O poder da dedução.
Longe da figura vitoriana e imaculada da mente de Arthur Conan Doyle, o qual marcaram gerações na literatura, que mais tarde originou um dos primeiros franchisings de sempre, não do cinema, mas em bandas desenhadas e outras obras literárias que inspiravam do detective privado mais famoso do Mundo, eis que estreia finalmente a visão de Guy Ritche. Relembrando que o primeiro filme em que a personagem de Doyle integra foi a curta de 1905, intitulada de Adventures of Sherlock Holmes de J. Stuart Blackton, que era desempenhado por Maurice Costello (uma das estrelas do cinema mudo que não conseguiu sobreviver na transposição sonora), depois disso seguiu-se as mais variadas versões dos mistérios das ruas vitorianas de Londres, desde a série de filmes interpretada por Eille Norwood (que parece ter nascido para o papel desempenhado de 1921 a 1923), Basil Rathbone interpretou um dos melhores capítulos The Hound of the Baskervilles (1939, Sidney Lanfield), Peter Cushing no final dos anos 50, Robert Stephens na visão pessoal de Billy Wilder (The Private Life of Sherlock Holmes, 1970), Peter O’Toole no inicio dos 80 e agora Robert Downey Jr., que por sinal veste a pele de um Holmes diferente do habitual.
Tal como aconteceu com James Bond, em que Martin Campbell o transformou num herói mais moderno e menos cândido em Casino Royale, o novo milénio também teve direito ao seu Sherlock Holmes. Um ser imundo, frágil, alcoólico, irónico e violento, cuja dedução extraordinária de uma mente brilhante seja talvez o que resta dos livros de Arthur Conan Doyle. Assim por dizer, Downey Jr. Interpreta uma versão sua da personagem, preenchendo com tanto ego do actor, que somos, como espectadores, puxados para o carisma natural do protagonista de Iron Man (Jon Favreau, 2008) e não dos tiques clássicos da personagem. Aquilo que vemos na grande tela, não é a mente snob e de classe da série de livros, mas sim uma cómica figura no limiar do actor e da insólita caracterização de Ritchie. O mesmo tratamento teve Watson, o fiel companheiro de Holmes, que aqui se encontra longe do anafado e inseguro médico, interpretado por Jude Law (grande desempenho), eis um brutamontes veterano de guerra, que faz de “ama” do protagonista como seu fiel conselheiro, uma espécie de “alma gémea” de camaradagem, se não fosse isso Holmes nunca estaria completo.
No resto do elenco podemos encontrar a belíssima Rachel McAdams como uma das rivais do nosso herói, como talvez sua única paixão (inimiga de Holmes no capitulo Scandal in Bohemia, adaptado em 1921 para o cinema e mais recentemente em 2001 para a televisão produzido pela Hallmark), quer exibe grande talento estético, mas que nunca convence como vilã que é, e Mark Strong como Lord Blackwood, o vilão de serviço, carismático, enigmático, uma personagem digna de qualquer filme de terror, pelo menos é o que aparenta numa fita em que as aparências são iludidas. Porém o actor que Guy Ritchie tenta celebrizar após o seu forte empenho em RockN´Rolla (2008) é já uma presença habitual nas suas produções, em Sherlock Holmes é o seu bilhete para o estrelato.
Se a personagem de Arthur Conan Doyle perdeu o seu espírito, Guy Ritchie parece realizar um filme sem a sua alma, a única sequencia que visualizamos e que reconhecemos ser trabalho do autor é o combate organizado com o nosso protagonista, em que ele com uma experiencia notável em artes marciais consegue “desfazer” o seu adversário em poucos segundos, os efeitos de slow motion nessa cena fazem relembrar o inovador combate de Mickey O’Neil (Brad Pitt) em Snatch (2000), aquele que ainda é a sua melhor obra e mais popular filme. Todavia, não há duvidas que estamos perante num aventureiro divertimento que nos fazem esquecer por momentos que estamos na época natalícia. Não é o velho Sherlock Holmes que reconhecemos, nem o Guy Ritchie que nos habituou, mas é um entretenimento com alguma classe, isso sim.
PS – Destaque também para Kelly Reilly que vimos amedrontada em Eden Lake de James Watkins, aqui desempenha Mary, a noiva de Watson.
Real.: Guy Ritchie
Int.: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdam, Mark Strong, Eddie Marsan
A não perder – uma visão moderna de Sherlock Holmes
O melhor – a dupla Downey Jr. e Jude Law
O pior – existe muito pouco do espírito de Arthur Conan Doyle
Recomendações – The Private Life of Sherlock Holmes (1970), The Hound of the Baskervilles (1939), Snatch (2000)
Ver Também
The Private Life of Sherlock Holmes (1970)
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Ante-Cinema – Critica «Sherlock Holmes»: Um Detective Aventureiro
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