Segunda-feira, 22 de Abril de 2013
22.4.13

A caça às bruxas do seculo XX!

 

Em 1995 surgiu entre nós o Dogma 95, movimento algo puritano apresentado na celebração do 100º aniversário do cinema em Odéon - Théatre de L’Europe, onde Lars Von Trier e Thomas Vinterberg (os dois cabecilhas) formulavam as regras para a concepção de produções mais realista e menos comercial. Conhecido também como voto de castidade de Dogma 95, o movimento estabelecia um padrão produtivo e de rodagem, entre os quais a ausência do nome do realizador nos genéricos, a repressão do uso de luz artificial, filtros de câmaras e cenários construídos e manipulados, sendo aceite apenas os componentes naturais em cena. Thomas Vinterberg colocou em prática as interditações e modelo desta “sociedade” com êxito no aclamado Festen – A Festa (1998), até hoje resulta no filme referente da sua carreira, Jagten é porém um descendente da castidade de Dogma 95, mesmo não seguido por completo á regra os padrões implantadas. Contudo, as influências do Dogma 95 tornaram a nova obra de Vinterberg numa incursão realista do cinema puro e primordial, tecendo um drama humano que apela á força interpretativa dos actores e não a manipulação cinematográfica.

 

 

Presente no Festival de Cannes de 2012, lado a lado com o brilhante e cru Amour de Michael Haneke, outro ensaio silencioso que gradualmente remete á emoção humana sem o requisito dos melodramas novelescos, Jagten arrecadou o prémio de interpretação do festival (Mads Mikkelsen). O actor dinamarquês compõe Lucas, um carismático professor quarentão que ensina as crianças da creche da pequena comunidade onde vive. Divorciado, Lucas tenta lutar pela custódia do filho, o que torna numa batalha complicada mas não invencível, contudo a sua vida muda drasticamente quando uma angustiada criança da creche inventa uma “mentirinha” envolto do seu órgão genital. A partir desse momento a força viral do boato cresce e sem hipóteses de julgamento ou defesa, Lucas é precocemente condenado e marginalizado pela cidade que o havia acolhido, onde os seus anteriores amigos adquirem o desejo de fazer justiça com as próprias mãos.

 

 

Jagten (The Hunt) é um filme que nos remete aos medos comuns duma sociedade moderna que mesmo assim não esquece dos seus actos mais primitivos da “caça às bruxas” usual na Idade Média, onde milhares (talvez milhões) de mulheres eram queimadas vivas sob o bode expiatório de praticar magia negra, sem direito nenhum á defesa. Thomas Vinterberg esboça assim uma sociedade brutal e “caçadora” onde a inocência aparentemente não existe. O autor complexa a ideia, que partindo do princípio de que as crianças não mentem, qualquer um pode-se tornar um alvo fácil, figura a abater de qualquer má intenção vinda delas, virando de avesso um senso comum e distorcer os parâmetros do maniqueísmo. Contudo o filme não funcionaria na perfeição sem Mads Mikkelsen, que é subtil mas ao mesmo tempo emocionalmente poderoso com o desenrolar deste “pesadelo” social. Nota-se porém que Thomas Vinterberg não vitimiza a sua personagem, recriando um homem forte mesmo em circunstâncias delicadas e frágeis.

 

 

O realizador acompanha esta jornada crua, que ganha relevância nos dias de hoje onde a pedofilia é um assunto sério que merece ser alarmado, com realismo, esquivando por completo todos os caminhos que poderia vergar Jagten para o modelo de telefilme. Discreto, mas poderoso, com um actor versátil e de garra no leme, Vinterberg demonstra as positivas tendências de um movimento algo purista mas que mesmo assim assinala o interesse nacional cinematográfico. Cinema corajoso!

 

Real.: Thomas Vinterberg / Int.: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp



 

9/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:47
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De Gustavo a 7 de Maio de 2013 às 01:52
Um filme potente, é o que tenho a dizer!!


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