Real.: Manoel De Oliveira
Int.: Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trepa
Como diria a famosa música do grupo GNR “E com dezasseis, já faltapouco para sentir os noventa e seis”, é o peso da idade e a experiência dada pelo melhor dos professores, a vida, que Manoel de Oliveira explora as personagens do clássico de Luis Buñuel, Belle de Jour (1967), um obra ousada para o seu tempo que alinda uma mulher casada que por puro masoquismo vira prostituta nos tempos livres, com o desejo de trair seu marido, abordagem é passado 39 anos desde o filme protagonizado por Catherine Deneuve. O centenário realizador português aproveita as personagens e situações deixadas em 1967 e analisa-as numa visão ou provocação dos actos cometidos do filme anterior. Michel Piccoli regressa ao seu velho papel, Henry Husson, logicamente com idade avançada, que inesperadamente reencontra-se com Séverine Serize (Bulle Olgier que substitui Deneuve) durante um concerto de música clássica, desde então Husson a persegue para rever a sua velha paixão, enquanto a única coisa que motiva Serize a vê-lo é saber exactamente o que ele disse ao seu marido quando este encontrava-se mudo e paraplégico devido a um tiro por um amante dela, que continua a ser um mistério para ela.
Belle Toujour é um filme belo, poderemos considerar assim, quer visualmente (uma fotografia sensível a sombras, as paisagens parisienses e os frames quase cénicos), quer narrativamente (simples, lento e sedutor), é no geral uma descrição de vetustez, decadência e esquecimento, um abraço entre o passado e o futuro o qual Oliveira invoca fantasmas e um senso de desmitificar uma obra pessoal para este que resulta numa espécie de “brincadeira manipuladora”. Contudo temos a sensação que o realizador não é nenhuma criança, conhecendo os seus limites da sua integridade e a da obra de Buñuel como a dele, ou seja, este preserva o mistério envolto de Belle de Jours e as suas preceituas. O que no geral faz com que Oliveira provoque o espectador em encobrir as lacunas deixadas pelo mesmo, mas nunca desfechar-se por si próprio, o estatuo de Belle de Jours está salvo e como ela a fita Belle Toujours ganha um propósito; manter o filme de 1967 vivo, a respirar o seu próprio e respeitável notoriedade.
Como é de esperar, sendo um filme de Manoel de Oliveira, existem muitas cenas mortas que só servem de entulho para uma obra de curta duração (68 minutos de filme para ser exacto), contudo é no realismo temporal que o filme se vinga, tentando sempre manter uma linha de mise en scené sem cortes bruscos. Previsivelmente, Ricardo Trepa veio com Oliveira, aqui desempenhando um barman fascinado na história de Husson, um ofuscado desempenho, prejudicado também por uma irrealidade e pretensiosismo dos diálogos que motivam a algumas cenas disparatadas, como as frases sem diversidade dada pelos garçons no último acto. Outro factor, não negativo, mas descompensador é o facto de Bulle Olgier não ser uma Catherine Deneuve, e a sua troca não é das melhores no que se compara a beleza e talento. Mesmo sendo imperfeito é um filme singular na historia do cinema de Portugal e do culto mundial.
O melhor – A preservação da obra de Luis Muñuel
O pior – as cenas mortas
Recomendações – Venus (2006), Belle de Jours (1967), Lost in Translation (2003)
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