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11.8.07
11.8.07

 

O pecado mora ao lado!

 

Em Sin City (banda desenhada) encontramos muito da marca autoral de Frank Miller, como também o seu fascínio pelo ambiente noir, que tanto contagiou outras criações suas. Publicado entre 1991 a 1992, esta série de graphic novels transportam o leitor a um mundo onde a desordem e a perversidade são a rotina, e a ordem, ética e bons valores são vistos quase como uma anormalidade abismal. É um mundo povoado por todos os elementos dignos do universo noir (ou negro, traduzido literalmente); prostitutas, detectives, polícias corruptos, “mob”, psicopatas, estes são os heróis desta nova Babilónia, Basin City, que “carinhosamente” recebeu entre os seus habitantes a alcunha de Sin City – Cidade do Pecado.

 

 

Culto garantido que gerou uma nova onda de novelas gráficas que até aos dias de hoje perdura, a veneração do anti-herói e a ambiguidade dos seus actos. No cinema é fácil encontrar as essências, não do noir já estabelecido, mas da própria condução de Miller. A sua visão negra resgatou Batman das coloridas sombras do camp e devido a isso, Tim Burton conseguiu recoloca-lo no universo cinematográfico, com duas versões exaustivamente góticas em 1989 e 1992. Contudo, Frank Miller preparou-se para converter os seus quadradinhos em frames fílmicos, uma ideia surgida por Robert Rodriguez  que cativou e por fim foi apadrinhado pelo próprio autor, que não fez as desfeitas da casa e integrou-se na equipa de realização, o qual contava com a participação especial de Quentin Tarantino, que filmou uma das sequências mais dinâmicas de todo o filme.

 

 

A adaptação de três histórias escritas e “salganhadas” para formar uma narrativa decente e enérgica, Sin City prevalece nos dias de hoje como um exemplar formidável de histerismo visual e estilo formal, constringindo todo o fulgor cinematográfico a uma cópia frame to frame. Basta ver o filme e em simultâneo folhear as respectivas BDs para perceber esse rigor e ao mesmo tempo respeito pela matéria-prima. Tal factos poderão ser confundidos como uma ausência de irreverência, num projecto que emana esse mesmo factor em toda a morfologia. Esta é a adaptação fielmente possível à sua extracção, e como é obvio, é tido como um agrado completo aos fãs mais acérrimos, elaborando uma posição de anti-cinema.

 

 

Mas a questão aqui é mesmo essa, cinema! Não a adaptação em si. E a pergunta a ser feita é se realmente Sin City sobrevive como uma peça cinematográfica e não somente como um livro ilustrado? A resposta poderá ser encontrada no mecanismo encontrado para transmitir a pureza dos desenhos num enredo. Sim, narrativamente, Sin City é frágil, demasiado preso à sua jaula artística e devido a isso, o sentimento de caricatura tecnológica é por vezes sentida mais do que ocasional. Mas a equipa de realizadores disfarça tais fragilidades e concentra-se em conseguir um espectáculo visual e sonoro, ao mesmo tempo que inerentemente afasta da BD para dar lugar a um trunfo de referências cinematográficas. É que a obra de Robert Rodriguez e Frank Miller consegue transcrever como um tributo a um subgénero, uma panóplia de elementos que tão bem caracterizaram, e que caracterizam, o cinema noir. Assim, assumindo como parte nostálgica do cinema propriamente dito, Sin City consegue por fim libertar das suas amarras, porém a corrente é comprida mas não de todo ausente.

 

 

As personagens apresentadas continuam a funcionar em prol das figuras desenhadas, mimetizando os seus actos, gestos e expressões. O teatro é forçado, mesmo em demasia e mais com um elenco de luxo, servente e eficaz no seu jogo de "faz-de-conta". Sendo fácil de descartar tal fragilidade com o argumento de que Sin City não foi feito para brilhar na secção interpretativas, mas na construção de quadro estilísticos, e encarando essa sugestão de "die hard fan", torna-se fácil identificar os propósitos da fita e assim dos actores a seu serviço. Bruce Willis, Mickey Rourke, Clive Owen, uma sensual Jessica Alba (o seu papel mais marcante como a stripper Nancy) e um Benicio Del Toro a revelar o personagem mais carismático, são alguns dos "bonecos" preenchem uma peça de arte visual com todo o esplendor.

 

 

O trabalho de Frank Miller é transportado de uma forma gloriosa para o grande ecrã e isso é um facto que temos que ter em conta. Uma adaptação fiel e tão falsamente poética como os livros que se baseia, Sin City anuncia para além de um novo tipo de cinema, um estilo fílmico e Frank Miller é mais uma vez o mentor dessa mesma manifestação estilística.  

 

"Walk down the right back alley in Sin City and you could find anything."

 

Real.: Robert Rodriguez, Frank Miller, Quentin Tarantino / Int.: Jessica Alba, Devon Aoki, Alexis Bledel, Rosario Dawson, Benicio Del Toro, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Josh Hartnett, Rutger Hauer, Michael Madsen, Brittany Murphy, Clive Owen, Mickey Rourke, Nick Stahl, Bruce Willis, Elijah Wood, Marley Shelton

 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 16:37
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