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29.7.07

 

A emancipação do Homem-Aranha no cinema?

 

Será que os filmes de super-heróis devem permanecer na divisória do marginal, do entretenimento inconsequente ou da fidelidade com a sua matéria-prima? Com Spider-Man 2 a resposta parece ser negativa, a inclusão de uma relevância das ênfases dramáticas e por fim o incutir do existencialismo que tão bem soam a estas personagens. E respondendo a David Carradine no tremendo último capitulo de Kill Bill de Tarantino, sim, existe uma ciência e teologia por detrás dos super-heróis de banda desenhada.   

 

 

Neste novo filme, Peter Parker (Tobey Maguire) sofre com uma crise de identidade, não conseguindo responder à sua figura de símbolo de justiça em Nova Iorque, Homem-Aranha, a sua vida pessoal torna-se numa confusão sem arranjo. É despedido do emprego, os estudos vão de mal a pior e a sua amada Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) está noiva do seu melhor amigo Harry Osborn, Jr. (James Franco). Todavia com o aparecimento de um novo vilão, Dr. Octopus (Alfred Molina),  Peter terá a importante decisão de qual das suas identidades terá que perfilhar.

 

 

Spider-Man não foi a primeira vez que Sam Raimi envergou no universo dos super-heróis, já o havia feito em Darkman (1990), uma experiência infeliz que mesmo assim nos dias de hoje adquiriu um certo estatuto de culto, e falando de culto, vale a pena relembrar que o realizador é detentor de alguns filmes memoráveis do cinema norte-americano, a trilogia Evil Dead ou o surpreendente A Simple Plan. Mas não caindo em divagações, Spider-Man 2 é talvez até à data o seu filme mais rentável, a formula imposta pelo próprio parece já fazer "prisioneiros", alargando as abrangências transmitidas por Bryan Singer e os seus dois X-Men. Ou seja, a inserção do marginalizado "filme de super-heróis" na própria linguagem cinematográfica, tecendo um melodrama capaz destacar face ao já batido modelo de "hero vs villan".

 

 

Depois de palpar terreno com o primeiro Spider-Man, Sam Raimi enriquece as suas personagens, os seus conflitos e transmite uma ambiguidade em todas elas. Por fim encontramos a dita "humanização" do ser vivo do comics. O enraizamento de um Universo e a imposição deste em território cinematográfico, é porque até a fictícia Nova-Iorque funciona como um biótopo animado e polivalente, mas do que a simples figuração cénica. Por fim a narrativa adulta, o constrangimento das sequências de acção de forma a não impedir a fluidez da carga dramática e daquelas "maravilhas" que Raimi incute nos seus personagens (por exemplo o encontro na esplanada é verdadeiro "breathless"). Resumidamente em Spider-Man 2 temos cinema adulto e sólido disfarçado de blockbuster inconsequente, atenta o alvo e por fim o surpreende com o contornar dos lugares-comuns do género, sem com isso renegar as suas raízes literárias.   

 

 

Depois claro, com tal maturidade tratamento nos seus elementos, os efeitos visuais e sonoros, as sequencias de acção fascinantes quase elas empregadas numa linguagem de videojogo, não são encarados como fragilidades, ao invés disso e perante o trabalho argumentativo e directivo, complementos que unem o filme em si com a espectacularidade gráfica.

 

 

Mas nem tudo são "rosas" neste Spider-Man 2, o casting continua como um dos "calcanhares de Aquiles", nomeadamente as suas personagens principais; Tobey Maguire e Kristen Dunst são limitados e demasiado presos às suas figuras, outro factor indevido é a sua falta de química. Contudo tal é compensado por um Alfred Molina como um vilão de "coração mole" e um James Franco a demonstrar razão de existência da sua personagem: Norman Osborn, que Sam Raimi preparar planos relevantes para esta sua personagem constantemente cozinhada. Todavia é em J.K. Simmon que as delicias dos cinéfilos e dos geeks da BD se conjugam, impagável.  

 

 

Spider-Man 2 é o “blockbuster” de Verão que há muito se esperava, não é comum encontrar um filme-entretenimento que pudesse ser ao mesmo tempo um pequeno pedaço de cinema. Raimi concretiza aquele que poderá ser o arranque para a consagração do comics de super-heróis como um género distinto, não sabemos se esta premonição cumprirá mas a verdade é que como amostra dessa emancipação, Spider-Man 2 cumpre (e muito) e ainda deixa-nos no final da sessão a cantarolar: "spider-man, spider-man".

 

"She looks at me everyday. Mary Jane Watson. Oh boy! If she only knew how I felt about her. But she can never know. I made a choice once to live a life of responsibility. A life she can never be a part of. Who am I? I'm Spider-Man, given a job to do. And I'm Peter Parker, and I too have a job."

 

Real.: Sam Raimi / Int.: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Donna Murphy, Daniel Gillies, Dylan Baker, Bill Nunn, Vanessa Ferlito, Aasif Mandvi, Willem Dafoe, Cliff Robertson, Elizabeth Banks, Bruce Campbell

 

8/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:04
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