Dr. Allen e Mr. David!
Após quatro anos de turismo entre Londres e Barcelona, Woody Allen regressa ao seu ambiente natural, a selva de asfalto de Nova Iorque, induzindo-lhe todos os elementos que já fazem parte do cinema do autor celebrizado. Sua “Big Apple” é pitoresca, controversa, irónica com veios de sarcasmo e acima de tudo e segundo o personagem principal mentalmente retrógrado. Larry David, o conceituado argumentista de vários episódios de Seinfeld protagoniza uma espécie de alter-ego do nosso realizador hipocondríaco e inseguro, temos assim um personagem com toda a influência Allen nas veias mas com uma agressividade crítica mais rígida que a anterior figura.
Ele é Boris Yellnikoff, um aspirante a físico, manco, anti-social, que ganha a vida ensinando xadrez a crianças, porém sua paciência para tal é limitada, trata-se da única personagem que acredita ser um carácter do filme, devido a isso interage directamente com o espectador, alvo de chacota pelo resto dos personagens. Um dia uma jovem bate-lhe á porta a mendigar um tecto e comida, trata-se da ingénua Melody (Evan Rachel Wood), uma sulista criada num seio rigidamente cristão, Boris aceita e após alguma advertência em relação á rapariga, acaba por casar com ela e o pior estava para vir. Sendo tal pormenor o seu confronto com a família de Melody, ainda “agarradas” á sua crença.
Trata-se do filme mais ousado de Allen nos últimos anos, um rico paladar de diálogos exuberantes e teorias só vindas de uma mente como a do realizador de Annie Hall. Cheio de momentos de pura comédia em que Larry David enche com toda a bizarra de uma figura misantropa, Whatever Works acaba por ser um ponto de encontro da extensa filmografia de Allen que encontra aqui a sua homenagem e amontoado de referências.
Um argumento corajoso, abastado e único, onde poucos chegariam com uma complexidade que reúne casamento, sexo, morte e romance, porém a sua narrativa é igual a tantas outras comédias disfuncionais de Allen, episódica e ausente de clímax, mas para quem já é fã do autor, tal facto não é uma afronta, mas sim um clima ameno e familiar. Evan Rachel Wood a demonstrar que é uma actriz em ascensão, David a confirmar como referência na comédia e Patricia Clarkson, uma bela senhora actriz. O melhor de Woody desde Match Point!
“That's why I can't say enough times, whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works.”
Real.: Woody Allen
Int.: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson
A não perder – Larry David sob as ordens de Woody Allen
O melhor – como é habitual nos seus filmes, o argumento
O pior – se não fosse o carisma agressivo de Larry David como protagonista, o filme sucumbiria como mais do mesmo na filmografia do autor
Recomendações – Annie Hall (1977), 2 Days in Paris (2007), Hollywood Ending (2002)
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