Data
Título
Take
6.3.10

 

Preciosa, só de nome!

 

Tal como a personagem, ninguém daria nada por este filme, o facto de ser a história de uma afro-americana abusada e obesa, os produtores insinuavam que não continha material suficiente para se vender ao grande público. Existe uma certa noção de descriminação racial em Hollywood ou simplesmente um medo maior em aproximar á vida real, á miséria social na grande tela. Porém uma coisa é certa, Precious está nomeado para os Óscares, em categorias bem respeitadas e cobiçadas como o de Melhor Filme, Melhor Actriz (Principal e Secundaria) e Melhor Realizador, apresentando este “patinho feio” numa boa surpresa cinematografia no que requer de aceitação do público e crítica.

Baseado numa obra literária de nome Push: A Novel by Saphire, o filme ganhou outras proporções com a promoção de Oprah Winfrey, que após ter assistido á fita ficou comovida, tendo até mesmo pedido ao produtor executivo Tyler Perry o contacto de Lee Daniels (o realizador) para lhe elogiar o seu trabalho, que segundo a apresentadora mais famosa do Mundo foi uma “experiência avassaladora”. Em Precious (um titulo mais curto e curiosamente a denominação português escolhida) reconhece-se a bravura em desafiar a própria capa estética de Hollywood, onde a protagonista é uma jovem não muito dada á beleza, mal ataviada e com problemas excessivos de peso, longe das “curvilíneas” actrizes que preenchem o sonho. A actriz escolhida foi a estreante Gabourey Sidibe (nomeada ao Óscar de Melhor Actriz, sendo considerada uma revelação) presta corpo a uma figura trágica, adolescente analfabeta, maltratada pela mãe, abusada pelo pai, grávida pela segunda vez e seropositiva, que decide procurar um novo caminho á sua própria vida e toda a narrativa de Lee Daniels é isso, uma evasão a um circo dos horrores retratado por um documento telefilmico de luxo, onde se apresenta uma visão realista que até dói em conjunto com o onirismo de um simples sonho americano, ou seja o simples desejo de ser famoso.

Sendo uma versão hipérbole da Cinderela ou mesmo do Patinho Feio, Precious não é mais do que um turbilhão de fazer chorar as pedras da calçada, onde encontra como veiculo de pólo de emoção a desgraça de outrem sem nunca fazer descansar o espectador, que tal como o companheiro em cartaz, “A Serious Man” dos irmãos Coen, apresenta o quanto irónica e cruel é a própria vida. O hype desta vida deriva de um bem arquitectado marketing e dos elogios constantes das actrizes Gabourey Sidibe (na minha opinião é demasiado sobrevalorizada) e Mo’Nique como um “monstro”, prestação surpreendente transcrito de corpo e alma, nomeada ao Óscar de Melhor Actriz Secundaria, no elenco também se destaca a cantora Mariah Carey como a assistente social (amnésica quanto ao seu desastre Glitter de Vondie Curtis-Hall) e o cantor Lenny Kravitz como o enfermeiro John e Paula Patton (Mirrors) como Mrs Rain, dois dos exemplos de bom coração que ainda restam neste Mundo.

Mas sim, Lee Daniels tem um fruto inspirado do seu trabalho como realizador, mas esta viagem á obscuridade do retrato social norte-americano poderiam ser algo mais do que um luxuoso poço de desgraças. Precious não encanta, como também não quer, mas é um dos projectos mais insólitos do cinema hollywoodesco porque o voyeurismo da miséria humana se torna num espectáculo.

Real.: Lee Daniels

Int.: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Mariah Carey, Paula Patton, Lenny Kravitz

 

 

   

 

A não perder – as razões que levaram Oprah Winfrey a apaixonar por esta fita

 

O melhor – o desempenho monstruoso de Mo’Nique

O pior – a miséria e as desgraças se tornam algo como um reality show

 

Recomendações – Half Nelson (2006), Forrest Gump (1994), Dangerous Mind (1995)

 

 

6/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:32
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3 comentários:
De jonasnuts a 14 de Março de 2010 às 22:26
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De MP a 15 de Março de 2010 às 10:49
" (...) simplesmente um medo maior em aproximar á vida real, á miséria social na grande tela." Queria, por favor, rever o texto. Não será antes "à vida real, à miséria"?


De migas a 15 de Março de 2010 às 14:15
que tontice de opinião, precious é cinema como qualquer outro filme, não é voyerismo ou lá o que lhe querem chamar, é cinema em estado bruto, sem tirinhos nem cambalhotas por cima de prédios...é um murro no estomago que incomoda.


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