A vida num filme, um sonho numa fita!
Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é um realizador bem sucedido e de nome internacional que se encontra numa fase negra de inspiração. Perdido entre uma crise de identidade e numa loucura artística, Guido vê a sua vida pessoal a desmoronar, enquanto incansavelmente procura aquilo que havia perdido, ou talvez nunca o teve. Fellini 8 ½ é a autobiografia de Frederico Fellini, um das personalidades mais marcantes do cinema italiano que encontra em Guido Anselmi o seu alter-ego. Decidido a dar ao espectador a sua visão de si próprio, Fellini realiza assim um filme pleno em misticismo que transporta o ser publico a um mundo onírico, surrealista que destaca as suas fantasias, pecados e ideais de um homem que tal como a personagem de Mastroianni se consideram como grandes mentirosos vivendo numa vida de mentiras. Além de tudo, ainda nos presenteia com a sua própria homenagem ao cinema italiano, desde a sua detalhada conspecção de Itália, como a inserção de um dos seus bens, segundo Fellini: a bela Mulher italiana. 8 ½ reside assim como um tributo do autor para ele próprio, onde deposita nele todo um Homem que só ele próprio conhece, a obra de uma vida, assim por dizer. Por isso uma vez dentro de sua mente somos quase como obrigados a repudiar a seu oficio surrealista que aborda os seus sentimentos e passado, cheio de símbolos e representações fílmicas que de certo nenhum outro ser vivo poderá decifrar, nem sequer tentar ou pretensiosamente citar, sendo esse um dos factores que esta obra poderá repudiar os mais mainstreams, porque num fundo tudo aqui filmado e concebido foi apenas criado para agradar, não um vasto publico, mas sim um único Homem, ele próprio. Porém Marcello Mastroianni, um dos actores predilectos do italiano realizador, conseguiu de certa forma abordar uma personalidade complexa e intrinsecamente insatisfatória, se era isso o pretendido de Fellini, não saberemos, contudo é um desempenho e tanto, senão honroso de um actor vestir a pele de um autor, ainda por cima ele próprio realizador da fita que interpreta. Destaque também para as belíssimas e bem dotadas actrizes como Claudia Cardinale (uma beleza de cortar a respiração) e Anouk Aimée como Luisa Anselmi, elas e muitas outras que fazem parte deste filme de uma vida! No final fiquei com uma frase dita pela imagem mais respeitosa de um crítico de cinema num filme (Jean Rougeul), ele cita “que para os produtores, um filme falhado é um factor económico, para o realizador representa a beira de um fim”.
Real.: Frederico Fellini
Int.: Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimée, Jean Rougeul
Imagens
A não perder – um espelho distorcido e decifrável da incontornável figura de Frederico Fellini
O melhor – ser um filme diferente dos outros
O pior – ainda existir gente que pergunta “Frederico quem …?”
Recomendações – La Dolce Vita (1960), Il Casanova di Frederico Fellini (1976), Nine (2009)
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