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27.3.12

O Cinema não precisa de falar!

 

Nunca um filme nos deixou tão deslocados do tempo que foi The Artist. Não se trata de mais um vislumbre do futuro da sétima arte como muitas obras vêm anunciando, mas sim uma capsula do tempo tal como Arthur Conan Doyle descreveu no seu célebre romance “Time Machine” para um dos tempos mais prematuros do cinema, o mudo e a sua evolução para os chamados “talkies” (também chamados filmes sonoros). De tamanha importância que foi estes últimos, comparativamente á importância da descoberta da roda que teve para o Homem, os sonoros definiram um novo cinema, um cinema mais competitivo, mais selectivo, mais variado e mais exigente. Porém tal como selecção natural, deixaram para trás os mudos, que foram considerados obsoletos e sem longevidade. Descrito como também um dos momentos mais cruéis do cinema, essa transposição do mudo para o falado, causou de muitas estrelas cinematográficas que recusavam a ideia de um filme com diálogos ou simplesmente e talvez ridículo, mas verdade, não possuíam talento vocal para tal, provocando desilusões nas anteriores legiões de fãs. Tornou-se um período de renovação, como também numa caça á extinção.

 

 

The Artist de Michel Hazanavicius não é um filme desse tempo, aliás é moderno demais para ter sido dirigido nessa época com tão poucos recursos, mas é uma fita que homenageia de maneira calorosa por vezes cruel a esse momento talvez negro e silencioso, sendo que por vezes comporta-se mesmo como uma retrospectiva. Em O Artista (titulo obviamente em português) se concentra na decadência de um astro do cinema mudo, George Valentin (protagonizado por um altamente expressivo Jean Dujardin), que recusa a falar, metáfora á sua participação em “talkies”. No centro dessa história com humor, romance, ternura e mesmo tragedia, está Peppy Miller (a belíssima Bérénice Bejo), uma jovem que Valentin acolhe no seio de Hollywood e que se converte numa estrela em ascensão de um novo cinema (figura com claras alusões á imortalizada actriz Audrey Hepburn). Tudo acaba por consistir num confronto entre moderno e antiquado, e como cruel e ingrato se torna essa evolução.

 

 

Sendo de premissa simples, talvez complementada com o sensacional Sunset Boulevard de Billy Wilder (1950) que retracta também a queda de uma estrela do tempo em que o cinema ainda não falava, The Artist é um reflexo, um olhar aos acontecimentos, uma fita que celebra o cinema em toda sua forma primitiva como também o condena de maneira critica mas irrepreensível. Ver esta obra fora de época é poder sentir uma arte de outros tempos, e acreditar por momentos na ingenuidade cinematográfica, mesmo sabendo que nunca tal coisa existiu. O elenco é nota dez, utilizando a expressividade exagerada como memória dos actores e actrizes que parecem ter sido apagados pela inovação (para além dos elogiados protagonistas não devemos esquecer de mencionar a fabulosa e trágica Penelope Ann Miller) , a banda sonora une o nostálgico á orquestra moderna e pomposa e o visual é uma união de reminiscências a rever.

 

 

No final caímos, cedemos e desejamos pela maior das inocências do cinema, o “happy-ending”, e por fim abraçamos este ensaio que se transformou obra, e obra que se transformou numa parte importante do cinema. Existem poucos filmes assim, e no nosso tempo referir poucos já é muito, contudo não existe dúvidas que assistir The Artist é de ficar sem palavras! O merecidíssimo vencedor do Óscar de Melhor Filme, um eterno objecto de adoração sobre o cinema propriamente dito.

 

Real.: Michel Hazanavicius / Int.: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Malcolm McDowell

 

 

10/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:08
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