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25.11.12
25.11.12

O último grande épico!


 

Hollywood os adorava porém agora são esquecidos e limitados, os grandes épicos históricos não só revelavam o fascínio do cinema pelas pisadas da Humanidade mas também são vistos como a representação perfeita da grande força que a 7º arte contém. O espirito bélico presente no campo de batalha, a honra e o sangue derramado pela espada, o impacto de escudos e armaduras, o vento que sopra entre os cabelos do guerreiro, as proclamações e os diálogos que aspiram folego poético e a tragédia que dá consistência á dramatização, elementos predilectos de um cinema que consolida poder, beleza e pretensão. Sendo trabalhos rigorosos e difíceis de concretizar, o épico histórico cinematográfico sofreu uma metamorfose que o desmantelou e o tornou numa espécie em vias de extinção, tendo em conta que o cinema ficou mais automatizado, industrializado como por vezes instantâneo (chegou a era dos “blockbusters”), obra como estas chegaram ao ponto de ser dispendiosas, demoradas em demasia para a impaciência da nova indústria cinematográfica. Passou-se recorrer a um maior uso de efeitos visuais tais como fundos verdes de fácil digitalização de cenários, ao invés de construção dos próprios, perdeu preocupação em elevar a fasquia das representações dos momentos mais bélicos e cortou-se sobretudo na duração, outrora épicos de 3 ou 4 horas são substituídos por amostra de hora de meia a fim de tornar o produto mais leve financeiramente como profissional. E tendo esses aspectos é correcto afirmar que Tróia de Wolfgang Peterson seja o último dos grandes épicos não só de Hollywood como também do cinema em geral.

 

 

A ambiciosa adaptação da mítica obra de Homero, A Ilíada, pelas mãos de Peterson, um autor alemão que deu nas vistas com a magistral obra bélica Das Boot (1981) e do um dos mais queridos filmes de fantasia juvenil, Neverending Story (1984), fez destaque na comunicação social da altura, autoproclamando como um regresso de uma Hollywood da era de ouro. Troy (o filme) conseguiu arrecadar dos produtores um orçamento de 170 milhões de dólares, confirmando a crença dos estúdios da Warner Brothers quanto a um projecto desta magnitude, o que não era em vão tendo em conta que a mesma “casa” já havia anteriormente financiado e com êxito Ridley Scott em Gladiator com Russel Crowe, sendo que o épico de Wolfgang Peterson tente de uma forma quase desesperada seguir as mesmas pegadas dessa fita vencedora do Óscar de Melhor Filme de 2001.

 

 

Da mesma forma que reconstrui o Coliseu e a cidade do Antigo Império Romano na obra de sucesso de Scott, a pelicula de Peterson recua cerca de 1000 anos antes para nos recriar a emblemática e trágica cidade de Tróia, com uma certa fidelidade artística para com a caracterização dada por Homero. Quanto á historia em si, este megalómano projecto tomou certas liberdades em invocar o realismo do conflito, por vezes sacrificando o contexto histórico em nome do espectáculo cinematográfico, o qual nisso é bem-sucedido, uma área que o próprio Wolfgang Peterson é perito. O espectador é assim apresentado a um amor proibido quase “shakespeareano” entre o príncipe Paris de Tróia (Orlando Bloom) e a rainha Helena de Esparta (Diane Kruger), tal relação desencadeia então uma guerra de tal tamanho que une os vários reinos da Grécia contra as muralhas impenetráveis de Tróia, batalha essa que nas escrituras prolongou-se por dez anos, mas que na grande tela se resume a poucos meses, com direito a trepidações narrativos e tudo.

 

 

No seio desse cenário de ambição, poder, destruição e luxuria surge um herói, Brad Pitt como o lendário Aquiles, o maior de todos os guerreiros. O actor empresta o seu corpo para desempenhar um soldado rebelde sem causa, sem pátria nem lealdade, apenas lutando em função de uma fome narcisista de glória e de obsessão para que o seu nome ecoe para toda a eternidade, uma prestação baça acompanhando por um penteado loiro quase futurista para a época em que retrata ao invés dos representativos caracóis. Todavia não é o seu empenho que funciona como o “calcanhar” de Aquiles neste tremenda “epopeia”, enquanto de um lado Peter O’Toole, esse grande senhor, reúne todas as condições para tonar o seu Príamo emocionante e carismático é Eric Bana como o “mártir” Hector que surpreende pela solidez que consegue numa personagem tão limitada no seu enredo. Brian Cox resulta como o tremendo sedento de poder Agamémnon e por fim Brendan Gleeson apresenta classe bruta como o seu congénere. Mas já que falamos em fraquezas, estas encontram-se naquilo que tinha a obrigação de ser o ponto forte de Troy, o romance entre Orlando Bloom e Diane Kruger, uma anorexia sentimental sem força nem tragédia para fazer com que o espectador se preocupe com o destino deste casal. Kruger não encontra relevância na sua personagem-chave e Orlando Bloom encontra-se na pele de uma das figuras mais cobardes do legado grego.  

 

 

Troy é destacado pelo seu esforço de produção numa época em que a indústria cinematográfica não depositava mais crença nesta espécie de projectos. Mesmo fora do seu tempo, a fita de Wolfgang Peterson resulta numa beleza visual que invoca ocasionalmente um certo sopro épico, porém encontra-se a léguas do trabalho de Ridley Scott no oscarizado Gladiator, não com esta afirmação despromova o filme em questão, mas sente-se que temos em mãos matéria-prima quase infilmável e enfraquecido no grande ecrã. Uma colecção de personagens que ascendem e caiem reformulando num desequilíbrio em diferentes frentes, uma delas é o argumento de David Benioff que faz com Troy perca lirismo, mas que tente enriquecer a si próprio com um não linear cruzamento de mito e factos históricos, ainda existem alguns buracos de logica e na contextualização narrativa que são evidentes na proximidade do final.

 

 

Demorou dois anos a ser feito e rendeu cerca de 400 milhões de dólares em todo o Mundo. Troy resultou numa fita megalómana, problemática com a sincronização dos diversos pontos, contudo mesmo com os defeitos e da decepção do material, o filme de Wolfgang Peterson merece ser visto nem que seja pelo facto de este ser um dos últimos grandes épicos norte-americanos.

 

“Immortality! Take it! It's yours!”

 

Real.: Wolfgang Peterson / Int.: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Sean Bean, Rose Byrne, Diane Kruger, Brian Cox, Brendan Gleeson, Peter O'Toole, Julie Christie, Saffron Burrows, Garrett Hedlund

 

 

 

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:13
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1 comentário:
De Gustavo a 30 de Novembro de 2012 às 19:09
Até gostei da prestação de brad pitt, o filme é um bom epico embora um pouco esquecido nos dias de hoje, como tu falas e muito bem, um genero quase desaparecido


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