Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
13.4.12

Por amor ao cinema!

 

Nesta última gala dos Óscares existiu uma rivalidade saudável entre duas das obras mais destacadas de 2011, porém ambas servindo de homenagem ao legado cinematográfico. Um deles foi o grande vencedor da noite, The Artist de Michel Hazanavicius, um filme que empresta continência ao cinema mudo e a sua evolução não apenas a nível narrativo mas integrando no seu tecnicismo e substancialidade, por outro lado Hugo de Martin Scorsese que mesmo sob a tecnologia da moda, o 3D, consegue servir como a mais sincera das consagrações de um dos homens incontornáveis da Historia do Cinema, George Méliès, o pioneiro de interligar o cinema com o onirismo fantástico. O chamado “pai da fantasia cinematográfica” tem na nova obra de Scorsese, baseado no livro de Brian Selznick, The Invention of Hugo Cabret, uma veneração narrativa, o elo existencial de toda a narrativa desta fita que segundo o realizador que sempre deu ao cinéfilo motivos de vida (Taxi Driver, Goodfellas e até mesmo Shutter Island), um filme para todas a idades e pessoas, porém é neste Hugo que o autor deposita todo o seu amor á sétima arte.

 

 

A história segue assim um jovem órfão, Hugo (Asa Butterfield), que vive numa estação de comboios em plena Paris, ano 1931. O nosso pequeno herói vive obcecado em reparar um antigo autómato que pertencia ao seu pai, á espera de conseguir assim receber uma mensagem do seu falecido ente. Hugo aprende a viver sobre a clandestinidade na gare, sempre perseguido pelo inspector da estação (Sacha Baron Cohen) e intrigado pelo velho lojista de brinquedos (Ben Kingsley).

 

 

Scorsese consegue recriar a capital francesa com um brilho e cores quase celestiais, conseguindo assim invocar um clima de fábula ou fantasia. Em termos técnico, Hugo é irrepreensível, profissional, vistoso mas não histérico, rogando uma ingenuidade natural e contagiante. As aventuras do órfão de Butterfield são porém interrompidas por breves palestras sobre a historia do cinema em geral, desde as primeiras amostras do cinematografo dos irmãos Lumiére, até mesmo a importância de que George Méliès teve no desenrolar do cinema como contador de historias. Até porque a imagem de um foguetão penetrando o olho da lua, uma das cenas do clássico dos clássicos “Le voyage dans la lune”, baseado numa das obras de Julio Verne (o qual A Invenção de Hugo ainda faz referencia), continua a ser uma das imagens de marca da sétima arte.

 

 

Há que admitir que de facto existe uma certa estranheza em ver Martin Scorsese a dirigir um filme com a categoria de familiar, sentindo por vezes fala daquele impulso de violência que só o autor é capaz de nos dar. Porém sente-se nervosismo em entranhar num território que não é o dele, mas é graças á sua audácia em contornar os seus tiques artísticos que faz com que Scorsese seja um realizador “em peras”. Magnifico na direcção como também no trabalho dos seus actores, arrancando carismáticas prestações do seu jovem elenco; Asa Butterfield, que se havia revelado em The Boy in the Striped Pyjamas de Mark Herman e a talentosa Chloe Moretz (ficará sempre marcada como a Hit Girl de Kick Ass de Matthew Vaughn), como também do elenco mais veterano, sendo o deslumbrante Ben Kingsley e o divertidíssimo Sacha Baron Cohen a interpretar o vilão com coração mole.

 

 

Hugo será relembrando no futuro como a passagem de um legado de um mestre para o outro, uma união entre o clássico com o moderno, a invocação dos espíritos de muitos dos homens que contribuíram para o funcionamento de uma arte que ainda hoje perdura como uma das maiores e mais influentes, mas estão porém esquecido numa geração ingrata aos seus antepassados. A fita relembrada por isto, mais do que apenas um filme para toda a família emitindo num Domingo á tarde. Pode não ser perfeito, por vezes até somos quase obrigados a gostar dele muito pelo amor ao cinema e Hugo tem muito disso para dar e vender.

 

Real.: Martin Scorsese / Int.: Asa Butterfield, Chloe Moretz, Ben Kingsley, Jude Law, Sacha Baron Cohen, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee

 

 

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The Artist (2011)

9/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:34
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De Ricky Torero a 20 de Agosto de 2012 às 02:05
Um dos filmes mais magicos estreados este ano


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