Real.: Sam Mendes
Int.: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates, Michael Shannon, Zoe Kazan, David Harbour, Dylan Baker
Quem é que ainda não esqueceu do amor (im) possível de Jack & Rose do galardoado filme de James Cameron, Titanic (1997), que arrebatou 11 Óscares de Academia, incluindo o cobiçado Melhor Filme. Esse casal que apaixonou os espectadores era Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, desde então os dois actores permanecerem desencontrados, cada um desenvolvendo-se como actor e protagonizar alguns dos grandes filmes dos últimos anos. Passados nove anos eis que voltam a reunir-se, desta vez sob o comando do real marido de Winslet, Sam Mendes, também ele destacado como um dos mais sólidos realizadores dos últimos tempos, Revolutionary Road é antes de mais a reunião entre dois amantes de Hollywood, que apaixonaram mundo, sendo o seu amor apenas perplexo ao grande ecrã. Apesar de tudo, este já não são Jack & Rose, agora assumem as identidades de April e Frank Wheeler, contudo não vivem a paixão ardente em Titanic, mas o que sucede depois, quando tal sentimento dissipa-se levando a uma rotina insegura. Estamos na década de 50, o casal Wheeler vive o sonho americano, contudo sentem inconformados com a harmonia das suas vidas, Frank tem um bom emprego, mas não se sente entusiasmado com ele, April tenta acima de tudo fugir do modelo de dona de casa e sonha um dia a vir a ser actriz, com dois filhos e vivendo nos subúrbios de Connecticut. Ambos procuraram novas emoções e novas vitalidades para as suas vidas que estão cada vez mais a entrar no simples hábito de viver e não na força de viver. No elenco também pode-se encontrar Zoe Kazan (The Savages, Fracture), Kathy Bates (Misery) e o nomeado ao Óscar, Michael Shannon por Melhor Actor Secundário graças a este filme, num desempenho no mínimo déjà vú (Heath Ledger – Joker).
Na mesma semana estreiam dois filmes completamente distintos que parecem estar interligados pela mesma mensagem, Milk de Gus Van Sant é um retrato biográfico de Harvey Milk, um activista dos direitos dos homossexuais que acabou por ser assassinado enquanto se candidatava a Mayor de San Francisco, claro que Revolutionary Road nada ou pouco tem a ver com a “jornada” de Milk, mas é na sua tagline que algo ilumina – “Não te conformes”. Coincidentemente, o outro filme (Revolutionary Road) é a consequência quando essa frase - conselho não é levada a sério, e acaba por ser um filme sobre duas vidas conformadas, cujos sonhos dissiparam no conformismo que é viver. Sam Mendes volta a filmar o vazio depois de te conquistado mundo (e Academia) em 1999, com American Beauty, em Revolutionary Road aproveita a mesma ideia e aborda a América dos anos 50, cujo sonho americano era cobiçado por todo o Mundo, mas quem o vivia, apercebia-se da perfeição aparente e do desequilíbrio psicológico que englobava a vulgaridade em massa. Eis um filme que todos devem olhar com ar sério, porque é praticamente isto que as nossas se transformam e se revelam, mais do mesmo em termos de premissa.
Em termos técnicos é um filme trivial, simples, mas numa segunda visão e no aprofundamento da mesma, apercebe-mos que nem sempre a simplicidade é sinónimo de banalidade, além de ser um veículo de duas das melhores interpretações que o cinema norte-americano nos deu nos últimos anos; Winslet é magnífica e cada vez mais madura (a olhos vistos), Leonardo DiCaprio parece o vinho do porto, quanto mais velho (etariamente, claro, não fisicamente) melhor, e aqui tem provavelmente o melhor desempenho da sua vida (mas algo me diz que Jack de Titanic ainda lhe persegue), contudo á que salientar um grande erro da Academia em não nomear Leo na categoria em que tinha direito (a de Melhor Actor Principal). Apesar do brilhantismo do par de protagonistas e da sua eficaz química envolvida, a obra de Sam Mendes também consegue arrebatar grandes prestações dos envolvidos secundários entre eles; Michael Shannon, num papel bastante psicótico que assemelha á temática da obra cénica, o Auto da Barca do Inferno escrito pelo português Gil Vicente, em que o louco consegue entrar no paraíso porque meramente diz o que pensa sem pensar nas consequências, tornando-se mentalmente legível, e no fim a personagem de Shannon se trata disso de um louco entre os “normais”, a ovelha negra de um rebanho de manifestações automáticas. Kathy Bates também regressa em grande, mas á que inconformar com a ofuscação que a actriz tem tido cada vez mais. Será que a actriz galardoada ao Óscar encontra-se velha? Será uma nova Whoopi Goldberg, em que teve que abdicar a sua carreira artística pela falta de papéis? O facto é que este cenário ataca toda a gente, principalmente as actrizes, e dá que pensar se um dia Kate Winslet sofrerá o mesmo destino.
A destacar também no elenco secundário é David Harbour no papel de Shep Campbell, o exemplo perfeito de absorção do dito “sonho americano” e Dylan Baker, num papel no mínimo irónico e divertido. Trata-se do injustiçado da Academia dos Óscares deste ano, um filme magnífico contudo simples, com boa recepção técnica, aquela banda sonora é contagiante, um olhar a um problema comum que ninguém quer admitir. Sam Mendes dá-nos uma razão para que a vida tem que ser vivida não conforme nos parâmetros da sociedade, mas nos nosso padrões, porque existem muitos Wheelers por aí fora, por isso é melhor não acabar como tal. Para finalizar volto a citar a tagline do filme Milk – “Não te conformes”.
A não perder – a química magistral entre Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.
O melhor – tudo (desde os desempenhos ao brilhantismo da narrativa)
O pior – o esquecimento nos Óscares deste ano, o Into the Wild de 2009
Recomendações – American Beauty (1999), Little Children (2006), Mr And Mrs Smith (2005)
“8/10””No fundo, a adaptação deste filme foi parar às mãos certas, tanto na realização como nas interpretações. Um filme a não perder.” Ante-Cinema
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