontrar o seu propósito entre a população.

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Their Finest é esse retrato, o novo trabalho da realizadora Lone Scherfig (An Education) que empesta nesta produção dita BBC um certo olhar feminino e subversiva crítica a uma indústria dominada por um género e consenso. Infelizmente, nada disso alertou o filme a tempo de evitar os tão batidos lugares-comuns da sua sigla, assim como apostar em protagonistas fortes para conduzi-las ao poço do romance "sparkiano" (ou a "pieguice" como diz ritualmente certa personagem). Gemma Arterton é essa vítima, que dificilmente encontra carisma para enfrentar os mais temidos rivais (Sam Claffin e Bill Nighy), o primeiro ambienta o filme na camada pretendida e o segundo aposta com charme o seu personagem (o mais sólido do leque).

 

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Feitas as contas, Their Finest é um ensaio morno que sobretudo criará empatia pela sua meta-história, pelas "farpas", discretas, lançadas pela realizadora à indústria que tanto abraça, e por um leve amor ao cinema, enquanto evento social de carácter humanitário. Mas nada a impediu de se tornar em mais uma gota no oceano. Frankly, my dear, I don't give a damn...

 

Real.: Lone Scherfig / Int.: Gemma Arterton, Sam Claffin, Bill Nighy, Jack Huston, Eddie Marsan, Jeremy Irons, Henry Goodman

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:03
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17.5.17

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Os fantasmas que nos perseguem, e os "autores" também.

 

Para Arnaud Desplechin, em algumas das suas notas de recomendação, Ismael's Ghosts é um ensaio fílmico sob o olhar atento à natureza do pintor Jackson Pollocknuances e teores todos eles divergentes que se fundem, dando lugar a um só organismo, complexo, mas um só. Infelizmente, o que o realizador diz não se escreve, porque este seu novo filme, que tem a honra de abrir a 70ª edição do Festival de Cannes, é uma quimera defeituosa.

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Uma obra que não faz jus ao seu criador e que conduz o espectador a um espelho deformado que distorce todo o elo narrativo da fita. Saímos com a sensação de termos assistidos a 5 filmes diferentes, passando pelo policial com leves "piscadelas" a Le Carré, ao romance parisiense, e até ao humor involuntariamente burlesco. Infelizmente, Desplechin não desenvolve uma coluna vertebral consistente, nem sequer tenta transvestir a palete de cores, pois nenhum dos tons se mistura verdadeiramente. O que este se dispõe é, através dos mais variados lugares-comuns, a apresentar um elenco francês all-star, onde nenhum deles verdadeiramente entrega, para além dos seus reconhecidíssimos egos, um filme que não esteja em pleno estado de malabarismo, não seja pretensioso e igualmente despersonalizado.

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Pollock tinha personalidade, aliás, tal talento é reconhecido nas suas mais variadas pinturas expressionistas, e em todo o caso era um artista em constante face de superação. Desplechin não. Ele é um burguês que explicita cinema burguês sem nada de novo para embicar com o vento. Do mesmo jeito que usufrui das transposições para trazer um artificialismo visual (talvez o melhor que o filme tem para oferecer), ou da oportunidade que tem para citar Bob Dylan e o seu It Ain't me baby. Bem, como alguém já dizia ... peças separadas, sem conexão, nem infusão. Será este o pior filme de Desplechin?

 

Filme de abertura do 70º Festival de Cannes

 

Real.: Arnaud Desplechin / Int.: Mathieu Amalric, Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel, Alba Rohrwacher

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 16:05
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10.5.17

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Camelot já não é o que era!

 

A Espada era a Lei, mas nas mãos de Guy Ritchie só vemos a desordem. Eis um tratamento puramente estilístico da velha história de espadas cravadas em rochas, senhoras do lago e magos repletos de profecias que esbarrou com o tom caótico do realizador britânico. Nesse sentido, é difícil não assumir que estamos perante um filme da sua autoria: os slows vaivém, as lutas corpo-a-corpo e os voluntariamente atrapalhados planos de golpes sob a consciência do gallows humour, tendem em marcar posição na enésima narrativa de A a B com “escolhidos” pelo caminho e uma narrativa despedaçada pelo constante “fast forward”.

 

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O que funcionou em Sherlock Holmes falha redondamente nesta jornada a Camelot, uma obra aplicadíssima às temáticas e linguagem dos modelos de entretenimento actual, contraindo uma estrutura endereçada aos videojogos (depois deles invejarem o Cinema, é a vez deste último cobiçar a plataforma do primeiro). Convém dizer que Charlie Hunnam (que encontrou melhor sorte em The Lost City of Z, de James Gray) não é certamente o nosso tão procurado monarca, nem sequer um herói com que devidamente nos preocuparíamos, onde é evidente a sua falta de carisma. O resto da equipa, estes cavaleiros da távola redonda, é pura e dispensável palha para contribuir para duas horas de vazio; histórias mais antigas que o tempo e que mesmo assim, não se assumem expiradas. Guy Ritchie fracassa e com essa sua incapacidade desperdiça uma aventura que salienta uma preocupante falta de ideias.

 

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Quando é que Hollywood vai aprender a lição? Ou melhor, quando é que vão terminar estas ditas produções suicidas? Não estará o espectador cansado destas sofisticações que não são mais do que mofo cinematográfico? Sendo assim, mais vale seguir os conselhos dos Monty Python na busca pelo Cálice Sagrado: “On second thought, let’s not go to Camelot, ‘tis a silly place” (Pensando melhor, não vamos para Camelot, é um sítio parvo).

 

Real.: Guy Ritchie / Int.: Charlie Hunnan, Jude Law, Astrid Bergès-Frisbey, Djimon Hounsou, Eric Bana

 

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3/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:02
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9.5.17

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Haja "peito" para isto tudo!

 

O regresso dos xenomorfos ao Cinema após a decepção generalizada que foi Prometheus (das poucas vezes que Ridley Scott teve uma ideia) faz-me recordar uma certa frase de J.K. Simmons no filme Whiplash, de Damien Chazelle: "There are no two words in the English language more harmful than "good job"" (não há palavras mais prejudiciais que 'bom trabalho'). Tudo isto para confirmar o que muitos gostariam de ouvir. Sim, Alien: Covenant é competente … e daí? Que medo é esse de sair dos aceites parâmetros gustativos do público e o de nunca conseguir transgredir a sua forma?

 

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Ridley Scott já não toma riscos, tudo é viável para rentabilização. Nesse aspecto, basta seguir essas tendências que se encontram tão penetradas na indústria actual. Não é novidade nenhuma que Alien Blade Runner decorrem no mesmo universo, como também não é spoiler afirmar que se encontra a ser preparado uma vastidão de crossovers a esta nova mina. Covenant vem polvilhar essa certeza, com impasses à matança esperada por reflexões “dickeanas” da inteligência artificial e da condição humana. É Blade Runner sim, disfarçado de “lobo”, neste caso, de xenomorfo para consolidar as duas legiões de fãs para uma massa de respeito. A sequência inicial é a prova disso, ligando não só estes dois filmes incontornáveis na carreira de Scott, mas também deixando a ideia de que Prometheus não foi um tiro no escuro. Esta dita “filosofia” tão emprestada de Philip K. Dick leva-nos certamente a caminhos que percorremos com agrado, não muitos profundos nem complexos, mas sim, provocadores e incentivantes.

 

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O resto … bem o resto … vem por acréscimo. Eis o enésimo episódio de parasitas, planetas remotos (mas mortíferos) e um passageiro indesejável que tão bem conhecemos. O filme é sobretudo esterilizado e limpo, com um gore imenso e igualmente discreto, e por fim os lugares-comuns novamente a persistirem (Ellen Ripley era única, pelos vistos), com direito ao mais falhado dos twists finais das recentes grandes produções. Todavia, o mais irritante disto tudo são mesmos os clichés voluntariamente invocados, uma Lei de Murphy ao quadrado seguindo as instruções da famosa frase de Edmund Burke: “The only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing” (a única coisa que faz o mal triunfar é quando homens bens nada o façam para impedir), neste caso, basta um bando de incompetentes.

 

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Alien converteu-se assim num franchise reavivado, pronto a ser explorado, e a ser sodomizado pelo sapateiro que se tornou este Ridley Scott. Sim, a saga respira bem, e nem sempre isso é uma coisa boa.

 

Real.: Ridley Scott / Int.: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Carmen Ejogo, Danny McBride, Demián Bichir, Callie Hernandez

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 18:53
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6.5.17

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O desejo de ser o Nada!

 

Eis o magnetismo quase xamânico que o deserto do Arizona parece emanar no Cinema, e não só (assim de repente, recordamos as desventuras alucinogénias do vocalista dos The Doors, Jim Morrison, imagem eternizada pela cinebiografia de Oliver Stone). Aquela força inspiradora que funde as personagens com a aridez do cenário. Um espaço de reflexão existencial, um marco onde as road trips se encruzilham com os vínculos interiores. É a cénica que fala, e cuja oralidade “silenciosa” sobressai, mais do que os dilemas dos seus peregrinos.

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Em Fade into Nothing, a estreia de Pedro Maia nas longas-metragens, longe se está de fugir a tal destino. Um destino que encontramos em territórios já pisados por Wim Wenders e do seu mentor Nicholas Ray, essa paixão pelo correr contra o tempo e do deserto que constantemente invoca um prolongado transe. Sim, esta colaboração do realizador com Rita Lino (direcção artística e fotográfica) e com o artista Paulo Furtado, mais conhecido entre nós como The Legendary Tigerman, que executa de forma espirituosa a este enésimo conto de uma procura existencial em terras californianas, nada faz de diferente.

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Contudo, aqui não se trata de reencontrar ou encontrar o ser interior, ao invés disso é-nos apresentado uma ambiciosa jornada pelo nada, a conversão de um indivíduo cheio de palavras, sonhos, projectos, experiências, todo um recheio que no fim reduzir-se-á a isso mesmo - nada. Abaixo do número unitário e do individuo propriamente dito. Um percurso musicado, filmado como um diário sob o formato de 16mm, como um found footage de um pretendido vazio.

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O nada do filme, é um estado de alma, uma etapa alcançada com a ajuda de estupefacientes, um exercício mental em prol de um transe sem objectivo. Fade into Nothing revela essa mesma fase, um experimentalismo reduzido ao vazio, um vácuo de palavras feitas e desfeitas num ápice, a pretensão do ensaio visual e a performance como estado emotivo de um filme que se joga em território sensorial (há uma tendência quase jodorowskiana em todo este retrato), e não na incutida sobriedade. Certamente, não será Fade into Nothing, o filme que “salvará” o cinema português, mas aí questionamos, precisará o nosso cinema ser salvo? Muito menos por um filme que invoca o nada como a sua arte?

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Pedro Maia / Int.: Paulo Furtado, Rita Lino

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:52
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5.5.17

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Só pode ser praxe!

 

Um filme português sobre praxes universitárias? Há certamente um fantasma entre nós, um espectro de uma tragédia que persegue esta contracultura universitária e do seu referido ritual de iniciação como de aprovação. Contudo, esse mesmo “testemunho” poderá dormir descansado, até porque Miguel Clara Vasconcelos não está aqui para fazer uma afronta a tais ciclos “tribais” nem um tributo ao infortúnio evento, realçado pela opinião pública e pelos medias.

 

Encontro Silencioso é uma obra sobre silêncios, e é nesses silêncios que encontramos a grande incapacidade do seu realizador, a sua passividade e a sua mudez. Se a intenção não era fazer uma crítica, muito menos será em atribuir uma personalidade distinta a esta “sociedade secreta”. O que aconteceu foi exactamente o previsto de muitas das novas gerações de realizadores portugueses, a vontade de integrar o mesmo espaço que os demais, os veteranos e inspirações, ao invés de encontrar a sua divergente e particular voz.

 

Nesse aspecto, Miguel Clara Vasconcelos é um mero estudante, um aluno aplicado subjugado a uma intensa praxe, o que resultou na moldagem de um ser homónimo, fascinado pelas coisas que outros amaram e que continuarão a amar. A vontade de abraçar a mise-en-scène como o núcleo essencial da cinematografia, expor a teatralidade, não somente nos desempenhos, mas na forma como constrói e desconstrói esse bando de ritualidades, e por fim, perder-se em espaços temporais, silêncios intermédios e na procura vazia pelo igual vazio.

 

Tínhamos tema? Tínhamos, mas o realizador, que passa agora do documental para a ficção, apenas o “agarrou” com uma luva de latex, fugindo da toxicidade e da sujidade que porventura poderia remexer. Pena que tudo seja resumido a isto, um local remoto apenas presenciado por pessoas remotas, sem ligações com o exterior e um realizador com provas de talento, mas sem a devida integração interior. Este foi o filme da praxe, sendo assim, que venha então uma verdadeira mostra de capacidades.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Miguel Clara Vasconcelos / Int.: Ágata Pinho, Alexander David

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:01
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A sobrenaturalidade é o novo realismo!

 

Sem querer entrar no território do spoiler, até porque o filme dispõe de certa forma um plot twist que dissipa por fim toda a atmosfera de uma prenunciada catástrofe. Elon, a personagem, é um homem sob uma completa face de negação, que após o desaparecimento repentino da sua mulher, decide procurá-la nos mais prováveis recantos da sua existência. Uma busca ao tentar encontrar a sua amada, que gradualmente o faz desencontrar-se de si próprio.

 

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A câmara segue de forma persistente o actor Rômulo Braga nestas suas andanças malparadas. O espectador é uma testemunha invisível, silenciosa e completamente impotente face aos destinos elididos estampados no grande ecrã. Existe aqui neste registo quase existencial, uma busca e ao mesmo tempo uma voluntária perda do nosso protagonista à realidade que se identifica. Assistimos assim à sua corrupção gradual e aos trilhos que contrapõem o óbvio. Tecnicamente, Elon Não Acredita na Morte é um filme desencantado, regendo-se pelas leis do naturalismo quase neorrealista, as tendências de um cinema ficcional que abraça esse realismo com tamanho afinco.

 

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Elon dialoga ainda (quase esteticamente é certo) com um outro filme, desta feita português, São Jorge, de Marcos Martins. Ambos abordam um certo inferno social, um ambiente precário de vestes cinzas e o sorriso como uma miragem lendária. São filmes que falam de tempos negros, pessimistas, condenados à solidão individual (o biótopo perfeito de um decadente bovarismo) e cada um à sua maneira exorcizam essa mesma "negritude". No caso de Elon, o território é bem outro, parece um misticismo herdado dos antepassados amazónicos, dessas lendas que coabitam com a História brasileira. Se não isso, como explicar a cada vez maior recorrência ao sobrenaturalismo como um novo realismo?

 

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Já vimos tal explorar num Aquarius (por exemplo), e sob o signo do Indielisboa, no não conciso Mata-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira. O cinema brasileiro recente tem coligado a esse passado cinematográfico, que por sua vez são as crenças e a eterna fobia ao mundo dos mortos que sujeitam essas mesmas temáticas (por mais reais que sejam). Será um escape, uma alternativa para "sujar" esse quadro de realismo "perfeito"? A verdade é que Elon vence a muitas outras abordagens da chamada "docuficção" por essa hibridez, uma invocação quase "mizoguchiana" desses dois mundos tão desiguais.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Ricardo Alves Jr. / Int.: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Ricardo Alves Jr.

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:15
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