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4.6.12

Um Cavalo, Um Spielberg, O Seu Cinema!

 

Até certa altura do novo milénio alguém insinuava que o Cinema iria sofrer uma crise de originalidade quer no conteúdo, quer no modelo cinematográfico, e no futuro iria facilmente recorrer às velhas glórias da idade de ouro. Não é por nada que o ano 2011 serviu de certa forma como um reviver de velhos tempos, isso verifica-se por exemplo na homenagem de cinema-mudo de Michel Hazanavicius, The Artist, que saiu glorioso na última cerimónia dos Óscares, por sua vez o lendário realizador Martin Scorsese presta consagração ao trabalho de George Méliès na sua estreia do cinema familiar, Hugo, e por último, Steven Spielberg a celebrar o seu próprio legado, confirmando as suas inspirações aos grandes épicos de David Lean e Victor Fleming na sua obra equina, War Horse, que também fez presença entre os 9 nomeados ao Óscar de Melhor Filme de 2012.

 

 

Sob a alçada da Disney, o realizador das consagradas obras de Saving The Private Ryan, Munich e Schindler’s List, e talvez o exacto criador do conceito blockbuster (até hoje existem muitos cinéfilos que não o perdoam), recria todo um conjunto de ingredientes da velha guarda do cinema hollywoodesco existente entre anos 30 e 40. Spielberg liberta os horrores da Primeira Grande Guerra, a verdade é que não é tão badalada no grande ecrã como a predecessora, mas o realizador consegue recriar de forma espectacular o horror e a podridão daquelas trincheiras, em War Horse o fio narrativo condutor é o cavalo do título, protagonista de uma intensa e única jornada épica ao reencontro com o seu dono (aviso desde já que para os amantes deste belíssimo animal quadrupede devem visualizar este filme com um pacote inteiro de lenços de papeis).

 

 

O realizador consegue aqui um ensaio emocional que só ele consegue invocar, realçando os laços entre um rapaz (Jeremy Irvine) e o seu animal, com o cenário bélico de Guerra como obstáculo para a reunião, a partir daqui temos todo o conceito de velha Hollywood e talvez a tradição da própria obra do autor. Ao contrário do recente The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, onde Steven Spielberg ao lado de Peter Jackson brincavam a tecnologia dos efeitos visuais em fusão com matéria-prima nostálgica, em War Horse, o realizador sobressai numa produção tecnicamente irrepreensível, com engenhos fotográficos que intensificam a beldade das imagens e a banda sonora de fulgor épico incansável de John Williams (em mais uma das enésimas colaborações com o “mestre”). Depois temos o trabalho narrativo, onde mais uma vez o artesão consegue encantar o seu público mais clássico com um consequente extracto da emoção da história, quer pela comovente separação do cavalo e o rapaz que tudo faz para reencontra-lo até aos horrores da Guerra das Trincheiras representado por pequenos trechos na odisseia do equino.

 

 

Infelizmente War Horse não consegue ir mais além do pequeno produto bonitinho e “bom rapaz” da indústria e da memória cinematográfica. Corre o risco de se tornar numa autoparódia da obra do autor, onde este desgasta todos os seus artefactos, tiques e truques. Mesmo sendo competente a nível interpretativo, War Horse não consegue sobressair, os personagens encontram-se presos a mero peões ou figuras simbólicas da época, além disso temos um ou outro desempenho não tão eficaz, como por exemplo Jeremy Irvine, prisioneiro da inocência da sua personagem mas ausente de credibilidade nas sequências que requerem maior emoção, caindo por vezes no histerismo.

 

 

Quase como um mosaico de personagens e adereços, Steven Spielberg consegue ainda apresentar a Hollywood, o talentoso e forte actor, Niels Arestrup (conhecido por interpretar o violento César Luciani na crua obra de Jacques Audiard, Un Prophete), que também integra uma das mais interessantes e comovente história de todo a longa-metragem. Um épico que resume a um belo produto que não irá defraudar os fãs do animal em questão ou dos clássicos do cinema, as grandes produções da era de ouro de Hollywood. Lagrimas vão correr e muito. Todavia dentro da obra de Steven Spielberg, War Horse chega mesmo a ser académico, uma homenagem sem chama para além da técnica do filme. O autor invoca o seu cinema, infelizmente os tempos mudaram.

 

“I might hate you more, but I'll never love you less.”

 

Real.: Steven Spielberg / Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, David Thewlis, Tom Hiddlestone, Niels Arestrup, David Kross, Eddie Marsan, Toby Kebbel

 

 

O Melhor – a tradição do cinema mais clássico e épico

O Pior – é uma obra muito bonita, mas ou os tempos mudaram ou tudo soa tão académico por parte do autor.

 

Recomendações – Secretariat (2010), Empire of the Sun (1987), Saving Private Ryan (1998)

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:43
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