Data
Título
Take
20.9.08

Real.: David Fincher

Int.: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf, Zach Grenier

 

 

As regras foram feitas para ser quebradas. Parâmetros feitos para ser ultrapassados, estamos a viver num mundo paranóico, facilmente em pânico, estamos vivendo entre sociedades cada vez mais compostas por regras, costumes, moralidades, consumo e trabalho para toda a vida, esquecendo por vezes que somos humanos, simples seres vivos com necessidades para sentirmos como tais fomos criados; vivos e para viver. Há nove anos trás estreou-se discretamente entre as nossas salas um filme que viria a tornar-se num ícone do anarquismo, das necessidades mais ancestrais do homem, a fuga possível de uma vida condenada á rotina e aos propósitos secundários, na altura da sua estreia, pouco rendeu nas bilheteiras, mas que conquistou o seu publico (e olha que não foi pouco) e critica nos momentos que passaram, foi um culto legado em videoclube e ainda hoje uma referência rebelde para outros filmes que tentam alcançar a sua marca, falo obviamente de Fight Club – Clube de Combate. Pelo nome podemos achar que se trata de mais uma aventura de Jean Claude Van Damme e o seu kickboxing, mas não, este é um daqueles casos em que o título ilude o conteúdo da fita.

Realizado por David Fincher, um homem que se distinguiu nos videoclips e que já havia alcançado o estatuto de revelação com o seu Seven – Sete Pecados Mortais, volta a trabalhar com Brad Pitt neste thriller psicológico de classe, mas sem boas maneiras. O filme remota á historia de um homem desesperado, Jack (Edward Norton) que ele próprio se classifica como uma “vitima “ do Ikea, tem um trabalho regular e bem pago, mas a sua solidão é sempre acrescida e com ela a perda do sono. Jack começa a frequentar terá+ias em grupo, para poder controlar as suas insónias, nos primeiros dias este sente bem, mas tal sentimento desvanece quando uma mulher misteriosa aparece na sua vida, mais concretamente nas suas terapias de grupo, pondo Jack na estaca zero. Mais tarde conhece o instável Tyler Durden (Brad Pitt) e aí a sua vida muda drasticamente. Tyler é um anárquico e rebelde individuo que aos poucos ensina a Jack, um motivo a viver, um motivo mais que “underground” soube a sociedade que muitos consideram perfeita, mas para este, algo fragilizado e quebradiço. Os dois fundem o Clube de Combate, um clube clandestino em que os participantes terão que lutar entre si, num combate onde o vencer nem ser derrotado tem importância, apenas o conceito de estar a infringir as regras do mundo exterior, o que de inicio se torna puro divertimento, transforma-se algo mais complexo e Jack apercebe que afinal Tyler não é tão boa companhia como julgava.

Edward Norton possui aqui talvez o seu papel mais célebre, na pele do inseguro Jack e Brad Pitt no seu papel mais conceituado, o que viria a tornar-se na imagem de marca. Ambos possuem grandes interpretações, mas é como dupla que o filme realmente funciona, como sabemos Fincher é um perito em criar química entre as suas duplas criadas como em Seven (Pitt e Freeman) e até mesmo em Alien 3, Ripley possui alguma afeição com o seu perseguidor Alien. Helena Bonham Carter, que vemos rotineiramente nos filmes de Tim Burton, e é em Fight Club que encontra o papel que a definiu-a como potente actriz. Em suma; Clube de Combate está recheado com boas interpretações, boas químicas e vários mise-en-scené a ser visto e revisto, e praticamente a ficar na memória cinematográfica. Mas o que de invulgar tem este filme é a sua temática.

Nos dias de hoje, esta “bizarra” obra, povoa-se na história recente como um grito de esperança, uma força invisível tal grito do Ipiranga. Fincher assina o hino da rebeldia, o idealismo, a anarquia em pessoa, mas sempre equilibrando num balanço de bem ou mal, neste caso esse maniqueísmo não existe, apenas escolhas que as personagens fazem. Trata-se do filme mais sofisticado da historia, foge á regra do hiperactivo e “popMatrix, das novas experimentalidades que nos dias de hoje os filmes atrevessem e da louca inserção de efeitos especiais de ultima geração, a sofisticação desta mesma obra deve-se ao facto de Fincher realiza-lo como fosse um videoclip á beira de um ataque de overdose, cheio de estilo pesado para a narrativa e cativante para o olhar, mas se isto podia facilmente cair na imaturidade da geração MTV, o realizador de Seven vai mais longe. Pois bem, é um filme tecnicamente tratado para as audiências mais inconsequentes, mas própria para os mais maduros, porque é a madureza que faz este filme diferente das outras cópias. Enquanto filmes como Wanted (tendo em conta o conceito ser muito semelhante) querem dar uma ideia errada de incentivação á violência, já Fight Club faz isso, mas deixa no espectador o seu ar de dúvida, a sua consciência pensar por ela própria e não assumir na manipulação. Se em Seven, David Fincher conseguiu encerrar o filme de forma inesperada e espectacular, já neste filme, ele o faz de forma inesperada e própria para toda a narrativa, mas espectacular? Bem, o final soa um pouco deslocado, não soa? Talvez seja só minha opinião. Um dos filmes para ver antes de morrer.

O melhor – a realização e a complexidade do argumento

O pior – os espasmos de videoclip por parte de David Fincher

 

Recomendações – Wanted (2008), Matrix (1999), The Dark Knight (2008) 

 

Fight Club” – 10 estrelas ""Fight Club" é a grande obra-prima do cinema contemporâneo que marcou uma geração."Cinema is my Life

 

9/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:33
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5 comentários:
De Filipe Coutinho a 21 de Setembro de 2008 às 14:58
Ah Hugo, estás a falhar pah... Só das 9 a esta obra-prima??? Não pode ser. Mas pronto, já estava à espera de tal heresia. No entanto, fica uma excelente crítica a suportar a ideia. Mas a mim ninguém me tira a ideia do quão imaculada é a fita.

Abraço


De pEdro Almeida a 21 de Setembro de 2008 às 16:41
Por incrível que pareça ainda não esse filme.


De Roberto F. A. Simões a 28 de Setembro de 2008 às 19:57
CINEROAD
http://cineroad.blogspot.com/

Crítica: Tão nietzschiano, tão perigoso, tão irresistível...

Brad Pitt: excelente.
Edward Norton: excelente.
Helena Bonham-Carter: excelente.
Montagem de James Haygood: excelente.
Banda Sonora de John King e Michael Simpson: excelente.

A genialidade reside não só nas excelentes interpretações e prestações da equipa técnica. A genialidade reside no argumento de Jim Uhls: a metáfora impera e a mensagem é muito forte. É crítica, pura crítica ao consumismo, à falta de ideais, ao domínio do lobby capitalista. É freudiano, pós-moderno, de uma enorme profundidade psicológica. É radical, serve-se da anarquia e violência como recurso de estilo. Humor muito negro, muito satírico. Completamente provocador e sem complexos. A ironia impera. É o caos contra uma ordem corrupta e desumana: uma falsa ordem, a ordem dos mais ricos.

David Fincher está genial, a originalidade brota-lhe em cada fotograma. Clube de Combate é uma obra-prima e a melhor obra da sua carreira. Um dos melhores filmes de que há memória.

CINEROAD
http://cineroad.blogspot.com/



De miguelpinto a 12 de Novembro de 2010 às 19:29
Crítica muito bem escrita.. Também adorei um filme, se bem que penso que existem alguns erros..
(spoilers):

não entendo, quando o narrador pergunta ao Angel face :- Onde está o Tyler? e o Angel face responde:-A 1ª regra do projecto destruição é que não se pode falar do projecto..
Não percebi se aquela conversa foi imaginação, pois se foi real, não fez sentido a resposta do angel face, visto que o narrador e tyler são a mesma pessoa.

Também quando o narrador procura tyler, e pergunta a um empregado, e este responde:- não sei. Quem me dera poder ajudá-lo, senhor (e pisca o olho).. é porque sabia quem ele era, logo, deu também uma resposta parva..

Alguém me pode responder?
não percebo o que queres dizer quando referes "espasmos de videoclip". Podes-me dar um exemplo?
abraço


De Francisco Quintas a 15 de Abril de 2017 às 02:48
Talvez não seja o meu filme favorito do David Fincher. Contudo é um daqueles filmes que merece muito debate, estudo e paciência. O filme foi, juntamente com American Beauty, a explorar e a satirizar a ideia da vida rotineira perfeita americana. Claro que os dois filmes abordaram de maneira diferente, mas ainda bem. Os assuntos abordados merecem várias abordagens. Se alguém falar que já sabia que eles eram a mesma pessoa, esse alguém é um mentiroso. Sem dúvida um dos melhores twists de sempre! Boa crítica como sempre. Tenho sempre alguma coisa a aprender.

Abraço


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10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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