O regresso de Jack Sparrow!
Verdade seja dita, um dos filmes mais divertidos de 2003 foi uma suposta estratégia de marketing para promover um parque de diversões da Disney, mas que resultou numa descomprometida e refrescante aventura o qual justifica-se o sucesso estrondoso. Falo de Pirates of the Caribbean, a fita que conseguiu reconciliar o público com o género de “filmes de piratas” (denominado também de “swashbuckler”), popular nos anos 30, 40 e 50, onde conheceu obras emblemáticas como The Sea Hawk e Captain Blood (ambos protagonizados por Errol Flynn) e The Black Swan (não confundir com o filme de Natalie Portman). Os anos 90 foram porém anos negros para este subgénero, Cutthroath Island e Waterworld resultaram em fiascos de bilheteira e repudia pelo público e crítica, fazendo com que nenhum estúdio norte-americano ousa-se em produzir mais um filme de piratas, até 2003.
Após duas sequelas que quebraram recordes de bilheteira e lançaram-se às marés do épico, os estúdios Disney e o produtor Jerry Bruckheimer não queriam desfazer assim tão facilmente do legado, por isso e mesmo com a ausência de Gore Verbinski, foi produzido a quarta aventura do pirata mais famoso do cinema, o infame e ocasionalmente heróico, Jack Sparrow (Johnny Depp).
Retoma-se á premissa que fora lançada no final de At World’s End: a fonte da Juventude, reconstitui-se o tempo histórico que marcava a disputa dos mares pelo Império Britânico e Espanhol e enche em 2 horas e meia de duração de filme todos os elementos que captam o cinema swashbruckler e a fantasia digna de uma odisseia de Homero, por isso podemos contar com temíveis piratas (incluindo o celebre Barba Negra, interpretado sinistramente por Ian McShane), zombies e até mesmo sereias, longe do estereótipo criado pela própria Disney no seu clássico animado The Little Mermaid. On Strange Tides trata-se do único filme da saga que fora baseado noutra matéria-prima, neste caso o homónimo romance de Tim Powers, onde se disputa a corrida ao encontro da Fonte da Juventude.
È o de todos o que mais se aproxima do primeiro filme, deixando de parte o background de Davy Jones e as personagens de Orlando Bloom e Keira Knigthley, desta vez focamos inteiramente em Jack Sparrow, que constitui um trunfo cómico (o seu humor físico é impagável) e de figura de acção. Em On Strange Tides, a personagem de Depp obtém a sua “cara-metade”, Angélica, interpretado por Penélope Cruz, que invoca os vários elementos do ser pirata em versão feminina, uma excelente adição para o universo de Sparrow, mesmo que não exista muita química entre ambos. O elenco é de certa forma sólido e eficaz, Geoffrey Rush é sempre um must see, Ian McShane continua a demonstrar aptidão para a vilania (neste caso devia-se chamar pirataria) e claro, Johnny Depp exibe o melhor que tanto consagrou o seu personagem, que curiosamente em 2003 contou com nomeação para o Óscar. A realização de Rob Marshall é segura, mesmo que o realizador de Nine e Chicago sirva como uma espécie de “tapa-buracos” de Gore Verbinski, sabiamente conseguiu captar toda a essência da aventura com sempre doses generosas de acção, mistério e humor.
Os únicos defeitos encontram-se na história secundária entre Philip (Sam Claflin) e Syrena (Astrid Berges-Frisbey), que marcam a vertente romântica de On Strange Tides (sim, Depp e Cruz não formam tal coisa), eles representam o amor proibido entre um devoto humano em busca da fé e uma sereia com crença nos próprios humanos. Se a ideia era boa já o desenvolvimento é decepcionante, dois personagens reduzidos a dois adereços de preencher tempo, sem grande manobra e profundidade, caindo no final na pura moralidade barata. De certa forma este novo par romântico é uma alusão aos anteriores; Orlando Bloom e Keira Knightley, uma compensação para os fãs. Outro ponto negativo, mas que vem da escolha de cada um, é o 3D, desnecessário neste tipo de produção.
Mesmo assim é de aproveitar, em tempos de calor e propícios para a praia, Pirates of the Caribbean: On Strange Tides é um puro divertimento, uma aventura que capta o espírito de The Curse of the Black Pearl, reavive a imagem de Jack Sparrow e se torna num eficiente blockbuster da temporada, para já o candidato ideal ao “arrasa-quarteirões” do ano. Juntamente com Scream 4, os quatros não desiludem!
Real.: Rob Marshall / Int.: Johnny Depp, Penelope Cruz, Geoffrey Rush, Ian McShane, Sam Claflin, Astrid Berges-Frisbey
Ver também
Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl (2003)
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