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Barulho para nós, música para Malick!

 

A música toca e toca em modo playlist, continuamente, imperativamente e ritmicamente perante as imagens que funcionam num vórtice de corpos vazios, que bailam ao som das mesmas de forma dessincronizada. A música, segundo Malick, é a alma de Austin, esse paraíso liberal num estado tão fechado como o Texas, e a única alma verdadeiramente sentida, por a arte invocada por estes ritmos diversos não engendrar com a narrativa visual que o realizador “tímido”, agora prometendo uma maior assiduidade na indústria, gera.

 

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Song to Song é a sua nona longa-metragem, a terceira da fase pós-2011 (sem considerar o seu documentário Voyage of Time), e a nova evidência de que os autores, por mais inconfundíveis que sejam, também cedem ao mais profundo conformismo. O “culpado” desta presença repentinamente está no digital, a infinidade e o facilitismo que as tecnologias atribuíram ao Cinema, mas para Malick é o prenúncio do seu fim enquanto ser misterioso da indústria, é o cansaço em pessoa de quem não tem mais nada de novo para contar. Triste realidade, Song to Song é mais do mesmo em doses malickianas, são as “maliquices” levadas até ao fim e o seu cinema tão “autoral” converteu-se na mais perfeita caricatura, a loucura da repetição e dos problemas de primeiro mundo como base de um prolongado sofrimento de personagens. Esse sofrimento entra em loop, na persistência dos mesmos planos “over and over”, e das frases sussurrantes cada vez menos inspiradas e cedidas a uma lamechice de pacotilha. Será Malick o Pedro Chagas Freitas cinematográfico?

 

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Song to Song começa com um triangulo amoroso (Michael Fassbender, Ryan Gosling e Rooney Mara), um ménage de Dreamers, de Bertulocci, com os mesmos “joguinho” sexuais e de foro emocional. Tais vértices vão-se afastando dando origens a trilhos cada vez mais paralelos entre as diferentes personagens. Sim, é triste chamar isto de personagens, até porque Malick brinca com o vazio, com os movimentos erráticos e circulares destas, nos diálogos impostos num falso-raccord. Não existe espaço para personagens, tudo são bonecos que se pavoneiam perante um autor que se assume desorganizado, espontâneo e refém do seu instinto.

 

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Será isso bom? Não será a Arte um veiculo pensante? Ou um instinto humano de comunicar? Conforme seja a escolha, a verdade é que o sedentarismo é um veneno e para Malick esperemos que encontre a cura. Song to Song é um som incorrespondido com a narrativa visual, é a prova de depois de Tree of Life (A Árvore da Vida), Malick não demonstra qualquer sinal de revitalização, mas sim de preguiça no mais incurável sentido.

 

"What part of me do you want?"

 

Real.: Terence Malick / Int.: Ryan Gosling, Rooney Mara, Michael Fassbender, Natalie Portman, Holly Hunter, Cate Blanchett, Lykke Li, Val Kilmer, Bérénice Marlohe

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 16:17
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27.4.17

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Roman Polanski é a mais recente adição da programação do próximo Festival de Cannes. O seu novo filme, Based on a True Story (D’après une histoire vraie), estará presente na 70ª edição do festival numa sessão Fora de Competição.

 

Tratando-se da adaptação do livro de Delphine de Vigan, o filme centra a sua história numa autora (Emmanuelle Seigner) com um bloqueio criativo, cujo seu mundo é abalado quando se depara com uma misteriosa mulher (Eva Green). O argumento foi concebido pelo próprio Polanski em colaboração com Olivier Assayas (Personal Shopper).

 

Para além do trabalho de Polanski, foi ainda anunciado outras obras que figurarão a montra cinematográfica mais cobiçada do ano, entre eles, o mais recente filme de Ruben Ostlund (Force Majeure) – The Square – em Competição.

 

Destaca-se ainda a homenagem ao cineasta André Techiné, através da projecção do seu novo filme, intitulado de Nos Années Folles, e do filme-concerto Djam, de Tony Gatlif, a ter lugar no Cinéma de la Plage (Cinema na Praia).

 

 

OUTRAS ADIÇÕES

Un Certain Regard

La Cordillera, de Santiago Mitre

Walking past the Future, de Li Ruijun

 

Sessões Especiais

Le Vénérable W., de Barbet Schroeder

Carré 35, de Eric Caravaca

 

Sessão Infantil

Zombillénium, de Arthur de Pins e Alexis Ducord

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:55
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Depois de seguir na jornada pela Amazónia em The Lost City of Z (a estrear em Portugal no dia 4 de Maio), James Gray irá aventurar-se espaço com a ficção cientifica Ad Astra, tendo Brad Pitt como protagonista.

 

O projecto foi anunciado pelo próprio realizador durante a entrevista concebida à Collider, afirmando que começará a ser rodado já neste Verão (a partir de 17 de Julho para ser mais exacto). A intriga acompanhará a viagem espacial de um engenheiro autista, no âmbito de reencontrar o seu pai, desaparecido há anos após partir numa expedição para Neptuno em busca de vida extraterrestre.

 

Em declaração, Gray salientou que no seu novo filme iria criar um ficção cientifica realista de forma a dar a ideia do Espaço como o ambiente mais hostil para o ser humano. O realizador é autor do argumento, ao lado de Ethan Ross.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:34
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26.4.17

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Já se encontra planeada a sequela de Fragmentado (Split) [ler crítica]. M. Night Shyamalan revelou que a continuação de um dos filmes-sensação de 2017 chegará entre nós no mês de Janeiro de 2019. Mas não é tudo, o realizador anunciou, via Twitter, o título do seu novo projecto.

 

A obra terá como título Glass, clara alusão à personagem interpretada por Samuel L. Jackson num dos anteriores sucessos de Shyamalan, Unbreakable (O Protegido), que tem ligações com Split.  

 

Como é evidente, Samuel L. Jackson regressará às ordens de Shyamalan, assim como Bruce Willis, James McAvoy e Anya Taylor-Joy.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:25
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Morreu o realizador Jonathan Demme, vencedor de um Óscar pelo seu trabalho em O Silêncio dos Inocentes, e conhecido por um leque variado de trabalhos que vão desde os aclamados Filadélfia até O Casamento de Rachel. Segundo uma fonte próxima, Demme não resistiu a complicações cardíacas associadas a um cancro no esófago que combatia há anos. Tinha 73 anos.

 

Nascido a 22 de Fevereiro de 1944, foi com um filme exploitation que Demme entrou no circulo de realizadores/argumentistas. Tratava-se de A Gaiola das Tormentas (Cage Heat, 1974), uma típica variação de prisões femininas que se encontrava na moda nessa mesma década. Era a perpetuação do seu trabalho na série B, e foi com as produções de Roger Corman que Demme deu os primeiros passos no mundo do Cinema. Na década de 80, o realizador consegue, por fim, dar nas vistas com outro tipo de material, incluindo a comédia dramática Melvin e Howard (1980), Selvagem e Perigosa (Something Wild, 1986), Swimming to Cambodja (1987), Viuva … Mas Não Muito (Married to the Mob, 1988). Nessa mesma altura, trabalhou na concretização de vídeos para bandas como UB40, Talking Heads e New Order.

 

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Porém, foi na década seguinte que a carreira de Jonathan Demme conhece a ribalta do sucesso, principalmente com O Silêncio dos Inocentes (Silence of the Lambs, 1991), o thriller policial de serial killers que nos reafirmou o rei de todos eles, Hannibal Lecter (desempenhado por Anthony Hopkins). O filme foi um sucesso de crítica e bilheteira, tendo conquistado cinco Óscares, incluindo o de Melhor Filme e de Melhor Realizador.

 

Mas a aclamação não parou aqui, dois anos depois seguiu Filadélfia, a luta jurídica pela dignidade dos seropositivos e dos homossexuais que valeu o primeiro Óscar a Tom Hanks. Demme regressaria às longas-metragens nessa década com Beloved, interpretado por Oprah Winfrey, que não deteve a atenção dos anteriores. O inicio do novo século ficou marcado pelo retorno ao mundo da música, com videos para Bruce Springsteen e The Pretenders.

 

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O realizador voltaria à ficção em 2002 com o thriller A Verdade Sobre Charlie (A Truth about Charlie), que não foi bem aceite pelas audiências, assim como a crítica que o apelidou do "pior filme da sua carreira".  Mas Demme não voltou costas ao género e regressou, de forma mais triunfante, com o remake de The Manchurian Candidate, em 2004. Este O Candidato da Verdade, uma trama de alto teor politico que contextualizava a contemporaneidade para orquestrar um ambiente de conspiração de duplo significado. Protagonizado por Denzel Washington e Meryl Streep, o filme correu bem nas bilheteiras e foi bravamente aplaudido pela crítica.

 

Depois de uma passagens no sector do documentário (Neil Young: Heart of Gold e Jimmy Carter Man from Plains), o realizador depara-se novamente a favor da crítica com O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married), um drama independente com Anne Hathaway (nomeada ao Óscar) sobre um convidado incómodo num casamento. Depois de algumas aventuras na televisão, Jonathan Demme concretiza a sua ultima longa-metragem, Ricky e os Flash (2015), com Meryl Streep, um filme que uniria os seus mundos de conforto: a música e a comédia.

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Jonathan Demme (1944 - 2017)

 


publicado por Hugo Gomes às 16:37
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Paul Verhoeven tem novo projecto, Saint Vierge, uma trama que envolve freiras, visões e romances lésbicos. O realizador holandês por detrás de obras como Robocop, Showgirls e Starship Troopers vai voltar a trabalhar com o produtor Saïd Ben Saïd, a actriz Virginie Efira (que obteve um papel secundário no seu último filme, Elle, ao lado de Isabelle Huppert) e com o argumentista Gerard Soeteman (colaboração que suscitou Black Book).

 

Saint Vierge estará no Marché du Film (Mercado do Filme), no próximo Festival de Cannes, em busca de financiamento e distribuição. Trata-se da adaptação do livro Immodest Acts, de Judith Brown, a história da irmã Benedetta Carlini, abadessa do convento Madre de Dios, em Pescia, durante a época renascentista. Carlini começou a experienciar inúmeras visões inexplicáveis aos 23 anos, o que motivou uma intensiva investigação. O resultado desta deu origem à primeira documentação de um romance lésbico da história moderna.

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:23
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Andando em círculos!

 

O que é pior do que um filme assumidamente fascista? Um filme que remexe em tais perspectivas e que não possui capacidade de os "exorcizar" (sendo esse o seu evidente objectivo). O Circulo é esse filme, uma ficção cientifica distopica tão próxima do nosso actual panorama sociopolítico, a tecnologia e a nossa dependência como novas formas de totalitarismo e a clara ideia de "direita"em optar a segurança extrema e por vezes excessiva frente à liberdade individualista.

 

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Baseado num livro de David Eggers, esta obra de James Ponsoldt (The Spectacular Now) é um indicio proeminente de que Hollywood está cada vez mais à mercê das ideias anexadas ao fenómeno Trump e tudo relacionado. Recordamos que Paul Verhoeven, durante a apresentação do seu Starship Troopers no Film Society of Lincoln Center, confrontado com as notícias de uma nova versão do seu filme, com planos de fidelidade com o livro de Robert A. Heinlein, o realizador holandês alertou a possibilidade desta obra vir agradar a presidência Trump, visto que o estúdio não estaria disposto em absorver-se novamente na ironia e no cinismo. Obviamente que distopias são a melhor metáfora para orquestrar qualquer base ideológica e politica de forma subversiva e sugestiva, tendo a capacidade de esquivar a eventuais censuras e auto-censuras, mas será que estas mesmas não deverão ser metamorfoseadas consoante o contexto que nos envolve?

 

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No caso de O Circulo, as boas intenções não pagam imposto (existe lá um certo fantasma NSA e Snowden), ao invés disso, é a sua incompetência extraordinária a fazer frente à distopia em si. Eis um filme que se preocupa com a imagem da sua actriz, Emma Watson (a passar de promissora a "fedelha" irritante), com a estética quase desktop da narrativa ("já entendemos, é uma rede social"), e todo um conjunto de soluções fáceis, moralismos concertantes e personagens secundárias sem dimensão e claro, sem carisma algum. Visto falarmos de uma irritante Watson, o que dizer doutra promessa, neste caso a estrela de Boyhood - Ellar Coltrane? O protagonista de um dos mais desafiantes filmes dos últimos anos oferece-nos um desempenho a esquecer, o mesmo que pelo qual este tão piroso Circulo está destinado.

 

Real.: James Ponsoldt / Int.: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Ellar Coltrane, Bill Paxton, Karen Gillan

 

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3/10
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publicado por Hugo Gomes às 13:45
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25.4.17

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Foi anunciado as restantes personalidades que irão compor o júri da Selecção Oficial do próximo Festival de Cannes.

 

No júri, que será presidido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar (Julieta), estarão integrados os realizadores Chan-Wook Park (The Handmaiden) e Paolo Sorrentino (La Grande Bellezza, Youth), o actor Will Smith (Suicide Squad), a realizadora e argumentista Maren Ade (Toni Erdmann), a actriz norte-americana Jessica Chastain (Interstellar, The Tree of Life), a realizadora e actriz Agnès Jaoui (Le Goût des Autres), a actriz e produtora chinesa Fan Bingbing (X-Men: Days of a Future Past), e o compositor francês Gabriel Yared.

 

A 70ª edição do Festival de Cannes decorrerá entre 17 a 28 de Maio.

 


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publicado por Hugo Gomes às 22:54
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24.4.17

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O regresso dos desajeitados!

 

O Mundo poderia viver sem uma sequela de Guardiões da Galáxia? Claro que podia, mas digamos que a sua existência não nos levará ao Armagedão. Porém, o que era descontraído no primeiro filme, torna-se forçado e demasiado confiante no segundo. É a vida! São as leis de mercado e sobretudo as regras das “sequelites”. A proposta tem que ser maior, mais ambiciosa, e quantitativamente aliciante, o resto é jogar no seguro e fazer “rolar” a “magia” dos encantadores números do box-office.

 

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Sim, Guardiões da Galáxia é a “grandiosa” aposta para as audiências pré-estivais, aquele sci-fi humorado e colorido, recheado de easter eggs que vão do kitsch ao vintage e vice-versa, tendo como ingrediente extra, um recanto perfeito para famílias. Trata-se do regresso dos cinco “misfits”, agora consolidados a uma espécie de comunidade “familiar”, uma equipa de mercenários que protege a Galáxia por um bom preço. As personagens do anterior estão lá, conservadas em âmbar para que os espectadores não notem divergências e, pelo facto, são eles que nos trazem as boas novas desta continuação. A começar pelo wrestler David Bautista no papel do atípico Drax, a personagem que lhe mais condiz, e o verdadeiro comic relief de um universo cheio de comic reliefs. Nesse aspecto, temos aqui o perfeito clown intergaláctico. Pelo meio encontraremos guaxinins falantes, um par de “pombinhos” em constante vaivém e árvores “fofas”, esta última, uma aposta mais forte ao mercado do merchadising do que propriamente em trazer algo de útil a um filme com milhentas cenas inúteis.

 

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Será que vemos em Guardiões da Galáxia os ensinamentos de George Lucas, o cinema como uma tela branca, o facilitismo do CGI e, pior, a prolongação das sequências descartáveis como provas de manuseamento de tal tecnologia? Pois, se por eventualidade editássemos o nosso Volume 2, descartando toda essa frente de momentos slapstick e dignamente paródias, as runnings gags que persistem e perduram, as correrias que dão uso à palete de cores e à infinidade do CGI, e como não poderia deixar de ser, os easter eggs anexados a cameos, nomes, referências e ganchos para futuros capítulos. Se tirássemos isso tudo, Guardiões da Galáxia estaria despido a pouco mais de uma hora e meia de duração (ao invés das duas horas), integrado a um enredo corriqueiro de vilões com desejo de dominar o Mundo e as moralidades de sempre na Casa do Rato Mickey (a Disney tem um verdadeiro “daddy issue”).

 

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É um blockbuster de bons momentos, disso não há dúvida, sobretudo no jogo versátil de imagem com a musicalidade, mas é de um desequilíbrio total, um confronto entre a libertinagem de James Gunn frente a um megalómano estúdio que tem tudo para sufocar liberdades criativas. Pode ser cliché afirmar isto, mas cá vai. Não há frescura como o primeiro!

 

Real.: James Gunn / Int.: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Michael Rooker, Sylvester Stallone, Kurt Russell

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:20
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24.4.17

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A peregrinação das actrizes!

 

Cansaço ... é o que sentimos no final desta peregrinação. Simplesmente cansaço! Mas aqui não é um defeito, é uma virtude, o sentimento pretendido neste novo rol de realismo à lá Canijo, onde uma vez mais são as suas actrizes a liderar o processo criativo, mulheres que mimetizam o real e não o oposto. É a continuação do seu trabalho, os métodos experienciados para atingir a natureza-matriz do actor. O que os move? O que os faz atingir esse patamar? O que os torna, não inconfundíveis, mas sim confundíveis com o cenário envolto?

 

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João Canijo tem-se submetido a essa experiência desde que a noite tornou-se escura [Noite Escura, 2004] e aí, gradualmente, tem avançado com uma aproximação ao realismo e ao mesmo tempo improvisando e sofisticando o processo de direcção de atores. Foi com o É o Amor que a ideia de cruzamento surgiu, a do conflito entre a ficção, indiciada por "infiltrados" numa realidade que não lhes pertence, e do lado documental, o realismo aprisionado na lente e moldado para as infinidades da interpretação e reinterpretação. Nesse jeito, Fátima funciona nesse apoderamento do primeiro ponto, em constante abalo com o segundo. A veia documental encontra-se presente no percurso, na jornada replicada que se evidencia como um obstáculo de capacidades. As capacidades, por sua vez, encontram-se nas actrizes, subjugadas ao método de improvisação quase "strasbergiana".

 

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A peregrinação torna-se então num coliseu de gladiadoras, actrizes que rivalizam egos e batalham pela atenção do espectador. Mas nem todas as actrizes são capazes de sobreviver neste "circo de feras", nesta estrada sem fim que assume como o palco de improbabilidades. Apenas duas (Anabela Moreira e Rita Blanco) concentram forças para a "pedalada" e é nelas que nasce um conflito tardio (dramaticamente falando), que atingirá um estado de ebulição de forma gloriosa. A satisfação surge aí. As personagens estão criadas e nessa frecha conseguem por fim separar-se da actriz num processo doloroso, demoroso e dispendioso que resumiu toda esta experiência. A da interpretação, a da matéria de que são feitos os actores e, por fim, do espectador, capaz de testemunhar esta instalação "sob milhas".

 

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Ao contrário do que se julga, Fátima não é um filme religioso. Não no sentido católico do desfecho desta jornada. Nada disso. A religião é apenas evidenciada na composição das personagens e na crença mutua, das actrizes em relação a Canijo, e de Canijo em relação às actrizes. O embate final é um atalho para Fátima, o refúgio religioso que se converte na perfeita união de espírito e da cinematografia que Canijo consegue emanar através de imagens assombrosas!

 

Real.: João Canijo / Int.: Anabela Moreira, Rita Blanco, Teresa Tavares, Sara Norte, Ana Bustorff, Teresa Madruga

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 15:35
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20.4.17

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Clint Eastwood já tem novo projecto. O veterano cineasta de Mystic River e Gran Torino vai apostar na adaptação de The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes, de Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone e Jeffrey E. Stern.

 

Baseado nos acontecimentos reais no dia 21 de Agosto de 2015,  onde três amigos americanos  (Sadler, Skarlatos e Stone) conseguiam impedir um iminente ataque terrorista num comboio que seguia de Bruxelas a Paris. Tudo porque o trio notou movimentações estranhas por parte de um dos passageiros do comboio, Ayoub El-Khazzani, que revelaria ser um membro da ISIS. Os americanos interceptaram o homem no banheiro impedindo o eventual massacre.

 

Ainda sem elenco definido, The 15:17 to Paris começará a ser rodado já no segundo semestre de 2017.

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:37
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Os Demónios que nos livre!


Inicialmente tido como uma terceira parte de Demons, a saga demoníaca levado a cabo por Dario Argento e Lamberto Bava (filho do cineasta Mario Bava), Michele Soavi declarou independência e o transformou em algo autónomo, mas ... não devidamente emancipado do estilo dos seus "padrinhos".

 

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La Chiesa (The Church) leva-nos ao tormento das Idades das Trevas, por entre templários e inquisições de desfechos sangrentos. São as cruzadas, trazendo consigo o derrame de muitos "hereges", cúmplices das forças demoníacas que sempre ameaçaram o espírito humano. No seio do massacre submetido ao nome divino, é erguido um monumento, um edifício que pudesse consagrar o amor terreno por Deus e que aprisionasse qualquer forma inglória. Como tal é construído uma Catedral, um símbolo vitorioso. Anos passaram, até chegarmos aos tempos actuais, onde a chegada de um bibliotecário faz adivinhar tamanha tragédia, um desconhecido que se deixará vencer pelos espiritos torturados e pelas entidades que se escondem nas sombras, no mais remoto lugar daquela "prisão" de pedra sobre pedra.

 

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Em La Chiesa, devido ao seu pretensiosismo aguçado e quase arquitectónico, o fracasso é um iminente destino, agravado pela incapacidade de construção de personagens ou na condução de um argumento escrito e transcrito e assim crucificado na falta de coerência. Se tudo está destinado ao mais martirológio dos falhanços, deve-se salientar a forma com que Michele Soavi manobra-se pelo estilo vincadamente série B, pela redução aos lugares-comuns e pelo humor involuntário refeito a partir da não exactidão do enredo. A verdade é que Soavi aproveita a cenografia gótica, a atmosfera por vezes sacrificada e a via sacra como inspiração para este modelo de pesadelo cinematográfico.

 

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No terceiro acto, La Chiesa transforma-se num atento filme de cerco (a invocação da saga não assumida), onde "bonecos" (ao invés de personagens) são subjugados a uma orgia de tentações infernais, heresias que se enquadram como formas demoníacas. É assim que recomeça o sangue, a "nova" cruzada, agora invertida e altamente comunicativa com o veio sexual e por vezes, profano. Sim, tal como uma descida danteana, este é um filme recheado de luxuria, de trevas que embicam para os sonhos molhados dos nossos negados temores e medos. É o Inferno sedutor e indesejado descrito nas escrituras e na memória humana quando esta proclama os feitos cometidos por Deus e a tentação empestada pela Besta.

 

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"Não há Deus sem Diabo", diz o bispo (Feodor Chaliapin Jr.), espalhando o medo pelo desconhecido que os envolve. Michele Soavi conseguiu no meio do caos um pesadelo, e por pouco dava-nos a sua obra-prima (dentro dos parametros mimetizados do legado Bava / Argento). Mas grandes monumentos tendem em cair e La Chiesa cede abruptamente.


Real.: Michele Soavi / Int.: Hugh Quarshie, Tomas Arana, Feodor Chaliapin Jr., Barbara Cupisti, Asia Argento

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 02:21
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19.4.17

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Captain Marvel, que será protagonizado pela galardoada actriz Brie Larson (Room, Kong: Skull Island), encontrou os seus realizadores. A tarefa de trazer à luz uma das grandes heroínas da editora será encarregue pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck, que estiveram por detrás de obras como Half Nelson e Mississipi Grind (A Febre do Mississípi).

 

Com um argumento da autoria de Meg LeFauve (Inside Out) e Nicole Perlman (Guardians of the Galaxy), o filme seguirá uma piloto da Força Aérea, Carol Danvers, que adquire dotes sobre-humanos após o contacto com tecnologia alienígena. Decidida a combater o crime e defender o seu planeta, ela torna-se a Captain Marvel.

 

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Vale a pena salientar que Captain Marvel, criado em 1967, era inicialmente um personagem masculino, uma resposta da editora ao rival Super-Homem da DC Comics, visto que ambos eram alienígena a tentarem adaptar ao planeta Terra. Carol Danvers, que fez a sua estreia em 1968, era descrita como o interesse amoroso do herói, mas as ideia do criador era de a converter numa super-heroína, visto que existia uma escassez nessa temática. 

 

No inicio dos anos 70, estava agendado a primeira aventura a solo da personagem, o que não aconteceu em consequência dos executivos que acreditavam que a fabricação de super-heroínas era dispendioso e pouco rentável. Mas no final da década, Carol Danvers conseguiu a sua pessoal jornada heróica sob o título de Ms. Marvel, integrou também as equipas sobre-humanas, The Avengers: Os Vingadores e X:Men. Em 1982, o original Captain Marvel morre e Mrs. Marvel assume o seu legado.

 

O filme está agendado chegar aos cinemas a março de 2019.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:15
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Esta terra é nossa!

 

Se tem ou não recursos para o fazer, isso são questões que divergem da capacidade de fazer. A Ilha dos Cães, o filme que tem sido equivocamente publicitado como o último do actor Nicolau Breyner, é uma tentativa infeliz no campo do cinema de género português, mas que não deve ser ignorado de todo.

 

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Contado a três tempos e com base criativa na obra literária do escritor angolano Henrique AbranchesOs Senhores do Areal - o realizador Jorge António (O Miradouro da Lua, a 1ª co-produção luso-angolana) constrói uma fita que se complementa a preencher o espaço da série B, do subestimado cinema fantástico pelos demais, e tendo como foco uma memória colonial que entra em colisão com diferentes etapas temporais. É o esclavagismo a perpetuar o pior do colonialismo, a resistência a servir de avante para ideias opositoras e, por fim, o cenário actual onde os fantasmas de um passado negligenciado parecem coabitar.

 

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Tudo resulta num filme de boas intenções, mas incompleto no seus objectivos, tal como um cão raivoso que responde ao instinto e não com a exactidão das ordens do seu dono. Para Jorge António, falta sobretudo um aprumo nos diálogos (forçados deve-se salientar), uma liberdade em fugir dos lugares-comuns que assumem impasses (como um romance incutido a três pancadas) e, sobretudo, uma coragem em arriscar, acima do simplesmente agradar ao público-alvo.

 

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Quanto aos efeitos visuais, nomeadamente as tentativas de CGI, perdoamos, até por que sabemos que o tecnicismo advém do financiamento e sem recursos não existem frutos para mais. Contudo, há que referir A Ilha dos Cães está à frente de muitas produções assumidamente mainstream da nossa cinematografia, que com maiores recursos tendem em tratar o espectador como um alarve. Um exercício produtivo!

 

Real.: Jorge António / Int.: Ângelo Torres, Miguel Hurst, Nicolau Breyner, Ciomara Morais, João Cabral

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 15:43
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Já temos o primeiro vislumbre! O primeiro trailer da série Krypton, criada por David S. Goyer (argumentista de trilogia The Dark Knight e Man of Steel), uma co-produção da Warner com o canal Syfy, em jeito de prequela para os feitos de Super-Homem.

 

Passada em Krypton, o planeta de origem de Super Homem, a série seguirá a vida do seu avô e de como construiu uma sociedade melhor num universo governado pelo caos.

 

Não se sabe se Krypton terá alguma interacção com o DC Cinematic Universe (Batman v Superman: Dawn of Justice) ou com o DC Television Universe (Arrow, Flash, Gotham), embora, e considerando que é passado numa galáxia distante e há milhares de anos, não seja muito provável ou relevante uma ligação.

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:12
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15.4.17

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Revelado durante anual convenção de Star Wars, eis o primeiro teaser trailer de The Last Jedi (O Último Jedi), o oitavo capítulo da famosa saga intergalactica.

 

Mark Hamill é o estrela desta apresentação, revelando um papel mais relevante do sempre clássico Lucas Skywalker. Para além disso, vale a pena salientar que este será a última aparição de Carrie Fisher no grande ecrã (mesmo que hajam rumores da Disney usufrui da tecnologia para ressuscitar a personagem que a falecida actriz interpretara)  

 

Estreia marcada para 14 de Dezembro nos cinemas portugueses.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:35
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14.4.17

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Fiore é o grande vencedor da 10ª Festa do Cinema Italiano. O filme de Claudio Giovannesi que aborda uma prisão juvenil arrecadou o cobiçado Prémio do Júri. La Ragazza del Mondo, de Marco Daniele, obteve uma menção honrosa e Un Bacio, de Ivan Cotroneo foi o elegido pelo público na sua respectiva categoria.

 

O júri desta edição foi integrado pela realizadora de Ama-san, Cláudia Varejão, o montador João Braz e ainda a actriz Rita Blanco.

 

A cerimónia de revelação e entrega dos prémios foi sucedida pela projecção de In Guerra Per Amore, uma comédia ambientada na Segunda Guerra Mundial, que contou com a presença do realizador Pierfrancesco Diliberto (Pif). O filme terá estreia nacional.

 

Depois de quatro cidades em simultâneo, a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano ruma para a cidade de Aveiro (19 a 21 de Abril).

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:55
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13.4.17

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COMPETIÇÃO

120 Battements Par Minute (Robin Campillo)

L'Amant Double (François Ozon)

The Beguiled (Sofia Coppola)

Geu-hu (Hong Sang-soo)

A Gentle Creature (Sergei Loznitsa)

Good Time (Benny & Josh Safdie)

Happy End (Michael Haneke)

Aus Dem Nichts (Fatih Akin)

Jupiter’s Moon (Kornél Mundruczó)

The Killing of a Sacred Deer (Yorgos Lanthimos)

Le Redoutable (Michel Hazanavicius)

Rodin (Jacques Doillon)

Nelyubov (Andrey Zvyagintsev)

The Meyerowitz Stories (Noah Baumbach)

Okja (Bong Joon-ho)

Hikari (Naomi Kawase)

Wonderstruck (Todd Haynes)

You Were Never Really Here (Lynne Ramsay)

 

UN CERTAIN REGARD

Barbara (Mathieu Amalric) – filme de abertura

Aprés La Guerre (Annarita Zambrano)

Las Hijas de Abril (Michel Franco)

Aala Kaf Ifrit (Kaouther Ben Hania)

Sanpo Suru Shinryakusha (Kiyoshi Kurosawa)

Tesnota (Kantemir Balagov)

La Novia Del Desierto (Cecilia Atan e Valeria Pivato)

Posoki (Stephan Komandarev)

Lerd (Mohammad Rasoulof)

Jeune Femme (Léonor Serraille)

L’Atelier (Laurent Cantet)

Fortunata (Sergio Castellitto)

En Attendant Les Hirondelles (Karim Moussaoui)

Out (György Kristóf)

Western (Valeska Grisebach)

Wind River (Taylor Sheridan)

 

FORA DE COMPETIÇÃO

Les Fantômes d'Ismael (Arnaud Desplechin)

Mugen Non Junin (Takashi Miike)

How to Talk to Girls at Parties (John Cameron Mitchell)

Visages, Villages (Agnès Varda & JR)

 

SESSÕES DA MEIA-NOITE

Prayer Before Dawn (Jean-Stéphane Sauvaire)

Bulhandang (Byun Sung-hyun)

Ak-nyeo (Jung Byung-gil)

 

SESSÕES ESPECIAIS

12 Jours (Raymond Depardon)

24 Frames (Abbas Kiarostami)

An Inconvenient Sequel (Bonni Cohen & Jon Shenk)

La caméra de Claire (Hong Sang-soo)

Come Swim (Kristen Stewart)

Demons in Paradise (Jude Ratman)

Napalm (Claude Lanzmann)

Promised Land (Eugene Jarecki)

Sea Sorrow (Vanessa Redgrave)

They (Anahita Ghazvinizadeh)

Top of the Lake (Jane Campion)

Twin Peaks (David Lynch)

 

Realidade Virtual

Carne y Arena (Alejandro G Iñárritu)

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:12
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Contos da Lua Vaga.jpg

Os Filhos da Lua!

 

"(…) com devotos fieis, mas nenhum discípulo e nenhuma exegeta", menciona o realizador Paulo Rocha em relação ao consagrado cineasta japonês, Kenji Mizoguchi, que contaria com um inédito ciclo programado na Calouste Gulbenkan. Ciclo, esse, projectado 20 anos depois da morte de um dos homens mais incontornáveis da História cinematográfica nipónica, e, tendo como uso as palavras escritas de Rocha, um dos mais esquecidos. A sua carreira é hoje, integralmente, um desafio, passando do mudo até aos talkies (em similaridades com outro conterrâneo tardiamente desvendado em terras lusas - Yasujiro Ozu), e cuja fama entre o circuito cinéfilo havia apenas sido suscitado anos tardios. Essa mesma aclamação, como também atenção, fora realçada com a passagem de Os Contos da Lua Vaga (Ugetsu monogatari) no Festival de Veneza de 1953, onde iria vencer o Leão de Prata do certame, à imagem de O Intendente Sansho (Sanshô dayû) que conquistaria tal proeza no ano seguinte.

 

ugetsu.png

 

Mas Os Contos da Lua Vaga não resultou em nenhum impulsor deste cinema dignamente “mizoguchiano”, ainda hoje estudado e por vezes ignorado, tendo como principais influências uma cercada globalização cinematográfica (há toques de neo-realismo italiano ali, um expressionismo alemão acolá, a moralidade de Hollywood além). O que, na sua provável ambição, Os Contos da Lua Vaga tornou-se na mais célebre das suas obras graças ao aperfeiçoamento das principais características do realizador; os planos longos intercalados por grandes gerais e travellings que tanto usufruem dos cenários feudais e outras reconstituições históricas (ainda há espaço para exorcizar um Japão tradicional e regido no seu particular quotidiano), e da união quase umbilical entre a imagem e o som, com principal destaque a confrontação de demónios por parte de Genjurô (Masayuki Mori) no filme referido.

 

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Em certa parte, Os Contos da Lua Vaga assume-se como um jogo de sombras, flashsbacks integrados na acção e não reduzidos a camadas narrativas, marcos que seriam aproveitados por Michelangelo Antonioni em Profissão: Repórter (quem nunca se esquece da dupla interpretação de Jack Nicholson na acção decorrida e no flashback de varanda), a atmosfera que nos afronta como um submisso a mercê desta Lua de Agosto e da coexistência entre a ficção e o onírico, o fantástico com a reconstituição e o mundo dos vivos com os dos mortos, negligenciando as suas condições metafísicas. Mizoguchi beneficia das dicotomias, da harmonia de teores para implantar a sua fábula de homens ambiciosos e das respectivas mulheres mártires desse pretensiosismo egoísta.  

 

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É como uma pintura delicada, pintada sob toques graciosos e delineado por um carvão hesitante, mas de concepção precisa. Mizoguchi é um artesão, um perfeccionista (como muito tem sido caracterizado), mas redutor do seu espaço, e nisso torna-se mais que subtil na transposição desta (bi)adaptação (baseado nos contos de Ueda Akinari e de Guy de Maupassant), mais um factor que nos leva à sua natureza híbrida. Híbrida? Porque no cinema de Mizoguchi encontramos a fusão, um requintado e apetitoso prato no qual concentra as memórias tradicionais com a sofisticação do tempo que se depara. Os Contos da Lua Vaga não é nenhum avante nesta sua “gastronomia”, é simplesmente o solstício de um autor que merece mais do que uma mera menção. 

 

Real.: Kenji Mizoguchi / Int.: Masayuki Mori, Machiko Kyô, Kinuyo Tanaka

 

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 13:31
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Velocidade Furiosa 8.jpg

Destino sobre rodas!

 

A alta velocidade ou suscita um acidente ou uma autuação e, neste caso especifico, ficaremos com a segunda hipótese, porque o desastre é iminente caso continuem com estas velocidades frívolas. Mas antes de mais, deve-se aplaudir a nossa "Furiosa", Charlize Theron, que fez tudo para que esta carruagem não se despenhasse de forma catastrófica, e tem a capacidade de salvar um filme condenado à auto-ejaculação dos fãs (Charlize só não foi avisada a tempo para um desastre à lá Sean Penn).

 

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Aliás, são as mulheres por detrás do volante que direccionam este Velocidade Furiosa 8 para caminhos menos corriqueiros. Resumidamente, é a nossa Theron em conjunto com uma breve, mas mesmo assim profissional Helen Mirren, a lembrarem como se faz no plano dos desempenhos. Isto porque os nossos homens são demasiado vigorosos em relação à sua imagem "máscula"  e procrastinam em atribuir algo mais pessoal a um franchise cada vez mais despersonalizado desde a saída do realizador Justin Lin (na altura, o verdadeiro herói de Fast and Furious).

 

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O resto é tudo aquilo que esperamos da saga, só que em doses meramente cansativas, desde o foco central à personagem de Vin Diesel (andamos 8 filmes com o protagonismo e já estava na altura de mudar), um incoerência na continuidade e ainda a industrialização que se entranha, até mesmo no melhor ponto que estes filmes possuíam: os stunts, agora cada vez menos impressionantes.

 

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De resto, recorre-se aos estereótipos (Tyrese Gibson), às experiências iniciadas mas não levadas a avante (a dupla Dwayne Johnson e Jason Statham poderiam ser um Terence Hill e Bud Spencer em modo testosterona) e a perpetuação do conservadorismo a defraudar a irreverência, até porque falamos de família e bons valores morais de forma a não ofender as massas que tanto contribuíram para o êxito estrondoso disto tudo. Após este capítulo, só falta mesmo este grupo ir para o espaço, até porque já não existem mais caminhos a seguir para além do beco sem saída. Isto já cansa … e muito!

 

Real.: F. Gary Gray / Int.: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Charlize Theron, Helen Mirren, Michelle Rodriguez, Scott Eastwood, Tyrese Gibson, Ludacris, Kurt Russell, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Nathalie Emmanuel

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 10:35
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