Real.: António-Pedro Vasconcelos
Int.: Soraia Chaves, Ivo Canelas, Nicolau Breyner, Joaquim De Almeida, José Raposo
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Maria (Soraia Chaves) é um “call girl” de luxo, que fora contratada para poder manipular o honesto presidente da câmara de Vila Nova para a cedência de terrenos para a construção de empreendimentos turísticos. Quanto isso, Madeira (Ivo Canelas) e Neves (José Raposo) investigam o caso que começa a ganhar contornos labirínticos.
Segundo as citações de João Botelho, Corrupção era para ser um filme de teor noir, mesmo sabendo que a fita bem sucedida foi cortada (e bastante) pelo produtor Alexandre Valente, a matéria exposta não representa em nada os bons louvores desse tipo de cinema. Conseguindo superar recordes de bilheteira nacional, Corrupção utiliza em demasia a sua mais-valia, a polémica que envolve e retrata de forma superficial que tanto reside na comunidade portuguesa da actualidade, ao contrário de Call Girl que a intriga não é rotulada de verídica, mas em termos de bases são quase as mesmas.
Digamos que Call Girl é uma anti-Corrupção, um argumento mais bem trabalhada, interpretações mais valorizadas e aproveitadas e acima de tudo, diálogos mais completos e igualmente trabalhados. Não é por menos que no filme de António-Pedro Vasconcelos, o espectador poderá ouvir algum dos diálogos mais marcantes do cinema português, desde os anos 30 e 40. Na premissa, é mais honesto que o seu congénere, mas ao mesmo tempo é referencial e devidamente pausado. Estruturalmente confidente e divertido, coisas raras no cinema português.
Essas referências são muito bem evidentes; um pouco de cinema Verhoeven (mais propriamente Basic Instinct, com Soraia Chaves a ser uma variante morena e mais escultural de Sharon Stone) e a complexidade argumentativa e o uso embelezado do calão, próprio de um filme tarantinesco, aliás é a Quentin Tarantino que Vasconcelos muito das suas inspirações, vejamos a personagem de Ivo Canelas integralmente extraída do filme Reservoir Dogs – Cães Danados, onde o vestuário, linguagem e pensamentos são a afirmação dessa comparação, até mesmo um poster do tal filme de Tarantino, a personagem de Canelas tem no seu escritório.
Quanto às interpretações, digamos que todo o elenco se encontra bem, mais uma coisa rara no cinema português. Até mesmo Soraia Chaves que no projecto anterior (O Crime do Padre Amaro) não sobressaiu do vulgar bibelô estético, surpreende-me pela positiva, mesmo que o seu talento seja demasiado limitado. Quanto a Ivo Canelas, José Raposo e Nicolau Breyner, encontram-se formidáveis e sempre divertidos, já Joaquim De Almeida dá um toque profissional á “coisa”, sendo o detentor de algum dos melhores diálogos da fita, como por exemplo: “Deus não existe, porque se existisse seria um incompetente”.
Mesmo que seja um bom exercício da língua de Camões, Call Girl possui alguns defeitos que consideravelmente não invocam o exagero, que as inevitáveis comparações (O Crime Do Padre Amaro e Corrupção) possuem, o elenco secundário é demasiado inócuo, mas possuidor de caras conhecidas de telenovelas e telefilmes. Mas ao contrário dos dois referidos, não se fica por um enxoval de estrelas. Pena também que o sucesso do filme seja apenas pela sensualidade de Soraia Chaves, aproveitada ao máximo e não pelos méritos próprios da obra em si. As surpresas são muitas nesta fita de Antonio-Pedro Vasconcelos, o qual já considero o melhor filme português de muito, mas muito tempo. Inteligente, bem-humorado, doseado e profissionalmente bem escrito.
O melhor – diálogos pensados e bem desenvolvidos
O pior – a grande dependência para com os seios de Soraia Chaves
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