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14.3.10

A Maravilha do Digital!

 

Em 1865, Lewis Carroll (pseudónimo do professor de matemática, Charles Lutwidge Dogdson) publica o seu conto infantil - Alice in Wonderland - no qual baseou em algumas das suas próprias experiências. O sucesso do livro foi tanto, chegando a ser apreciado por variadas personalidades de calibre como o escritor Oscar Wilde e até mesmo rainha de Inglaterra Victoria, que anos mais tarde gerou uma sequela – Through the Looking-Glass, and What Alice Found There - escrito e publicado em 1875 por Carroll. Em 1951, a Walt Disney apoderou-se do material, concebendo um dos mais famosos clássicos da animação do estúdio, preservando o enigmático ambiente vindo da imaginação fértil e incógnita do escritor. Porém, passados 145 anos desde a tiragem do primeiro exemplar literário, Tim Burton decide contagiar esse intacto universo carrolleano (como proeza, voltando ao serviço da Disney após ter abandonando-o em 1984 com Frankenweenie, como causa descrita as divergências artísticas).

 

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Com a desculpa dos avanços tecnológicos e da reinvenção do 3D, o estúdio do Mickey Mouse utiliza tais artifícios para regressar às personagens tão embutidas na sociedade actual, as estrelas da dita obra-prima literária. Tim Burton reinventa assim o Universo da Alice, todavia, a sua Wonderland perde o adjectivo de Maravilha e recebe os contornos de uma Nárnia imaginada por C.S.Lewis ou a Terra Média de Tolkien, ou seja adquire periferias mais negras, mais violentas, mais reflectivas ao Mundo Actual, perdendo assim a metáfora ou as hipérboles dignas do conto original. É um trabalho que se anuncia independente à sua matéria-prima, neste caso, a culpa é mais do argumento concebido por Linda Woolverton que propriamente de Burton.

 

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Mas mesmo sentindo uma certa aderência do realizador ao mundo de Carroll, como “peixe na água”, o fardo de transcrever o mundo e as personagens que encantaram gerações é demasiado para o ego e espírito do autor, neste caso, em Alice in Wonderland, este abandona o gótico descrito nos cenários construídos ou nos efeitos práticos e sonoros e entrega-se de corpo e alma ao digital, ao facilitismo de resultados "perfeitos". Mesmo sendo inegável a qualidade do material aqui reunido, é discutível de que o realizador perdeu a sua essência, e aquilo que vemos no grande ecrã não é o que possa ser chamado de filme de Burton. A juntar a isso, uma narrativa demasiado rápida e tratada com demasiada leveza.

 

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Contudo, os recursos digitais foram capazes de fornecer ao público, alguma vida entre as personagens do imaginário de Carroll, recorrendo ao já habitual freakshow digno de BurtonJohnny Depp (não é o Depp extrovertido que esperávamos) como Chapeleiro Louco e Helena Bonham Carter (melhor desempenho do filme) como a maligna Rainha Vermelha são dois exemplos disso, como também figurinos de que a tecnologia da manipulação está avançadíssima para transformar dois actores de calibre em dois seres que parecem saídos doutro planeta (sem referência a Ed Wood). Entre o elenco que empresta voz e pouca alma ao resto das personagens encontramos Michael Sheen como o indecifrável coelho branco, Stephen Fry com um riso caricato em o gato de Cheshire, Crispin Glover (River’s Edge) como o ValeteAnne Hathaway como a demasiado dócil Rainha Branca, segundo Burton, inspiração clara a Nigella Lawson, uma estrela de um programa de culinária da TV, Alan Rickman na enigmática Lagarta Azul, Timothy Spall como o Bayard e por fim, Christopher Lee dando vida ao temível e negro Jabberwocky (que esteve presente no livro Through the Looking-Glass, and What Alice Found There). No papel de Alice deparamos com australiana e ainda desconhecida Mia Wasikowska (Rogue) que compõe uma pré-adulta versão da protagonista de Lewis Carroll. A actriz consegue um desempenho afável, mas infelizmente, não deslumbra como tal, a personagem chave do filme parece ser guiado por um extenso cepticismo.

 

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Enfim, o 3D mantêm todo o seu esplendor. A animação é sem falhas, a banda sonora de Danny Elfman é infalível, mas o material reunido remete-nos a um filme tão estéril de ideias. Inclassificável, no sentido que não evidenciamos uma obra de Burton, nem o toque excentrico e alusivo de Lewis Carroll. Diz-se chamar Alice, mas não o é. Eis uma decepcionante a nível estrutural, consolidado com um esplendor a nível visual.

 

"Lost my muchness, have I?"

 

Real.: Tim Burton / Int.: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Stephen Fry, Crispin Glover, Michael Sheen, Imelda Staunton, Timothy Spall, Alan Rickman, Christopher Lee

 

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A não perder – quando uma obra-prima literária roça a vulgaridade

 

O melhor – o visual e Helena Bonham Carter

O pior – o material promissor transformado num filme tão déjà vu como este

 

Recomendações – Avatar (2009), The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe (2005), The Chronicles of Narnia: The Prince Caspian (2008)

 

5/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:59
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1 comentário:
De Nekas a 14 de Março de 2010 às 12:43
Eu tenho as expectativas relativamente altas em relação a este filme mas também receio o que escreveste, tenho receio que Burton tenha mesmo abandonado o seu gótico para abraçar o Digital...

Abraço
Cinema as my World (http://www.nekascw.blogspot.com/)


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