Real.: Darren Aronofsky
Int.: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
O jovem, mas promissor, realizador Darren Aronofsky (The Fountain, Requiem For A Dream) teve o golpe de génio em vencer o preconceito em convidar Mickey Rourke, a moribunda estrela dos anos 80 a participar no seu novo filme, The Wrestler, um retrato de queda e ascensão de um lutador de luta livre, esta abordagem é de tal forma verosimilhante e inspirador que assistimos a um fenómeno raro no cinema, cuja personagem se funde com a real biografia do protagonista. Rourke estreou-se com um pequeno papel em 1941, a comédia de Steven Spielberg, desde então trabalhou com os principais realizadores da época até que se tornou num dos mais famosos e talentosos actores da década de 80, tendo abdicado a sua carreira em 1991 para tornar-se num pugilista, um breve oficio que se revelou num fracasso. Em 1995 voltou a representar, cuja contradição do actor levou-lhe a variadas criticas e uma atribulação na sua já adquirida fama. Rourke caiu no esquecimento e nos papéis secundários, até ter participado em Sin City de Robert Rodriguez, como Marv, um ex-lutador que procura a vingança nas ruas da Cidade do Pecado, tal desempenho foi elogiado um pouco por todo o Mundo, mas foi com este The Wrestler, que o actor em vias de ascensão dá o “golpe definitivo”. Aronofsky demonstrou coragem em toda a produção ao lidar com o afamado actor, limitando-as rédeas e pedir-lhe a sua máxima colaboração. O jovem realizador sabia que nas suas mãos se encontrava um projecto de uma vida, quer para ele, quer para Rourke, que abdicou de corpo e alma á concepção de sua personagem, mas também foi um dos responsáveis pela Banda Sonora, o qual Bruce Springsteen, seu amigo, escreveu uma música dedicada a esse “renascer da Fenix”, homonimicamente intitulado de “The Wrestler”.
O resultado desta improvável cooperação entre Aronofsky (a promessa) e Rourke (o caído) se verificou na 65ª edição do Festival de Veneza, o qual The Wrestler venceu o Leão de Ouro de Melhor Filme e a interpretação do protagonista foi elogiada ao extremo, mesmo não tendo vencendo o respectivo prémio. Desde então o percurso do filme foi a arrecadação de prémios e mais prémios, galardoado o próprio filme, realizador, argumento (da autoria de Robert D. Siegel), banda sonora, a interpretação de Rourke e não só, Marisa Tomei parece também ela ressuscitar de forma mais delicada e menos hype, sendo indicada para os prémios de Melhor Actriz Secundaria nos Globos de Ouro, BAFTA e Óscares, ao lado do actor principal Mickey Rourke na sua categoria. Mesmo sendo apontado como o favorito nos 81º prémios da Academia, o Óscar de Melhor Actor Principal acabou por ser cedido a Sean Penn em Milk de Gus Van Sant, que também ele não dispensou uma pequena homenagem no seu discurso de vencedor. Mesmo assim e seguindo as palavras do próprio Rourke “You can’t eat it, you can’t fuck it, and it won’t get me into heaven” em relação á estatueta que poderia ganhar. Contudo a honrosa nomeação foi uma lição de vida e a afirmação de que o caminho que Mickey Rourke para uma estabilidade artística parece confirmada. Esperemos que no futuro se consolida como a verdadeira estrela que é. Contudo vale a pena dar uma espreitadela ao seu renascer, com talvez o seu melhor desempenho, comovente!
Porém existe mesmo um filme aqui, não apenas veículo do actor, Aronofsky revela-se como um autor mais sóbrio e mais calmo convertendo a história clássica da segunda oportunidade num cruzamento com o cinema mais indie, dando assim um modelo básico sob uma forma de concepção real e mais intrínseca. Para além de Rourke, Tomei, nomeada para vários prémios de interpretação, como já havia referido, presta corpo e alma a outro retrato da temática de envelhecimento e esquecimento, ela é uma stripper, cuja idade avançada faz com que não tenho o sucesso de outrora, todavia está preste a conseguir sair dessa vida dupla e ter o seu momento de gloria vivendo num condomínio fechado com os seus filhos, torna-se a outra metade que falta em Randy “Ram” (a personagem de Rourke) que no fundo são dois seres rejeitados em busca do amor. Outro grande desempenho da fita, este talvez o mais esquecido pelos órgãos distintivos do cinema é a de Evan Rachel Wood, como filha de Randy, que invoca a desilusão e ao mesmo tempo a solidão, o facto não ter tido um pai presente na sua vida, os seus momentos de climax dramático são de grande emoção e realismo. Um filme tão inspirador como este merece uma salva de palmas, porquê não é todos os dias que vemos um actor “desfalecido” a subir ao pódio, naquele que é o seu grande momento de glória, no final nada melhor que Bruce Springsteen a fechar com a sua canção que côa na sala de cinema como vozes divinas, é então que saímos daquela comovente historia e entramos na vida real, contudo até mesmo na “cinzenta” realidade encontramos esses pequenos momentos que no transportam a um estado de concluído.
Then you've seen me, I come and stand at every door
Then you've seen me, I always leave with less than I had before
Then you've seen me, bet I can make you smile when the blood, it hits the floor
Tell me, friend, can you ask for anything more?
Tell me can you ask for anything more?
A não perder – a cena final, o renascimento de um actor.
O melhor – “The Wrestler”, a musica de Bruce Springsteen
O pior – quem o reconhecer como uma variação de Rocky Balboa
Recomendações – Rocky (1976), Rocky Balboa (2006), Cinderella Man (2005)
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