31.5.17

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A Warner Bros e a Legendary vão se unir para levar aos cinemas Godzilla vs. Kong, um filme a ser lançado em Maio de 2020 que vai juntar Godzilla e King Kong no mesmo enredo. Depois dos bem-sucedidos filmes de Godzilla [ler crítica] e Kong: Skull Island [ler crítica], os estúdios estão preparados para criar um Universo Partilhado, tendo como base estas criaturas gigantescas, os kaijus (termo japonês para monstros).

 

Já a ser preparado a sequela de Godzilla, com o intuito de introduzir mais bestas neste franchise, foi divulgado que Adam Wingard (You're Next, The Guest e Blair Witch) irá tomar as rédeas do esperado confronto entre o "rei lagarto" e a "oitava maravilha do Mundo".

 

Convém ainda referir que Godzilla e King Kong já se encontraram uma vez nos cinemas, em 1962, num filme da Toho com a assinatura de Ishirō Honda.

 

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publicado por Hugo Gomes às 11:01
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30.5.17

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Encontra-se actualmente a ser desenvolvida uma nova versão do filme de culto The Blob. O projecto encontrou-se no mercado de Cannes em busca de financiamento, tendo, segundo algumas fontes (via Bloody Disgusting), encontrado "refúgio" em alguns investidores chineses. As mesmas fontes adiantam que Halle Berry será a protagonista. 

 

O realizador Simon West (Con-Air) estará por trás do projecto, revelando que esta nova visão da gelatinosa criatura alienígena vai ser refeita com os modernos mecanismos CGI. A produção desta nova fita está a cargo de Richard Saperstein e Brian Witten (The Cell). Vale a pena lembrar que Rob Zombie chegou a estar ligado à realização deste remake em 2009.

 

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A primeira versão de The Blob data do ano de 1958 (com o titulo português de Fluido Mortal) e contou com Steve McQueen no seu primeiro papel de protagonista no cinema. A história remete a uma criatura vinda do espaço, cuja forma viscosa é corrosiva, alimentando-se principalmente de carne humana.

 

O filme teve uma sequela em 1972 por Larry Hagman e um remake em 1988 (Blob - Outra Forma de Terror) por Chuck Russell.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:29
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28.5.17

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Em 2015, o vídeo da "birra" de Ruben Östlund tornou-se viral. O desapontamento pela ausência do seu Força Maior entre os nomeados ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi alvo de chacota, mas o realizador já pode olhar para atrás e rir da situação, a Palma de Ouro "caiu" nas suas mãos. E agora?

 

The Square declarou-se como o grande triunfante da noite glamorosa do Croissette, o conquistador de uma Competição que, no geral, decepcionou tudo e todos. Segundo as más línguas, a qualidade desta Selecção derivou do interesse de Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, em promover o seu diário "Sélection Oficielle" que fora lançado nas bancas francesas, deixando assim, pouca dedicação ao alinhamento da Competição Oficial. Nela notou-se uma aposta cada vez mais nos mesmos nomes do famoso "tapete vermelho", a fascinação pelo artista e não pela sua obra, e uma escassez significativa do cinema norte-americano, aquela que fora sempre vista como a grande conquista da dinastia Frémaux.

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Entretanto, um dos filmes maiores da montra, 120 Battemente par Minutte, de Robin Campillo, não saiu de "mãos vazias" deste certame. O Grande Prémio de Júri condiz tão bem, e segundo consta, Pedro Almodóvar emocionou-se como este activismo da comunidade LGBT e dos seropositivos pelos seus direitos de vida. Às vezes o cinema é isso … emoções, e acima de tudo, estes prémios demonstraram mais sentimento que, propriamente, imparcialidade. Notou-se assim, uma grande diferença entre os seleccionados e as escolhas dos jornalistas e críticos.

 

Mas este júri fez História no festival ao atribuir o prémio de realização a Sofia Coppola, a segunda mulher a vencer tal distinção, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years. A filha do cineasta de The Godfather e Apocalypse Now, resultou no melhor que esta readaptação de The Beguiled tinha para oferecer, um filme vazio que cobardemente tenta fazer oposição feminina com a versão de '71. Nesta perspectiva, os valores técnicos sobrepõem-se ao anoréctico do enredo e da falta de ambição das personagens. Enquanto que no original era perceptível uma tensão entre as figuras de Clint Eastwood e Geraldine Page, no trabalho de Coppola as encarnações de Colin Farrel e Nicole Kidman a operarem como figuras inaptas de tragédia e de suas representações politicas.

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A vitória da realização remeteu-nos a outro "fantasma", a atribuição do prémio máximo do festival a uma mulher, cuja primeira e última vez aconteceu em 1993, com The Piano da australiana Jane Campion. Mesmo sob o desejo de Jessica Chastain, parte do júri, em ver mais mulheres em competir para a Palma, a verdade é que nem uma das candidatas apresentou-nos qualidades devidas para a distinção. Sofia Coppola poderá ter sido a melhor da "turma", visto que Noami Kawase, uma das "favoritas" do festival, embarcou com uma obra de ideias demasiado presas ao meloso e à falta de objectividade, para além Lynn Ramsay, que nos apresentou um ensaio vazio de violência e, sobretudo, um filme incompleto.

 

Falando nesta última, o pior de todo o Festival, e inacreditavelmente distinguida com dois prémios, o de argumento, o qual partilhou com The Killing of a Sacred Deer, do grego Yorgos Lanthimos, um exemplo mais consciente da sua violência visual e psicológica, e o de Melhor Actor, Joaquin Phoenix a roubar as hipóteses de triunfo a Robert Pattinson na obra dos irmãos Safdie, visto como o favorito à categoria.

 

Contudo, o trabalho do russo Andrey ZvyagintsevLoveless, exibido no primeiro dia do Festival, não foi esquecido pelo Júri [Prémio Especial de Júri]. O retrato de uma humanidade cada vez mais longe de afectos e a dominância da tecnologia no nosso quotidiano fundida com uma realização impar e milimetricamente pensada pelo realizador do anterior, o muito bem-sucedido Leviathan, faz "refém" o paladar da trupe liderada por Almodóvar. Mas aí, também a instalação de Ruben Östlund, não esquecer o seu grande feito. O homem que destroçou a "maldição" Haneke, que infelizmente, o seu "best-of" não contou com nenhuma premiação na mais invejável mostra cinematográfica do ano.

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:09
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Habemus Palma! Ruben Östlund pode ter falhado a nomeação aos Óscares de Melhor Filme Estrangeiro com Force Majure, em 2015; porém, chega-nos a compensação com a atribuição do prémio máximo do certame de Cannes, com The Square, entregue pelo presidente do júri oficial Pedro Almodóvar

 

Mas o grande vencedor da noite foi You Were Never Really Here, de Lynn Ramsay, que sai da Croisette com 2 prémios: o de Melhor Argumento (em ex-aequo com The Killing of a Sacred Deer) e o de Melhor Interpretação Masculina (Joaquin Phoenix). Diane Kruger, sem surpresas, vence a categoria feminina pela interpretação em In the Fade, e o muito elogiado 120 Battement par Minutte, de Robin Campillo, é laureado com o Grande Prémio de Júri.

 

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Sofia Coppola, entretanto, faz história no Festival: torna-se a segunda mulher a vencer o Prémio de Realização pela readaptação da obra The Beguiled, 56 anos depois de Yuliya Solntseva, com o filme Chronicle of Flaming Years.

 

Nicole Kidman, que contou com três filmes selecionados na programação deste ano (para além dos episódios de Top of the Lake, de Jane Campion), foi homenageada com o Prémio de 70º Aniversário.

 

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Palma de Ouro – The Square, de Ruben Östlund

Grande Prémio de Júri – 120 Battement par Minutte, de Robin Campillo

Premio de Realização – Sofia Coppola por The Beguiled

Premio de Interpretação Masculino – Joaquin Phoenix em You Never Really Here, de Lynn Ramsay

Premio de Interpretação Feminina – Diane Krugger em In the Fade, de Fatih Akin

Prémio Especial de Júri – Loveless, de Andrey Zvyagintsev

Prémio de Argumento: The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos (ex-aequo) You Were Never Really Here, de Lynn Ramsay

Curta-metragem: Une Nuit Douce, de Xiao Cheng Er Ye

Caméra d’Or: Jeune Femme, de Léonor Serraille

Prémio de 70º Aniversario – Nicole Kidman

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:46
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27.5.17

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A Fábrica do Nada, a terceira longa-metragem de Pedro Pinho, venceu o Prémio FIPRESCI (crítica internacional) das secções paralelas, o qual engloba a Quinzena de Realizadores e a Semana da Crítica. A tomada de posse dos trabalhadores de uma fábrica de produção de elevadores, tem sido altamente elogiado pela crítica internacional, o realizador Pedro Pinho esteve presente na cerimónia de entrega do galardão, juntamente com a sua equipa, tendo a oportunidade, após os agradecimentos, de manifestar revolta contra a Lei Seca e o panorama actual que o Cinema Português atravessa.

 

120 Battements Par Minute, de Robin Campillo, foi consagrado com o Prémio FIPRESCI da Competição Oficial, o activismo vivido pela comunidade LGBT e dos seropositivos que desejam acima de tudo viver, conquistou igualmente a crítica internacional, é visto como um dos grandes concorrentes a tão cobiçada Palma de Ouro. Tesnota, de Kantemir Balagov, vence a categoria Un Certain RegardEnquanto, Naomi Kawase e o seu Radiance, renderam o Prémio do Juri Ecumenico.

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publicado por Hugo Gomes às 16:45
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26.5.17

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Queria realmente não estar aqui!

 

Para entendermos a escocesa Lynn Ramsay teríamos que navegar pela sua anterior carreira e percebermos o que a move profundamente – o trauma. Contudo, este You Were Never Really Here é um exemplo da dissipação miraculosa do efeito de trauma; o que restou foram as imagens, anexadas a um vazio alarmante, onde a violência passa daquele território inteiramente masculino e transforma-se num universo recontado sob o sujeito de ‘ela’.

 

Digamos que este misto de Taxi Driver com Drive (um cocktail de Scorsese e Refn - este último, de certa forma, a invocar as influências do primeiro), é um exercício de agressividade que se exerce de fora para dentro, ao invés do dentro para fora. As imagens perdem o seu sentido mais intrínseco, assumindo-se como protótipos de um engenho visual. Triste será dizer, que Ramsay falha o alvo numa intensa deambulação narrativa. Quanto ao enredo, as pistas são nos deixadas como migalhas de pão se tratasse, encontramos o rasto por momentos, mas este tende desaparecer face à gula dos “pássaros”. Pássaros, esses, os artifícios animalescos que nos conduzem a uma indiferença enorme entre as personagens, e a realizadora perante o material adaptado (visto tratar-se numa pequena história de Jonathan Ames), incutindo uma estética sem propósitos, quer criativos, quer induzidos narrativamente.

 

Joaquin Phoenix ainda em modo I’m Still Here neste You Were Never Really Here, uma ligação artística do seu modus operandi de interpretação, um homem pronto a emanar a sua força para transportar um filme à pendura como um Atlas. Mas os seus esforços são em vão. Ramsay polvilha o filme com alguns truques visíveis de inércia, entre os quais as rápidas transposições, de forma a simular um sistema de videovigilância, atenuando o explícito da violência embarcada, ou a rádio que nunca se cala, dando-nos um filme sonoro dentro deste filme, estreitamente visual. Infelizmente os truques não resgatam este “freakshow” da penumbra do seu ser. Eis um fracasso completo, Ramsay com pretensões de invocar o seu ‘eu’ violento, dando-nos preocupações quanto ao seu estado. Depois disto, haja alguém que critique o Refn.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Lynn Ramsay / Int.: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alessandro Nivola

 

3/10

publicado por Hugo Gomes às 23:42
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25.5.17

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Peripécias a dobrar!

 

A infelicidade bovariana e a repreensão sexual da protagonista seriam belíssimos pontos de partida para uma caprichosa fecundação neste thriller erótico. François Ozon usufrui da sua transgressão sexual e psicológica para minar neste seu L’Amant Double um intenso clima de ebulição, e com isso, presenteando-nos um magnificente artifício visual que vai desde a transposições vaginais, split screens invisíveis e um fetiche sexual onírico. O realizador anexa esse apetite estético com uma auto-reciclagem, há uma busca pelo Jeune & Jolie, onde Marine Vacth novamente segue em modo “stalker” dos seus desejos, mais uma vez, apta a explorar esse seu inerente desconhecido.

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L’Amant Double é um cruzar de dois olhares, o desconhecimento tormento de géneros (a sexualidade encontra-se no limiar da sua fronteira) e do jogo de ilusões que Ozon pedala com alguma classe. Há Brian DePalma aqui, existe citações a Dead Ringers de Cronenberg, do outro lado do espelho, e o visual possui aspirações a Refn. Por outras palavras, L’Amant Double é uma orgia de influências que, para nossa infelicidade, geram um nado morto, porque simplesmente o argumento não segue essa mesma ambição, a essa narrativa visual. Assim, sucessivamente vamos cedendo a um terreno pantanoso, aos truques baratos que fazem descortinar um embuste, os lugares-comuns do território do thriller mais convencional e o plot twist que nos arrebata com uma incoerência impossível.

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Engolimos a seco essas revelações e depressa tentamos encaixá-los na já exposta narrativa, ao contrário de um Hitchcock (citando o óbvio dos cineastas desse sentido), onde a intriga sofre com uma metamorfose encadeada com a sua revelação, alterando a nossa perspectiva, mas consolidando-a com o estabelecido desde então. L’Amant Double tem que “colar” a cuspo e a sémen esse mesmo twist, e o resultado é um verdadeiro acidente de proporções catastróficas. Digamos que Ozon embateu numa parede de concreto, e é pena, porque os primeiros actos prometiam. E que promessas eles nos davam.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: François Ozon / Int.: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:49
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Nothing Else Matters!

 

As Máquinas não podem parar, e o Cinema deve acompanhar todo esse processo de auto-sustentabilidade. A Fábrica do Nada, a quarta longa-metragem de Pedro Pinho, é esse conceito simultâneo de fazer cinema e falar de política, um retrato de um activismo em pleno passo de reflexão. Trata-se de um filme baseado na peça de Jorge Silva Melo, por sua vez inspirada na experimentação de auto-sustentabilidade da fábrica de elevadores Otis, durante 1974 - 2016, uma ideia de absoluta esquerda a invocar os fracassos de Torres Bela.

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Quando a austeridade avança ameaçando postos de trabalho, os trabalhadores tomam conta da fábrica, expulsando os seus patrões e operando através de didactismo. O "Nada" do título, é essa espera que intervala entre o “golpe de estado” e o fim do sonho esquerdista, bem como a discussão política, um avante anti-capitalista que resulta na própria consolidação com o movimento globalizado. Pinho trabalha essas ideias dando-nos um cinema que, acima de tudo, é um próprio experimento, incutindo a ficção como uma anestésica perspectiva quase mundana a uma ciência que muitos parecem evitar - a política. Sim, A Fábrica do Nada é para além de mais, um filme politizado que aposta numa duo-linguagem para a difusão da sua própria mensagem.

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É a docuficção, como Portugal sabe muito bem fazer, em que cada caminho serve-nos como um atalho (a ficção) ou o prolongado e completo (documentário). Em certas alturas, Pinho inspira-se em Miguel Gomes para incutir a sua veia de crítica, não por vias da sátira, mas na objectividade das suas imagens. De tal forma que A Fábrica do Nada espelha uma breve história dos gestos políticos que assombram a nossa Nação, do outro lado ele resume as tendências cinematográficas do nosso panorama recente, inclusive a nossa persistência em reter as memórias em forma de imagens. É como se a película (neste caso o digital) conservasse e servisse de uma extensa voz para estes silenciados.

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O final não é eterno, mas terno, é a declaração que esperávamos imensamente no nosso Cinema, a vontade de falar politica, politizar-se, sem se definir por uma esquerda, por uma direita, por um centro, ou qualquer outro lado. Fala-nos de experiências, mas nunca de posições, nem de oposições. Apesar dos eventuais discursos resultarem em impasses de uma linguagem mais directa e menos cientificada (tal como acontecera no anterior A Cidade e as Trocas, Pedro Pinho receia o desperdício na selecção de imagens), A Fábrica do Nada é um filme obrigatório para qualquer português, e não só … Uma obra dedicada e envolvente.

 

Filme visualizado na 49ª Quinzena de Realizadores de Cannes

 

Real.: Pedro Pinho / Int.: Carla Galvão, Dinis Gomes, Américo Silva

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:22
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Encontro de Irmãos!

 

O percurso dos irmãos Safdie leva-nos aos imprevistos da noite, num conto que visa a violência urbana mas que nela investe o amor fraternal, uma faísca de esperança nesta corrompida desumanização que se abate entre nós. Poderia ser mais um retrato influenciado no neo-realismo ou no vérité de que derivava o anterior Heaven Knows What. Porém, ao invés disso, deparamo-nos com uma obra envolvida em ácidos, nas cores neons que tomam conta das imagens e da música techno que ecoa para nos trazer essa desesperada atmosfera. Robert Pattinson é esse peregrino, um criminoso que após um golpe falhado, resultando na detenção do seu irmão, tenta de tudo para conseguir libertá-lo.

 

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Para o bem dele, para o seu bem, e para o bem desta cidade cada mais adereçada a um oportunismo individualista, esta corrida contra o tempo (ao bom jeito das noites atribuladas de imprevistos, tais como After Hours, de Martin Scorsese), Good Time é um filme que fala sobre todos nós, mas é acima de tudo um diálogo entre os Safdie. Um intimismo, não individualista, mas colectivo. A sua relação, a sua história, as suas emoções espelhadas nos olhares desesperados de Pattinson (por sua vez a escolha de Ben Safdie a desempenhar o irmão encarcerado), como se o antigo ator de Twilight emanasse uma espécie de heterônimo de Josh [Safdie]. Novamente, o cinema desta dupla de irmãos remexe-se pela deambulação citadina, como se continuassem nesta imensa peregrinação pela selva de asfalto, sem rumo algum.

 

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Há quem aponte o efeito visual e sonoro de um agressivo videoclip minimalista e animalista, amarrado aquelas equívocas semelhanças com obras de Refn e a sua respectiva e superlativa atribuição estética, mas no seio de todo este novo tratamento, existe, com certeza, os nossos ‘“velhos” Safdie. O filme e o seu meta-filme, unidos numa só obra.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Ben & Josh Safdie / Int.: Robert Pattinson, Ben Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:04
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24.5.17

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Os Rituais da Guerra dos Sexos!

 

O que realmente falta a este novo cinema americano, é a sua destreza na provocação, é a escapatória dos moldes implantados pela indústria, mesmo que, no caso de Sofia Coppola, ela represente uma espécie de outsider do badalado cinema mercantil. The Beguilled é a quinta longa-metragem da filha do lendário realizador de The Godfather e Apocalypse Now, uma aventurosa que tem vindo a emancipar-se da sombra do seu pai e desta forma difundir a sua voz no legado cinematográfico de Hollywood.

 

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A conquista desta feita é um filme de 1971 de Don Siegel, protagonizado por Clint Eastwood, decorrida numa América mergulhada na sua Guerra Civil, onde um soldado da união, ferido, é acolhido e tratado por uma jovem rapariga sulista numa escola feminina. A referida obra espelhava uma guerra que se travava a metros do cenário da acção, uma casa onde se debatia dois lados ideológicos, assim como dois géneros em plena dominância. Contudo, bem verdade, que a versão de 1971 adquirir um rígido tom masculino, um filme sobre uma violência invisível que nos levaria, a certo ponto, à demonização da própria mulher. É aí que Sofia Coppola tem as armas perfeitas para expor a sua visão enquanto mulher. Notavelmente verificamos essa perspectiva por uma câmera focada nesta comunidade de “amazonas”, mulheres restringidas ao seu refúgio enquanto homens combatem as suas políticas. Averiguamos que o sexo masculino, por mais diferente seja a farda, continua, no seu fundo, como um ser de ambições dominantes, um verdadeiro elemento alfa em construção. Os dois filmes dialogam um com o outro nesse sentido. Porém, a versão de Coppola sai a perder num determinado ponto, é demasiado anorético.

 

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Uma hora e meia é pura velocidade, o espectador nunca consegue ter a noção de espaço nem de tempo do filme, nunca chegamos a conhecer verdadeiramente estas personagens (e aqui não se trata de mistério, é mesmo falta de ligação) e nota-se, verdadeiramente, um senso cosido do politicamente correcto. É um filme inofensivo que se quer fazer grande, mas que esquece do ainda mais óbvio, de emanar a sua própria ideologia, a capacidade de estabelecer um clima de conflito, quer interior, quer exterior. Sofia Coppola torna-se incapaz de tal coisa e o mesmo se aplica à sua relação com a violência. Os actos cometidos poderiam ter o mesmo conteúdo que uma banal conversa de café, não se vive, não se sente, não se respira, é pura automatização (ainda há quem acuse de Tarantino ter tornado tal num gesto confundível a quotidianos).

 

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Contudo, Coppola significa estética, a fotografia trabalhada e agradavelmente primitiva, a luz das velas que aquecem a mais densa escuridão (The Beguiled encontra-se no mesmo território que um Barry Lyndon), os bosques que não são mais que fronteiras para uma Guerra a acontecer longe, os canhões ouvem-se constantemente. Nesse sentido, entramos noutro atributo de The Beguiled, o som. O eco que intrusa nos diálogos das personagens, assim como os passos ocasionais que nos atribuem um plano sugestivo de espaço sonoro (pena que ela não consolide isso com a narrativa). The Beguiled é isso mesmo, uma produção construída sob adereços, sob cores e ruídos, mas o vazio acaba por reinar nesta guerra entre sexos. É pena, porque o filme de ’71 precisava do seu sexo oposto, com igual capacidade para transgredir. Longe do memorável.

 

Filme visualizado no 70o Festival de Cannes

 

Real.: Sofia Coppola / Int.: Kirsten Dunst, Nicole Kidman, Elle Fanning, Colin Farrell

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:27
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23.5.17

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Bomba?!! Ainda nem havíamos começado a ver Le Redoutable, o tão esperado biopic do sempre avant-garde Jean-Luc Godard, quando o Theatre DeBussy foi evacuado. A segurança, de forma a acalmar os ânimos e a atenuar o pânico que se poderia instalar, referiu que se tratava de um exercício, mas outras fontes sugeriam uma ameaça de bomba o que, tendo em conta que estamos viver num Festival com uma segurança mais apertada, acaba por se reflectir nos atrasos das projecções, nas demoras, nas filas intermináveis e nos processo de segurança que se alteram, dia após dia.

 

Mas tudo não passou disso mesmo, uma ameaça, e assim com algum receio seguimos para a apresentação de Le Redoutable, a visão de Michel Hazanavicius ao cineasta incontornável. Como é anunciado durante esta história, Godard praticamente inventou o cinema. Por palavras mais honestas, reinventou aquilo que víamos no cinema, experimentou o som, a imagem, as ideias, e por fim, emanou a política de forma a abraçar esta arte, tal como fizera, anos antes, Serguei Eisenstein. Le Redoutable remete-nos a uma fase crucial do realizador, o término das rodagens de La Chinoise, a sua relação perturbada com a actriz Anne Wiazemsky, e a sua inclinação para um activismo político que alterou para sempre a sua visão de fazer Cinema. Hazanavicius é um homem de máscaras e, tal como demonstrara com O Artista, um realizador ligado ao passado, convicto em mimetizá-lo. Em certa parte, Le Redoutable é um La La Land sobre a filmografia de Godard. É fácil gostar da obra, as referências, as piadas visuais, sonoras e os maneirismos dos actores facilitam essa nossa ida à memória cinéfila.

 

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Mas Le Redoutable é ainda um filme de uma falsa confiança, que por vezes dá um braço ao público de forma a auto-humilhar-se e cair no registo de sinceridade. Infelizmente, não existe tal feito, o Godard de Louis Garrel é um clown digno de slapstick, e o humor passa de godardiano até ao estilo inimitável dos Monty Python. Por um lado há que admitir, que mesmo não indo longe, Hazanavicius consegue um filme pelo qual pode despertar um interesse súbito em conhecer o homem que homenageia, fazendo melhor papel que O Artista.

 

Entretanto, já que falámos de memória cinéfila, porque não falar de Jeannette: L’Enfance de Jeanne D’Arc, um musical de Bruno Dumont, que é tudo menos um exemplar do género? O público foi saindo (e não foram poucos) quando se apercebeu da blasfémia da produção num musical deselegante, com uma melodia arrojada e atípica, assim como os não-actores que, de certa forma, tentam cantar ou dançar sem qualquer formalidade onírica. O musical recebeu o seu atentado terrorista, mas felizmente era o tipo de ataque que esperávamos, uma desconstrução do género, uma heresia religiosa e histórica de fazer corar os enganados. Reconheço que este poderá ser o melhor das obras de Dumont, um mais absurdista e igualmente arrojado. A sessão fez-se com imensas casualidades, foi aplaudida de tamanha euforia. As palmas eram, obviamente, direccionadas a Bruno Dumont que se encontrava na sala. Temos um Godard dos tempos antigos, um homem que conhece o cinema, mas que está pronto a desafiá-lo. Viva a delinquência cinematográfica!

 

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Recebido de forma diferente foi The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos. Uma aspiração ao género de horror, onde o tom mecanizado e frio foi-se perdendo gradualmente na narrativa, para dar origem à mais dolorosa das decisões chaves. As vaias ouviram-se, provavelmente das aproximações desse género, visto que Cannes não suporta abordagens diferentes do chamado world cinema. Ou, por outro lado, o final pesaroso e indigesto tenha de certa forma abalado as morais e éticas da imprensa mais politicamente correcta. É a violência sem um ponto de partida, e a vingança sob uma perspectiva mirabolante, e o correctíssimo técnico a ser atacado por um espírito em plena convulsão. Com Colin Farrell e uma trágica Nicole Kidman (grande aposta aos prémios de interpretação feminina), The Killing of the Sacred Deer será um dos grandes filmes das próximas temporadas.

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:35
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23.5.17

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Olhar de forma radiante!

 

Naomi Kawase deve pensar que fazer Cinema é o mesmo que pastelaria, que pode abusar assim no açúcar e tratar o espectador como um diabético sob vontades suicidas. Radiance (Hikari) é o filme que precisava de mais ciência e menos emoção, até porque é fácil cair na história dos "coitadinhos" ao abordar personagens cegas e outras, como é o caso do co-protagonista (Mantarô Koichi), em contagem decrescente para o igual estado.

 

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O porquê de insinuar que falta mais cabeça e menos hinos do coração? Simples. Kawase tem ideias iniciais, tais como o cinema para invisuais onde as palavras adquirem o poder da imagem, obviamente alicerçado à imaginação, sentido apurado para muitos dos seus utentes. Depois existem os ocasionais POV (Point-of-View) que transportam o espectador para a situação vivida, transmitindo um tormento de impossível compreensão para quem ainda possui todas as capacidades de visão.

 

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Infelizmente, essas ideias são descartadas porque a nossa realizadora está desesperada em emocionar o espectador, em utilizar a música como uma linguagem manipulativa, de orquestrar protagonistas de fraco desenvolvimento (mesmo assim, há que reconhecer o esforço e a sensibilidade da actriz Ayame Misaki) ou de "castigar-nos" com os milésimos pores do sol, simbolismos baratos e cores quentes com objectivos "kamikazes" para o nosso coração. Não, a emoção não se força. A emoção é algo vivenciado naturalmente.

 

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Naomi Kawase confundiu então o poder das imagens e da sonoplastia (essa riqueza sensorial que o Cinema nos pode oferecer), confundiu as personagens e as suas desesperadas situações e, pior, confundiu o tom meloso que nunca desgruda de nós. Diríamos penoso? Não é bem isso, mas sim sobrelimitado à sua ideia de cinema. E infelizmente as ideias ficaram à porta e dela nos acenaram: um filme falhado e demasiado radiante.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Naomi Kawase / Int.: Tatsuya Fuji, Mantarô Koichi, Ayame Misaki

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 14:48
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22.5.17

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E viveram felizes para sempre …

 

Happy End (Final Feliz) será que vamos acreditar? Michael Haneke não é dotado de finais felizes, mas quem é que realmente quer saber disso? O "final" não funciona como um juízo, uma redenção, nem uma recompensa moral. Nem sequer existe tal coisa que é um "final feliz". A morte encarrega-se disso, e o tempo é apenas o argumento para este persistir. Mas é no referido "final feliz" que a piada reside, de um humor negro e absolutamente mórbido.

 

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Há que entender que Haneke é um manipulador, um dos maiores manipuladores do cinema, sem querer persistir que existe um tom traiçoeiro, um engano. Não, quem se sentirá provavelmente traído são as suas personagens, condenadas a respirar neste universo tão hanekianoHappy End é talvez, antes de mais, um filme que consolida esse mesmo Universo, essa carreira de emoções fortes e incómodos constantes. Filmado em Calais, o filme assume-se como um conto de burguesia tão próxima da soap opera, mas até aqui somos enganados. As personagens que se concentram nas suas tramas são violentamente atiradas ao grande abismo, esse que as levará a uma "bolha", a um isolamento, uma quarentena. A burguesia, assim descrevendo, as classes sociais que o cinema francês sempre adorou retratar, e as diferenças, veiculadas em flashes de quotidiano.

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Sim, Michael Haneke levou Happy End para Calais, a cidade francesa mundialmente conhecida pelo problema dos fluxos migratórios. Todavia, não se trata de um filme de refugiados, quer dizer, não nesse ponto de vista. Os refugiados são outros, a família, que se refugia, cada um à sua maneira, nos seus mundos, nas tramas que tentam orquestrar com tamanha plenitude. Eles isolam-se, criam e mantêm um ecossistema de aparências, de sustentabilidade, mas novamente, são enganados. Haneke ... Haneke ... o que andas realmente a fazer?

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Neste universo é claro, a prisão tecnológica que arranca de um jeito tão cúmplice, o uso das novas plataformas audiovisuais leva-nos à memória de Caché, e a imponentes testemunhas que nos tornamos guiam-nos directamente para os pesadelos vividos de Funny Games. Sim, as redes sociais, a partilha online, os smartphones e todas as possibilidades que nos prendem num autêntico calabouço. Tornamo-nos psicopatas, as nossas personagens tornam-se psicopatas e o espectador também. Este último contido, impedido pela câmara de Haneke que silencia os diálogos à distância, coloca-nos a léguas da acção, imponentes, indefesos, tornamo-nos assim as personagens.

 

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Meticulosamente, Haneke vai construído o seu ambiente, uma atmosfera de iminente catástrofe. Sentimos isso, essa faca aguçada que nos ameaça. Somente ameaça. E é então que chegamos às festas; a primeira ao som de um angelical violino e um discurso de boas-vindas pela nossa Isabelle Huppert; somos convidados a um cruzar de olhares, a um clima de suspeita, ao nascer de um "monstro", a relações proibidas secretamente vividas no ar, às conversas soltas que nos confundem mais e mais. Saímos a meio, e partimos para outro festejo. O caos já é elevado, as consequências são fatais, fazemos corar as implantações de Luis Buñuel, os burgueses "estão em maus lençóis".

 

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Haneke fala de violência calmamente, mas de forma dolorosa. É como Amour (este filme bem poderia funcionar como uma sequela vistos os "easters eggs"), tecido frágil e de instintos imprevisíveis. Este é o filme que nos compreende e ao mesmo tempo nos interroga sobre a nossa natureza. A burguesia é uma piada, mas sem o seu final feliz.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Michael Haneke / Int.: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Toby Jones, Franz Rogowski

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 23:54
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Que a caça comece!

 

Yorgos Lanthimos incomoda, tira-nos o chão das nossas morais, desafia o politicamente correto e sob o jeito meticuloso e calculista conduz o espectador numa viagem para o além sentido. The Killing of a Sacred Deer é um filme frio, na sua teoria, onde as personagens, como é hábito na sua filmografia, comportam-se de forma mecanizada, operadas por um texto que não lhes condiz e movimentando planejadamente cada gesto.

 

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Mas ao contrário do anterior The Lobster, a nova aventura de Lanthimos adquire um surpreendente sentimento de frivolidade colmatada, as personagens tentam gradualmente sair dos seus velcros, sonham alcançar a humanidade não reconhecida dos seus “bonecos”, até porque o realizador opera como um psicopata, psicologicamente falando, conhecendo as barreiras das éticas ocidentais e mesmo assim transpondo-as de livre vontade. Verdade seja dita, The Killing of a Sacred Deer não está longe do território do cinema de terror, muita vezes desafiante nessas questões morais, mas não estamos a referir um filme de terror, estamos a falar de uma estranha distopia de Lanthimos - não outra sociedade alternativa, e sim, a nossa realidade onde um elemento “alienígena”, algo impróprio, parece criar as suas raízes.

 

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Tudo começa com um cardiologista (Colin Farrell), de família feita (esposa e dois filhos), que visita constantemente o filho de um falecido paciente seu, provavelmente culpado pela sua morte. O rapaz apresenta traumas psicológicos, o espectador fica na dúvida quanto a esses mesmos tormentos, até porque os maneirismos anormais confundem-se com a “normalidade” a la Lanthimos (e do sempre colaborador argumentista Efthymis Filippou). Contudo, chega o momento em que percebemos que estes ciclos pretendidos corrompem-se quando o cardiologista é ameaçado por uma escolha. A escolha que o fará redefinir novamente como humano sentimental, ou talvez expondo a sua frieza no seu estado mais puro e esterilizado. Sim, essa escolha, essa difícil escolha requer na morte de um ente querido, e apenas ele terá que anunciar a sua mesma morte.

 

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Lanthimos continua com o seu estilo obcecado pela estética. Esta, limpa e mecanizada, uma banda sonora esquizofrênica (entre o rompante e minimalista, a condizer com o espírito do filme), personagens atípicas e aparentemente sem sopro de vidas, reféns da sua sociedade. A inovação de Killing of a Sacred Deer advém desse gradual rompimento com as suas próprias regras, conservando ainda o seu modo de provocar de maneira subtil, mas enganosamente explosiva o público. A vingança confrontada sob outra perspectiva e uma atormentada Nicole Kidman são os tiros certeiros para a morte deste “veado sagrado”.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Yorgos Lanthimos / Int.: Nicole Kidman, Colin Farrell, Barry Keoghan, Alicia Silverstone

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 12:31
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21.5.17

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Um musical que canta sem intenções de encantar!

 

Bruno Dumont não acredita em musicais e reflete isso nesta sua nova criação – Jeannette, l'enfance de Jeanne d'Arc – a musicada juventude da mais amada das heroínas de França, onde o absurdismo do género torna-se num veículo de provocação. Já vimos tais tons a serem experimentados nas suas duas últimas obras (Ma Loute, P'tit Quinquin), mas até agora nunca tínhamos sentimos tamanha heresia em ridicularizar um género.

 

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Diríamos antes que Jeannette é um anti-género, uma blasfémia aos musicais. Aqui, os não-actores fazem o melhor que podem nas suas cantorias. Dumont afirmou que nada fora filmado em playback, tudo é verídico, as vozes desafinadas, ou simplesmente ausentes de dotes musicais, as coreografias atípicas, algo entre o estilo metaleiro e do frenético trance, as questões religiosas discursadas com uma extrema opacidade e uma deselegância de toda esta natureza musical ilustrada num cenário apenas, citando constantemente o seu anterior filme (Ma Loute).

 

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Jeannette é o Je vous salue, Marie, uma afronta ao sagrado, a desmistificação do estabelecido, a prece de Joana D'Arc (Jeanne Voisin) cuja divindade que apela encontra-se do outro lado da tela, quebrando a "virginal" quarta barreira para nos trazer o mais mortal dos deuses – o espectador. Por outro lado, a comédia involuntária aqui exposta tem o seu quê de voluntarismo. É a História relatada como um experimento e não uma rigorosa reconstituição. É a coragem de ser ridicularizado, por ele próprio.

 

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Talvez seja esta a obra mais desafiante da carreira do realizador, e a mais inacessível. A resposta que precisávamos da ilusão onírica tão presente no género, aos "La La Land" que perpetuam uma memória cinematográfica, Jeannette responde destruindo todo esse legado, rabiscando e delineando a partir do zero. Vai ser difícil recuperar o fôlego para futuras incursões musicais depois disto, e muito mais a forma que olharemos para Joan D'Arc no cinema, heroína tão celebrada em importantes trabalhos como os de Dryer, Breeson e até (porque não) Besson.

Filme visualizado na 49o Quinzena dos Realizadores de Cannes


Real.: Bruno Dumont / Int.: Lise Leplat Prudhomme , Jeanne Voisin

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:42
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20.5.17

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Em 2017, a Quinzena é quem mais ordena. A mostra fundada por Phillipe Garrel e outros apresenta este ano um leque forte de nomes que de certo rivalizaram com a grande Competição no Palais. Dumont, o português Pinho, Ferrara e até o próprio Garrel fazem as delícias dos cinéfilos mais aventurosos e mais incentivados a nichos.

 

Garrel foi uma das grandes apostas para esta edição. Difícil não o ser, visto que o francófono mantém uma actividade plena e invejável com os seus 69 anos. Porém, falta-lhe revitalidade, o cineasta procura-o há anos, ou simplesmente, como transparece, nem sequer entusiasma em encontrar novas formas de instalar o seu cinema. Garrel continua ofuscado pelo seu cinema de outrora e pelos fantasmas que o perseguem e teima em não evadir. Em L'amante d'un Jour, eis mais um enredo de relações perturbadas pela sombra do adultério e filosofias conjugais que nos fazem questionar se o realizador ou não, vive num casulo este tempo todo.

 

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Aliás a sessão de apresentação do seu filme contou a sua presença, assim como a do elenco, mas Garrel preferiu isolar-se, seguindo para o fundo da plateia, mesmo encostado a porta de saída. Talvez seja apenas timidez ou receio dos aplausos cínicos que estas sessões de público parecem manifestar no final. Entre obrigados e elogios, a verdade é que foram muitos, durante o filme, que cediam à força da luz verde com palavras EXIT. Melhor recepção obteve Ôtez-moi d'un doute, de Carine Tardieu, a habitual comédia francesa de mal-entendidos sobre a paternidade que se fica pela competência esquecível. A plateia divertiu-se.

 

No Un Certain Regard chega-nos directamente da Tunísia a realizadora Kaouther Ben Hania e o seu Beauty and the Dogs, um conto contado em 9 partes, todas elas compostas por um único plano-sequência, que remete uma noite atribulada de uma jovem violada, que tenta, num sociedade dominante machista, lutar pelos seus direitos. Estranho que pareça, ela luta pelo seu direito de vítima. Apesar dos ocasionais momentos de discursos preguiçosos dignos de panfleto, Beauty and the Dogs é um alerta para um realidade que constantemente fechamos os olhos ou negamos a sua existência.

 

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Mas foi com outra luta que Cannes foi ao rubro, 120 Battement per Minut, de Robin Campillo (Eastern Boys), o activismo dos seropositivos e da comunidade LGBT pela integridade numa sociedade preconceituosa, discriminatória, e talvez pior que isso, negligente. Não é o mero filme de mensagens debitadas nem de propagandas oportunistas, a obra é um verdadeiro embate do slogan “eu quero viver”, o prolongamento da vida cuja morte parece um destino vizinho. Os 5 minutos de Paraíso com direito a orgias visuais, onde moléculas e humanos bailam aos som das vitórias e das derrotas das suas respectivas vidas. Sim, é um poema. Um poema cinematográfico. O Grand Theatre Lumiere soube no final receber, de forma merecidas, estes 120 batimentos por minuto. Será que temos Palma de Ouro?

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:38
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19.5.17

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Amantes inconstantes!

 

A esta altura, perguntamos sinceramente até quando terminará a dita trilogia dos Amantes. É que mesmo sob essa desculpa, Philippe Garrel não tem rigorosamente mais nada para nos dizer. É a triste realidade, mas o seu novo filme L'Amant d'un jour (Amante por um Dia) é a resposta às suas limitações, quer criativas, quer, acima de tudo, ideológicas. Ciúme (La Jelousie) levou-nos a crer que essa mesma barreira criativa era possível existir na carreira do autor, enquanto que A Sombra das Mulheres (L'Ombre de Femmes), que representava um refrescante sopro, ficou-se pelo impasse ideológico.

 

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Este L'Amant' sofre dos dois males: primeiro pela falta de personalidade, visto que voltamos às cores monocromáticas, à edição angustiante (onde cada plano não tem a sua necessária expiração) e aos casais rompidos pelo adultério. Quanto ao segundo ponto, a ideologia de um burguês do arco-da-velha que discursa liberalmente uma espécie de poligamia secreta, pois, tudo contado no feminino para não sofrer com eventuais acusações de misoginia. Nesses termos, Garrel parece engraçar com a causa feminista, o direito das mulheres "perseguirem" as suas fantasias sexuais, os seus desejos instantâneos pela luxúria, o que mostra ser um avanço curioso frente à glorificação sentimentalista de As Sombras das Mulheres (a confundir sensibilidade com feminismo).

 

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Mas L'Amant' é mesmo assim uma pretensão, uma máscara na qual Garrel se esconde, de forma a escapar aos seus fantasmas, os quais que de alguma forma o alcançam. Assim, somos confrontados com um terceiro ato completamente previsível, "garrelianamente" falando. Afinal, a libertação sexual era uma fraude, pois o homem torna-se um elemento em sofrimento sem razão (por incentivo seu) e a mulher caí nas "boas graças" da praça pública.

 

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Fácil ceder-se a reacções primitivas e de pura misoginia por aqui. Está no nosso sangue! Como está no sangue de Garrel. Existem realizadores que nunca deveriam filmar um filme por ano: o prolifico não é sinónimo de qualidade e Garrel prova isso, sendo um autor que vai sobrevivendo à custa do seu estatuto.

 

Filme visualizado na 49º Quinzena de Realizadores

 

Real.: Philippe Garrel / Int.: Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 20:33
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19.5.17

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Um porquinho chamado … Netflix!

 

Balde de água fria! Okja não é mais que um produto que se joga sobre competências industriais para captar um cinema apto para todos, e não o oposto (nada contra o acessível, mas filmes que forçam para isso é outra história). É o modelo de filme familiar acasalado com um negro panfleto da PETA, a alternativa dispendiosa de uns "cowspiracy". Contra o consumo excessivo de carne, subsequente os questionáveis processos de criação em massa, uma campanha green servida de propósito para a Netflix.

 

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A plataforma, agora virada em produtora, ambiciona um tom de cinismo a toda esta obra de gado mutante e de civilização “selvagem”, e para isso contratam Bong Joon Ho, que à imagem do seu anterior Snowpiercer consegue invocar tamanha sensação de “máscara” logo nos créditos iniciais. Mas visto que falamos de um realizador habituado a criaturas digitais (basta relembrar a sua variação kaiju em The Host), Okja aposta forte e feio no seu animal computorizado, cuja intenção não é mais que construir um vínculo emocional entre este suíno-hipopótamo com a jovem Seo-Hyun Ahn, e assim, sucessivamente com o espectador (numa grotesca réplica da matriz Disney). Ligação essa que se remeterá como o objectivo priorizado de uma aventura em modo veloz e furioso.

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Uma produção a cumprir agenda, com toques de clara minimização de um ambiente pesado que, porventura, irá surgir num terceiro ato, aqui o fantástico culminado pelos avanços tecnológicos a servir de protótipos do nosso quotidiano e parabolizá-lo em contornos apocalípticos. Contudo, Okja é um filme maniqueísta, aborda questões, mas não possui a tamanha coragem para contrair uma ambiguidade, o resultado é iminente, mesmo com uma simulação de PETA em jeito caricatural, é a sua miopia que nos leva a lugares sem saída possível.

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Diríamos antes, que Okja é a Maria Antonieta dos filmes, confrontada com a fome mundial e a sobrepopulação (uma situação que parece ninguém querer arranjar uma solução), manda-nos literalmente comer “ervinhas”. Falta o outro lado, e para este filme de Boong Joon Ho falta a convicção da sua palavra! Sobra com isso Tilda Swinton, a nossa pitoresca sem medo de se humilhar.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Bong Joon Ho / Int.: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Jake Gylenhaal, Lily Collins

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:26
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Rostos na paisagem!

 

Visage, Villages nasceu da admiração mútua e correspondida entre dois artistas de meios transversais, que unem esforços por uma causa conjunta. Essa, a de encontrar os limites simbólicos das imagens, ou a latência das memórias que parecem assombrar os locais visitados pela dupla. De um lado, Agnès Varda, um dos nomes maiores da nouvelle vague, reconhece as fotografias do seu parceiro como uma declaração de humanidade captada, e do outro lado, a mente fotográfica de JR a citar na perfeição os frames da filmografia de Varda, constituindo-as como inspirações do seu prestigiado trabalho.

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É uma viagem turística, podemos assim chamar, as missões que assinam com tamanha motivação, e a cumplicidade que se deixa transparecer, consolidando as divergências artísticas de ambos. Mesmo que Visage, Villages seja um filme sobre dois olhares, erguido com o trabalho de quatro mãos, é em Vardas que o projeto se aprofunda e reside. Será isto a sequela, de alguma forma o esperávamos, de As Praias de Varda, aquele anúncio de reforma que não se cumpriu?

 

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Podemos apostar que sim, a realizadora interioriza a sua carreira, da mesma forma que exorciza a sua vida pessoal e afetiva durante uma demanda apimentada com um contagioso humor. Sim, experiência pessoal, se não fosse o facto de JR relembrar-lhe um fantasma de um Godard em “verdes anos”. A sombra de uma relação corrompida e a possessão da nostalgia. Nunca voltes ao lugar onde foste feliz. Varda, porém, como qualquer rebelde que se preze, despreza a “lição moral” e o resultado fica à vista num esperado encontro, burlado à última hora. Nos olhos da realizadora belga nota-se a emoção, a tristeza, a compaixão, o sofrimento de reviver sentimentos vividos num passado cada vez mais longínquo.

 

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Aqui, percebemos o verdadeiro propósito deste ensaio de artes, a linguagem das imagens e a sua força, portais infinitos apenas possíveis através do uso da nossa imaginação, aliás foi assim que Varda respondeu quando lhe perguntaram o porque desta demanda em ilustrar a paisagem. Um pequeno grande filme.

 

Filme visualizado no 70º Festival de Cannes

 

Real.: Agnès Varda, JR / Int.: Agnès Varda, JR

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:54
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Uma gaffe, um momento insólito, o “horror” instalou-se na organização, Okja foi exibido em formato incorrecto para a grande tela durante a apresentação de imprensa. Não podia ter corrido pior a este filme já marcado pela polémica Netflix (aliás o logo foi automaticamente apupado pela plateia) para depois virar chacota nos seus primeiros 5 minutos. O rosto cortado de Tilda Swinton arrancou risos, aplausos, assobios, "boos", um caos aquilo que se assistiu no Grand Lumiêre Theatre. A sessão foi interrompida e após alguns minutos de espera, lá retomou sob o formato correcto. Piadas como “eles estavam a contar passar aquilo numa televisão” foi o que se ouviu no final do filme, esse respondido com alguns aplausos.

 

Quanto à obra de Boong Joon Ho, apesar de conseguir transmitir melhor mensagem que centenas de vídeos da PETA, Okja fracassa pela incompreensão de partes. Enquanto registamos um certo cinismo neste tratamento ao consumismo esfriado e os sistemas de criação em massa de animais para proveito humano (Joon Ho sempre foi um valete da ambiguidade), o filme tende em ceder no perfeito crowd pleaser, primeiro, sufocando-se como um enésimo filme de família disnesco, para depois constituir numa tardia crítica, para por fim dar-nos o final contra-corrente dos objectivos assim expostos. É o happy ending a disfarçar a negritude de todo o relato e a propaganda “green” a servir bandeja para maniqueísmos fáceis. Depois da luta entre classes em Snowpiercer, Boong Joon Ho desilude numa suposta plataforma de liberdade criativa. Não foi isso que vimos. Entretanto, podemos afirmar a quanto pitoresca (no bom sentido) Tilda Swinton fora e que continua a ser. Confirma-se.

 

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Depois do mediatismo da Competição, seguimos agora para o exterior desta com Agnès Varda, que une esforços com o artista fotográfico JR, em Visage, Vilages. Um episódio feliz de como a imagem é um infinito de possibilidades. A imaginação como Varda refere a certa altura, o “sangue” de toda esta jornada criativa que é a de “vestir” edifícios abandonados ou simplesmente no desuso estético. Visage, Vilages é emocionalmente honesto, apesar do toque experimental de Varda, nota-se uma perfeita veracidade nesses mesmo sentimentos e na nostalgia, com o qual tende em recordar os seus elos com Jean-Luc Godard.

 

Antes de continuar pelas mostras cinematográficas de Cannes, gostaria de relembrar que os pedestais mudaram. Orson Welles perdeu, a partir de hoje, o mais alto estatuto cinematográfico por parte do logo de Cannes, e no seu lugar chega-nos Federico Fellini. Há um certo contentamento na multidão ao presenciar o seu nome lá no alto, assim como o de assistir a anteriores lacunas, agora representadas nos degraus deste “wanna be” tapete vermelho, tais como Micheangelo Antonioni (em segunda posição), Robert Bresson, Jacques Tati e Chris Marker.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:27
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