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6.12.13

Vidas engaioladas!

 

Adaptado do homónimo romance de François Mauriac, Thérèse Desqueyroux é uma obra que se dispõe de uma aura existencialista enquanto a protagonista tenta encarar a complexidade inerente da sua personagem como um protocolo rotineiro. Perante as ideias, as filosofias "arrancadas" através das suas experiências pessoais (ou a ausência delas), a nossa heroína esboça uma crónica prolongada em relação à sua "enclausurada" vida que nem um pássaro engaiolado, um matrimónio ditado pela herança e as aparências que é reconhecido pela anedótica química que apresenta.

 

 

Tais correntes que aprisionam qualquer liberdade física da protagonista, remetendo-a a um automatização do seu inconsciente como escape de libertação, a tornam uma personagem fascinante, indigna de merecer piedade por parte do espectador, já que muita da composição desta Thérèse Desqueyroux é similar a diversas figuras antagónicas dos mais variados romances ou novelas de época. E é essa ambiguidade que faz com o público sinta culpado por envergar outros sentimentos que não a pena nem a repudia, mas sim o desejo para que a personagem de Audrey Tatou (uma interpretação serena mas eficaz com a negrura do papel) seja bem sucedida nos seus planos de evasão à aquela prisão invisível que se denomina por rotina.

 

 

Sendo este o ultimo filme que o talentoso artesão Claude Miller (1942 - 2012) conseguiu concluir, Thérèse Desqueyroux adquire um "sabor" especial o qual não se deseja o desfecho, contudo fora dessa nostalgia cinéfila somos presenteados com um trabalho de direcção dinâmico ao mesmo tempo que classicista, abrangido por uma capaz fotografia da autoria de Gérard de Battista. Eis um olhar cheio de cinismo à existência, enquanto esta desde o berço já encontra comprometida às diferentes etapas, que aufere nesta adaptação uma narrativa poética a sentir. As aparências são as maiores das ilusões para a alma.

 

Filme visualizado na 14ª Festa do Cinema Francês

 

Real.: Claude Miller / Int.: Gilles Lellouche, Anaïs Demoustier

 


 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 00:45
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