Real.: David Cronenberg
Int.: Naomi Watts, Viggo Mortensen, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl
Uma jovem de 14 anos dá entrada no hospital de Londres, desesperada e grávida, foi atendida pela parteira Anna Khitrova (Naomi Watts) que conseguiu pelo menos salvar o bebé. Infelizmente a mãe não aguentou e Anna em busca de algo que pudesse identificar a jovem, encontra um diário na mala que esta levava consigo. O diário estava totalmente escrito a russo, pedindo ajuda a Semyon (Armin Mueller-Stahl), dono de um restaurante russo cuja morada estava referenciada no diário, para a traduzir. Ao completar o processo, Semyon apercebe da gravidade das situações escritas no diário e avisa Anna sobre os perigos que ele podia desencadear se ela falasse do conteúdo a alguém. Enquanto isso Anna conhece Nikolai (Viggo Mortensen), o motorista de Semyon como também um homem muito perigoso e misterioso.
O realizador David Cronenberg largou o fantástico á mais de 5 anos e iniciou uma jornada ao íntimo dos seres que habitam os seus filmes que se dão pelo nome de personagens, levando consigo um estojo de cirurgião o qual disseca almas comuns, mas cheias de histórias “quase” sobre-humanas. Jornada, essa iniciada com Spider (2002), que manifesta a loucura, A History Of Violence no inconsciente e Eastern Promises, o contraio, expõe a consciência.
Eastern Promises – Promessas Perigosas é um filme adulterado, mas apinhado de emoções (não sendo o sinonimo de lamechice) que nos apresenta de um esquema narrativo leve, mas forte em termos de imagens, derivado as cenas violentas que se vão desenrolar na história, mas sem a noção de gratuito que muitos produtos como Saw e Hostel querem-nos vender. A banda sonora a cabo de Howard Shore, em mais uma contribuição com o cinema de Cronenberg, é um bom vector de emoções transmissíveis. Para quem pensa que está perante numa visão de Cronenberg á máfia russa, quero relembrar que o realizador de A Mosca aposta integralmente nas personagens e não na comunidade e desta feita presenciamos uma nova ideia de família desde O Padrinho. Outro factor relevante de Cronenberg é nunca embarcar totalmente no passado das suas personagens, apenas dado pequenas pistas discretamente. Ao contrário de muitas outras produções, as personagens não vivem somente dos seus actos, tendo sempre uma força própria e vindoura.
Nas interpretações, em alta está Viggo Mortensen, num bem trabalhado sotaque e um irreconhecível personagem, o actor inconfundível como Aragorn da trilogia premiada de Peter Jackson, O Senhor Dos Anéis, afirma cada vez mais como um dos mais talentosos actores da actualidade e se a Academia for justa, então poderá contar com uma nomeação de Melhor Actor. Vincent Cassel também prova aqui o seu talento e desfigura das demais impressões causadas em Ocean´s Twelve, o qual ainda hoje foi o seu papel mais conhecido. No trio de actores, apenas Naomi Watts não conseguiu destacar dos demais, devido ao pouco “disfarce” que a sua personagem continha, exibindo um ego já mantido em The Ring ou até mesmo Mulholand Drive.
A obra de Cronenberg é um filme independente, mas inteiramente destinado á alma. Calmo mas com determinados repentes, emocionante e frio, Eastern Promises está destinado a ser uma das maiores obras do ano e é uma pena ser abafado pelas nossas distribuidoras portuguesas. O novo filme de David Cronenberg deve ser visto com o respeito que merece.
PS- Houve muita gente que ficou chocada com a ferocidade das cenas de violência, mas talvez muitas delas foram as mesmas que vibraram com o gore explicito de Saw.
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