A Maravilha do Digital!
Em 1865, Lewis Carroll, pseudónimo do professor de matemática, Charles Lutwidge Dogdson publica o conto infantil, Alice in Wonderland, baseando em algumas memórias do professor. O sucesso do livro foi tanto, chegando mesmo a ser lido por personalidades famosas como o escritor Oscar Wilde e a rainha de Inglaterra, Victoria, que em 1975, o escritor teve que conceber uma sequela – Through the Looking-Glass, and What Alice Found There. Em 1951, a Walt Disney adapta o dito conto, concebendo um dos mais famosos clássicos da animação do estúdio, preservando o enigmático ambiente vindo da imaginação fértil e incógnita de Carroll, porém passado 145 anos desde a tiragem do primeiro exemplar literário, Tim Burton contagia esse universo carrolleano, voltando ao serviço da Disney, após abandonar o estúdio em 1984 com Frankenweenie devido a diferenças artísticas.
Com a desculpa dos avanços tecnológicos e da reinvenção do 3D, o estúdio do Mickey Mouse utiliza-a para regressar aos personagens que contagiaram gerações e que forma capazes de criar a obra-prima literária. Tim Burton reinventa assim o Universo da Alice, todavia sua Wonderland perde o adjectivo de Maravilha e recebe os contornos de uma Nárnia imaginada por C.S.Lewis ou a Terra Média de Tolkien, ou seja adquire periferias mais negras, mais violentas, mais reflectivas ao Mundo Actual, perde a metáfora ou as hipérboles do conto de Lewis Carroll e anuncia-se como independente, neste caso a culpa é mais do argumento concebido por Linda Woolverton que do próprio autor. Mas mesmo sentindo uma certa aderência de Burton ao mundo de Carroll como “peixe na água”, o fardo de transcrever o mundo e as personagens que encantaram gerações é demasiado para o ego e espírito do autor, neste caso em Alice in Wonderland, este abandona o gótico descrito nos cenários construídos ou nos efeitos práticos e sonoros e entrega-se de corpo e alma ao digital, ao facilitismo de resultados perfeitos. Mesmo sendo inegável a qualidade do material aqui reunido, é discutível de que o autor perde a sua essência, e aquilo que vemos no grande ecrã não é o chamado filme de Burton, apesar disso a narrativa soa algo rápida demais e tratada com demasiada leveza.
Contudo os recursos digitais foram capazes de fornecer ao público, vida entre as personagens do imaginário de Carroll, recorrendo ao já habitual freakshow digno de Burton, Johnny Depp (não é o Depp extrovertido que esperávamos) como Chapeleiro Louco e Helena Bonham Carter (melhor desempenho do filme) como a maligna Rainha Vermelha são dois exemplos disso, como também figurinos de que a tecnologia da manipulação está avançadíssima para transformar dois actores de calibre em dois seres que parecem saídos doutro planeta. Entre o elenco que empresta voz e pouca alma ao resto das personagens estão Michael Sheen como o enigmático coelho branco, Stephen Fry com um riso caricato em o gato de Cheshire, Crispin Glover (River’s Edge) como o Valete, Anne Hathaway como a demasiado dócil Rainha Branca, segundo Burton inspiração clara a Nigella Lawson, uma estrela de um programa de culinária da TV, Alan Rickman na enigmática Lagarta Azul, Timothy Spall como o Bayard e por fim, Christopher Lee dando vida ao temível e negro Jabberwocky (que esteve presente no livro Through the Looking-Glass, and What Alice Found There). No papel de Alice encontra-se a australiana Mia Wasikowska (Rogue) que compõe uma pré-adulta protagonista de Lewis Carroll, a actriz consegue um bom desempenho, mas infelizmente não deslumbra como tal, a personagem chave do filme parece ser levado por um cepticismo demasiado elevado no seu carácter.
Enfim, o 3D encontra-se em todo o seu esplendor, a animação é sem falhas, a banda sonora é infalível, mas o material reunido nos remete a um filme tão estéril de ideias como este, não soa como obra de Burton e não tem o enigmatismo do bestseller, diz chamar-se Alice, mas não o é. Um filme decepcionante a nível estrutural, esplendor a nível visual.
Real.: Tim Burton
Int.: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Stephen Fry, Crispin Glover, Michael Sheen, Imelda Staunton, Timothy Spall, Alan Rickman, Christopher Lee
A não perder – quando uma obra-prima literária roça a vulgaridade
O melhor – o visual e Helena Bonham Carter
O pior – o material promissor transforma num filme tão déjà vu como este
Recomendações – Avatar (2009), The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe (2005), The Chronicles of Narnia – The Prince Caspian (2008)
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