Real.: Akira Kurosawa
Int.: Tatsuya Nakadai, Tsutomu Yamazaki, Kenichi Hagiwara
O cinema não é apenas figuras que se movem e dialogam entre si num grande ecrã de forma a narrar uma história (muitas delas déjà vu aos espectadores), mas é também um apelo aos sentidos do mesmo. Nada disso seria possível se não possuísse todos os elementos disponíveis na realização de tal arte e de um bem mais potente, mas igualmente esquecida pelos realizadores da actualidade, a mente humana, essa “porta” para mundos paralelos e o manipulador dos restos dos sentidos. Não estou com isto a insinuar o apelo á imaginação dos sujeitos cujo trabalho é “somente fazer filmes”, estou afirmar que é possível sentir o vento através de imagens e som, cheirar a brisa marítima sem nunca estar em contacto com ela, sentir o horror sem nunca presenciar tal condutor, e se um filme é possível levar-nos a tais mundos de forma secretamente magica é porque simplesmente quem o dirigiu sabia ao certo o que fazia ou simplesmente é um verdadeiro conhecedor do Mundo em redor que consegue captar o meio tal como ele é, através da lente da sua câmara. Por exemplo, dois homens num compartimento, uma janela e um vento forte que sai por ela, ouve-se um zumbido estrepitoso, os vestuários dos sujeitos estão “dançando” literalmente ao sabor dessa brisa, eles continuam a dialogar entre si, o assunto é sério, contudo o vento sopra e eles não importam com isso, como e com razão, fosse a coisa mais natural do mundo. Outro, um acampamento bélico, o chão é composto por areia como um deserto se trata-se, mais uma vez o vento emplastra, nuvens de poeira enchem o cenário de forma mais natural possível, sem destaque, nem histerismos, nesse mesma acção, um general reúne as suas tropas, noutro canto um patrão “dá um puxão de orelhas” ao seu empregado por este não ter alisado o terreno como deve ser (o melhor é que são figurinos). A poeira continua lá, mas ninguém parece importar. È de direcção tão natural e realistas que nós próprios (espectador) sentimos em pleno século XVI, numa época em que o Japão parecia estar marcada no confronto de vários “Senhores da Guerra”, e é com magia do detalhe e da reconstituição épica com todo o realismo possível e o misticismo digno da cultura nipónica que encontramos perante num dos melhores realizadores da historia do cinema, Akira Kurosawa. Kurosawa é de nacionalidade japonesa e prova além d e tudo um conhecedor nato da história e cultura nipónica, sendo também um apreciador de todo o folclore da mesma. Conhecido pelo seu impar trabalho em filmes como Rashomon (1950), Seven Samurais (1954), que de certa influenciaram o mundo cinematográfico até mesmo contagiando Hollywood pelas suas descobertas narrativas, Kagemusha (1980) surge numa era que por teoria Kurosawa já nada de novo tinha para demonstrar, porém é o seu talento e experiencia que encenada aqui um filosofia própria em forma de épico. Kagemusha, que significa “sósia” em japonês é a história de um “Senhor da Guerra” tão tenebroso que só o seu nome, Shingen, assustaria os seus adversários, todavia foi ferido numa batalha, com precaução pede ao seu irmão que procure um “sósia”, para que possa falecer em paz e secretamente guiar o seu exército e antecipar o inimigo, obviamente através do seu substituto. O candidato certo foi um ordinário larápio que toma a grande responsabilidade da substituição. Um filme de uma riqueza cénica e a nível de guarda-roupa impressionante, diálogos engenhosos e uma intriga de longínquos horizontes que explora tudo e todos e os conflitos sociais da época, diria antes se Shakespeare fosse japonês, Kagemusha facilmente seria uma obra dele. E graças a Kurosawa, temos um dos raros filmes em que os elementos naturais por força maior parecem expelir do ecrã, claramente um filme que se sente e não se fica por somente “ver”.
“A cópia só faz sentido, enquanto houver um original” (quote traduzida)
A não perder – cinema que desperta os cinco sentidos
O melhor – tudo, desde o misticismo até ao nível técnico
O pior – provavelmente ser bastante longo, mas nada que retire o seu mérito
Recomendações – The Man in the Iron Mask (1998), Ran (1985), Alexander (2004)
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